Solange – When I Get Home



A consanguinidade no meio musical sempre foi matéria de fascínio, ou de fuga da neutralidade no mundo das opiniões. O mundo pop está cheio destes exemplos, onde vínculos fraternos são presas fáceis para o apetite sensacionalista, insaciável por entretenimento de seus consumidores (jornalistas, críticos, formadores de opinião e até mesmo fãs). Jogos de ciúmes, declarações atravessadas, ou a mais singela das discordâncias geraram oceanos de histórias e  implacável cobertura midiática. Que digam os Jacksons, os Jonas e – claro, numa espécie de estado apoteótico do escrutínio público – os Gallaghers. Mas o que torna esse fenômeno midiático-comunicacional contemporâneo em uma ameaça inócua no caso da toda poderosa família Knowles? “I’m not her and I’ll never be” diz a caçula, que complementa “There’s a big age gap and we are two very different characters.”  Não há como concordar mais. Beyoncé à parte, Solange Knowles é um universo criativo próprio, de influências e estilos completamente diferentes; opostos em vários sentidos. Bem é verdade, Solange nunca foi sombra de Beyoncé, e seu novo disco representa cem passos adiante dessa eventual posição conflituosa.

When I Get Home (2019), lançado de supetão (o modus operandi recente de Beyoncé) no último mês, é uma expressão de liberdade pessoal e personalista de Solange. Das coisas que ela viu e imaginara (“Things I Imagined”). Se em A Seat At The Table (2016), um dos melhores deste referido ano (junto com Lemonade), Solange reage ao exterior e se posiciona em relação às inúmeras injustiças e a doída realidade que lhe é imposta enquanto mulher negra, aqui ela parece destravar pesos, permitir-se à experimentar e, portanto, partir para uma nova fronteira de percepção e de criação. Do pouco que sabemos da vida privada de Solange, a artista passou por um processo duro de tratamento de um distúrbio nervoso pouco conhecido nos últimos dois anos. É o período que coincide com a produção deste álbum e pode ter sido o trigger  necessário deste seu novo momento. Em entrevista à VICE, a artista se debruça sobre o tópico:

“Going through a transition where things were happening to my body that were out of my control, I got to the place where there was no fear surrounding my body, and it belongs to me in a whole new way (…) It’s been a beautiful love affair that took me time. I’ve always been connected to my sexuality and sensuality, but so much of that was re-grounded during this time. The freedom I got to feel was amazing. I learned you can create those spaces; you don’t need anyone else to have your moment.”

Mesmo não conhecendo os bastidores criativos, é bem provável que a audição do álbum leve a conclusões, senão as mesmas, bem parecidas com os objetivos de Solange. Em 39 minutos, o disco é sensualidade, mas não possui exatamente a cadência que se espera do comum “disco sensual”. O que nos leva a talvez única falha deste projeto: o número enorme de interludes, principalmente na primeira metade do disco. Ao deixar correr o play, When I Get Home demora a decolar em sua própria proposta, já que o transe é sempre perturbado por um ou outro interlude de 1 minuto. Tudo fica um pouco fragmentado nessa turbulência: loopings quebrados, samples em camadas e outros artifícios. A partir da sexta faixa, “Stay Flo”, o som finalmente alça vôos mais abrangentes e entrega o potencial esperado, até chegar em seu ápice, “Binz”. Outro momento de fulgor é a trinca final, com destaque para a ótima “Sound Of Rain”, meio eletrônica, meio soul, meio tudo.

Mas não se engane, o disco passa longe de ser palatável, mesmo em seus momentos mais acomodados. Exige-se aqui atenção e detalhe com as músicas. Afinal, é do universo interior de uma pessoa e sua identidade que este álbum se faz versa e prosa. A lógica, o método não são as únicas vozes a serem levadas em consideração, especialmente quando falamos do self de Solange Knowles.

