NAO – Saturn


Com Lorde, nós temos 19 anos e estamos com fogo no rabo, já a Taylor Swift se sente com 22 e quer continuar dançando. Mas e com 29 anos? Foi pensando na expressão que seu amigo sempre lhe dizia – retorno de Saturno – que a cantora londrina NAO lança o segundo álbum de sua carreira.

O planeta Saturno demora 29 anos para fazer dar uma volta em sua órbita. E é esse simbolismo de crescimento pessoal, amadurecimento que está presente em todo o álbum. A cantora já passou pelo coming of age dos 20 e começa a repensar seus próprios comportamentos e valores. A crise dos 30 está chegando, mas ela não é tão assustadora como dizem, para NAO é um momento de transformação.  ‘E é assim que deve ser / Você sai e retorna / Você é como Saturno para mim, para mim / Eventualmente você vai continuar a me dar o que eu preciso‘, afirma a cantora na faixa-base “Saturn”.

NAO mostra-se protagonista da própria obra, ou melhor do seu próprio retorno de Saturno. Os conflitos pessoais e as desilusões amorosas não parecem ter o mesmo peso que antes, em canções como Don’t Change, ela parece se abster, flutuar diante dessa narrativa. Esse certo distanciamento, no entanto não impede que ela se doe para as letras como fica claro em If You Ever.

Em “Orbit”, uma das canções mais tristes do disco, ela canta  ‘Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que eu conheci / Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que me superou também / Ele me liberou em órbita / Ainda assim, encontrei uma maneira de navegar até você‘. Versos que funcionam como uma síntese do tom em relação a vida amorosa que permeia todo o disco.

Seguindo a linha do seu primeiro disco, a nova produção de NAO ainda conta com faixas menos contemplativas, como “Drive And Disconnect”,  pop latino dançante que lembra artistas como Rosalía. Mesmo com algumas melodias um pouco repetitivas, em seu segundo álbum NAO mostra que não apenas está preparada para o seu retorno de Saturno como esse retorno também simboliza sua força e talento para carreira musical. Um disco mais maduro, ousado e não menos tocante.

OUÇA: “Another Lifetime”, “Orbit” e “Drive And Disconnect”

Seinabo Sey – I’m A Dream


Depois de uma estreia poderosa, Seinabo Sey retorna com I’m A Dream, em que prova não ter sido aclamada por sorte de principiante. A voz particular e as letras bem pessoais são o ponto alto deste trabalho. O problema é que ele não tem o mesmo impacto de Pretend (2015), mesmo com algumas musicas excelentes.

O tom do segundo álbum da sueca com descendência gambiana é predominantemente romântico. As composições funcionam como confissões de sentimentos profundos, que incluem não só mensagens de autoaceitação e libertação, mas também de dor, como em “Never Get Used To”, sobre a difícil relação com seu pai. O curioso é que o sofrimento que a letra passa é mascarado pela sonoridade leve.

As influências soul e R&B continuam a dominar o pop de Seinabo. O maior destaque é “Breathe”, com violinos que dão vigor à canção, remetendo à ambição do som que a artista apresentou em seu debut. Algumas músicas têm potencial radiofônico, enquanto outras são monótonas e pouco inspiradas.

Apesar de ter uma voz potente, a cantora não explora isso em I’m A Dream. O que percebemos é uma suavidade maior na forma como ela canta. A escolha combina com o romantismo e a vulnerabilidade do álbum, mas fica a sensação de que ela poderia ter ido um pouco além em determinadas músicas.

Avaliando isoladamente, I’m A Dream é um trabalho sólido. Como é necessário considerar  o que Seinabo Sey já fez antes, o álbum empalidece. Essa é uma das desvantagens de se começar com algo tão bom e retornar sem um ingrediente especial.

OUÇA: “I Owe You Nothing”, “Breathe”, “Good In You”

Blood Orange – Negro Swan


Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos …

Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap.

