Iceage – Beyondless


De acordo com o dicionário Merrian-Webster, a palavra beyond significa “no ou para o lado mais distante”, que se fosse ser resumido em um conceito mais claro em português, seria o advérbio além. Junte-o ao sufixo “less”, que é usado para definir a ausência de algo, e temos Beyondless, ou “ausência de além”. Ou seja: algo que não tem mais para onde progredir, um indivíduo ou objeto que chega ao seu fim por não encontrar campo para onde avançar. E é assim que o quarteto dinamarquês de punk Iceage escolheu batizar seu quarto disco de estúdio. Felizmente, porém, o Iceage mente.

Estendendo-se por 41 minutos divididos em dez faixas, Beyondless é uma mistura de post-punk e art punk que apresenta uma variedade de influências extremamente curiosa (e promissora) em algumas faixas e solidez competente na maioria delas para mostrar que, contrário ao nome do disco, existe muito além para onde o Iceage pode levar sua música no futuro. Completada a audição do disco inteiro, a impressão é de que os melhores momentos da banda se revelam quando ela vai além do que as convenções dos principais gêneros dela propõem e experimenta com sonoridades que dificilmente se veriam presentes num disco de punk.

Talvez a primeira impressão não seja essa, com a faixa de abertura, “Hurrah”, sendo uma das menos criativas e interessantes do disco. Apesar de não ser uma música ruim, não existe nada nela que chame a atenção do ouvinte. Curiosamente, levando em conta o que vem depois, isso pode ser até uma ironia intencional da banda.

A busca além do disco começa na segunda faixa, “Pain Killer”, que foi lançada como primeiro single de divulgação do álbum e que contou com a surpreendente e bastante positiva participação de Sky Ferreira. A faixa, apesar de manter os principais elementos da estética do Iceage, como o baixo protagonista e a bateria envolvente, faz bom uso da voz de Ferreira para dar cor à música. O melhor ainda está por vir, com a terceira faixa “Under The Sun”, fortemente influenciada por Brian Jonestown Massacre em sua sonoridade, com os vocais de Elias Bender Rønnenfelt até soando semelhantes aos de Andrew Newcombe do BJM. A variação de tempos entre a bateria e o violão é outro dos pontos altos da faixa, uma das melhores do disco.

Enquanto outras faixas transitam entre o noise, o post-punk e o garage rock, os grandes destaques ficam nas influências mais inusitadas, como a sétima faixa, “Thieves Like Us”, que tem uma influência de folk e uma estética que lembra as trilhas tocadas em western spaghettis. O uso de pianos e a performance vocal bem humorada completam a música. Paralelo a ela fica a nona faixa, “Showtime”, que apresenta uma forte influência dos swings de rádio americanos do começo do século XX, fazendo jus ao nome. A presença do trombone na música além de aprofundar mais a referência, é o que confere as texturas mais interessantes da melodia.

A escolha do Iceage por adicionar ainda outros instrumentos ao disco, como trompete e violinos, permite que a banda se aventure por novos horizontes enquanto baixo e bateria trabalham para manter a identidade da banda ligada ao punk e post-punk. Em alguns momentos soando próxima de The Horrors e Black Rebel Motorcycle Club, a banda também explora bem mudanças de andamento desdobrando um conjunto de referências variadas e curiosa.

É claro que existem pontos fracos no disco, apesar da grata surpresa. Em vários momentos na faixa, o instrumental básico dela se mostra pouco criativo e até certo ponto sem energia, principalmente na faixa de abertura, e nas faixas “The Day The Music Dies” e “Take It All” que, enquanto não são ruins, passam sem deixar alguma impressão no ouvinte. Ao fim da audição a sensação é de que o Iceage teria a capacidade de fazer um disco ainda melhor se abandonasse mais as suas convenções de gênero e experimentasse com outros instrumentos, efeitos e andamentos. Sempre vai existir um além a ser explorado.

OUÇA: “Pain Killer”, “Under The Sun”, “Plead The Fifth”, “Catch It”, “Thieves Like Us”, “Showtime” e “Beyondless”

The Men – Drift


Em corridas de média e longa distância existe um elemento essencial à vitória que nem sempre é mencionado com a importância devida: a consistência. De nada interessa a um corredor de maratona ser o mais rápido ou o mais ágil. No final, um fundista que não mantém consistentemente o desempenho não completa a prova.  Começar algo, afinal, é muito fácil do que mantê-lo.

