The Orielles – Silver Dollar Moment


Brincos de argola, camisa de flanela e Eraserhead. Se é a primeira impressão que fica, o The Orielles já parece ser a sua mais nova leva de millennial indie rock britânico too-cool-for-school. Antes mesmo de escutá-los, o apelo estético já é comovente para fazer com que a gente quisesse ir ao próximo Leeds Festival com o trio de Yorkshire.

A história é um conto de fadas moderno. Três adolescentes se conhecem em uma house party. Esme, Sidonie e Henry ficam amigos enquanto falam sobre cinema tcheco, Pixies e o quanto os personagens de Friends se vestiam bem. No dia seguinte, a banda está formada. O nome, uma referência ao girl group americano dos anos 1960 The Shirelles.

Sob a égide do que eles chamam de “post-disco punk”, lançaram o primeiro single em 2017. “Sugar Tastes Like Salt”, seis minutos de um rock de garagem com uma referência a Deathproof de Quentin Tarantino. Ainda que não tenha entrado no álbum, a música é um bom referencial para perceber o quanto em um ano a música deles foi aperfeiçoada.

Silvar Dollar Moment, o álbum de estreia, abre com “Mango”. Um upbeat com várias camadas e os vocais leves de Esme, que já podem ser considerados uma marca registrada do trio. ‘But this place is familiar, and my head is all over/ I feel like I’ve been before‘. Sim, o fator easy-listening é um dos bônus do álbum. As canções aqui facilmente teriam feito parte de compilações alternativas na década de 1980.

A percussão é sempre um fator de destaque nas canções. “Old Stuff New Glass” e “Blue Suitcase” parecem beber de canções do Talking Heads. Soma-se a isso um inventivo uso de distorções, buzinas de bicicleta e até sinos de vaca. Tudo isso cria uma atmosfera leve, rarefeita, com delicados raios de sol atravessando aqui e acolá. A composição das faixas é essencial aqui para alavancar esse cenário leve. Noites entediantes, David Hockney e comer sementes de girassol. Raiva adolescente, amadurecimento e consumismo hedonista.  O produto final é uma ambientação peculiar e encantadora.

A radiofônica “Let Your Dog Tooth Grow”, com seu refrão descontraído é um dos pontos altos do álbum. O título é uma referência ao drama do diretor grego Yorgos Lanthimos, “Dog Tooth”. No longa-metragem, três adolescentes são confinados em casa pelos pais até que os seus “dentes caninos cresçam” e eles possam sair de casa. Seria o álbum de estreia essa dentição?

A dobradinha “Liminal Spaces”/”The Sound Of Limited Spaces” é o pico da gravação. Uma balada construída com baixos sedutores e um órgão envolvente, discorre sobre a presença em espaços transitórios e existência. Cada canção parece emitir um visual preciso e estimulante, uma atmosfera lynchiana muito bem criada.  É bom observar como a cultura cinéfila é presente aqui. Nesse sentido, o The Orielles é um testamento da cultura pop alternativa atual, em que a cinefilia é comum e bem-apreciada.

Ainda que o produto final soe um pouco homogêneo demais, a consistência da gravação e o apelo estético já os vende. Os vocais aerados sob as camadas de guitarras e batidas sistêmicas soam uníssonos ao final dos 45 minutos, mas certamente agradará seu devido público. Silver Dollar Moment é um álbum coeso, sereno, com esparsos momentos enérgicos, que merece ser aproveitado em sua simplicidade e no potencial que pode ser um próximo álbum.

OUÇA: “Let Your Dog Tooth Grow”, “Liminal Spaces”, “48 percent” e “Blue Suitcase”

The Drums – Abysmal Thoughts

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Em seu primeiro disco sozinho a frente do The Drums, Jonathan Pierce reafirma, mais do que nunca, o estilo resgatista da banda. Os sintetizadores antigos soam nos picos graves e altos, como ondas harmoniosas muito mais criativas que nos trabalhos que antecedem o álbum Abysmal Thoughts.