A produção assinada pelo time estrelado composto pela própria Solange, Dev Hynes (Blood Orange), Christophe Chassol (Frank Ocean) e outros é hipnótica. Os pianos elétricos soam macios, os sintetizadores e a percussão complementam a voz de Knowles como se fossem seus backing vocals. Não é nada parecido com o que vimos antes, embora esse projeto beba da mesma água do LP1 da FKA twigs: o afrofuturismo é uma grande força do disco. Mas Solange atua para trazer essa estética ao seio de sua mensagem. A mensagem de liberdade sobre a qual falei. E para ela, a liberdade está fortemente ligada ao lar. E lar para ela é Houston, TX. Como produto disso tudo, surge o conceito da cowgirl futurista texana, não só expresso imageticamente pelos clipes que acompanham as músicas nas plataformas de streaming e nos vídeos do YouTube, mas também em temas líricos escolhidos e num punhado de sonoridades diferentes. Portanto, Houston (como cidade, como espacialidade afetiva) e influências sulistas também são ingredientes importantes nesse grande bolo.

Como se percebeu, o álbum é uma miríade artística, ou melhor, uma instalação artística em um pavilhão gigante:são estímulos visuais, sonoros e emocionais que se entrelaçam para gerar um resultado rico, mas complicado de se enxergar através; “I can’t be a singular expression of myself, there’s too many parts, too many spaces, too many manifestations…”, denuncia “Can I Hold The Mic”. Solange assim anda entre o exagero, o artificial e a genialidade. Dessa vez acerta na dose de um e de outro, e bota seu quarto LP como seu melhor produto. Bem-vinda em casa, Solange.

OUÇA: “Down With The Clique”, “Binz” e “Sound Of Rain”

Ariana Grande – thank u, next


thank u, next é o último álbum de Ariana Grande, uma das maiores artistas pops da atualidade. sweetener (2018) mostrou uma artista lidando com os problemas de sua vida com uma atitude positiva. Alegre, iluminado, embasado em resiliência e até mesmo uma dose de negação. thank u, next, como um bom antagonista shakespeariano, escancara uma outra postura. Sentimentos negativos, raiva e melancolia; um lado B de como lidar também com essas mesmas experiências negativas que não aparentam dar trégua.

Ao suceder rapidamente o lançamento anterior, fica inevitável colocar os dois discos lados a lado. sweetener marcou uma transição da cantora rumo a um produto mais autoral e autêntico. Com o auxílio de Pharell Williiams na produção, o produto foi um registro prospectivo, forte, progressista dentro do que pode ser no urban pop.

Desse lançamento para cá, uma série de eventos aumentaram a exposição de Ariana, e seus ressentimentos também. Toda a postura positiva e enérgica dela no trabalho anterior sede espaço à traços de personalidades visto como ruins e posturas não-convencionais, uma maneira diferente de ver os problemas da vista.

Uma das características marcantes é uma ambientação uníssona e presente. As músicas partem de uma base harmônica semelhante, um urban pop mais lento e “chilled”, com mais elementos de trap. Surge uma aura sombria, mais introspectiva, que projeta esse trabalho como o tão recorrente disco “dark pop” da carreira das cantoras americanas.

A primeira faixa, “imagine”, já atesta grande parte do que vem pela frente. Um beat devagar e a voz de Ariana em primeiro plano, com direito a whistle notes de Mariah Carey e um desfecho ao som de violinas. Ariana lida ao longo dos 41 minutos com amores impossíveis, incapacidade de se relacionar, consumismo. Dificuldade de lidar com o passado, arrependimentos e uma incapacidade de mudar essas características. “I admit I’m a lil messep up” ela canta em needy.

O álbum tem pontos altos excelentes, embasado alto escalão de produtores e compositores envolvidos no projeto. Os saxofones e o baixo elaborado em “bloodline”, meticulosamente curados por Max Martin, fazem dela facilmente uma das melhores faixas do ano. “fake smile” e “make up” tem uma estrutura pop tão bem casada que é bem provável tocar em qualquer rádio durante o próximo ano.

