The Darkness – Pinewood Smile


Desde o estrondoso Permission To Land (2003) eu me mantive bem distante do The Darkness pelo simples motivo de ser um tiro no escuro, um daqueles álbuns que emplacam e põe a cara da banda no mundo mas põe a carreira dela em irrelevância logo em seguida, incapaz de se sustentar; e infelizmente eu estava certo quanto a isso, entre uma notícia e outra era claro que o ápice da banda era seu debut e resto da carreira seria apenas uma sombra do que já foi um dia, e depois de longos 5 anos o efeito dominó se mostra mais evidente do que nunca, não tendo absolutamente nada de novo a oferecer além de pura imaturidade e tesão desenfreado sendo usado como desculpa pra uma vida e trabalho já sem nenhum sentido.

O álbum já começa aos tropeços com “All The Pretty Girls”, que nada mais é do que uma ode àquela garota “especial e diferente das outras”, que na verdade é qualquer garota, os caras simplesmente não notam o quão otários estão sendo, comportamento esse que fica mais visível ainda em “Solid Gold”, um exemplo perfeito do descaso da banda com o próprio trabalho e, consequentemente, com o resto do mundo, se afogando no marasmo trazido pela fama, praticamente todas as faixam seguem sem nenhuma noção e fazendo cada vez menos sentido, desde “Southern Trains”, que supostamente seria algum tipo de protesto contra a situação precária dos meios de transportes públicos mas acaba por soar como o choro de marmanjo classe média mimado que por algum motivo resolveu pegar um trem uma vez na vida e não gostou muito da experiência, até “Japanese Prisioner Of Love” que tem uma das origens mais patéticas do álbum (auto confinamento numa prisão enquanto a mesma é visitada por turistas e de alguma forma se torna uma metáfora para uma relação amorosa em declínio por mero capricho do casal [???]). Mesmo com as próprias entrevistas da banda explicando faixas e objetivo do trabalho, tudo continua parecendo mais e mais com um monte de desculpas esfarrapadas.

Pinewood Smile estranhamente é pura nostalgia, mas no pior sentido da palavra, não é nenhuma surpresa você se pegar lembrando de Green Day, The All-American Rejects, Blink-182 e afins em seus respectivos auges, a sensação de cópia desgasta bastante o álbum, a conexão entre as faixas é quase nula, some uns “fuck” aqui e uns “shit” ali com os arranjos típicos do The Darkness e está feito o remendo, tornando tudo uma mistureba sem rumo ou propósito. A desvalorização da mulher e a cegueira causada pela fama tornam o álbum extremamente sofrível. Provavelmente a intenção, como de costume, era um álbum casual e divertido, mas acaba não passando de pura alienação, desrespeito e retardo do animal homem, a evidência cabal disso é a faixa final do álbum “Stampede Of Love”, que não bastando ser a faixa mais desconexa do álbum em todo aspecto possível, é também uma “piada” triste, irritante e de mau gosto sobre uma moça gorda.

Num geral Pinewood Smile se sustenta apenas pela sonoridade fácil e já conhecida por qualquer pessoa que curta um sonzinho mais alternativo e pop rock da vida, mas cai por terra pelo vazio e ignorância em seu conteúdo lírico, deixando claro que a banda segue vivendo num mundinho só dela sem nenhuma ligação com seu público ou qualquer ouvinte aleatório que tenha um pingo de bom senso, deixando claro que perdeu de vez o tato com a música e a realidade. Infeliz e decadente são as melhores formas de definir o trabalho do The Darkness, mas se por acaso você achar intensidade e poesia em “we are all but bubble and squeak in the frying pan, the frying pan of life”, esse álbum é pra você, fora isso, não há riff que salve esse álbum do esquecimento.

OUÇA: A voz da razão e se mantenha longe dessa joça.

Marilyn Manson – Heaven Upside Down


Por muitos anos, seja por performances icônicas, letras e capas de álbum chocantes ou rumores grotescos, Marilyn Manson sempre se destacou como um artista que sabe chamar atenção e, acima de tudo, sabe como prendê-la. Conflito com outras celebridades, aparições em séries famosas, pense a vontade nas possibilidades e você verá que Manson se encaixará nela de alguma forma.

