Kanye West – ye


SPOILER ALERT: Se você ainda não assistiu e pretende assistir a série Mad Men, pule o primeiro parágrafo

Na última cena do derradeiro episódio da aclamada série Mad Men, o protagonista Don Draper, responsável pela criação de peças publicitárias de uma agência nova-iorquina nos 60, medita em um retiro espiritual. Corta-se então para um comercial verídico da Coca-Cola, de 1971, chamado “Hilltop”, o qual tornou-se icônico por mostrar pessoas de diferentes etnias no topo de uma montanha, em “perfeita harmonia”, compartilhando o refrigerante. A montagem sugere, portanto, não só que Draper foi o autor do comercial, mas também que sua aparente busca por uma paz interna, por uma resolução de seus conflitos existenciais, não passava de uma estratégia de processo criativo.

Assim como Draper, Kanye West iria até o inferno por uma ideia. E nos dias de hoje, nada parece mais materializar o inferno do que declaração-polêmica-em-redes-sociais. Com direito a uma enxurrada de posts sem sentido, apoio a Trump e comentários lamentáveis sobre escravidão, Kanye utilizou o twitter para chamar atenção para si e para seu álbum vindouro. Em uma estratégia de marketing que vai de besta a bestial, acabou fazendo com que estivéssemos preparados para um registro tão pessoal, inclusive se utilizando das reações raivosas que recebeu para criar as letras – o álbum foi feito em um mês e algumas faixas foram finalizadas horas antes do lançamento, após um retiro em Wyoming (abraço, Don!).

O tribunal das redes, porém, parece ter esquecido que este é um velho truque do artista. No auge de sua impopularidade, lançou seu principal álbum até hoje, o single sendo uma nota repetida de piano e um “toast for the douchebags”. Ou seja, Kanye sempre foi um idiota. Menos por suas atitudes e declarações do que por não possuir qualquer vínculo com elas – e aqueles que esperavam o primeiro álbum de rap alt-right da história demonstraram um flagrante desconhecimento disso. Utilizar-se de sua música para eclipsar as besteiras que faz e diz já é um padrão do rapper de Chicago, inclusive porque ele tende a apoiar seu processo criativo no buzz que é criado em volta delas. E isso fica evidente nas faixas em que cita as recentes polêmicas em que se envolveu.

Ladeado apenas por murmuros, Kanye abre o álbum recitando sua vontade de matar alguém. Com todo o pano de fundo exposto aqui, a reação é automática: “é, ele está louco”. Mas aí vem a primeira batida, e uma voz que parece carregar culpa e vulnerabilidade. E a seguir entra outra batida que transforma o andamento melódico anterior, agora com um vocal assertivo e agressivo. Kanye West in a nutshell. Não há nada de louco, o álbum segue e reconhecemos sua capacidade de criar batidas e rimas que ninguém fez, nem faz, assim como reencontramos composições infantilizadas e ofensivas. ye se apoia nesse movimento contínuo de aproximação e afastamento, tão caro ao seu autor – manifesto na sua capacidade de fazer uma rima como “cause now I see women as something to nurture not something to conquer, I hope she like Nicki I’ll make her a monster” em uma letra que basicamente expõe sua preocupação caso sua filha torne-se tão desejada quanto a mãe.

Muito se falou sobre o álbum ser caótico e tratar de instabilidade emocional como uma manifestação do recém descoberto transtorno bipolar do rapper. Mas Kanye expõe tanto essa questão – está na capa do álbum e em “Yikes” quando chama o transtorno de “my superpower” – que fica difícil enxergar esses momentos como a expressão de uma condição. Se há uma uma chave para a apreciação de Kanye West, esta passa longe de ser a busca pela “autenticidade autoral”. Kanye faz da bipolaridade algo cool, algo rimável, e é por essa capacidade construtora de narrativas que devemos admirá-lo – e beira o ridículo as leituras que enxergam o álbum como o símbolo de “um artista em confronto com uma doença mental”.

