Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold



I need something pretty to help me ease my pain‘. Esse é o primeiro verso da faixa-título, que abre o nono álbum de estúdio da lendária banda americana Sleater-Kinney. ‘But I’m broken in two, cause I’m broken inside‘ é o verso que o encerra. Não se trata em momento algum de um álbum fácil, leve e divertido.

É impossível falar de The Center Won’t Hold sem comentar sobre o fato de que ele foi inteiramente produzido pela Annie Clark, também conhecida como St. Vincent. E sua influência no trabalho final já era perceptível desde a capa e a música “Hurry On Home“, primeira divulgada pela banda para promover o álbum. Trata-se da música mais explicitamente sexual já gravada pela banda, e sonoramente mistura o tradicional som do S-K com uma produção bastante urgente e moderna quase robótica, característica principalmente do último álbum da Annie, o excelente MASSEDUCTION. Mas as coisas param por aí. O restante do álbum todo é Sleater-Kinney do começo ao fim.

Também é impossível falar desse disco sem citar a saída de Janet Weiss, a melhor baterista de rock da história, que anunciou que estava deixando a banda faltando pouco mais de um mês para o lançamento de The Center Won’t Hold. “The band is heading in a new direction and it is time for me to move on.“, seu anúncio no twitter dizia. The Center Won’t Hold é o nono álbum da banda e o sétimo gravado e composto com Janet nas baquetas, e essa notícia veio como um baque para Deus e o mundo. Tudo o que o S-K sempre fez em toda a sua carreira foi seguir em direções novas a cada trabalho, indo do punk cru de Dig Me Out ao psicodélico The Woods. Poderia a mudança dessa vez ser tão drástica a ponto de sua baterista há 24 anos querer sair da banda? Bom, não. Mas também sim.

The Center Won’t Hold é com certeza o álbum menos acessível da banda até hoje, o mais difícil e o mais controverso. Ele também marca a primeira vez em que as guitarristas e vocalistas Carrie Brownstein e Corin Tucker escreveram separadamente e isso é bastante claro. A diferença entre as músicas da Corin e as da Carrie são bastante evidentes, causando uma certa disparidade e idiosincrasia que nunca antes apareceu. Aquela sua tradicional dinâmica de tirar o fôlego de uma começar um verso ou riff em sua guitarra e a outra terminar quase passando por cima não está presente em nenhum momento aqui. De uma certa forma, apesar de tudo, The Center Won’t Hold têm as composições e músicas mais estruturalmente tradicionais de sua carreira como S-K também.

Mas nada disso necessariamente é uma coisa ruim, pelo contrário. O que o álbum falta de coesão ele compensa com toda a certeza em qualidade. Os mais diversos humores se entrelaçam e se encavalam e resultam, por vezes, em transições incríveis como da sombria “RUINS” para a leve “LOVE”. E “LOVE”… Outro ponto que é impossível de se ignorar nesse disco.

“LOVE” é, literalmente, uma declaração de amor da Carrie Brownstein à banda como um todo e a tudo o que já passaram e viveram (talvez à Corin um pouquinho mais). Citando em sua letra toda a sua trajetória e trabalhos passados, ela nos conta como foi o começo de tudo e conclui onde estão agora. ‘There’s nothing more frightening and nothing more obscene than a well-worn body demanding to be seen‘, uma crítica ferrenha ao fato de que mulheres após uma certa idade (as três já passaram dos 40 anos) são colocadas de lado por que ‘envelhecer é feio’.

Outra música que merece um destaque especial é “The Dog/The Body”, penúltima faixa. É a mais próxima da velha dinâmica do S-K, seus versos quase proféticos ‘If you wanna go, can’t find a reason not to leave‘ seguem o refrão mais ‘todos-juntos-com-seus-isqueiros-e-celulares’ da carreira da banda.

Quem me conhece minimamente sabe que esta se trata da minha banda favorita, trago em minha pele uma homenagem permanente a elas e ao que significam pra mim. E The Center Won’t Hold foi com certeza um dos álbuns mais difíceis de se resenhar, pra mim, em todos esses anos de You! Me! Dancing!. E o resultado é que, sim, elas foram para uma nova direção. Talvez a mais drástica que já tomaram até hoje. Mas eu ainda estou aqui com elas. Agora apenas com Carrie e Corin. Call the doctor, dig me out of this mess.

