DeVotchKa – This Night Falls Over


DeVotchKa é uma banda enigmática. A começar pelo nome que, em russo, significa algo como “jovem garota”. Da russa, a banda só tem parte das referências musicais, no entanto. Na verdade, ela é uma mistura influências propostas por um quarteto de Colorado (EUA). Os integrantes são Nick Urata, Tom Hagerman, Janie Schroder e Shawn King.

O som intrigantemente confuso que o grupo entrega pode parecer urgente, cacofônico e bagunçado, mas surpreendentemente melódico ao mesmo tempo. É uma junção de instrumentos que parecem incoerentes com ritmos eslavos, música de cabaret e bolero, tudo conduzido com um vocal sofrido. O som dá certo, mesmo que estranhe.  

Quando se fala em DeVotchKa, se fala em quase vinte anos de música. A média de álbuns é modesta, também. São apenas (com o novo disco) cinco discos inéditos. Supermelodrama (2000) foi o de debut. A ele se seguiram Una Volta (2003), How It Ends (2004) e A Mad And A Faithful Telling (2008). Este último com relativo destaque na parada de álbuns independentes da Billboard. Em 2011, o grupo lançou o disco 100 Lovers. De 2006 é o extended play (EP) Course Your Little Heart.

Além destes trabalhos, o grupo é conhecido por trilhas sonoras. São duas. A do filme Little Miss Sunshine (2006), do compositor Michael Dana teve inspiração no disco How It Ends e resultou no lançamento de um trabalho homônimo posterior dedicado ao filme pela banda. DeVotchKa também responsável pelo soundtrack de I Love You, Philip Morris (2009).

O novo material é rico. Foi lançado em agosto. Melodicamente é mais organizado do que os registros anteriores e percebe-se que, se antes o abuso de referências era uma crítica possível de ser feita, dessa vez, não há, muito embora o som característico da banda esteja ali, na essência.

A melancolia presente no trabalho mais recente até então, 100 Lovers, não é abandonada. É apresentada de outra forma, mais graciosa, em This Night Falls Over. É um álbum mais cantado, bastante coerente nas composições e impecável em termos de arranjo. Tudo parece cumprir seu papel. As 10 músicas inéditas deste novo material funcionam como uma evolução do trabalho do DeVotchKa até aqui.  

OUÇA: “Love Letters”, “Lose You In The Crowd” e “Donse With Those Days”

Math and Physics Club – Lived Here Before


Incrível como algumas bandas permanecem pequenas. Mais incrível ainda quando há um enorme potencial radiofônico na música que a banda faz. O Math and Physics Club é, certamente, uma banda que faz parte desse time. Apesar de todo o capricho na produção, honestidade nas letras e a boa mão com refrãos, a banda nunca despontou com força em rádios ou festivais. Lived Here Before é o quarto disco cheio em quatorze anos de existência do grupo e, apesar de manter a qualidade dos trabalhos anteriores e ainda adicionar novos elementos, não deve ser este o disco que tornará a banda mais popular.

Ao ouvir os primeiros discos do Math and Physics Club é inevitável não compara-los aos primeiros discos do Belle And Sebastian.  Os primeiros álbuns e EP’s são recheados de um indie pop a base de violões com cordas de nylon e de doçura e peculiaridades muito particulares à banda. Em Lived Here Before, eles apresentam um som muito mais encorpado e, de quebra, perdem boa parte da doçura que sempre apresentaram. A sonoridade se aproxima muito mais do que o R.E.M. fazia, principalmente na presença das guitarras e nas harmonias vocais. São exemplos claros dessa nova referência as faixas “All The Mains Are Down” e “Past And In Between”.