Como fica claro logo no título, em The Life of Pablo o rapper estava às voltas com a vida de um outro, exposta em 20 faixas esteticamente bem diferentes uma das outras e sem qualquer coesão de estilo rítmico entre elas; neste lançamento, o título é seu apelido, só em minúsculas, com apenas 7 faixas. Kanye não só decide olhar para sim mesmo como abrandar os sentimentos megalomaníacos anteriores, e com isso voltam os samples de uma base mais soul, os quais ele consegue encontrar e utilizar como ninguém. Abre espaço também para um certo “emo rap” com a novata 070 Shake, cujas repetidas aparições logo trazem à mente os featurings de Bon Iver em My Beautiful Dark Twisted Fantasy. É com ela que aparece um dos versos que soa essencial para entender o caminho que o autor traça nesse seu oitavo disco, presente na ótima “Ghost Town”:

I put my hand on a stove to see if I still bleed
And nothing hurts anymore, I feel kinda free

Ao voltarmos à faixa de abertura “I Thought About Killing You”, encontramos Kanye convocando às pessoas a dizerem seus pensamentos em alto e bom som só para ver como se sentem, reforçando a sua falta de filiação a qualquer ideologia ou linha de pensamento específica. Sempre que esses casos de escracho social-virtual ocorrem, é curioso como as pessoas dificilmente percebem como projetamos nossas opiniões e esperanças em celebridades milionárias. Pior, as faz pessoalizarem uma obra, já previamente rejeitando e, como no caso, perdendo a chance de entrar em contato com a capacidade de criação de um dos maiores músicos do nosso tempo.

OUÇA: “I Thought About Killing You”, “Wouldn’t Leave” e “Ghost Town”.

Dizzee Rascal – Raskit


Quatro anos após Fifth, o celebrado Dizzee Rascal nos agracia com Raskit, mais um álbum sólido que prova porque o rapper é um dos melhores do Reino Unido e que demonstra suas incursões para além do território seguro do grime. Contando com produtores britânicos e estadunidenses, Raskit é um misto de grime, trap, boombap e o que há de mais atual no rap norte-americano, e Rascal consegue fazer um bom trabalho em ambos os campos, embora brilhe com maior força nas faixas mais grime.

Faixas como “Wot U Gonna Do?”, “Space” e “Make It Last” são exemplos notáveis da sonoridade grime por meio da qual Dizzee se tornou conhecido – um som sombrio, cheio de sintetizadores, bass synths e com batidas pesadas. O flow de Rascal é dinâmico e acelerado, com rimas inteligentes, cheias de humor, honestidade e sarcasmo. Podemos ver com clareza que Dizzee domina com maestria a construção das rimas – cheio de aliterações, jogos de palavras e punchlines – e seu sotaque meio britânico meio jamaicano meio africano (provavelmente ganês) tornam a experiência auditiva ainda mais interessante, embora seja possível dizer que o som de Rascal não apele para todos os públicos.

Por outro lado, faixas como “She Knows What She Wants”, “Slow Your Roll”, “Way I Am” e “Man Of The Hour” mostram uma sonoridade mais mainstream, mais americanizada, mais ensolarada e muito mais radio friendly que a parcela grime do álbum. Percebemos nessas faixas uma aproximação ao trap mais convencional encontrado em artistas como Drake, Big Sean e Future, e as faixas passam a ter refrões (ou hooks) cantados, um uso decente do auto-tune e um som em geral mais acessível e capaz de apelar para um público diferenciado.

As faixas tratam de diversos assuntos e é possível ver que Dizzee sabe muito bem comentar sobre o estado geral da sociedade e também sabe falar de si mesmo. Em “Focus” vemos, por exemplo, que Dizzee fala de si mesmo e nos chama ao auto-conhecimento (“What’s the point if I can’t be me?”), apesar de mencionar o Brexit na última parte da música. Em “Make It Last”, Dizzee lembra do passado e dos primeiros anos da cena grime, embora as memórias não sejam tão agradáveis como se poderia antecipar. Outras faixas são reflexões sobre fama, vida, carreira e como as coisas mudaram nos últimos 20 anos.

Raskit pode não ser um álbum tão acessível e pode se provar cansativo por vezes, mas é um trabalho que tecnicamente não perde para os últimos trabalhos lançados por Dizzee Rascal e podem ser uma boa introdução ao grime.

OUÇA: “Wot U Gonna Do?”, “Way I Am” e “Space”

Rincon Sapiência – Galanga Livre

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Rincon Sapiência já era um nome conhecido da cena do rap. Um daqueles que ninguém duvidava do talento, e que era colocado com frequência no hall de Mc’s mais notáveis do Brasil. No entanto, Rincon ainda não possuía um disco que ganhasse atenção da mídia, um disco capaz de passar uma mensagem e ser uma marca na história. O Galanga Livre aparece agora – em um ótimo momento do rap nacional – para ocupar esse lugar que faltava na longa trajetória do rapper.