Essa é a primeira sensação que é despertada quando Drift, novo disco do The Men, chega ao fim. Sétimo disco de estúdio do quarteto nova-iorquino de punk/post-punk, Drift se assemelha a um corredor de cem metros rasos em uma corrida de quarenta e dois quilômetros: é dada a largada e, depois de um trio de faixas que compõem possivelmente uma das melhores aberturas de disco de 2018 (pelo menos entre bandas de rock), o impulso se perde em passagens fracas e pouco criativas até acabar numa nota decepcionante.

Se fosse um carro, Drift, ironicamente, seria um dragster.

Depois do tiro de largada, em que a banda joga toda a sua mão, revelando um leque de influências variado e profundamente instigante, no restante do álbum as faixas vão pouco a pouco perdendo fôlego e se deixando ultrapassar, até finalmente cruzar a linha de chegada em um arrastamento melancólico.

Seja na mistura de baixo robusto e bateria sólida de post-punk com uma batida eletrônica, que emolduram os metais dissonantes e o vocal teatral da faixa de abertura, “Maybe I’m Crazy”, ou na sincera influência de jazz, com o baixo melódico e a guitarra aguda e melancólica da música seguinte, “When I Held You In my Arms”, a banda parece desesperada por tomar a frente e se colocar na dianteira, ainda que não consiga manter o ritmo depois. O apogeu do disco chega na terceira faixa “Secret Light”, que abre com uma percussão quase selvagem logo acrescida de um piano que ao mesmo tempo traz à lembrança o instrumental de bebops e cria um senso de pressa na música. Os vocais sussurados, quase em segundo plano, somados ao baixo e a instrumentos de sopro, dão personalidade à faixa, de longe o ápice criativo do disco.

Depois da terceira faixa, a banda perde intensidade, com cada música seguinte sendo quase uma analogia ao corredor que dispara na frente e depois vai se vendo perder posições, adversário depois de adversário, sem ter mais forças para tentar se manter na dianteira. Passando pelo folk pouco criativo de “Rose On Top Of The World” e “So High”, para o hard rock genérico e monótono de “I Killed Someone”, o que parece predominar no álbum é uma série de músicas que estão ali com o único propósito de preencher o disco.

“Sleep”, a sétima faixa, se torna o último impulso de um corredor já não tem mais esperanças de vencer mas ainda quer provar para si mesmo que é capaz de encerrar a prova com força. Voltando à influência de blues e folk, a composição simples, apenas com violão e gaita, criam uma atmosfera espectral, que envolve o ouvinte e quase conjura as imagens de um deserto de terra vermelha e um cavaleiro assombrado e solitário. A aura fantasmagórica mostra a competência da banda em criar uma atmosfera.

É irônico que logo em seguida entre a teatralidade preopotente e exagerada de “Final Prayer”, com elementos pesados e repetitivos que parecem ansiosos em criar a sensação de um clímax assombroso e sufocante, mas que deixam a impressão de uma banda que se levou a sério demais.  A última faixa, “Come To Me” mal parece merecer ser mencionada a não ser como uma versão mais preguiçosa e repetida de “Sleep”.

Ao fim e ao cabo, Drift tem o sabor agridoce de uma derrota que parecia vitória. O disco apresenta, ao longo de suas quatro melhores faixas, as influências e a inventividade para criar um trabalho explosivo e tridimensional, mas essa energia é pouco a pouco perdida a cada composição repetitiva. No fim da audição, o sentimento é de que existe um potencial pra explorar e falta o fôlego. Não é a conclusão mais agradável, mas não existe solução numa corrida a não ser seguir adiante com mais força.

OUÇA: “Maybe I’m Crazy”,  “When I Held You in my Arms”,  “Secret Light” e “Sleep”

Slaves – Beautiful Death


Jonny Craig faz sempre o mesmo arquétipo de música. O trabalho junto ao Slaves difere em pouca coisa com o som que costumava fazer em sua passagem pelas bandas Emarosa e Dance Gavin Dance. Aliás, mais que isso: se todas as músicas dos três álbuns de seu grupo atual fossem embaralhadas, seria tarefa quase impossível organizá-las novamente em suas respectivas obras. Dito isso, é claro que o atual lançamento do trio californiano Slaves, Beautiful Death, constitui mais do mesmo: apenas mais uma reorganização de todas as ferramentas musicais que o grupo dispunha.