Lived Here Before é definitivamente o disco em que a banda sai da sua zona de conforto. O disco contem ao mesmo tempo a música mais encorpada (“All The Mains Are Down”) e a música mais leve e cheia de silêncios (“Like Cinnamon”) que a banda já fez. Há espaço até para o inédito interlúdio instrumental “Falling For It”. Dessa forma, chego a acreditar que Lived Here Before não é o disco para quem não conhece a banda começar a ouvi-la, para isso recomendo I Shouldn’t Look As Good As I Do de 2010. O indie pop com violões, assim como boa parte da mistura de melancolia e entusiasmo, ainda estão lá. Mas a presença das guitarras nunca foi tão forte e, em alguns momentos, parece até ser outra banda.

As letras continuam explorando os temas que eles sempre exploraram, como relacionamentos e fatos cotidianos na história de personagens que não sabemos se são fictícios ou reais. “Dear Madeline”, por exemplo, caberia muito bem dentro de I Shouldn’t Look As Good As I Do. Ainda para mostrar que as mudanças não foram tão radicais assim, o disco é encerrado com “Drive To You”, com seu violão suave e toda a doçura e tristeza que cabe nos vocais de Charles Bert, vocalista e principal letrista da banda.

Lived Here Before pode não agradar a todos, mas é o disco que o Math and Physics Club precisava fazer a esta altura da carreira. É o disco que dá uma sacudida no que a banda vinha fazendo desde sua estreia, mas sem descaracterizar sua identidade. A banda soube manter seus pontos fortes e adicionar novos elementos de forma a não soar forçado e, muito menos, parecer que eles se perderam nesse caminho. Math and Physics Club é dessas bandas que dificilmente aparecerá para o grande público, mas é dessas bandas raras que merecem ser guardadas com todo carinho bem perto do coração! Seja isso por causa dos primeiros discos ou por causa de Lived Here Before.

OUÇA: “All The Mains Are Down”, “Drive To You” e “Broadcasting Waves”

Club 8 – Golden Island


Em 1962, Aldous Huxley publicou aquele que viria a ser seu último livro, A Ilha, narrativa utópica que nos apresenta Pala, uma ilha isolada e ainda preservada da sanha neocolonialista. Nesse atol paradisíaco, homem e natureza se encontram unidos em prol do bem-estar comum, não se estabelecem hierarquias sociais, e todos os indivíduos são felizes e convivem em harmonia. Diferentemente de Admirável Mundo Novo, romance no qual a droga soma proporciona instantes de êxtase sintético em uma sociedade esfumaçada, industrial e disfórica, Huxley propõe a existência de um mundo justo, por meio de diálogos filosóficos acerca de questões inerentes ao ser humano, como amor, sexo, liberdade, vida e morte.

Golden Island (2018), décimo álbum de estúdio do duo de synth pop sueco Club 8, poderia muito bem servir como trilha para os habitantes dessa ilha exuberante concebida por Aldous Huxley. Não apenas pelo paralelismo semântico dos títulos das duas obras, mas porque Golden Island também transporta o ouvinte para um arquipélago aquecido, metálico e repleto de sons do contemporâneo.

Formado pelo programador e multi-instrumentista Johan Angergård e pela vocalista Karolina Komstedt, o Club 8 chega com bagagem, ao final dessa década. Contabilizando 22 anos de carreira, a dupla sueca sobreviveu à sismologia cultural e tecnológica que transformou a indústria musical nos últimos dezoito anos: da crise das majors ao avanço das gravadoras independentes à Internet, do compartilhamento de arquivos aos serviços de streaming, componentes que reconfiguraram a maneira como as pessoas consomem música. Assim, protegidos dos solavancos mais bruscos da indústria pela bolha indie, a banda lança agora seu décimo trabalho de estúdio, sucessor de álbuns como Nouvelle (1996), The Boy Who Couldn’t Stop Dreaming (2007) e Above The City (2013).