O The Drums continua agarrado a sua influência Pós-Punk, mas sem deixar de ser inventivo. O tom nostálgico das músicas sempre foi claro, ainda que não tão exagerado e marcado, sem deixar que seus trabalhos fossem confundidos com algo, de fato, de outra década.

A modernidade dá seu ar não só na mistura de gêneros que chamamos de indie, mas também no primeiro single da banda. O clipe de “Blood Under My Belt” traz blocos de cores fortes, contraste e enquadramentos do design dos anos 1960, uma boa manchete para um álbum leve e divertido.

Entre dancinhas estranhas e roupas de marca que parecem ser garimpadas de brechós chiques da cidade grande, o Drums mostra uma faixa pegajosa, de letra fácil e sonoridade oitentista. Assim como nas outras faixas, nota-se que Jonathan mudou seu timbre significantemente.

Ao invés de pronunciar palavras de forma encorpada, Pierce respira menos, sussurra seus versos simples que sobrepõe pensamentos de um período tumultuado. Perder seu principal parceiro de composição, Jacob Graham, possa ter sido um dos motivos de sua nova identidade.

Talvez essa mudança seja o maior sinal de vulnerabilidade de Jonathan Pierce. Abysmal Thoughts tem composições boas, músicas divertidas, alegres e redondas, mas existe uma certa tentativa de reacender o sucesso do primeiro álbum.

Indo pela contramão, a banda tenta fazer uma releitura daqueles primeiros sentimentos daquele homônimo. O que falta neste novo trabalho, no entanto, é a despretensão que o The Drums usou de maneira impecável em seus trabalhos anteriores ao Abysmal Thoughts.

É aceitável querer buscar horizontes coloridos de uma praia ensolarada novamente, mas por vezes esse sentimento soa um tanto forçado. Funciona bem como uma ironia, quem sabe uma ironia que tenta se aproximar do britpop, sonoridade com a qual a banda flerta em algumas faixas como “Are U Fucked”.

O The Drums volta a se apresentar como uma boa banda de pop, mas isso pode atrapalhar um pouco as ondas psicodélicas e mais duras dos álbuns anteriores, um gosto que ficou em minha boca quando ouvi Encyclopedia. Os fãs de rock podem sentir falta das guitarras marcadas que pouco aparecem nas faixas deste disco.

Duas influências do Drums são bandas que não canso de ouvir: The Cure e The Smiths. A presença delas é clara na construção de acordes, melodias e vocal do todos os trabalhos do The Drums. No entanto, sinto que não conseguirei ouvir tanto Abysmal Thoughts quanto os outros discos dessa banda.

O The Drums não conseguiu se superar, pelo menos para mim, alguém com o ouvido treinado por um avô fã de Beach Boys, The Cure e Beatles. Talvez seja questão de paladar, mas, entre outros bons álbuns de indie pop deste ano e este, eu ainda prefiro o arriscado e desengonçado indie rock do Drums.

OUÇA: “Blood Under My Belt”, “Your Tenderness”, “Rich Kids”.

Kakkmaddafakka – KMF

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Kakkmaddafakka, banda norueguesa de difícil nome que navega entre o indie pop e o surf rock, está de volta. Depois de três bem sucedidos álbuns de estúdio, principalmente Heist de 2011, KMF surge para dar continuidade no desenvolvimento da banda e abreviar esse trava-língua que ninguém consegue pronunciar corretamente.

O álbum é repleto de baladinhas ensolaradas, algo que não parece natural para uma banda escandinava. Ao mesmo tempo, os garotos propõem certa melancolia nórdica através de suas composições e alcances vocais do front-man Axel Vindenes.

Faixas mais agitadas e dançantes como “Language” e “True” também estão presentes, e o álbum até oferece um momento experimental com “No Cure”, no qual a banda foge um pouco de sua proposta e aposta no reggae. Os destaques do álbum ficam com “Galapagos” e “Young You”, primeiro e segundo singles respectivamente.

De difícil, só o nome mesmo, porque o som da Kakkmaddafakka é tão easy going e gostoso de ouvir que você pode até não saber pronunciar o nome da banda, isso pouco importará. KMF talvez não seja um álbum memorável, mas acredito que é exatamente esse o propósito da banda: fazer música descompromissada, por pura e exclusiva diversão. E isso, sem dúvidas, KMF propõem.

