The Lumineers – III



III é um álbum conceitual que explora como o alcoolismo e o vício em drogas impactou três gerações da ficcional família Sparks e toma como inspiração a experiência do baterista Jeremiah Fraites que perdeu o irmão, amigo de infância do vocalista Wesley Schultz, para o alcoolismo. O álbum se divide em três atos, cada um focado em um membro da família Sparks, e foi concebido junto a um curta metragem que ajuda a contar a história, mas as músicas são igualmente impactantes sem o auxílio do recurso visual.

“Gloria” é o ponto de partida para a história e é apresentada no  capítulo I. A linha de piano similar a uma caixa de música na abertura “Donna” ajuda a passar o tom de recordação que a faixa pede apresentando a mãe de Gloria Sparks e a falta de amor que a levou a abandonar a casa para uma vida na cidade. “Life In The City” conta a dificuldade de viver sozinha na cidade e o instrumental que oscila entre algo mais animado nos versos e mais introspectivo no refrão ajuda a passar a flutuação de sentimentos entre a liberdade e a saudade de casa e entre o barato do álcool e a ressaca que vem depois. O primeiro ato fecha com “Gloria” onde a matriarca é confrontada pelos seus filhos sobre seu vício e como isso os afetou. O contraste entre uma construção musical que lembra bastante o folk alegre dos primeiros trabalhos do Lumineers com a letra pesada passa bem a total alienação de Gloria que, completamente alcoolizada e perdida, não presta atenção ao conteúdo do que lhe é dito.

O segundo ato traz o neto de Gloria, Junior Sparks, para a cena e abre com “It Wasn’t Easy To Be Happy For You”, uma música sobre a primeira vez que um adolescente tem seu coração partido e é o único momento em que o conceito do álbum falha em função de uma música legal. É uma ótima música, muito amigável pra tocar em rádios e playlists mas não se conecta bem com o que vem antes ou depois tematicamente. Mais adiante no arco de Junior, vemos como ver a vó perdida em seu vício o afeta profundamente em “Leader Of The Landslide” que narra como ele enxerga Gloria como a causa da dificuldade de relacionamento que ele tem com as pessoas a sua volta e seu pai, Jimmy Sparks, que será apresentado no último arco. A música é construída de tal forma que as partes mais pra cima com a bateria e o violão soam como um pedido de ajuda do rapaz, como se ele estivesse reunindo as últimas forças para expressar sua raiva e a performance vocal de Schultz passa esse desespero perfeitamente. O arco fecha com “Left For The Denver” uma música voz e violão com acordes menores e uma batida descendente que dá o tom trágico de ser abandonado pela mãe que não aguenta conviver com os conflitos dos Sparks nesse ponto da história

Jimmy Sparks é o foco do capítulo III e conhecemos sua história logo depois de ser deixado pela esposa em “My Cell” que narra os conflitos de amar uma pessoa mas ser tão quebrado a ponto de não deixar que ela se aproxime. As linhas de piano e violão que se combinam com a voz expansiva e melancólica de Schultz trazem instrumentalmente esses sentimentos conflitantes de querer um lar de amor mas acabar condenado a se sentir em uma cela. “Jimmy Sparks” prepara o ouvinte para o final de uma forma épica com uma vibe de trilha sonora de faroeste que vai ficando cada vez mais tensa conforme vemos a vida de Jimmy indo mais e mais para o fundo do poço com seus problemas e vícios em drogas até o ponto de ser abandonado por seu filho Junior e ficar totalmente sem esperança. O arco e o álbum fecha com “Salt And The Sea” que narra como algumas coisas não tem solução e algumas pessoas não tem salvação. O tom soturno do instrumental combinado a uma certa calma na performance vocal passa a ideia de que todos os membros da família Sparks aceitaram conviver com a destruição e a escuridão que existe dentro deles, uma aceitação do inevitável para que possam continuar a viver.

Com III o grupo leva a característica narrativa de suas músicas a um nível mais sombrio e pessoal, explorando e amarrando os diferentes sentimentos que uma história pesada como essa envolve. É o álbum mais ambicioso e obscuro do grupo e vale a pena ser ouvido do início até o fim com bastante atenção aos detalhes que ajudam a contar essa história.

OUÇA: “Life In The City”, “Leader Of The Landslide”, “My Cell” e “Salt And The Sea”

Padawan em Arquitetura, músico e ilustrador

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