Betty Who – Betty




A carreira de Jéssica Anne Newmann, conhecida como Betty Who artisticamente, inicia em 2012, por meio de um single liberado para download independentemente. Era “Somebody Loves You”, que muito rápido alcançou sucesso na internet, em especial em Youtube.

Certamente você já ouviu alguma coisa da Betty Who, já que a artista é figurinha carimbada em playlists em serviços de streaming. Com um estilo inconfundível, que mescla fortes referências aos anos 1980 com synth e dance pop, Betty canta, muitas vezes, sobre sentimentos agridoces com upbeats.

Em 2013 foi lançado o primeiro extended play (EP) de sua carreira, The Movement. Em 2014 surge o primeiro álbum, Take Me When You Go, depois do lançamento de um segundo EP, Slow Dancing. Ambos foram muito bem recebidos pela crítica e audiência.

Neste meio tempo, a partir dos primeiros lançamentos, a aclamação pelo estilo retrô de suas canções, com forte apelo oitentista, rendeu convites para participações na TV, em turnês – de Katy Perry e de Kylie Minogue – na Austrália e estreias significativas nas paradas internacionais.

The Valley, o segundo disco, foi lançado em 2017. Apresenta canções com mais elementos eletrônicos, letras mais maduras e não abandona as referências aos anos 1980.

O fato que é Betty Who nunca abandonou a fonte oitentista onde embebe suas canções. E isso é presente no lançamento mais recente, o Betty, de 2019. Este é um registro que, dentre todos, é o que mais de distância de Take Me When You Go – o debut. Por isso é necessário fazer um breve retrospecto da carreira pra entender o que disco mais recente propõe.

Em Betty Jessica Anne canta, mais uma vez, sobre situações que vive, como em “Marry Me”, e aproxima sua música de um contexto mais comercial e radiofônico. Não soa mal. Na verdade, o resgate em que ela aposta soa muito bem em faz sentido ouvir sua música alinhada com as características daquilo que faz sucesso atualmente, sem deixar de lado a personalidade musical de Betty. Mesmo as músicas mais diferentes do álbum, o caso de “Taste”, por exemplo, conservam elementos particulares de suas canções – como os agudos, refrão fácil e eletro.

OUÇA: “Just Thought You Should Know”, “Between You & Me” e “Ignore Me”

Empress Of – Us


O pop como conhecíamos há seis, sete anos atrás não existe mais. É correto dizer que a música atual perdeu alguns decibéis, de maneira que as batidas estridentes, o uso imoderado de sintetizadores e vozeirões épicos – enfim, tudo que contribua para aquela sensação de paredão sonoro – perderam espaço. E muito. De lá para cá, bastiãs (no feminino mesmo, afinal falamos de Lady Gaga, Beyoncé, Britney Spears, Kesha, Christina Aguilera, Rihanna e outras mais) dessa sonoridade extremamente marcada do início dos anos 2010s optaram por seguir outros caminhos musicais, algumas até se afastaram da indústria musical. A lacuna é uma tragédia para uns, mas uma oportunidade Grande (rs) para outros que anseiam tomar a liderança de um novo ciclo musical. Um ciclo que já põe em prática uma repaginação do R&B dos anos 90s, aliado ao trap e ao reggaeton – as duas tendências dominantes do mercado -. Um pouco mais de um, um pouco mais do outro, às vezes uma mistura dos três, essas são as variantes postas em prática atualmente e as quais estamos nos habituando a ouvir nas rádios e demais espaços. Nesse conjunto estão as estreantes badaladas SZA, Kelela, Kali Uchis e a já queridinha de todos,  e ponta de lança da nova safra, Ariana Grande. Se essa resenha fosse escrita há três anos atrás, o nome Empress Of (Lorely Rodriguez) estaria incluído nesse grupo promissor; hoje, temos um ponto de interrogação.