OUÇA: “Galapagos”, “May God”, “Young You” e “Lilac”

FIDLAR – Too

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Crescer na sociedade pós-moderna é um paradoxo. Na juventude, todos te dizem para estudar e criar hábitos saudáveis, assim, você será um adulto exemplar – ou pelo menos medíocre – e poderá garantir uma boa velhice. Tudo gira em volta de uma linha do tempo sem volta, na qual estudamos pra trabalhar, trabalhamos para trabalhar ainda mais, e trabalhamos mais pra nos aposentar com uma boa grana. Mas pra que diabos você quer ter uma boa velhice? Para bem se lembrar de como foi uma juventude monótona?

Com precedentes no punk, inspiração na subcultura do skate e surf da Califórnia e nos moldes do pop, um grupo de skatistas de Los Angeles que queria fazer um som de vez em quando tinha um mantra nas pistas: Fuck It Dog, Life Is A Risk. O que virou o nome de sua futura bem-sucedida banda – em sigla, FIDLAR – é nitidamente um apelo anti-comodismo empurrado o tempo todo por todo e qualquer segmento da nossa sociedade.

Foi na base desta ideologia que os quatro garotos de LA resolveram gravar o primeiro EP em 2011, chamado DIYDUI, seguido por Shit We Recorded In Our Bedroom e Don’t Try, ambos em 2012. O primeiro álbum, homônimo, foi lançado apenas em 2013. Ali, a banda já havia atingido grandes proporções com letras que envolvem muito álcool e drogas e amaldiçoam problemas de todo jovem, como dinheiro, família e relacionamentos.

Neste ano, o grupo resolveu escrever mais um capítulo em sua discografia e sutilmente mudou a linguagem com a qual conversa com o público. Eles entraram em estúdio e lançaram Too com o selo independente da Mom + Pop Music, responsável também por álbuns de Cloud Nothings, Smith Westerns e Metric. O som, desta vez, parece mais calibrado e mostra sinais de evolução e experimentações.

Mas será que é este o tipo de som que fãs de bandas como o FIDLAR gostam de ouvir? A euforia em torno do grupo sempre se motivou pela cultura do it yourself – como se referem os títulos dos primeiros EPs da banda – e, nestes casos, o efeito lo-fi é sempre um grande aliado. Mas há algo a ser refletido. O grupo alguma vez mostrou algo muito diferente? A resposta é não e ainda: o efeito lo-fi sempre foi sutil nos trabalhos da banda e continua, só que com (ainda) menos intensidade.

A impressão que fica é que eles sempre buscaram essa sonoridade mais balanceada e resolveram fazer algumas experimentações novas, assim como qualquer banda. Coloco neste grupo as músicas “Overdose” – uma boa aposta, mas diferente de todo o trabalho já feito pelos californianos – e “Hey Johnny”, com uma grande influência pop e altamente dispensável.

É importante ressaltar alguns fatos que envolvem o vocalista Zach Carper e que influenciaram diretamente em toda a produção do novo álbum. Primeiro, a morte de sua namorada – que estava grávida – na turnê de 2013, após usar uma agulha infectada para injetar heroína. Depois, ainda viciado em álcool e drogas (oh, really?) quando ajudava nas composições de Too, o músico entrou para a reabilitação pela quinta vez e os outros integrantes simplesmente pararam de falar com ele. Bem, eles já estavam de saco cheio. No fundo do poço, Carper recebeu uma ligação do ex-viciado Billie Joe, do Green Day, e foi incentivado a se livrar das drogas. Outro fato marcante foi a revelação do vocalista sobre um abuso sexual que sofreu aos oito anos, cuja lembrança, para ele, foi o grande incentivador de seu vício.