Obviamente um registro tão longo feito em tão pouco tempo tem momentos pouco cativantes. As insossas “bad idea” e “ghostin” parecem que poderiam usar de mais um tempo no estúdio. O disco finaliza com os três singles já lançados, que de fato fazem o recorte mais comercial do álbum. A faixa homônima realmente sintetiza todo o posicionamento de Ariana: olhando para si mesma e compreendendo suas falhas e erros, e tirando algum proveito.

thank u, next é sim um álbum melancólica de sua própria maneira. Mas antes disso, é sobre não saber lidar emocionalmente com as várias circunstâncias da vida. Ariana tem atualmente 11 anos de carreira. Com esse mesmo tempo de carreira, Mariah Carey já havia lançado Butterfly; Whitney Houston se preparava para lançar o My Love Is Your Love; Madonna atingia sua época mais polêmica com a sexualidade, Erotica e o sex book.  Seguindo essa lógica, provavelmente estamos nos aproximando do auge da carreira de Ariana. Seria thank u, next esse momento?

p.s.: Alguém ensina essa menina a usar letra maiúscula, por favor.

OUÇA: “imagine”, “bloodline” e “fake smile”

Rita Ora – Phoenix


Mais um fim de ano chega e com ele a depressão.  Também é nessa época que os artistas dão um gás final pra entregarem seus Singles, EPs e Álbums a tempo de aparecer nas listas de melhores do ano. É claro que nem todo mundo têm essa pretensão, como é o caso da Rita Ora. Desde 2015 ela tá numa loucura com o segundo álbum. Se ela fosse brasileira, a história dela ia sair no TV Fama, com certeza.

Tem disco que rende uma resenha gostosa de escrever, assunto a beça pra discutir e te faz clicar várias vezes no botão de replay. O Phoenix gerou uns singles gostosinhos, mas poucas pessoas vão lembrar que dele daqui há 3 anos. Talvez menos. E tudo bem.

Ninguém quer ouvir música pop profunda o tempo todo. Se você faz isso, meus sinceros parabéns. Eu acho chato pra cacete. Ficar prestando atenção em cada detalhe, pensando no que foi que a artista quis dizer e na razão de cada detalhe é cansativo. Só quem gosta demais mesmo de música ou de algum artista faz esse tipo de coisa com frequência.

Às vezes a gente só precisa ouvir um som comercial numa boa, sem muito esforço mental. Phoenix é um entretenimento leve, que não vai exigir muita coisa de você. Um hit aqui, três músicas nada a ver acolá e, quando você menos espera, já acabou. Bom pra ouvir voltando pra casa depois daquele dia cansativo. Em uma época onde quase todas as grandes cantoras pop estão lançando trabalhos conceituais, um álbum como esse é uma brisa de ar fresco.

Todos os singles lançados poderiam estar na lista das 7 melhores Jovem Pan. Na minha época de adolescente, isso era grande coisa. Hoje em dia eu sei lá o que quer dizer. Aposentei minha carteirinha de jovem no momento em que pensei em fazer uma piadinha usando “DAORA” e “Rita Ora”. Eu não tenho salvação.

Fico feliz que a Rita Ora tenha conseguido tirar esse projeto do papel. Ela parece uma pessoa bacana. Se o objetivo era renascer das cinzas como uma Fênix, acho que ela deveria ter feito algo menos genérico. Mas é aquela coisa, né? Ela tá ganhando milhões e eu acordo seis e meia da manhã pra chegar no trabalho no horário. O play fica por sua conta e risco.

OUÇA: “Your Song”, “Anywhere”, “Let You Love Me” e “Lonely Together”

NAO – Saturn


Com Lorde, nós temos 19 anos e estamos com fogo no rabo, já a Taylor Swift se sente com 22 e quer continuar dançando. Mas e com 29 anos? Foi pensando na expressão que seu amigo sempre lhe dizia – retorno de Saturno – que a cantora londrina NAO lança o segundo álbum de sua carreira.

