Two Door Cinema Club – False Alarm



False Alarm é o quarto disco dos queridos Two Door Cinema Club. Quem ouviu apenas o debut, quase dez anos atrás, e se deparou com alguma faixa deste novo trabalho em algum serviço de streaming deve estar se perguntando: afinal, o que houve com o Two Door Cinema Club? A verdade é que False Alarm traz uma nova banda. As guitarras espertas ficaram de lado e agora sobram teclados, sintetizadores, bases eletrônicas e até participações de rappers. Para os saudosistas, talvez essa mudança não agrade tanto, mas não dá para negar que essa mudança caiu muito bem.

A mudança apontada no disco anterior, Gameshow, é bastante aprofundada aqui. Gameshow soou como o trabalho de uma banda perdida, à procura de identidade, mesclando a sonoridade já conhecida com experimentações pouco inspiradas. Já False Alarm se mostra bem mais coeso que seu predecessor e está com os dois pés firmemente fincados na música eletrônica. Há um forte senso de álbum e não mais uma coleção de singles desconexos. Canções que isoladas poderiam soar mais fracas passam a fazer todo sentido quando ouvidas no contexto do disco.

Bandas com origem no indie com guitarras bastante presentes não costumam criar obras sólidas quando entram de cabeça na música eletrônica, vide o desastre que foi Stay Together, o último disco do Kaiser Chiefs. Mas o Two Door Cinema Club soube explorar essa sonoridade muito bem. Para os padrões da banda, pode-se até dizer que False Alarm é um disco experimental. No entanto, tudo é filtrado pela forma com que eles sempre criaram música, tornando as faixas bastante acessíveis. E isso é um grande elogio para quem tem a clara intenção de criar música pop.

Dessa vez, a influência oitentista vem bem forte, mais especificamente do Devo, um dos criativos e talentosos patinhos feios daquela década. E aqui é possível citar diversos paralelos entre as bandas: indo do peso dos teclados e sintetizadores, dos efeitos nos vocais, da estrutura das canções até à ironia das letras e à marcada identidade visual. O Two Door Cinema Club nunca se esforçou tanto para criar uma marca visual como faz em False Alarm. A capa do disco, os pôsteres da turnê, os lyric vídeos, os videoclipes oficiais, as apresentações ao vivo… De forma louvável, tudo isso divide a mesma estética, reforçando ainda mais a coesão do disco.

“Satellite”, segundo single e penúltima faixa do disco, resume bem a essência de False Alarm. A faixa contém os elementos que caracterizam essa segunda fase do Two Door Cinema Club. Os efeitos na voz estão lá. Os sintetizadores a la Devo também. As guitarras ainda existem, mas estão em segundo, terceiro ou quarto plano. O que se mantém intacto é o talento em criar músicas para as pessoas dançarem, seja lá com qual instrumento for.

É fato que todo aquele indie pop perfeito com guitarras espertas dos dois primeiros discos ficou para trás. No entanto, essas palavras são escritas sem nenhum pesar. False Alarm é um disco muito bem resolvido. A obra é coesa e conta ainda com singles capazes de integrar os setlists sem fazer feio quando comparados aos clássicos indies da discografia da banda. False Alarm é a prova de que o Two Door Cinema Club está em constante mutação. E essa mutação lhes caiu muito bem, uma vez que está mantida a qualidade das canções que os rapazes entregam.

OUÇA: “Once”, “Satellite”, “Talk”, “Dirty Air” e “Break”

Engenheiro Civil. Nascido nos anos 80. Criança nos anos 90. Adolescente nos anos 2000. Já foi nômade. Gostaria que o dia tivesse 28 horas. Apaixonado por música e cinema e literatura e viagens.

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