DIIV – Deceiver



Se no início da década, o DIIV surgiu como parte da onda de shoegaze revival que estava em crescente na época, talvez eles tenham se perdido nesse mar. Mesmo que a estética fosse levemente diferenciada, e o lo-fi fosse uma das coisas pelas quais a banda se segurava, não tinha muita coisa que destacasse o grupo, a não ser uma ou outra música pegajosa, e uma considerável evolução do primeiro pro segundo álbum. É muito fácil ser mais um nesse gênero, talvez seja o maior problema dele.

A grande tirada de Deceiver é que, esse sim, consegue fazer algo muito mais interessante, ao mesclar outros gêneros na fórmula do DIIV, tornando cada música uma surpresa diferente. Diferenciar todas as músicas em um álbum de shoegaze já é um ótimo passo pra se destacar, e aqui a banda se utiliza de riffs que vão do grunge ao post hardcore melódico, e melodias inventivas que se encaixam muito melhor nessa sonoridade do que encaixava nas antigas da banda.

A melancolia do refrão de “Horsehead” dá o tom do álbum: não é mais aquele shoegaze divertidinho de antes. E a letra fala sobre o envolvimento do vocalista Cole com drogas de uma forma muito sutil, mas que passa uma sinceridade que é o carro chefe do trabalho. O mais engraçado é que, por exemplo, a banda brinca com a letra do refrão de “I Wanna Be Adored” do Stone Roses e suas múltiplas variações em “Skin Game”, enquanto esse provavelmente é o trabalho mais afastado dos moldes deixados pela mesma. Deceiver tá mais pra um filho de Smashing Pumpkins com Brand New e Title Fight, mas talvez não atingindo o mesmo nível de agressão dos mesmos.

Tirando, é claro, no que é provavelmente a melhor música do álbum, “Blankenship”, que tá muito mais pra Sonic Youth com Cloud Nothings. A carga política das letras, dando voz ao ativismo ecológico da banda, aliada aos breakdowns estrondosos e melodias suaves que se complementam perfeitamente, dão aquela pitada de atitude essencial, é o clímax que o álbum inteiro criou uma tensão pra chegar. E mesmo que seja um trabalho mais agressivo e sujo, a beleza de momentos como “Between Tides”, e a inspiração chupada de My Bloody Valentine em “For The Guilty” equilibram bem a energia do projeto.

A forma como Deceiver foi montado, as bases pelas quais ele se guia, e a forma como ele te cativa a continuar ouvindo é o que o DIIV precisava pra se provar no seu gênero. A inteligência das letras e a força dos instrumentos, aliados a uma produção impecável, traz balanço ao som da banda e torna tudo nele mais sincero. É a química perfeita que o grupo precisava achar pra engatar, e finalmente surfar na onda do shoegaze com propriedade.

OUÇA: “Blankenship”, “Horsehead”, “Taker” e “Skin Game”

Lower Dens — The Competition

Quatro anos após Escape From Evil (2015), Lower Dens ressurge com um novo álbum intitulado The Competition, e, dessa vez, o duo de Baltimore parece que conseguiu chegar a um resultado coeso e encorpado. Baseado em temas como capitalismo, relacionamentos, e sentimentos como a raiva, por exemplo, a dupla não-binária (ou trans, como afirmou Jana Hunter — sobre si — no Tumblr em 2015) chegou com um trabalho instrumentalmente mais pesado que seus antecessores.

Em “Young Republicans”, Jana canta: “In every generation / There are those who just don’t fit in” e é assim que The Competition soa: como uma aceitação completa daqueles que não se encaixam nos padrões cristalizados da sociedade. Seja pelas letras, ou pelo uso provocador de sintetizadores, ou até mesmo pela uma oitava abaixo na voz de Hunter (devido ao processo de hormonização). Sendo assim, faixa citada é um extrato do que é o novo trabalho. 

Dito isto, nos 44 minutos de duração do disco há espaço para canções como “Buster Keaton”, uma balada anos 1980, com sintetizadores estelares que fala sobre um romance que surgiu numa tentativa de costurar os lábios, e, claro, não deu muito certo (imagino que nem os lábios nem o relacionamento rs); faixas como “I Drive”, repleta do começo ao fim com super saws e dançante, mesmo que de temática triste; e “In Your House”, uma surpresa simples entre as outras faixas mais recheadas de efeitos sonoros.