OUÇA: “LOVE”, “Hurry On Home”, “The Center Won’t Hold”, “The Dog/The Body”, “Bad Dance” e “RUINS”

Bleached – Don’t You Think You’ve Had Enough?



Bleached é uma banda formada pelas irmãs Jennifer e Jessica Clavin, após a dissolução de seu projeto anterior, Mika Miko. A dupla lança agora em 2019 seu terceiro álbum, Don’t You Think You’ve Had Enough?, sucessor do subvalorizado e excelente Welcome The Worms de 2016.

Em Don’t You Think as moças apostam em um som muito mais acessível e polido do que nos trabalhos anteriores, mas ainda mantendo suas raízes no garage rock cru e punk distorcido. O primeiro single do disco, “Hard To Kill”, me soou estranho a princípio exatamente por conta dessas mudanças. Foi apenas depois de ouvir o álbum por completo que tudo fez sentido.

Aqui, as irmãs mostram uma gama muito maior do que podem fazer, misturando ritmos diferentes daqueles que predominam nos outros dois álbuns e ao mesmo tempo criando uma obra bastante coesa, interessante e divertida. Em “Kiss You Goodbye”, com uma guitarra em staccato e bateria disco, trazem talvez o melhor single do álbum. Já em músicas como “Valley To LA” e “Daydream” elas mostram que continuam fazendo seu rock cru ainda bastante bem.

Don’t You Think You’ve Had Enough? é um álbum que mescla constantemente post-punk com os mais variados elementos e todos eles funcinam. É um disco bastante divertido e prova que Jennifer e Jessica sabem muito bem o que estão fazendo. Com certeza um dos mais inesperados e interessantes discos desse primeiro semestre.

OUÇA: “Kiss You Goodbye”, “Rebound City”, “Real Life”, “Daydream”, “Heartbeat Away” e “Hard To Kill”

Honeyblood – In Plain Sight



In Plain Sight é o primeiro disco do Honeyblood como um projeto solo de Stina Tweeddale depois da saída da baterista Cat Myers e expande bastante o horizonte sonoro do Honeyblood em diversas direções de uma forma que gera alguns momentos isolados interessantes mas que nem sempre funcionam em conjunto. A produção de John Congleton (St. Vincent, Angel Olsen, Priests) mostra potencialidades desconhecidas e interessantes de Stina mas às vezes fica pesada demais e tira a força de algumas faixas.

“She’s A Nightmare” abre o álbum com bastante força e já aí percebemos uma faceta diferente do Honeyblood com um som bem mais polido que qualquer um de seus predecessores, a produção transforma a música num eletro-rock com toques de power pop noventista com uma letra que é ao mesmo tempo sinistra e divertida narrando cheia de auto-ironia os pesadelos de Stina com uma mulher que a estrangula  toda noite. “The Third Degree” continua na mesma pegada sonora mas acaba ficando bem repetitiva lá pela metade e uma faixa de menos de três minutos parece que dura uma eternidade.

A sequência “A Kiss From The Devil” e “Gibberish” é o momento que mais funciona no disco porque introduz bem os novos timbres de guitarra e refrões pra cantar junto com linhas de baixo com bastante reverb e baterias velozes e cruas como costumavam ser trabalhadas no primeiro registro da banda. Esse equilíbrio na produção ajuda a não alienar os fãs mais antigos e as letras trazem referências de tropes do terror noventista que aparecem em outros momentos do álbum e aqui funcionam muito bem com os arranjos.

“The Tarantella” fecha o lado A do álbum e é uma faixa bizarra no melhor sentido da coisa, tem um quê de trilha sonora de filme de terror, uma rispidez grunge, linhas de synth escondidas que fazem dobradinhas e potencializam as passagens da guitarra. A música equilibra bem as cadências mais lentas com as explosões de energia e é um dos poucos momentos em que a produção mais polida fez bem para uma faixa nesse registro.