O álbum foi anunciado em agosto do ano passado e sua trajetória foi extremamente conturbada, marcada especialmente por problemas de saúde do frontman até controversas com o selo. Após ter seu lançamento adiado diversas vezes, finalmente o trabalho foi liberado em fevereiro deste ano. É difícil responder se a espera valeu a pena. Essencialmente, o post-hardcore aparece como uma vertente difícil de se reinventar. As fórmulas e protótipos bem-sucedidos são usufruídos sempre até a exaustão e não seria prudente dizer que isso constitui preguiça por parte dos artistas ou se, de fato, o gênero já deu o que tinha que dar. Apesar de incluir elementos provenientes do emo e até do metalcore, Slaves não entrega nada que já não tenha sido feito outros zilhões de vezes por bandas como Blessthefall, Emarosa, Escape the Fate e Silverstein, só para citar algumas proeminentes.

O ouvinte que parar por alguns instantes e prestar atenção às letras com certeza se mostrará incrédulo ao constatar que foram escritas por um homem de trinta anos. A primeira faixa, “I’d Rather See Your Star Explode”, empolgaria uma criança de doze anos: ‘I know you’ll write me off, I know you’re always gonna cut me out, you think I’m always gonna let you down. Just wait.‘. Em seguida, o eu-lírico demonstra toda a obviedade possível em “Patience Is The Virtue” ao constatar que cometeu erros e paciência é a chave para retomar o caminho e manter o foco no objetivo – seja lá o que isso signifique. Daí para frente é ladeira abaixo, culminando com a faixa final “The Pact”, em que Craig reflete sobre os erros e demônios do passado (de novo.)

A despeito de tais constatações desanimadores, vá lá, há sempre algo que possa ser aproveitado. Produzido por Erik Ron (Panic! at the Disco, Set it Off e Hands Like Houses) os vocais limpos e rasgados são excepcionais – característica que Craig sempre cultivou em sua trajetória pela música -, e os riffs de guitarra são cativantes, ainda que quase sempre limitados. A capa do álbum e os clipes também estão bem bonitos – ainda que Jonny esteja se esforçando para parecer com o biólogo brasileiro Richard Rasmussen. Nesse aspecto, ao menos, tem encontrado sucesso.

Beautiful Death é o melhor que Slaves entregou até o momento. Não seria um álbum ruim no início do século, quando o post-hardcore se estruturava da forma que conhecemos. Esse preceito, porém, foi passado para trás em tantos sentidos que nos parece, aos ouvintes, quase obsceno apostar novamente em tal modelo. Talvez a banda tenha realmente cavado sua própria cova para uma morte não tão bonita, com o perdão do trocadilho.

OUÇA: “I’d Rather See Your Star Explode”, “The Pact”, “Patience Is The Virtue”

Dream Wife – Dream Wife


Dream Wife é uma banda que há muito esperava, mas não sabia. Power trio de Brighton, hoje residente em Londres, é composto por Rakel Mjöll nos vocais, Alice Go nas guitarras e Bella Podpadec nos baixos. Três gurias de baita presença e atitude, que acabaram de lançar seu álbum de lançamento autointitulado, e ainda darão muito o que falar.

O álbum passa impressão de espontaneidade, de jam session, três amigas reunidas no estúdio, fazendo um som que gostam e transformando em música o que pensam e sentem.

Exemplo disso é a faixa “Somebody”, na qual o refrão “I’m not my body, I’m somebody” mostra para o que elas vieram. Outro grande momento é “F.U.U”, parceria com Fever Dream, que fecha o álbum da melhor forma possível: explosivamente.

O maior defeito do álbum – além de não terem colocado “Lolita”, música de seu primeiro EP, na tracklist final – é ser curto demais. Apenas 35 minutos de duração, algo bem característico do punk, com músicas rápidas e sagazes, dando gostinho de mais.

Se pudéssemos comparar, o som de Dream Wife estaria no meio caminho entre Yeah Yeah Yeahs e Deap Vally. Se pudéssemos rotular, acredito que a melhor definição seja punk pop. Músicas explosivas, melodias pegajosas e letras de grande impacto. Dream Wife é fórmula bem-feita. E esse debut será um grande cartão de visitas para a banda.