Golden Island nos transporta através de um amontoado de sensações oníricas e rarefeitas, calcadas em cores quentes e luminosas. “Swimming With The Tide”, faixa que abre o álbum dando boas vindas ao visitante dessa ilha paradisíaca, se desenvolve progressivamente em um punhado de beats orgânicos e sumarentos, pontuados por synths petulantes, e acompanhados por um fraseado de acordeão. Calor, contemplação e sensualidade permeiam a primeira faixa. “Breathe” dilui-se em um background de sons oceânicos, enquanto teclados gotejam sobre uma base eletrônica noir, com o vocal sussurrado de Karolina Komstedt amarrando todo o conjunto.

A instrumental “Pacific”, com seu recorte Brazil 66 e ambiente music, traz sons marinhos e de pássaros, espalhando uma textura filigranada de pó dourado no ar. Já o teclado barroco-litúrgico de “Got To Live” nos remete à capa do álbum, uma montagem sobre Vanity, tela algo klimtiana do pintor inglês Frank Cadogan Cowper, uma espécie de madona da contracultura, pairando onipresente sobre essa ilha espectral. Golden Island proporciona ainda bons momentos, na mística “Touch You”, ou fechando muito bem com a crepuscular “Silence”, uma das melhores faixas do álbum.

Apesar de irregular na qualidade das faixas (“Lost” e “Fire” são bastante esquecíveis), a sensação final é a de um álbum correto, redondo e objetivo em sua proposta. Contrastando ao purgatório da beleza e do caos que é a ilha proposta por Björk em Utopia (2017), último trabalho da islandesa, Club 8 e seu Golden Island  desejam apenas que relaxemos, estirados numa rede, usando chinelos e atentos aos sons do oceano e da existência. De preferência em uma sociedade igualitária, como o mundo imaginário idealizado por Huxley.

OUÇA: “Swimming With The Tide”, “Breathe”, “Pacific” e “Silence”.

Inara George – Dearest Everybody


No primeiro verso de “Young Adult”, música que abre o terceiro álbum de carreira, Inara George canta ‘I was the daughter of my father‘. Filha de Lowell George, famoso integrante da banda de rocks dos anos 70, Little FeatInara constrói o album como uma íntima e amorosa carta de despedida ao seu pai. Não é um album de luto, mas sim de  amadurecimento, aprendizado e resistência.

Dearest Everybody (2018) é o seu primeiro álbum solo desde de 2009, no qual ela desnuda décadas de experiências, enquanto processava a morte de seu pai, cuidava de sua mãe e três filhos e ainda lidava com a sua própria discórdia interna, aquela de sentir tudo intensamente. Como resultado, uma música como “Young Adult” não soa egoísta, mas, em vez disso, auto-consciente do egocêntrismo natural do ser humano. Os arranjos superpostos com toques de teclados harmonizados com a voz de George tornam a canção cada vez mais  sensível e resoluta.

Da mesma forma, a simplicidade de um arranjo  com guitarra acústica em”Crazy” reflete uma conexão emocional franca e decidida que perpassa todo o álbum. Em músicas como “Somewhere New”, sua aceitação terrena é tão explícita que o instrumental torna-se um suporte, quase supérfluo. À medida que o álbum progride, mais envolvente as faixas ficam, como em “Slow Dance”, só que mais  genérico é o resultado final. O que faz com o que se perda todo potencial de originalidade e conexão com o ouvinte.

As referências de Inara do “cliché melódico”em “All For All” ainda são clichês. Infelizmente, ela repete a forma desgastada do sentimentalismo barato, como fica claro em “Stars”. Independentemente disso, o álbum consegue ter momentos de delicadesa e intimidade, como uma honesta carta de admiração ao seu pai.

OUÇA: “Young Adult”, “Crazy” e “Slow Dance”.

Loney, dear – Loney, dear


A impressão que o disco apresenta como um todo é a de solidão. Tanto na orquestração quanto nas letras a imagem que fica é a de um músico que trabalha e retrabalha sozinho. Embora haja alguns músicos convidados, toda a produção e mixagem ficaram a cargo de Svanängen, aparando arestas em todos os instrumentos e buscando a perfeição dentro de um mundo que é só seu. Talvez por isso, o rótulo indie pop atribuído ao artista não se encaixe muito bem aqui, há sim a apropriação de elementos da música pop e eletrônica mas eles servem apenas para reforçar o aspecto pessoal da obra.