Com declamações da primeira apresentadora trans e ativista LGBT, Janet Mock, Dev Hynes (Blood Orange) instaura uma atmosfera de acolhimento com canções, cujo centro criativo são personagens minorizados – como negros, homossexuais, mulheres e transsexuais. Como Mock consegue resumir, na sexta faixa do disco, “Family”:

Você me perguntou ‘o que é família?’. Eu penso em família como comunidade. Penso nos espaços onde você não tem que se encolher. Onde você não tem que fingir ou interpretar. Você pode parecer e ser vulnerável… Você se mostra como você é, sem julgamento, sem ser ridicularizado. Sem medo ou violência, sem policiamento ou confinamento. Você pode estar lá e se sentir completo. Então podemos escolher nossas famílias. Não somos limitados pela biologia. Conseguimos fazer por nós mesmos. Podemos criar nossas próprias famílias“.

Essa declamação, também mostra como Negro Swan não é apenas mais um disco triste. Tocar músicas tristes é fácil. A tristeza na música pode ser tanto uma escolha estética quanto a exibição de algum tipo de vulnerabilidade real. Podemos citar inúmeros exemplos de álbuns de rap ou R&B, lançados este ano, que expressam algum tipo de melancolia. Mas com a grande maioria desses discos, ainda é difícil se envolver emocionalmente. Em Negro Swan, a tristeza é honesta, é bruta. As faixas soam como versões demos, sem edições. Ele usa esses arranjos para nos contar sobre as lembranças que ainda o assombram,  pensamentos que o afligem e a esperança a quem ele ainda se agarra.

A construção de cada melodia é o resultado de um híbrido entre smooth-jazz e beats bem característicos do r&b. Aqui, cada instrumento tem espaço para crescer no seu próprio tempo, nada é forçado. Em “Charcoal Baby”, colaboração com Aaron Maine (Porches) essa gradação é clara e parece seduzir o ouvinte. ‘Quando você acorda / Não é a primeira coisa que você quer saber / Você ainda pode contar / Todas as razões pelas quais você não está por perto?‘, questiona a melancólica letra da canção enquanto sintetizadores e batidas se espalham sem pressa e se assemelham ao R&B de veteranos como Michael Jackson e Prince.

Esse refinamento também está presente em Saint, composição em que Hynes deixa de ser protagonista, abrindo passagem para que nomes como Ava Raiin, Adam Bainbridge (Kindness), Aaron Maine e BEA1991 assumam parte expressiva dos versos, reforçando o senso de “comunidade” que rege o disco.

Negro Swan é aquele disco que a cada audição parece ser um novo disco. A sensibilidade lírica das melodias também está presente em detalhes que talvez passem despercebidos em um primeiro momento – a atmosfera jazzística de “Take Your Time”, o flerte com a música gospel em “Holy Will”, e, principalmente, a base acústica e vozes cuidadosamente trabalhadas em “Smoke”.

Como na maioria das faixas de Negro Swan, “Orlando” não se contenta em ser apenas uma coisa. Partindo de uma homenagem aos ataques a um boate gay em Orlando, em 2016, o interlúdio de Mock amplia a mensagem da música sobre o valor de “fazer muito” em uma cultura que não permite que pessoas marginalizadas alcancem sucesso. A primeira faixa do disco já confirma o conceito central do álbum: como as pessoas de cor e queers lidam com trauma em uma cultura racista e heteronormativa.

Talvez Negro Swan seja um dos discos mais importantes e contundentes lançados em 2018. Pode ser pela opressão desencadeada pelo governo Trump, pelo retrocesso civilizacional que ele representa e pelo recrudescimento de vários fascismos ao redor do planeta. Se lançado no Brasil, o disco poderia ser uma resposta direta ao coiso, um hino para o movimento #elenão. Que nos apropriamos, então, desse disco como um instrumento de revolta, de crítica ao crescimento de governos fascistas e ao velho preconceito em relação às minorias. Como um grito de esperança.

OUÇA: “Orlando”, “Jewerly”, “Saint” e “Charcoal Baby”.