Os pontos negativos ficam por conta da tentativa excessiva de se fazer algo no estilo. O som dos anos 1980 é, hoje em dia, inegavelmente um hype e um modelo a ser seguido por muitos. Com isso, The Competition pode se perder diante de tantos e tantos CDs do gênero. No entanto admiro Jana Hunter e Nate Nelson por mostrarem ao mundo exatamente como são e a continuarem exercendo a difícil, mas não impossível, tarefa que é ser no mundo.

OUÇA: “Galapagos”, “Young Republicans”, “Real Thing” e “In Your House”

Ride – This Is Not A Safe Place



Ride, originalmente, aparece como uma das mais importantes bandas constituintes do gênero shoegaze, lançando seu debut Nowhere – considerado um dos pilares da cena – há cerca de trinta anos. Seis anos depois, o grupo anunciou seu fim – e vamos combinar que o movimento shoegaze também esfriou por volta dessa época. Há cinco anos, porém, Ride anuncia sua volta com sua formação original, assim como diversas outras bandas pioneiras do gênero, formando uma nova frente para uma espécie de reconstrução do shoegaze, resgatando elementos da primeira leva, mas acrescentando diversos outros. Um verdadeiro deleite para os fãs de uma cena que parecia ter se extinguido.

Pessoalmente, Ride é uma das minhas bandas favoritas. Ano passado, naquelas listas de fim de ano que o Spotify disponibiliza para conferirmos nossas músicas mais ouvidas durante certo tempo, duas das faixas do último trabalho do grupo, Weather Diaries, estavam entre as cinco primeiras. É sempre um prazer escrever sobre novos trabalhos do quarteto. Nesse segundo álbum pós-hiato, This Is Not A Safe Place, a banda nos presenteia com o que há de melhor no gênero: ao passo que não deixa de lado o que construiu de melhor em termos musicais, inova e nos mostra o potencial de cada músico constituinte do grupo. Nos mostra porque aparece, ainda hoje, como uma das peças mais importantes na montagem da cena.

A primeira faixa, “R.I.D.E.” introduz o que vem pela frente de maneira sutil. É quase toda instrumental, exceto por uma palavra que aparecem sem mais nem menos: o próprio nome da banda. Não há motivos para isso, exceto, talvez, uma tentativa dos músicos de dizer que não estão nem aí para o que a gente vai pensar. Que o mundo, afinal, para eles, de fato é um lugar seguro, ao contrário do que diz o título do disco. A partir daí fica difícil selecionar de qual faixa comentarei primeiro. Vamos por ordem de aparição.

“Future Love”­ é literalmente o hino do shoegaze. Se você quiser apresentar a cena para alguém, faça-o escutar isso. Não estou sendo pretensioso. Atualmente, pode-se dizer que apenas o Slowdive e Jesus and Mary Chain fizeram algo parecido. Os riffs nebulosos da guitarra, a voz etérea Mark Gardener misturando-se aos outros elementos sonoros, como um só. As notas do baixo fornecendo certa consistência para o som, ao mesmo tempo em que deixa-o leve e suave. A bateria, por sua vez, acompanha o ritmo quase não aparecendo. O que é diferente em “Repetition” e “Kill Switch”, onde a guitarra e a bateria aparecem de forma mais contrastante, dando à faixa certa atmosfera mais pesada com relação às músicas subsequentes. Mesmo a voz de Gardener está diferente: parecem mil Marks cantando ao mesmo tempo. Créditos ao produtor, DJ Erol Alkan, que produziu também disco anterior da banda, Weather Diaries. O show continua com “Clouds Of Saint Marie”. Essa faixa, meus amigos, se tomasse forma física, veríamos algo como a capela de Notre Dame. Uma obra-prima, em todos os sentidos. Feita para grudar na cabeça de quem escuta. Inclusive: ‘Clouds of Saint Marie / (Na-na-na-nananana) / She reigns over me.’