A segunda metade do álbum é bem mais puxada pra um noise pop com toques de eletro-rock e não apresenta nada de novo, apenas truques que já vimos mais bem executados no começo do disco. “Take The Wheel” é um noise pop com mais elementos cinematográficos no som que não acrescenta muito mas coloca uma deixa pra “Touch”, que é uma música com uma letra fortíssima sobre a agonia de ser tocada por alguém que te machucou mas cujo arranjo quase dançante tira a potência que uma letra assim teria se apresentada de outra forma.

O ponto mais fora da curva nessa segunda metade do álbum é “Twisting The Aces” que trabalha bem uma produção moderna eletrônica em cima de uma base que lembra o garage rock mais sentimental com passagens orgânicas que e realçam bem pontos específicos da letra.

O que mais decepciona nesse álbum é que você sente que tanto as letras como as ideias iniciais de alguns arranjos que estão ali são muito verdadeiros mas a produção exagerada faz o resultado final parecer plástico como se tivesse sido feito apenas para empolgar a galera num show em estádio. Stina Tweeddale é uma compositora incrível e é ótimo vê-la explorando outras formas de fazer música mas seria interessante buscar um outro tipo de produção para explorar essas novas referências trazidas em In Plain Sight.

OUÇA: “She’s A Nightmare”, “Gibberish”, “The Tarantella” e “Twisting The Aces”

FIDLAR — Almost Free


Depois de quase 4 anos, o FIDLAR voltou de um jeito inesperado. Inesperado pelo menos pra mim. Como alguém que não ouviu nenhum dos singles lançados antes do álbum sair, eu fui pega de surpresa ao dar o primeiro play em Almost Free.

Este é um álbum diferente, como é de se esperar de qualquer banda que acumula 10 anos de estrada. Enquanto fã, confesso que demorei algumas ouvidas para me acostumar ao novo “ritmo”. Não que não tenha gostado, foi mais um sentimento de “o que está acontecendo aqui?”. Entretanto, não se engane pensando que trata-se de algo disruptivo, totalmente experimental, fora da casinha. Eles continuam os mesmos “garotos punk rock” dos dois álbuns anteriores, mas agora eles estão experimentando outras ondas. Neste álbum, utilizam os discursos que já conhecemos de outros carnavais em diferentes formatos, que vão além das “pedreiras” que estamos acostumados — ainda, é claro, que elas estejam presentes, como é o caso de “Get Off My Rock”, que abre o disco.

De álcool e drogas, críticas ao comportamento do estadunidense médio, términos de namoro, com influências de The Clash a Red Hot Chili Peppers, Almost Free é um baita álbum. Pra quem se acostumou ouvindo ao homônimo FIDLAR, de 2013, pode ser que estranhe, em um primeiro momento, quando ouvir toda a miscelânea que temos aqui. Dentre todas as camadas que existem no álbum, dá pra sentir que este foi um trabalho em que os caras chegaram no estúdio e realmente tocaram o que estavam com vontade. Tem sonoridades bem diferentes entre si e, também, seus altos e baixos, mas é um disco autêntico.

Destaque para a instrumental faixa-título, “Almost Free”, que aconteceu quase “por acidente”, já que a banda tentou escrever uma letra pra ela. Mas acabou que nenhuma das letras combinou o suficiente e, por falta de tempo, ela acabou entrando nua e crua mesmo. E, pra mim, esse é um dos melhores acertos do álbum. A música é um respiro em meio a toda loucura “fidlaresca” e ainda demonstra o talento em potencial que o quarteto tem.

OUÇA: “By Myself”, “Can’t You See” e “Almost Free”.

Iceage – Beyondless


De acordo com o dicionário Merrian-Webster, a palavra beyond significa “no ou para o lado mais distante”, que se fosse ser resumido em um conceito mais claro em português, seria o advérbio além. Junte-o ao sufixo “less”, que é usado para definir a ausência de algo, e temos Beyondless, ou “ausência de além”. Ou seja: algo que não tem mais para onde progredir, um indivíduo ou objeto que chega ao seu fim por não encontrar campo para onde avançar. E é assim que o quarteto dinamarquês de punk Iceage escolheu batizar seu quarto disco de estúdio. Felizmente, porém, o Iceage mente.