OUÇA: “Somebody”, “Hey Heartbreaker” e “F.U.U.”.

Bully – Losing


Crescer é laborioso. É um processo longo, difícil, cheio de altos e baixos (normalmente mais baixos) e que às vezes não compensa. Não me leve a mal, não estou dizendo que não devemos tentar amadurecer; muito pelo contrário: a sede de progresso é uma característica intrínseca a nós, mas que não é facilmente saciada. Não sei se os integrantes do Bully concordam minha opinião, mas eles com certeza são um bom exemplo para ilustrá-la.

Losing, o novo registro da banda, tinha muito potencial. Depois do debut Feels Like muito bem recebido, as expectativas pelo próximo álbum haviam se tornado grandes. A banda ter ido para a Sub Pop e lançado singles promissores só colaboraram ainda mais para o hype. Infelizmente, o que o disco traz de mais importante é uma demonstração do que o Bully pode ser, e não o que atualmente é.

Vamos concordar que é incrível a pretensão de Alicia Bognanno (vocalista e fundadora da banda): ela escreveu, produziu e canta em todas as faixas do álbum. Sua voz potente e estarrecedora que marcou Feels Like continua firme e forte em Losing, porém agora também mostra um lado mais calmo e contido. Além disso, seu lirismo brilha muito quando é íntimo, pessoal; em contrapartida, as letras com temas mais “universais” são um pouco clichês e simplistas demais. Mesmo assim, é quase impossível não ver (ou ouvir, no caso) que é ela quem carrega o disco nas costas.

O maior problema de Losing é sua redundância. Algumas faixas são intensas e contrastantes, porém muitas outras soam como mais do mesmo. Das diversas vezes que parei para ouvir o álbum, começava motivado (as primeiras músicas, principalmente “Feel The Same”, são ótimas), mas quase não notava seu fim. Perdendo momento, o som começa a virar ruído branco, e você muitas vezes fica sem saber quando uma música terminou e outra começou. Dói admitir isso porque, como disse e reitero, esse disco tinha potencial. As músicas que realmente se destacam dão uma pala de o que o registro poderia ter sido. Talvez se fosse mais enxuto (para um álbum de grunge/garage rock, 40 minutos é bastante coisa) seu triunfo seria maior.

No início da resenha, falei sobre crescimento e como isso pode ser trabalhoso. O que vejo em Losing é parte do processo de amadurecimento de uma banda que pode muito, mas ainda é pouco. O álbum falha em te prender em diversos momentos, mas quando consegue não tem como se soltar. É uma montanha-russa de qualidade que – e eu quero muito acreditar nisso – está bem longe de ser o ápice do grupo. Se esse for o caso, com certeza ouviremos coisas muito mais interessantes do Bully no futuro.

OUÇA: “Feel The Same”, “Kills To Be Resistant”, “Blame”, “Hate and Control”.

Gogol Bordello – Seekers And Finders


Sétimo disco de estúdio, Seekers and Finders traz muitos elementos que fazem do gipsy punk do Gogol Bordello uma colcha de retalhos muito bem costurada. Ao longo das onze faixas do novo disco, é possível detectar as influências multiétnicas da banda. Em Seekers and Finders, há músicas com influências country, rockabilly e, claro, punk. Neste sétimo álbum, a banda liderada pelo ucraniano Eugene Hütz conta com instrumentos como violinos, acordeões, trompetes, marimba, guitarras e baixos para compor a sonoridade do disco. Tudo arranjado de forma a entregar uma carga intensa de rock and roll única, como os fãs da banda já estão acostumados a esperar.

A sensação de que, apesar da banda ter sido criada em Nova York, ela vem de vários lugares – e pertence a nenhum deles – não está presente apenas na sonoridade do disco. Sempre divertido, dessa vez a mensagem de algumas das letras da banda trazem o ouvinte para discussões muito atuais – em “Clearvoyance”, Hütz canta sobre um nômade e imigrante ilegal e sua vida. Entre as surpresas agradáveis do álbum está a faixa-título, que tem a boa participação de Regina Spektor.

Com sons que evocam até mesmo músicas mexicanas, o novo álbum do Gogol Bordello é como uma viagem ao redor do mundo. Uma divertida e agradável (e punk) viagem.

