The Joy Formidable – AAARTH


Minha mente às vezes faz uns paralelos estranhos, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça quando ouvi AAARTH, novo trabalho da banda galesa The Joy Formidable, foi todo o tempo que passei ouvindo j-rock durante o colegial. Especialmente a banda the GazettE, uma das únicas que me continuaram comigo nesses dez anos e ainda fazem parte da minha playlist – não acompanho muito seu trabalho recente mas os primeiros álbuns até 2008 ainda são recorrentes em minha vida. Seu segundo disco, NIL, vai ser pra sempre um dos meus favoritos da vida toda – e se o ocidente não fosse tão preconceituoso com música oriental, com certeza mais pessoas o teriam escutado e concordariam comigo.

O que sempre me atraiu muito ao GazettE era a sua diversidade. Eles eram capazes de ir do punk ao metal, passando por pianos, orquestrações e influências de hip hop sem perderem sua identidade e com um som ainda bastante acessível. Seu terceiro álbum, Stacked Rubbish, foi quando adicionaram as batidas de hip hop e pesaram um pouco mais no baixo. Músicas como “Agony” ilustram isso perfeitamente.

E o que uma banda japonesa de visual kei tem a ver com os galeses do Joy Formidable? Em AAARTH, pra mim pelo menos, tudo. Se tivesse que comparar o quarto disco da banda com qualquer coisa, seria com o j-rock do GazettE. AAARTH apresenta o mesmo caos organizado de influências que sempre vi e me interessou no GazettE.

Seguindo o bastante morno Hitch, o Joy Formidable nos trouxe dessa vez um álbum realmente bom de novo e que mostra que a banda apenas teve um pequeno relapso em seu lançamento passado. Ao contrário da mesmice pouco criativa de Hitch, cada música em AAARTH traz uma versão diferente do mesmo Joy Formidable e isso torna o álbum bastante único e bem diferente dos seus trabalhos anteriores.

Meu saudosismo ainda insiste em dizer que A Balloon Called Moaning vai ser pra sempre o melhor disco do grupo, mas às vezes justamente por ter isso como ‘fato’ é possível apreciar sua nova direção como algo tão bacana quanto. Já que nada nunca vai superar, não precisamos nem levar seu primeiro mini-álbum em consideração quando falarmos do trio. E AAARTH é, talvez, a melhor coisa que veio da banda desde então. Exatamente por ser um disco bastante arriscado e aparentemente desconexo.

“Y Bluen Eira”, que abre o álbum, já mostra que o que encontraremos aqui não é a mesma coisa que já veio da banda antes. Eles também, em “All In All” principalmente, voltam ao quasi-shoegaze de músicas como “Ostrich” e isso é algo maravilhoso de se ouvir. O maior defeito de um álbum como AAARTH, aqui, se torna seu maior trunfo: a falta de coesão. As faixas não conversam exatamente entre si, então ouví-lo em sua ordem formal não importa muito. Trata-se de músicas completas, como uma compilação de singles de diferentes eras ou de um ‘best of’, não de um trabalho que pretende ter um começo, meio e fim definidos.

AAARTH, no final, deve ser reconhecido como uma ótima adição à discografia do Joy Formidable. Um álbum que vale a ouvida e que chega até a surpreender em alguns momentos, exatamente por que ele não parece se importar muito com isso.

OUÇA: “Y Bluen Eira”, “Cicada (Land On Your Back)”, “The Better Me” e “Caught On A Breeze”

Spiritualized – And Nothing Hurt


Spiritualized é uma banda que foi formada em Warwickshire, na Inglaterra, por Jason Pierce – também chamado de J. Spaceman – no início dos anos 90. Assim, trata-se de uma banda com uma bagagem musical extensa e que sempre surpreendeu seus ouvintes com seus registros lançados por conta de sua potência sonora.

Agora, após seis anos, Spiritualized lança seu oitavo álbum de estúdio intitulado And Nothing Hurt. Durante a primeira audição, nos deparamos com um registro sonoro repleto de sentimentos  e também com muitos detalhes, sejam com os arranjos, os vocais e/ou  as guitarras, isto é, nos deparamos com um belo conjunto de camadas instrumentais/vocais crescentes e decrescentes durante toda a execução do álbum. Logo, é inegável que a produção do álbum é interessantíssima, rica em detalhes e melodias, e muito bem elaborada/executada por Jason Pierce.

