Mabel – High Expectations



Eu tô ficando velha. Acho que é essa a explicação. Só pode ser essa a explicação. Esse raio Dualipatizador passou pelas blogueiras, atrizes e agora chegou na música. Será que a Dua Lipa ganhou tanto dinheiro que está pagando pessoas no mundo inteiro para parecerem com ela? Esse álbum de estreia da Mabel é um Dua Lipa 2.0.

Pra você que nunca ouviu falar nela, a Mabel é uma cantora britânica de 23 anos, filha de Neneh Cherry (!) e Cameron McVey (!!). Com um pai produtor musical e uma mãe cantora, ela já nasceu pronta para ser uma estrela. E, convenhamos, ela conseguiu. Você ouve o singles dela por toda parte, ela está nas rádios e principais playlists do Spotify e faz um pop contagiante. Mal começou e já é a 105ª artista mais ouvida no Spotify. 

Já falei em outras resenhas que música não precisa ter significado profundo sempre. Não tem problema nenhum em ouvir algo só com a intenção de se divertir, distrair a cabeça ou com qualquer outra que não seja refletir sobre o mundo. Nem sempre eu tô com pique que pensar no que um cantor quis dizer usando um sample de 1970 ou pensando no jogo de palavras criado em uma música bônus. O problema principal com High Expectations é que é um álbum que se propõe a ser mais do que realmente é.

Com “Ok (Anxiety Anthem)”, Mabel fala sobre ansiedade de um jeito superficial. Quantas músicas ainda precisamos ouvir dizendo as mesmas coisas sobre ter crises de ansiedade? Parece que estou ouvindo um texto de blogueira com uma batida ao fundo. E isso se repete algumas vezes durante o album. Ainda bem que entre as músicas com essa proposta temos pop chiclete bem produzidos, como “Mad Love” e “Put Your Name On It”.  

Mabel está só começando. Ela tem uma ótima voz e bons produtores, o que me faz acreditar que ela ainda pode surpreender e lançar coisas interessantes no futuro. Para uma cantora que diz que tem altas expectativas e quer lançar músicas que durem para sempre, faltou amadurecimento. High Expectations ficou só na promessa. Quem sabe num próximo disco. 

OUÇA: “Don’t Call Me Up”, “Bad Behaviour”, “Mad Love” e “Put Your Name On It”

BANKS – III



Jillian Rose Banks, conhecida como Banks, lançou seu terceiro álbum III, sucessor de The Altar (2016) e Goddess (2014), o novo registro possui treze faixas e conta com a colaboração de Bj Burton, Buddy Ross, Hudson Mohawke e Francis and The Lights. Em linhas gerais, o registro caminha pelo R&B, Trap e o Pop, evidenciando a transição de Banks, o seu processo de amadurecimento/crescimento e a vontade de explorar – e de arriscar – outros caminhos musicais.

De acordo com Banks, o registro é uma janela que nos permite acessar partes distantes dela e pede para que mergulhemos profundamente em suas músicas. Além disso, a sequência das faixas se encaixa profundamente nesse processo de acesso e mergulho – e Banks alega que sequenciou da forma que ela gostaria de ouvir. Se o objetivo do álbum é mostrar toda a maturidade musical e a profundidade de Banks, podemos dizer que ela não falhou e fez de uma forma bastante genuína.

Através da audição do registro, Banks realmente consegue nos envolver através dos sentimentos expostos presentes em cada faixa, isto é, ela nos puxa para esse mergulho e nos mostra que existem questões em comum, nos conectando em cada momento desse processo. E ao nos guiar durante o mergulho em III, Banks nos permite cantar, dançar, rir, chorar, sensualizar, entre outras reações e ela realmente esperava por isso, ou seja, ela espera aproximar pessoas e fazer com que elas se sintam compreendidas nesse processo. Afinal, música é troca, é conexão e Banks fez isso de um jeito bastante sensível.

Falando em sensibilidade, Banks vivenciou altos e baixos e isso influenciou na construção da narrativa do registro, ou seja, a forma de variar e explorar as sonoridades – seja com piano, sintetizador, vocais, camadas e afins – presentes a cada faixa, bem como os temas explorados – relações, amor, partidas, negação, entrega, dependência – nos mostram o quanto III é sensorial e sensível. Banks mergulhou em seus sentimentos, experimentou outros caminhos e nos trouxe III: um registro que reflete o seu próprio amadurecimento frente às próprias fragilidades e nos convida para esse mergulho profundo em cada parte desse processo íntimo. Enfim, Banks recomendou que mergulhemos profundamente nesse registro e reforço esse pedido.

