Neneh Cherry – Broken Politics


Broken Politics, belo novo álbum da Neneh Cherry, foi lançado em 19 de outubro, e se constitui como mais um belo trabalho na sequência de bons álbuns da carreira de Neneh. A cantora sueca, um dos grandes nomes femininos da década de 90 sempre trabalhou a partir de sonoridades menos heterodoxas. Flertando com uma estética eletrônica soturna (dependendo da faixa), bastante tributária do trip-hop, porém assimilando estruturas mais comuns nos anos 2000, como o uso de vinhetas (“Poem Daddy”), Neneh produziu um álbum cujo título parece remeter também ao atual zeitgeist da contemporaneidade: broken politics, política esfacelada, como a ausência de diálogo e o autoritarismo de governos de extrema-direita espoucando pelo mundo.

A simplicidade límpida de “Synchronised devotion”, até as texturas e o piano sorumbático de “Deep vein thrombosis”, passando pelo tri-hop repaginado de “Kong”, que bebe muito nas sonoridades de Tricky e Massive Attack. “Faster than the truth” apresenta uma construção orgânica massuda de bateria pontuada por teclados atmosféricos. “Natural skin” é interessante, apesar dos efeitos já um pouco datados, e que poderiam estar no Ray of Light da Madonna.

Broken Politics dá uns escorregões pontuais, mas com certeza absoluta pode ser considerado um dos trabalhos mais interessantes desse 2018 às portas do fim. Neneh Cherry confirma assim sua fama de uma das artistas mais interessantes dos últimos 25 anos.

OUÇA: “Kong”, “Synchronised Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”.

Sevdaliza – Ison

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Sevda Alizadeh é o real nome da cantora, atriz, produtora e modelo Sevdaliza, com essa pequena introdução já é possível se ter uma ideia do que esperar do trabalho da holandesa-iraniana. Apesar da cantora já ter causado um burburinho há algum tempo graças a seus aclamados Eps e a surrealidade e complexidade de seus vídeos, é ao mesmo tempo uma daquelas artistas que passa despercebida ou sendo deixada para depois, um erro que você não vai querer cometer. Num encontro perfeito entre R&B, Downtempo e Trip-Hop (que nos faz lembrar bastante Banks e Portishead), Ison excede expectativas e se torna um forte candidato para listas de melhores do ano.

Ison é um álbum extremamente provocante e íntimo em sua própria maneira, a obra como um todo representa a cantora sendo mãe dela própria e as faixas por sua vez seriam suas filhas e si própria, por isso não estranhe o contraste entre elas, tudo não passa de diferentes facetas de si mesma, não é difícil notar como algumas músicas soam atemporais e fora do nosso alcance enquanto outras são totalmente mundanas e carnais, tudo isso cria um universo próprio para Sevdaliza onde você tudo pode observar mas jamais fazer parte, o aspecto visual que o álbum cria é nítido a ponto de colocá-la num pedestal do mesmo patamar de outras cantoras como Björk ou FKA Twigs. Chega a ser desnecessário dizer que o impacto que Ison causa, tanto estética quanto sonoramente, é mais do que o suficiente para arrancar boas críticas ou chamar a atenção de qualquer um que esteja ao alcance dele.

A escassez de álbuns consistentes ou chamativos em 2017 abre ainda mais espaço para o trabalho da cantora, deixando-a a par de lançamentos mais viscerais e singulares como Arca e Perfume Genius, todas as citações já citadas aliás não ofuscam, diminuem, somam ou tem a intenção de simplesmente parear Ison com outros trabalhos, simplesmente evidenciam o nível do mesmo, e se tratando de um debut, é um feito e tanto. Do começo ao fim tudo atrai a curiosidade do ouvinte e o deixa querendo mais, afinal, Sevdaliza realmente é dona de seu próprio universo, onde somos meros espectadores, jamais convidados a entrar e interagir com sua criação.

É difícil se deparar com trabalhos tão potentes e bem pensados como Ison, e mais difícil ainda não se empolgar com o que Sevdaliza prepara para o futuro, mas vale lembrar que todos os aspectos citados do álbum realmente só funcionam juntos, para fazer toda a experiência de Ison valer a pena é preciso sim ir um pouco mais fundo na carreira de cantora, não que seja um grande contra, mas acompanhar os vídeos e histórias por trás das músicas deixa tudo mais grandioso.