OUÇA: “Walking On the Burning Coal”, “Seekers and Finders” e “Clearvoyance”

Liars – Theme From Crying Fountain


Enquanto, surpreendentemente ou não, o Liars soma mais e mais álbuns, quando se trata de seus integrantes a situação é bem diferente, dessa vez com a saída de Aaron Hemphill da banda, Angus Andrew foi só o que restou, e inesperadamente ao invés pavimentar uma carreira solo, o moço simplesmente resolveu tocar pra frente como dava. Se enfiou no mato, se inspirou em tudo quanto era som que o rodeava, consequentemente dando vida a algo bem pessoal e, não que seja surpresa, adicionou um álbum mais do que singular pro bagageiro da banda.

Agora solteiro de membros de banda, por que não colocar véu e grinalda na capa do álbum? Toda deslocação de Andrew e a situação da banda não se tornou nada conturbado, mas com certeza muitas dúvidas devem ter ficado pairando por lá. De seu pranto inicial o álbum foge pro descaso, e do descaso pra piadas, tudo isso intercalando o que ora soa puro experimentalismo ora puro country, não há um sentimento certo pra ser despertado no ouvinte, mas o trabalho dedicado a cada faixa é tão visível e diverso de uma para outra que se torna admirável, e no final das contas, pro melhor ou pro pior, TFCF se torna um álbum pra lá de confuso no que tenta entregar e totalmente indiferente a sua própria sonoridade, que volta e meia dá uma deixa de se solidificar em um todo, mas isso de fato nunca acontece, e tudo termina parecendo ser obra do próprio acaso.

Se em algum momento o Liars já deu a impressão de ser uma banda de rock ou eletrônica, foi chegada a hora de jogar tudo pro alto e ver no que TFCF ia dar. Antes de mais nada, TCFC é um álbum extremamente sóbrio, até cansado e gasto pra ser mais exato, apesar de ser bem explícito com seu emocional em sua primeira metade e mais descontraído e até bem humorado na segunda, é um álbum de Angus Andrew para Angus Andrew, curte o trabalho do cara? Ótimo, você vai amar, mas se não, não espere por uma conexão mirabolante com o trabalho do moço. Há um descontentamento quase amargo em seu início que do nada joga suas pernas pro ar e não quer mais se importar com nada, os ares acústicos são extremamente rústicos, o que cai muito bem no álbum como um todo, mas, de novo, em seu início, deixa um clima seco e pesado. E toda essa incerteza é o que acaba por ser o rosto do álbum.

O que parecia ser um mortuário ou puro martírio acaba não passando de apenas uma fase na vida de Andrew, nem mais nem menos, só mais uma pessoa se virando como pode e seguindo em frente, no meio tempo chora-se um pouco, se ri da própria desgraça e acaba-se se perdendo em pensamentos aleatórios. TFCF a seu próprio modo é cheio de méritos, especialmente firmando Andrew como um belo musicista, mas sem muito propósito além de simplesmente desanuviar, e ao mesmo tempo também é cru e desconexo em todo seu decorrer, e mesmo esses sendo de fato seus objetivos, passa longe de qualquer público que a banda já tenha tido. Theme From Crying Fountain, em suma, termina por ser algo mais além de um mero cara ou coroa, o que quero dizer com isso? Eu não faço a menor ideia meus queridos, apenas desejo sorte e paciência pra vocês no desenrolar dos pensamentos de Angus Andrew.

OUÇA: “The Grand Delusional”, “Cred Woes” e “Ripe Ripe Rot”

Adore Delano – Whatever


Adore, sua linda! Preciso começar esse texto dizendo apenas um sincero ‘Muito obrigado!’ do fundo do coração. Agora vamos ao álbum em si e seu contexto;

Whatever é o terceiro álbum de estúdio assinado pela drag queen americana Adore Delano, personagem de Danny Noriega. Pra quem não se lembra, Adore foi uma das finalistas da sexta temporada do reality show RuPaul’s Drag Race. Ano passado a moça lançou seu segundo disco, After Party, também resenhado por mim para o You! Me! Dancing!. E muita coisa aconteceu desde então.