Estendendo-se por 41 minutos divididos em dez faixas, Beyondless é uma mistura de post-punk e art punk que apresenta uma variedade de influências extremamente curiosa (e promissora) em algumas faixas e solidez competente na maioria delas para mostrar que, contrário ao nome do disco, existe muito além para onde o Iceage pode levar sua música no futuro. Completada a audição do disco inteiro, a impressão é de que os melhores momentos da banda se revelam quando ela vai além do que as convenções dos principais gêneros dela propõem e experimenta com sonoridades que dificilmente se veriam presentes num disco de punk.

Talvez a primeira impressão não seja essa, com a faixa de abertura, “Hurrah”, sendo uma das menos criativas e interessantes do disco. Apesar de não ser uma música ruim, não existe nada nela que chame a atenção do ouvinte. Curiosamente, levando em conta o que vem depois, isso pode ser até uma ironia intencional da banda.

A busca além do disco começa na segunda faixa, “Pain Killer”, que foi lançada como primeiro single de divulgação do álbum e que contou com a surpreendente e bastante positiva participação de Sky Ferreira. A faixa, apesar de manter os principais elementos da estética do Iceage, como o baixo protagonista e a bateria envolvente, faz bom uso da voz de Ferreira para dar cor à música. O melhor ainda está por vir, com a terceira faixa “Under The Sun”, fortemente influenciada por Brian Jonestown Massacre em sua sonoridade, com os vocais de Elias Bender Rønnenfelt até soando semelhantes aos de Andrew Newcombe do BJM. A variação de tempos entre a bateria e o violão é outro dos pontos altos da faixa, uma das melhores do disco.

Enquanto outras faixas transitam entre o noise, o post-punk e o garage rock, os grandes destaques ficam nas influências mais inusitadas, como a sétima faixa, “Thieves Like Us”, que tem uma influência de folk e uma estética que lembra as trilhas tocadas em western spaghettis. O uso de pianos e a performance vocal bem humorada completam a música. Paralelo a ela fica a nona faixa, “Showtime”, que apresenta uma forte influência dos swings de rádio americanos do começo do século XX, fazendo jus ao nome. A presença do trombone na música além de aprofundar mais a referência, é o que confere as texturas mais interessantes da melodia.

A escolha do Iceage por adicionar ainda outros instrumentos ao disco, como trompete e violinos, permite que a banda se aventure por novos horizontes enquanto baixo e bateria trabalham para manter a identidade da banda ligada ao punk e post-punk. Em alguns momentos soando próxima de The Horrors e Black Rebel Motorcycle Club, a banda também explora bem mudanças de andamento desdobrando um conjunto de referências variadas e curiosa.

É claro que existem pontos fracos no disco, apesar da grata surpresa. Em vários momentos na faixa, o instrumental básico dela se mostra pouco criativo e até certo ponto sem energia, principalmente na faixa de abertura, e nas faixas “The Day The Music Dies” e “Take It All” que, enquanto não são ruins, passam sem deixar alguma impressão no ouvinte. Ao fim da audição a sensação é de que o Iceage teria a capacidade de fazer um disco ainda melhor se abandonasse mais as suas convenções de gênero e experimentasse com outros instrumentos, efeitos e andamentos. Sempre vai existir um além a ser explorado.

OUÇA: “Pain Killer”, “Under The Sun”, “Plead The Fifth”, “Catch It”, “Thieves Like Us”, “Showtime” e “Beyondless”

The Men – Drift


Em corridas de média e longa distância existe um elemento essencial à vitória que nem sempre é mencionado com a importância devida: a consistência. De nada interessa a um corredor de maratona ser o mais rápido ou o mais ágil. No final, um fundista que não mantém consistentemente o desempenho não completa a prova.  Começar algo, afinal, é muito fácil do que mantê-lo.

Essa é a primeira sensação que é despertada quando Drift, novo disco do The Men, chega ao fim. Sétimo disco de estúdio do quarteto nova-iorquino de punk/post-punk, Drift se assemelha a um corredor de cem metros rasos em uma corrida de quarenta e dois quilômetros: é dada a largada e, depois de um trio de faixas que compõem possivelmente uma das melhores aberturas de disco de 2018 (pelo menos entre bandas de rock), o impulso se perde em passagens fracas e pouco criativas até acabar numa nota decepcionante.

