Solange – When I Get Home



A consanguinidade no meio musical sempre foi matéria de fascínio, ou de fuga da neutralidade no mundo das opiniões. O mundo pop está cheio destes exemplos, onde vínculos fraternos são presas fáceis para o apetite sensacionalista, insaciável por entretenimento de seus consumidores (jornalistas, críticos, formadores de opinião e até mesmo fãs). Jogos de ciúmes, declarações atravessadas, ou a mais singela das discordâncias geraram oceanos de histórias e  implacável cobertura midiática. Que digam os Jacksons, os Jonas e – claro, numa espécie de estado apoteótico do escrutínio público – os Gallaghers. Mas o que torna esse fenômeno midiático-comunicacional contemporâneo em uma ameaça inócua no caso da toda poderosa família Knowles? “I’m not her and I’ll never be” diz a caçula, que complementa “There’s a big age gap and we are two very different characters.”  Não há como concordar mais. Beyoncé à parte, Solange Knowles é um universo criativo próprio, de influências e estilos completamente diferentes; opostos em vários sentidos. Bem é verdade, Solange nunca foi sombra de Beyoncé, e seu novo disco representa cem passos adiante dessa eventual posição conflituosa.

When I Get Home (2019), lançado de supetão (o modus operandi recente de Beyoncé) no último mês, é uma expressão de liberdade pessoal e personalista de Solange. Das coisas que ela viu e imaginara (“Things I Imagined”). Se em A Seat At The Table (2016), um dos melhores deste referido ano (junto com Lemonade), Solange reage ao exterior e se posiciona em relação às inúmeras injustiças e a doída realidade que lhe é imposta enquanto mulher negra, aqui ela parece destravar pesos, permitir-se à experimentar e, portanto, partir para uma nova fronteira de percepção e de criação. Do pouco que sabemos da vida privada de Solange, a artista passou por um processo duro de tratamento de um distúrbio nervoso pouco conhecido nos últimos dois anos. É o período que coincide com a produção deste álbum e pode ter sido o trigger  necessário deste seu novo momento. Em entrevista à VICE, a artista se debruça sobre o tópico:

“Going through a transition where things were happening to my body that were out of my control, I got to the place where there was no fear surrounding my body, and it belongs to me in a whole new way (…) It’s been a beautiful love affair that took me time. I’ve always been connected to my sexuality and sensuality, but so much of that was re-grounded during this time. The freedom I got to feel was amazing. I learned you can create those spaces; you don’t need anyone else to have your moment.”

Mesmo não conhecendo os bastidores criativos, é bem provável que a audição do álbum leve a conclusões, senão as mesmas, bem parecidas com os objetivos de Solange. Em 39 minutos, o disco é sensualidade, mas não possui exatamente a cadência que se espera do comum “disco sensual”. O que nos leva a talvez única falha deste projeto: o número enorme de interludes, principalmente na primeira metade do disco. Ao deixar correr o play, When I Get Home demora a decolar em sua própria proposta, já que o transe é sempre perturbado por um ou outro interlude de 1 minuto. Tudo fica um pouco fragmentado nessa turbulência: loopings quebrados, samples em camadas e outros artifícios. A partir da sexta faixa, “Stay Flo”, o som finalmente alça vôos mais abrangentes e entrega o potencial esperado, até chegar em seu ápice, “Binz”. Outro momento de fulgor é a trinca final, com destaque para a ótima “Sound Of Rain”, meio eletrônica, meio soul, meio tudo.

Mas não se engane, o disco passa longe de ser palatável, mesmo em seus momentos mais acomodados. Exige-se aqui atenção e detalhe com as músicas. Afinal, é do universo interior de uma pessoa e sua identidade que este álbum se faz versa e prosa. A lógica, o método não são as únicas vozes a serem levadas em consideração, especialmente quando falamos do self de Solange Knowles.

