Kurt Vile – Bottle It In


Bottle It In é o sétimo álbum de estúdio de Kurt Vile. Aqui, o artista continua experimentando com as sonoridades que estavam presentes nos seus dois últimos trabalhos, b’lieve I’m going down, de 2015 e o álbum colaborativo com Courtney Barnett, Lotta Sea Lice, de 2017. Para quem gostou dos últimos discos, este novo trabalho é, então, um prato cheio.

Em um dos clipes lançado com Barnett, nós vemos muito do dia a dia do ex-The War on Drugs: a vida com a família, as paisagens oceânicas que os cercam. As canções desse álbum, em especial faixas como “Mutinies” e “Bassackwards”, poderiam muito bem servir de trilha sonora para esses momentos. No novo disco, assim como em produções anteriores, as influências de Vile e seu gosto pelo country ficam evidentes. A temática, por sua vez, fica evidente do título do álbum: Kurt Vile canta sobre os sentimentos que às vezes escondemos bem no fundo de nós – não de uma forma melancólica, mas sim resignada, reconhecendo essas sensações.

Além de ser um álbum com uma sonoridade homogênea, que segue o que ele já vinha produzindo, o cantor entrega este novo trabalho sem se importar muito em ser radiofônico – algumas músicas ultrapassam os dez minutos. Assim, Vile não parece muito preocupado se o ouvinte está acompanhando ele durante sua viagem musical – a faixa-título, uma das que têm mais de dez minutos de duração, é uma das melhores do álbum. É justamente por estar seguro do produto que está entregando que o disco funciona. Além disso, Vile conta com a participação de vários artistas para comporem as vozes que emprestam leveza às músicas. Entre as participações especiais, Bottle It In conta com Mary Lattimore, Cass McCombs, Stella Mozgawa (do grupo Warpaint), Holly Laessig e Jess Wolfe (da banda Lucius) e as guitarras de Kim Gordon (do Sonic Youth, em si uma das influências de Vile).

OUÇA: “Bottle It In”, “Mutinies” e “One Trick Ponies”

Jungle – For Ever


O primeiro álbum do Jungle me conquistou e grudou em meus ouvidos de uma maneira que quando descobri o som deles, não parei de ouvir por semanas. Tive inclusive a oportunidade de ouvi-los ao vivo, o que só fez minha paixão crescer ainda mais. Agora, 2 anos depois, lançam For Ever e, com esse segundo projeto mostram que paixão pode sim ser convertida em um relacionamento sério de anos.

Parte do poder que a música tem sobre nossos cérebros é enraizada na memória. Se quando você ouviu pela primeira vez aquela música, estava passando por um mau momento, a associação provavelmente não será das melhores. Já passei por maus bocados ouvindo Jungle e nunca consegui associar as músicas da banda com a tristeza do momento. Muito pelo contrário, é a banda a qual eu recorro quando preciso de um boost de energia e vitalidade.

Quando pediam pra descrever o som de Jungle, eu sempre descrevia como uma mistura do estilo dos BeeGees com as batidas de Daft Punk, mas sempre achei uma descrição incompleta. Em For Ever, o grupo inglês não se distanciou de seu som característico recheado de falsetos, ritmos hipnotizantes de batidas eletrônicas e uma parede de som ao fundo das faixas que afunda você no mundo que Jungle cria em cada música. É impressionante. Ainda é o mesmo som de Jungle, mas o grupo também experimenta o suficiente para que o álbum não caia na mesmice.

Com letras abordando temas desde relacionamentos até introspecção e auto-reflexão, Jungle nunca foi uma banda que só joga palavras em batidas chicletes esperando que vire um hit. É uma banda complexa, com um potencial enorme para grandes coisas e que continua me conquistando até hoje. Se você tiver oportunidade, veja-os ao vivo. É uma experiência de outro mundo.

Uma última sugestão: na primeira escutada do álbum, deite e use fones de ouvido. Depois, pode estourar sua caixa de som. Jungle não é uma banda para ser escutada baixo. #Jungle4Ever

OUÇA: “Cherry”, “Beat 54 (All Good Now)” e “Heavy, California”

Spiritualized – And Nothing Hurt


Spiritualized é uma banda que foi formada em Warwickshire, na Inglaterra, por Jason Pierce – também chamado de J. Spaceman – no início dos anos 90. Assim, trata-se de uma banda com uma bagagem musical extensa e que sempre surpreendeu seus ouvintes com seus registros lançados por conta de sua potência sonora.