Ou seja, muitas águas rolaram e algumas lições foram aprendidas pelos integrantes, que já beiram os seus 30 anos. Por isso, nas letras, o FIDLAR continua contando como é ser jovem e inconsequente, mas desta vez com a preocupação da vida adulta mais latente. É o que ouvimos nas músicas “Stupid Decisions” e “Bad Habits”, com o genial verso ‘oh my god, I’m becoming my dad’.

Como primeiro single do álbum, os americanos escolheram “West Coast”, que mostra uma maior exploração de sintetizadores. Mas eles não são novidade para fãs da banda, assim como em “Why Generation”, que explora mais a onda indie. Ainda antes de lançar o trabalho na íntegra, a banda publicou o videoclipe de “40oz. On Repeat” no YouTube: um vídeo à la blink-182 versão Hermes e Renato. “Drone”, último single com clipe a ser lançado, é rápida, com refrão fácil e feita na fôrma dos fãs antigos da banda.

Uma novidade em Too são os riffs e solos de guitarra com traços de rock anos 70, como em em “Punks” e “Leave Me Alone” – que acompanha esta nova onda de solos sem perder a habitual bateria marcada. O ápice do álbum fica por conta de “Sober”, que começa com o que parece ser uma briga de casal e exclama exatamente como nós não gostaríamos de nos sentir ao crescer: eu percebi algo quando fiquei sóbrio, a vida é uma merda quando você envelhece.

E este é o discurso principal do álbum Too: a vida é uma merda quando nos tornamos adultos. Inserido no contexto musical, esta ideia é muito bem representada nas novas experimentações sonoras e discursivas do FIDLAR. A mensagem final, ao ouvir o disco inteiro, é: existem alguns limites que não devem ser ultrapassados e que garantem sua integridade física e mental. E isso pode parecer chato e entediante para alguns.

No contexto geral e no fim das contas, Too é muito bem feito e cuidado. Em contraponto, é mesmo diferente e definitivo na discografia do grupo. Isso deixa uma grande interrogação para os fãs da banda e de suas músicas que bradam a inconsequência: qual será o próximo passo a não ser cair no comodismo?

O que se espera é contar com o FIDLAR e outras da nossa geração para representar, na música, nossa energia jovial em sons que falam aquilo que seu ego e a vida social adulta sempre tentam esconder de você.

OUÇA: “Bad Habits”, “Leave Me Alone”, “Punks” e “Sober”

Seapony – A Vision

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Depois de dois álbuns e a inserção de um baterista de verdade, Seapony está de volta após um hiato de pouco menos de três anos (também conhecido como férias prolongadas). Se você gosta de Best Coast, Wavves, Real Estate e toda essa geração de bandas com vocais femininos e som ensolarado com clipes com filtros de Instagram filmados numa Super 8 então escute agora mesmo A Vision, o terceiro álbum do trio, que agora é um quarteto, de Seattle.

Com 11 músicas parecidas, mas não idênticas, a banda aposta na simplicidade para fazer um som gostoso e relaxante de se escutar, seja no trabalho, seja na estrada, seja sozinho ou com aquele ser especial. Ao escutar o álbum você nem percebe o tempo passando e se você deixar no repeat escutará o dia inteiro sem nenhum problema.

Uma mistura entre voltar as origens e evoluir o que já foi feito A Vision é mais simples quando comparado com Falling (2012), segundo album do grupo, porém mais complexo do que o debut Go With Me (2011). Antes a banda era um trio sem um baterista fixo para gravações, deixando uma bateria genérica soar ao fundo de todas as músicas, agora esse trabalho está por conta de Aaron Voros e, mesmo que o trabalho dele na banda seja simples, já é melhor do que um computador tocando. Na questão lírica, Jen continua com sua voz fofa e relaxante cantando sobre a vida e relacionamentos, mas nada muito profundo que junto com o instrumental deixam as músicas leves.

Entre os destaques do álbum “Everyday All Alone” que poderia encaixar em um álbum do Belle & Sebastian, “Let Go” que é a música mais trabalhada com mais instrumentos como sintetizadores, chocalhos e outros aparatos e “New Circle”. Não que as outras músicas sejam ruins, mas são mais do mesmo, não há muito o que destacar além da alegria delas e a paz que elas passam ao escutar.