Talvez o Galanga Livre seja o disco de rap mais esperado e comentado em terras brasileiras até o momento. A ansiedade pelo trabalho completo tem relação direta com a prévia dele, o lançamento do single “Ponta de Lança (Verso Livre)”, em dezembro de 2016. Em “Ponta de Lança (Verso Livre)”, Rincon leva o público a uma catarse, onde letra, batida e clipe foram feitos um para o outro, uma música contagiante a ponto de fazer o ouvinte mais rígido querer dançar. Esse single explodiu, teve forte repercussão nas mídias e presença confirmada na playlist das festas. O acerto do single se repetiu no álbum, Rincon fez um rap que não emociona apenas os fãs do gênero, mas se projeta para além das linhas que separa o rap dos demais estilos. Esse rap que não se comunica apenas com um grupo, mas mira seus autofalante para fora, alcança consequentemente mais pessoas. Com tantas notas e resenhas já feitas sobre ele, o que motiva esse texto a continuar sendo escrito é poder engrossar o coro dos elogios.

As letras das canções e a capacidade de articulação que Rincon tem com as palavras é algo a se chamar atenção. Seja em sacadas sobre a política contemporânea (“Batemos tambores, eles panela”), sobre amores não correspondidos (“Mas ela tomou um fora que marcou que nem macha de amora”) ou ainda sobre classe social, em que se compara a situação de pobreza com a do passarinho que constrói a própria casa com barro (“Sem energia, casa de taipa, melhor estilo joão de barro”). Ainda que a letra seja um elemento formador do rap, cabe ressaltar a leveza, o humor e a perspicácia com que Rincon realiza esse trabalho.

Mesmo que, de modo geral, trate de temas densos como a pobreza e o racismo, Rincon consegue apresentar um disco solar. Um dos motivos para que isso aconteça é o posicionamento otimista do Mc com a realidade. Em entrevista à Noisey, afirmou que hoje os negros poderiam se “sentir um pouco mais livres” a ponto de conseguirem se ver como heróis. A temática racial aparece no disco enquanto denúncia de um passado escravagista, como indica a referência que dá nome ao álbum, e também enquanto militância, para que o debate seja ampliado e atualizado. Rincon afirma a importância de se escrever uma nova história e de se transformar o presente. Uma das sugestões é resignificar aquele ditado, pois, “se eu te falar que a coisa tá preta, a coisa tá boa, pode acreditar”.

Não poderia deixar de mencionar ainda duas passagens do Galanga Livre, que me saltam aos olhos (ou aos ouvidos) por motivos extremamente pessoais e pouco objetivos. Com muita sensibilidade ao narrar aquela que é a rotina de muitos, em “A Volta Pra Casa” temos a descrição do trajeto entre casa, trabalho e faculdade. O transporte público, o trânsito e a insegurança das ruas para as mulheres são temas intrínsecos a esse trajeto e representados por Rincon com aquela sapiência já mencionada de suas palavras. O segundo ponto se refere à faixa “Moça Namoradeira”, onde o tradicional ganha ares modernos: uma ciranda é sampleada. A canção que dá origem ao sample é interpretada por Lia do Itamaracá, uma das grandes cirandeiras, que hoje tem mais de 70 anos. Trajetos de ônibus e ritmos pernambucanos são pontos que moveram meus afetos com o Galanga Livre, quais moveram você? A identificação com a obra estreita nosso vínculo com ela. Assim como Rincon precisava desse disco em sua carreira, nós ouvintes precisávamos dele em nosso acervo. Todos nós ganhamos.

OUÇA: “Moça Namoradeira”, “A Coisa Tá Preta” e “A Volta Pra Casa”. (Estou considerando que você já deve saber de cor “Ponta de Lança”).

Drake – VIEWS

DRAKE

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Views – quarto álbum de estúdio de Aubrey “Drake” Graham – foi, durante um bom tempo, um tipo de lenda urbana. Uma especulação bem construída que, aos poucos, em seu próprio ritmo, foi se tornando realidade. Menos de um ano após Nothing Was The Same (2013) ser lançado, rumores de um novo álbum começaram a incandescer. E então vieram as colaborações, as faixas vazadas, as mixtapes… Tudo, menos VIEWS. Depois de três anos de boatos, promessas e hype, o novo álbum do 6 God está entre nós. Afinal, a espera valeu a pena?