And Nothing Hurt nos mostra uma faceta mais confessional, intimista de Jason Pierce,  fazendo com que o registro soe mais melancólico e íntimo do que trabalhos anteriores de Spiritualized. Sendo assim, o álbum é um compartilhamento de sentimentos muito bem musicados e que deixa em evidência a entrega, o mergulho de Jason Pierce em cada composição, em cada detalhe presente no registro.

Em linhas gerais, Jason Pierce criou um álbum sem pressa, mergulhou nele de todas as formas possíveis e nos mostrou toda a sua entrega sentimental e musical sendo materializada em nove faixas muito bem elaboradas/executadas e tão graciosas de se ouvir. Por fim, mesmo que Spiritualized tenha uma trajetória de mais de duas décadas, And Nothing Hurt não deixa de surpreender e de ser um registro sonoro marcante para a banda, ou seja, And Nothing Hurt não é um álbum morno e está longe de ser, ele é um álbum profundo e vemos Jason Pierce se despir nele e mergulhar em toda a sua imensidão sonora.

OUÇA: “A Perfect Miracle”, “Let’s Dance”, “Damaged”, “The Prize” e “Sail On Through”

Beach House – 7


O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”.

Diferentemente dos álbuns anteriores, nos quais as faixas iniciais já constroem a atmosfera de sonho pela suavidade, “Dark Spring” abre o sétimo disco com baterias (de verdade!) e distorções que me remeteram ao Loveless, do My Bloody Valentine. Essa referência segue ao longo do álbum na lenta “Pay No Mind” e “Dive”, cujos vocais duplicados constroem uma atmosfera deliciosa.  Já em faixas como os singles “Lemon Glow” e “Black Car”, o álbum retorna para os elementos mais dream pop característicos da banda, deixando de lado o rock/shoegaze das outras faixas.

Essa aproximação com um instrumental mais pesado que o usual do Beach House — acompanhados pelas letras, que abordam pontos obscuros da fama e do glamour, primaveras geladas e sem cores, estrelas e morte — tornam 7 o álbum mais pesado do duo (até agora). Talvez isso demarque um novo momento da banda, evocado pela simbologia do número 7, pontuando a mudança do produtor: depois de 6 discos com Chris Coady, Victoria e Alex apostaram em Peter Kember (MGMT, Panda Bear). A mudança trouxe novas nuances para um repertório de sonoridades que, apesar de estar entre meus preferidos, estava um pouco gasto desde o Bloom, de 2012.

Com guitarras mais pesadas, vocais mais claros e letras ricas em imagens poéticas, 7 me faz pensar em amadurecimento. Um amadurecimento enquanto processo, não enquanto ponto de chegada — se aprendi alguma coisa escutando Beach House é a sonhar com a lua sem encostar nela. E, mesmo não estando visível a olho nu, a lua escura continua no céu, e depois de 7 dias a veremos clara de novo.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”.

God Is an Astronaut – Epitaph


Epitaph é o nono album da banda de post/space-rock God Is an Astronaut. Os irlandeses estão entre os conhecidos do estilo, e no geral, são muito estimados por suas composições. Com uma discografia muito sólida, o grupo lança mais um disco para manter a sua linha. No entanto, não é isso o que sentimos ao reouvir todos os trabalhos da banda.

No seu início, God Is an Astronaut surpreendia com as maravilhosas melodias, além dos andamentos das músicas. Era tudo muito deslumbrante. The End Of The Beginning (2002) e All Is Violent, All Is Bright (2005) são discos essenciais para os amantes do post-rock: as ideias melódicas, a atmosfera das músicas, todo o conceito e percurso dos discos são lindos.

Epitaph é muito parecido Helios | Erebus (2015): muito calcado no som mais puxado para o gênero ambient, ideia que começou lá no Origins (2013) – mas, esse, por sua vez é muito superior aos dois discos seguintes.