Agora, após seis anos, Spiritualized lança seu oitavo álbum de estúdio intitulado And Nothing Hurt. Durante a primeira audição, nos deparamos com um registro sonoro repleto de sentimentos  e também com muitos detalhes, sejam com os arranjos, os vocais e/ou  as guitarras, isto é, nos deparamos com um belo conjunto de camadas instrumentais/vocais crescentes e decrescentes durante toda a execução do álbum. Logo, é inegável que a produção do álbum é interessantíssima, rica em detalhes e melodias, e muito bem elaborada/executada por Jason Pierce.

And Nothing Hurt nos mostra uma faceta mais confessional, intimista de Jason Pierce,  fazendo com que o registro soe mais melancólico e íntimo do que trabalhos anteriores de Spiritualized. Sendo assim, o álbum é um compartilhamento de sentimentos muito bem musicados e que deixa em evidência a entrega, o mergulho de Jason Pierce em cada composição, em cada detalhe presente no registro.

Em linhas gerais, Jason Pierce criou um álbum sem pressa, mergulhou nele de todas as formas possíveis e nos mostrou toda a sua entrega sentimental e musical sendo materializada em nove faixas muito bem elaboradas/executadas e tão graciosas de se ouvir. Por fim, mesmo que Spiritualized tenha uma trajetória de mais de duas décadas, And Nothing Hurt não deixa de surpreender e de ser um registro sonoro marcante para a banda, ou seja, And Nothing Hurt não é um álbum morno e está longe de ser, ele é um álbum profundo e vemos Jason Pierce se despir nele e mergulhar em toda a sua imensidão sonora.

OUÇA: “A Perfect Miracle”, “Let’s Dance”, “Damaged”, “The Prize” e “Sail On Through”

Hey Geronimo – CONTENT


Meu primeiro contato com Hey Geronimo foi estritamente por conta dessa resenha. A banda de Brisbane fugiu do meu radar com seu primeiro álbum, Crashing Into The Sun, de 2016. Procurando sobre o histórico da banda, esbarrei em um artigo recente do site australiano Music Feeds em que a banda falava sobre o In Rainbows do Radiohead. Pouco mais do que aquilo foi necessário para eu me interessar em o que eles tinham para mostrar.

CONTENT, segundo álbum da banda, é indie nostálgico criado à partir de uma premissa distópica. Uma crítica ao mundo ultra-moderno, com tecnologia intrínseca e desmaterialização das relações interpessoais (que pode soar um pouco banky no contexto atual). Isso conjugado a synths psicodélicos, seguindo a linha que Tame Impala e MGMT fizeram em trabalhos passados. No entanto, é louvável que eles tenham ido a fundo na temática que eles já flertavam desde o álbum de estreia. Em metade das faixas está creditado Alex, uma inteligência artificial responsável por composições e arranjos dentro do álbum. O tema é extremamente explícito liricamente, com faixas como “Working For Google” e “Disconnect”.

O álbum abre com “The Last Public Telephone”, e progressivamente vai avançando em direção a uma sonoridade mais palatável, mais próximo do post-punk, com batidas mais rítmicas e guitarras mais presentes. Ainda há suficiente espaço para elementos eletrônicos e distorções e tudo corrobora no conceito final. Faixas como “Too Human”, “Young Again” e a excelente “Bad Citizen” são tão cativantes que a comovem o ouvinte. Serve para lembrar que o indie rock mais formuláico pode ser extremamente agradável quando feito com entusiasmo e dedicação.

A dobradinha final, com “Seat 8A” e “Faster Than Light”dão o tom necessário de desfecho que todo bom álbum tema. O Hey Geronimo produziu um álbum coeso, excelente, e muito agradável. Apesar de tratar de um tema ao qual eu pessoalmente sou averso, ainda foi bom o suficiente para cativar. Isso já é mais que necessário para que a banda entre no radar sonoro definitivamente e não saia por um bom tempo.

OUÇA: “Too Human”, “Young Again” e “Bad Citizen”

The Lemon Twigs – Go To School


É difícil pensar em alguma banda formada nos anos 2000 cujas influências iniciais não sejam calcadas no cânone do rock clássico: Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Pink Floyd, Queen e por aí vai. Cada grande banda da virada do milênio com sua especificidade de influências, todos os grandes nomes beberam dos clássicos: de Oasis a Arctic Monkeys no Reino Unido, de Muse a Strokes nos Estados Unidos, todo esse pessoal, em algum ponto de sua formação musical, discutiu com os colegas de banda qual era o melhor disco dos Beatles.