Sim… e não.

Por um lado, o rapper aparenta ter se preocupado em refinar sua obra. Tentando aprender com os erros e acertos dos outros álbuns, algumas músicas construídas lembram em muito a trabalhos anteriores, só que mais concisas. Infelizmente, algumas outras faixas são facilmente ignoráveis ou “puláveis”. Certas músicas parecem incompletas, mas não por falta de mixagem ou produção; os versos são curtos, e aquelas acabam de maneira repentina, sem conclusão lírica.

Mas o principal problema do álbum é que Drake se prendeu a uma fórmula. Não me leve a mal: a produção do Views é excelente (com destaque às criações de 40, braço direito do rapper, e de Nineteen85, a cabeça por trás de “Hotline Bling”), com praticamente todas as músicas contendo uma batida digna de vários emojis de fogo. Mesmo assim, elas apresentam uma sonoridade semelhante, e, junto aos versos muitas vezes lentos e suaves, o álbum acaba se tornando tedioso logo no início. Quando ele ocasionalmente entra em seus picos de qualidade, você já está cansado (a extensa duração de 81 minutos não colabora). Somente após diversas ouvidas fica mais fácil reconhecer e apreciar faixa a faixa individualmente, cada uma com seu devido mérito (e perceber como a voz melódica do Drake se encaixa de maneira perfeita em certos ritmos, diga-se de passagem).

Tematicamente, encontramos um Drake em seu estado mais Drake possível: solitário, agressivo, honesto e, mesmo assim, bem humorado (sim, ele cita memes durante o álbum). Versos como “This year for Christmas I just want apologies” (“Redemption”) e “Why you gotta fight with me at Cheesecake/You know I love to go there” (“Childs Play”) são exemplos claros da capacidade do canadense de escrever letras ultra sentimentais, mas que beiram ao cômico. Além disso, é sempre bom ouvir um rapper que não se utiliza casualmente de letras misóginas (se não me engano, o termo “bitch” é usado algumas poucas vezes durante o álbum, e todas são em samples).

No fim do dia, VIEWS é um bom disco; só que ele vai ser mais facilmente reconhecido como tal pelos fãs antigos do rapper. Mesmo que Drake não tenha explorado novos estilos tanto quanto em outros registros (só os maravilhosos flertes com batidas africanas e rappers jamaicanos, basicamente), VIEWS se consolida como uma tentativa sincera de reconstruir Toronto vista pelos olhos de Aubrey: enorme, solitária, nebulosa e, principalmente, dele.

OUÇA: “Feel No Ways”, “Hype”, “One Dance”, “Childs Play” e “Too Good”.

Twenty One Pilots – Blurryface

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Dois álbum independentes e um “debut” sensacional pela Fueled by Ramen depois, o Twenty One Pilots está de volta com força, vontade, e repúdio às grandes gravadoras e emissoras de rádio. Os mesmos temas ainda estão aqui, mas com uma nova cara e novos sons. Mas vamos por partes…

Vessel foi um “debut” (entre aspas pois, tecnicamente, é o terceiro álbum, mas foi o primeiro lançado pela Fueled by Ramen) sensacional. Lembro que os conheci ouvindo “Car Radio”, a história angustiada de um jovem que teve o som do seu carro roubado e agora tem que lidar com os próprios pensamentos sentado, sozinho, no silêncio. Logo de cara vi que o Twenty One Pilots não era uma banda qualquer. As letras são todas muito bem escritas e a estética sonora deles é extremamente variada (mas mais sobre isso daqui a pouco).

Blurryface vem na trilha do Vessel, e faz jus. Agora com muitos fãs, shows maiores e o olho da crítica sempre em cima, o Twenty One Pilots precisava continuar com o som livre de amarras do outro álbum, mas sem ir longe demais e levar um esculacho da mídia especializada. E sim, eles conseguiram. O rap, sempre presente, vem mais focado dessa vez. Elementos de reggae, drum & bass, trap, pop, hip-hop e rock se unem para criar uma identidade sonora inconfundível.