A ideia de fazer um som com uma atmosfera ambiente claustrofóbica não é de se jogar fora, mas sabe quando a banda que você gosta lança um disco mais do mesmo e que nada te acrescenta? Isso é o que define melhor Epitaph. Inclusive, existem canções que se parecem tanto, que torna o álbum até um pouco entediante, como a “Komorebi” e “Oisín” – a mesma linha de piano estilo trilha sonora.

O último lançamento da banda poderia ter sido usado na trilha sonora de algum filme sobre o espaço, ideia muito retomada nos últimos anos pelo cinema estadunidense. Mas jamais figuraria como as mais belas trilhas sonoras de filmes que você tem vontade de reouvir depois que o filme acaba.

Grouper – Grid Of Points


Liz Harris não lançava um álbum sob o nome de Grouper, pelo qual é mais conhecida, desde 2014. Ao longo desse período, a artista focou em EPs e colaborações, e, embora esses trabalhos apresentassem marcas indiscutíveis de sua sonoridade, serviram mais para abrir o apetite dos fãs para um novo disco. Se você é uma dessas pessoas, é bem possível que Grid Of Points tenha se revelado uma decepção.

Não que o álbum seja ruim, muito longe disso, mas porque o próprio ato de chamar de álbum é quase uma demonstração de boa vontade. Grid Of Points tem apenas 21 minutos, ou seja, metade da duração que os anteriores lançados por Grouper. Digamos que você chega em casa depois de um longo dia, coloca o álbum para tocar, e vai preparar sua janta, ou deitar no sofá para relaxar, ou ler um livro. Antes da comida ficar pronta ou de terminar o primeiro capítulo, o álbum acaba, de forma abrupta e deixa aquele gosto de quero mais.

Porque tudo que atrai quem gosta de Grouper está aqui. São canções bem desenvolvidas, com foco para voz e o piano, que criam atmosferas envolventes. A sensação de ouvir Grid of Points é a de atravessar uma densa floresta, ou a de encarar o mar. Os vocais de Harris, em muitas das faixas, chegam mesmo a ter aquele efeito ondulante de idas e vindas. De intensidades que se elevam e se desfazem. A melancolia que marca a obra da artista está presente com mais força do que nunca. E chega até a ser ainda mais impactante quando aliada a títulos como “Thanksgiving Song” e “Birthday song”, que remetem a datas festivas.

Harris usa sua voz como instrumento, o que deixa as letras de suas composições em segundo – ou terceiro, ou quarto… – plano, mas que nunca parece forçado. Grid Of Points encaixa bem com as obras anteriores de Grouper, especialmente com Ruins, seu antecessor direto. Chega a ser recomendável ouvir em conjunto com esse outro álbum, pois, caso contrário, aquela sensação de insatisfação pode prevalecer. E vamos esperar que não tenhamos que esperar mais quatro anos para ver o qu

OUÇA: O álbum todo, não vai demorar muito.

The Soft Moon – Criminal


Criminal é um álbum pesado. Sua densidade aparece em todos os elementos possíveis: a voz de Luis Vasquez surge como urros guturais cheios de raiva, a guitarra é repetitiva e incessante e vem sempre acompanhada por uma bateria igualmente frenética. Mas você não precisaria nem escutá-lo para adivinhar isso: a tracklist já ilustra bem o que vamos encontrar ali, com títulos como “The Pain”, “Ill”, “Choke” e “It Kills”. Suas letras soam como acusações na maior parte do tempo, e todos os elementos combinados produzem uma sensação completamente claustrofóbica. Não é agradável, mas também há a impressão de que não era para ser.

Ainda que a impalatabilidade de Criminal seja intencional — ou ao menos pareça ser — ele adota um molde um tanto previsível para passar a sua mensagem. O artista não parece conseguir transcender todos os clichês de um álbum de revolta e dor, produzindo canções uniformemente barulhentas e caóticas. A impressão é de estar ouvindo uma grande música de 39 minutos, cortada diligentemente em pedaços de quatro minutos. É possível identificar elementos interessantes no meio de tudo, mas a sua coexistência constante em uma sobrecarga de sons torna o álbum maçante e previsível.