“Fifteen Minutes” tem riffs excelentes, mas a quebra de tempo não contribuiu para a composição final. “Jump Jet” é incrível: sua atmosfera crescente empolga genuinamente. “Dial Up” é delicada e lenta. Parece uma tarde chuvosa. Vale muito a pena. “End Game”, no entanto, é a melhor coisa que Ride já fez desde “Vapour Trail” ou “Lannoy Point”: as repetições sutis da letra em meio aos versos desconexos do refrão aliados à atmosfera crescente em direção à ponte é com certeza uma das melhores coisas que ouvi nesse ano: ‘what went wrong? / what is wrong with you?’

O álbum devia ter acabado aqui. Seria perfeito. Nota máxima. Mas não me entenda errado: as duas últimas canções não são ruins, apenas não estão no mesmo patamar das anteriores. “Shadow Behind The Sun” não empolga. Os riffs são bons, mas a música parece não caminhar para nenhum lugar. “In This Room”, por sua vez, não deveria ser uma faixa de encerramento. Não encerra nada. Talvez se colocada no miolo do álbum sua apreciação fosse diferente. Após “End Game”, as faixas que vieram em seguida foram ofuscadas. Por fim, se tivesse que reclamar de algo desse disco, seria com certeza sobre sua capa. Essa capa é péssima.

OUÇA: “End Game”, “Future Love” e “Clouds Of Saint Marie”

Hatchie – Keepsake



Harriette Pilbeam, conhecida musicalmente como Hatchie, é uma cantora australiana que lançou seu primeiro álbum completo, Keepsake, agora no primeiro semestre de 2019. Keepsake seguiu o excelente EP Sugar & Spice ano passado e agora veio consolidar o nome de Hatchie de vez.

Seu som aqui continua com a mesma mistura de shoegaze e dream pop que ela havia apresentado em Sugar & Spice e dessa vez eleva os elementos ainda mais. Keepsake caminha livremente entre as baterias eletrônicas, refrões grudentos e as várias camadas de guitarras distorcidas. Não se trata de algo absolutamente novo de forma nenhuma. Essa combinação de shoegaze com eletrônico e pitadas de pc music já foi feita antes por inúmeros nomes, mas Keepsake é um álbum tão gostoso de se ouvir que a falta de originalidade não importa e nem atrapalha em nada.

Suas letras tratam de temas sobre relacionamentos e amores, de forma sempre doce e genuína. Hatchie também faz questão, ao longo dos 45 minutos e dez faixas do álbum, de mostrar toda a sua versatilidade indo das músicas lentas e tristes até as animadas e dançantes. Tudo isso sempre de forma bastante confiante e orgânica.

Hatchie é alguém que cita tanto My Bloody Valentine e Cocteau Twins quanto Carly Rae Jepsen e Kylie Minogue como influências e isso pode ser percebido ao longo do trabalho. Se Sugar & Spice já dava indícios do talento da moça e todo o seu potencial, aqui isso tudo é comprovado e seu som está em sua melhor forma até o momento.

Keepsake, mesmo sem incluir o excelente single ao vivo “Adored”, é um ótimo debut e o começo de uma carreira bastante promissora para a jovem artista australiana.

OUÇA: “Obsessed”, “Without A Blush”, “Keep” e “Stay With Me”

TOY – Happy In The Hollow


Ao mais familiares, minha opinião sobre esse álbum do TOY é: tá bom demais da conta!!!! Meu dreampop está vivo!!!!

Aos menos familiares, o quinteto do sul do Inglaterra apareceu na cena em 2012 com um debut self-titled. Animou a crítica e o público, aquele lenga-lenga clássico da estreia de uma banda indie. Os elogios continuaram com o Join The Dots (2014), e eles apresentavam em ambas produções uma vertente desse krautrock semi-psicodélico inspirado no final dos anos 1960, mas adicionando uma pitada de shoegaze que conferia autenticidade. E mais clássico que tudo isso, o terceiro registro foi aquele “nem quente nem frio”. Uma grande parte do público achou que em Clear Shot (2016) era muito sombrio, e o brilho do dreampop que eles haviam apresentado havia se perdido. Nada novo sob o Sol do universo das bandas indies britânicas.

Tudo que foi necessário foram três anos e uma nova gravadora. O TOY retorna com Happy In The Hollow, um disco produzido por eles mesmo e que está excelente! Tudo está de volta: a energia, o brilho, o shoegaze, a trenheira toda. Mas aqui, eles expandem seu universo melódico, incorporando novos elementos do pós-punk e um pouco daquele folk lisérgico dos anos 1960, que renova o som o tanto necessário.