Se fosse um carro, Drift, ironicamente, seria um dragster.

Depois do tiro de largada, em que a banda joga toda a sua mão, revelando um leque de influências variado e profundamente instigante, no restante do álbum as faixas vão pouco a pouco perdendo fôlego e se deixando ultrapassar, até finalmente cruzar a linha de chegada em um arrastamento melancólico.

Seja na mistura de baixo robusto e bateria sólida de post-punk com uma batida eletrônica, que emolduram os metais dissonantes e o vocal teatral da faixa de abertura, “Maybe I’m Crazy”, ou na sincera influência de jazz, com o baixo melódico e a guitarra aguda e melancólica da música seguinte, “When I Held You In my Arms”, a banda parece desesperada por tomar a frente e se colocar na dianteira, ainda que não consiga manter o ritmo depois. O apogeu do disco chega na terceira faixa “Secret Light”, que abre com uma percussão quase selvagem logo acrescida de um piano que ao mesmo tempo traz à lembrança o instrumental de bebops e cria um senso de pressa na música. Os vocais sussurados, quase em segundo plano, somados ao baixo e a instrumentos de sopro, dão personalidade à faixa, de longe o ápice criativo do disco.

Depois da terceira faixa, a banda perde intensidade, com cada música seguinte sendo quase uma analogia ao corredor que dispara na frente e depois vai se vendo perder posições, adversário depois de adversário, sem ter mais forças para tentar se manter na dianteira. Passando pelo folk pouco criativo de “Rose On Top Of The World” e “So High”, para o hard rock genérico e monótono de “I Killed Someone”, o que parece predominar no álbum é uma série de músicas que estão ali com o único propósito de preencher o disco.

“Sleep”, a sétima faixa, se torna o último impulso de um corredor já não tem mais esperanças de vencer mas ainda quer provar para si mesmo que é capaz de encerrar a prova com força. Voltando à influência de blues e folk, a composição simples, apenas com violão e gaita, criam uma atmosfera espectral, que envolve o ouvinte e quase conjura as imagens de um deserto de terra vermelha e um cavaleiro assombrado e solitário. A aura fantasmagórica mostra a competência da banda em criar uma atmosfera.

É irônico que logo em seguida entre a teatralidade preopotente e exagerada de “Final Prayer”, com elementos pesados e repetitivos que parecem ansiosos em criar a sensação de um clímax assombroso e sufocante, mas que deixam a impressão de uma banda que se levou a sério demais.  A última faixa, “Come To Me” mal parece merecer ser mencionada a não ser como uma versão mais preguiçosa e repetida de “Sleep”.

Ao fim e ao cabo, Drift tem o sabor agridoce de uma derrota que parecia vitória. O disco apresenta, ao longo de suas quatro melhores faixas, as influências e a inventividade para criar um trabalho explosivo e tridimensional, mas essa energia é pouco a pouco perdida a cada composição repetitiva. No fim da audição, o sentimento é de que existe um potencial pra explorar e falta o fôlego. Não é a conclusão mais agradável, mas não existe solução numa corrida a não ser seguir adiante com mais força.

OUÇA: “Maybe I’m Crazy”,  “When I Held You in my Arms”,  “Secret Light” e “Sleep”

Slaves – Beautiful Death


Jonny Craig faz sempre o mesmo arquétipo de música. O trabalho junto ao Slaves difere em pouca coisa com o som que costumava fazer em sua passagem pelas bandas Emarosa e Dance Gavin Dance. Aliás, mais que isso: se todas as músicas dos três álbuns de seu grupo atual fossem embaralhadas, seria tarefa quase impossível organizá-las novamente em suas respectivas obras. Dito isso, é claro que o atual lançamento do trio californiano Slaves, Beautiful Death, constitui mais do mesmo: apenas mais uma reorganização de todas as ferramentas musicais que o grupo dispunha.

