The Drums – Abysmal Thoughts

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Em seu primeiro disco sozinho a frente do The Drums, Jonathan Pierce reafirma, mais do que nunca, o estilo resgatista da banda. Os sintetizadores antigos soam nos picos graves e altos, como ondas harmoniosas muito mais criativas que nos trabalhos que antecedem o álbum Abysmal Thoughts.

O The Drums continua agarrado a sua influência Pós-Punk, mas sem deixar de ser inventivo. O tom nostálgico das músicas sempre foi claro, ainda que não tão exagerado e marcado, sem deixar que seus trabalhos fossem confundidos com algo, de fato, de outra década.

A modernidade dá seu ar não só na mistura de gêneros que chamamos de indie, mas também no primeiro single da banda. O clipe de “Blood Under My Belt” traz blocos de cores fortes, contraste e enquadramentos do design dos anos 1960, uma boa manchete para um álbum leve e divertido.

Entre dancinhas estranhas e roupas de marca que parecem ser garimpadas de brechós chiques da cidade grande, o Drums mostra uma faixa pegajosa, de letra fácil e sonoridade oitentista. Assim como nas outras faixas, nota-se que Jonathan mudou seu timbre significantemente.

Ao invés de pronunciar palavras de forma encorpada, Pierce respira menos, sussurra seus versos simples que sobrepõe pensamentos de um período tumultuado. Perder seu principal parceiro de composição, Jacob Graham, possa ter sido um dos motivos de sua nova identidade.

Talvez essa mudança seja o maior sinal de vulnerabilidade de Jonathan Pierce. Abysmal Thoughts tem composições boas, músicas divertidas, alegres e redondas, mas existe uma certa tentativa de reacender o sucesso do primeiro álbum.

Indo pela contramão, a banda tenta fazer uma releitura daqueles primeiros sentimentos daquele homônimo. O que falta neste novo trabalho, no entanto, é a despretensão que o The Drums usou de maneira impecável em seus trabalhos anteriores ao Abysmal Thoughts.

É aceitável querer buscar horizontes coloridos de uma praia ensolarada novamente, mas por vezes esse sentimento soa um tanto forçado. Funciona bem como uma ironia, quem sabe uma ironia que tenta se aproximar do britpop, sonoridade com a qual a banda flerta em algumas faixas como “Are U Fucked”.

O The Drums volta a se apresentar como uma boa banda de pop, mas isso pode atrapalhar um pouco as ondas psicodélicas e mais duras dos álbuns anteriores, um gosto que ficou em minha boca quando ouvi Encyclopedia. Os fãs de rock podem sentir falta das guitarras marcadas que pouco aparecem nas faixas deste disco.

Duas influências do Drums são bandas que não canso de ouvir: The Cure e The Smiths. A presença delas é clara na construção de acordes, melodias e vocal do todos os trabalhos do The Drums. No entanto, sinto que não conseguirei ouvir tanto Abysmal Thoughts quanto os outros discos dessa banda.

O The Drums não conseguiu se superar, pelo menos para mim, alguém com o ouvido treinado por um avô fã de Beach Boys, The Cure e Beatles. Talvez seja questão de paladar, mas, entre outros bons álbuns de indie pop deste ano e este, eu ainda prefiro o arriscado e desengonçado indie rock do Drums.

OUÇA: “Blood Under My Belt”, “Your Tenderness”, “Rich Kids”.

Jornalista e trevosa de boutique. Finge que manja de punk dos anos 70, mas é uma ávida consumidora de bandas ruins de pop punk e emo.

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