Seus dois primeiros discos seguiam o que era esperado; álbuns pop acessíveis e mainstream. After Party já não foi muito bem recebido pela maior parte de seus fãs por se tratar de um pop um pouco mais adulto e conceitual que o seu Till Death Do Us Party – o que é uma pena pois trata-se de um álbum excelente. Adore também fez história a ser a primeira participante a desistir da competição, durante seu curto momento como parte do RuPaul’s Drag Race All Stars 2.

Seguindo problemas com sua gravadora e um descontentamento generalizado, Adore resolveu fazer o que bem quisesse com seu terceiro álbum e se as pessoas não gostarem, bom, paciência. E aí chegamos na maravilha que é Whatever. Adore sempre citou os movimentos grunge, punk e riot grrrl como influências em sua drag/vida, e agora vimos isso mais do que nunca. Abandonando o pop e se focando nas músicas que fizeram parte de sua própria adolescência, Whatever é um álbum grunge. De verdade. Para a surpresa de muita gente (eu incluso), Adore não estava exagerando quando prometeu um álbum assim.

Com influências de atos que vão desde Nirvana, Hole, Alice in Chains e Marilyn Manson até L7, Babes in Toyland e Mudhoney (e talvez até PJ Harvey). Adore não veio pra brincadeira em seu terceiro álbum. E o melhor de tudo é que, finalmente, ela parece estar confortável no que está fazendo. É possível perceber o quanto ela se diverte e se sente bem nesse álbum, muito mais do que nos anteriores.

Adore também flerta com letras mais politizadas e socialmente consicentes do que antes. Na lindíssima “27 Club”, primeira faixa escrita para Whatever e que quase deu nome ao disco, Adore canta sobre essa idade mítica dos 27 anos e sobre os astros que morreram com ela. A própria Adore tem hoje seus 27 anos, e conclui seu poderoso refrão com ‘And that’s how I know that I don’t wanna go‘. Suas letras, que já estavam ótimas desde o After Party (e a estonteante “I Can’t Love You”), são um dos grandes destaques do disco. Só a catarse do refrão ‘If I wanna whine, I’ll whine‘ em “Princess Cut”, uma música sobre a falsa noção de que sua vida é perfeita, já é o suficiente pra ilustrar isso.

O único momento ruim de Whatever está nas faixas “But Her Fly” e “Hole Nine Yards”, que são releituras eletrônicas das ótimas “Butterfly” e “Whole 9 Yards” – e não são nem versões pop das músicas, são um EDM genérico e chatíssimo como um remix que não deu certo.

Whatever é um disco improvável que eu nunca imaginei que pudesse acontecer dentro do contexto no qual ele nasceu – uma drag queen com dois álbuns pop nas costas e uma fanbase composta em sua maioria por adolescentes que ouvem Katy Perry. Mas, pessoalmente… Whatever me lembra que, por alguns momentos lá em 2014, eu torcia para que Adore fosse coroada vencedora no lugar de Bianca Del Rio. Whatever faz meu respeito pela Adore, que já havia sido consolidado de vez quando ela se recusou a passar novamente pela traumática experiência das filmagens de um reality show e saiu por conta própria, crescer ainda mais.

Só espero que Adore, agora que está confortável e fazendo o que quer fazer, continue se aprimorando dentro do rock. O talento que ela exala aqui nesse tipo de composição é bom demais pra ser jogado fora em um retorno ao pop de sintetizadores. Mas de uma coisa eu tenho certeza; não importa se o quarto álbum da Adore seja de rock ou de pop – ela vai continuar amadurecendo e se tornando cada vez mais uma compositora e vocalista maravilhosa dentro do que quiser fazer.

OUÇA: “Whole 9 Yards”, “Princess Cut”, “27 Club” e “Negative Nancy”

The Fall – New Facts Emerge


Poucas bandas britânicas dos anos 70 continuam de pé como o The Fall. Não satisfeitos em permanecer em galerias em preto e branco sobre o legado do Post-Punk, Mark E Smith e seus companheiros tem lançado material inédito na última década, sem se deixar levar por nostalgia alguma.

New Facts Emerge traz uma banda diferente, que não deixa de reconhecer seu espaço e impor o respeito de uma história sólida e inspiradora. Talvez seja por essa consciência que o The Fall consegue fazer um álbum sem medo, quase que totalmente cru, como um ensaio em uma garagem.