Lorely Rodriguez empaca em Us (2018), seu segundo álbum e objeto de análise dessa resenha. Empaca, pois não consegue trabalhar com a mesma inventividade que conseguira em seu debut extremamente bem conceituado, Me (2015). É interessante notar que Lorely, inclusive, tenha contribuído para armar o terreno atual a partir da sua estreia, tamanha a impressão que tal possuiu à época. O disco apresentava uma coerência interna muito bem definida (muitos o reverenciavam como um trabalho conceitual, inclusive), aliado a uma crueza lírica e sonora impossível de enjoar. É exatamente o oposto nesse segundo disco: são 10 faixas, das quais as 4 iniciais são completamente esquecíveis. Puxa esse  bloco, a segunda faixa “Just The Same” – que é, de fato, apenas o mesmo – pois se vale de um instrumental “reggaetonesco”- dance hall e com algum quê de Chainsmokers & Kygo. Pouco empolgante para dizer o mínimo. Para aqueles que possuem uma forma sinestésica de ouvir, tentem imaginar a música que toca no fundo daqueles takes de lugares paradisíacos, de gente surfando, ou de festas de gente muito rica em qualquer lugar hiper-gentrificado do mundo em um programa de rotas de viagem cara na GNT. É essa faixa. E “Love Me” é um bis para os mais aficionados nessa vibe, já que há gosto para tudo nesse mundo.

O panorama se modifica significativamente com “I Don’t Even Smoke Weed”,  o ponto forte do disco, e que abre uma segunda metade cambaleante, mas de maior qualidade. Os elementos aqui trabalhados são completamente diferentes daqueles demonstrados inicialmente: a música é dinâmica, colorida, a letra divertida e a voz de Lorely cai muito bem com os arranjos. Embora recaia com “Timberlands”, “I’ve Got Love” e “When I’m With Him” são bons destaques também dessa segunda metade, que é praticamente um novo disco, o qual gostaria de ouvir mais. Nessas músicas, a produção é bem mais arriscada e diversa. Menos formulaica. A balada “Again” termina o álbum e não causa qualquer emoção, porque também peca pelo convencional, embora seja a única música produzida em um formato mais etéreo. No geral, o álbum é inconsistente, turbulento e de impressões pouco claras. Sob o ponto de vista lírico, não há muito para ser agregado, embora a cantora tenha afirmado em entrevista que o álbum é um pedido por ajuda, por aproximação, amor e coletividade. Parece que não apenas por ela, mas pelo mundo. Um apelo à la We Are The World. Como reflexo, é como se a pessoalidade imputada com grande competência em Me tenha sofrido um grave corte orçamentário. Sob o argumento do pragmatismo, de uma mensagem positiva para unir as pessoas, Lorely peca pela falta. Há espaços vagos, incompletos e pouco significantes, que tornam a obra fraca.

Por fim, Lorely cai em um limbo de relevância, onde atualmente está Alessia Cara, por exemplo. Uma vez creditadas a ascender e liderar um pelotão de frente da música, o sinal amarelo é aceso. No caso de Lorely, o problema tem muito mais a ver com as escolhas de efetivo pessoal (produtores, escritores, etc.) e temáticas, por assim dizer, do que das suas próprias limitações; vale ressaltar que, nesse quesito, enquanto o primeiro álbum é autoproduzido totalmente, o segundo conta com um pelotão envolvido,  cujas pessoas envolvidas trabalharam com diferentes tipos de artistas (indo do Kanye West ao The xx). E, bem, escolhas são risco e sorte. Mas para provar essa tese aqui proposta, a artista precisa demonstrar que pretende retomar domínio sobre seus próprios caminhos, ou a percepção de que o resultado de Us tenha sido mais responsabilidade de outros do que dela pode se turvar. De todo modo, esperamos que Lorely Rodriguez tenha mais sorte na próxima vez.

OUÇA: “I Don’t Even Smoke Weed”, “When I’m With Him” e “I’ve Got Love”.

Fickle Friends – You Are Someone Else


Tenho um carinho bastante especial por essa banda. Conheci eles da maneira mais despretensiosa e acessível possível: em um show num festival quase desconhecido que acontece na cidade de Leeds, Inglaterra (a saber: o Live at Leeds). Eles não eram nem de perto uma das bandas que eu estava indo no festival por e nem de perto headliners do dia, mas decidi conferir o show mesmo assim e a paixão foi instantânea: o som cativante e as batidas dançantes eram um frescor extremamente interessante para aquela época. Esse é apenas o primeiro disco do Fickle Friends. Estamos em 2018. O festival que eu fui foi em 2014…

Para bom entendedor, meia sentença talvez baste, mas deixando claro: a escala de tempo é a principal inimiga para uma banda mais voltada para o pop (ainda que esteja bem inserida no indie), como é o caso do Fickle Friends. E essa inimiga foi um pouco impiedosa com a banda de Brighton. Se tem um adjetivo pejorativo que caiba aqui para esse disco é que ele é ‘datado’. E pelo dicionário temos que ‘datado’, em seu sentido desagradável, entende-se como algo fora de moda, ultrapassado e antiquado.