Ariana Grande – Sweetener


Oi gente, tudo bom? Tô no meio das melhores férias da vida e esqueci completamente de ouvir o novo álbum da Ariana Grande. Me desculpem. Deus é mulher etc, mas entre ouvir as músicas novas e fazer um passeio de barco no meio de uma praia paradisíaca no Rio Grande do Norte ouvindo Furacão Love – “My Baby”.mp3 eu preferi embarcar na experiência completa da música do momento.

Gosto muito da Ariana. Da linhagem “estrelas da Disney Channel que deram certo” ela é minha favorita por ser um combo vozeirão + pop farofa. EU SEI que nem tudo que ela lança é assim, mas quem não gosta de uma farofada? “Break Free”, “Side To Side”, “Problem”, “Greedy” e tantos outros que vou deixar de fora pra esse review não parecer uma lista do buzzfeed de melhores músicas da diva pop.

Eu sou muito fã de Dangerous Woman e fiquei com medo que ela entornasse o caldo do próximo disco pra alguma coisa conceitual chata. Quando ela lançou a capa do álbum e vi que era uma foto dela de cabeça pra baixo fiquei mais preocupada ainda. Aí ela lançou o disco e… Tá bacana.

Depois de um atentado, o fim de um relacionamento de 2 anos e um noivado repentino, as grandes mudanças na vida de Ariana são sentidas em Sweetener. A sensação é que a cantora resolveu viver a vida que deseja, sem  amarras e sem remorsos, na maior vibe “O que é, O que é?”.

É isso, pessoal. Deixem a moça viver e não ter a vergonha de ser feliz. Deixem ela cantar e cantar e cantar a beleza de ser uma eterna aprendiz. Se Ariana Grande achou sua voz, está apaixonada e quer arriscar um pouco mais com sua música, quem sou eu pra fazer um review de 10 parágrafos falando sobre o que esse disco é ou deixa de ser?

OUÇA: “God Is A Woman”, “R.E.M.”, “Successful”, “No Tears Left To Cry” e o disco todo se vocês curtirem muito a Ariana Grande.

Drake – Scorpion


Ok, eu sou um pouco suspeito para falar sobre Drake.

Conheci o trabalho do rapper meio que sem querer, quando vi uma legenda no instagram, procurei e acabei me deparando com um dos melhores álbuns de 2017: More Life. Com “apenas” 22 músicas, Drake ganhou ali um fã.

Eis que chega 2018 e, com ele, “God’s Plan”. A famigerada música de Drake que permaneceu por bastante tempo no topo de várias paradas (para ser mais específico, 11 semanas no topo da Billboard). Com um clipe que emocionou milhares de pessoas – contrastando com uma letra algo dúbia – “God’s Plan” nos deu esperanças sobre o que estava por vir nesse novo álbum.

Mas eis que o dia chegou e… blé. Okay, são 25 músicas que trabalham bem em conjunto. Mas nada que me segurasse e fizesse ouvir milhares de vezes como foi com “Teenage Fever”, “Glow” e “Since Way Back”, em More Life. Eram músicas boas, mas não excelentes, como já vimos com “Redemption” (a personal favorite <3).

A sensação era de que havia uma confusão de sentimentos naquele álbum, algo não se encaixava. Até que, pesquisando para escrever aqui, surgiu algo.

Se você, assim como eu, não se liga muito em ficar procurando notícias sobre os artistas que costuma ouvir, pode não saber que Pusha-T, em “The Story Of Adidon”, disse que Drake escondia um filho com a ex-estrela pornô Sophie Brussaux. Como bom escorpiano (aliás, o nome do álbum vem daí, o signo solar do cantor), Drake não deixou isso quieto. Em “Emotionless”, há um trecho em que ele fala como “não escondeu seu filho do mundo, mas o mundo do seu filho”, pois ele “só percebeu as almas vazias” que aqui existem quando ele “encarou sua própria semente”.

Quando descobri esse fato, foi como se tudo ficasse claro: o álbum já estava quase todo pronto, quando ele enxertou (um jeito bonitinho de falar que ele martelou) os assuntos “ok, eu tenho um filho” e “meu deus, o que eu faço agora” nas músicas.