Mesmo nos momentos em que o álbum soa mais abertamente pop, um certo peso e escuridão pairam sobre as canções seja pelas letras ou pela forma como a atmosfera é trabalhada. “Little Jacket” é um exemplo disso, a percussão marcada e as guitarras sugerem um aspecto mais pop mas a cadência da voz principal dá uma certa urgência desesperada à canção.

Outra característica evidente é a ideia de mudança. O álbum apresenta bastante coesão como um todo mas, por ter sido trabalhado ao longo de cinco anos, fica clara a presença de basicamente dois momentos na vida do compositor: uma pegada mais perfeccionista e outra mais experimental, não importando qual veio primeiro mas sim o conceito de transformação em si presente em instrumentais riquíssimos como “Humbug” ou “Dark Light”.

O trabalho de camadas é algo que é feito com maestria em todas as faixas. A sobreposição de elementos eletrônicos, orquestrais e até folk em certa medida é realizada de forma que é sim experimental e em alguns momentos causa até estranhamento mas dentro do contexto funciona de forma muito inteligente e suave. “Pun” que abre o disco é um exemplo perfeito da junção de uma base vocal folk com percussão eletrônica, samples de black music e um ar orquestral em camadas sonoras um pouco mais escondidas que dá uma grandiosidade intimista à faixa.

Loney, dear é o sétimo álbum do artista sueco Emil Svanängen, o primeiro depois de seis anos sem um lançamento e, ao contrário do que costuma acontecer após longos hiatos, que geralmente trazem na volta uma mudança de direção, o que vemos aqui é a consolidação da sonoridade apresentada nos últimos álbuns mas com uma sofisticação e um polimento que só a maturidade traz.

OUÇA: “Pun”, “Humbug”, “Hulls” e “Dark Light”

Los Campesinos! – Sick Scenes

_______________________________________

all these sick scenes played out in my memory

O Los Campesinos! sempre foi uma banda muito ativa e prolífica. Entre 2008 e 2013 eles lançaram nada menos do que cinco álbuns. Isso resulta em praticamente um álbum por ano e uma carreira muito consistente ao longo de todo esse período de atividade. O septeto de Cardiff, País de Gales, é uma das bandas mais coerentes da atualidade e, mesmo fugindo aqui e acolá da sua proposta inicial, adicionando novos elementos a sua gama de sons característicos, sempre acaba entregando álbuns incríveis, além de muito bem construídos, aparados e produzidos. Felizmente não foi diferente no sexto álbum que sai agora em 2017. Esse foi o maior intervalo entre álbuns para a banda, mas ainda bem que o longo hiato não afetou em nada a incrível musicalidade deles.

O Los Campesinos! sempre deixou bem claro que, infelizmente, a banda sempre foi algo muito divertido pra eles e não um compromisso sério (felizmente, talvez?). Isso reflete na baixa quantidade de shows que eles fazem ao redor do planeta (raramente fogem do Reino Unido por longos períodos de tempo) e, também, é consequência do fato dos mesmos possuírem empregos fora da banda. Essa pressão assalariada cresceu bastante no fim do processo criativo de No Blues e foi a grande responsável pelo hiato de quase quatro anos. A vontade de produzir algo novo surgiu com as comemorações de aniversário de uma década da formação em 2016.