Mas, uma pergunta muito importante parece não se cala mais, visto que o cantor já está praticamente batendo na porta dos 50 anos de idade e sua música, apesar de ainda contar com uma legião de fãs pelo mundo, não tem mais o mesmo impacto de antes: em 2017, quase 20 anos depois do auge de sua carreira, ele ainda consegue ser tão chocante? Se a resposta para esta pergunta parece negativa, o motivo provavelmente está no fato de que muitos outros artistas, conforme as últimas décadas se passaram, também quebraram quase que por completo as barreiras e padrões da indústria musical, talvez, com a mesma intensidade que Manson, seja no cenário do rap ou do rock mainstream mas, principalmente, no meio alternativo, de onde o mesmo surgiu.

Nos últimos álbuns, Born Villain (2012) e Pale Emperor (2015), muitos se surpreenderam, positivamente, com as temáticas mais dramáticas e, visivelmente, maduras que o cantor havia preparado, mostrando que havia algo além de um performer, mais humano e sentimental do que o conhecido. Porém, no fundo, a relevância do músico em baixa não lhe rendeu um sucesso considerável.

Em Heaven Upside Down, desde de seus primeiros teasers em vídeo, mensagens estranhas no Instagram somados a entrevistas e fotos de divulgação onde Manson até mesmo apareceu novamente com suas icônicas lentes de contato, era evidente que a abordagem, desta vez, seria voltada a nostalgia: um novo álbum, que bebe da mesma fonte que deu vida sua sonoridade, renovados e prontos para chocar o mundo novamente. Sexo, religião, armas, violência e drogas. 

Faixas como “Je$u$ Cri$i$” e “Revelation #12” fazem, definitivamente, um esforço para que a imagem de Manson seja estampada com estes elementos novamente. Já em “Kill4Me”  as coisas mudam, com uma sonoridade electro-pop assassina. Em palavras diretas, podemos dizer que qualquer fã antigo do cantor encontrará os riffs mecânicos, vocais suspirados e berros agudos, enfim, todos os elementos que já estão acostumados e adaptados.

Se o músico retomará sua relevância com este album ao mainstream, fica difícil prever, mas podemos esperar longas turnês de divulgação pelo mundo, regadas a fãs nostálgicos e um Marilyn Manson que, apoiado em sua carreira como ator, retorna extremamente performático e com uma imagem sua persona de vilão intacta. Para os que procuram um álbum como seus antecessores, sentimos muito, mas esperamos que isso não anule suas vontades de experimentar este novo trabalho.

OUÇA: “Je$u$ Cri$i$” e “Revelation #12”

Foo Fighters – Concrete And Gold


O Foo Fighters chegou ao patamar de banda que não precisa se esforçar muito para agradar aos fãs. Não vemos grandes inovações já faz algum tempo. Mesmo assim, continua sendo uma banda gigante lançando álbuns coesos. Concrete And Gold não foge a regra. É um bom disco, porém com poucas coisas novas para apresentar. Mostra uma banda acomodada, mas ainda muito competente no som que se propõe a fazer.

O álbum se encaixa com os trabalhos mais recentes da banda, fechando quase que uma trilogia com Wasting Light (2011) e Sonic Highways (2014). Contudo, as características que fizeram de Wasting Light um álbum realmente interessante lá em 2011, já não funcionam com a mesma eficácia aqui. Concrete And Gold, sonoramente, parece ter pouca coisa nova a oferecer. Há algumas tentativas de dar uma cara “retrô” para o álbum e até alguma aproximação com o stoner rock, mas nada que vingue e dê substância ao disco. Apesar disso, vale a pena lembrar que no caso do Foo Fighters, lançar mais do mesmo nem sempre é algo de todo ruim.

Concrete And Gold tem momentos ótimos. O disco começa muito bem com a sequência “T-shirt”, “Run”, “Make It Right” e “The Sky Is A Neighborhood”. A abertura do disco profetiza algo grandioso, intenso e dramático. “Run” é provavelmente a melhor canção do Foo Fighters em anos. Consegue unir elementos de força e tensão com viradas fluídas que funcionam muito bem. “The Sky Is A Neighborhood” é outro ótimo single que apresenta um rock alternativo denso e grandioso, daqueles para ser tocado em estádios lotados.