Os destaques surgem nos poucos respiros que lhe são permitidos: “ILL”, por exemplo, foge à tempo acelerada das canções precedentes e explora melhor a distorção da guitarra, acompanhando-a de batidas que também destoam do ritmo que ocupa o resto do álbum. A ausência da voz de Vasquez aproxima a canção de seus trabalhos anteriores, que pareciam deixar mais espaço para nuance do que esse. Em Criminal, não há a sutileza de outras de suas músicas, que preferiam instigar um senso de instabilidade e medo por meio de batidas constantes, porém leves. É um álbum que parece ter a intenção de assustar quem o escuta de maneira tão grossa que acaba caindo na breguice.

Há valor nas letras, que expõem as experiências de abuso enfrentadas pelo artista na infância. Elas exploram temas de autodestruição e baixa autoestima de forma honesta e seca, ainda que com alguma poesia. São destaques os versos de “It Kills” ‘I wish for anything / that tears me down / the more and more I drown‘, que comunicam o mais profundo auto-ódio. Os mesmos sentimentos aparecem de forma ainda mais óbvia em “Burn”, que retrata o cansaço frente a uma mente que parece irreparavelmente quebrada, e mostra o desejo de fugir de si mesmo: ‘Why does this existence feel like this / Cause it burns‘ e ‘I wish I could be somebody else / Cause it burns‘. No entanto, essa é a parte mais difícil de prestar atenção ao escutar o álbum. Em Criminal, a voz é apenas mais um instrumento em meio a muitos outros.

Como um todo, Criminal soa tão clichê que parece uma paródia. O vocal de Vasquez adota um tipo de sussurro violento e arrastado que poderia pertencer a qualquer artista que um garoto de doze anos descobrindo o rock ouviria no volume máximo, trancado em seu quarto, provavelmente pensando em como o mundo não o compreende. As músicas conjuram imagens de clipes desnecessariamente gráficos e “provocadores” de artistas como Nine Inch Nails e Marilyn Manson — com a diferença de que The Soft Moon o faz com alguns anos de atraso.

OUÇA: “ILL”, “It Kills” e “Burn”

The Pains of Being Pure at Heart – The Echo of Pleasure


Com dez anos de banda, os nova iorquinos do The Pains of Being Pure at Heart construíram uma carreira mais que sólida dentro do cenário shoegaze e acabaram de lançar o quarto disco, The Echo Of Pleasure, com nove inéditas.

Histórias à parte, o disco foi feito logo após Kip Berman se casar. Um misto de maturidade e letras um pouco mais profundas rodeiam a produção e, enquanto o antigo Pains trazia dramas românticos mais efusivos, o novo disco traz faixas como “Anymore”, onde um felizes para sempre é mais recorrente.

Mais polido, o disco ainda traz aquela guitarra suja que marcou o som da banda como nas faixas “The Cure For Death” e “The Echo Of Pleasure”, onde as referências de bandas como Smashing Pumpkins e The Smiths são encontradas. “When I Dance With You” abusa um pouco mais dos teclados e sintetizadores, aquela faixa que já foi feita para festinhas em casa.

As letras são bem generalistas, falam de sentimentos que todos já passaram lidaram – eventualmente – irão lidar. Inevitavelmente Berman as canta com um gás incrível que não era muito encontrads trabalhos anteriores, quando dividia mais o vocal com a tecladista Peggy. Agora Goma e Jocob, que estão na turnê com Berman, também se envolvem nos vocais, perdidos nas camadas eletrônicas.

Há boatos de que The Echo Of Pleasure possa ser uma despedida, talvez da banda ou somente da antiga vida de Berman, agora que suas prioridades mudaram um pouco. O disco vale principalmente para quem acompanhou a trajetória da banda nos últimos discos, um misto de saudosismo e conforto.

OUÇA: “When I Dance With You”

Ride – Weather Diaries

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Já nos primeiros segundos de Weather Diaries, embarcamos em uma viagem etérea e sinuosa logo de cara. Essas são as principais características do disco que marca a reunião do Ride nos estúdios, 21 anos após seu último lançamento. A abertura do álbum nos leva – por breves momentos – de volta aos anos 90, com acordes banhados em efeitos que provocam a velha parede de som, mas rapidamente somos expostos ao confronto temporal que duas décadas são capazes causar.