Uma excelente pedida para mentes férteis e que adoram reinventar não só elas próprias, como tudo a seu redor.

OUÇA: “Marilyn Monroe”, “Hero” e “Bluecid”.

Thievery Corporation – The Temple of I & I

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Composto por quinze faixas e imerso em cultura africana, o novo álbum de Thievery Corporation é um convite para relaxar numa frequência despreocupada. Como conta Rob Garza, o disco foi produzido na Jamaica, e a rotina de produção do mesmo incluía caminhadas diárias nas praias paradisíacas, e contato direto com a língua, comida e realidade africana.

Apesar do numero de faixas, o trabalho não peca em sua essência: a mistura. A dupla conduziu perfeitamente a fusão do background da cultura africana com o eletrônico contemporâneo, resultando em melodias que te embalam estalar de dedos, como “The Temple Of I & I” e “Let The Chalize Blaze”. Em outro contexto, a representação cultural se dá em “Letter To The Editor” e “Guetto Matrix”, onde se sente o sangue da musica negra pulsar através das letras de teor social, e da batida inconfundível do Rap.

Assim como em trabalhos anteriores, a dupla trabalhou em algumas releituras de artistas locais, lapidando-as com seu dub eletronic, e também convidando alguns parceiros para o processo. Notch, por exemplo, é um velho conhecido da dupla, que teve a oportunidade de estar em The Temple Of I & I, reapresentando ao publico seu reggae raiz nas faixas “Strike The Roof”, “Drop Your Guns”, “True Sons Of Zion” e “Weapons Of Distraction”.

Em suma, ouvir o album é mergulhar na cultura africana em diferentes perspectivas. A proposta principal de mescla é bem trabalhada, e parte da sensação adquirida no processo de produção é transmitida com sucesso.

OUÇA: “Letter To The Editor”, “Time + Space” e “Weapons Of Distraction”

Phantogram – Three

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Sarah Bartel e Josh Carter em seu terceiro disco levam seu trabalho a um novo nível. É um registro mais pessoal que os anteriores por se tratar de um tema pesado como a morte ao mesmo tempo que com pequenos ajustes, se tornaram mais pop. Talvez devido ao trabalho com o produtor Ricky Reed ou apenas pela necessidade de alcançar um público maior com uma sonoridade mais acessível.

Mas isso não chegar a ser um defeito, só afasta um pouco Three da originalidade e e qualidade de seus antecessores. Podemos dizer que é um ótimo disco, porém não um ótimo disco do Phantogram.

É importante deixar claro que apesar disso, tudo aqui soa natural e maduro, sem tentativas desesperadas de cair no mainstream. O som do Phantogram continua bagunçadamente ousado e cheio de camadas enquanto suas composições são de gerar um certo desconforto de tão niilistas e sem esperança em viver. E isso não é ruim. Há momentos que se torna impressionante e até engraçado que alguém consiga nos fazer dançar enquanto lamenta a sociedade e a morte de seus heróis.

Ainda que com um ou outro tropeço quase imperceptível é um respiro bem vindo e inesperado em meio a uma cena musical que vem caminhado pela mesmice. Ao longo de um pouco mais de meia hora de álbum, o duo confirma mais uma vez sua capacidade de entregar um material bom e que consegue superar nossas expectativas.

OUÇA: “Run Run Blood”, “You’re Mine” e “Calling All”.

Róisín Murphy – Take Her Up To Monto

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Desde a primeira até a última música, o novo álbum de Róisín Murphy, Take Her Up To Monto, é um festival de sons e samples que brincam com o synthpop e remetem ao estilo dos cabarets. Ao ouvir o álbum, que conta com um total de 9 faixas conectadas entre si, a impressão que se tem é que se trata de uma mistura entre David Bowie, Tame Impala e uma pitada de 8-bit.

Para os que gostam de aproveitar o efeito de “3D auditivo”, quando existe diferença entre os sons executados à direita e à esquerda na música, esse álbum é uma pedida de mão cheia. Nesse caso, o foco vai para “Nervous Sleep”, a oitava faixa e que fala, como o próprio nome sugere, da série de pensamentos e angústias, muitas vezes irreais e desproporcionais, que brotam na cabeça antes de pegar no sono. A própria melodia do início já deixa a ideia de fim de um dia cheio, corrido, e a transição perturbada entre sono e vigília.

