NAO – Saturn


Com Lorde, nós temos 19 anos e estamos com fogo no rabo, já a Taylor Swift se sente com 22 e quer continuar dançando. Mas e com 29 anos? Foi pensando na expressão que seu amigo sempre lhe dizia – retorno de Saturno – que a cantora londrina NAO lança o segundo álbum de sua carreira.

O planeta Saturno demora 29 anos para fazer dar uma volta em sua órbita. E é esse simbolismo de crescimento pessoal, amadurecimento que está presente em todo o álbum. A cantora já passou pelo coming of age dos 20 e começa a repensar seus próprios comportamentos e valores. A crise dos 30 está chegando, mas ela não é tão assustadora como dizem, para NAO é um momento de transformação.  ‘E é assim que deve ser / Você sai e retorna / Você é como Saturno para mim, para mim / Eventualmente você vai continuar a me dar o que eu preciso‘, afirma a cantora na faixa-base “Saturn”.

NAO mostra-se protagonista da própria obra, ou melhor do seu próprio retorno de Saturno. Os conflitos pessoais e as desilusões amorosas não parecem ter o mesmo peso que antes, em canções como Don’t Change, ela parece se abster, flutuar diante dessa narrativa. Esse certo distanciamento, no entanto não impede que ela se doe para as letras como fica claro em If You Ever.

Em “Orbit”, uma das canções mais tristes do disco, ela canta  ‘Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que eu conheci / Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que me superou também / Ele me liberou em órbita / Ainda assim, encontrei uma maneira de navegar até você‘. Versos que funcionam como uma síntese do tom em relação a vida amorosa que permeia todo o disco.

Seguindo a linha do seu primeiro disco, a nova produção de NAO ainda conta com faixas menos contemplativas, como “Drive And Disconnect”,  pop latino dançante que lembra artistas como Rosalía. Mesmo com algumas melodias um pouco repetitivas, em seu segundo álbum NAO mostra que não apenas está preparada para o seu retorno de Saturno como esse retorno também simboliza sua força e talento para carreira musical. Um disco mais maduro, ousado e não menos tocante.

OUÇA: “Another Lifetime”, “Orbit” e “Drive And Disconnect”

Neneh Cherry – Broken Politics


Broken Politics, belo novo álbum da Neneh Cherry, foi lançado em 19 de outubro, e se constitui como mais um belo trabalho na sequência de bons álbuns da carreira de Neneh. A cantora sueca, um dos grandes nomes femininos da década de 90 sempre trabalhou a partir de sonoridades menos heterodoxas. Flertando com uma estética eletrônica soturna (dependendo da faixa), bastante tributária do trip-hop, porém assimilando estruturas mais comuns nos anos 2000, como o uso de vinhetas (“Poem Daddy”), Neneh produziu um álbum cujo título parece remeter também ao atual zeitgeist da contemporaneidade: broken politics, política esfacelada, como a ausência de diálogo e o autoritarismo de governos de extrema-direita espoucando pelo mundo.

A simplicidade límpida de “Synchronised devotion”, até as texturas e o piano sorumbático de “Deep vein thrombosis”, passando pelo tri-hop repaginado de “Kong”, que bebe muito nas sonoridades de Tricky e Massive Attack. “Faster than the truth” apresenta uma construção orgânica massuda de bateria pontuada por teclados atmosféricos. “Natural skin” é interessante, apesar dos efeitos já um pouco datados, e que poderiam estar no Ray of Light da Madonna.

Broken Politics dá uns escorregões pontuais, mas com certeza absoluta pode ser considerado um dos trabalhos mais interessantes desse 2018 às portas do fim. Neneh Cherry confirma assim sua fama de uma das artistas mais interessantes dos últimos 25 anos.

OUÇA: “Kong”, “Synchronised Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”.

Tom Grennan – Lighting Matches


A primeira vez que eu vi Tom Grennan foi em um clipe da Charli XCX. Brinco de cruz. Jaqueta rosa com estampa floral. Aquele corte de cabelo enquanto ele lavava vasilhas em meio a várias outras celebridades chamou minha atenção e eu tinha que saber quem era aquela beldade. E aquele ditado, “se a Charli gosta, a gente gosta”.

Isso foi lá em fevereiro de 2017, e levou quase um ano e meio para que Tom Grennan entregasse o seu disco de estreia. Lighting Matches é um reforço para o pop britânico, e vem junto com um cantor de grande personalidade e com um  rosto tão bonito que faz a gente querer ser adolescente mais uma vez e colocar um pôster dele no teto do quarto.