Isso foi especialmente marcante no início dos anos 2000 com as primeiras bandinhas de indie rock dançante, à la Fratellis, The Kooks, The Wombats, cujas raízes nos elementos retrôs desse “rockzinho” eram elementos marcantes, mas pareceu se afastar da produção mais atual no indie-rock-pop, que tira sua firmeza de elementos do início da eletrônica, do punk e de um folk não-acústico, como Hinds, Mac DeMarco, Homeshake e por aí vai. Os elementos de retrô seguem fortes, mas não mais pautados no rock de pai.

Quem vai na contramão dessa onda são os irmãos D’Addario que, sob nome artístico de The Lemon Twigs, lançam seu segundo álbum, Go To School. Fortemente pautado nesse rock clássico, o som dos meninos de 19 e 21 anos me transporta para minha própria adolescência e início de formação musical: discussões pautadas em Beatles x Rolling Stones e uma influência estética forte de Swinging London, uma busca forte por bandas de rock dos anos 70.

Fortemente apoiado em melodias simples, com muito violino, piano e vocais afinados, Go To School aposta em uma narrativa que se estende pelo disco inteiro: a de um macaco adolescent criado por humanos que passa por todos os processos de questionamento (de si, da sociedade, do mundo) que adolescentes humanos. Em letras (e melodias) pouco grudentas, os meninos D’Addario navegam pelas referências de rock clássico com bom humor e leveza, fazendo um disco confortável. Por vezes, a construção do menino macaco se torna um pouco cansativa — e afasta algumas melodias que poderiam ser mais hits pela necessidade de firmar uma progressão narrativa.

A mistura da metáfora simples dos embates sociais e existenciais do macaco e da volta à natureza com o conforto do instrumental “conhecido” por qualquer um que tenha o rock clássico como referência cria um disco que, como foi posto pelo Pitchfork, é perfeitamente adequado à idade e período de vida dos meninos. De caráter performático e meio glamuroso, eles trazem um contraponto interessante à cultura do despojado “feito em casa” que reina na música independente há quase duas décadas — apesar de a gravação do álbum ter ocorrido essencialmente no porão da casa dos pais dos D’Addario, que participam na produção do álbum.

Desde a estréia da dupla com Do Hollywood, em 2016, que já vinha com essa proposta “saudosista” forte, adotada com outras referências por bandas como Whitney, Foxygen e as próprias meninas HAIM, os Lemon Twigs se mostram bastante promissores. Go To School é o encaminhamento do que foi iniciado há dois anos: jovens em busca de uma voz própria em meio a muitas referências variadas e ricas. Porém, assim como o experimentalismo pelo experimentalismo pode ser cansativo, o retrô em excesso é limitado. E, a julgar pelo repeteco de Go To School, pode ser um desafio para os D’Addario vislumbrar novos horizontes e formular uma identidade pautada, bem, neles mesmos.

OUÇA: “The Fire” e “Wonderin’ Ways”

Animal Collective – Tangerine Reef


Não é só por ser seu álbum mais palatável que Merriweather Post Pavilion é a obra mais reconhecida do Animal Collective, no entanto, desde seu lançamento em 2009, a banda passou a dar passos largos em direção ao experimentalismo. Tangerine Reef parece ser uma linha de chegada desse processo. A ausência de Noah Lennox, mais conhecido como Panda Bear, na produção do álbum também ajuda a explicar um som menos energético, acelerado.

No entanto, ao investigarmos o contexto atrelado a esse novo lançamento, a comparação com os álbuns anteriores parece um tanto injusta. Tangerine Reef faz parte de uma obra audiovisual feita em colaboração com o Coral Morphologic, dupla que mistura arte e ciência, formada por um música e um biólogo. Tal reunião ocorreu na esteira da comemoração do Ano Internacional dos Corais, a fim de gerar conscientização a respeito de como essas espécies são ameaçadas.