O álbum foi anunciado em agosto do ano passado e sua trajetória foi extremamente conturbada, marcada especialmente por problemas de saúde do frontman até controversas com o selo. Após ter seu lançamento adiado diversas vezes, finalmente o trabalho foi liberado em fevereiro deste ano. É difícil responder se a espera valeu a pena. Essencialmente, o post-hardcore aparece como uma vertente difícil de se reinventar. As fórmulas e protótipos bem-sucedidos são usufruídos sempre até a exaustão e não seria prudente dizer que isso constitui preguiça por parte dos artistas ou se, de fato, o gênero já deu o que tinha que dar. Apesar de incluir elementos provenientes do emo e até do metalcore, Slaves não entrega nada que já não tenha sido feito outros zilhões de vezes por bandas como Blessthefall, Emarosa, Escape the Fate e Silverstein, só para citar algumas proeminentes.

O ouvinte que parar por alguns instantes e prestar atenção às letras com certeza se mostrará incrédulo ao constatar que foram escritas por um homem de trinta anos. A primeira faixa, “I’d Rather See Your Star Explode”, empolgaria uma criança de doze anos: ‘I know you’ll write me off, I know you’re always gonna cut me out, you think I’m always gonna let you down. Just wait.‘. Em seguida, o eu-lírico demonstra toda a obviedade possível em “Patience Is The Virtue” ao constatar que cometeu erros e paciência é a chave para retomar o caminho e manter o foco no objetivo – seja lá o que isso signifique. Daí para frente é ladeira abaixo, culminando com a faixa final “The Pact”, em que Craig reflete sobre os erros e demônios do passado (de novo.)

A despeito de tais constatações desanimadores, vá lá, há sempre algo que possa ser aproveitado. Produzido por Erik Ron (Panic! at the Disco, Set it Off e Hands Like Houses) os vocais limpos e rasgados são excepcionais – característica que Craig sempre cultivou em sua trajetória pela música -, e os riffs de guitarra são cativantes, ainda que quase sempre limitados. A capa do álbum e os clipes também estão bem bonitos – ainda que Jonny esteja se esforçando para parecer com o biólogo brasileiro Richard Rasmussen. Nesse aspecto, ao menos, tem encontrado sucesso.

Beautiful Death é o melhor que Slaves entregou até o momento. Não seria um álbum ruim no início do século, quando o post-hardcore se estruturava da forma que conhecemos. Esse preceito, porém, foi passado para trás em tantos sentidos que nos parece, aos ouvintes, quase obsceno apostar novamente em tal modelo. Talvez a banda tenha realmente cavado sua própria cova para uma morte não tão bonita, com o perdão do trocadilho.

OUÇA: “I’d Rather See Your Star Explode”, “The Pact”, “Patience Is The Virtue”

Dream Wife – Dream Wife


Dream Wife é uma banda que há muito esperava, mas não sabia. Power trio de Brighton, hoje residente em Londres, é composto por Rakel Mjöll nos vocais, Alice Go nas guitarras e Bella Podpadec nos baixos. Três gurias de baita presença e atitude, que acabaram de lançar seu álbum de lançamento autointitulado, e ainda darão muito o que falar.

O álbum passa impressão de espontaneidade, de jam session, três amigas reunidas no estúdio, fazendo um som que gostam e transformando em música o que pensam e sentem.

Exemplo disso é a faixa “Somebody”, na qual o refrão “I’m not my body, I’m somebody” mostra para o que elas vieram. Outro grande momento é “F.U.U”, parceria com Fever Dream, que fecha o álbum da melhor forma possível: explosivamente.

O maior defeito do álbum – além de não terem colocado “Lolita”, música de seu primeiro EP, na tracklist final – é ser curto demais. Apenas 35 minutos de duração, algo bem característico do punk, com músicas rápidas e sagazes, dando gostinho de mais.

Se pudéssemos comparar, o som de Dream Wife estaria no meio caminho entre Yeah Yeah Yeahs e Deap Vally. Se pudéssemos rotular, acredito que a melhor definição seja punk pop. Músicas explosivas, melodias pegajosas e letras de grande impacto. Dream Wife é fórmula bem-feita. E esse debut será um grande cartão de visitas para a banda.

OUÇA: “Somebody”, “Hey Heartbreaker” e “F.U.U.”.