O álbum tomou como referência grande parte do que fez sucesso nas rádios britânicas na última década. Um quê de Amy Winehouse, um pouco da melancolia de James Blunt. Uma atitude de Adele, uns vocais do John Newman. Tudo isso em uma confiança de Harry Styles e o produto final é um artista extremamente palatável e pronto para o mercado. Obviamente a gravadora viu Tom Grennan um provável sucesso, e investiu em um álbum seguro e comercial para o debut.

Para sustentar essa promessa, um time forte de produtores e compositores foi alçado. Dentre eles, Charles Hugall (Ed Sheeran, Florence and The Machine), Jimmy Hogart (James Blunt, Amy Winehouse, Corinne Bailey Rae, Duffy), Fraser T Smith (Adele, Sam Smith), até mesmo Diane Warren. Fica óbvio que a gravadora realmente acredita do potencial dele. A estratégia foi então pulverizar os vocais de Grennan em um extenso espectro de sonoridades e agradar gregos e troianos. Desde um neo-soul até um indie post-punk, Lighting Matches é fácil de ser reconhecido e provavelmente envolverá o ouvinte em algum momento.

O álbum abre com “Find What I’ve Been Looking For”, um riff The Kooks-esque, e daí pra frente são uma hora de possíveis hits. “Royal Highness” faz a linha indie club banger, e “Run In The Rain” é tão dramática que facilmente entraria para alguma trilha Sonora de James Bond. Tudo é facilmente reconhecido, nada causa estranheza, e isso é um fator positivo.

“I Might” é talvez um dos altos momentos do álbum, sustentada por violinos e uma batida bem mercada enquanto Tom fala sobre amor de uma maneira clichê. “Make ‘Em Like You”, logo em seguida, é uma faixa extremamente redonda. Produzida por Joel Pott, que trabalhou com Shura, repete seu formulaico pop e acerta em cheio.

Liricamente, o álbum passa por temas que não impressionam pela banalidade. Solidão, álcool, amor. Tom Grennan pouco se aventura tanto em termos musicais quanto líricos. A autenticidade do disco ficam reservados aos vocais rasgados e as sotaque do cantor de Bedford.  As músicas são tão palatáveis que se colocadas no aleatório podem ser apreciadas da mesma forma. Esse fato é talvez o pior aspecto do disco: a falta de uma unidade de trabalho. Não existe algo marcante que amarre as faixas e as permitam se destacar individualmente. A homogeneidade atrapalha um pouco, e ao longo de dezesseis faixas o ouvinte pode perder um pouco o foco.

No entanto, serve como um ponto de início para um próximo álbum. O cantor tem sido extremamente elogiado por entregar performances ao vivo enérgicas e vivas. Junto ao carisma, tem potencial de se tornar um headliner de festivais em pouco tempo. We’re rooting for you, Tom Grennan!

OUÇA: “Royal Highness”, “I Might” e “Make ‘Em Like You”

Jorja Smith – Lost & Found


O título do primeiro álbum da britânica Jorja Smith se esclarece de maneira sublime durante o processo que é escutar esse disco suave e que, com tal leveza, consegue atravessar momentos que se aproximam a uma implosão emocional dura de se presenciar.

O tom de voz perfeito ao R&B que não precisa de muito para sobressair se alia às melodias suaves para tornar Lost & Found um momento introspectivo e essencialmente musical raro em um álbum de estreia. Completo, profundo e por vezes amargo, é a construção de uma metáfora sobre perda e reencontro, com uma densa visão própria. Sem resposta aparente para todos os questionamentos, parece valer a pena simplesmente pelo fato de conseguir transmitir seus dilemas de forma excepcional.

O início do álbum indica a cantora aceitando a perda – de forma ampla. Com melodias leves em que a voz é a protagonista, “Teenage Fantasy”, “Where Did I Go?” e “February 3rd” dialogam com esse desencontro, em que Smith conversa consigo mesma e com seu exterior. A artista se apresenta firme e ciente de si: o projeto é extremamente maduro, em termos de sonoridade, de lírica e, inclusive, na forma como utiliza sua voz. Smith tem o controle, mesmo quando aceita sua própria perda e enfrenta as parcelas mais duras do álbum, o faz de forma firme. Lost & Found evolui, assim, para um disco afirmativo. Nele, além de ser extremamente introspectiva, Smith é honesta e também muito objetiva em termos da sua personalidade e maturidade artística.