Enquanto muitas bandas precisam inovar, Seapony se destaca por fazer bem o “mais do mesmo”, de não precisar revolucionar a música para ser boa e em um cenário onde todos buscam ser conceituais ou revolucionários, fazer músicas divertidas de se escutar é algo que está se tornando raro. Aqui não tem produção estrelada, não é necessário background ou conhecimento histórico, é simplesmente boa música para qualquer ocasião, se você procura algo descompromissado e bom, A Vision é o seu álbum e Seapony é a sua banda.

OUÇA: “Everyday All Alone”, “Let Go” e “New Circle”

Surfer Blood – 1000 Palms

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Inconstância poderia definir impecavelmente o que o Surfer Blood representa. Mas não uma inconstância do tipo que destrói uma carreira e leva banda por caminhos onde os erros são sempre seguidos. A inconstância dos garotos está mais para aquela que gera vida, e uma necessidade de buscar cada vez mais um aprimoramento e refinar o que sempre tiveram estabelecido como objetivo da banda. E a trajetória, ainda que curta até então, dos americanos de West Palm Beach é representada pela primordialidade das mudanças. Ao longo de seus cinco anos, desde o debut com o single “Swim”, o Surfer Blood sofreu picos bastante distintos, indo da sua ascensão, com Astro Coast, ao falho, Pythons.

Os erros que descrevem esse período de turbulência da banda nestes últimos dois anos, foram suficientes para não serem repetidos em nenhuma escala. O recente contrato que haviam com a Sire/Warner Records em 2013 não seguiu a vingar, levando-os a Joyful Noise, uma gravadora muito mais independente e que se mostrou disposta a reconstruir o que o Surfer Blood havia perdido da sua essência de indie e surf rock. Essa oscilação entre gravadoras foi suficiente para que 1000 Palms, seu lançamento e terceiro álbum de estúdio, mostrasse sua força como um legítimo sucessor para o álbum de 2010 (Astro Coast), e responsável para atingir uma qualidade equilibrada daquilo que ainda faltava em seu processo de produção, com a sua originalidade e características tenras do lo-fi.

Apesar das mudanças serem sutis musicalmente, nota-se um grupo muito mais liso em sua harmonia, voltando para sua leveza e estrutura impecável, distantes de toda interferência que a pressão de ter um álbum produzido por uma grande gravadora poderia acarretar. Essa possibilidade de tornar o 1000 Palms um álbum mais sincero dentro de seu estilo, foi, de fato, a mudança mais importante para essa terceira fase de suas trajetórias como uma banda já consolidada no meio indie.

Todas as referências ao surf rock continuam em sua ambientação repleta de frescor, o que supriu a expectativa que havia no lançamento deste terceiro álbum. Contudo ainda falta achar uma forma de achar como retornar as raízes da banda, sem perder a refinada qualidade que a Sire Records conseguiu revelar anos atrás. É um álbum ambicioso em cada um de seus minutos, ao longo de 11 faixas a banda continuou provando que este realmente seria o álbum desejado para que continuar seu curso.

Ainda há a emoção natural de seus riffs consistentes e da capacidade de aproximar sensações com suas próprias melodias, mas o excesso de saltos entre erros e acertos, torna exaustivo todo esse processo de recompor a imagem dos americanos. 1000 Palms ainda deixa a dúvida de se o Surfer Blood realmente possui a capacidade de se estabelecer estável em algo, sem soar genérico a cada nova alternativa que encontrarem para se reinventarem.

OUÇA: “Grand Inquisitor”, “Dorian” e “I Can’t Explain”

Best Coast – California Nights

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Em 2010, quando o Best Coast lançava seu primeiro álbum de estúdio, Crazy For You, o mundo (da música) parecia estar sofrendo uma crise de dupla identidade. De um lado, tínhamos Arcade Fire, Kanye West, LCD Soundsystem e Vampire Weekend com álbuns grandiosos, quase (ou totalmente) megalomaníacos. Ao mesmo tempo, vimos bandas barulhentas como The Radio Dept., Dum Dum Girls, Sleigh Bells e No Age. OK, super normal, estilos diferentes que sempre coexistiram. Mas o que foi estranho é que nessa época essas bandas menores, principalmente as que apoiavam seu som em uma parede densa de guitarras distorcidas, estavam recebendo tanta atenção e espaço na mídia e crítica quanto as outras. E poucas dessas bandas souberam manter essa posição conforme os anos passaram, e o Best Coast (quase não) foi uma delas.