Aí temos o principal problema de You Are Someone Else: o Fickle Friends passou um pouco o prazo de validade de lançar um álbum e acabaram lançando uma coletânea de colagens que, em boa parte do tempo, perde no fator coesão. Isso puxa outro fator que não funciona bem aqui: o álbum fica desnecessariamente longo – o reaproveitamento de faixas antigas acaba jogando o disco para quase uma hora de duração – e poderia ser melhor composto e coerente se reduzido. Mas é curioso ver como essas músicas antigas – que já estão rodando na carreira da banda há um bom tempo – funcionam bem aqui, ainda assim (como “Brooklyn”, “Hello Hello”, “Paris”, “Glue” e “Swim”, por exemplo).

Então, por mais que o Fickle Friends tenha momentos brilhantes aqui nesse álbum, eles acabam ficando numa mesmice estranha e esses momentos se resumem em músicas sem um frescor necessário para uma banda como essa, um pouco repetitivas e sem muita novidade – como era lá em 2014, quando os conheci. As músicas que são novidade para o álbum não adicionam muito – salvo, talvez, por “Rotation” e “Wake Me Up” – e acabam apresentando synths e linhas graves consideráveis, mas pouco memoráveis.

Talvez essa resenha seja lida como um disco que eu tinha grandes expectativas e elas não foram correspondidas. E aí vem à tona o fato de que a culpa – por falta de palavra melhor – aqui é toda minha por colocar as esperanças neles, né? Mas fato é que mesmo entregando um trabalho que eu acho que não seja tão digno deles, o Fickle Friends consegue agradar em vários momentos, só não faz isso da maneira tão brilhante assim que eu estava acostumado. É um bom disco para começar uma carreira, mas ainda falta algo aqui que eu sei que eles são capazes de mostrar.

De qualquer maneira, You Are Someone Else, apesar de ter parado no tempo, é um disco mais do que necessário para a banda ter algo mais sólido e conseguir alçar vôos mais compridos e consolidar ainda mais sua carreira de sucesso. A banda tem aquela cara de que vai conquistar muita coisa ainda e esse cartão de boas vindas é algo preciso. Mesmo que boa parte do álbum tenha perdido seu frescor e soe datado. No final das contas, eu agradeço a conspiração do universo pra ter me colocado na apresentação deles há quase quatro anos e permitir que eles se tornassem uma das minhas bandas favoritas desde então. Apesar dessa estreia ter sido um pouco decepcionante, mal posso esperar para ver qual será o próximo capítulo na vida dessa banda.

OUÇA: “Glue”, “Swim”, “Rotation” e “Brooklyn”

ionnalee – Everyone Afraid To Be Forgotten


Uma estátua branca de mulher nua no meio de uma floresta, imobilizada na metade de um gesto. Esta é a fotografia que estampa a capa do novo álbum da cantora, compositora e performer sueca ionnalee. Analisando-se a imagem, o tronco de árvore à esquerda indica a perspectiva da descoberta por parte do espectador, da revelação inusitada desse objeto cultural moldado por mãos humanas, contrastando com a natureza ao redor, como metáfora do inumano e do inconsciente.

ionnalee é uma artista que teria todos os pré-requisitos para ser fascinante, e arrebanhar uma legião de seguidores hipnotizados. Nascida na gelada e escura Suécia, traz imbuída em sua origem todo o misticismo e melancolia comumente associados à Escandinávia. A própria figura da cantora, fantasmagórica, não-terrena, quase albina, apesar de cuidadosamente construída, agrega mais um componente de interesse nos ouvintes de música ávidos de sonoridades pretensamente novas, contemporâneas, conceituais, avant-garde. Trazendo os mecanismos conceituais da arte contemporânea, para um contexto massificado de produção e consumo de música (olá, Walter Benjamin), quase tudo nos dias de hoje necessita de um conceito que respalde. Apresentando-se ora como iamamiwhoami, ora como ionnalee, a cantora tenta imprimir uma persona protéica e mutante ao seu trabalho, já tendo produzido álbuns como os bons Kin (2012), Blue (2014) e agora este Everyone Afraid To Be Forgotten (2018).