Particularmente em “Teenage Fantasy”, por exemplo, a cantora utiliza sua voz para dar um dos  pontos altos ao álbum, quando o refrão inicia. Retomando o R&B numa atmosfera semelhante ao final dos anos noventa e início da década de 2000, Smith transporta com facilidade: com batida sutil associada a um piano delicado, encarna a melancolia da turbulenta transição de milênio, podendo ser comparada a uma Amy Winehouse de Frank (2003). A composição das músicas é semelhante e marcada pelo minimalismo, mas não menos interessantes, em grande parte pela sua versatilidade vocal. Em “February 3rd”, Smith confecciona outro dos momentos altos do álbum ao criar uma faixa com realidade nostálgica, ao mesmo tempo em que possui elementos bastante contemporâneos. Para além disso, utiliza excepcionalmente, mais uma vez, sua voz, principalmente prestes ao fim da música, em que todos os elementos (vocal a instrumental) convergem naturalmente.

Em músicas como “The One”, na qual a cantora reconhece sua própria carência afetiva, não se limita apenas a descrever seu sentimento como um vazio de preenchimento necessário. Smith reconhece sua perda mas, ao mesmo tempo, também está ciente do que isso implica. Não esconde, mas sua vulnerabilidade está associada a uma grande noção de autoconhecimento: Smith reflete sobre o que significa a sua necessidade de “querer”, direcionando a narrativa para não sentir que há “algo” a se preencher.

A perda com a qual a cantora conversa assume formas distintas e se apresenta de maneira dolorosa (como na faixa “Blue Lights”, em que dialoga com o medo à polícia e violência do bairro em que nasceu numa metáfora de culpa sem motivo) ao mesmo tempo em que é revitalizadora e, nesse caso, toma a forma de uma espécie de reencontro. Essa dualidade nostálgica serve como apoio para a exposição das mensagens.

“Tomorrow” e “Don’t Watch Me Crying”, possivelmente dentre os momentos mais dolorosos do disco, também o finalizam. Após apresentar tanta estruturação e eloquência na forma de transmitir, é como se, nesse último suspiro, a cantora se permite ser relativamente inconsequente: a simplicidade das músicas dá espaço a uma abertura emocional dolorosa que encerra o álbum com aquilo que parece ser o mais importante, a honestidade. O reconhecimento de si mesma não de forma prepotente mas sim muito assertiva e demarcando, justamente, a perda e o reencontro como possíveis metáforas para esse processo de autoconhecimento.

O minimalismo, apesar de interessante pelo destaque a cada elemento da composição, pode em certos momentos dar abertura a uma percepção de monotonia ou falta de variação mas que, ao considerá-la em detalhe, é possível contornar.

Para além da introspecção, a britânica consolida uma estréia sólida e rara, deixando grandes expectativas perante seu próximos trabalhos e mostrando-se como artista e compositora com muito a contribuir em termos de narrativa no cenário musical e, claro, habilidade técnica.

OUÇA: “Teenage Fantasy”, “February 3rd”, “The One” e “Don’t Watch Me Cry”

Leon Bridges – Good Thing


Leon Bridges procurou nesse novo projeto manter suas raízes soul e R&B que o elevaram aos holofotes ao mesmo tempo que tentou adicionar uma pitada de modernidade ao seu som.

Sua admiração por ícones da música soul dos anos 60 gerou um álbum sólido, refrescante e memorável. Lembro de ouvir “River” na trilha sonora da série Big Little Lies, em um contexto que tornou a música ainda mais bonita e profunda. Quando soube que Leon lançaria um segundo projeto esse ano, confesso que me interessei pelo que o jovem artista faria para dar sequência a sua carreira pós “Coming Home”.

Vejo o Good Thing não como uma definição perene de seu novo som, mas como uma experimentação de novos elementos. Quando um artista usa um álbum para testar novas direções, muitas vezes sacrifica a coesão e a estrutura de um álbum. O que eu creio que Leon Bridges conseguiu nesse novo projeto foi testar novas águas sem sacrificar a identidade de suas letras e vocais cheios de soul.