Sick Scenes foi gravado durante quatro semanas em Amarante, Portugal – como é muito bem descrito no single principal do álbum “I Broke Up In Amarante” – e, como a grande maioria dos discos da banda, de maneira esporádica e separada. Gareth – o vocalista e compositor principal – sempre foi muito produtivo para compor letras intensas que caibam perfeitamente nas harmonias escolhidas por Tom, principal responsável pelos arranjos musicais. Essa separação de processos criativos não funciona muito bem para boa parte das bandas, que precisa se isolar conjuntamente em lugares remotos para que a criatividade apareça, mas para os Los Campesinos! parece funcionar extremamente bem, reflexo de todos esses álbuns incríveis e marcantes entregues por eles.

Algo que também sempre me chamou atenção na carreira deles foi a morbidez de suas letras abafadas no meio de camadas de som típicas de twee e indie pop. Os próprios inclusive confirmaram que a obsessão pela morte e bandas que seguem essa linha são forte influência em sua carreira. Aqui em Sick Scenes essas camadas de indie pop mesclam-se muito bem com um som mais pesado, beirando o hardcore, resgatando ideias dos primeiros álbuns da banda; e essas letras obsessivas continuam bastante presentes e evidentes (vide “5 Flucloxacilin”, um antibiótico, e “Got Stendhal’s”, referente à síndrome psicossomática).

Sick Scenes segue à risca a linha criativa de seus álbuns anteriores e se aproxima muito das pontas dos espectros, tanto do primeiro álbum – Hold On Now, Youngster… – com seus refrões explosivos e gritados, músicas fortes, e ritmos mais acelerados, quanto dos imediatamente antecessores – No Blues e Hello Sadness – com músicas de batidas mais leves e calmas. As guitarras muito bem alinhadas com uma bateria marcada amarram tudo muito bem junto dos backing vocals e das letras sensacionais.

No fim das contas tenho pra mim que Sick Scenes é o álbum mais representativo do Los Campesinos! até agora. O longo período de pausa por conta da “vida de adulto”, os outros compromissos além da banda e as pressões econômicas levaram à uma demora maior para que esse sexto disco viesse à luz. Sick Scenes, entretanto, não reflete todo esse amadurecimento, ainda soa bastante jovial e mostra todo o gás que a banda ainda possuí.

A vida longa pra banda sempre me pareceu impossível por conta dessa vontade/necessidade dos membros se sustentarem por outros meios – afinal, o Los Campesinos! dificilmente vai sair/tem vontade de desse meio mais underground, fazendo shows pequenos e de baixo apelo -, mas ainda bem que isso em nada afeta a produtividade musical de excelência, com músicas que se sustentam muito bem sozinhas e são únicas dentro de um mesmo propósito. Um brinde a criatividade deles e que eles deem pano nessa continuidade, linearidade e coesão que são intrínsecas à banda.

OUÇA: “Renato Dall’Ara (2008)”, “Sad Suppers”, “I Broke Up In Amarante” e “Hung Empty”

Slow Club – One Day All Of This Won’t Matter Anymore

slo

_______________________________________

Eu acho bastante engraçado quando ao ouvir o primeiro acorde da guitarra, dedilhar do baixo, rufar da bateria ou sofregar da cantoria de um novo álbum você já consegue definir qual o ritmo que todo o resto das canções vai ter. One Day All Of This Won’t Matter Anymore é o quarto álbum da banda britânica Slow Club e os primeiros trinta segundos da primeira música já refletem tudo o que precisamos saber sobre ele.

Ao mesmo tempo que é engraçado perceber essa condensação da cadência do álbum nos primeiros segundos desse, é interessante perceber o amadurecimento de Rebecca e Charlie como pessoas nesse álbum. Se antigamente eles cantavam sobre ratos falantes (“Because We’re Dead” do primeiro álbum) em cima de uma trilha indie pop marcante e forte, atualmente eles cantam sobre os altos e baixos de uma vida adulta (“In Waves” desse álbum) em cima de uma trilha lenta e calma. Esse tom mais sofredor, refletindo uma vida mais na ressaca do que na alegria da bebida, acaba permeando esse disco do início ao fim.