O planeta Saturno demora 29 anos para fazer dar uma volta em sua órbita. E é esse simbolismo de crescimento pessoal, amadurecimento que está presente em todo o álbum. A cantora já passou pelo coming of age dos 20 e começa a repensar seus próprios comportamentos e valores. A crise dos 30 está chegando, mas ela não é tão assustadora como dizem, para NAO é um momento de transformação.  ‘E é assim que deve ser / Você sai e retorna / Você é como Saturno para mim, para mim / Eventualmente você vai continuar a me dar o que eu preciso‘, afirma a cantora na faixa-base “Saturn”.

NAO mostra-se protagonista da própria obra, ou melhor do seu próprio retorno de Saturno. Os conflitos pessoais e as desilusões amorosas não parecem ter o mesmo peso que antes, em canções como Don’t Change, ela parece se abster, flutuar diante dessa narrativa. Esse certo distanciamento, no entanto não impede que ela se doe para as letras como fica claro em If You Ever.

Em “Orbit”, uma das canções mais tristes do disco, ela canta  ‘Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que eu conheci / Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que me superou também / Ele me liberou em órbita / Ainda assim, encontrei uma maneira de navegar até você‘. Versos que funcionam como uma síntese do tom em relação a vida amorosa que permeia todo o disco.

Seguindo a linha do seu primeiro disco, a nova produção de NAO ainda conta com faixas menos contemplativas, como “Drive And Disconnect”,  pop latino dançante que lembra artistas como Rosalía. Mesmo com algumas melodias um pouco repetitivas, em seu segundo álbum NAO mostra que não apenas está preparada para o seu retorno de Saturno como esse retorno também simboliza sua força e talento para carreira musical. Um disco mais maduro, ousado e não menos tocante.

OUÇA: “Another Lifetime”, “Orbit” e “Drive And Disconnect”

Seinabo Sey – I’m A Dream


Depois de uma estreia poderosa, Seinabo Sey retorna com I’m A Dream, em que prova não ter sido aclamada por sorte de principiante. A voz particular e as letras bem pessoais são o ponto alto deste trabalho. O problema é que ele não tem o mesmo impacto de Pretend (2015), mesmo com algumas musicas excelentes.

O tom do segundo álbum da sueca com descendência gambiana é predominantemente romântico. As composições funcionam como confissões de sentimentos profundos, que incluem não só mensagens de autoaceitação e libertação, mas também de dor, como em “Never Get Used To”, sobre a difícil relação com seu pai. O curioso é que o sofrimento que a letra passa é mascarado pela sonoridade leve.

As influências soul e R&B continuam a dominar o pop de Seinabo. O maior destaque é “Breathe”, com violinos que dão vigor à canção, remetendo à ambição do som que a artista apresentou em seu debut. Algumas músicas têm potencial radiofônico, enquanto outras são monótonas e pouco inspiradas.

Apesar de ter uma voz potente, a cantora não explora isso em I’m A Dream. O que percebemos é uma suavidade maior na forma como ela canta. A escolha combina com o romantismo e a vulnerabilidade do álbum, mas fica a sensação de que ela poderia ter ido um pouco além em determinadas músicas.

Avaliando isoladamente, I’m A Dream é um trabalho sólido. Como é necessário considerar  o que Seinabo Sey já fez antes, o álbum empalidece. Essa é uma das desvantagens de se começar com algo tão bom e retornar sem um ingrediente especial.

OUÇA: “I Owe You Nothing”, “Breathe”, “Good In You”

Blood Orange – Negro Swan


Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos …

Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap.

Com declamações da primeira apresentadora trans e ativista LGBT, Janet Mock, Dev Hynes (Blood Orange) instaura uma atmosfera de acolhimento com canções, cujo centro criativo são personagens minorizados – como negros, homossexuais, mulheres e transsexuais. Como Mock consegue resumir, na sexta faixa do disco, “Family”:

Você me perguntou ‘o que é família?’. Eu penso em família como comunidade. Penso nos espaços onde você não tem que se encolher. Onde você não tem que fingir ou interpretar. Você pode parecer e ser vulnerável… Você se mostra como você é, sem julgamento, sem ser ridicularizado. Sem medo ou violência, sem policiamento ou confinamento. Você pode estar lá e se sentir completo. Então podemos escolher nossas famílias. Não somos limitados pela biologia. Conseguimos fazer por nós mesmos. Podemos criar nossas próprias famílias“.