Ionna Lee é talentosa, sem nenhuma dúvida. E muito bem intencionada, musicalmente falando. O problema é que todos os conceitos concebidos para vender Everyone Afraid To Be Forgotten (a insegurança e a impermanência), caem por terra quando se discute a música em si. É como se a cantora se perdesse na tensão real versus imaginário, ou seja, entre o que ela é e o que gostaria de ser, entre o que ela gostaria de realizar, e o que efetivamente pode fazer.

Everyone Afraid To Be Forgotten sofre com essa ambiguidade, inevitavelmente. A faixa de abertura, “Watches watches” começa muito bem, com teclados cristalinos e ondulantes imprimindo a identidade sonora da faixa, plus o inglês macarrônico cheio de sotaque de ionnalee. Mas dura pouco. Em 1:10, a faixa descamba para um refrão e melodia genéricos, como se a artista não soubesse continuar. O tipo de sonoridade calcada no rock continua na segunda faixa, a terrível “Joy”, um pesadelo monótono híbrido de Fever Ray com aquela confusão pós-punk típica, sempre desagradável aos ouvidos, quando mal-feita. Esse hibridismo entre pop genérico e e art pop, entre Pink e Jenny Hval , perdura na maioria das faixas, como “Work”, “Temple” e “Not Humans”.

Os destaques do álbum aparecem quando ionnalee opta pela simplicidade. “Like Hell” é um mantra glacial e onírico que rapidamente degela em batidas adiposas, trazendo sustentação à música. “Samaritan”, de longe a melhor das 15 faixas, traz uma batida potente quase r&b conduzida por um refrão bem chiclete, no melhor estilo anos 80. “Blazing” emula o melhor Röyksopp de álbuns como Junior, enquanto “Memento” constrói uma atmosfera desagregada para em seguida desenvolver-se em um tipo de compasso binário e dançante, pontuado por micro-sons abstratos.

Everyone Afraid To Be Forgotten é um álbum apenas mediano, que traz uma ionnalee mais prometendo do que entregando. Robyn, Röyksopp, The Knife, Karin Andersson e seu Fever Ray (para ficarmos apenas na Escandinávia), produzem álbuns muito melhores, algumas vezes sem qualquer pretensão conceitual, ou persona por trás (e quando o fazem, são mais bem-sucedidos, Karin é o maior exemplo). Perdida nessas ambiguidades conceituais desnecessárias, ionnalee periga se tornar a estátua da capa de seu álbum, emparedada na lacuna que separa Taylor Swift de Marina Abramovic.

OUÇA: “Samaritan”, “Like Hell” e “Memento”.

Porches – The House


Em uma constante em sua carreira, Aaron Maine consegue trazer para o Porches uma tranquilidade transparente do elemento água. Fluído, inconstante e sensível, suas melodias correm as 14 faixas do álbum em um fluxo atemporal. Em um diálogo de si mesmo, em letras que muitas vezes fazem referência a trabalhos anteriores, The House é mutável e não maleável.

Em líricas simples, ainda que intuitivas, o Porches consegue transitar entre a água fervente que evapora e contamina a atmosfera e em água fria que escapa entre os dedos. Em “Find Me”, o ritmo dançante e marcante é típico de clubes de voguing, uma boa opção para uma alma livre e pulsante.

As baladas eletrônicas desse álbum não deixam o ouvinte entediado. “Now The Water” não é uma música de amores, mas de auto descoberta através da desintoxicação. Para se sentir de baixo d’água nessa faixa, é só acompanhar a onda que leva até as descrições explícitas de um banho daqueles libertadores, tomado depois de um dia difícil.

The House tem uma calmaria quase asiática. Reconheci em muitas batidas a intenção visceralmente melódica ao casar vocal e eletrônico de muitos produtores independentes do Japão. Lá, muitos deles usam vozes sintéticas para dar tom aos seus escritos, mas Maine tem em suas mãos (e cordas vocais) o instrumento mais importante para dar vazão a sua intimidade. “Anymore” é uma faixa que mostra a experimentação oriental de forma descarada.