Outra faixa que merece ser ouvida é, sem dúvida alguma, “Pretty Gardens”, que trata sobre como o eu lírico quer que a pessoa alvo de seu afeto perceba o que existe de bom por trás de tudo que ele/ela demonstra no cotidiano. Uma das frases mais impactantes dessa música inclusive toca exatamente nesse ponto: ‘What do you see when you look upon me?’. Conforme falado anteriormente, o álbum possui músicas que remetem ao estilo de cabaret, e essa é uma delas.

Obviamente, saber exatamente o que Róisín pretendia falar com cada letra é pura presunção, mas as letras parecem contar uma história, se ouvidas com a atenção que merecem. A sequência de músicas representada por “Whatever” e “Romantic Comedy” começa falando sobre um relacionamento unilateral que o eu lírico quer acabar, por sentir que já deu, precisa ser renovado. Segue, no entanto, tocando no ponto de “o que fazer quando se percebe que “aquilo” que fez iniciar o romance acaba?”. A música fala, inclusive, sobre o desgaste normal de uma paixão e o risco da rotina virar o motivo para término.

Se não fosse “Nervous Sleep” ocupando a oitava faixa do álbum, seria uma perfeita sequência de três músicas sobre relacionamentos que estão acabando, culminando com “Sitting And Counting”, com uma letra literária e embalada por um som estilo 8-bit que combina perfeitamente com o restante do álbum. A expressão utilizada na música, ‘sitting on a town, counting the waves to fade’ é a maneira mais fidedigna de descrever aquela sensação de vazio pós-fim, aquela tristeza em que nada parece fazer sentido e tudo o que se quer é esperar passar.

OUÇA: “Pretty Gardens”, “Nervous Sleep”, “Sitting And Counting” e “Ten Miles High”

Sia – This Is Acting

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Passado o renascimento das cinzas com 1000 Forms Of Fear, Sia está de volta com um novo álbum de inéditas, seu sétimo de estúdio, intitulado This Is Acting. A premissa principal do novo trabalho é “canções que ela compôs para outros artistas, mas que foram descartadas pelos mesmos”. E é exatamente daí que vem o nome do álbum, como se ela estivesse brincando de atuar, por pura diversão.

Diversão essa nítida ao decorrer das doze faixas que o compõem; This Is Acting tem um apelo muito mais popular que 1000 Forms Of Fear. Diferente de seu anterior, o novo material é solar, com canções de empoderamento e melodias pra lá de alegres. O grande exemplo é a faixa “Move Your Body”, uma música feita milimetricamente para ser tocada nas pistas de dança, diferente de tudo que Sia já fez – com exceção de suas parcerias com David Guetta. Aposto minhas fichas nela e tenho certeza de que emplacará.

Mas sem dúvida alguma, a grande graça do álbum é ficar imaginando como aquela determinada canção ficaria na voz de para quem ela foi escrita; não desmerecendo Sia, muito pelo contrário, adoro sua rouquidão única e capacidade vocal, e até mesmo sua performance “às escondidas” em palco. Por exemplo, o carro-chefe do álbum, “Alive”, foi escrita originalmente para Adele e seu 25. Já “Bird Set Free”, minha favorita deste novo material, foi escrita para a soundtrack de Pitch Perfect 2, mas acabou sendo trocada por “Flashlight” de Jessie J. Depois, foi levada até Rihanna que também a recusou, e só então Adele resolveu gravá-la, mas acabou a descartando de última hora. “Cheap Thrills” e “Reaper” também foram escritas para Rihanna, inclusive, a última, co-escrita com Kanye West.

Visto isso, This Is Acting acabou passando uma imagem de portfólio da artista, demonstrando ainda mais a habilidade que Sia tem ao compor e cantar, mas que infelizmente acaba se perdendo ao decorrer do álbum. A primeira metade é excelente, não há o que reclamar, mas a segunda cai na mesmice, e você acaba perdendo a atenção. Ao mesmo tempo, depois dos turbulentos momentos que a cantora passou antes do estopim de 1000 Forms of Fear – como pode ser lido aqui – This Is Acting nos traz uma Sia mais confiante de si mesma e em seu próprio talento, provando que está mais do que na hora dela colocar de lado seu “sponge bob” e realmente colocar a cara à tapa no show business.