Típico objeto de arte contemporânea, Tangerine Reef propõe uma experiência sensorial, buscando capturar a essência da vida marinha, representando sua solidão e mistérios de uma forma um tanto abstrata e distópica. Não funciona muito bem como “áudio” apenas, porém. Sem uma clara divisão de faixas, ao longo do álbum a experiência vai se tornando repetitiva e maçante. Os vários ruídos e camadas parecem sentir falta de uma descarga energética que nunca vem. No fim das contas, porém, é louvável que uma banda fuja de sua zona de conforto para criar algo tão inventivo, mesmo que isso frustre as expectativas dos fãs.

OUÇA: Nada a destacar, é meio que uma única enorme faixa.

Oh Sees – Smote Reverser


Explicar o som do Oh Sees é quase tão difícil quanto saber o nome atual da banda. O projeto iniciado por John Dwyer em 1997 já foi chamado The Oh Sees, OCS, Orinoka Crash Suite, Orange County Sound, Thee Oh Sees e assina o último registro simplesmente como Oh Sees, identidade adotada no álbum Orc de 2017. Smote Reverser mantém a pegada que começou com Orc, flertando com o metal e o rock progressivo setentista, tanto na forma dos arranjos como nas letras, sem deixar muito claro se é uma homenagem ou pura zoeira com os épicos sobre castelos, florestas e monstros dos primórdios do prog.

O disco abre com Sentient Oona, um garage rock simples com pitadas da psicodelia lo-fi característica dos trabalhos anteriores pra agradar o fã de longa data e introduzir quem está chegando pela primeira vez sem assustar muito. Outra característica que os fãs mais antigos vão notar logo nessa primeira faixa são alguns backing vocals e as linhas de teclado inconfundíveis de Brigid Dawson que já esteve em formações anteriores da banda. As linhas de bateria cavalgada, uma leve quebra de compasso antes do refrão instrumental e os solos de synth anunciam de forma contida o progressivo que ainda está por vir. “Enrique El Cobrador” é a primeira incursão progressiva desse disco com sua estrutura claramente baseada no prog setentista com a guitarra e o baixo servindo de cama pra um som conduzido por sintetizadores e muitos pratos, além da letra que anuncia uma batalha épica e violenta. C continua na mesma pegada medievalesca na letra mas é bem mais puxada pra um jazz fusion que reflete o processo criativo da banda tocando junto pra se divertir sem muita preocupação com o resultado. A alternância entre a guitarra e o teclado como focos do instrumental tanto nos versos como nos solos gera uma dinâmica interessantíssima pra faixa.

Overthrown” é o momento mais pesado do disco é quase metal na forma como a percussão e o baixo acontecem mas a forma como o solo de guitarra é conduzido é meio deslocado dessa estética metal e é bem mais parecido com o típico rock psicodélico que John Dwyer está acostumado a fazer. O vocal embora gritado também não combina muito bem com a música no geral, ficando abafado pelas baterias rápidas e se tornando incompreensível na maior parte da duração.

O álbum como um todo tem uma atmosfera bem enérgica e, mesmo nas canções mais lentas, deixa pouco espaço para o vazio, o que se deve em grande parte ao duo de bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone que trabalham freneticamente preenchendo os vazios e pausas um do outro. O trabalho de percussão acontece de uma forma tão bem arranjada que não cansa o ouvinte, mesmo jogando novas informações de ritmo literalmente o tempo todo. Bons exemplos disso são a “bluesística” “Moon Bog” em que as baterias acompanham o fraseado do baixo e da guitarra como se fossem parte integrante da melodia tanto nas estrofes quanto nos refrões instrumentais e a totalmente rítmica “Anthemic Agressor” que vem na sequência, um grande instrumental de doze minutos em que todos os outros músicos se permitem viajar e solar sem muitos limites quase que num fluxo de consciência mas a percussão se mantém constante, dando o ritmo virtuosa e consistentemente mas sem exigir atenção exclusiva pra si.

A segunda metade do álbum tem dois momentos interessantes com “Abysmal Urn” e “Nail House Needle Boys” fazendo um momento mais agressivo e simples estruturalmente enquanto “Flies Bump Against The Glass” e “Beat Quest” finalizam com uma pegada mais leve e viajada dando lugar a um som mais espacial que brinca com as referências instrumentais medievais do prog rock nos últimos minutos da faixa final.