Ainda em tons que fogem da cultura americana, “Åkeren” é uma faixa cantada em norueguês, cantada pela voz feminina de Kaya Wilkins (Okay Kaya).  Ainda que em algumas faixas tente ousar, Aaron Maine não sai totalmente de sua zona de conforto e prefere não utilizar demais os toques mais “estranhos”. Mesmo que seu conforto seja o flutuar de um corpo inerte no mar, talvez os próximos trabalhos do Porches tragam mais inovações para ouvidos mal acostumados.

OUÇA: “Find Me”, “Wobble”, “By My Side” e “Country”.

The Sound of Arrows – Stay Free


Ano após ano, uma coisa que tristemente parece estar sempre mais certeira é o eventual descarte de artistas, independente de terem estourado mundo à fora no ano anterior, nada mais garante que no seguinte eles ainda serão relevantes ou sequer lembrados. Com essa realidade já impregnada no mercado fonográfico atual, quando uma banda antiga resolve retomar suas atividades, sempre há uma ansiedade no ar por parte dos fãs em razão da incerteza da banda não apenas emplacar mas também se encaixar no cenário atual. E esse é o caso exato do The Sound Of Arrows, que depois de bons anos e um álbum de estreia maravilhoso, voltou a ativa. Some isso a uma sonoridade praticamente única e pode-se dizer que eles ainda teriam boa chance de se reerguerem hoje em dia, certo? Mas e se do nada eles resolvessem tentar algo novo?

6 anos de intervalo entre um álbum e outro parece ter sido tempo demais para manter a banda em seus trilhos, apesar dos vocais estarem claramente mais polidos e sob controle e a instrumentação bem mais refinada, fica bem claro notar que o álbum é bem calculado e sem riscos, tornando Stay Free um álbum bem mundano em paralelo com os céus que o The Sound Of Arrows já dominou, um amontoado de sentimentos processados mais preocupado em soar fácil pro ouvinte do que de fato se permitir explorar e se perder em seus típicos devaneios.

Mesmo em toda sua ingenuidade, Voyage (2011) era um álbum visionário, estabelecendo logo de cara o nome da banda no mundo, os ares dream pop da banda eram o combustível para todos os seus outros componentes, as possibilidades que eles davam para imaginação do público eram infinitas, mas tragicamente, quase que de imediato, a essência sonhadora do duo, quase que de imediato, simplesmente se desfez, e agora foi substituída por um synthpop genérico e, doa a quem doer, duvidoso. Há inclusive canções que são o pop alternativo mais simplista imaginável, afastando ainda mais o The Sound Of Arrows de suas origens, o que sinceramente vem a ser bem preocupante levando em conta o potencial deles.

No fim das contas, Stay Free é um álbum que não acaba fazendo nenhum sentido, todas as alterações tomadas no novo trabalho simplesmente não funcionam, apesar de haver sim bons momentos e beleza no álbum, continua sendo extremamente desconcertante saber que dois prodígios da música eletrônica trocaram toda sua estética, sonoridade e singularidade por algo que se encontra em qualquer canto da internet, como se eles conscientemente tivessem optado por reduzirem a própria qualidade. Apesar de todas as baixas Stay Free segue dentro da média, seja por realmente não ser tão ruim, quanto ainda haver esperança em trabalhos futuros dos rapazes. Mas é impossível negar que o álbum não tenha sido uma baita decepção.

OUÇA: “Stay Free”, “Don’t Worry” e “Hold On”

Orchestral Manoeuvres in the Dark – The Punishment Of Luxury


Uma das questões que aparece em diversos artistas e obras é a separação entre mensagem e aparência, ou forma e conteúdo. No caso da música, o que acontece é  dicotomia letra e música. No mais recente trabalho do Orchestral Manoeuvres In The Dark (OMD) essa separação simplesmente não existe. É impossível entender os instrumentais sem as letras e vice-versa.

Desde registros mais antigos, a questão da tecnologia no mundo ocidental e as implicações que isso traz já dava as caras no trabalho do OMD e em The Punishment of Luxury, a mensagem é que, embora você possa trazer o que quiser até si com um simples digitar do teclado, a tristeza ainda paira em toda a atmosfera da condição humana.