OUÇA: “Gimme”, “Contaminated”, “Stroke”, “Hawaiian Mazes” e “What About Love”

Anderson .Paak – Ventura



Nostálgico, Anderson .Paak continua sua viagem pelos arredores de Los Angeles em seu quarto álbum de estúdio, Ventura. Com sua voz rasgada e boa energia, o disco traz um ar mais nostálgico que sua produção anterior, Oxnard, e vem mais como uma evolução de seu reconhecido segundo álbum, Malibu, de 2016. No entanto, dessa vez o música entrega ao público muito mais R&B, funk, soul e disco que seus trabalhos anteriores, em uma boa união entre os ritmos marcados dos anos 70 e 80, sem perder a atualidade. O hip hop ainda é presente, mas funciona mais como elemento no meio das canções do que como gênero em si.

O álbum, com suas 11 faixas, destaca-se principalmente pela instrumentação, com destaque às linhas de baixo e bateria, sem deixar de lado sintetizadores, riffs de guitarra e um beat bem marcado. A construção do álbum é consistente nas primeiras quatro faixas, com uma quebra considerável em “Good Heels” – um dos pontos fracos do álbum – e tenta retomar o ritmo com “King James”, um dos singles do disco, que no entanto não consegue manter a sequência alcançada nas primeiras faixas. Essa quebra de ritmo causada no meio do álbum afeta fortemente a consistência do álbum, que após a segunda metade torna-se mais um amontoado de músicas do que algo sólido e bem estruturado, como espera-se de um bom álbum.

As primeiras quatro faixas do disco trazem uma força muito positiva para os fãs de .Paak, com belas parcerias, como o rapper André 3000, lenda do Outkast, ou como o experiente Smokey Robinson, que faz de “Make It Better” uma das melhores canções do álbum. O groove presente nessas faixas, com destaque especial para “Winners Circle”, com uma bela instrumentação, fariam do álbum completo por si só.

A quebra do ritmo, como já dito, acontece em “Good Heels”: uma faixa de 1:38 com a parceria de Jazmine Sullivan, que abruptamente acaba como se estivesse faltando alguma coisa, como se fosse feita pela metade, em algo que poderia render mais. A canção é mais parada que as faixas anteriores, quase “morta”, dilacerando todo o groove já alcançado em uma tentativa de uma música mais soft, voltando à estaca zero. O desapontamento causado por essa quebra faz as músicas seguintes perderem todo o nexo, salvo “King James” e “Jet Black”, que facilmente poderiam vir logo na sequência das quatro primeiras faixas, com um groove e uma qualidade excepcional.

Outro detalhe do álbum – não necessariamente negativo – é uma aparente divisão em duas partes de algumas canções, com uma mudança do ritmo ou de estrutura da música, mas que – felizmente – não afeta a qualidade dela. Talvez o exemplo mais claro fique em “Reachin’ 2 Much”, que começa com uma linha de bateria forte, em um estilo mais funk, e “do nada” vira uma música disco, com violinos, um coral melódico e uma guitarra cheia de efeitos. Talvez na primeira vez que você ouça, soará estranho, mas ao mesmo tempo interessante. Outro exemplo mais sutil é na faixa de abertura, “Come Home”, que inicia-se com um ritmo mais soul e um certo sofrimento na voz de .Paak, e que ganha boa agilidade quando André 3000 entra e faz seu quase um minuto e meio de rap ininterrupto. Intrigante.

Talvez Ventura contenha algumas das melhores canções de .Paak, mas ainda é um álbum que peca em estrutura. Suas músicas mostram um avanço do artista em busca de um ar nostálgico, ao mesmo tempo que moderno, com muitas referência dos anos 70 e 80. O músico californiano aparentemente descobriu em Ventura um caminho confortável e de qualidade para sua produção musical, e muito provavelmente seus próximos álbuns continuem a evolução mostrada em seus últimos discos. Seu último álbum já é consideravelmente bom, e seus fãs têm motivos para esperar um futuro ainda melhor.