Com exceção de uma leve semelhança temática entre algumas músicas e alguns timbres e frases característicos da guitarra de Dwyer, não tem nada que amarre muito as faixas de Smote Reverser entre si, o que não significa que o álbum soa incoerente. Cada música é muito bem construída dentro de seu próprio universo temático e juntas funcionam bem na ordem em que aparecem. O que fica de mensagem do álbum (mesmo que o líder tenha dito expressamente que não há um grande conceito ou mensagem por trás dele) é que eles se sentem confortáveis pra se divertir e entreter tocando e falando sobre qualquer coisa.

OUÇA: “Enrique El Cobrador”, “Moon Bog” e “Beat Quest”.

Dirty Projectors – Lamp Lit Prose


Não tem como falar sobre Lamp Lit Prose sem abordar o rompimento entre Amber Coffman e Dave Longstreth. Apesar de ter ocorrido antes do álbum anterior, a separação ainda mostra suas consequências, pois o 8º álbum do Dirty Projectors deixa de lado a tristeza do anterior e parte para um caminho mais otimista, num tom de superação do que aconteceu entre Coffman e Longstreth, atual responsável pela banda.

Em vez das longas e soturnas músicas do álbum autointitulado, Lamp Lit Prose apresenta uma variedade de canções vigorosas, que contam com a participação de gente como Katy Davidson (do Dear Nora), Robin Pecknold (do Fleet Foxes), Syd, Amber Mark, entre outros. O bom para os fãs de Dirty Projectors é que nenhum feat parece estar ali para roubar a cena, contribuindo de forma orgânica.

Ainda que deixe passar certa melancolia existencial aqui e ali em suas novas letras, Longstreth transborda o álbum com uma positividade presente em todas as faixas. E não é só nas letras que isso está aparente. As melodias também possuem um ar de animação, gerada pelo uso certeiro de trompetes, guitarras, violão, gaita, entre outros instrumentos inesperados, como órgão.

O imprevisível é um dos maiores acertos do Lamp Lit Prose. Quase todos os caminhos escolhidos pelo Dirty Projectors são arriscados, dando a sensação de que estamos numa montanha-russa onde cada nova curva é difícil de prever, o que provoca uma estranheza seguida de satisfação. Já em “Right Now”, canção que abre o disco, somos pegos de surpresa quando a música tira o nosso tapete e nos deixa fisgados com sua experimentação acessível, coisa que sentimos nas músicas seguintes.

OUÇA: “Break-Thru”, “I Feel Energy” e “Right Now”

Melody’s Echo Chamber – Bon Voyage


Melody’s Echo Chamber é um projeto musical da cantora e compositora francesa Melody Prochet com uma boa dose de referências sonoras psicodélicas. Além disso, o projeto lançou o primeiro álbum também chamado de Melody’s Echo Chamber em 2012 com a produção de Kevin Parker – também integrante da tão conhecida Tame Impala. Agora, em 2018, chega aos nossos ouvidos o segundo álbum intitulado Bon Voyage.

Já podemos dizer que Bon Voyage não perde a característica “psicodélica”, ou seja, Melody Prochet retoma seu projeto musical não perdendo essa essência que vimos no álbum anterior, mas essa essência se mostra bastante transformada no registro atual e nos deparamos com variações sonoras bastante interessantes. Dessa forma, diferente do álbum anterior que foi produzido por Kevin Parker, no novo álbum – produzido por  Fredrik Swahn (The Amazing) e Reine Fiske (Dungen) – vemos um emaranhado de referências não tão óbvias, ou seja, apesar de continuar em  uma “linha psicodélica”, a densidade do registro e as sensações propiciadas pelas colagens sonoras existentes nele, podem conduzir quem ouve para um caminho agradável e nada óbvio, com faixas um pouco mais  distantes da tão conhecida sonoridade “tameimpaliana” presente no registro anterior.

Sendo assim, Bon Voyage é uma viagem curta, mas é mesmo uma boa viagem, uma viagem que surpreende, uma viagem que não é tão óbvia e nada enjoativa. Uma viagem muito bem conduzida por Melody Prochet, que claramente se transforma nesse registro e caminha para caminhos e experiências não tão explorados no trabalho anterior. Assim, Melody nos presenteia com fragmentos sonoros com colagens psicodélicas e lisérgicas bastante agradáveis, e além disso, as variações vocais tão distintas se encaixam perfeitamente nessas colagens instrumentais tão incertas, mas bastante coerente com tudo que é proposto na execução deste registro.