Já na faixa de abertura somos expostos ao tom que o álbum vai ter. “The Punishment of Luxury” canta que a punição pela arrogância e luxúria humana chegou há muito tempo e se torna pior a cada dia. A mensagem ganha força com a ironia em utilizar sintetizadores, um alto aparato tecnológico num beat e melodias altamente pop e pra cima.

Uma falha do álbum é a forma como as camadas de som em algumas faixas são construídas. “Robot Man” e “As We Open, So We Close” são claros exemplos disso. Embora o resultado final sejam melodias legaizinhas que ficam grudadas na sua cabeça por dias, não existe hierarquia entre os diversos instrumentos e synths, dificultando um pouco a compreensão dos elementos que formam cada canção.

Uma característica interessante do trabalho do OMD é a construção das músicas com elementos pouco usuais. Em “La Mitrailleuse” o som de armas é utilizado para construir não apenas ritmo mas melodia de uma maneira muito criativa.

Mesmo sendo uma banda antiga com o primeiro álbum datando de 1980 e utilizando uma estética new wave/synthpop da primeira geração do estilo, o OMD não é de forma alguma uma banda que tenta fazer algo retrô. Apresentando seus conceitos através de uma estética antiga, o grupo mostra que é possível passar uma mensagem relevante nesse estilo sem apelar a referências baratas.

OUÇA: “The Punishment of Luxury”, “Art Eats Art”, “La Mitrailleuse” e “The View From Here”

Marnie – Strange Words And Weird Wars

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Quando um artista de um grupo de sucesso lança um projeto solo, o primeiro movimento quase sempre é querer se diferenciar bastante do grupo que o projetou. Com Helen Marnie rolou algo parecido mas nem tanto. Seu primeiro álbum Crystal Worlds teve participação de colaboradores do Ladytron e o resultado soou mais como as músicas mais midtempo da banda do que como algo mais pessoal, embora as letras trouxessem algo bastante confessional. Strange Words And Weird Wars é um momento de ruptura com o new wave do Ladytron e coloca a artista numa direção bem mais pop.

“Alphabet Block” abre o disco dando logo de cara o que vem na sequência: um pop nos moldes do que toca nas maiores baladas por aí sem deixar de lado uma preocupação com a letra que é cantada, tratando de questões sérias da atualidade. Essa dualidade percorre todo o trabalho e é bem interessante ver isso em curso.

Mais pra frente, “G.I.R.L.S” traz uma vibe meio cheerleader e muitos, mas muitos claps e o tradicional oh-oh-oh-ooh millenial, ainda dentro da proposta do álbum mas soa muito como um pastiche de uma Taylor Swift do que a tentativa de fazer algo sério.

Na sequência “Electric Youth” e “A Girl Walks Home At Night” funcionam como uma espécie de transição emocional pra “Lost Maps”, o primeiro single e, com certeza o ponto alto do disco. Uma faixa completamente dançante, perfeita pra tocar em qualquer ambiente com fumaça e luzes coloridas, com linhas de sintetizadores usadas da maneira certa e complexamente simplificadas pra esse fim. No entando, a letra traz muito de solidão e desesperança sobre o mundo em que vivemos.

A segunda metade do disco é completamente esquecível, as faixas não funcionariam para um fã de pop padrão e também não funcionam como o new wave/dreampop dos trabalhos anteriores da artista.

Conhecendo a trajetória dela, é interessante ver a quebra de antigas amarras musicais nesse novo trabalho mas, ao tentar ir pro pop mainstream, em alguns momentos deixamos de ver a contribuição que ela poderia dar a esse estilo e o trabalho se enfraquece pela previsibilidade. Não há nada de errado em buscar ser pop e essa é uma intenção claramente anunciada pela cantora em entrevistas. No entanto, ainda falta um pouco mais de prática na busca por esse objetivo. Quem sabe num próximo trabalho, ela traga algo mais consistente nessa linha.

OUÇA: “x”, “x” e “x”.