O disco começa de forma rápida e envolvente com “Lannoy Point”. As primeiras notas deixam claro: estamos ouvindo Ride. A essência da banda está presente. É um álbum de shoegaze. No entanto, algo mudou. Nos minutos seguintes da audição podemos perceber os impactos do tempo nas composições. Os ingleses aderiram a nuances da música eletrônica em suas canções, tornando suas criações mais modernas.

No segundo terço do álbum, porém, percorremos ruas nebulosas e taciturnas; em seguida, a chuva começa a cair. Pouco a pouco passamos a ser inundados em um mar de nostalgia que nos acompanhará até o final do trabalho. A banda conseguiu manter o caráter experimental mesmo tendo composto seu primeiro disco há aproximadamente 30 anos. É perceptível em todas as criações do grupo que eles buscam algo novo, inexplorado, mas que mantenha a sua singularidade.

Apesar disso, o disco se perde em alguns momentos nessa mistura e falha ao tentar nos entregar coesão. No processo de procurar o novo, manter a identidade e experimentar, o grupo fez um trabalho discreto. Ainda assim, há algumas canções memoráveis, que não se deixaram ofuscar pela falta de harmonia do álbum e são o que se espera de uma banda como Ride.

O trabalho dos ingleses encerra em uma estrada no meio de um entardecer colorido em tons pastel, embalado por canções que finalizam o disco com certo misticismo nostálgico, como um velho companheiro de longa data.

OUÇA: “Lannoy Point”, “Home Is A Feeling”, “Lateral Alice” e “Impermanence”.

Moon Duo – Occult Architecture

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Erik “Ripley” Johnson (Wooden Shjips) e Sanae Yamada lançaram nesse ano, em duas parte, o seu mais novo trabalho, o Occult Architecture. Este, com a proposta de ser um álbum conceitual, vêm agregar mais ótimos ritmos chapados para a discografia.

Como explicitado no site oficial da dupla, o novo álbum – separado em duas partes – é sobre o que existe entre/na passagem das estações e da dinâmica dia/noite, luz/escuridão, o yin-yang.

Além das capas serem apropriadas para os discos, seus lançamentos foram estrategicamente planejados: o primeiro volume – a escuridão, yin foi lançado no inverno no hemisfério Norte; o segundo – a luz, yang – foi lançado na primavera, simbolizando o surgimento de uma nova vida, ou seja, o fim das “trevas” e início de outro ciclo.

Os dois membros da banda resolveram fazer um álbum nessa dicotomia porque eles mesmos sentiram essas energias ao compor as músicas. E nós conseguimos perceber como a atmosfera muda ao ouvir os diferentes “volumes”. Além do que, segundo eles, na época também estavam em contato com a literatura obscura, dita por alguns como sendo “do capeta” porque são subversivas da ordem e pensamento vigente, mas que qualquer um sabe que rende sempre boas composições: vários escritores, e dentre eles, Aleister Crowley.

Dessa forma, não podemos entender que um lado é “do mal” e outro “do bem”. A teoria chinesa e os dois discos não simbolizam isso. Eles retratam um ciclo que está presente na vida, no dia-a-dia, e que a princípio vive em harmonia.

O primeiro disco não vive somente da fantasmagórica “Will Of The Devil” também existe a oitentista “Cross-Town Fade”, que com certeza poderia ser inserida na famosa dança do filme The Breakfast Clube (O Clube dos Cinco). Bem como Lost In Lightdo segundo nos traz uma inevitável melancolia de redenção. O que talvez alguns não encaixariam no bom, porque vêm esse sentimento como sendo o da felicidade gritante plena.

Moon Duo nos dá dois conjuntos de músicas longas, conceituais – não pense em Pink Floyd nesse momento -, mas com ideias não tão boas quanto seus dois trabalhos anteriores, Circles (de 2012, que com certeza é o melhor trabalho deles) e Shadow Of The Sun (2015). E os dois discos não estão balanceados. O primeiro agrada muito mais do que o entediante segundo. Então, cadê o equilíbrio? Durante a audição é inevitável não ter vontade de voltar para o Vol. 1.