O próprio título já indica que esse álbum é uma crônica (ou crítica?) temporal que demarca o ‘deixa-pra-lá’ que muita gente leva nessa vida, pensando que amanhã tudo melhora (ou não?). O tom melancólico e depressivo das canções levanta todo esse panorama do impacto de uma transição amarga para a vida adulta que uma banda que acabou de completar dez anos está passando. A bebida acabou, as luzes acenderam e a vida continua de maneira lenta, sofrida e conturbada.

O tom desse álbum é exatamente esse: uma calmaria e uma sofreguidão sem tamanho que acabam não combinando muito bem com a proposta do Slow Club até então. Em Complete Surrender eles podem até dar dado indícios de que se davam bem ao focar em cima de uma atmosfera mais densa e melancólica (como em “Tears Of Joy” ou “Number One”), mas aqui parece que deu alguma coisa errada nessa transição álbum #3 – álbum #4 e a perspicácia e maestria em fazer músicas lentas e bonitas acabou se perdendo nesse meio tempo. E esse fato fica ainda mais nítido quando as músicas que lembram os dois primeiros álbuns, como “Tattoo Of The King” e “Champion”, acabam destoando do resto do álbum por conta da sua qualidade e primor.

O questionamento que fica de One Day All Of This Won’t Matter Anymore é o que o amadurecimento pode causar para uma banda. Para algumas, sair de uma atmosfera mais alegre e bêbada acaba dando uma reviravolta interessante (como o Los Campesinos! e sua trilha para a sobriedade aparente), para outras, o tiro acaba saindo pela culatra e a carreira vai esmaecendo de uma maneira atroz (quem lembra do Cansei de Ser Sexy ou do New Young Pony Club?).

Esperemos que esse disco acabe representando apenas um baixo numa carreira de tantos altos que nem a do Slow Club. Afinal, depois de três álbuns beirando a perfeição, eles acabaram por dar uma desviada do caminho e isso é até natural numa carreira musical brilhante (mesmo que não reconhecida) como a deles. Talvez num panorama mais amplo, vendo de um futuro aonde eles estejam num oitavo ou sétimo álbum em 2024, esse álbum se encaixe de maneira mais acertada. Como eles mesmos dizem, um dia isso aqui nem vai importar mesmo.

OUÇA: “In Waves”, “Tattoo Of The King” e “Champion”

Seapony – A Vision

seapony

_______________________________________

Depois de dois álbuns e a inserção de um baterista de verdade, Seapony está de volta após um hiato de pouco menos de três anos (também conhecido como férias prolongadas). Se você gosta de Best Coast, Wavves, Real Estate e toda essa geração de bandas com vocais femininos e som ensolarado com clipes com filtros de Instagram filmados numa Super 8 então escute agora mesmo A Vision, o terceiro álbum do trio, que agora é um quarteto, de Seattle.

Com 11 músicas parecidas, mas não idênticas, a banda aposta na simplicidade para fazer um som gostoso e relaxante de se escutar, seja no trabalho, seja na estrada, seja sozinho ou com aquele ser especial. Ao escutar o álbum você nem percebe o tempo passando e se você deixar no repeat escutará o dia inteiro sem nenhum problema.

Uma mistura entre voltar as origens e evoluir o que já foi feito A Vision é mais simples quando comparado com Falling (2012), segundo album do grupo, porém mais complexo do que o debut Go With Me (2011). Antes a banda era um trio sem um baterista fixo para gravações, deixando uma bateria genérica soar ao fundo de todas as músicas, agora esse trabalho está por conta de Aaron Voros e, mesmo que o trabalho dele na banda seja simples, já é melhor do que um computador tocando. Na questão lírica, Jen continua com sua voz fofa e relaxante cantando sobre a vida e relacionamentos, mas nada muito profundo que junto com o instrumental deixam as músicas leves.