Vamos parar um pouco e deixar bem claro que isso não diminui o esforço colocado nesse álbum e muito menos sua qualidade musical (que justificam a nota que estou dando aqui). Apenas explica o porquê de algumas músicas (como a já citada “Emotionless”) parecerem confusas.

Para seus fãs antigos, Scorpion é um bom álbum para se ouvir no trânsito ou na academia, mas nada que vá marcar tanto quanto seus trabalhos mais antigos. Para quem quer conhecer Drake, vai por mim, ouça More Life e Views.

OUÇA: “Nonstop”, “God’s Plan” e “Emotionless”

The Carters – EVERYTHING IS LOVE


Beyoncé e Jay-Z lançaram um álbum juntos. São tantos plot twists vindos desses dois que eu os considero o M. Night Shyamalan do mundo da música. Um show melhor que o outro, álbuns fascinantes e projetos audiovisuais que nem sei por onde começar a descrever – o que foi o clipe no Louvre?! Após Lemonade e 4:44, o lançamento de EVERYTHING IS LOVE consagra o casal como o mais poderoso do mundo da música.

Só temos a chance de entender o que se passa na cabeça e no coração dos Carters quando eles lançam trabalhos de estúdio ou outros projetos. Algo na linha de “Você quer saber mais sobre nós? Assine o Tidal e vá aos nossos shows”. Nesse disco, somos voyeurs por 38 minutos de um furacão familiar de drama, amor, dinheiro e luxo. É um misto de A Ursupadora, Casos de Família e Domingo Legal. Só que muito chique.

O título não mente. A vida a dois é explorada nos seus altos e baixos, desde quando e como eles se conheceram até renovar os votos após a traição que quase acabou com seu casamento. Pode parecer simples e uma ideia batida, mas isso é feito com Beyoncé entrando de cabeça no hip hop, com homenagens a artistas como Dr. Dre e diss para Kanye West e até 6ix9ine. Não faço ideia de como funciona o processo criativo de Beyoncé e Jay-Z, mas as escolhas de compositores foram muito assertivas. Recentemente, vi uma polêmica sobre se a Beyoncé realmente compõe. Isso é completamente irrelevante. Deus perdoe essas pessoas ruins.

Me despindo um pouco do frenesi em torno dos Carters, confesso que me decepcionei um pouco com algumas músicas. Com tantos lançamentos incríveis do hip hop recentemente – como o KIDS SEE GHOSTS – as faixas “FRIENDS” e “HEARD ABOUT US” tem flow genérico e poderiam ter sido  cantadas por qualquer outro rapper. Isso não quer dizer que são ruins, mas ficaram aquém de músicas como “BLACK EFFECT” e “LOVEHAPPY”, que encerram a narrativa do disco como a pincelada final de uma obra de arte.

Uma das melhores características de EVERYTHING IS LOVE são as pontes feitas com discos anteriores de Bey e Jay-Z. A vulnerabilidade de Beyoncé em “Sandcastles” (do disco Lemonade) e sua força em “Drunk In Love” (do disco Beyoncé) se conectam com “SUMMER”, primeira música desse disco. Isso se repete diversas vezes, o que enriquece a experiência, nos faz ouvir com mais atenção e abre espaço para diversas interpretações do que os artistas estão querendo dizer.

Eles fizeram de novo. Mais um discão, mais um trabalho muito bem produzido e mais ansiedade ao pensarmos no que eles vão fazem em seguida. Gostaria de ver Jay-Z saindo da zona de conforto tanto quanto a Beyoncé saiu, mas um passo de cada vez. Quem sabe no próximo anúncio surpresa? Agora, vestindo novamente o frenesi envolta dos Carters, devo dizer: AAAAA QUE ÁLBUM MARAVILHOSO LACROU TUDO MELHOR CASAL AMO MUITO JÁ VI “APESH*T” 50 VEZES PRECISO IR NA ON THE RUN II SENÃO EU VOU MORRER MEU DEUS MEU DEUS MEU DEEEEEEUS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

OUÇA: “LOVEHAPPY”, “BLACK EFFECT”, “SUMMER”, “NICE”.