A produção assinada pelo time estrelado composto pela própria Solange, Dev Hynes (Blood Orange), Christophe Chassol (Frank Ocean) e outros é hipnótica. Os pianos elétricos soam macios, os sintetizadores e a percussão complementam a voz de Knowles como se fossem seus backing vocals. Não é nada parecido com o que vimos antes, embora esse projeto beba da mesma água do LP1 da FKA twigs: o afrofuturismo é uma grande força do disco. Mas Solange atua para trazer essa estética ao seio de sua mensagem. A mensagem de liberdade sobre a qual falei. E para ela, a liberdade está fortemente ligada ao lar. E lar para ela é Houston, TX. Como produto disso tudo, surge o conceito da cowgirl futurista texana, não só expresso imageticamente pelos clipes que acompanham as músicas nas plataformas de streaming e nos vídeos do YouTube, mas também em temas líricos escolhidos e num punhado de sonoridades diferentes. Portanto, Houston (como cidade, como espacialidade afetiva) e influências sulistas também são ingredientes importantes nesse grande bolo.

Como se percebeu, o álbum é uma miríade artística, ou melhor, uma instalação artística em um pavilhão gigante:são estímulos visuais, sonoros e emocionais que se entrelaçam para gerar um resultado rico, mas complicado de se enxergar através; “I can’t be a singular expression of myself, there’s too many parts, too many spaces, too many manifestations…”, denuncia “Can I Hold The Mic”. Solange assim anda entre o exagero, o artificial e a genialidade. Dessa vez acerta na dose de um e de outro, e bota seu quarto LP como seu melhor produto. Bem-vinda em casa, Solange.

OUÇA: “Down With The Clique”, “Binz” e “Sound Of Rain”

Hozier – Wasteland, Baby!



É injusto limitar um artista ao seu maior sucesso, mas dificilmente dá pra descrever o novo trabalho de Hozier sem resgatar os elementos que tornaram “Take Me To Church” um sucesso mundial. Quase meia década após o debut, o irlandês retorna com seu segundo álbum, Wasteland, Baby!, carregando um compilado de partes que parecem recicladas do primeiro disco.

Hozier começa o novo álbum com “Nina Cried Power”, contando com a participação da cantora Mavis Staples. A faixa foi lançada em 2018, em formato de EP, e traz na letra nomes que se tornaram lendas da música e do ativismo como Nina Simone, John Lennon, James Brown e Billie Holiday. O tom apocalíptico do gospel/soul acompanhado de uma mensagem de esperança em pleno fim do mundo é o que guia o Wasteland, Baby! durante seus 57 minutos de duração.

O coral, o som do órgão com elementos do blues misturado com folk se juntam a voz poderosa de Hozier, lembrando a fórmula de Take Me to Church e sentida em diversos momentos. Apesar da preocupação em encontrar um sucessor à altura, o acerto de Hozier foi não deixar essa fórmula saturada. Wasteland, Baby! (e toda sua carreira) não são apenas isso.

O diferencial fica por conta das faixas “No Plan” e “Be”, que destacam a guitarra e aceleram o ritmo do disco. O álbum termina com a música que o batizou e também resume toda sua história. A imagem que Wasteland, Baby! – tanto o disco quanto a faixa – traz é de um passeio pelo fim do mundo, mas um passeio que deve ser feito a dois. Tudo isso é finalizado com um sucinto e sacana “That’s it”.

Wasteland, Baby! é um tanto mais do mesmo, porém isso não significa que o mesmo deve ser desmerecido. Hozier não hesita em tentar repetir o fenômeno anterior, afinal todo seu sucesso se deve a inovação de levar o folk e o soul para um púlpito. Talvez o novo disco não tenha um hit para as rádios, mas com certeza tem toda a essência de seu criador.

OUÇA: “Nina Cried Power”, “No Plan” e “Wasteland, Baby!”

Alessia Cara – The Pains Of Growing


A Alessia Cara cresceu, bixo. E, é claro, a Alessia Cara lançou um álbum sobre crescer, o famoso álbum “coming of age” que muita gente que começa a carreira cedo acaba fazendo em seu segundo ou terceiro disco ou ainda mais pra frente. Vimos isso recentemente com a Adele ou com o Vaccines, mas o que não faltam são exemplos de bandas ou artistas que suportam o peso da idade escrevendo sobre ele e fazendo música em cima dessa fase da vida. The Pains Of Growing não fica longe do melodrama que muita gente passa ao crescer e mudar de uma juventude caótica para uma fase adulta que precisa tomar rédeas de situações inéditas.