Bully – Losing


Crescer é laborioso. É um processo longo, difícil, cheio de altos e baixos (normalmente mais baixos) e que às vezes não compensa. Não me leve a mal, não estou dizendo que não devemos tentar amadurecer; muito pelo contrário: a sede de progresso é uma característica intrínseca a nós, mas que não é facilmente saciada. Não sei se os integrantes do Bully concordam minha opinião, mas eles com certeza são um bom exemplo para ilustrá-la.

Losing, o novo registro da banda, tinha muito potencial. Depois do debut Feels Like muito bem recebido, as expectativas pelo próximo álbum haviam se tornado grandes. A banda ter ido para a Sub Pop e lançado singles promissores só colaboraram ainda mais para o hype. Infelizmente, o que o disco traz de mais importante é uma demonstração do que o Bully pode ser, e não o que atualmente é.

Vamos concordar que é incrível a pretensão de Alicia Bognanno (vocalista e fundadora da banda): ela escreveu, produziu e canta em todas as faixas do álbum. Sua voz potente e estarrecedora que marcou Feels Like continua firme e forte em Losing, porém agora também mostra um lado mais calmo e contido. Além disso, seu lirismo brilha muito quando é íntimo, pessoal; em contrapartida, as letras com temas mais “universais” são um pouco clichês e simplistas demais. Mesmo assim, é quase impossível não ver (ou ouvir, no caso) que é ela quem carrega o disco nas costas.

O maior problema de Losing é sua redundância. Algumas faixas são intensas e contrastantes, porém muitas outras soam como mais do mesmo. Das diversas vezes que parei para ouvir o álbum, começava motivado (as primeiras músicas, principalmente “Feel The Same”, são ótimas), mas quase não notava seu fim. Perdendo momento, o som começa a virar ruído branco, e você muitas vezes fica sem saber quando uma música terminou e outra começou. Dói admitir isso porque, como disse e reitero, esse disco tinha potencial. As músicas que realmente se destacam dão uma pala de o que o registro poderia ter sido. Talvez se fosse mais enxuto (para um álbum de grunge/garage rock, 40 minutos é bastante coisa) seu triunfo seria maior.

No início da resenha, falei sobre crescimento e como isso pode ser trabalhoso. O que vejo em Losing é parte do processo de amadurecimento de uma banda que pode muito, mas ainda é pouco. O álbum falha em te prender em diversos momentos, mas quando consegue não tem como se soltar. É uma montanha-russa de qualidade que – e eu quero muito acreditar nisso – está bem longe de ser o ápice do grupo. Se esse for o caso, com certeza ouviremos coisas muito mais interessantes do Bully no futuro.

OUÇA: “Feel The Same”, “Kills To Be Resistant”, “Blame”, “Hate and Control”.

Gogol Bordello – Seekers And Finders


Sétimo disco de estúdio, Seekers and Finders traz muitos elementos que fazem do gipsy punk do Gogol Bordello uma colcha de retalhos muito bem costurada. Ao longo das onze faixas do novo disco, é possível detectar as influências multiétnicas da banda. Em Seekers and Finders, há músicas com influências country, rockabilly e, claro, punk. Neste sétimo álbum, a banda liderada pelo ucraniano Eugene Hütz conta com instrumentos como violinos, acordeões, trompetes, marimba, guitarras e baixos para compor a sonoridade do disco. Tudo arranjado de forma a entregar uma carga intensa de rock and roll única, como os fãs da banda já estão acostumados a esperar.

A sensação de que, apesar da banda ter sido criada em Nova York, ela vem de vários lugares – e pertence a nenhum deles – não está presente apenas na sonoridade do disco. Sempre divertido, dessa vez a mensagem de algumas das letras da banda trazem o ouvinte para discussões muito atuais – em “Clearvoyance”, Hütz canta sobre um nômade e imigrante ilegal e sua vida. Entre as surpresas agradáveis do álbum está a faixa-título, que tem a boa participação de Regina Spektor.

Com sons que evocam até mesmo músicas mexicanas, o novo álbum do Gogol Bordello é como uma viagem ao redor do mundo. Uma divertida e agradável (e punk) viagem.

OUÇA: “Walking On the Burning Coal”, “Seekers and Finders” e “Clearvoyance”