Jorja Smith – Lost & Found


O título do primeiro álbum da britânica Jorja Smith se esclarece de maneira sublime durante o processo que é escutar esse disco suave e que, com tal leveza, consegue atravessar momentos que se aproximam a uma implosão emocional dura de se presenciar.

O tom de voz perfeito ao R&B que não precisa de muito para sobressair se alia às melodias suaves para tornar Lost & Found um momento introspectivo e essencialmente musical raro em um álbum de estreia. Completo, profundo e por vezes amargo, é a construção de uma metáfora sobre perda e reencontro, com uma densa visão própria. Sem resposta aparente para todos os questionamentos, parece valer a pena simplesmente pelo fato de conseguir transmitir seus dilemas de forma excepcional.

O início do álbum indica a cantora aceitando a perda – de forma ampla. Com melodias leves em que a voz é a protagonista, “Teenage Fantasy”, “Where Did I Go?” e “February 3rd” dialogam com esse desencontro, em que Smith conversa consigo mesma e com seu exterior. A artista se apresenta firme e ciente de si: o projeto é extremamente maduro, em termos de sonoridade, de lírica e, inclusive, na forma como utiliza sua voz. Smith tem o controle, mesmo quando aceita sua própria perda e enfrenta as parcelas mais duras do álbum, o faz de forma firme. Lost & Found evolui, assim, para um disco afirmativo. Nele, além de ser extremamente introspectiva, Smith é honesta e também muito objetiva em termos da sua personalidade e maturidade artística.

Particularmente em “Teenage Fantasy”, por exemplo, a cantora utiliza sua voz para dar um dos  pontos altos ao álbum, quando o refrão inicia. Retomando o R&B numa atmosfera semelhante ao final dos anos noventa e início da década de 2000, Smith transporta com facilidade: com batida sutil associada a um piano delicado, encarna a melancolia da turbulenta transição de milênio, podendo ser comparada a uma Amy Winehouse de Frank (2003). A composição das músicas é semelhante e marcada pelo minimalismo, mas não menos interessantes, em grande parte pela sua versatilidade vocal. Em “February 3rd”, Smith confecciona outro dos momentos altos do álbum ao criar uma faixa com realidade nostálgica, ao mesmo tempo em que possui elementos bastante contemporâneos. Para além disso, utiliza excepcionalmente, mais uma vez, sua voz, principalmente prestes ao fim da música, em que todos os elementos (vocal a instrumental) convergem naturalmente.

Em músicas como “The One”, na qual a cantora reconhece sua própria carência afetiva, não se limita apenas a descrever seu sentimento como um vazio de preenchimento necessário. Smith reconhece sua perda mas, ao mesmo tempo, também está ciente do que isso implica. Não esconde, mas sua vulnerabilidade está associada a uma grande noção de autoconhecimento: Smith reflete sobre o que significa a sua necessidade de “querer”, direcionando a narrativa para não sentir que há “algo” a se preencher.

A perda com a qual a cantora conversa assume formas distintas e se apresenta de maneira dolorosa (como na faixa “Blue Lights”, em que dialoga com o medo à polícia e violência do bairro em que nasceu numa metáfora de culpa sem motivo) ao mesmo tempo em que é revitalizadora e, nesse caso, toma a forma de uma espécie de reencontro. Essa dualidade nostálgica serve como apoio para a exposição das mensagens.

“Tomorrow” e “Don’t Watch Me Crying”, possivelmente dentre os momentos mais dolorosos do disco, também o finalizam. Após apresentar tanta estruturação e eloquência na forma de transmitir, é como se, nesse último suspiro, a cantora se permite ser relativamente inconsequente: a simplicidade das músicas dá espaço a uma abertura emocional dolorosa que encerra o álbum com aquilo que parece ser o mais importante, a honestidade. O reconhecimento de si mesma não de forma prepotente mas sim muito assertiva e demarcando, justamente, a perda e o reencontro como possíveis metáforas para esse processo de autoconhecimento.