Por fim, Bon Voyage representa muito bem a nova entrega sonora de Melody’s Echo Chamber, caminhando pela lisergia e psicodelia de um jeito transformado e encantador, nos conduzindo para uma viagem curta, torta e profunda de novos ruídos eletrônicos, de novas variações vocais, de novas variações instrumentais sob a forma de sete fragmentos muito bem executados de camadas sonoras que demonstram muito bem a criatividade e a versatilidade de Melody Prochet em sua retomada. Sem sombra de dúvidas, Bon Voyage é um segundo álbum que não merece ficar “atrás” de seu antecessor.

OUÇA: “Cross My Heart”, “Desert Horse” e  “Shirim”.

Oneohtrix Point Never – Age Of


Os meandros da arte são inconstantes, desconhecidos, ora acalentadores, ora agressivos. Esses adjetivos parecem muito bem colocados quando nos referimos ao mundo lúdico das narrativas fantásticas, isto é, quando deparamos com aventuras de príncipes prometidos entremeio reinos de escuridão. Mas o que música e a fantasia literária tem a ver? Tudo. E ouse convencer Daniel Lopatin, o nome por detrás do projeto eletrônico-experimental Oneohtrix Point Never, do contrário. Sua extensa discografia, já composta de dez assinaturas, comprova que Daniel é um obstinado mago em busca de uma chamada música abstrata, o seu reino procurado. Age Of (2018) é o novo capítulo dessa saga. E dessa vez Daniel parece trilhar veredas mais ensolaradas, uma assunção bastante óbvia dado o denso, apocalíptico, mas genial antecessor Garden Delete (2015).

Age Of aparenta ser um disco de cisões. Há a incorporação de colaboradores mais pop-friendly e uma presença mais contundente da voz humana como um instrumento de incursão, agora tão importante quanto o clavecino (é de coisas como essas que estamos falando quando nos referimos ao portfólio do OPN) e dos incontáveis sintetizadores. Mas ainda assim, de algum modo, a opção de trazer estruturas mais assimiláveis em suas músicas não propõe previsibilidade alguma. E nesse sentido, também é possível falar em quebras. Se há uma linearidade na obra toda, essa certamente é o caos. Os pedaços do álbum são dotados de rebeldias particulares, inconciliáveis ao todo, traduzidas por sons dissonantes, reverberações de objetos no espaço e demais sensações que atuam no limite de escape da compreensão. Um bom exemplo disto é faixa We´ll Take It. Como experiência, o disco parece em nenhum momento permitir que o ouvinte se anteponha, ou presuma com alguma assertividade o que vai acontecer; desta forma, paradoxalmente a escolha de uma estética mais “concreta”, ONP promove confusão generalizada. Esse é o mundo mágico abstrato arquitetado e imaginado por Lopatin.

ONP vaga, porém simultaneamente não vaga sem rumo. A faixa myriad.industries, a mais curta do álbum, é um acrônimo de My Record = Internet Addiction Disorder, o que aliado a declarações do próprio artista sobre o tema (mesmo satiricamente) indica que a abstração em Age Of tem cores de uma distopia, uma possível crítica a forma como a música é consumida nos dias de hoje, ou de uma maneira mais genérica, critica a forma como se vive. Se tomarmos esse enfoque, a ansiedade projetada pelo disco para o ouvinte é parelha, talvez, aquela suscitada por esse modo de vida “aprisionador”.  Se é de fato essa a intenção, poucos são os elementos visíveis dentro da obra que levam a alguma conclusão. Daí o fascínio e desagrado da abstração procurada pelo Oneohtrix em Age Of.

De todo modo, Daniel Lopatin traz uma obra desafiadora, mas menos densa e um pouco menos completa que aquela representada pelo disco anterior. A fragmentação entre treze faixas e falta de coerência entre as mesmas frente a um conceito não muito bem estipulado acaba tornando alguns dos estímulos criados pelo álbum pouco significativos. É difícil entender o que se pode assimilar pessoalmente a partir de Age Of, mas o seu grande mérito passa pela sua capacidade de, a partir de seu escutar, dissolução do real. Completada a travessia para os domínios do disco, o que nos deparamos lá talvez seja a o arquétipo do processo criativo de Daniel, ou uma releitura sobre o problema do vício da internet. Tudo parece muito mais impressão, como encerra a faixa Last Known Picture Of A Song (o ponto alto do disco). Ao final, dado o jeito fantasioso, Age Of não se trata do que é, mas sim o que pode ser.

OUÇA: “Last Known Picture Of A Song” e “We’ll Take It”