A fórmula das músicas às vezes se repete e isso pode parecer maçante, mas a variedade de sons e as letras muito bem concebidas por Tyler deixam tudo novo e colorido, mesmo os temas sendo bem melancólicos às vezes. ‘My name is Blurryface and I care what you think’, diz Tyler Joseph em “Stressed Out”. E esse é um tema recorrente durante o álbum: eu me importo com o que você pensa. O Twenty One Pilots sempre se importa com o que você pensa, com o que você sente, se está tudo bem. Às vezes é o que os críticos pensam. Às vezes é o que as rádios pensam. Temos canções de amor (“Tear In My Heart”) onde ele sutilmente alfineta a música pop (‘The songs on the radio are OK, but my taste in music is your face’) e temos canções diretamente influenciadas pelo trap-hop (o hip-hop atual com elementos de um dos estilos de bass music mais populares, o trap [vide “Dark Horse”, da Katy Perry]) como “Doubt”. Em “Lane Boy” ouvimos ‘Honest, there are a few songs on this record that feel common, I’m in constant confrontation with what I want and what is poppin”. Fica chato? Talvez. Depende do que você gosta, claro. Mas isso serve para qualquer álbum, não é mesmo?

Blurryface vem para adicionar ao catálogo de músicas dos garotos de Ohio. E, mesmo não sendo melhor que o Vessel, o faz em grande estilo, com ótimas músicas que são ao mesmo tempo profundas e fáceis de ouvir. É uma banda jovem, para gente jovem, mas que ataca assuntos que as outras bandas costumam evitar. Vida longa ao Twenty One Pilots e que venha o próximo álbum.

OUÇA: “Heavydirtysoul”, “Tear In My Heart” e “Fairly Local”

Tyler, the Creator – Cherry Bomb

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O ano de 2015 representa um novo e especialmente importante capítulo na vida do músico, produtor, diretor, designer, empresário e o que mais Tyler, the Creator venha a ser. Nos negócios, ele acaba de lançar o Golf Media, um aplicativo que oferece acesso ao seu cérebro sem restrições, com informações e conteúdo multimídia exclusivo – entre entrevistas, artigos e vídeos, há também uma revista a caminho. Na música, Cherry Bomb. O quarto álbum da carreira, o primeiro após a trilogia Bastard/Goblin/Wolf, é o resultado do trabalho de um artista com absoluta liberdade criativa, satisfeito e confortável consigo, e cujos únicos recursos são as próprias inspirações e habilidades. Uma obra orgânica, autêntica – e, finalmente, feliz.

Já em “Deathcamp”, a N.E.R.D.-ish faixa que abre o disco, Tyler deixa claro que sua grande influência é Pharrell Williams. Seja indiretamente através da produção ou comparando, na letra, o trabalho dele a um clássico noventista do hip hop – ‘In search of… did more for me than illmatic’. Da mesma fonte de inspiração também há “Keep Da O’s” (da qual o próprio Pharrell faz parte) e “Fucking Young/Perfect”, que com a participação de Kali Uchis é o ponto alto de todo o disco. As parcerias são, definitivamente, um dos trunfos de disco. Isso porque não apenas dois dos maiores nomes do rap na última década aparecem numa mesma música, mas com performance memoráveis. Há quando tempo não ouvíamos versos tão bons provindos de Weezy e Ye como os de “Smuckers”?!

Há quem insista em definir Tyler apenas como um jovem inconsequente, um artista imaturo e/ou mais um rapper que não se importa de repetir “nigga” e “faggot” o quanto for possível. Em casos extremos ele também é considerado uma ameaça nacional – como quando foi proibido pelo governo da Nova Zelândia de pisar no país, ano passado. O que nem todos se deram conta foi como em oito anos de carreira Tyler se tornou, para um público que cresceu de forma exponencial, um líder. O símbolo de que é possível transformar o sonho em realidade, de que é possível criar o próprio futuro. Ignorar isso é subestimar a influência positiva de Tyler na vida de milhões de jovens.

Assim, “Find Your Wings” é provavelmente a faixa mais significativa de Cherry Bomb. A canção que, segundo o próprio, é inspirada nas “pessoas que têm medo de fazer o que querem e medo de serem elas mesmas” resume a mensagem por trás de tudo o que o Tyler fez até hoje. Alguém que aos quinze desenhou um donut num pedaço de papel e mais tarde viu o rascunho transformado em um império criativo. Alguém que aos vinte e poucos é capaz de reunir Pharrell Williams, Lil’ Wayne e Kanye West em um mesmo disco.