OUÇA: “Bird Set Free”, “Alive” e “Move Your Body”

Ibeyi – Ibeyi

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Acende um cigarro. Não, acende uma vela. Também não. Luz, é. Ao piano, alguém toca um fá sustenido. Inexpresso, a música ainda não começou, veja. Em música isto se faz pra que num cenário musical sem afinações fixas como é um duo vocal (ou qualquer conjunto vocal), haja concordância de vibrações. As que você ouve agora são duas mulheres, duas meninas, irmãs. Se intitulam Ibeyi, em Yoruba (vide Nigéria) diz-se ser o espírito existente numa conexão entre gêmeos. Elas são gêmeas. Mas cubanas e em Paris. Eu as escuto em Brasília. E você?

A faixa atende pelo nome de “Eleggua (Intro)”. Ou, Eleguá. Eleguá é uma das deidades da Iorubá, sincretismo com Santo Antônio de Pádua. Eleguá é o dono dos caminhos, o início e o fim, são dele. Travesso e infantil, é poderoso. Essas meninas são filhas de um homem chamado Miguel “Angá” Díaz, você deve conhecê-lo dum tal de Buena Vista Social Club. Esta família vê raízes na Regla de Ocha, ou Santería. Essencialmente sincretista, semelhante ao nosso Candomblé. De influências riquíssimas, do cristão às religiões animistas africanas, popular em Porto Rico, em República Dominicana, entre outros.

A medula do duo é também dualidade, uma percussão que convence, e as vozes das moças, persuasão vocal de primeiríssima. Veja você que coisa mais deliciosa esta, o tambor, o atabaque são evocativos ao transe de incorporações de orixás. E a voz, a voz acalenta tudo, traz humanidade e afeto, proximidade, divindade terrena, a mãe próxima. Mas estas meninas, ó! Estas meninas misturam esta genial e pegajosa e frenética riqueza e agregam o que entendem de jazz. E não só jazz. Mas jazz, soul, hip-hop e umas coisas eletrônicas meio downtempo. Evocativo, profundo, quase covil. Dum turvado adocicado é o que resta em formato de 15 faixas.

A instrumentação harmônica do disco, não a vocalização, soa um tanto mais ou menos. Os pianos restam pouco para quase nada brilhantes, por mal exemplo. A quantidade reduzida de coisas acontecendo nas faixas é apreciável, mas em tais condições, é desvalorizada a paisagem musical. Quando sintetizado, o som resulta convincente, cativante.

Elas são bem intencionadas, o talento resta, mas falta algo. Um perfeccionismo, uma teimosia, uma clareada. (Menos faixas, inclusive, quinze é coisa à beça, um tanto fica por descartável). Mas vem cá, pra um debut, tá bem demais pra quase menos. Se posso dizer algo, já tendo dito um montão, menos Lorde e mais candomblé, moças d’ouro.

OUÇA: “Eleggua”, “Ghosts” e “Think Of You”

Cibo Matto – Hotel Valentine

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Após 15 anos em hiatus, Hotel Valentine é o primeiro álbum de estúdio do grupo Cibo Matto. Miho Hatori e Yuka C. Honda são as principais integrantes, e se uniram novamente para esta colaboração. Este projeto é repleto de recursos eletrônicos e possui uma presença quase constante de elementos percussivos. Em grande parte, as vozes, femininas, são apresentadas juntas, criando um coro feminino. Metais também foram utilizados, como em “Hotel Valentine”, faixa que nomeia o álbum. Mesmo com uma escuta superficial, é possível observar que houve uma preocupação durante o processo de mixagem do álbum em dar audibilidade aos arranjos, privilegiando não apenas as vozes, mas toda a instrumentação utilizada. De qualquer forma, a sonoridade final resultou em algo bem próximo aos outros trabalhos do grupo, com características marcantes dos anos 90.

As estruturas das canções são bastante similares, considerando as aspectos formais.Além disso, as extensões vocais utilizadas são bastante semelhantes em todas as faixas. Em algumas canções, como em “Empty Pool”, elementos eletrônicos são utilizados para criar um ambiente sonoro no qual as vozes são acrescentadas. Observando as temáticas das letras apresentadas, há um tema central claro que é apresentado em quase todas as canções. Considerando o título do álbum, é possível observar uma ligação com as canções de abertura e encerramento do álbum, sendo elas respectivamente, “Check In” e “Check Out”, apresentando uma relação direta com o funcionamento de um hotel. Além destas, outras como “Housekeeping” e “Lobby” também apresentam a mesma proposta.