Essa declamação, também mostra como Negro Swan não é apenas mais um disco triste. Tocar músicas tristes é fácil. A tristeza na música pode ser tanto uma escolha estética quanto a exibição de algum tipo de vulnerabilidade real. Podemos citar inúmeros exemplos de álbuns de rap ou R&B, lançados este ano, que expressam algum tipo de melancolia. Mas com a grande maioria desses discos, ainda é difícil se envolver emocionalmente. Em Negro Swan, a tristeza é honesta, é bruta. As faixas soam como versões demos, sem edições. Ele usa esses arranjos para nos contar sobre as lembranças que ainda o assombram,  pensamentos que o afligem e a esperança a quem ele ainda se agarra.

A construção de cada melodia é o resultado de um híbrido entre smooth-jazz e beats bem característicos do r&b. Aqui, cada instrumento tem espaço para crescer no seu próprio tempo, nada é forçado. Em “Charcoal Baby”, colaboração com Aaron Maine (Porches) essa gradação é clara e parece seduzir o ouvinte. ‘Quando você acorda / Não é a primeira coisa que você quer saber / Você ainda pode contar / Todas as razões pelas quais você não está por perto?‘, questiona a melancólica letra da canção enquanto sintetizadores e batidas se espalham sem pressa e se assemelham ao R&B de veteranos como Michael Jackson e Prince.

Esse refinamento também está presente em Saint, composição em que Hynes deixa de ser protagonista, abrindo passagem para que nomes como Ava Raiin, Adam Bainbridge (Kindness), Aaron Maine e BEA1991 assumam parte expressiva dos versos, reforçando o senso de “comunidade” que rege o disco.

Negro Swan é aquele disco que a cada audição parece ser um novo disco. A sensibilidade lírica das melodias também está presente em detalhes que talvez passem despercebidos em um primeiro momento – a atmosfera jazzística de “Take Your Time”, o flerte com a música gospel em “Holy Will”, e, principalmente, a base acústica e vozes cuidadosamente trabalhadas em “Smoke”.

Como na maioria das faixas de Negro Swan, “Orlando” não se contenta em ser apenas uma coisa. Partindo de uma homenagem aos ataques a um boate gay em Orlando, em 2016, o interlúdio de Mock amplia a mensagem da música sobre o valor de “fazer muito” em uma cultura que não permite que pessoas marginalizadas alcancem sucesso. A primeira faixa do disco já confirma o conceito central do álbum: como as pessoas de cor e queers lidam com trauma em uma cultura racista e heteronormativa.

Talvez Negro Swan seja um dos discos mais importantes e contundentes lançados em 2018. Pode ser pela opressão desencadeada pelo governo Trump, pelo retrocesso civilizacional que ele representa e pelo recrudescimento de vários fascismos ao redor do planeta. Se lançado no Brasil, o disco poderia ser uma resposta direta ao coiso, um hino para o movimento #elenão. Que nos apropriamos, então, desse disco como um instrumento de revolta, de crítica ao crescimento de governos fascistas e ao velho preconceito em relação às minorias. Como um grito de esperança.

OUÇA: “Orlando”, “Jewerly”, “Saint” e “Charcoal Baby”.

Ariana Grande – Sweetener


Oi gente, tudo bom? Tô no meio das melhores férias da vida e esqueci completamente de ouvir o novo álbum da Ariana Grande. Me desculpem. Deus é mulher etc, mas entre ouvir as músicas novas e fazer um passeio de barco no meio de uma praia paradisíaca no Rio Grande do Norte ouvindo Furacão Love – “My Baby”.mp3 eu preferi embarcar na experiência completa da música do momento.

Gosto muito da Ariana. Da linhagem “estrelas da Disney Channel que deram certo” ela é minha favorita por ser um combo vozeirão + pop farofa. EU SEI que nem tudo que ela lança é assim, mas quem não gosta de uma farofada? “Break Free”, “Side To Side”, “Problem”, “Greedy” e tantos outros que vou deixar de fora pra esse review não parecer uma lista do buzzfeed de melhores músicas da diva pop.