Apesar do ótimo começo, a proposta inicial se dissipa em canções menos memoráveis. O álbum perde força drasticamente na segunda metade, dando impressão que você entrou numa playlist qualquer de b-sides do Foo Fighters. A insipidez acaba marcando boa parte do disco. Não se tratam de canções ruins, mas sim, repetitivas e esquecíeis.

Apesar de ser um álbum satisfatório, Concrete And Gold reforça a possibilidade do Foo Fighters estar se aproximando de bandas como o Red Hot Chilli Peppers ou o U2. Milhares de fãs fieis e shows lotados, porém sempre apresentando uma repetição de si mesmos. Torcemos para que David Grohl não acabe como o próximo tiozão do rock.

OUÇA: “Run” e “The Sky Is A Neighborhood”

Queens of the Stone Age – Villains


Muitas pessoas pensam em Mark Ronson como o produtor do pop que aparece no clipe de “Uptown Funk” com o Bruno Mars e que nunca produziria um álbum de rock. A verdade é que “Uptown Funk” faz parte de um disco de Ronson voltado para o funk e para o soul e que Bruno Mars é apenas uma das participações do disco, que incluem Andrew Wyatt, Kevin Parker e Stevie Wonder. Além disso, Ronson já produziu singles de artistas como Adele, Amy Winehouse e Paul McCartney. Da mesma maneira, muitas pessoas pensam no Queens of the Stone Age como a banda de bad boys do stoner rock do deserto com o baixista nu e o vocalista que briga com a plateia e que nunca faria um trabalho dançante como Villains, sétimo disco da banda de Palm Desert, California.

A escolha do produtor Mark Ronson e a levada que a banda escolheu para as músicas de Villains pode parecer uma surpresa, tendo em vista discos e performances mais antigos da banda, mas a surpresa seria maior se o Queens of the Stone Age não seguisse por um caminho como esse, pois a cada disco que a banda lança, podemos perceber claramente as influências que os levaram a fazer tais músicas. Por exemplo, a experiência de quase morte que Josh Homme teve em 2011 influenciou extremamente o clima sombrio e as letras de …Like Clockwork – disco que também trouxe uma adição maior de harmonias e teclados – característica não tão presente em músicas de outros discos como “No One Knows” e “In My Head”.

A primeira faixa do disco, “Feet Don’t Fail Me”, já estabelece claramente o tom do álbum, usando sintetizadores e a pegada dançante das guitarras e batidas. As influências continuam em “The Way You Used To Do”, primeiro single de Villains, mas a faixa ainda traz os elementos de stoner rock característicos na discografia da banda – provando o quão bem o Queens of the Stone Age consegue incorporar novas influências sem descaracterizar-se. As duas músicas mais “rock’n’roll” do disco são “Head Like A Haunted House”, com uma pegada mais rockabilly e “The Evil Has Landed”, trazendo mais uma vez as características stoner rock e riffs e solos sujos de guitarra. A faixa final é “Villains Of Circumstance”, mais calma e mais sombria – trazendo orquestrações e o foco na voz do vocalista Josh Homme, às vezes lembrando o que Elvis faria nos dias de hoje.

Cada vez que o Queens of the Stone Age anuncia um novo trabalho, a única certeza que podemos ter é que ele não será mediano. O alto nível imposto pelos discos anteriores da banda está muito claro em Villains, trazendo uma banda ainda mais madura que em …Like Clockwork e mais consistente que em álbuns anteriores. Pode-se esperar perfomances ao vivo memoráveis dessa banda singular no cenário atual, cujos limites de criatividade vão muito além do comum.