Ainda que carregue seus resquícios do krautrock, o som em Happy In The Hollow é muito mais leve e delicado. A excelente “Charlie’s House”, um instrumental absurdo de grandeza e suavidade, mostra uma nova face da banda. Merece destaque também a incrível “The Willo”, que quebra genialmente o ritmo do álbum com um folk suave na medida certa.

Ainda assim, a banda reserva momentos específicos para referenciar sua produção anterior. A carro-chefe “Sequence One” e a agressiva “Energy”, ou a dreampop-esque radiofônica “Mistake A Stranger”, atestam esse feito. O registro abrange tantas fórmulas e gêneros que é dífícil colocar uma classificação ao som que fazem. Distorções, vocais aerados, batidas marcantes, baladas folks, mas tudo feito com extrema segurança. Os quarenta e poucos minutos da gravação aparentam segundos.

Happy In The Hollow coloca o TOY como uma banda enérgica e renovada. Um disco coeso, sólido, de um grupo que sabe sua identidade e como trabalhar no limite entre vários gênero e ainda assim alcançar autenticidade.

OUÇA: “Energy”, “Mistake” e “The Willo”

Swervedriver – Future Ruins


Há cinco anos, a banda Swervedriver anunciava seu retorno após um período de hiato de cerca de dezessete anos, contribuindo, muito antes de virar moda – e talvez dando o pontapé inicial – para um movimento repentino de retomada e renovação do gênero shoegaze em que bandas proeminentes e pioneiras como The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, Ride e Slowdive participaram de forma sublime. O álbum I Wasn’t Born To Lose You deixou evidente a capacidade do quarteto de Oxford de retomar sua arte de onde pararam: os riffs etéreos, os vocais nebulosos e as distorções de guitarra criam sempre uma harmoniosa atmosfera característica do som que sempre fizeram. Agora, a bola da vez é o disco Future Ruins, lançado este ano, o que me faz parar para pensar: por que os caras continuam fazendo exatamente o mesmo som que faziam há vinte e cinco anos?

Não me entenda errado, eu adorei o álbum. “The Lonely Crowd Fades In The Air” é simplesmente fantástica, uma das minhas tracks favoritas desse ano até o momento. De modo geral, mesmo reproduzindo fórmulas, o quarteto sabe o que faz: explorando do que parece ser uma inextinguível fonte de combinações diferentes dos mesmos riffs, vocais, letras e, pasmem, criando novas e boas músicas. Quando dei play e ouvi a primeira faixa, me odiei por estar curtindo-a. Digo, a impressão foi de que já havia a escutado muitas vezes antes, mas um quê de ineditismo toma conta de suas percepções e, quando se dá conta, está balançando a cabeça de forma cadenciada.

Everybody’s Going Somewhere & No One’s Going Anywhere”deixa evidente toda a concomitância dos integrantes, quase deixando de tocar seus instrumentos de forma individual, mas, de outra maneira, concordando uns com os outros tais qual uma engrenagem, um organismo. Mesmo que praticamente seja um som instrumental, a sensação é de que estamos conversando com Adam Franklin, que influenciado pelo mundo em degradação ao seu redor e talvez pelo potencial impacto de futuro, escreveu músicas que capturam tal clima e ao mesmo tempo oferecem uma luz no fim do túnel em uma espécie de viagem nostálgica. Vale muito a pena.

Encerrando, há “Radio Silent”, faixa que sintetize o gênero shoegaze – embora, sejamos sinceros, o Swervedriver nunca realmente pôde ser definido como tal. Sincera, etérea e característica quase como uma canção de ninar, o compasso faz com que o disco encerre como um bom filme: você não vê os créditos passando, mas precisa de algum tempo para voltar à realidade. Um ouvinte familiarizado com o som da banda não se surpreenderá. Não há riscos, novas tentativas ou algo que saia do que pode ser considerado o catálogo do quarteto inglês. Isso, por outro lado, de maneira alguma significa que a decepção é certa, mas, ao contrário, aparece quase como um manifesto de existência do grupo. Para fãs saudosistas, um prato cheio, embora, convenhamos, seria interessante ver o Swervedriver saindo da zona de conforto e arriscando em algumas direções.

