Swervedriver – Future Ruins


Há cinco anos, a banda Swervedriver anunciava seu retorno após um período de hiato de cerca de dezessete anos, contribuindo, muito antes de virar moda – e talvez dando o pontapé inicial – para um movimento repentino de retomada e renovação do gênero shoegaze em que bandas proeminentes e pioneiras como The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, Ride e Slowdive participaram de forma sublime. O álbum I Wasn’t Born To Lose You deixou evidente a capacidade do quarteto de Oxford de retomar sua arte de onde pararam: os riffs etéreos, os vocais nebulosos e as distorções de guitarra criam sempre uma harmoniosa atmosfera característica do som que sempre fizeram. Agora, a bola da vez é o disco Future Ruins, lançado este ano, o que me faz parar para pensar: por que os caras continuam fazendo exatamente o mesmo som que faziam há vinte e cinco anos?

Não me entenda errado, eu adorei o álbum. “The Lonely Crowd Fades In The Air” é simplesmente fantástica, uma das minhas tracks favoritas desse ano até o momento. De modo geral, mesmo reproduzindo fórmulas, o quarteto sabe o que faz: explorando do que parece ser uma inextinguível fonte de combinações diferentes dos mesmos riffs, vocais, letras e, pasmem, criando novas e boas músicas. Quando dei play e ouvi a primeira faixa, me odiei por estar curtindo-a. Digo, a impressão foi de que já havia a escutado muitas vezes antes, mas um quê de ineditismo toma conta de suas percepções e, quando se dá conta, está balançando a cabeça de forma cadenciada.

Everybody’s Going Somewhere & No One’s Going Anywhere”deixa evidente toda a concomitância dos integrantes, quase deixando de tocar seus instrumentos de forma individual, mas, de outra maneira, concordando uns com os outros tais qual uma engrenagem, um organismo. Mesmo que praticamente seja um som instrumental, a sensação é de que estamos conversando com Adam Franklin, que influenciado pelo mundo em degradação ao seu redor e talvez pelo potencial impacto de futuro, escreveu músicas que capturam tal clima e ao mesmo tempo oferecem uma luz no fim do túnel em uma espécie de viagem nostálgica. Vale muito a pena.

Encerrando, há “Radio Silent”, faixa que sintetize o gênero shoegaze – embora, sejamos sinceros, o Swervedriver nunca realmente pôde ser definido como tal. Sincera, etérea e característica quase como uma canção de ninar, o compasso faz com que o disco encerre como um bom filme: você não vê os créditos passando, mas precisa de algum tempo para voltar à realidade. Um ouvinte familiarizado com o som da banda não se surpreenderá. Não há riscos, novas tentativas ou algo que saia do que pode ser considerado o catálogo do quarteto inglês. Isso, por outro lado, de maneira alguma significa que a decepção é certa, mas, ao contrário, aparece quase como um manifesto de existência do grupo. Para fãs saudosistas, um prato cheio, embora, convenhamos, seria interessante ver o Swervedriver saindo da zona de conforto e arriscando em algumas direções.

OUÇA: “Mary Chain”, “Everybody’s Going Somewhere & No One’s Going Anywhere”, “The Lonely Crowd Fades In The Air” e “Drone Lover”

The Twilight Sad – IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME


É das máximas mais repetidas de todas que é impossível a um mesmo homem tomar banho no mesmo rio duas vezes. Na segunda vez já não é mais o mesmo. Seja o rio, seja o homem. Dessa analogia apresentada por Heráclito, se origina o paradigma de que a única constante é a mudança. A constatação desse processo pode ser verificada em qualquer coisa cuja existência persista por tempo suficiente. Sejam pessoas, obras de arte, grupos artísticos. Acompanhar algo é, portanto, um estudo da transformação e, uma vez constatado isso, pode se apreciar a mudança por ela em si, independente de o resultado ser aquilo que se esperava. A beleza reside no movimento.

E, algumas vezes, ao final o movimento também resulta em algo belo além, como é o caso do IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME último disco da banda escocesa de pós-punk The Twilight Sad.

Quinto registro de estúdio do grupo, o disco vem cinco anos depois do excelente Nobody Wants to be Here And Nobody Wants to Leave e mostra uma significativa mudança de estética e abordagem na composição das faixas. Enquanto o último disco apresentava uma sonoridade claramente influenciada pelo post-punk moderno, com o baixo pronunciado e riffs repetitivos e hipnóticos, além de guitarras altas que criavam paredes de som nas composições – numa influência de shoegaze que às vezes remetia à ênfase no volume e na imposição dada pelo A Place to Bury Strangers -, e o timbre grave do vocal de James Graham, o novo mostra a banda se aproximando de influências bastante distintas, porém não tão distantes assim.