OUÇA: “Make It Better (feat. Smokey Robinson)”, “King James”, “Jet Black (feat. Brandy)”, “Winners Circle”

Khalid — Free Spirit



O mundo conheceu Khalid em 2017, quando o jovem estadunidense de então 19 anos lançou seu debut American Teen. O cantor logo conquistou seu lugar ao sol graças ao seu vozeirão embalado por um beat gostosinho. Dois anos depois, Khalid nos apresenta o seu Free Spirit.

Revelação do R&B contemporâneo, Khalid tem um jeito sutil de transitar entre o pop e o hip hop e traz isso bem nítido no novo trabalho.

A versão mais hip hop de Khalid pode ser percebida em faixas como “Bad Luck” e “Better” — esta última que estava presente no EP Suncity (2018), junto de “Saturday Nights”, que encerra o disco.

Seu lado mais pop fica por conta de músicas como “Talk”, canção que é o grande hit de Free Spirit. Feita em parceria com o Disclosure, a música é chiclete mesmo e conta com um clipe bem millennial, em uma estética pinteréstica e que lembra um pouco “Hotline Bling”, do Drake.

Apesar de ter algumas músicas que parece que a gente já ouviu antes (estou olhando para você, “Bluffin’”), temos canções muito boas, como “Free Spirit”, “Twenty One” e “Self”. “Hundred” é minha música favorita do álbum, porque além de trazer com mais intensidade o Khalid que eu já conhecia, é uma música com superpotencial de hit prontinho para estourar — e tem a letra perfeita.

São 57 minutos e 17 músicas para apreciar todo o talento de Khalid. E como 17 músicas é bastante coisa, não é sempre que o cantor acerta. As parcerias, “Don’t Pretend”, com SAFE, e “Outta My Head”, com John Mayer, por exemplo, ficam um pouco fora de lugar, eu diria. Talvez tenha faltado um pouco de edição aqui, às vezes menos é mais.  

Khalid, agora com 21 anos, tem o rosto e o espírito livre da nova geração da música pop. Free Spirit pode não ser uma obra-prima impecável (saudades, era American Teen), mas tem boas letras, boas batidas e bons hits; é um disco coeso, gostosinho e vale a ouvida.

Fun fact: Junto do lançamento do disco, Khalid lançou um curta metragem homônimo, que explora a mensagem do disco. Se você curtiu o álbum, vale assistir.

OUÇA: “Hundred”, “Talk”, “Twenty One”, “Self”.

Solange – When I Get Home



A consanguinidade no meio musical sempre foi matéria de fascínio, ou de fuga da neutralidade no mundo das opiniões. O mundo pop está cheio destes exemplos, onde vínculos fraternos são presas fáceis para o apetite sensacionalista, insaciável por entretenimento de seus consumidores (jornalistas, críticos, formadores de opinião e até mesmo fãs). Jogos de ciúmes, declarações atravessadas, ou a mais singela das discordâncias geraram oceanos de histórias e  implacável cobertura midiática. Que digam os Jacksons, os Jonas e – claro, numa espécie de estado apoteótico do escrutínio público – os Gallaghers. Mas o que torna esse fenômeno midiático-comunicacional contemporâneo em uma ameaça inócua no caso da toda poderosa família Knowles? “I’m not her and I’ll never be” diz a caçula, que complementa “There’s a big age gap and we are two very different characters.”  Não há como concordar mais. Beyoncé à parte, Solange Knowles é um universo criativo próprio, de influências e estilos completamente diferentes; opostos em vários sentidos. Bem é verdade, Solange nunca foi sombra de Beyoncé, e seu novo disco representa cem passos adiante dessa eventual posição conflituosa.

When I Get Home (2019), lançado de supetão (o modus operandi recente de Beyoncé) no último mês, é uma expressão de liberdade pessoal e personalista de Solange. Das coisas que ela viu e imaginara (“Things I Imagined”). Se em A Seat At The Table (2016), um dos melhores deste referido ano (junto com Lemonade), Solange reage ao exterior e se posiciona em relação às inúmeras injustiças e a doída realidade que lhe é imposta enquanto mulher negra, aqui ela parece destravar pesos, permitir-se à experimentar e, portanto, partir para uma nova fronteira de percepção e de criação. Do pouco que sabemos da vida privada de Solange, a artista passou por um processo duro de tratamento de um distúrbio nervoso pouco conhecido nos últimos dois anos. É o período que coincide com a produção deste álbum e pode ter sido o trigger  necessário deste seu novo momento. Em entrevista à VICE, a artista se debruça sobre o tópico:

“Going through a transition where things were happening to my body that were out of my control, I got to the place where there was no fear surrounding my body, and it belongs to me in a whole new way (…) It’s been a beautiful love affair that took me time. I’ve always been connected to my sexuality and sensuality, but so much of that was re-grounded during this time. The freedom I got to feel was amazing. I learned you can create those spaces; you don’t need anyone else to have your moment.”