OUÇA: “Mary Chain”, “Everybody’s Going Somewhere & No One’s Going Anywhere”, “The Lonely Crowd Fades In The Air” e “Drone Lover”

The Twilight Sad – IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME


É das máximas mais repetidas de todas que é impossível a um mesmo homem tomar banho no mesmo rio duas vezes. Na segunda vez já não é mais o mesmo. Seja o rio, seja o homem. Dessa analogia apresentada por Heráclito, se origina o paradigma de que a única constante é a mudança. A constatação desse processo pode ser verificada em qualquer coisa cuja existência persista por tempo suficiente. Sejam pessoas, obras de arte, grupos artísticos. Acompanhar algo é, portanto, um estudo da transformação e, uma vez constatado isso, pode se apreciar a mudança por ela em si, independente de o resultado ser aquilo que se esperava. A beleza reside no movimento.

E, algumas vezes, ao final o movimento também resulta em algo belo além, como é o caso do IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME último disco da banda escocesa de pós-punk The Twilight Sad.

Quinto registro de estúdio do grupo, o disco vem cinco anos depois do excelente Nobody Wants to be Here And Nobody Wants to Leave e mostra uma significativa mudança de estética e abordagem na composição das faixas. Enquanto o último disco apresentava uma sonoridade claramente influenciada pelo post-punk moderno, com o baixo pronunciado e riffs repetitivos e hipnóticos, além de guitarras altas que criavam paredes de som nas composições – numa influência de shoegaze que às vezes remetia à ênfase no volume e na imposição dada pelo A Place to Bury Strangers -, e o timbre grave do vocal de James Graham, o novo mostra a banda se aproximando de influências bastante distintas, porém não tão distantes assim.

A primeira constatação é a perda de ênfase no baixo e nas guitarras, com o foco ficando agora no uso de sintetizadores e teclados para construir a identidade do disco. Num movimento análogo ao do próprio post-punk, é evidente a influência de New Order no estilo de composição do novo disco, enquanto pelo timbre e teatralidade empregadas no vocal de Graham, a performance do vocalista se aproxime de Bauhaus. Nada disso é apontado de maneira a diminuir o trabalho do novo disco. Expondo suas influências de maneira honesta, o Twilight Sad se move numa direção diferente enquanto mantém seus laços com o gênero ao mesmo tempo que explora a própria interpretação dos estilos nos quais se inspira.

Já na abertura, com “[10 Reasons For Modern Drugs]”, os teclados ganham a companhia rápida de uma linha de baixo moderna que acelera o ritmo da música, dando à faixa um andamento dinâmico que cria o cenário para a entrada da teatral segunda faixa “Shooting Dennis Hooper Shooting”, uma das melhores do disco. Aqui o Twilight Sad reduz a presença dos sintetizadores, permitindo que o baixo volte a ocupar o espaço central da composição, enquanto os sintetizadores preenchem os vazios deixados por ele, criando a impressão de um instrumental solene e dramático que cresce próximo do clímax da música. A dramaticidade continua com a faixa seguinte, “The Arbor”, que volta a enfatizar os teclados e a diminuir a velocidade, se aproximando decididamente das influências apresentadas pela banda. O baixo e os sintetizadores criam uma atmosfera distante que reforça a lugubridade da música. IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é um disco sobre mágoas, as dúvidas trazidas pelo que provoca a mágoa e a aprender a não esperar que essas dúvidas sejam respondidas. Não é a resposta que faz diferença, é aprender a lidar com a pergunta.

Naturalmente, o disco não é sem falhas. Enquanto músicas como a lenta e despida “Sunday Day13” e as rápidas e raivosas “Girl Chewing Gum” e “Let/s Get Lost” não soam particularmente ruins ou fora de lugar no setlist do disco, a simplicidade e as escolhas de composição delas, quando colocadas lado a lado com as outras faixas do disco, faz com que elas empalideçam em comparação. E num disco tão denso e emocionalmente carregado, falhar em causar uma impressão forte é uma fraqueza.