Aqui, Cara vai mais para o reggae e o folk, abandonando um pouco o pop e o R&B que deixaram ela tão famosa no primeiro disco – e isso, talvez, seja a primeira das falhas. A canadense abusa do violão e da sua voz que combina perfeitamente com esse tipo de som, mas não deixa essa melodia tão confortável para nossos ouvidos, criando músicas, por muitas vezes, sem muito diferencial e sem muito potencial para nos conquistar como aconteceu no seu primeiro disco – Know-It-All tem tanta coisa que é apaixonante a primeira ouvida que é difícil escrever sem parecer uma lista infinita.

Por ser longo, The Pains Of Growing acaba tendo bastante música dispensável, então, deixando o miolo do álbum bastante pobre e prolixo, o que faz o álbum se arrastar em pontos bastante críticos para que a audiência se mantenha constantemente cativada. A trinca “All We Know”, “A Little More” e “Comfortable” são bastante difíceis de aguentar, com Cara se arriscando em coisas estranhas para ela. “Nintendo Game” retoma um pouco o ritmo e entrega uma das músicas mais divertidas do disco.

Em resumo, The Pains Of Growing coloca a Alessia Cara com um álbum mediano e que não vai ter tanto burburinho da mídia especializada – além de ter sido lançado numa época ruim, foi abafado pela estrondosa popularidade do The 1975 com seu terceiro disco. Falar sobre a adolescência deu certo no primeiro álbum e, claramente, poderia ter dado certo aqui falar sobre o crescimento, mas Alessia Cara peca em muitos momentos para tornar o álbum tão cativante quanto o anterior. A vida adulta pesou bastante para ela e isso acaba ficando nítido na qualidade das músicas.

OUÇA: “Growing Pains”, “Not Today” e “Easier Said”

NAO – Saturn


Com Lorde, nós temos 19 anos e estamos com fogo no rabo, já a Taylor Swift se sente com 22 e quer continuar dançando. Mas e com 29 anos? Foi pensando na expressão que seu amigo sempre lhe dizia – retorno de Saturno – que a cantora londrina NAO lança o segundo álbum de sua carreira.

O planeta Saturno demora 29 anos para fazer dar uma volta em sua órbita. E é esse simbolismo de crescimento pessoal, amadurecimento que está presente em todo o álbum. A cantora já passou pelo coming of age dos 20 e começa a repensar seus próprios comportamentos e valores. A crise dos 30 está chegando, mas ela não é tão assustadora como dizem, para NAO é um momento de transformação.  ‘E é assim que deve ser / Você sai e retorna / Você é como Saturno para mim, para mim / Eventualmente você vai continuar a me dar o que eu preciso‘, afirma a cantora na faixa-base “Saturn”.

NAO mostra-se protagonista da própria obra, ou melhor do seu próprio retorno de Saturno. Os conflitos pessoais e as desilusões amorosas não parecem ter o mesmo peso que antes, em canções como Don’t Change, ela parece se abster, flutuar diante dessa narrativa. Esse certo distanciamento, no entanto não impede que ela se doe para as letras como fica claro em If You Ever.

Em “Orbit”, uma das canções mais tristes do disco, ela canta  ‘Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que eu conheci / Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que me superou também / Ele me liberou em órbita / Ainda assim, encontrei uma maneira de navegar até você‘. Versos que funcionam como uma síntese do tom em relação a vida amorosa que permeia todo o disco.

Seguindo a linha do seu primeiro disco, a nova produção de NAO ainda conta com faixas menos contemplativas, como “Drive And Disconnect”,  pop latino dançante que lembra artistas como Rosalía. Mesmo com algumas melodias um pouco repetitivas, em seu segundo álbum NAO mostra que não apenas está preparada para o seu retorno de Saturno como esse retorno também simboliza sua força e talento para carreira musical. Um disco mais maduro, ousado e não menos tocante.

OUÇA: “Another Lifetime”, “Orbit” e “Drive And Disconnect”

Neneh Cherry – Broken Politics


Broken Politics, belo novo álbum da Neneh Cherry, foi lançado em 19 de outubro, e se constitui como mais um belo trabalho na sequência de bons álbuns da carreira de Neneh. A cantora sueca, um dos grandes nomes femininos da década de 90 sempre trabalhou a partir de sonoridades menos heterodoxas. Flertando com uma estética eletrônica soturna (dependendo da faixa), bastante tributária do trip-hop, porém assimilando estruturas mais comuns nos anos 2000, como o uso de vinhetas (“Poem Daddy”), Neneh produziu um álbum cujo título parece remeter também ao atual zeitgeist da contemporaneidade: broken politics, política esfacelada, como a ausência de diálogo e o autoritarismo de governos de extrema-direita espoucando pelo mundo.