Eu sou muito fã de Dangerous Woman e fiquei com medo que ela entornasse o caldo do próximo disco pra alguma coisa conceitual chata. Quando ela lançou a capa do álbum e vi que era uma foto dela de cabeça pra baixo fiquei mais preocupada ainda. Aí ela lançou o disco e… Tá bacana.

Depois de um atentado, o fim de um relacionamento de 2 anos e um noivado repentino, as grandes mudanças na vida de Ariana são sentidas em Sweetener. A sensação é que a cantora resolveu viver a vida que deseja, sem  amarras e sem remorsos, na maior vibe “O que é, O que é?”.

É isso, pessoal. Deixem a moça viver e não ter a vergonha de ser feliz. Deixem ela cantar e cantar e cantar a beleza de ser uma eterna aprendiz. Se Ariana Grande achou sua voz, está apaixonada e quer arriscar um pouco mais com sua música, quem sou eu pra fazer um review de 10 parágrafos falando sobre o que esse disco é ou deixa de ser?

OUÇA: “God Is A Woman”, “R.E.M.”, “Successful”, “No Tears Left To Cry” e o disco todo se vocês curtirem muito a Ariana Grande.

Drake – Scorpion


Ok, eu sou um pouco suspeito para falar sobre Drake.

Conheci o trabalho do rapper meio que sem querer, quando vi uma legenda no instagram, procurei e acabei me deparando com um dos melhores álbuns de 2017: More Life. Com “apenas” 22 músicas, Drake ganhou ali um fã.

Eis que chega 2018 e, com ele, “God’s Plan”. A famigerada música de Drake que permaneceu por bastante tempo no topo de várias paradas (para ser mais específico, 11 semanas no topo da Billboard). Com um clipe que emocionou milhares de pessoas – contrastando com uma letra algo dúbia – “God’s Plan” nos deu esperanças sobre o que estava por vir nesse novo álbum.

Mas eis que o dia chegou e… blé. Okay, são 25 músicas que trabalham bem em conjunto. Mas nada que me segurasse e fizesse ouvir milhares de vezes como foi com “Teenage Fever”, “Glow” e “Since Way Back”, em More Life. Eram músicas boas, mas não excelentes, como já vimos com “Redemption” (a personal favorite <3).

A sensação era de que havia uma confusão de sentimentos naquele álbum, algo não se encaixava. Até que, pesquisando para escrever aqui, surgiu algo.

Se você, assim como eu, não se liga muito em ficar procurando notícias sobre os artistas que costuma ouvir, pode não saber que Pusha-T, em “The Story Of Adidon”, disse que Drake escondia um filho com a ex-estrela pornô Sophie Brussaux. Como bom escorpiano (aliás, o nome do álbum vem daí, o signo solar do cantor), Drake não deixou isso quieto. Em “Emotionless”, há um trecho em que ele fala como “não escondeu seu filho do mundo, mas o mundo do seu filho”, pois ele “só percebeu as almas vazias” que aqui existem quando ele “encarou sua própria semente”.

Quando descobri esse fato, foi como se tudo ficasse claro: o álbum já estava quase todo pronto, quando ele enxertou (um jeito bonitinho de falar que ele martelou) os assuntos “ok, eu tenho um filho” e “meu deus, o que eu faço agora” nas músicas.

Vamos parar um pouco e deixar bem claro que isso não diminui o esforço colocado nesse álbum e muito menos sua qualidade musical (que justificam a nota que estou dando aqui). Apenas explica o porquê de algumas músicas (como a já citada “Emotionless”) parecerem confusas.

Para seus fãs antigos, Scorpion é um bom álbum para se ouvir no trânsito ou na academia, mas nada que vá marcar tanto quanto seus trabalhos mais antigos. Para quem quer conhecer Drake, vai por mim, ouça More Life e Views.