Entre os destaques do álbum “Everyday All Alone” que poderia encaixar em um álbum do Belle & Sebastian, “Let Go” que é a música mais trabalhada com mais instrumentos como sintetizadores, chocalhos e outros aparatos e “New Circle”. Não que as outras músicas sejam ruins, mas são mais do mesmo, não há muito o que destacar além da alegria delas e a paz que elas passam ao escutar.

Enquanto muitas bandas precisam inovar, Seapony se destaca por fazer bem o “mais do mesmo”, de não precisar revolucionar a música para ser boa e em um cenário onde todos buscam ser conceituais ou revolucionários, fazer músicas divertidas de se escutar é algo que está se tornando raro. Aqui não tem produção estrelada, não é necessário background ou conhecimento histórico, é simplesmente boa música para qualquer ocasião, se você procura algo descompromissado e bom, A Vision é o seu álbum e Seapony é a sua banda.

OUÇA: “Everyday All Alone”, “Let Go” e “New Circle”

I’m from Barcelona – Growing Up Is For Trees

barcelona

_______________________________________

Explicação chata mas necessária para essa resenha.

Começo esse texto dizendo algo que (muitos de) vocês já sabem: eu não sou escritor ou jornalista profissional. Mas, como já venho fazendo isso aqui há quase cinco anos, alguns métodos de escrita de resenhas foram desenvolvidos. O meu consiste em ouvir o álbum em questão pelo menos umas três ou quatro vezes em momentos distintos da vida e em situações diferentes antes de começar a analisá-lo e eventualmente registrar meus pensamentos em forma de texto que pareça coerente. Para o novo álbum do I’m from Barcelona, Growing Up Is For Trees, resolvi fazer exatamente o oposto. Enquanto escrevo essas linhas, eu ainda não dei play no álbum hora nenhuma – não ouvi nem o single “Violins” lançado meses atrás. Essa resenha consistirá de literalmente as minhas primeiras impressões do álbum conforme vou o escutando pela primeira vez. Por que estou fazendo isso? Porque sim. Let’s play.

O I’m from Barcelona, ao contrário do que seu nome sugere, é uma banda gigantesca vinda da Suécia. Eles são os donos de um dos melhores álbuns da década passada, o incrível Let Me Introduce My Friends, e desde então continuaram com uma sólida e bastante respeitável carreira mesmo sem nunca conseguir reproduzir novamente o que passaram em seu debut. Growing Up Is For Trees é o quarto álbum da banda (ou quinto, se você contar o 27 Songs From Barcelona e eu sinceramente não sei dizer se você deveria contá-lo ou não), e ele começa com os familiares e habituais elementos que você espera encontrar: corais, palmas, guitarras e aquela atmosfera leve e divertida – você nem percebe no primeiro momento que a letra de “Violins” conta com os versos ‘No past and no future tense‘ e ‘Old heartaches come crashing down‘. É um ótimo começo e uma evolução nítida para a banda, cujas letras sempre apresentaram uma inocência e simplicidade quase infantil.

Tenho a impressão de que essa justaposição entre a leveza da atmosfera e as letras mais sérias persistirá durante todo o álbum. E sim, eu estava certo. Até agora, pelo menos. “Lucy” é algo que merece um destaque, e é a primeira música que me (por falta de uma palavra melhor) chocou na discografia do I’m from Barcelona. Ela conta com uma batida e um riff de violão que só podem ser descritos como ‘urgentes’ e essa é uma palavra que eu nunca esperei usar sobre o I’m from Barcelona. Mais impressionante, é o fato de que ao mesmo tempo os metais e corais estão leves e divertidos como sempre. É apenas a terceira faixa, mas grandes chances de ser o ponto alto do álbum todo.

O restante do álbum parece dar uma amornada. A faixa título parece meio cansada na primeira audição, mas quando você para e presta atenção na letra vê que ela é, na verdade, linda. ‘I never wrote you a love song, but I wish I did. I never found the all the right words and frases and sentences‘. Ótima, a letra. Uma outra música que me chamou atenção foi “Sirens”, que tem um ar dos seus trabalhos anteriores mas ainda mantendo essa coisa de ‘olhar pra frente e fazer alguma coisa diferente com isso’ – coisa que eles parecem ter tentado nas outras faixas do álbum sem tanto sucesso.