Outras faixas que surpreendem com as direções adotadas pela banda são “I/m Not Here [missing face]”, que hipnotiza com um refrão forte e envolvente, o ritmo acelerado e carregado de dramatismo é carregado pela dualidade entre bateria e sintetizadores, que representa a o contraste entre o peso interno dos sentimentos e a fachada suave com que eles se manifestam fora de nós. “Auge/Maschine” volta a dar lugar à raiva, com uma avalanche de sintetizadores que soterra o ouvinte no que pode ser uma nova direção para a banda: abrir mão das paredes de guitarras do shoegaze em favor de uma igual presença esmagadora de sintetizadores influenciados pelo synthpop. O último bom destaque é a Keep it All to Myself, que também dá predominância aos sintetizadores, com o adicional de um riff serpenteante e agudo de guitarra após os refrões que cadenciam a música, carregando de rancor a faixa.

IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é uma excelente obra para o catálogo do Twilight Sad. Sabendo explorar os elementos que definiram sua identidade, como a voz de Graham, o instrumental predominantemente grave e os andamentos cadenciados, a banda se aproxima de uma nova influência com os sintetizadores e teclados, entrando num território que possui um grau de parentesco com o post-punk que vinham praticando até então. É talvez um dos melhores discos da carreira do quarteto escocês e um resultado que dificilmente eles conseguirão repetir, mas tudo bem.

Ninguém conseguiria mesmo.

OUÇA: “Shooting Dennis Hooper Shooting”, “The Arbor”, “I’m Not Here [missing face]”, “Auge/Maschine” e “Keep It All To Myself”

The Joy Formidable – AAARTH


Minha mente às vezes faz uns paralelos estranhos, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça quando ouvi AAARTH, novo trabalho da banda galesa The Joy Formidable, foi todo o tempo que passei ouvindo j-rock durante o colegial. Especialmente a banda the GazettE, uma das únicas que me continuaram comigo nesses dez anos e ainda fazem parte da minha playlist – não acompanho muito seu trabalho recente mas os primeiros álbuns até 2008 ainda são recorrentes em minha vida. Seu segundo disco, NIL, vai ser pra sempre um dos meus favoritos da vida toda – e se o ocidente não fosse tão preconceituoso com música oriental, com certeza mais pessoas o teriam escutado e concordariam comigo.

O que sempre me atraiu muito ao GazettE era a sua diversidade. Eles eram capazes de ir do punk ao metal, passando por pianos, orquestrações e influências de hip hop sem perderem sua identidade e com um som ainda bastante acessível. Seu terceiro álbum, Stacked Rubbish, foi quando adicionaram as batidas de hip hop e pesaram um pouco mais no baixo. Músicas como “Agony” ilustram isso perfeitamente.

E o que uma banda japonesa de visual kei tem a ver com os galeses do Joy Formidable? Em AAARTH, pra mim pelo menos, tudo. Se tivesse que comparar o quarto disco da banda com qualquer coisa, seria com o j-rock do GazettE. AAARTH apresenta o mesmo caos organizado de influências que sempre vi e me interessou no GazettE.

Seguindo o bastante morno Hitch, o Joy Formidable nos trouxe dessa vez um álbum realmente bom de novo e que mostra que a banda apenas teve um pequeno relapso em seu lançamento passado. Ao contrário da mesmice pouco criativa de Hitch, cada música em AAARTH traz uma versão diferente do mesmo Joy Formidable e isso torna o álbum bastante único e bem diferente dos seus trabalhos anteriores.

Meu saudosismo ainda insiste em dizer que A Balloon Called Moaning vai ser pra sempre o melhor disco do grupo, mas às vezes justamente por ter isso como ‘fato’ é possível apreciar sua nova direção como algo tão bacana quanto. Já que nada nunca vai superar, não precisamos nem levar seu primeiro mini-álbum em consideração quando falarmos do trio. E AAARTH é, talvez, a melhor coisa que veio da banda desde então. Exatamente por ser um disco bastante arriscado e aparentemente desconexo.

“Y Bluen Eira”, que abre o álbum, já mostra que o que encontraremos aqui não é a mesma coisa que já veio da banda antes. Eles também, em “All In All” principalmente, voltam ao quasi-shoegaze de músicas como “Ostrich” e isso é algo maravilhoso de se ouvir. O maior defeito de um álbum como AAARTH, aqui, se torna seu maior trunfo: a falta de coesão. As faixas não conversam exatamente entre si, então ouví-lo em sua ordem formal não importa muito. Trata-se de músicas completas, como uma compilação de singles de diferentes eras ou de um ‘best of’, não de um trabalho que pretende ter um começo, meio e fim definidos.