OUÇA: “Nonstop”, “God’s Plan” e “Emotionless”

The Carters – EVERYTHING IS LOVE


Beyoncé e Jay-Z lançaram um álbum juntos. São tantos plot twists vindos desses dois que eu os considero o M. Night Shyamalan do mundo da música. Um show melhor que o outro, álbuns fascinantes e projetos audiovisuais que nem sei por onde começar a descrever – o que foi o clipe no Louvre?! Após Lemonade e 4:44, o lançamento de EVERYTHING IS LOVE consagra o casal como o mais poderoso do mundo da música.

Só temos a chance de entender o que se passa na cabeça e no coração dos Carters quando eles lançam trabalhos de estúdio ou outros projetos. Algo na linha de “Você quer saber mais sobre nós? Assine o Tidal e vá aos nossos shows”. Nesse disco, somos voyeurs por 38 minutos de um furacão familiar de drama, amor, dinheiro e luxo. É um misto de A Ursupadora, Casos de Família e Domingo Legal. Só que muito chique.

O título não mente. A vida a dois é explorada nos seus altos e baixos, desde quando e como eles se conheceram até renovar os votos após a traição que quase acabou com seu casamento. Pode parecer simples e uma ideia batida, mas isso é feito com Beyoncé entrando de cabeça no hip hop, com homenagens a artistas como Dr. Dre e diss para Kanye West e até 6ix9ine. Não faço ideia de como funciona o processo criativo de Beyoncé e Jay-Z, mas as escolhas de compositores foram muito assertivas. Recentemente, vi uma polêmica sobre se a Beyoncé realmente compõe. Isso é completamente irrelevante. Deus perdoe essas pessoas ruins.

Me despindo um pouco do frenesi em torno dos Carters, confesso que me decepcionei um pouco com algumas músicas. Com tantos lançamentos incríveis do hip hop recentemente – como o KIDS SEE GHOSTS – as faixas “FRIENDS” e “HEARD ABOUT US” tem flow genérico e poderiam ter sido  cantadas por qualquer outro rapper. Isso não quer dizer que são ruins, mas ficaram aquém de músicas como “BLACK EFFECT” e “LOVEHAPPY”, que encerram a narrativa do disco como a pincelada final de uma obra de arte.

Uma das melhores características de EVERYTHING IS LOVE são as pontes feitas com discos anteriores de Bey e Jay-Z. A vulnerabilidade de Beyoncé em “Sandcastles” (do disco Lemonade) e sua força em “Drunk In Love” (do disco Beyoncé) se conectam com “SUMMER”, primeira música desse disco. Isso se repete diversas vezes, o que enriquece a experiência, nos faz ouvir com mais atenção e abre espaço para diversas interpretações do que os artistas estão querendo dizer.

Eles fizeram de novo. Mais um discão, mais um trabalho muito bem produzido e mais ansiedade ao pensarmos no que eles vão fazem em seguida. Gostaria de ver Jay-Z saindo da zona de conforto tanto quanto a Beyoncé saiu, mas um passo de cada vez. Quem sabe no próximo anúncio surpresa? Agora, vestindo novamente o frenesi envolta dos Carters, devo dizer: AAAAA QUE ÁLBUM MARAVILHOSO LACROU TUDO MELHOR CASAL AMO MUITO JÁ VI “APESH*T” 50 VEZES PRECISO IR NA ON THE RUN II SENÃO EU VOU MORRER MEU DEUS MEU DEUS MEU DEEEEEEUS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

OUÇA: “LOVEHAPPY”, “BLACK EFFECT”, “SUMMER”, “NICE”.

Jorja Smith – Lost & Found


O título do primeiro álbum da britânica Jorja Smith se esclarece de maneira sublime durante o processo que é escutar esse disco suave e que, com tal leveza, consegue atravessar momentos que se aproximam a uma implosão emocional dura de se presenciar.

O tom de voz perfeito ao R&B que não precisa de muito para sobressair se alia às melodias suaves para tornar Lost & Found um momento introspectivo e essencialmente musical raro em um álbum de estreia. Completo, profundo e por vezes amargo, é a construção de uma metáfora sobre perda e reencontro, com uma densa visão própria. Sem resposta aparente para todos os questionamentos, parece valer a pena simplesmente pelo fato de conseguir transmitir seus dilemas de forma excepcional.