Mesmo não conhecendo os bastidores criativos, é bem provável que a audição do álbum leve a conclusões, senão as mesmas, bem parecidas com os objetivos de Solange. Em 39 minutos, o disco é sensualidade, mas não possui exatamente a cadência que se espera do comum “disco sensual”. O que nos leva a talvez única falha deste projeto: o número enorme de interludes, principalmente na primeira metade do disco. Ao deixar correr o play, When I Get Home demora a decolar em sua própria proposta, já que o transe é sempre perturbado por um ou outro interlude de 1 minuto. Tudo fica um pouco fragmentado nessa turbulência: loopings quebrados, samples em camadas e outros artifícios. A partir da sexta faixa, “Stay Flo”, o som finalmente alça vôos mais abrangentes e entrega o potencial esperado, até chegar em seu ápice, “Binz”. Outro momento de fulgor é a trinca final, com destaque para a ótima “Sound Of Rain”, meio eletrônica, meio soul, meio tudo.

Mas não se engane, o disco passa longe de ser palatável, mesmo em seus momentos mais acomodados. Exige-se aqui atenção e detalhe com as músicas. Afinal, é do universo interior de uma pessoa e sua identidade que este álbum se faz versa e prosa. A lógica, o método não são as únicas vozes a serem levadas em consideração, especialmente quando falamos do self de Solange Knowles.

A produção assinada pelo time estrelado composto pela própria Solange, Dev Hynes (Blood Orange), Christophe Chassol (Frank Ocean) e outros é hipnótica. Os pianos elétricos soam macios, os sintetizadores e a percussão complementam a voz de Knowles como se fossem seus backing vocals. Não é nada parecido com o que vimos antes, embora esse projeto beba da mesma água do LP1 da FKA twigs: o afrofuturismo é uma grande força do disco. Mas Solange atua para trazer essa estética ao seio de sua mensagem. A mensagem de liberdade sobre a qual falei. E para ela, a liberdade está fortemente ligada ao lar. E lar para ela é Houston, TX. Como produto disso tudo, surge o conceito da cowgirl futurista texana, não só expresso imageticamente pelos clipes que acompanham as músicas nas plataformas de streaming e nos vídeos do YouTube, mas também em temas líricos escolhidos e num punhado de sonoridades diferentes. Portanto, Houston (como cidade, como espacialidade afetiva) e influências sulistas também são ingredientes importantes nesse grande bolo.

Como se percebeu, o álbum é uma miríade artística, ou melhor, uma instalação artística em um pavilhão gigante:são estímulos visuais, sonoros e emocionais que se entrelaçam para gerar um resultado rico, mas complicado de se enxergar através; “I can’t be a singular expression of myself, there’s too many parts, too many spaces, too many manifestations…”, denuncia “Can I Hold The Mic”. Solange assim anda entre o exagero, o artificial e a genialidade. Dessa vez acerta na dose de um e de outro, e bota seu quarto LP como seu melhor produto. Bem-vinda em casa, Solange.

OUÇA: “Down With The Clique”, “Binz” e “Sound Of Rain”

Ariana Grande – thank u, next


thank u, next é o último álbum de Ariana Grande, uma das maiores artistas pops da atualidade. sweetener (2018) mostrou uma artista lidando com os problemas de sua vida com uma atitude positiva. Alegre, iluminado, embasado em resiliência e até mesmo uma dose de negação. thank u, next, como um bom antagonista shakespeariano, escancara uma outra postura. Sentimentos negativos, raiva e melancolia; um lado B de como lidar também com essas mesmas experiências negativas que não aparentam dar trégua.

Ao suceder rapidamente o lançamento anterior, fica inevitável colocar os dois discos lados a lado. sweetener marcou uma transição da cantora rumo a um produto mais autoral e autêntico. Com o auxílio de Pharell Williiams na produção, o produto foi um registro prospectivo, forte, progressista dentro do que pode ser no urban pop.