OUÇA: “Feet Don’t Fail Me”, “The Way You Used To”, “Head Like A Haunted House”, “The Evil Has Landed” e “Villains Of Circumstance”

Zac Brown Band – Welcome Home

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O Zac Brown Band é um dos atos da música country americana que mais se aventurou nos últimos anos. Por exemplo, ao longo de sua discografia, eles lançaram um EP mais roqueiro, The Grohl Sessions, Vol. 1 de 2013, produzido por Dave Grohl e incluíram influências e batidas eletrônicas como no single “Beautiful Drug” de 2015. Os resultados dessas experiências são os mais variados, e vão desde a efusão de elogios ao citado EP até a vergonha alheia de “Beautiful Drug”. Neste ano, o Zac Brown Band retorna com o inédito disco cheio Welcome Home que, como o título sugere, anda por caminhos mais tradicionais e familiares ao se reaproximar das raízes country da banda.

O disco é aberto por “Roots”, faixa que já antecipa a sonoridade que, com pequenas variações, será desenvolvida ao longo das dez faixas. É um som muito mais acústico, com mais violões e menos guitarras do que a banda vinha apresentando em seus últimos e irregulares trabalhos. Há espaço para vários gêneros da raiz americana. Além de country e americana, há espaço para um leve toque de jazz e para o bluegrass de “Family Table”. Todas as canções são bem arranjadas e a qualidade dos músicos salta aos ouvidos. Merece ainda destaque as harmonias vocais e, no fim, poucas são as canções que passam em branco. “Start Over” e “2 Places At 1 Time”, por exemplo, são números que, apesar de caprichadas, pouco agregam ao trabalho.

Liricamente, a banda segue a mesma linha presente em vários momentos de discos anteriores. São letras que não se arriscam muito e que tem o objetivo de despertar no ouvinte sentimentos positivos e nostalgia. Para muitos pode soar cafona, mas para tantos, principalmente os norte-americanos que levam uma vida pacata longe dos grandes centros, essas letras deverão acertar em cheio. Ao longo do disco, temas como paternidade, ser fiel às raízes e reuniões familiares são recorrentes. Canções como “My Old Man” ou “Real Thing” foram feitas para emocionar um público mais amadurecido e que esteja disposto a ouvi-las sem escudos, com o peito aberto.

É quase estranho ouvir Welcome Home em 2017. Há tempos, a música country americana com destaque na mídia deixou de ser música sobre e para pessoas simples do interior. Houve uma migração instrumental e de temas para um formato pop-rock, cheio de atitude e superestrelas, da mesma forma que tem ocorrido com a música sertaneja no Brasil. É estranho então ver o Zac Brown Band, que fez com sucesso essa mesma migração, simplificar seu som, fazer o caminho de volta e retornar às raízes da sua música. Um passo um tanto quanto não convencional e corajoso.

Welcome Home expõe uma banda que não está preocupada em ser cool ou moderna, tanto na sonoridade quanto nas letras. São arranjos ricos e letras simples feitos para marejar os olhos de emotivos desavisados. O Zac Brown Band não precisa de experimentações e menos ainda de provar nada para ninguém. A qualidade dos músicos e o sucesso comercial já são fatos mais do que reconhecidos. A vitória dessa vez é nos trazer de volta para casa, nos deixar a vontade ou até nos fazer sentir saudade da casa dos nossos pais. Só pode ser dito que, com Welcome Home, essa missão foi gloriosamente alcançada. 

OUÇA: “Family Table”, My Old Man”, “Roots” e “Real Thing”

The Pretty Reckless – Who You Selling For

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Desculpem o transtorno mas precisamos falar sobre The Pretty Reckless e esquecer todos os preconceitos em torno da “banda da menina de Gossip Girl”. Temos aqui uma grande prova de que ainda é possível fazer bons discos sem grandes artifícios e firulas. É renovador. Por incrível que possa parecer, Who You Selling For é um disco de rock and roll revigorante e que te faz ter vontade de sair dirigindo por uma auto estrada sem controle.

O ponto alto do disco certamente fica com a participação do guitarrista diversas vezes listado entre os melhores do mundo, Warren Haynes, na faixa “Back To The River” que traz um dos melhores vocais de Momsen em todo o álbum. Passa pela cabeça que a banda vem trabalhando num caminho inverso ao que se espera dos artistas, tornando seu som mais cru e rasgado a cada lançamento.

A cada registro podemos ver a evolução de Taylor Momsen como vocalista e cada vez mais se firmando como uma artista competente e se afastando da imagem da Jenny da série de tv. Tudo isso ladeada por músicos competentes que dominam sonoridades que vão do hard rock ao blues e trazem influências claras de grandes nomes como Rolling Stones e Led Zepellin.