OUÇA: “Deathcamp”, “Find Your Wings”, “Fucking Young” e “Smuckers”

Drake – If You’re Reading This It’s Too Late

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‘If I die, all I know is I’m a motherfucking legend’

Canadense de 28 anos com algumas várias mixtapes na bagagem e um punhado de histórias sobre as ruas de Toronto. Entre aventuras e ambições, Drake se reestrutura como rapper e diversifica um trabalho que vai além do que nos foi proposto por ele em Take Care e Nothing Was The Same. If You’re Reading This It’s To Late é o rapper em sua melhor fase nos apresentando o que talvez seja sua masterpiece até então.

Dessa vez o ambiente que Drake nos mostra em seu quarto disco traz uma perspectiva bem mais minimalista do que nos discos anteriores. O rapper se mostra intenso liricamente e direto em versos que se equilibram perfeitamente as irresistíveis batidas pesadas, que em faixas como “Know Yourself” e “Legend” são bem perceptíveis. Repleto de entusiasmo, Drizzy soa acima de tudo dono de seu caminho, mostrando uma versão de si mesmo que transcende uma significativa mudança a sua identidade como rapper. Um trabalho extremamente bem estruturado, que em sua totalidade de uma hora e oito minutos apresenta a vitalidade necessária para nos manter atentos a cada composição.

Confortável em sua verdade e sua postura, o canadense imerge em sua criatividade bem como sua capacidade como músico para finalmente nos presentear com sua nova fase, desenhando de forma ímpar o que um dia os fãs esperavam ansiosamente: autenticidade. Com um roteiro que não lembra em nada o melancólico Nothing Was The Same, o atual registro é caótico na quantidade de graves que nos fazem estremecer ao intimista, entretanto pesado clima que nos é oferecido. É impossível não se sentir cativado ao disparar de faixas como “Used To” e “6 God”. Ainda que não tão boa quanto suas sucessoras, “Preach” parece dar continuidade ao trabalho feito no disco Take Care, e com momentos interessantes quebra o ritmo do álbum para um instante mais dançante.

Com uma carreira com muitas polêmicas e piadas sobre seu lado sensível, Drake finalmente se encontra nessa dualidade e na sua nova versão faz destas dificuldades o seu altar. Antes muito preocupado com o que poderia vir a ser seu grande momento, agora se mantém inspirado a retornar de maneira libertadora e atingir de maneira diferente suas expectativas sobre sua estrada. É essa alternância de parâmetros e pensamentos que colidem e faculta instantaneamente o resultado da obra.

A grande virada do músico reproduz atentamente as preocupações sobre sua família assim como também os prazeres e vantagens do meio em que vive e, apesar de mexer com temas que já são de praxe de qualquer rapper no passado e na atualidade, o encaixe que se estabelece entre seus versos e arranjos muito bem elaborados é de fato singular. Seja chamado pelo seu nome de batismo Aubrey Drake Graham ou seu nome artístico, Drake impressiona e estabelece finalmente sua plenitude como artista. E o saldo? Nunca é tarde demais para ouvir.

OUÇA: “Know Yourself”, “Legend”, “Used To” e “6 God”

Only Real – Jerk At The End Of The Line

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Sob uma entoada certeira de ‘You gotta twist it up’ é que o Only Real estreia e se apresenta ao mundo fonográfico de forma plena. Antes tendo lançado só um EP, em 2013, que foi o suficiente para chamar uma certa atenção para o rapper londrino com o fantástico single “Get It On”, Niall Gavin agora lança seu primeiro álbum do projeto Only Real. Jerk At The End Of The Line é, sem dúvida, a pontinha mais do que garantida de diversão que você precisava no rap atual.

Gavin consegue refletir perfeitamente sua vibe peculiarmente picareta de ser na forma que faz as músicas. Dá pra perceber que ele leva tudo numa brincadeira sadia e interessante, fazendo inserções de onomatopeias e samples engraçadões e modificando sua voz aqui e acolá para encaixar-se de maneira exemplar nas letras que, ao contrário do que faz o rap atual e antigo, apontam os dedos críticos para si mesmo.