A simplicidade límpida de “Synchronised devotion”, até as texturas e o piano sorumbático de “Deep vein thrombosis”, passando pelo tri-hop repaginado de “Kong”, que bebe muito nas sonoridades de Tricky e Massive Attack. “Faster than the truth” apresenta uma construção orgânica massuda de bateria pontuada por teclados atmosféricos. “Natural skin” é interessante, apesar dos efeitos já um pouco datados, e que poderiam estar no Ray of Light da Madonna.

Broken Politics dá uns escorregões pontuais, mas com certeza absoluta pode ser considerado um dos trabalhos mais interessantes desse 2018 às portas do fim. Neneh Cherry confirma assim sua fama de uma das artistas mais interessantes dos últimos 25 anos.

OUÇA: “Kong”, “Synchronised Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”.

Tom Grennan – Lighting Matches


A primeira vez que eu vi Tom Grennan foi em um clipe da Charli XCX. Brinco de cruz. Jaqueta rosa com estampa floral. Aquele corte de cabelo enquanto ele lavava vasilhas em meio a várias outras celebridades chamou minha atenção e eu tinha que saber quem era aquela beldade. E aquele ditado, “se a Charli gosta, a gente gosta”.

Isso foi lá em fevereiro de 2017, e levou quase um ano e meio para que Tom Grennan entregasse o seu disco de estreia. Lighting Matches é um reforço para o pop britânico, e vem junto com um cantor de grande personalidade e com um  rosto tão bonito que faz a gente querer ser adolescente mais uma vez e colocar um pôster dele no teto do quarto.

O álbum tomou como referência grande parte do que fez sucesso nas rádios britânicas na última década. Um quê de Amy Winehouse, um pouco da melancolia de James Blunt. Uma atitude de Adele, uns vocais do John Newman. Tudo isso em uma confiança de Harry Styles e o produto final é um artista extremamente palatável e pronto para o mercado. Obviamente a gravadora viu Tom Grennan um provável sucesso, e investiu em um álbum seguro e comercial para o debut.

Para sustentar essa promessa, um time forte de produtores e compositores foi alçado. Dentre eles, Charles Hugall (Ed Sheeran, Florence and The Machine), Jimmy Hogart (James Blunt, Amy Winehouse, Corinne Bailey Rae, Duffy), Fraser T Smith (Adele, Sam Smith), até mesmo Diane Warren. Fica óbvio que a gravadora realmente acredita do potencial dele. A estratégia foi então pulverizar os vocais de Grennan em um extenso espectro de sonoridades e agradar gregos e troianos. Desde um neo-soul até um indie post-punk, Lighting Matches é fácil de ser reconhecido e provavelmente envolverá o ouvinte em algum momento.

O álbum abre com “Find What I’ve Been Looking For”, um riff The Kooks-esque, e daí pra frente são uma hora de possíveis hits. “Royal Highness” faz a linha indie club banger, e “Run In The Rain” é tão dramática que facilmente entraria para alguma trilha Sonora de James Bond. Tudo é facilmente reconhecido, nada causa estranheza, e isso é um fator positivo.

“I Might” é talvez um dos altos momentos do álbum, sustentada por violinos e uma batida bem mercada enquanto Tom fala sobre amor de uma maneira clichê. “Make ‘Em Like You”, logo em seguida, é uma faixa extremamente redonda. Produzida por Joel Pott, que trabalhou com Shura, repete seu formulaico pop e acerta em cheio.

Liricamente, o álbum passa por temas que não impressionam pela banalidade. Solidão, álcool, amor. Tom Grennan pouco se aventura tanto em termos musicais quanto líricos. A autenticidade do disco ficam reservados aos vocais rasgados e as sotaque do cantor de Bedford.  As músicas são tão palatáveis que se colocadas no aleatório podem ser apreciadas da mesma forma. Esse fato é talvez o pior aspecto do disco: a falta de uma unidade de trabalho. Não existe algo marcante que amarre as faixas e as permitam se destacar individualmente. A homogeneidade atrapalha um pouco, e ao longo de dezesseis faixas o ouvinte pode perder um pouco o foco.