Desse lançamento para cá, uma série de eventos aumentaram a exposição de Ariana, e seus ressentimentos também. Toda a postura positiva e enérgica dela no trabalho anterior sede espaço à traços de personalidades visto como ruins e posturas não-convencionais, uma maneira diferente de ver os problemas da vista.

Uma das características marcantes é uma ambientação uníssona e presente. As músicas partem de uma base harmônica semelhante, um urban pop mais lento e “chilled”, com mais elementos de trap. Surge uma aura sombria, mais introspectiva, que projeta esse trabalho como o tão recorrente disco “dark pop” da carreira das cantoras americanas.

A primeira faixa, “imagine”, já atesta grande parte do que vem pela frente. Um beat devagar e a voz de Ariana em primeiro plano, com direito a whistle notes de Mariah Carey e um desfecho ao som de violinas. Ariana lida ao longo dos 41 minutos com amores impossíveis, incapacidade de se relacionar, consumismo. Dificuldade de lidar com o passado, arrependimentos e uma incapacidade de mudar essas características. “I admit I’m a lil messep up” ela canta em needy.

O álbum tem pontos altos excelentes, embasado alto escalão de produtores e compositores envolvidos no projeto. Os saxofones e o baixo elaborado em “bloodline”, meticulosamente curados por Max Martin, fazem dela facilmente uma das melhores faixas do ano. “fake smile” e “make up” tem uma estrutura pop tão bem casada que é bem provável tocar em qualquer rádio durante o próximo ano.

Obviamente um registro tão longo feito em tão pouco tempo tem momentos pouco cativantes. As insossas “bad idea” e “ghostin” parecem que poderiam usar de mais um tempo no estúdio. O disco finaliza com os três singles já lançados, que de fato fazem o recorte mais comercial do álbum. A faixa homônima realmente sintetiza todo o posicionamento de Ariana: olhando para si mesma e compreendendo suas falhas e erros, e tirando algum proveito.

thank u, next é sim um álbum melancólica de sua própria maneira. Mas antes disso, é sobre não saber lidar emocionalmente com as várias circunstâncias da vida. Ariana tem atualmente 11 anos de carreira. Com esse mesmo tempo de carreira, Mariah Carey já havia lançado Butterfly; Whitney Houston se preparava para lançar o My Love Is Your Love; Madonna atingia sua época mais polêmica com a sexualidade, Erotica e o sex book.  Seguindo essa lógica, provavelmente estamos nos aproximando do auge da carreira de Ariana. Seria thank u, next esse momento?

p.s.: Alguém ensina essa menina a usar letra maiúscula, por favor.

OUÇA: “imagine”, “bloodline” e “fake smile”

Rita Ora – Phoenix


Mais um fim de ano chega e com ele a depressão.  Também é nessa época que os artistas dão um gás final pra entregarem seus Singles, EPs e Álbums a tempo de aparecer nas listas de melhores do ano. É claro que nem todo mundo têm essa pretensão, como é o caso da Rita Ora. Desde 2015 ela tá numa loucura com o segundo álbum. Se ela fosse brasileira, a história dela ia sair no TV Fama, com certeza.

Tem disco que rende uma resenha gostosa de escrever, assunto a beça pra discutir e te faz clicar várias vezes no botão de replay. O Phoenix gerou uns singles gostosinhos, mas poucas pessoas vão lembrar que dele daqui há 3 anos. Talvez menos. E tudo bem.

Ninguém quer ouvir música pop profunda o tempo todo. Se você faz isso, meus sinceros parabéns. Eu acho chato pra cacete. Ficar prestando atenção em cada detalhe, pensando no que foi que a artista quis dizer e na razão de cada detalhe é cansativo. Só quem gosta demais mesmo de música ou de algum artista faz esse tipo de coisa com frequência.

Às vezes a gente só precisa ouvir um som comercial numa boa, sem muito esforço mental. Phoenix é um entretenimento leve, que não vai exigir muita coisa de você. Um hit aqui, três músicas nada a ver acolá e, quando você menos espera, já acabou. Bom pra ouvir voltando pra casa depois daquele dia cansativo. Em uma época onde quase todas as grandes cantoras pop estão lançando trabalhos conceituais, um álbum como esse é uma brisa de ar fresco.