A primeira constatação é a perda de ênfase no baixo e nas guitarras, com o foco ficando agora no uso de sintetizadores e teclados para construir a identidade do disco. Num movimento análogo ao do próprio post-punk, é evidente a influência de New Order no estilo de composição do novo disco, enquanto pelo timbre e teatralidade empregadas no vocal de Graham, a performance do vocalista se aproxime de Bauhaus. Nada disso é apontado de maneira a diminuir o trabalho do novo disco. Expondo suas influências de maneira honesta, o Twilight Sad se move numa direção diferente enquanto mantém seus laços com o gênero ao mesmo tempo que explora a própria interpretação dos estilos nos quais se inspira.

Já na abertura, com “[10 Reasons For Modern Drugs]”, os teclados ganham a companhia rápida de uma linha de baixo moderna que acelera o ritmo da música, dando à faixa um andamento dinâmico que cria o cenário para a entrada da teatral segunda faixa “Shooting Dennis Hooper Shooting”, uma das melhores do disco. Aqui o Twilight Sad reduz a presença dos sintetizadores, permitindo que o baixo volte a ocupar o espaço central da composição, enquanto os sintetizadores preenchem os vazios deixados por ele, criando a impressão de um instrumental solene e dramático que cresce próximo do clímax da música. A dramaticidade continua com a faixa seguinte, “The Arbor”, que volta a enfatizar os teclados e a diminuir a velocidade, se aproximando decididamente das influências apresentadas pela banda. O baixo e os sintetizadores criam uma atmosfera distante que reforça a lugubridade da música. IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é um disco sobre mágoas, as dúvidas trazidas pelo que provoca a mágoa e a aprender a não esperar que essas dúvidas sejam respondidas. Não é a resposta que faz diferença, é aprender a lidar com a pergunta.

Naturalmente, o disco não é sem falhas. Enquanto músicas como a lenta e despida “Sunday Day13” e as rápidas e raivosas “Girl Chewing Gum” e “Let/s Get Lost” não soam particularmente ruins ou fora de lugar no setlist do disco, a simplicidade e as escolhas de composição delas, quando colocadas lado a lado com as outras faixas do disco, faz com que elas empalideçam em comparação. E num disco tão denso e emocionalmente carregado, falhar em causar uma impressão forte é uma fraqueza.

Outras faixas que surpreendem com as direções adotadas pela banda são “I/m Not Here [missing face]”, que hipnotiza com um refrão forte e envolvente, o ritmo acelerado e carregado de dramatismo é carregado pela dualidade entre bateria e sintetizadores, que representa a o contraste entre o peso interno dos sentimentos e a fachada suave com que eles se manifestam fora de nós. “Auge/Maschine” volta a dar lugar à raiva, com uma avalanche de sintetizadores que soterra o ouvinte no que pode ser uma nova direção para a banda: abrir mão das paredes de guitarras do shoegaze em favor de uma igual presença esmagadora de sintetizadores influenciados pelo synthpop. O último bom destaque é a Keep it All to Myself, que também dá predominância aos sintetizadores, com o adicional de um riff serpenteante e agudo de guitarra após os refrões que cadenciam a música, carregando de rancor a faixa.

IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é uma excelente obra para o catálogo do Twilight Sad. Sabendo explorar os elementos que definiram sua identidade, como a voz de Graham, o instrumental predominantemente grave e os andamentos cadenciados, a banda se aproxima de uma nova influência com os sintetizadores e teclados, entrando num território que possui um grau de parentesco com o post-punk que vinham praticando até então. É talvez um dos melhores discos da carreira do quarteto escocês e um resultado que dificilmente eles conseguirão repetir, mas tudo bem.

Ninguém conseguiria mesmo.

OUÇA: “Shooting Dennis Hooper Shooting”, “The Arbor”, “I’m Not Here [missing face]”, “Auge/Maschine” e “Keep It All To Myself”

The Joy Formidable – AAARTH


Minha mente às vezes faz uns paralelos estranhos, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça quando ouvi AAARTH, novo trabalho da banda galesa The Joy Formidable, foi todo o tempo que passei ouvindo j-rock durante o colegial. Especialmente a banda the GazettE, uma das únicas que me continuaram comigo nesses dez anos e ainda fazem parte da minha playlist – não acompanho muito seu trabalho recente mas os primeiros álbuns até 2008 ainda são recorrentes em minha vida. Seu segundo disco, NIL, vai ser pra sempre um dos meus favoritos da vida toda – e se o ocidente não fosse tão preconceituoso com música oriental, com certeza mais pessoas o teriam escutado e concordariam comigo.