Conseguiu entregar um álbum coeso e bem estruturado? Na minha opinião, não. Good Thing conseguiu o suficiente para Leon conseguir superar Coming Home? Minha resposta tende para não. Existem faixas memoráveis. “Shy” e “Beyond” foram direto para minha playlist do dia-a-dia.

“You Don’t Know” soa como se Bridges estivesse com um pé na zona dance/pop, tentando realmente aumentar o espectro de sua fanbase. Por todo álbum, pode-se ouvir a influência de sons mais modernos e samples mais tecnológicos, mesclando-se ao tom retro dos vocais.

Esse novo projeto serviu com certeza para me interessar nos próximos passos do artista, apesar de a sombra do ícone que é “River” e do grande álbum que foi Coming Home ainda serem maiores que as novidades propostas por Leon em Good Thing.

OUÇA: “Shy”, “Beyond” e “You Don’t Know”.

Kali Uchis – Isolation


Após alguns anos de espera, chega às ruas o Isolation, o tão aguardado debut de Kali Uchis, a cantora colombiana-estadunidense que ganhou maior reconhecimento após sua participação no elogiado (Scum Fuck) Flower Boy do rapper Tyler, The Creator.

Antes de Isolation, Kali Uchis havia lançado apenas um EP de nome Por Vida, que já contava com faixas produzidas por Tyler, The Creator, Kaytranada e BADBADNOTGOOD. Isolation, apesar de ser o primeiro álbum de Kali Uchis, consolida a cantora entre os principais artistas em ascensão no cenário musical atual, pois conta com uma produção impecável e multifacetada, faixas com letras interessantes e muito bem escritas e participações de peso como Tyler, The Creator, Jorja Smith e Reykon.

A primeira impressão que se tem de Isolation é que este é um álbum recheado de influências. Kali Uchis apresenta grande versatilidade ao navegar por um conjunto diversificado de estilos e influências espalhado pelas faixas.

A cantora navega tranquilamente pelas águas do pop contemporâneo em faixas como “Dead To Me” e “Just A Stranger”, passando pelo R&B clássico em “Flight 22”, “Killer” e “Feel Like a Fool”, pelo R&B alternativo como em “Your Teeth In My Neck”, “Tomorrow” e “Gotta Get Up – Interlude”, pelo eletropop/indie em “In My Dreams” e desembocando no reggaeton e dancehall com “Nuestro Planeta” e “Tyrant”.

As letras das faixas descrevem de forma rica quem é Kali Uchis, seu passado nas ruas colombianas, sua ida para os EUA e as dificuldades de se estabelecer como uma cantora estrangeira em terras norte-americanas, relacionamentos passados e até canções empoderadas e motivacionais como o hit “After The Storm”.

O que impressiona em Isolation é a extrema qualidade de todas as faixas, mesmo navegando entre diversos estilos musicais. O resultado é um álbum sólido, muito bem produzido e capaz de figurar entre os melhores álbuns do ano. Com toda certeza, Kali Uchis é um nome que veio para ficar.

OUÇA: “Nuestro Planeta”, “After The Storm” e “Tyrant”.

Paloma Faith – The Architect


A maternidade. Eu não sou mãe e nem poderia ser para conseguir falar com propriedade sobre o que é passar por esse marco na vida. Mesmo assim, pensar que sua vida não é mais a única pela qual você será responsável durante boa parte da sua vida te leva a pensar em inúmeras situações complicadas e enxergar o mundo de outra forma, totalmente diferente do seu pensamento anterior. Os problemas sociais, políticos, econômicos, ambientais, entre outros, começam a ter um peso diferente e tudo parece impactar o seu futuro de uma maneira gigante. A Paloma Faith teve seu primeiro filho no final de 2016. E está bem claro que The Architect carrega todo esse peso [ser mãe] em seus pormenores.

O quarto disco da cantora, como a mesma declarou, é uma observação social. The Architect aparece depois da maternidade de Faith e leva todo esse peso de pensamentos sobre o futuro – como ele vai ser, como evitar dele ser catastrófico, como proteger a humanidade, etc. Sobretudo, então, esse álbum é um disco praticamente temático e é o primeiro dela que se insere nesse panorama. Apesar de seu processo de criação ter começado antes da maternidade, acredito que boa parte dele foi pensado posteriormente ou durante a gravidez da britânica. Está nítido nas letras e em algumas melodias uma certa urgência por algo melhor e maior – vide “Kings And Queens” – e a preocupante “WW3”, que parece a realidade que vivemos atualmente.