Todos os singles lançados poderiam estar na lista das 7 melhores Jovem Pan. Na minha época de adolescente, isso era grande coisa. Hoje em dia eu sei lá o que quer dizer. Aposentei minha carteirinha de jovem no momento em que pensei em fazer uma piadinha usando “DAORA” e “Rita Ora”. Eu não tenho salvação.

Fico feliz que a Rita Ora tenha conseguido tirar esse projeto do papel. Ela parece uma pessoa bacana. Se o objetivo era renascer das cinzas como uma Fênix, acho que ela deveria ter feito algo menos genérico. Mas é aquela coisa, né? Ela tá ganhando milhões e eu acordo seis e meia da manhã pra chegar no trabalho no horário. O play fica por sua conta e risco.

OUÇA: “Your Song”, “Anywhere”, “Let You Love Me” e “Lonely Together”

NAO – Saturn


Com Lorde, nós temos 19 anos e estamos com fogo no rabo, já a Taylor Swift se sente com 22 e quer continuar dançando. Mas e com 29 anos? Foi pensando na expressão que seu amigo sempre lhe dizia – retorno de Saturno – que a cantora londrina NAO lança o segundo álbum de sua carreira.

O planeta Saturno demora 29 anos para fazer dar uma volta em sua órbita. E é esse simbolismo de crescimento pessoal, amadurecimento que está presente em todo o álbum. A cantora já passou pelo coming of age dos 20 e começa a repensar seus próprios comportamentos e valores. A crise dos 30 está chegando, mas ela não é tão assustadora como dizem, para NAO é um momento de transformação.  ‘E é assim que deve ser / Você sai e retorna / Você é como Saturno para mim, para mim / Eventualmente você vai continuar a me dar o que eu preciso‘, afirma a cantora na faixa-base “Saturn”.

NAO mostra-se protagonista da própria obra, ou melhor do seu próprio retorno de Saturno. Os conflitos pessoais e as desilusões amorosas não parecem ter o mesmo peso que antes, em canções como Don’t Change, ela parece se abster, flutuar diante dessa narrativa. Esse certo distanciamento, no entanto não impede que ela se doe para as letras como fica claro em If You Ever.

Em “Orbit”, uma das canções mais tristes do disco, ela canta  ‘Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que eu conheci / Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que me superou também / Ele me liberou em órbita / Ainda assim, encontrei uma maneira de navegar até você‘. Versos que funcionam como uma síntese do tom em relação a vida amorosa que permeia todo o disco.

Seguindo a linha do seu primeiro disco, a nova produção de NAO ainda conta com faixas menos contemplativas, como “Drive And Disconnect”,  pop latino dançante que lembra artistas como Rosalía. Mesmo com algumas melodias um pouco repetitivas, em seu segundo álbum NAO mostra que não apenas está preparada para o seu retorno de Saturno como esse retorno também simboliza sua força e talento para carreira musical. Um disco mais maduro, ousado e não menos tocante.

OUÇA: “Another Lifetime”, “Orbit” e “Drive And Disconnect”

Seinabo Sey – I’m A Dream


Depois de uma estreia poderosa, Seinabo Sey retorna com I’m A Dream, em que prova não ter sido aclamada por sorte de principiante. A voz particular e as letras bem pessoais são o ponto alto deste trabalho. O problema é que ele não tem o mesmo impacto de Pretend (2015), mesmo com algumas musicas excelentes.

O tom do segundo álbum da sueca com descendência gambiana é predominantemente romântico. As composições funcionam como confissões de sentimentos profundos, que incluem não só mensagens de autoaceitação e libertação, mas também de dor, como em “Never Get Used To”, sobre a difícil relação com seu pai. O curioso é que o sofrimento que a letra passa é mascarado pela sonoridade leve.

As influências soul e R&B continuam a dominar o pop de Seinabo. O maior destaque é “Breathe”, com violinos que dão vigor à canção, remetendo à ambição do som que a artista apresentou em seu debut. Algumas músicas têm potencial radiofônico, enquanto outras são monótonas e pouco inspiradas.

Apesar de ter uma voz potente, a cantora não explora isso em I’m A Dream. O que percebemos é uma suavidade maior na forma como ela canta. A escolha combina com o romantismo e a vulnerabilidade do álbum, mas fica a sensação de que ela poderia ter ido um pouco além em determinadas músicas.