Com mais alguns suspiros de classic rock, country e folk, este terceiro disco da carreira dos novaiorquinos serviu para mostrar que The Pretty Reckless é uma banda a ser levada a sério e foi mais um prego no caixão da idéia de que o rock está morto.

OUÇA: “Wild City”, “Already Dead” e “The Devil’s Back”.

Lady Gaga – Joanne

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Antes de começar a falar de Joanne, quinto álbum da cantora Lady Gaga, precisamos falar sobre como sua música é incompreendida enquanto música. Todo mundo já ouviu “Bad Romance” e “Born This Way” nas baladas da vida, mas são poucas as pessoas que escutam essas músicas no conforto de seu próprio quarto, sem o luscofusco e pessoas se espremendo pra dançar ao seu redor. Muitas pessoas escutam Lady Gaga mas poucas são as que levam Gaga para casa, pra realmente ouvir as músicas. Gaga, por mais que tenha alcançado um nível de estrelato gigantesco logo nos seus primeiros singes lá em 2008, foi poucas vezes levada a sério enquanto artista – enquanto musicista, não vou nem começar a falar sobre suas contribuições para a Moda e afins por que não cabem aqui; esse blog é sobre Música.

Suas canções são e sempre foram julgadas pelo nível de ‘bateção de cabelo’ que apresentavam – quais funcionam melhor na pista e quais eram ‘flops’. Pra quem pensa assim, Joanne é ainda mais estranho. Não, não é de agora que a Lady Gaga se tornou boa nas composições, vocais e letras. Isso sempre esteve presente em seu trabalho desde “Paparazzi”, mas era algo ofuscado sempre pelas batidas e danceability das músicas. Mas Gaga sendo uma ótima cantora e compositora capaz de fazer músicas ditas como ‘sérias’? Novidade nenhuma.

Eu, pessoalmente, tenho um envolvimento muito passional com a música da Lady Gaga. Mesmo sendo gay, nunca fui de gostar e ouvir música pop. Até “Speechless” aparecer na minha vida lá em 2009 e fazer de Gaga a primeira cantora pop mainstream na qual eu parei pra prestar atenção, mesmo antes de Robyn me conquistar de vez com “Don’t Fucking Tell Me What To Do”. Passei anos da minha vida ouvindo Lady Gaga fora do contexto balada, no caminho para a faculdade ou para o trabalho – ou simplesmente tomando um café na rua enquanto esperava alguém. Então, para mim, Joanne parece quase um presente divino – uma Lady Gaga crua, sem efeitos e autotunes e sem batidas eletrônicas e, principalmente, sem a ‘pressão’ de ser lembrada no pós-balada. Joanne mostra uma Gaga fazendo um álbum de rock, com direito a riffs e solos de guitarra e pianos melódicos, e um ou outro teclado aqui ou ali.

ARTPOP já havia sido um álbum mais estruturado e musicalmente complexo que só pecou pelo excesso de fillers, e que não agradou muito seu público em geral exatamente por se tratar de algo sem uma fácil absorção como eram os anteriores. Muitos o consideram o pior e mais fraco álbum da cantora, e pra essas pessoas eu apenas digo: “Lembra do The Fame? Aquilo sim foi álbum fraco, graças a Deus ela evoluiu e melhorou com os anos, beijos”. Mas voltando;

Joanne é com certeza o álbum mais pessoal que Lady Gaga já lançou e o primeiro em que ela declaradamente não se importa com o que os outros irão pensar. O próprio nome Joanne é prova disso – ele é o nome de batismo da cantora, sem maquiagens e sem atuações; era o nome de sua tia que faleceu precocemente e cuja morte Gaga nunca superou completamente.

Joanne também é o álbum mais simplista que Gaga já lançou; é um álbum de rock e ponto. Nele, há espaço como nunca antes para Gaga mostrar do que é capaz enquanto artista. É um álbum coeso, curto, que em poucas faixas mostra pro que veio sem as enrolações costumeiras da música pop – não são necessárias 15 ou 16 faixas para que 3 ou 4 acabem se tornando sucessos enquanto as outras caem no esquecimento. Joanne é uma obra completa e que faz sentido do começo ao fim – até a chatíssima “Perfect Illusion” funciona muito bem dentro de seu contexto.