A dupla formada por Bethany Cosentino e Bobb Bruno seguiu seu excelente começo com o morno (pra não dizer simplesmente ‘frio e ruim’) The Only Place, e parecia que seu auge havia ficado para trás no primeiro álbum. E aí veio o EP Fade Away em 2013 e tudo mudou. Com apenas sete músicas, o Best Coast conseguiu se reinventar voltando às suas origens distorcidas e invocava ao mesmo tempo Hope Sandoval, William Reid e Billie Joe Armstrong. O Best Coast deixou pra trás o vazio que permeou seu segundo álbum e voltou mais forte do que nunca, com isso veio a expectativa do seu terceiro trabalho e ao mesmo tempo o receio de que Fade Away havia sido apenas “sorte”.

Tenho que admitir que não sabia muito o que pensar sobre esse álbum, e isso já começava com seu título. Uma banda cujo nome bem literalmente remete à praia e faz músicas perfeitas para a trilha sonora de dias ensolarados que podem ou não estar envoltos em uma névoa de maconha (spoiler: estão sim), e agora decidiram usar a palavra ‘noite’ no título do trabalho. Teria o sol se posto para o Best Coast? Bem, sim.

A faixa que abre o álbum contém o verso ‘I know it’s love that’s got me feeling ok‘. “OK” é a palavra chave para a estranheza que esse verso trás quando você pensa sobre ele um pouco. “OK”. Só. Estamos acostumados com músicas de amor que falam sobre erguer ou demolir montanhas e paredes, sobre sentimentos exacerbados que mudam tudo e todos os envolvidos para todo o sempre. São poucas as músicas que tratam de amor de uma forma quase mundana, que falam sobre como ele é na realidade da vida. ‘Today I know I feel ok‘, e às vezes se sentir ‘OK’ já é tudo o que você precisa.

Isso não é novidade de California Nights. As letras de Bethany sempre foram simples e extremamente honestas de uma forma que não aparece com tanta frequência, e isso já acontecia desde Crazy For You. Pra que ficar moldando todas as suas músicas com metáforas mirabolantes quando tudo o que você quer dizer na verdade é ‘when I’m with you I have fun‘? Bethany escreve músicas da forma que alguém escreveria pensamentos sinceros em um diário pessoal em forma quase de fluxo de consciência, como alguém escreveria sem pretensão nenhuma de que qualquer pessoa fosse ler seus pensamentos. E às vezes eles podem não ser tão ensolarados assim, mas tudo faz parte da vida de todos.

Musicalmente, California Nights é um passo gigantesco para a banda. Continuaram com a distorção, sim, mas dessa vez eles a fazem de uma forma muito mais ampla. Há momentos em que parecem o Green Day, há momentos em que parecem o My Bloody Valentine. E momentos em que elementos de girl groups sessentistas são adicionados. E palmas na percussão. E momentos em que tudo isso acontece ao mesmo tempo. California Nights apresenta uma produção sofisticada e que, mesmo com as camadas de distorção, ainda parece limpa e clara. A voz de Bethany parece flutuar sobre as guitarras, e não competir com elas por sua atenção. Os riffs de Bruno também nunca antes tiveram um destaque muito grande, e aqui ele deixa sua marca tanto quanto Bethany deixa sua voz.

California Nights é o álbum que o Best Coast sempre fora destinado a fazer, todos os seus elementos anteriores estão aqui na medida certa e eles ainda adicionam uma ou outra surpresa a cada faixa. Não importa muito o que eles venham a fazer em seu futuro, California Nights já é o momento do Best Coast brilhar agora. O sol se pôs para o Best Coast, sim, mas apenas por que chegou a hora do luau.