Faith também afirma que é a primeira vez que ela olha pra fora do seu pensamento, que olha para a sociedade e que versa sobre o futuro. Todos os outros discos, realmente, são sobre o amor e sobre si. The Architect não deixa de ser uma oportunidade para falar mais sobre como ela pensa politicamente e sobre como ela enxerga o mundo; pode olhar para fora de si, mas não se afasta muito de sua persona – no final das contas é autocentrado como os outros e isso é mero detalhe aqui.

Então é aqui que, provavelmente, veremos o máximo de veia política na música da cantora. Ela tem um público assumidamente mais inclinado ao pop que de política não quer saber muito, é claro. Paloma Faith fez um disco falando sobre o futuro e seus anseios para um descarrego emocional, praticamente, e fez bastante coisa bonita aqui. Depois de ter sido convidada para ser jurada do The Voice UK – Paloma é uma das personas mais influentes da música britânica, atualmente – eu esperava que ela fosse guinar totalmente ao pop – algo como fizera em Fall To Grace –, mas, felizmente, vemos alguns bons sons ligados ao soul e ao quasi gospel típicos do primeiro e terceiro álbuns da moça – como a própria “Crybaby”, primeiro single desse aqui.

Musicalmente falando, The Architect não tem muita novidade em suas músicas. É uma continuação do que a cantora fazia e continua fazendo muito bem; infelizmente as suas guinadas em direção ao pop (como “Still Around”) acabam ficando cansativas com as letras repetitivas e os sintetizadores batidos e, mais uma vez, tirando boa parte da força do álbum (como fez com seu segundo disco), que começa muito bem e vai decaindo e decaindo…; Paloma Faith ainda tem uma força magnífica em sua voz e são nessas mergulhadas em um som mais chiclete que ela acaba estragando o brilho do seu maior diferencial. De qualquer modo, a maternidade, no fim das contas, parece ter caído muito bem para ela e o disco é um belo exemplo de como aplicar esse marco na vida em forma de música – nem sempre tão boa, claro, mas interessante.

OUÇA: “Guilty”, “Crybaby” e “Kings And Queens”

Sharon Jones and The Dap Kings – Soul Of A Woman


Essa não vai ser uma resenha comum. Não mesmo. Esse texto estará muito mais perto de uma homenagem. Para a música, o ano de 2016 foi marcado pela perda de grandes talentos, incluindo Sharon Jones. A cantora de voz fenomenal, ao lado dos Dap-Kings, lançou verdadeiras pérolas recheadas de soul, funk e Rn’B ao longo dos últimos quinze anos. Parecia ficção a notícia de que Sharon, mulher negra, sofria um AVC concomitante às notícias da vitória de Donald Trump. No entanto, não era ficção e Sharon, sobrevivente de um câncer de pâncreas que retornara pouco tempo atrás, faleceria poucos dias depois do acidente. Eis, então, que neste ano somos presenteados com Soul Of A Woman, disco póstumo composto somente por canções inéditas, evidenciando Sharon no ápice de sua forma.

Sharon é dona de uma história improvável. Trabalhou como oficial em presídios e na guarda armada de transportes antes de garantir seu espaço na história da música. Com um passado em corais de igreja, foi descoberta ao trabalhar como backing vocal para complementar a renda e apenas aos quarenta anos conseguiu gravar seu primeiro disco ao lado dos Dap-Kings. Todos os trabalhos por eles lançados tem a característica muito forte de emular o soul e o funk dos anos 70 e, ao mesmo tempo, soarem atuais. Com Soul Of A Woman não é diferente e mais uma vez o destaque fica por conta da voz e da interpretação de Sharon, a mesma voz que influenciou algumas das melhores vozes da nossa geração, indo de Amy Winehouse a Brittany Howard, do Alabama Shakes.

Soul Of A Woman exibe Sharon no auge de sua interpretação e os Dap-Kings, mais uma vez, dominando o jogo com toda a maestria que sempre demonstraram. Mesmo não trazendo grandes surpresas e reinvenções em relação aos trabalhos anteriores, as faixas são sublimes como sempre foram e, mais uma vez, parecem extraídas das melhores coletâneas da Motown dos anos 70 traduzidas pelas lentes dos dias que vivemos. O que une todas as canções é o sentimento que transborda e escorre da voz de Sharon juntamente com os arranjos dos Dap-Kings. Os destaques ficam por conta da enérgica e upbeat “Sail On!”, da dramática balada “Just Give Me Your Time” e de “Call On God”, esta última merecendo um parágrafo à parte. 