“Departure” é a música mais I’m from Barcelona do disco, quase inteira sendo cantada pela banda toda junta sobre um violão simples, metais e percussão mínima – ela acaba com o tradicional conjunto de palmas e ‘wooos’ da banda e imediatamente te lembra de “Rec & Play”. Ótimo ver isso em 2015, de verdade.

Growing Up Is For Trees acaba com “Summer Skies”, outro exemplo de o quanto a banda amadureceu nesses últimos anos, ao contrário do que o título do álbum sugere. Growing Up foi um álbum surpreendente. Antes de ouví-lo, estava esperando que a banda fosse continuar fazendo o que sempre fizeram – e sim, é o que acontece aqui, mas a maior parte do tempo isso está misturado com alguma outra coisa que é nova. Seja nas letras (o maior exemplo do crescimento da banda) ou na produção, há sempre algum elemento que mostra que a banda não parou no tempo.

OUÇA: “Lucy”, “Violins”, “Growing Up Is For Trees” e “Departure”

Belle and Sebastian – Girls In Peacetime Want To Dance

belle

_______________________________________

Girls In Peacetime Want To Dance poderia ser apenas descrito de forma simples: é um reflexo pessoal. O nono álbum de estúdio dos escoceses traz todo seu indie pop da forma como se era de esperar, com a singela característica de se contar histórias. Aos quase vinte anos de carreira, a novidade é que a história contada é própria, é intima e revela mais das dores e do coração escancarado do vocalista e líder nato, Stuart Murdoch. Foram sete anos que uma crise crônica de fatiga atacou Murdoch, e essa exaustão, os conflitos de não conseguir muitas vezes carregar seu fardo sozinho e sem energia, está refletido através de suas 11 faixas na versão original.

A realidade em que seu primeiro lançamento, 1996, era encontrada não possui talvez nem metade das semelhanças com o que vemos hoje, musicalmente e socialmente; e a banda soube como apresentar uma maturidade intelectual e muito mais complexa do que antes era visto e esperado. São arranjos muito mais polidos e ricos, talvez um pouco devido a influência de seu recente produtor Ben Allen, que guiou os escoceses a um novo patamar, atento para que o jeito Belle and Sebastian de se fazer as coisas não fosse esquecido ou deixado para trás, unindo este com fortes referências dos anos 80 e 90 e ainda assim conseguindo inserir algo que rejuvenescesse e fosse eficiente em todos os seus sessenta minutos.

Esse teor de conflitos atingem todo o âmbito do álbum, deixando notável o cuidado e a precisão com que Murdoch desenvolveu sua capacidade como compositor. É uma natureza delicada e homogênea que foi aos poucos transitando à perfeição. Há essa necessidade de expor um turbilhão de sentimentos que atingem, não só o próprio vocalista, mas todo um âmbito social, e Girls In Peacetime Want To Dance é o porta-voz exato para isso, de maneira tropical, suave e muito mais leve do que se simplesmente fossem apresentados discursos sociais.

São mudanças pequenas, onde tudo acaba por refletir como o começo de um caminho para algo novo e inusitado, que não sacia a vontade de se descobrir (e redescobrir) cada detalhe de suas canções, que passeiam entre o costumeiro indie pop chiclete, com o euro dance e twee que já eram levemente notados em álbuns anteriores. A estrutura deste nono lançamento é um álbum por vezes coeso, onde tudo revela a necessidade e a própria vontade de buscar o desconhecido, provando que a banda realmente está disposta a aceitar e abraçar as mudanças que o cenário musical tem sofrido ao longo dos anos.

OUÇA: “Allie”, “Nobody’s Empire”, “Today” e “The Party Line”