Lady Gaga sempre foi do rock, não podemos nos esquecer que seu nome é uma referência a Queen e que em seu primeiro vídeo ela aparece com a maquiagem inspirada no icônico Aladdin Sane. Joanne mostra uma Gaga se aproximando do que sempre quis fazer, com uma forte influência do country rock americano de Bruce Springsteen. Para a execução de Joanne, Gaga colaborou com nomes de peso fora da cena pop como Mark Ronson, Josh Homme, Beck, Kevin Parker, Florence Welch e Este Haim, resultando em um trabalho com uma sonoridade completamente diferente de tudo o que ela já havia feito e muito mais interessante.

Seguindo o que Beyoncé e Rihanna também fizeram com seus últimos trabalhos, Joanne não é um álbum feito pra se ouvir na balada. Não é um álbum que agradará a todos, principalmente não a todos os fãs de Lady Gaga; mas é o álbum que ela sempre quis fazer. Concluo esse texto com um convite para abrir a mente. Se você já gostava de Gaga antes ou se nunca a suportou, dê uma chance real e séria a Joanne. Não irão se arrepender.

OUÇA: “John Wayne”, “Diamond Heart”, “A-YO”, “Joanne”, “Hey Girl” e “Million Reasons”.

King of Leon – WALLS

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Com 16 anos de história a banda formada pelos Followill – os irmãos Caleb, Jared e Nathan e o primo, Matthew – pode arriscar e fazer novas sonoridades sem deixar de lado a familiaridade de seu som.

De Nashville para o mundo, Kings of Leon conquistou o sucesso internacional em 2008 com as canções “Use Somebody” e “Sex On Fire”, do álbum Only By The Night. Por sinal, os três últimos álbuns, Only By The Night (2008), Come Around Sundown (2010) e Mechanical Bull (2013) demonstram exemplarmente a evolução sonora do Kings of Leon e são o caminho obrigatório para que se compreenda o que os caras propõem no recente WALLS (We Are Like Love Songs), lançado em outubro.

Se no início o southern rock e o rock de garagem dominavam as composições, hoje a banda flerta com o rock alternativo, com o indie e, em alguns momentos, ruma inclusive para o pop rock (por mais inusitado que possa parecer). No novo material elementos eletrônicos também estão presentes, coisa inédita para a banda até então.

Toda essa plasticidade é resultado de anos de maturação, que vai do início, em lançamentos muito mais experimentais (e sem abandonar o country rock), ao som do presente, mais seguro. Kings of Leon tem na discografia sete álbuns, inúmeras indicações às premiações internacionais de música e diversos prêmios conquistados.

Os Followill compartilham esse desassossego e atualização sonora com Markus Dravs, responsável pela produção do novo disco e profissional relacionado a bandas como Arcade Fire, Florence + The Machine e Mumford & Sons.

Em tempos em que adaptação é a palavra de ordem, especialmente para quem faz música, Kings of Leon entrega ao público um álbum afinado em relação às tendências do mercado musical atual. Esse movimento da banda pôde ser percebido já na escolha dos singles lançados antes do registro completo.

Tivemos ‘“Waste A Moment”, a homônima “WALLS”, “Reverend” e “Around The World” como singles. Aliás, essa última é um som indie muito maneiro, que lembra algo do The Strokes e Phoenix. No álbum ainda temos canções como “Find Me” que se aproxima do som do U2 sob certos aspectos. Já “Muchacho”, por exemplo, é o som country que mais representa a banda e parece ter vindo direto de álbuns anteriores. Da mesma maneira, a urgente “Over” com um refrão suplicante poderia estar incluída em Mechanical Bull, o disco anterior.

A estética do novo material – grande musicalmente e modesto ao mesmo tempo já que conta com apenas 10 músicas -, vem muito mais conceitual e colorida em relação aos registros anteriores, coisa que o videoclipe de “Waste A Moment” indica muito bem.

OUÇA: “Over”, “Waste A Moment” e “Around The World”.