“Check Out” apresenta uma sonoridade diferente em relação ao resto do álbum. As vozes são apresentadas principalmente em falsete e com notas longas, e o seu andamento é relativamente mais lento. A participação do violão e dos demais instrumentos é valorizada, criando uma atmosfera mais calma, quando comparada às outras canções do álbum, como “Check In”. Hotel Valentine estabelece um cenário específico para os acontecimentos do Hotel Valentine, e isso pode ser observado até na sua estética musical.

O álbum apresenta um domínio sobre vários elementos musicais, incluindo eletrônicos, acústicos, e vocais, criando uma sonoridade interessante. No entanto, não é apresentado um processo de construção do álbum que mantenha a atenção do ouvinte. As canções são curtas, mas ao fim, as estruturas e arranjos similares acabam por não acrescentar muito à ideia do desenvolvimento do álbum. Isto faz com que seja um álbum ambient demais, não apresentando elementos ou performances suficientes para uma escuta inicial detalhada. De qualquer forma, de acordo com entrevistas com Miho e Yuka, publicadas recentemente devido ao lançamento do álbum, esta produção faz parte de um processo das duas, que sentiram a necessidade de dar continuidade às suas colaborações. Desta forma, Hotel Valentine surge como uma nova etapa para a dupla, com uma proposta bem similar àquela de 15 anos atrás.

OUÇA: “Check In”, “Deja Vu” e “Check Out”

FKA twigs – LP1

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Unindo uma sonoridade quase sexual, com sua figura cativante e excêntrica, FKA twigs era tudo que o mundo pop precisava: alguém suficientemente diferente, para bagunçar conceitos. E a inglesa chegou para rebolar sensual e conceitualmente na música atual.

Tahliah Barnett começou a carreira como dançarina, aparecendo em videoclipes de artistas como Kylie Minogue, Jessie J, Ed Sheeran e Taio Cruz. Em 2012, ela assumiu a persona Twigs e lançou seu EP1. Em 2013, por reclamação de um outro artista, também chamado Twigs, ela acabou incluindo o FKA na frente. Com o novo nome, ela lançou o EP2, produzido por Arca, o que fez o nome da cantora pipocar em todos os sites de música: FKA twigs era a menina que deveríamos ficar de olho.

Neste ano, ela se uniu novamente ao Arca para a produção de LP1, um mix de trip-hop, R&B e uma sensualidade quase hermética. Arca é um venezuelano radicado em Londres e que já havia trabalhado anteriormente no Yeezus, de Kanye West.  Ele é uma figura central no som da FKA twigs, sendo responsável pelo som tão relacionado ao trip-hop e a essas quebras de ritmos que formam cada canção.

LP1 foi associado ao alt-R&B, espécie de subgênero que versa com as batidas do R&B e que congrega artistas como How to Dress Well e Banks, porém a própria FKA twigs renega essa tag e não se considera como um espectro de R&B. Na visão da artista, essa delimitação estaria relacionada a sua raça e desmembraria em questões raciais mais complexas. Por outro lado, entendemos o som de LP1 mais próximo do trip-hop dos anos 90, especialmente de artistas como Tricky. Isto, porém, não o torno um disco saudosista ou de homenagem, e sim um trabalho bastante conceitual, que bebe na fonte do trip-hop, mas faz o mesmo que o gênero que o inspira: remodela tudo para uma roupagem que se conecta com o nosso tempo, seja em sua desconstrução sonora ou em suas letras. Letras que, por sua vez, versam sobre amores, solidão e sexo, de uma forma tão genuína e intensa como aquela Björk da fase Post.

Além destes aspectos sonoros, twigs é uma artista primordialmente performática. Cada videoclipe é a criação de uma persona que ela leva extremamente a sério. Com sua carreira pregressa de dançarina, os movimentos corporais de cada apresentação ou vídeo de Tahliah são um capítulo a parte, fazendo da dança, das roupas, do cabelo e da maquiagem um eixo fundamental neste todo cativante. A maior prova disso é a parceria da cantora com o Google, no vídeo-conceito do Google Glass, em que ela aproveita todas as vantagens do aparelho dentro do seu universo artístico e performático.

