The 1975 – A Brief Inquiry Into Online Relationships


Vivemos em uma época em que líderes de grandes nações quase começaram uma nova Guerra Mundial por trocarem indiretas pelo Twitter e em que a propagação em massa de informações duvidosas pela internet decidiu resultados de eleições mundo a fora. Nessa mesma época, em que é tão fácil ter tudo ali, online, prontinho para ser consumido, um dos motivos (talvez o único) para você ainda manter contato constante com os seus amigos e familiares é você ter acesso a um ponto de Wi-Fi (ou talvez você só não consiga sair do grupo do “Zap”, mas nesse momento considere o Wi-Fi).

Quando pensamos em relacionamentos online a primeira coisa que nos vem à cabeça são aplicativos de relacionamentos, como o Tinder por exemplo. Mas o buraco, expressão aqui que não tem nenhuma intenção de malícia, é mais embaixo. Estamos todos conectados, o tempo todo, e é sobre isso que o terceiro álbum de estúdio do quarteto britânico The 1975 fala.

A Brief Inquiry Into Online Relationships é literalmente o que o nome diz, é um questionamento sobre como lidamos com relacionamentos online no mundo atual, com todo o acesso a informações e conteúdo que temos, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Durante a uma hora de álbum, que é quase imperceptível, quem escuta é convidado a embarcar em uma jornada que transita entre críticas à auto cobrança (“Give Yourself A Try”),  várias análises sobre comportamentos em relacionamentos amorosos atuais (“TOOTIMETOOTIMETOOTIME”, “Sincerity Is Scary”, “Inside Your Mind”) e até um texto narrado pela Siri (“The Man Who Married A Robot / Love Theme”) com um quê de influência do filme Her.

O mais interessante talvez seja a diferença musical entre todas as faixas, a banda permeia por vários gêneros diferentes que vão desde o jazz tradicional (“Mine”) até uma mistura de Radiohead anos 90 com um britpop estilo Oasis (“I Always Wanna Die (Sometimes)”). Apesar dessa mistura de gêneros, A Brief Inquiry… ainda é um disco que tem 100% a identidade do The 1975. A produção feita pelo vocalista Matty Healy e pelo baterista George Daniel fazem com que pequenos samples de músicas de outros álbuns da banda estejam presentes em alguma camada das novas músicas. E falando em produção, vale a pena ressaltar também os efeitos eletrônicos sutis espalhados pelo álbum. Esses efeitos complementam o conceito Digital Era e dão um toque a mais em músicas que poderiam ser cruas e sem graça, como na balada voz e violão “Be My Mistake”, que mescla um pouco de Flatsound e Ed Sheeran e lembra trabalhos antigos da banda, como a acústica “102”.

A banda também flertou com alguns clichês do Pop/Hip Hop atual como o autotune e low/high pitch (“The 1975” e “How To Draw / Petrichor”). Já a faixa “I Like America & America Likes Me” é a tentativa, falha, do The 1975 de se aproximar de figuras como Kanye West e Frank Ocean.

O ponto alto do álbum fica por conta de duas músicas. A primeira é uma das músicas mais citadas como top 10, 50, 100 músicas mais influentes e importantes de 2018: o single “Love It If We Made It” (e que tem um clipe tão influente e importante quanto). As frases gritadas por Healy, em quase desespero, parecem ser tudo o que queremos dizer sobre a situação atual do mundo inteiro, mas que fica entalado na garganta. Com crítica clara à manipulação de informações em massa, citações diretas de frases absurdas ditas pelo atual presidente dos Estados Unidos e um apelo de que, no final, a modernidade falhou a todos e só nos resta pedir por ajuda divina, a música ainda soa como uma tentativa de se manter otimista apesar de todas as barbáries que estão acontecendo pelo mundo.

A segunda música é talvez um dos grandes feitos de Healy com a ironia. Em “It’s Not Living (If It’s Not With You)” o som alegre e dançante, com guitarras cheias e um refrão que gruda na cabeça por dias, disfarça a dura realidade da música que é a luta do vocalista contra o vício em heroína. Quando você esquece o refrão grudento e começa a pensar na letra é um pouco estranho se sentir feliz cantando “collapse my veins wearing beautiful shoes”, mas o impacto passa em alguns segundos e você volta a cantar. Healy disse várias vezes em entrevistas que falar do seu vício em opioides sempre foi difícil já que era mais um clichê rockstar que ele não queria ser. Então, ao decidir ir para a reabilitação e falar disso em uma música, ele usou e abusou da ironia e se escondeu atrás de uma música em terceira pessoa porque pareceria mais “fácil”. Com o aumento alarmante do abuso de opioides nos Estados Unidos é importante que pessoas influentes como Healy falem abertamente sobre o assunto e a realidade de se tornar um viciado, e sobre superar o vício.

Muitas comparações foram feitas sobre A Brief Inquiry… e o OK Computer do Radiohead, e é possível sim em algum nível comparar os dois, talvez o álbum do The 1975 seja a versão millennial que mora com os pais e posta torrada com abacate no Instagram, mas acredito que seja mais do que isso.

 A Brief Inquiry Into Online Relationships nos convida a abraçar o nosso lado mais sincero, vulnerável e emocional, que contrasta completamente com o mundo digital, as personas que criamos online e como isso afeta os nossos relacionamentos reais. É um álbum cheio de emoções e que nos mostra que muitas vezes não sabemos lidar com elas, e está tudo bem isso, mas é importante tentar (“I Couldn’t Be More In Love”). Não é um álbum perfeito, mas talvez seja exatamente o que muitas pessoas precisem ouvir.

OUÇA: “Love It If We Made It”, “Sincerity Is Scary”, “I Couldn’t Be More In Love” e “It’s Not Living (If It’s Not With You)”

eu só não vou falar bem de arcade fire

1 Comments

  1. Rogerio

    Wonderful!!!

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