Erasure – World Be Gone

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A despeito de todo o caos político, e demais possíveis influências externas, existe uma safra intocável de bandas. Um grupo seleto e consagrado que pode continuar seus trabalhos sem a necessidade de qualquer tipo de qualquer menção ao caos reinante do momento, sem a necessidade de polêmicas, inovação. Essas bandas apenas existem e tem a opção de continuarem suas longevas carreiras apenas apoiadas nos próprios nomes. Os nomes mais legais desse grupo, entretanto, preferem o risco e de tempos em tempos lançam discos mais ousados. Ora subvertendo a própria identidade, ora descendo ao chão e apontando as fissuras que devem ser corrigidas.

Há tempos o Erasure pertence a esse grupo e há tempos a banda não dava sinais de ter interesse em se desvincular dos ganhos aliados ao próprio nome. O World Be Gone de 2017 é a mudança do jogo em relação a esse comportamento. As dez faixas do disco trazem, além do synthpop pelo qual o duo é conhecido, faixas que soam um pouco diferentes aos ouvidos dos fãs. O próprio Vince Clarke atribui a diferença ao processo de produção do disco que contou com bastante foco nos vocais de apoio o que tornou as canções ainda mais melodiosas e radio friendly do que nunca. Vide a excelente “Love You To The Sky” que abre o disco e que inclusive já ganhou um disco single com vários remixes.

Outro ponto de destaque do disco é a delicadeza com que os assuntos políticos são tratados. Desde “A Little Respect”, um hino de aceitação não declarado – mas declarado – o Erasure vem se especializando em criar canções que funcionam em níveis diversos, desse modo o teor político não se torna enfadonho, nem panfletário.

Vale ressaltar a arte da capa, que não é das melhores, mas que faz jus ao conceito disco: um quase apocalipse que ainda deixa esperança aos atentos, ainda há luz, mesmo que não por muito tempo.

OUÇA: “Love You To The Sky”, “A Bitter Parting”, “Still It’s Not Over” e “Just A Little Love”.

Future Islands – The Far Field

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Em 2014, o então desconhecido grupo Future Islands tinha acabado de lançar o seu quarto disco de estúdio, Singles, quando a faixa “Seasons (Waiting On You)” se tornou o mais novo grande hino do synthpop, alcançando o primeiro lugar das listas de melhores faixas do ano em sites como Pitchfork, NME e Spin.

Três anos depois, a missão do grupo liderado por Samuel T. Herring é manter os novos fãs e a presença nos maiores festivais de música do mundo. Para uma banda de carreira longa e que demorou bastante para, de fato, alcançar os holofontes, o trabalho de se manter em pé é com certeza o mais difícil. Nesse sentido, o quinto disco do grupo, The Far Field, é lançado trazendo uma mistura exepcional de competência e progressão.

Em entrevista para o site Best Before, o tecladista Gerrit Welmers explicou que o disco demorou basicamente todo o ano de 2016 para ser produzido. São 12 faixas selecionadas em um arcenal de 24 demos (que ficamos na espera de serem vazados).

O primeiro single, “Ran”, é bastante eficaz em nos trazer de volta a gradiosa sensação de ouvir algo como “Seasons”. Teclados e baterias foram a base de algo ainda mais forte: a voz de Samuel, que canta algo extremamente pessoal – sobre sua vida e a estrada – dando mais poder a música.

Já o dueto com Debbie Harry mereçe toda a atenção do público mais antenado nas referências do grupo: não é todo o dia que uma banda consegue uma parceria com um dos artistas que mais influenciaram em seu som. Eles conseguiram extrair a oportunidade da melhor maneira possível e recriaram uma atmosfera new wave que beira o pop em tons de melancolia na iconica voz de Debbie já com seus setenta anos.

“Cave” também se destaca, faixa forte e imersa em uma atmosfera de distorções que encontram parceria nos vocais graves e ritmo acelerado. Já “Through the Roses” talvez seja um dos pontos mais pesados do disco, com uma letra que fala abertamente sobre suícidio (“in the weak of my soul the temptation to look inside my wrist“).

The Far Field certamente não é um disco de singles e pode se tornar um pouco repetitivo para que não é muito familiarizado com o estilo, mas faixas como “Ran” e “Cave” certamente irão encontrar o seu lugar de destaque. O disco, no entanto, merece toda a atenção dos fãs da banda e coloca Future Islands em uma posição de destaque na música contemporânea.

OUÇA: “Cave”.