Sendo FKA twigs uma figura tão forte e intensa, seu LP1 apenas corrobora a presença da artista como uma das mais relevantes da atualidade, pois o álbum consegue funcionar tanto em sua forma conceitual, com as faixas em sequência, criando um todo, bem como em cada single lançado pela artista. FKA twigs é, ao mesmo tempo, a melhor artista para você incluir na sua lista de “fuck music”, quanto a responsável pelos melhores ao vivos deste ano. E como prova disso, nada melhor que sua apresentação no The Tonight Show do Jimmy Fallon.

OUÇA: “Pendulum”, “Video Girl” e “Lights On”

Sia – 1000 Forms Of Fear

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Após quatro turbulentos anos desde o lançamento de seu último álbum, Sia volta mais forte do que nunca ao mercado musical com sua incomparável roquidão em suas próprias composições, presentes em 1000 Forms Of Fear. Mas antes de comentarmos sobre o mesmo, é necessário expor um background pra lá de inquieto que fez com que essa obra se tornasse ainda mais interessante.

Até então, We Are Born, seu último álbum, tinha sido o trabalho de maior sucesso em sua carreira, o que fez com que Sia ficasse desconfortável quanto à idéia de se tornar famosa, recusando aparições em público e se aprofundando no vício em álcool e drogas. Em 2010 a artista chegou ao extremo e quase cometeu suicídio através de uma overdose de drogas, felizmente impedida por uma amiga. Depois disso, Sia decidiu por cuidar de sua saúde física e mental, focando-se apenas em escrever para outros artistas.

Talvez esses turbulentos acontecimentos tenham sido a propulsão necessária para as brilhantes composições que vieram a se tornar mega hits ao redor do globo, como “Titanium” e “She Wolf (Falling To Pieces)” de David Guetta, “Wild Ones” de Flo Rida, “Diamonds” de Rihanna, “Pretty Hurts” de Beyoncé, entre outros. Com isso, o perfil de Sia como cantora e compositora foi elevado a outro patamar, que aliado ao lançamento de “Elastic Heart”, também presente em 1000 Forms Of Fear, para a trilha sonora de Jogos Vorazes: Em Chamas, fez com que Sia recebesse novas propostas de diversas gravadoras.

Decidida por voltar ao cenário musical como cantora, Sia só aceitou com as condições de que não tivesse que sair em turnê ou muito menos fazer obrigatoriamente aparições públicas para divulgar o álbum. Visto isso, a cantora decidiu por não mostrar seu rosto em vídeos e fotos promocionais do novo trabalho, e ao invés disso, focou em criar arte visual através de seus vídeos e perfomances. Prova disso, é o clipe de “Chandelier”, primeiro single do novo álbum, que conta com a atuação da dançarina mirim Maddie Ziegler utilizando uma peruca exatamente igual a seu cabelo, intitulado “blonde bob” no exterior. Marketing ou não, Sia chamou atenção, e seu “blonde bob” acabou se tornando marca pessoal.

Voltando para o álbum, 1000 Forms Of Fear é pop, mas não enlatado. É down, mas não obscuro. Sia tem uma habilidade pra lá de especial ao conseguir unir palavras ordinárias com composições simples e equalizá-las em mensagens de alto impacto. Talvez essa seja a fórmula mágica que a tornou uma compositora de grande sucesso. Composições estas, que conseguem expressar aquilo que sentimos e muitas vezes não conseguimos explicar. E essa característica também é algo bastante presente no novo trabalho, como por exemplo, no hit “Chandelier”, no single promocional “Eye Of The Needle”, ou até mesmo na belíssima, e minha favorita faixa, “Cellophane”.

Sia renasceu das cinzas assim como uma fênix. Talvez os momentos turbulentos comentados acima foram necessários para o alcance de sua própria identidade e auto-conhecimento, para então conseguir mostrar isso mundo afora da forma mais saudável possível, mesmo que de sua própria maneira. Há más línguas que afirmam que tudo isso não passa de estratégias publicitárias para emplacar ainda mais sua carreira. Particularmente, pouco me importa, só sei que seu “blonde bob” veio para ficar, e ele com certeza será um marco na história da música contemporânea.

OUÇA: “Chandelier”, “Free The Animal”, “Fire Meet Gasoline” e “Cellophane”.