Voltar a uma origem sem muito pensamento é uma atitude punk louvável, que só poderia vir de uma banda legitimamente envolvida na história do gênero. Mark não tem medo de criar sons inimagináveis com sua voz, extremamente rasgada durante boa parte do álbum.

Sua maneira de cantar e seu sentimento lembram claramente o primórdio Sex Pistols, extremo que não havia sido atingido pelo vocalista nem mesmo no primeiro álbum da banda, que foi composta justamente depois de que os membros viram Johnny Rotten e seus companheiros se apresentarem em Londres.

Riffs de guitarra pesados e caóticos se juntam a mantras repetitivos, viciosos, sujos; quase intragáveis, uma dureza e reboliço que a mente pede em tempos de revolta. “Victoria Train Station Massacre” toca em um assunto delicado, com uma sonora riscada (literalmente, com trechos tocados em reverso) e energia intensa.

“Couples vs Jobless Mid 30s” é uma faixa de oito minutos, cheia de experimentos, sons desconexos e esquizofrênicos, uma ópera rock assustadora e distorcida. Cenário que se mantém em outras faixas do álbum, o The Fall faz um reflexo espinhoso da sociedade atual. Assim como em outras faixas do álbum, os baixos são encantadores, hipnóticos e vibrantes.

Em outras faixas, como “Second House Now”, a banda revisita o rockabilly, mas mantém o tom experimental do disco, flertando até mesmo com o hardcore. Um prato cheio para qualquer fã de rock, que consegue se manter entretido em qualquer faixa do álbum.

O The Fall consegue provar que o punk não foi somente um fenômeno de uma época. A música não pode deixar de ser um exercício crítico e não deve se encostar em um local de conforto. Ele continua sendo uma expressão de tempos de crise, uma ferramenta da massa para vomitar, inspirar e liderar revoltas.

OUÇA: “New Facts Emerge”, “Nine Out Of A Ten”, “Couples Vs Jobless Mid 30s”, “Fol De Rol”

Rancid – Trouble Maker

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Parece que Rancid nunca conseguiu desvencilhar-se “Black coat, white shoes, black hat, Cadillac”, o icônico refrão de “Time Bomb”. O oitavo álbum da carreira – Trouble Maker – carece de originalidade, mas mantém o clássico punk californiano dos anos 90, cujo tradicionalismo ainda atrai uma legião de fãs.

Com 25 anos de carreira, a banda da década de 90 ainda é considerada um dos principais nomes do punk californiano, ao lado de Offspring, Green Day e Bad Religion. Tim Armstrong (guitarra), Matt Freeman (baixo) e Lars Fredriksen (vocal) podem ter envelhecido, mas seu som continua o mesmo dos singles de sucesso, como Roots Radical, Wanna Riot e Salvation. A influência de ska e reggae em mútuo convivio com punk e hardcore permanece como o principal diferencial da banda, inclusive no último álbum recém lançado.

Trouble Maker, é o primeiro álbum pós-câncer do pulmão do Matt, devido ao fumo, e a dúvida que pairava sobre a volta do baixista a banda. Mas como o público brasileiro já presenciou esse ano em show nostálgico no Lollapalooza, Rancid está soando mais velho do que nunca. Talvez esse apego ao passado e às raízes do punk californiano, seja a principal motriz do seu sucesso até hoje.

Mas ainda fica uma curiosidade e até certa de ansiedade em ouvir um novo Rancid, um pouco mais original, que não encontramos em Trouble Maker. Composto por 19 tracks bem curtos, o álbum é de escuta fácil e um dos com os refrões mais “catch”, como em “Farewell Lolla Blue/ We’re gonna miss you”. Além dos clássico punks que parecem vir direto de um dos álbuns dos Ramones, ainda temos faixas com muita influência do reggae e do ska com em “Where I’am going”.

Rancid nunca fizeram um álbum ruim na carreira e esse provavelmente é melhor que pode ser feito, após tantos anos de estrada. Todo legado da banda é preservado, com os necessárias e irresistíveis solos de guitarra, a clássica rouquidão da voz, os gritos e, inclusive, algumas músicas surpreendentes como “Telegraph Avenue”. No entanto, o disco também passa uma sensação de esgotamento. Não resta mais aquele gostinho de quero mais.

OUÇA: “Ghost of A Chance”, “Telegraph Avenue” e “Where I’m Going”.