O que sempre me atraiu muito ao GazettE era a sua diversidade. Eles eram capazes de ir do punk ao metal, passando por pianos, orquestrações e influências de hip hop sem perderem sua identidade e com um som ainda bastante acessível. Seu terceiro álbum, Stacked Rubbish, foi quando adicionaram as batidas de hip hop e pesaram um pouco mais no baixo. Músicas como “Agony” ilustram isso perfeitamente.

E o que uma banda japonesa de visual kei tem a ver com os galeses do Joy Formidable? Em AAARTH, pra mim pelo menos, tudo. Se tivesse que comparar o quarto disco da banda com qualquer coisa, seria com o j-rock do GazettE. AAARTH apresenta o mesmo caos organizado de influências que sempre vi e me interessou no GazettE.

Seguindo o bastante morno Hitch, o Joy Formidable nos trouxe dessa vez um álbum realmente bom de novo e que mostra que a banda apenas teve um pequeno relapso em seu lançamento passado. Ao contrário da mesmice pouco criativa de Hitch, cada música em AAARTH traz uma versão diferente do mesmo Joy Formidable e isso torna o álbum bastante único e bem diferente dos seus trabalhos anteriores.

Meu saudosismo ainda insiste em dizer que A Balloon Called Moaning vai ser pra sempre o melhor disco do grupo, mas às vezes justamente por ter isso como ‘fato’ é possível apreciar sua nova direção como algo tão bacana quanto. Já que nada nunca vai superar, não precisamos nem levar seu primeiro mini-álbum em consideração quando falarmos do trio. E AAARTH é, talvez, a melhor coisa que veio da banda desde então. Exatamente por ser um disco bastante arriscado e aparentemente desconexo.

“Y Bluen Eira”, que abre o álbum, já mostra que o que encontraremos aqui não é a mesma coisa que já veio da banda antes. Eles também, em “All In All” principalmente, voltam ao quasi-shoegaze de músicas como “Ostrich” e isso é algo maravilhoso de se ouvir. O maior defeito de um álbum como AAARTH, aqui, se torna seu maior trunfo: a falta de coesão. As faixas não conversam exatamente entre si, então ouví-lo em sua ordem formal não importa muito. Trata-se de músicas completas, como uma compilação de singles de diferentes eras ou de um ‘best of’, não de um trabalho que pretende ter um começo, meio e fim definidos.

AAARTH, no final, deve ser reconhecido como uma ótima adição à discografia do Joy Formidable. Um álbum que vale a ouvida e que chega até a surpreender em alguns momentos, exatamente por que ele não parece se importar muito com isso.

OUÇA: “Y Bluen Eira”, “Cicada (Land On Your Back)”, “The Better Me” e “Caught On A Breeze”

Spiritualized – And Nothing Hurt


Spiritualized é uma banda que foi formada em Warwickshire, na Inglaterra, por Jason Pierce – também chamado de J. Spaceman – no início dos anos 90. Assim, trata-se de uma banda com uma bagagem musical extensa e que sempre surpreendeu seus ouvintes com seus registros lançados por conta de sua potência sonora.

Agora, após seis anos, Spiritualized lança seu oitavo álbum de estúdio intitulado And Nothing Hurt. Durante a primeira audição, nos deparamos com um registro sonoro repleto de sentimentos  e também com muitos detalhes, sejam com os arranjos, os vocais e/ou  as guitarras, isto é, nos deparamos com um belo conjunto de camadas instrumentais/vocais crescentes e decrescentes durante toda a execução do álbum. Logo, é inegável que a produção do álbum é interessantíssima, rica em detalhes e melodias, e muito bem elaborada/executada por Jason Pierce.

And Nothing Hurt nos mostra uma faceta mais confessional, intimista de Jason Pierce,  fazendo com que o registro soe mais melancólico e íntimo do que trabalhos anteriores de Spiritualized. Sendo assim, o álbum é um compartilhamento de sentimentos muito bem musicados e que deixa em evidência a entrega, o mergulho de Jason Pierce em cada composição, em cada detalhe presente no registro.