Avaliando isoladamente, I’m A Dream é um trabalho sólido. Como é necessário considerar  o que Seinabo Sey já fez antes, o álbum empalidece. Essa é uma das desvantagens de se começar com algo tão bom e retornar sem um ingrediente especial.

OUÇA: “I Owe You Nothing”, “Breathe”, “Good In You”

Blood Orange – Negro Swan


Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos …

Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap.

Com declamações da primeira apresentadora trans e ativista LGBT, Janet Mock, Dev Hynes (Blood Orange) instaura uma atmosfera de acolhimento com canções, cujo centro criativo são personagens minorizados – como negros, homossexuais, mulheres e transsexuais. Como Mock consegue resumir, na sexta faixa do disco, “Family”:

Você me perguntou ‘o que é família?’. Eu penso em família como comunidade. Penso nos espaços onde você não tem que se encolher. Onde você não tem que fingir ou interpretar. Você pode parecer e ser vulnerável… Você se mostra como você é, sem julgamento, sem ser ridicularizado. Sem medo ou violência, sem policiamento ou confinamento. Você pode estar lá e se sentir completo. Então podemos escolher nossas famílias. Não somos limitados pela biologia. Conseguimos fazer por nós mesmos. Podemos criar nossas próprias famílias“.

Essa declamação, também mostra como Negro Swan não é apenas mais um disco triste. Tocar músicas tristes é fácil. A tristeza na música pode ser tanto uma escolha estética quanto a exibição de algum tipo de vulnerabilidade real. Podemos citar inúmeros exemplos de álbuns de rap ou R&B, lançados este ano, que expressam algum tipo de melancolia. Mas com a grande maioria desses discos, ainda é difícil se envolver emocionalmente. Em Negro Swan, a tristeza é honesta, é bruta. As faixas soam como versões demos, sem edições. Ele usa esses arranjos para nos contar sobre as lembranças que ainda o assombram,  pensamentos que o afligem e a esperança a quem ele ainda se agarra.

A construção de cada melodia é o resultado de um híbrido entre smooth-jazz e beats bem característicos do r&b. Aqui, cada instrumento tem espaço para crescer no seu próprio tempo, nada é forçado. Em “Charcoal Baby”, colaboração com Aaron Maine (Porches) essa gradação é clara e parece seduzir o ouvinte. ‘Quando você acorda / Não é a primeira coisa que você quer saber / Você ainda pode contar / Todas as razões pelas quais você não está por perto?‘, questiona a melancólica letra da canção enquanto sintetizadores e batidas se espalham sem pressa e se assemelham ao R&B de veteranos como Michael Jackson e Prince.

Esse refinamento também está presente em Saint, composição em que Hynes deixa de ser protagonista, abrindo passagem para que nomes como Ava Raiin, Adam Bainbridge (Kindness), Aaron Maine e BEA1991 assumam parte expressiva dos versos, reforçando o senso de “comunidade” que rege o disco.

Negro Swan é aquele disco que a cada audição parece ser um novo disco. A sensibilidade lírica das melodias também está presente em detalhes que talvez passem despercebidos em um primeiro momento – a atmosfera jazzística de “Take Your Time”, o flerte com a música gospel em “Holy Will”, e, principalmente, a base acústica e vozes cuidadosamente trabalhadas em “Smoke”.

Como na maioria das faixas de Negro Swan, “Orlando” não se contenta em ser apenas uma coisa. Partindo de uma homenagem aos ataques a um boate gay em Orlando, em 2016, o interlúdio de Mock amplia a mensagem da música sobre o valor de “fazer muito” em uma cultura que não permite que pessoas marginalizadas alcancem sucesso. A primeira faixa do disco já confirma o conceito central do álbum: como as pessoas de cor e queers lidam com trauma em uma cultura racista e heteronormativa.

Talvez Negro Swan seja um dos discos mais importantes e contundentes lançados em 2018. Pode ser pela opressão desencadeada pelo governo Trump, pelo retrocesso civilizacional que ele representa e pelo recrudescimento de vários fascismos ao redor do planeta. Se lançado no Brasil, o disco poderia ser uma resposta direta ao coiso, um hino para o movimento #elenão. Que nos apropriamos, então, desse disco como um instrumento de revolta, de crítica ao crescimento de governos fascistas e ao velho preconceito em relação às minorias. Como um grito de esperança.

OUÇA: “Orlando”, “Jewerly”, “Saint” e “Charcoal Baby”.