OUÇA: “Feeling OK”, “Heaven Sent”, “Jealousy”, “California Nights”, “Run Through My Head”, “In My Eyes”, “So Unaware” e “Wasted Time”

The Drums – Encyclopedia

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Fato comprovado pela terceira vez: o The Drums não faz álbuns de fácil digestão. Foi assim com Portamento, seu segundo álbum, que levou críticas pesadas de muitos veículos de comunicação e, principalmente, dos fãs e muitos viram o álbum como um desastre. Se não estivéssemos acostumados com algumas músicas do primeiro disco dos caras – graças ao EP – também teríamos facilmente a mesma impressão dele. The Drums, o que acontece com vocês?

A aura misteriosa da banda nunca foi novidade, falar sobre algo tão sombrio como a morte do seu melhor amigo (“Best Friend” do primeiro disco) de um jeito tão leviano e sereno não parece algo tão normal assim para um ser humano; ou até mesmo sobre a vontade de matar o ser amado (“I Need A Doctor”) . Parece que o The Drums têm em suas músicas uma válvula de escape para a podridão do mundo, forçando situações macabras em letras encobertas de uma atmosfera etérea e fugaz. O surf rock que eles têm como label não faz mais jus à banda desde “Let’s Go Surfing”, talvez o último single alegre da banda.

Com Encyclopedia não é diferente. Ele segue mais ou menos a linha natural do Portamento, com a sombriedade que parou lá aparecendo mais do que facilmente aqui. Eu gosto de ouvir músicas para me sentir bem, na maioria do tempo, mas o The Drums parece ter aquele gostinho de trilha perfeita para se afogar de vez em um poço sem fim de sentimentos ruins e de lá não sair tão fácil. O convite de “Magic Mountain” ainda não me pareceu tão mágico assim e tem alguma metáfora por trás não tão fácil de perceber. Encyclopedia é um disco reflexivo em suas melodias e letras pesadas e profundas.

Pode ser tudo uma grande paranoia minha. Ou paranoia deles. Estou enxergando demais aonde não tem nada? Encyclopedia é estranho. Eu gosto de ouvir músicas para me sentir bem e o The Drums não parece combinar com as situações de felicidade tão facilmente. Não é aquela banda que vai te deixar triste ao ouvir se você estiver alegre, mas eles com certeza vão estimular seu pensamento e te fazer criar as teorias mais insanas sobre essas letras metafóricas escondidas em melodias felizes, lo-fi e pesadas. Talvez seja esse o segredo do Drums: instigar o pensamento do que eles tão querendo dizer. Díficil digerir, taí. É, deve ser paranoia minha. Será que é paranoia minha?

O terceiro disco do The Drums cabe exatamente aonde não queremos estar: no mundo desarmônico. Ouça boa parte desse álbum e perceba – depois de pensar e se situar um pouco – o signifcado por trás dessas letras e toda essa ode à suicídios, homicídios em massa e sentimentos ultrarromânticos. The Drums caberia perfeitamente na segunda fase do Romantismo, sem tirar nem por. O instigar está nisso: falamos da morte como falamos do amor – sentimentos são todos iguais mesmo: estranhos, doentios, impacientes, inquietos.

As vezes eu penso que o The Drums seria a banda instrumental perfeita, porque abstraindo todo esse pensamento reflexivo eu consigo sentir uma atmosfera boa e contagiante. Merda, estraguei o The Drums pra vocês? Abstraía. Pense em flores e como elas são cheirosas. Ou como são podres. Feche os olhos e imagine os tempos bons que você viveu com o certo alguém. Não que agora ele é só mais um idiota no mundo que você quer matar. A minha pergunta final é: só eu que me sinto tão doentio quanto Pierce e Graham depois de perceber tudo isso? Espero que não.

OUÇA: “Let Me”, “Deep In My Heart”, “Magic Mountain” e “Kiss Me Again”

Real Estate – Atlas

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Sucessor do muito querido álbum Days, Atlas dificilmente vai decepcionar os amantes do estilo surf rock da banda. Que é um pouco como uma segunda parte do anterior, mas talvez um pouco menos marcante.