No entanto, serve como um ponto de início para um próximo álbum. O cantor tem sido extremamente elogiado por entregar performances ao vivo enérgicas e vivas. Junto ao carisma, tem potencial de se tornar um headliner de festivais em pouco tempo. We’re rooting for you, Tom Grennan!

OUÇA: “Royal Highness”, “I Might” e “Make ‘Em Like You”

Jorja Smith – Lost & Found


O título do primeiro álbum da britânica Jorja Smith se esclarece de maneira sublime durante o processo que é escutar esse disco suave e que, com tal leveza, consegue atravessar momentos que se aproximam a uma implosão emocional dura de se presenciar.

O tom de voz perfeito ao R&B que não precisa de muito para sobressair se alia às melodias suaves para tornar Lost & Found um momento introspectivo e essencialmente musical raro em um álbum de estreia. Completo, profundo e por vezes amargo, é a construção de uma metáfora sobre perda e reencontro, com uma densa visão própria. Sem resposta aparente para todos os questionamentos, parece valer a pena simplesmente pelo fato de conseguir transmitir seus dilemas de forma excepcional.

O início do álbum indica a cantora aceitando a perda – de forma ampla. Com melodias leves em que a voz é a protagonista, “Teenage Fantasy”, “Where Did I Go?” e “February 3rd” dialogam com esse desencontro, em que Smith conversa consigo mesma e com seu exterior. A artista se apresenta firme e ciente de si: o projeto é extremamente maduro, em termos de sonoridade, de lírica e, inclusive, na forma como utiliza sua voz. Smith tem o controle, mesmo quando aceita sua própria perda e enfrenta as parcelas mais duras do álbum, o faz de forma firme. Lost & Found evolui, assim, para um disco afirmativo. Nele, além de ser extremamente introspectiva, Smith é honesta e também muito objetiva em termos da sua personalidade e maturidade artística.

Particularmente em “Teenage Fantasy”, por exemplo, a cantora utiliza sua voz para dar um dos  pontos altos ao álbum, quando o refrão inicia. Retomando o R&B numa atmosfera semelhante ao final dos anos noventa e início da década de 2000, Smith transporta com facilidade: com batida sutil associada a um piano delicado, encarna a melancolia da turbulenta transição de milênio, podendo ser comparada a uma Amy Winehouse de Frank (2003). A composição das músicas é semelhante e marcada pelo minimalismo, mas não menos interessantes, em grande parte pela sua versatilidade vocal. Em “February 3rd”, Smith confecciona outro dos momentos altos do álbum ao criar uma faixa com realidade nostálgica, ao mesmo tempo em que possui elementos bastante contemporâneos. Para além disso, utiliza excepcionalmente, mais uma vez, sua voz, principalmente prestes ao fim da música, em que todos os elementos (vocal a instrumental) convergem naturalmente.

Em músicas como “The One”, na qual a cantora reconhece sua própria carência afetiva, não se limita apenas a descrever seu sentimento como um vazio de preenchimento necessário. Smith reconhece sua perda mas, ao mesmo tempo, também está ciente do que isso implica. Não esconde, mas sua vulnerabilidade está associada a uma grande noção de autoconhecimento: Smith reflete sobre o que significa a sua necessidade de “querer”, direcionando a narrativa para não sentir que há “algo” a se preencher.

A perda com a qual a cantora conversa assume formas distintas e se apresenta de maneira dolorosa (como na faixa “Blue Lights”, em que dialoga com o medo à polícia e violência do bairro em que nasceu numa metáfora de culpa sem motivo) ao mesmo tempo em que é revitalizadora e, nesse caso, toma a forma de uma espécie de reencontro. Essa dualidade nostálgica serve como apoio para a exposição das mensagens.

“Tomorrow” e “Don’t Watch Me Crying”, possivelmente dentre os momentos mais dolorosos do disco, também o finalizam. Após apresentar tanta estruturação e eloquência na forma de transmitir, é como se, nesse último suspiro, a cantora se permite ser relativamente inconsequente: a simplicidade das músicas dá espaço a uma abertura emocional dolorosa que encerra o álbum com aquilo que parece ser o mais importante, a honestidade. O reconhecimento de si mesma não de forma prepotente mas sim muito assertiva e demarcando, justamente, a perda e o reencontro como possíveis metáforas para esse processo de autoconhecimento.