Em linhas gerais, Jason Pierce criou um álbum sem pressa, mergulhou nele de todas as formas possíveis e nos mostrou toda a sua entrega sentimental e musical sendo materializada em nove faixas muito bem elaboradas/executadas e tão graciosas de se ouvir. Por fim, mesmo que Spiritualized tenha uma trajetória de mais de duas décadas, And Nothing Hurt não deixa de surpreender e de ser um registro sonoro marcante para a banda, ou seja, And Nothing Hurt não é um álbum morno e está longe de ser, ele é um álbum profundo e vemos Jason Pierce se despir nele e mergulhar em toda a sua imensidão sonora.

OUÇA: “A Perfect Miracle”, “Let’s Dance”, “Damaged”, “The Prize” e “Sail On Through”

Beach House – 7


O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”.

Diferentemente dos álbuns anteriores, nos quais as faixas iniciais já constroem a atmosfera de sonho pela suavidade, “Dark Spring” abre o sétimo disco com baterias (de verdade!) e distorções que me remeteram ao Loveless, do My Bloody Valentine. Essa referência segue ao longo do álbum na lenta “Pay No Mind” e “Dive”, cujos vocais duplicados constroem uma atmosfera deliciosa.  Já em faixas como os singles “Lemon Glow” e “Black Car”, o álbum retorna para os elementos mais dream pop característicos da banda, deixando de lado o rock/shoegaze das outras faixas.

Essa aproximação com um instrumental mais pesado que o usual do Beach House — acompanhados pelas letras, que abordam pontos obscuros da fama e do glamour, primaveras geladas e sem cores, estrelas e morte — tornam 7 o álbum mais pesado do duo (até agora). Talvez isso demarque um novo momento da banda, evocado pela simbologia do número 7, pontuando a mudança do produtor: depois de 6 discos com Chris Coady, Victoria e Alex apostaram em Peter Kember (MGMT, Panda Bear). A mudança trouxe novas nuances para um repertório de sonoridades que, apesar de estar entre meus preferidos, estava um pouco gasto desde o Bloom, de 2012.

Com guitarras mais pesadas, vocais mais claros e letras ricas em imagens poéticas, 7 me faz pensar em amadurecimento. Um amadurecimento enquanto processo, não enquanto ponto de chegada — se aprendi alguma coisa escutando Beach House é a sonhar com a lua sem encostar nela. E, mesmo não estando visível a olho nu, a lua escura continua no céu, e depois de 7 dias a veremos clara de novo.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”.

God Is an Astronaut – Epitaph


Epitaph é o nono album da banda de post/space-rock God Is an Astronaut. Os irlandeses estão entre os conhecidos do estilo, e no geral, são muito estimados por suas composições. Com uma discografia muito sólida, o grupo lança mais um disco para manter a sua linha. No entanto, não é isso o que sentimos ao reouvir todos os trabalhos da banda.

No seu início, God Is an Astronaut surpreendia com as maravilhosas melodias, além dos andamentos das músicas. Era tudo muito deslumbrante. The End Of The Beginning (2002) e All Is Violent, All Is Bright (2005) são discos essenciais para os amantes do post-rock: as ideias melódicas, a atmosfera das músicas, todo o conceito e percurso dos discos são lindos.

Epitaph é muito parecido Helios | Erebus (2015): muito calcado no som mais puxado para o gênero ambient, ideia que começou lá no Origins (2013) – mas, esse, por sua vez é muito superior aos dois discos seguintes.

A ideia de fazer um som com uma atmosfera ambiente claustrofóbica não é de se jogar fora, mas sabe quando a banda que você gosta lança um disco mais do mesmo e que nada te acrescenta? Isso é o que define melhor Epitaph. Inclusive, existem canções que se parecem tanto, que torna o álbum até um pouco entediante, como a “Komorebi” e “Oisín” – a mesma linha de piano estilo trilha sonora.

O último lançamento da banda poderia ter sido usado na trilha sonora de algum filme sobre o espaço, ideia muito retomada nos últimos anos pelo cinema estadunidense. Mas jamais figuraria como as mais belas trilhas sonoras de filmes que você tem vontade de reouvir depois que o filme acaba.

Grouper – Grid Of Points


Liz Harris não lançava um álbum sob o nome de Grouper, pelo qual é mais conhecida, desde 2014. Ao longo desse período, a artista focou em EPs e colaborações, e, embora esses trabalhos apresentassem marcas indiscutíveis de sua sonoridade, serviram mais para abrir o apetite dos fãs para um novo disco. Se você é uma dessas pessoas, é bem possível que Grid Of Points tenha se revelado uma decepção.