Afinal, também pudera, Gavin faz essa música para se divertir, com letras leves, fáceis, cotidianas, doces… e não tem porque remar no mesmo barco que o rap Americano: Gavin é o típico pouco-mais-que-adolescente britânico, criado sem muitos pesares, branco e não tem muito do que reclamar que nem vemos nas letras ásperas e necessárias de Kendrick Lamar, Frank Ocean, Earl Sweatshirt e outros insurgentes da cena que ficam do outro lado do oceano.

Fica até estranho inserir Only Real nessa mesma levada que faz críticas necessárias à sociedade em seus álbuns, talvez o rapaz britânico esteja mais perto de seu conterrâneo King Krule do que todo o resto do barco. Um nicho dentro de outro. Mas tudo bem, isso não faz de Niall menos completo e complexo do que os outros que talvez sejam suas influências diretas e o inspirem bastante. Para mim Only Real consegue fazer em Jerk At The End Of The Line uma batida interessante misturada com uma personalidade bastante forte.

Em um processo de uso constante das mesmas técnicas ele insere samples, coloca voz em cima de voz, cria batidas leves que culminam em refrões poderosos [vide “Yesterdays” e “Break It Off”, por exemplo], faz versinho, abusa da voz numa versatilidade tremenda e se reinventa com batidas únicas dentro de seu universo constante. Escrito aqui isso pode soar repetitivo, mas não é nem de longe cansativo. Only Real consegue levar o seu debut de maneira leve, coerente e eficaz do começo ao fim – algo que não aparece muito fácil em discos do gênero.

Jerk At The End Of The Line com certeza mostrou ao público um Niall preparado para as duras comparações. É um rap pra branco ver, sem críticas sociais, sem histórias de pobreza, sem casos de abuso policial ou político. É um rap divertido e simples, mas que não deixa de ser genuíno e eficaz em seu propósito: divertir.

OUÇA: “Can’t Get Happy”, “Yesterdays”, “Blood Carpet” e “Daisychained”

Death Grips – Jenny Death

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Jenny Death é o disco dois do quarto álbum The Powers That B do trio experimental de Sacramento, Death Grips. O primeiro disco do álbum duplo intulado Niggas On The Moon foi em seu interim performado num único kit de bateria Roland. Também se ouvem samples da moça Björk em tudo quanto é faixa.

Se dois álbuns mais fossem lançados conforme No Love Deep Web e Money Store, respectivos segundo e terceiro álbuns da banda de Sacramento, estética uma estaria firmada, consagrada. O movimento seria movimento duma banda só e o grande público cairia nas ganas (garras) de Death Grips.

Mas, e tão triste mas, por falta de consciência de seu tempo, quem sabe, da compreensão de sua própria época, ou pouca resiliência do ego, ou por preguiça, Death Grips abandonou o que lhe soou fama. A experimentação continuou e se perdeu no que toda experimentação eventualmente se perde, por estar fadada a conter premissa desanimadora, de tiro curto: é só experimental.

Antiheróis, esses caras fodem Los Angeles por dentro. Não importa. São melhores que você. São. São subversão. Inversão. O que MC Ride tinha de nada em Fashion Week, surtado em Government Plates e de vencido em Niggas On The Moon, tem agora de nu aqui. De grosseiro e brutal venusto. Coração do grupo palpita desesperado, taquicardia celestial atormentada. Atrofiado ouvido.

Ouvi d’alguém que esse disco tem rock. Pode ter, mas tem de cabeça pra baixo, reconstruído (não desconstruído), mas sim, a fazer barulhos como ícones, ouça “Centuries Of Damn”, porra.

“On GP”, faixa nove, soa triste, soa adultice de Exmilitary, o debut. Guitarras circulares, finalmente diatônicas, quase elitista, um orgão de tubos soa. Soa triste pra porra. Apocalipse, será esse triste? Será que é Robert Pattinson quem tá tocando essa guitarra? De novo?

Numa hora ele diz assim, ‘I like my iPod more than fucking!’, cê gosta? Nem vou falar de música. Música diz música no início, depois é ego. E ego é o que esparrama em Death Grips.