O minimalismo, apesar de interessante pelo destaque a cada elemento da composição, pode em certos momentos dar abertura a uma percepção de monotonia ou falta de variação mas que, ao considerá-la em detalhe, é possível contornar.

Para além da introspecção, a britânica consolida uma estréia sólida e rara, deixando grandes expectativas perante seu próximos trabalhos e mostrando-se como artista e compositora com muito a contribuir em termos de narrativa no cenário musical e, claro, habilidade técnica.

OUÇA: “Teenage Fantasy”, “February 3rd”, “The One” e “Don’t Watch Me Cry”

Leon Bridges – Good Thing


Leon Bridges procurou nesse novo projeto manter suas raízes soul e R&B que o elevaram aos holofotes ao mesmo tempo que tentou adicionar uma pitada de modernidade ao seu som.

Sua admiração por ícones da música soul dos anos 60 gerou um álbum sólido, refrescante e memorável. Lembro de ouvir “River” na trilha sonora da série Big Little Lies, em um contexto que tornou a música ainda mais bonita e profunda. Quando soube que Leon lançaria um segundo projeto esse ano, confesso que me interessei pelo que o jovem artista faria para dar sequência a sua carreira pós “Coming Home”.

Vejo o Good Thing não como uma definição perene de seu novo som, mas como uma experimentação de novos elementos. Quando um artista usa um álbum para testar novas direções, muitas vezes sacrifica a coesão e a estrutura de um álbum. O que eu creio que Leon Bridges conseguiu nesse novo projeto foi testar novas águas sem sacrificar a identidade de suas letras e vocais cheios de soul.

Conseguiu entregar um álbum coeso e bem estruturado? Na minha opinião, não. Good Thing conseguiu o suficiente para Leon conseguir superar Coming Home? Minha resposta tende para não. Existem faixas memoráveis. “Shy” e “Beyond” foram direto para minha playlist do dia-a-dia.

“You Don’t Know” soa como se Bridges estivesse com um pé na zona dance/pop, tentando realmente aumentar o espectro de sua fanbase. Por todo álbum, pode-se ouvir a influência de sons mais modernos e samples mais tecnológicos, mesclando-se ao tom retro dos vocais.

Esse novo projeto serviu com certeza para me interessar nos próximos passos do artista, apesar de a sombra do ícone que é “River” e do grande álbum que foi Coming Home ainda serem maiores que as novidades propostas por Leon em Good Thing.

OUÇA: “Shy”, “Beyond” e “You Don’t Know”.

Kali Uchis – Isolation


Após alguns anos de espera, chega às ruas o Isolation, o tão aguardado debut de Kali Uchis, a cantora colombiana-estadunidense que ganhou maior reconhecimento após sua participação no elogiado (Scum Fuck) Flower Boy do rapper Tyler, The Creator.

Antes de Isolation, Kali Uchis havia lançado apenas um EP de nome Por Vida, que já contava com faixas produzidas por Tyler, The Creator, Kaytranada e BADBADNOTGOOD. Isolation, apesar de ser o primeiro álbum de Kali Uchis, consolida a cantora entre os principais artistas em ascensão no cenário musical atual, pois conta com uma produção impecável e multifacetada, faixas com letras interessantes e muito bem escritas e participações de peso como Tyler, The Creator, Jorja Smith e Reykon.

A primeira impressão que se tem de Isolation é que este é um álbum recheado de influências. Kali Uchis apresenta grande versatilidade ao navegar por um conjunto diversificado de estilos e influências espalhado pelas faixas.

A cantora navega tranquilamente pelas águas do pop contemporâneo em faixas como “Dead To Me” e “Just A Stranger”, passando pelo R&B clássico em “Flight 22”, “Killer” e “Feel Like a Fool”, pelo R&B alternativo como em “Your Teeth In My Neck”, “Tomorrow” e “Gotta Get Up – Interlude”, pelo eletropop/indie em “In My Dreams” e desembocando no reggaeton e dancehall com “Nuestro Planeta” e “Tyrant”.