Não que o álbum seja ruim, muito longe disso, mas porque o próprio ato de chamar de álbum é quase uma demonstração de boa vontade. Grid Of Points tem apenas 21 minutos, ou seja, metade da duração que os anteriores lançados por Grouper. Digamos que você chega em casa depois de um longo dia, coloca o álbum para tocar, e vai preparar sua janta, ou deitar no sofá para relaxar, ou ler um livro. Antes da comida ficar pronta ou de terminar o primeiro capítulo, o álbum acaba, de forma abrupta e deixa aquele gosto de quero mais.

Porque tudo que atrai quem gosta de Grouper está aqui. São canções bem desenvolvidas, com foco para voz e o piano, que criam atmosferas envolventes. A sensação de ouvir Grid of Points é a de atravessar uma densa floresta, ou a de encarar o mar. Os vocais de Harris, em muitas das faixas, chegam mesmo a ter aquele efeito ondulante de idas e vindas. De intensidades que se elevam e se desfazem. A melancolia que marca a obra da artista está presente com mais força do que nunca. E chega até a ser ainda mais impactante quando aliada a títulos como “Thanksgiving Song” e “Birthday song”, que remetem a datas festivas.

Harris usa sua voz como instrumento, o que deixa as letras de suas composições em segundo – ou terceiro, ou quarto… – plano, mas que nunca parece forçado. Grid Of Points encaixa bem com as obras anteriores de Grouper, especialmente com Ruins, seu antecessor direto. Chega a ser recomendável ouvir em conjunto com esse outro álbum, pois, caso contrário, aquela sensação de insatisfação pode prevalecer. E vamos esperar que não tenhamos que esperar mais quatro anos para ver o qu

OUÇA: O álbum todo, não vai demorar muito.

The Soft Moon – Criminal


Criminal é um álbum pesado. Sua densidade aparece em todos os elementos possíveis: a voz de Luis Vasquez surge como urros guturais cheios de raiva, a guitarra é repetitiva e incessante e vem sempre acompanhada por uma bateria igualmente frenética. Mas você não precisaria nem escutá-lo para adivinhar isso: a tracklist já ilustra bem o que vamos encontrar ali, com títulos como “The Pain”, “Ill”, “Choke” e “It Kills”. Suas letras soam como acusações na maior parte do tempo, e todos os elementos combinados produzem uma sensação completamente claustrofóbica. Não é agradável, mas também há a impressão de que não era para ser.

Ainda que a impalatabilidade de Criminal seja intencional — ou ao menos pareça ser — ele adota um molde um tanto previsível para passar a sua mensagem. O artista não parece conseguir transcender todos os clichês de um álbum de revolta e dor, produzindo canções uniformemente barulhentas e caóticas. A impressão é de estar ouvindo uma grande música de 39 minutos, cortada diligentemente em pedaços de quatro minutos. É possível identificar elementos interessantes no meio de tudo, mas a sua coexistência constante em uma sobrecarga de sons torna o álbum maçante e previsível.

Os destaques surgem nos poucos respiros que lhe são permitidos: “ILL”, por exemplo, foge à tempo acelerada das canções precedentes e explora melhor a distorção da guitarra, acompanhando-a de batidas que também destoam do ritmo que ocupa o resto do álbum. A ausência da voz de Vasquez aproxima a canção de seus trabalhos anteriores, que pareciam deixar mais espaço para nuance do que esse. Em Criminal, não há a sutileza de outras de suas músicas, que preferiam instigar um senso de instabilidade e medo por meio de batidas constantes, porém leves. É um álbum que parece ter a intenção de assustar quem o escuta de maneira tão grossa que acaba caindo na breguice.

Há valor nas letras, que expõem as experiências de abuso enfrentadas pelo artista na infância. Elas exploram temas de autodestruição e baixa autoestima de forma honesta e seca, ainda que com alguma poesia. São destaques os versos de “It Kills” ‘I wish for anything / that tears me down / the more and more I drown‘, que comunicam o mais profundo auto-ódio. Os mesmos sentimentos aparecem de forma ainda mais óbvia em “Burn”, que retrata o cansaço frente a uma mente que parece irreparavelmente quebrada, e mostra o desejo de fugir de si mesmo: ‘Why does this existence feel like this / Cause it burns‘ e ‘I wish I could be somebody else / Cause it burns‘. No entanto, essa é a parte mais difícil de prestar atenção ao escutar o álbum. Em Criminal, a voz é apenas mais um instrumento em meio a muitos outros.