Guitarrinhas rítmicas e tranqüilas continuam ali, como uma das mais marcantes partes da banda, juntamente com a voz serena de Martin Courtney. Fica bem claro que ambas se complementam.

Um dos únicos problemas que tenho com o disco são as faixas instrumentais que, sim, são comuns nos trabalhos da banda, mas acabam deixando as coisas meio maçantes, já que as outras canções já não se diferenciam tão gritantemente uma das outras. Mas, apesar disso, deixam o álbum mais conciso. E outra coisa que talvez tenha de certa forma “incomodado” é a falta de uma música mais forte e mais contagiante, como a “It’s Real” do álbum anterior. Esse é provavelmente o motivo pelo qual o álbum seja um pouco menos marcante do que Days. Ou talvez seja porque o estilo da banda não é tão inédito e incrível quanto era quando nunca tinha ouvido nada tão parecido antes.

Mas deixando os probleminhas de lado, o álbum é extremamente relaxante e confortável, o que já era de se esperar de uma banda que, propositalmente ou não, já é famosa por isso.  Tem uma beleza inegável e uma sonoridade agradável pra quem quer que esteja ouvindo. Não tem uma faixa que seja “pior” – ou ruim. Isso é o que deixa o álbum conciso, qualidade que já citei anteriormente. O fato de que as faixas são próximas em questão de nível, de melodia, que se completam e foram bem selecionadas, deixando o álbum fluir naturalmente é o que faz a banda sobressair entre as outras do mesmo estilo.

Por fim, é um álbum bom, que mesmo sendo um pouco que mais do mesmo, ainda agrada e tem tudo pra ser um favorito e estar presente sempre que formos buscar por um álbum tranquilo e muito bem feito.

OUÇA: “Talking Backwards”, “Primitive” e “Past Lives”

Swim Deep – Where The Heaven Are We

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Quatro caras de Birmingham foram os responsáveis pelo lançamento de um dos mais interessantes álbuns de 2013: In Love, projeto de estréia do Peace, trouxe novos ares pra música britânica e certamente vai ganhar um espaço nas listas de melhores do ano que circularão por aí. Contudo, não é só de Peace que vive a “B-Town”, cena musical que ganha destaque na região central da Inglaterra, de onde também veio o Swim Deep.

Com cabelos tão desgranhados como o de seus conterrâneos, o Swim Deep tenta ganhar um pouco da relevância conquistada pelo debut do Peace. Depois de passarem o último ano divulgando alguns singles e um EP, finalmente lançaram Where The Heaven Are We. O álbum de estréia da banda britânica tem seus méritos, porém não foi o suficiente para dá-los o sucesso que o vocalista Austin Williams já diz almejar.

Carregando  influências do indie pop do começo dos anos noventa, parece a perfeita trilha sonora para o verão do hemisfério norte quando foi lançado. Where The Heaven Are We conquista com suas letras, refletindo tudo o que passa pela mente de um cara de vinte e poucos anos que ainda não sabe muito bem como quer levar a vida. “King City”, hit da banda, é praticamente uma ode à leviandade juvenil, revelando até mesmo uma paixão platônica pela baixista do Warpaint, Jenny Lee Lindberg. Já as melodias mais-do-mesmo deixam a desejar. O álbum soa como se banda estivesse tão preocupada em agradar com seu debut que não exploraram a mesma honestidade adotada na construção das letras quando compuseram a parte melódica, acompanhada por um vocal que parece uma tentativa estranha de Bobby Gillespie, do Primal Scream.

Where The Heaven Are We é um bom começo, prova que o Swim Deep tem potencial, mas também deixa claro que ainda são musicalmente imaturos para o sucesso. Apesar de conquistarem com letras divertidas e melodias fáceis, ainda falta para a banda consolidar sua identidade. Deixar um pouco de lado suas referências e desenvolver um tom mais independente e original são riscos que devem ser assumidos se o Swim Deep quer realmente se destacar.

OUÇA: “Honey”, “Francisco” e “She Changes The Weather”