“Call On God” é a faixa de encerramento de Soul Of A Woman e, por sinal, é a melhor música do disco e uma das melhores de toda a discografia do grupo.   Não poderia haver melhor despedida para Sharon do que essa canção. “Call On God”, como o título sugere, reflete sobre confiar em Deus e sobre como ele, para os que creem, nos sustenta nos momentos de dificuldade e pesar. A faixa tem fortíssimo acento gospel, devido a sua temática e a sua sonoridade, com coros e órgãos. Torna-se interessante então notar que a última música do último disco de Sharon Jones And The Dap Kings é um reflexo da vivência e do aprendizado dos primeiros contatos de Sharon com a música nas igrejas de sua infância e juventude. “Call On God” é a vida completando e fechando mais um círculo.

A ausência de Sharon Jones certamente será sentida. Os Dap-Kings continuam na ativa, mas foi ao lado dela que a banda criou suas peças mais inspiradas e vivazes, algo como se a doação da cantora na interpretação das músicas desse combustível e entusiasmo extra à banda. Soul Of A Woman evidencia a exuberância da voz de Sharon e o quão magistral é a música criada pela sintonia e intimidade entre os Dap-Kings. Nota para o disco? Celebrações não precisam de nota e, claramente, Soul Of A Woman é uma celebração à vida de Sharon Jones. Nota alguma seria capaz de mensurar talento tão grande e genuíno de uma alma tão sensível quanto a de Sharon.

OUÇA: Toda a discografia de Sharon Jones And The Dap-Kings, em especial os discos Give The People What They Want e este Soul Of A Woman. Celebre a grande artista e mulher Sharon Lafaye Jones!

Kelly Clarkson – Meaning Of Life


2017 é o ano da reinvenção no Pop. Taylor Swift, Katy Perry, Kesha e Demi Lovato são algumas das artistas que resolveram lançar trabalhos que mostrassem vertentes inexploradas de suas personalidades. Outros artistas também fizeram isso nos últimos tempos, mas nem sempre essas tentativas são bem recebidas pelos fãs e/ou têm sucesso comercial. O discurso é quase sempre o mesmo: “Não me importo com os charts! Estou falando a minha verdade”. É nesse cenário que Kelly Clarkson lança seu novo álbum de estúdio, Meaning Of Life.

Mesmo sendo seu oitavo disco, ele é o primeiro lançado pelo selo da Atlantic Records. Clarkson tinha contrato com a RCA Records desde que venceu o American Idol, em 2002. A artista descreveu seu relacionamento com a gravadora como “casamento arranjado” e, além disso, a cantora foi obrigada pela RCA a trabalhar com o produtor Dr. Luke (conhecido pelo abuso físico, sexual e psicológico da cantora Kesha). A não renovação do acordo, portanto, não foi um choque. Finalmente livre após 15 anos anos, ela pode se colocar em primeiro lugar.

A voz da cantora é um de seus maiores trunfos. Se compararmos Meaning Of Life e Thankfull – lançado em 2003 – fica bem claro que o tempo foi um presente para Clarkson. O potencial sempre esteve lá, só foi lapidado com o passar dos anos. Sua voz chegou a seu auge. Isso, somado a liberdade que ganhou ao não renovar com a RCA, deu a força necessária para este ser um dos melhores trabalhos de sua carreira. O que não significa que ele é excelente.

A investida numa sonoridade mais soul – inspirada especialmente em Aretha Franklin, uma das maiores inspirações da cantora – prova que Clarkson é uma artista dinâmica e versátil, mas é só. Músicas como “Move You”, cheia de metáforas e “fáceis aos ouvidos”, não garantem nem um arrepio sequer. Outro tiro no escuro é a faixa “Go High”, escrita em homenagem a Michelle Obama, que destoa completamente das outras canções do disco e, pior, é a música que o encerra. A intenção da cantora podia ser a melhor, mas isso não garantiu um trabalho de qualidade.

É muito bom ver Kelly Clarkson se divertindo, pela primeira vez em anos, ao lançar um álbum. Meaning Of Life é uma mescla de Soul, R&B e Pop que diverte e sai um pouco do lugar comum onde a cantora fez tanto sucesso. Pena que é mais um disco repleto de clichês. Felizmente, com as mudanças recentes na vida da cantora, há esperança por lançamentos melhores. Vamos aguardar.