O minimalismo, apesar de interessante pelo destaque a cada elemento da composição, pode em certos momentos dar abertura a uma percepção de monotonia ou falta de variação mas que, ao considerá-la em detalhe, é possível contornar.

Para além da introspecção, a britânica consolida uma estréia sólida e rara, deixando grandes expectativas perante seu próximos trabalhos e mostrando-se como artista e compositora com muito a contribuir em termos de narrativa no cenário musical e, claro, habilidade técnica.

OUÇA: “Teenage Fantasy”, “February 3rd”, “The One” e “Don’t Watch Me Cry”

Charlie Puth – Voicenotes


Charlie Puth cresceu. Pelo menos essa é a mensagem que ele tenta passar com Voicenotes. Indo na direção Pop/R&B e com participações de artistas expressivos na indústria da música como Boyz II Men (!) e James Taylor (!!), o cantor me convenceu que é mais sério do que eu esperava, mas ainda está no no limbo entre um cantor pop qualquer e um artista que merece minha atenção.

Seu segundo álbum de estúdio é um misto de apostas em características que lhe renderam uma fan base sólida e riscos calculados para atrair a atenção de quem não estava de olho em seu trabalho. Com composições próprias e a gravação feita em equipamentos caseiros, confesso que esperava um trabalho de qualidade inferior ao que encontrei. Fui surpreendida positivamente, mesmo que Voicenotes tenha suas falhas.

As apostas no funk e soul dos 80 e 90 são bem distribuídas, mas a inexperiência do cantor fica evidente em duas das três nas músicas com participações de outros artistas. Em “If You Leave Me Now”, sua voz fica em segundo plano ao cantar com o Boyz II Men e em “Change”, com James Taylor, não encontrei até agora a emoção que a música deveria passar.

Felizmente, quando o cantor acerta é em cheio. Os destaques ficam com “Attention” – com seu baixo impecável – e “Done For Me”, que conta com a participação da popstar do R&B Kehlani. A voz dos dois artistas se complementou perfeitamente e a faixa ainda ganhou um clipe sensual que faz jus ao dueto. Se ele tivesse criado mais músicas como essas, teria lançado um disco mais consistente, mesmo que esse álbum tenha mais visão artística que seu debut.

Puth compõe o tipo de música que as pessoas adoram ouvir, dançar e até cantar no chuveiro – mesmo morrendo de vergonha de ouvir no modo público do Spotify. Voicenotes é repleto de letras chiclete e chichês, mas prova que o cantor está longe de ser um one hit wonder e que é capaz de fazer boa música. Estou curiosa para descobrir como ele vai contribuir para a música pop no futuro.

OUÇA: “Attention”, “Done For Me” e “How Long”.

Plan B – Heaven Before All Hell Breaks Loose


Sem lançar um álbum desde 2012, Ben Drew volta com um álbum que parece um momento de transição pra algo que ainda está por vir. O cantor que se lançou como um rapper de rimas ácidas e agressivas e passou pelo soul sem perder a fúria, reaparece mais calmo e ainda bastante calcado nas vertentes da black music com uma nova estética um tanto quanto indefinida, experimentando com elementos de R&B, EDM e até uns toques de reggae em algumas músicas. Liricamente ele também parece realizar experimentos pra sair da sua zona de conforto ao cantar sobre temas além dos relatos autobiográficos que permearam os álbuns anteriores e inclusive cantando letras de outros compositores, algo inédito até então.

A voz de Ben Drew é cativante e se encaixa muito bem na proposta mais pop desse trabalho, com um bom alcance e melismas bem executados. Tecnicamente, o álbum é muito bem feito com boas linhas instrumentais e bons arranjos, ainda que genéricos em alguns momentos. “Grateful” que abre o disco mostra muito bem a mudança de direção que o cantor busca, a música reflete muito bem o momento da vida dele com toda a alegria e amor de ser pai pela primeira vez e o arranjo e a letra refletem muito bem esse estado de espírito de gratidão. “Stranger” que vem na sequência é um R&B noventista com uma das melhores performances vocais do álbum e com um trabalho de teclado e baixo interessante mas sem muita identidade, soando mais como um cover de Michael Jackson.