Como um todo, Criminal soa tão clichê que parece uma paródia. O vocal de Vasquez adota um tipo de sussurro violento e arrastado que poderia pertencer a qualquer artista que um garoto de doze anos descobrindo o rock ouviria no volume máximo, trancado em seu quarto, provavelmente pensando em como o mundo não o compreende. As músicas conjuram imagens de clipes desnecessariamente gráficos e “provocadores” de artistas como Nine Inch Nails e Marilyn Manson — com a diferença de que The Soft Moon o faz com alguns anos de atraso.

OUÇA: “ILL”, “It Kills” e “Burn”

The Pains of Being Pure at Heart – The Echo of Pleasure


Com dez anos de banda, os nova iorquinos do The Pains of Being Pure at Heart construíram uma carreira mais que sólida dentro do cenário shoegaze e acabaram de lançar o quarto disco, The Echo Of Pleasure, com nove inéditas.

Histórias à parte, o disco foi feito logo após Kip Berman se casar. Um misto de maturidade e letras um pouco mais profundas rodeiam a produção e, enquanto o antigo Pains trazia dramas românticos mais efusivos, o novo disco traz faixas como “Anymore”, onde um felizes para sempre é mais recorrente.

Mais polido, o disco ainda traz aquela guitarra suja que marcou o som da banda como nas faixas “The Cure For Death” e “The Echo Of Pleasure”, onde as referências de bandas como Smashing Pumpkins e The Smiths são encontradas. “When I Dance With You” abusa um pouco mais dos teclados e sintetizadores, aquela faixa que já foi feita para festinhas em casa.

As letras são bem generalistas, falam de sentimentos que todos já passaram lidaram – eventualmente – irão lidar. Inevitavelmente Berman as canta com um gás incrível que não era muito encontrads trabalhos anteriores, quando dividia mais o vocal com a tecladista Peggy. Agora Goma e Jocob, que estão na turnê com Berman, também se envolvem nos vocais, perdidos nas camadas eletrônicas.

Há boatos de que The Echo Of Pleasure possa ser uma despedida, talvez da banda ou somente da antiga vida de Berman, agora que suas prioridades mudaram um pouco. O disco vale principalmente para quem acompanhou a trajetória da banda nos últimos discos, um misto de saudosismo e conforto.

OUÇA: “When I Dance With You”

Ride – Weather Diaries

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Já nos primeiros segundos de Weather Diaries, embarcamos em uma viagem etérea e sinuosa logo de cara. Essas são as principais características do disco que marca a reunião do Ride nos estúdios, 21 anos após seu último lançamento. A abertura do álbum nos leva – por breves momentos – de volta aos anos 90, com acordes banhados em efeitos que provocam a velha parede de som, mas rapidamente somos expostos ao confronto temporal que duas décadas são capazes causar.

O disco começa de forma rápida e envolvente com “Lannoy Point”. As primeiras notas deixam claro: estamos ouvindo Ride. A essência da banda está presente. É um álbum de shoegaze. No entanto, algo mudou. Nos minutos seguintes da audição podemos perceber os impactos do tempo nas composições. Os ingleses aderiram a nuances da música eletrônica em suas canções, tornando suas criações mais modernas.

No segundo terço do álbum, porém, percorremos ruas nebulosas e taciturnas; em seguida, a chuva começa a cair. Pouco a pouco passamos a ser inundados em um mar de nostalgia que nos acompanhará até o final do trabalho. A banda conseguiu manter o caráter experimental mesmo tendo composto seu primeiro disco há aproximadamente 30 anos. É perceptível em todas as criações do grupo que eles buscam algo novo, inexplorado, mas que mantenha a sua singularidade.

Apesar disso, o disco se perde em alguns momentos nessa mistura e falha ao tentar nos entregar coesão. No processo de procurar o novo, manter a identidade e experimentar, o grupo fez um trabalho discreto. Ainda assim, há algumas canções memoráveis, que não se deixaram ofuscar pela falta de harmonia do álbum e são o que se espera de uma banda como Ride.

O trabalho dos ingleses encerra em uma estrada no meio de um entardecer colorido em tons pastel, embalado por canções que finalizam o disco com certo misticismo nostálgico, como um velho companheiro de longa data.

OUÇA: “Lannoy Point”, “Home Is A Feeling”, “Lateral Alice” e “Impermanence”.