Apesar de tudo isso, e do fato de ser uma questão largamente abordada na música, literatura, cinema, arte em geral, a dicotomia do bom/ruim, luz/escuridão, ciclos e outras denominações provavelmente jamais deixará de render bons frutos. Porque é inerente à vida. Quando percebemos isso, a roda que gira e nos traz boas novas depois de passarmos por momentos miseráveis, e depois nos devolve ao léu, essa cósmica toma grandes proporções de identificação nas pessoas. É uma energia – ou troca de energias – que tem grande impacto. A partir dessa sensibilidade, ao olharmos as capas desses discos, nos reconheceremos naqueles caminhos ao centro dos desenhos.

OUÇA: “Cross-Town Fade”, “Creepin’” e “Lost in Light”.

Cigarettes After Sex – Cigarettes After Sex

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A banda de origem texana Cigarettes After Sex formada em 2008 – e que agora reside no Brooklyn – carrega na trajetória musical o EP I. (2012) e os singles “Affection” (2015) e “K.” (2016), e acabou de lançar seu primeiro álbum intitulado Cigarettes After Sex. Aparentemente, a banda “repentinamente” caiu na graça do público via youtube – alguns usuários receberam recomendações e a música “Nothing’s Gonna Hurt You Baby” alcançou muitas visualizações – o que colaborou para a disseminação das belíssimas canções do grupo e para a formação de ouvintes viciados/sedentos pela “fórmula Cigarettes After Sex”.

Assim, o novo álbum e o material produzido anteriormente pela banda pode ser caracterizado por uma palavra: viciante. Eu, por exemplo, antes de pensar em escrever sobre o álbum, me rendi e cai no limbo das 10 canções tristes/românticas, me joguei na fossa musical por semanas de forma não-intencional.

Então, posso falar com bastante propriedade que esse disco é bastante envolvente, ainda mais se o momento da sua vida for propício. O álbum soa bastante melancólico, do começo ao fim, canta romances e está carregado daquele sentimento de abandono, mas ao mesmo tempo que ele nos deixa naquele estado contemplativo e de calmaria por conta da sonoridade, ele também nos faz mergulhar na tristeza.

Afinal, romances rendem boas canções, mas ao mesmo tempo que a voz doce de Greg Gonzalez nos embala com momentos apaixonados como esse: “Holding you until you fall asleep/ it’s just as good as I knew it would be/Stay with me/I don’t want you to leave…” (Trecho de “K.”), ele também nos joga esse balde de água fria aqui: “Each time you fall in love/ it’s clearly not enough” (Trecho de “Each Time You Fall In Love”).

É um álbum que traduz o que é estar apaixonado: a sensação de “ apocalipse” quando os lábios se juntam com o do ser amado; romantizar o pôr do sol; fazer poesia com os detalhes do corpo de quem amamos; as lembranças; a sensação ruim de não ser suficiente; a sensação do amor à primeira vista; a presença da sensualidade; e a sensação de amar muito e não saber o que fazer.

Bom, eu sei muito bem que fazer um álbum sobre amor/estar apaixonado pode parecer o mais clichê possível, mas o álbum de estréia Cigarettes After Sex realmente vale a pena. E digo isso pela junção de delicadeza, simplicidade e sensualidade presentes no registro, resultado de linhas de baixo envolventes, bases simples de guitarra/bateria/teclado e vocais adocicados/sussurrados.

Logo, o fazer musical da banda é simples, mas isso não faz com que o álbum seja ruim, pelo contrário, a simplicidade dele é bastante favorável e muitas vezes o menos é mais, não é mesmo? Por fim, Cigarettes After Sex soa onírico, é bastante suave e simples, mas consegue nos hipnotizar e nos cativar com sua profundidade, com sua delicadeza e com sua doçura que está longe de ser enjoativa.

OUÇA: “Each Time You Fall In Love”, “Sunsetz”, “Flash”, “Sweet” e “Opera House”.