O início do álbum indica a cantora aceitando a perda – de forma ampla. Com melodias leves em que a voz é a protagonista, “Teenage Fantasy”, “Where Did I Go?” e “February 3rd” dialogam com esse desencontro, em que Smith conversa consigo mesma e com seu exterior. A artista se apresenta firme e ciente de si: o projeto é extremamente maduro, em termos de sonoridade, de lírica e, inclusive, na forma como utiliza sua voz. Smith tem o controle, mesmo quando aceita sua própria perda e enfrenta as parcelas mais duras do álbum, o faz de forma firme. Lost & Found evolui, assim, para um disco afirmativo. Nele, além de ser extremamente introspectiva, Smith é honesta e também muito objetiva em termos da sua personalidade e maturidade artística.

Particularmente em “Teenage Fantasy”, por exemplo, a cantora utiliza sua voz para dar um dos  pontos altos ao álbum, quando o refrão inicia. Retomando o R&B numa atmosfera semelhante ao final dos anos noventa e início da década de 2000, Smith transporta com facilidade: com batida sutil associada a um piano delicado, encarna a melancolia da turbulenta transição de milênio, podendo ser comparada a uma Amy Winehouse de Frank (2003). A composição das músicas é semelhante e marcada pelo minimalismo, mas não menos interessantes, em grande parte pela sua versatilidade vocal. Em “February 3rd”, Smith confecciona outro dos momentos altos do álbum ao criar uma faixa com realidade nostálgica, ao mesmo tempo em que possui elementos bastante contemporâneos. Para além disso, utiliza excepcionalmente, mais uma vez, sua voz, principalmente prestes ao fim da música, em que todos os elementos (vocal a instrumental) convergem naturalmente.

Em músicas como “The One”, na qual a cantora reconhece sua própria carência afetiva, não se limita apenas a descrever seu sentimento como um vazio de preenchimento necessário. Smith reconhece sua perda mas, ao mesmo tempo, também está ciente do que isso implica. Não esconde, mas sua vulnerabilidade está associada a uma grande noção de autoconhecimento: Smith reflete sobre o que significa a sua necessidade de “querer”, direcionando a narrativa para não sentir que há “algo” a se preencher.

A perda com a qual a cantora conversa assume formas distintas e se apresenta de maneira dolorosa (como na faixa “Blue Lights”, em que dialoga com o medo à polícia e violência do bairro em que nasceu numa metáfora de culpa sem motivo) ao mesmo tempo em que é revitalizadora e, nesse caso, toma a forma de uma espécie de reencontro. Essa dualidade nostálgica serve como apoio para a exposição das mensagens.

“Tomorrow” e “Don’t Watch Me Crying”, possivelmente dentre os momentos mais dolorosos do disco, também o finalizam. Após apresentar tanta estruturação e eloquência na forma de transmitir, é como se, nesse último suspiro, a cantora se permite ser relativamente inconsequente: a simplicidade das músicas dá espaço a uma abertura emocional dolorosa que encerra o álbum com aquilo que parece ser o mais importante, a honestidade. O reconhecimento de si mesma não de forma prepotente mas sim muito assertiva e demarcando, justamente, a perda e o reencontro como possíveis metáforas para esse processo de autoconhecimento.

O minimalismo, apesar de interessante pelo destaque a cada elemento da composição, pode em certos momentos dar abertura a uma percepção de monotonia ou falta de variação mas que, ao considerá-la em detalhe, é possível contornar.

Para além da introspecção, a britânica consolida uma estréia sólida e rara, deixando grandes expectativas perante seu próximos trabalhos e mostrando-se como artista e compositora com muito a contribuir em termos de narrativa no cenário musical e, claro, habilidade técnica.

OUÇA: “Teenage Fantasy”, “February 3rd”, “The One” e “Don’t Watch Me Cry”