AAARTH, no final, deve ser reconhecido como uma ótima adição à discografia do Joy Formidable. Um álbum que vale a ouvida e que chega até a surpreender em alguns momentos, exatamente por que ele não parece se importar muito com isso.

OUÇA: “Y Bluen Eira”, “Cicada (Land On Your Back)”, “The Better Me” e “Caught On A Breeze”

Spiritualized – And Nothing Hurt


Spiritualized é uma banda que foi formada em Warwickshire, na Inglaterra, por Jason Pierce – também chamado de J. Spaceman – no início dos anos 90. Assim, trata-se de uma banda com uma bagagem musical extensa e que sempre surpreendeu seus ouvintes com seus registros lançados por conta de sua potência sonora.

Agora, após seis anos, Spiritualized lança seu oitavo álbum de estúdio intitulado And Nothing Hurt. Durante a primeira audição, nos deparamos com um registro sonoro repleto de sentimentos  e também com muitos detalhes, sejam com os arranjos, os vocais e/ou  as guitarras, isto é, nos deparamos com um belo conjunto de camadas instrumentais/vocais crescentes e decrescentes durante toda a execução do álbum. Logo, é inegável que a produção do álbum é interessantíssima, rica em detalhes e melodias, e muito bem elaborada/executada por Jason Pierce.

And Nothing Hurt nos mostra uma faceta mais confessional, intimista de Jason Pierce,  fazendo com que o registro soe mais melancólico e íntimo do que trabalhos anteriores de Spiritualized. Sendo assim, o álbum é um compartilhamento de sentimentos muito bem musicados e que deixa em evidência a entrega, o mergulho de Jason Pierce em cada composição, em cada detalhe presente no registro.

Em linhas gerais, Jason Pierce criou um álbum sem pressa, mergulhou nele de todas as formas possíveis e nos mostrou toda a sua entrega sentimental e musical sendo materializada em nove faixas muito bem elaboradas/executadas e tão graciosas de se ouvir. Por fim, mesmo que Spiritualized tenha uma trajetória de mais de duas décadas, And Nothing Hurt não deixa de surpreender e de ser um registro sonoro marcante para a banda, ou seja, And Nothing Hurt não é um álbum morno e está longe de ser, ele é um álbum profundo e vemos Jason Pierce se despir nele e mergulhar em toda a sua imensidão sonora.

OUÇA: “A Perfect Miracle”, “Let’s Dance”, “Damaged”, “The Prize” e “Sail On Through”

Beach House – 7


O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”.

Diferentemente dos álbuns anteriores, nos quais as faixas iniciais já constroem a atmosfera de sonho pela suavidade, “Dark Spring” abre o sétimo disco com baterias (de verdade!) e distorções que me remeteram ao Loveless, do My Bloody Valentine. Essa referência segue ao longo do álbum na lenta “Pay No Mind” e “Dive”, cujos vocais duplicados constroem uma atmosfera deliciosa.  Já em faixas como os singles “Lemon Glow” e “Black Car”, o álbum retorna para os elementos mais dream pop característicos da banda, deixando de lado o rock/shoegaze das outras faixas.

Essa aproximação com um instrumental mais pesado que o usual do Beach House — acompanhados pelas letras, que abordam pontos obscuros da fama e do glamour, primaveras geladas e sem cores, estrelas e morte — tornam 7 o álbum mais pesado do duo (até agora). Talvez isso demarque um novo momento da banda, evocado pela simbologia do número 7, pontuando a mudança do produtor: depois de 6 discos com Chris Coady, Victoria e Alex apostaram em Peter Kember (MGMT, Panda Bear). A mudança trouxe novas nuances para um repertório de sonoridades que, apesar de estar entre meus preferidos, estava um pouco gasto desde o Bloom, de 2012.

Com guitarras mais pesadas, vocais mais claros e letras ricas em imagens poéticas, 7 me faz pensar em amadurecimento. Um amadurecimento enquanto processo, não enquanto ponto de chegada — se aprendi alguma coisa escutando Beach House é a sonhar com a lua sem encostar nela. E, mesmo não estando visível a olho nu, a lua escura continua no céu, e depois de 7 dias a veremos clara de novo.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”.