As letras das faixas descrevem de forma rica quem é Kali Uchis, seu passado nas ruas colombianas, sua ida para os EUA e as dificuldades de se estabelecer como uma cantora estrangeira em terras norte-americanas, relacionamentos passados e até canções empoderadas e motivacionais como o hit “After The Storm”.

O que impressiona em Isolation é a extrema qualidade de todas as faixas, mesmo navegando entre diversos estilos musicais. O resultado é um álbum sólido, muito bem produzido e capaz de figurar entre os melhores álbuns do ano. Com toda certeza, Kali Uchis é um nome que veio para ficar.

OUÇA: “Nuestro Planeta”, “After The Storm” e “Tyrant”.

Paloma Faith – The Architect


A maternidade. Eu não sou mãe e nem poderia ser para conseguir falar com propriedade sobre o que é passar por esse marco na vida. Mesmo assim, pensar que sua vida não é mais a única pela qual você será responsável durante boa parte da sua vida te leva a pensar em inúmeras situações complicadas e enxergar o mundo de outra forma, totalmente diferente do seu pensamento anterior. Os problemas sociais, políticos, econômicos, ambientais, entre outros, começam a ter um peso diferente e tudo parece impactar o seu futuro de uma maneira gigante. A Paloma Faith teve seu primeiro filho no final de 2016. E está bem claro que The Architect carrega todo esse peso [ser mãe] em seus pormenores.

O quarto disco da cantora, como a mesma declarou, é uma observação social. The Architect aparece depois da maternidade de Faith e leva todo esse peso de pensamentos sobre o futuro – como ele vai ser, como evitar dele ser catastrófico, como proteger a humanidade, etc. Sobretudo, então, esse álbum é um disco praticamente temático e é o primeiro dela que se insere nesse panorama. Apesar de seu processo de criação ter começado antes da maternidade, acredito que boa parte dele foi pensado posteriormente ou durante a gravidez da britânica. Está nítido nas letras e em algumas melodias uma certa urgência por algo melhor e maior – vide “Kings And Queens” – e a preocupante “WW3”, que parece a realidade que vivemos atualmente.

Faith também afirma que é a primeira vez que ela olha pra fora do seu pensamento, que olha para a sociedade e que versa sobre o futuro. Todos os outros discos, realmente, são sobre o amor e sobre si. The Architect não deixa de ser uma oportunidade para falar mais sobre como ela pensa politicamente e sobre como ela enxerga o mundo; pode olhar para fora de si, mas não se afasta muito de sua persona – no final das contas é autocentrado como os outros e isso é mero detalhe aqui.

Então é aqui que, provavelmente, veremos o máximo de veia política na música da cantora. Ela tem um público assumidamente mais inclinado ao pop que de política não quer saber muito, é claro. Paloma Faith fez um disco falando sobre o futuro e seus anseios para um descarrego emocional, praticamente, e fez bastante coisa bonita aqui. Depois de ter sido convidada para ser jurada do The Voice UK – Paloma é uma das personas mais influentes da música britânica, atualmente – eu esperava que ela fosse guinar totalmente ao pop – algo como fizera em Fall To Grace –, mas, felizmente, vemos alguns bons sons ligados ao soul e ao quasi gospel típicos do primeiro e terceiro álbuns da moça – como a própria “Crybaby”, primeiro single desse aqui.

Musicalmente falando, The Architect não tem muita novidade em suas músicas. É uma continuação do que a cantora fazia e continua fazendo muito bem; infelizmente as suas guinadas em direção ao pop (como “Still Around”) acabam ficando cansativas com as letras repetitivas e os sintetizadores batidos e, mais uma vez, tirando boa parte da força do álbum (como fez com seu segundo disco), que começa muito bem e vai decaindo e decaindo…; Paloma Faith ainda tem uma força magnífica em sua voz e são nessas mergulhadas em um som mais chiclete que ela acaba estragando o brilho do seu maior diferencial. De qualquer modo, a maternidade, no fim das contas, parece ter caído muito bem para ela e o disco é um belo exemplo de como aplicar esse marco na vida em forma de música – nem sempre tão boa, claro, mas interessante.

OUÇA: “Guilty”, “Crybaby” e “Kings And Queens”