OUÇA: “Meaning Of Life”, “Whole Lotta Woman” e “Didn’t I”.

Benjamin Clementine – I Tell A Fly


O Benjamin Clementine tem uma origem peculiar: ele é natural de Londres, na Inglaterra, mas mudou-se para a França, Paris, logo cedo. O talentoso músico se viu em situação de rua durante sua adolescência e enfrentou situações complicadas até ser descoberto. Clementine é dotado de uma genialidade ímpar e é considerado uma das vozes e pessoas mais influentes da Grã-Bretanha. Seu primeiro disco apareceu lá em 2015 e conquistou a crítica e a audiência por conta de seus fatos estranhos – é praticamente impossível rotular ou colocar em uma caixinha muito bem definida e certa o estilo de som do rapaz.

I Tell A Fly é o segundo disco do cara e aparece num cenário turbulento da Europa: crises políticas, mobilizações e discussões acerca de migrações dentro e fora do continente. O cenário político propiciou o desenvolvimento do panorama desse álbum. A alegoria escolhida por ele para ilustrar sobre essa Europa borbulhante são duas moscas apaixonadas em busca de um lugar seguro e todas as emoções envolvidas nessa migração. O disco tem uma montanha-russa interessante que nos remete às viagens e mudanças drásticas de humor. São nas idas e vindas, subidas e descidas [instrumentais] que Clementine encontra seu maior apoio para contar a história e sua alegoria. O cenário vai mudando conforme as emoções desses dois viajantes oscilam.

Se At Least For Now era bastante introspectivo e mostrava muito sobre a personalidade do músico, que era até então totalmente desconhecida para o público, colocando-se como uma introdução na discografia, em I Tell A Fly, Benjamin começa a olhar para o resto do mundo e entender seu papel nessa história. Depois de um disco singelamente introspectivo, Clementine começa a explorar suas relações, angústias, expectativas e desafios em relação ao outro e ao mundo. Frequentemente o músico se vê como um alienígena (como vemos em “Jupiter”) que não pertence a nenhum lugar.

Clementine ganhou o Mercury Prize com seu primeiro álbum e desde então um peso gigante foi colocado nele para ver qual seria seu próximo passo – é muito raro alguém ganhar o prêmio com o primeiro disco da carreira. E o mais engraçado e bacana disso tudo é que Clementine consegue ser genial e não ter apelo comercial nenhum com suas músicas. Parece um mundo totalmente aleatório àquele glamouroso que estamos acostumados a relacionar quando falamos de influência musical. Clementine cria muito bem um mundo particular e nós somos meros espectadores olhando com admiração todo esse império teatral.

Claro que o próprio I Tell A Fly é bastante teatral, já que possui todo um conceito por trás. Com as letras e orquestrações de Clementine é fácil imaginar uma peça que poderia ilustrar e ajudar a visualizar o pensamento do cantor quando compôs tudo isso aqui. É incrível os sentimentos que ele consegue passar com músicas sombrias como “Phantom Of Aleppoville” – exatamente, Aleppo, Síria – e mais intensas e extrovertidas como “Better Sorry Than A Safe” – retratando sobre a migração.

Talvez o fato mais pesaroso aqui é que a genialidade de Clementine atrapalha um pouco em algumas situações. O músico exagera em alguns pontos, acaba se perdendo em sua viagem teatral e deslizando em cima de sua alegoria com músicas levemente desagradáveis como “Farewell Sonata” ou “Ave Dreamer” que não adicionam muito bem ao álbum, dificultando a digestão de algumas coisas.

Esse segundo álbum do músico é, no final das contas, um disco difícil em várias instâncias: difícil de ser concebido – o músico encontrou alguns problemas com a gravadora – e difícil de ser digerido e compreendido com tanta rapidez. Mais uma vez Benjamin Clementine consegue mostrar sua genialidade dentro de um estilo único e improvável, aliado de boas letras e harmonias que oscilam e mudam consigo as atmosferas das músicas, gerando um painel sonoro e visual espetacular. I Tell A Fly é um disco único e peculiar, exatamente como Clementine é.

 

OUÇA: “Jupiter”, “By The Ports Of Europe” e “Quintessence”