OUÇA: “Inanimate Sensation”, “Centuries Of Damn” e “On GP”

Kendrick Lamar – To Pimp A Butterfly

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Apontado instantaneamente como clássico, Kendrick Lamar fez do terceiro álbum da carreira uma das mais ambiciosas obras da música contemporânea. Do título, à simbologia da capa, até “Mortal Man”, faixa que evoca Tupac e fecha o disco, To Pimp A Butterfly soa como uma odisseia – lírica e sonora. Liberado mais de uma semana antes do previsto, sequer a confusão da gravadora impediu que o disco se tornasse o primeiro número um da carreira do rapper, e ouvido 9,6 milhões de vezes nas primeiras 24 horas de lançamento, fizesse história na era dos streamings.

Por mais que o tom crítico, o conteúdo político-social, auto-consciente, e indiscriminadamente negro já seja esperado em qualquer trabalho de Kendrick, o sample  de “Every Nigger Is A Star” do jamaicano Boris Gardiner, nos primeiros segundos de “Wesley’s Theory”, não falha em impactar. Do tipo que logo após dar play pela primeira vez temos que parar, respirar fundo e só aí seguir a diante. Essa faixa, além de contar com as participações de George Clinton e Dr. Dre, introduz dois elementos essenciais cuja influência ecoa por toda obra: o experimentalismo multi-gênero de Flying Lotus e a expertise em jazz de Thundercat. Aqui também somos apresentados aos primeiros versos do poema que costura o disco – a metáfora da lagarta que rompe o casulo e se transforma em borboleta serve de alegoria para a história do jovem negro, nascido em Compton, que se viu com o dever de dar voz a uma raça e percebeu que a única forma genuína de fazer isso era encarando a realidade com lucidez.

Dos singles lançados anteriores ao álbum, To Pimp A Butterfly acabou se revelando muito mais próximo a “The Blacker The Berry” que “i”. Enquanto o segundo, vencedor de dois Grammys, celebra a existência e irradia positividade, o primeiro tem tom confrontativo e traz um polêmico plot twist nas últimas linhas. Quando Kendrick parecia ter passado os quatro minutos e meio da canção se referindo a conturbada relação entre a polícia e os negros americanos – ‘So why did I weep when Trayvon Martin was in the street?/When gang banging make me kill a nigga blacker than me?/Hypocrite!’- ele estava também, na verdade, questionando a conduta da comunidade negra ao exigir respeito de fora enquanto o mesmo não é cultivado internamente. Além de discriminação social e violência, vitimismo e falso moralismo também estão na pauta de K-Dot.

Segundo o conceito do disco, quando um artista faz sucesso e “quebra o casulo”, sua jornada como borboleta começa, cabe a ele continuar sendo verdadeiro a si mesmo, aos seus valores e ao lugar de onde veio. Em “u”, Kendrick reflete sua relação com a fama e o sucesso, e conclui que apesar de ocupar uma posição influente não estaria fazendo o uso correto de seu poder – para alguém cujo trabalho é considerado um potencial catalisador para a mudança social, esse só pode ser o mais grave dos erros. Imersa em auto-depreciação, “u” se contrapõe a “i”, e é o ponto mais obscuro do disco. Na luta contra a “institucionalização”, Lamar expõe suas batalhas externas e internas, enfrenta a depressão e a insegurança. Mas ele reascende. No poema que se revela por completo em “Mortal Man”, Kendrick afirma ter encontrado as respostas que procurava quando finalmente voltou para casa. Não Compton, e sim a África. A viagem ao continente mudou a perspectiva do rapper – ‘A war that was based on apartheid and discrimination/Made me wanna go back to the city and tell the homies what I learned/The word was respect/Just because you wore a different gang colour than mine’s/Doesn’t mean I can’t respect you as a black man’.

Assim, condensando uma variedade de gêneros essencialmente negros e rejeitando qualquer tendência em voga no mainstream, expondo o quão pop o hip hop de Good Kid, m.A.A.d. City era, e nos lembrando, em “King Kunta”, que rappers adeptos de ghostwriters não devem ser levados a sério, Kendrick fez um álbum propositalmente desconfortável. Suas transições abruptas e seu espírito free jazz podem tornar a experiência exaustante para o ouvinte médio – mas o fato curioso é que nada disso impediu o sucesso comercial. É um álbum denso, mas acessível, capaz de conectar com a audiência, capaz de transmitir uma mensagem, capaz de – e aqui reside a genialidade de Kendrick Lamar – transformar.

OUÇA: O álbum inteiro sem interrupções.