Ao longo do álbum, algumas faixas parecem tentativas de emular outros artistas como “Pursuit Of Happiness” que parece algo que o Justin Timberlake faria ou “Queue Jumping” que tem um arranjo muito parecido com as coisas que o Major Lazer faz. “Wait So Long” é uma música dançante com uma guitarra reggae e um quê de soul estruturado de forma parecida com o que o Avicii fazia mas os diversos elementos acabam não funcionando muito bem juntos nessa faixa, sendo uma das mais fracas do trabalho.

“Guess Again” relembra os tempos de rap do cantor com uma boa letra que resgata um pouquinho da agressividade dos trabalhos anteriores ao criticar os esforços dos poderosos em dividir o povo em facções distintas com o intuito de enfraquecê-la. No entanto, o arranjo é bem fraco e traz elementos bem datados do rap do começo dos anos 2000.

Os melhores momentos deste trabalho são a faixa-título e “Flesh & Bone” que estão de certa forma na zona de conforto do artista por trazerem o soul e o rap com os quais ele já está habituado mas que ainda assim parecem bem mais originais e com arranjos bem mais criativos do que o restante do álbum.

Por estar vivendo um momento de transição artística, creio que seja normal não saber pra onde direcionar seus esforços e experimentar em vertentes tão diversas como acontece aqui. O álbum vale ser ouvido pra conhecer como funciona o processo de evolução artística e entender essa transformação na estética sonora do Plan B. Encaro como bastante positivo o fato de Ben Drew estar revendo suas influências e experimentando outras formas de se expressar e, dado o histórico do artista, acredito que ele venha com algo mais coeso no futuro.

OUÇA: “Grateful”, “Heaven Before All Hell Breaks Loose”, “Flesh & Bone” e “Sepia”.

Leon Bridges – Good Thing


Leon Bridges procurou nesse novo projeto manter suas raízes soul e R&B que o elevaram aos holofotes ao mesmo tempo que tentou adicionar uma pitada de modernidade ao seu som.

Sua admiração por ícones da música soul dos anos 60 gerou um álbum sólido, refrescante e memorável. Lembro de ouvir “River” na trilha sonora da série Big Little Lies, em um contexto que tornou a música ainda mais bonita e profunda. Quando soube que Leon lançaria um segundo projeto esse ano, confesso que me interessei pelo que o jovem artista faria para dar sequência a sua carreira pós “Coming Home”.

Vejo o Good Thing não como uma definição perene de seu novo som, mas como uma experimentação de novos elementos. Quando um artista usa um álbum para testar novas direções, muitas vezes sacrifica a coesão e a estrutura de um álbum. O que eu creio que Leon Bridges conseguiu nesse novo projeto foi testar novas águas sem sacrificar a identidade de suas letras e vocais cheios de soul.

Conseguiu entregar um álbum coeso e bem estruturado? Na minha opinião, não. Good Thing conseguiu o suficiente para Leon conseguir superar Coming Home? Minha resposta tende para não. Existem faixas memoráveis. “Shy” e “Beyond” foram direto para minha playlist do dia-a-dia.

“You Don’t Know” soa como se Bridges estivesse com um pé na zona dance/pop, tentando realmente aumentar o espectro de sua fanbase. Por todo álbum, pode-se ouvir a influência de sons mais modernos e samples mais tecnológicos, mesclando-se ao tom retro dos vocais.

Esse novo projeto serviu com certeza para me interessar nos próximos passos do artista, apesar de a sombra do ícone que é “River” e do grande álbum que foi Coming Home ainda serem maiores que as novidades propostas por Leon em Good Thing.

OUÇA: “Shy”, “Beyond” e “You Don’t Know”.