Allah-Lahs – LAHS


Não é preciso ouvir muito mais do que algumas músicas da discografia do quarteto de rock psicodélico de Los Angeles Allah-Lahs para entender a proposta geral da banda: surf rock com uma distorçãozinha.

O quarto disco deles, LAHS, não é diferente. Lançado em 11 de outubro pelo selo Mexican Summer, LAHS não foge ao trajeto para o qual os trabalhos anteriores da banda já apontavam. Continua a vibe retrô, com fortes referências a alguns momentos de Velvet Underground, e praiana.

De modo geral, o disco não tem grandes elementos que o diferenciem dos anteriores. O pouco que poderíamos ver de novidade é alguma pegada muito leve um pouco mais country em algumas faixas, como “In The Air”, e a faixa inteiramente cantada em português, “Prazer Em Te Conhecer”, também um pouquinho mais country, mas ainda bem apegada ao estilo original da banda. Em entrevistas, os integrantes afirmam curtir música brasileira (Marcos Valle, Jorge Ben, Caetano Veloso, Erasmo Carlos) e, apesar de terem trabalhado nela com ajuda da atriz Karina Fontes na composição de “Prazer em te conhecer”, atribuem a escolha do idioma mais à ascendência portuguesa de um deles do que ao interesse pela cultura brasileira. Outro momento em que existe uma brincadeira com idiomas é na faixa que fecha o disco “Pleasure”, balada em um espanhol carregado de sotaque.

Embora eu não esperasse nada diferente do que foi entregue em LAHS, é inevitável o sentimento de que a banda caiu na mesmice ou de que se mostra desinteressada em tomar riscos maiores com suas produções. Para um conjunto que passou pelo colégio e por um trabalho na loja de discos Amoeba Records em Los Angeles juntos e produziu quatro álbuns ao longo de 10 anos, talvez fosse a hora de assumir uma postura de mais experimentalismo.

LAHS não é de forma alguma um disco ruim. As faixas são interessantes e, apesar de se ater fortemente ao estilo que a banda já vem explorando desde sua formação, existem uns poucos novos elementos que, se explorados de forma mais consistente em próximos trabalhos, podem dar aos Allah-Lahs uma nova dimensão e, quem sabe, tornar a banda interessante novamente.

OUÇA: “Prazer Em Te Conhecer”, “Roco Ono”, “Polar Onion”

Boogarins – Sombrou Dúvida



Aqui vemos um Boogarins mais palatável e menos dado a experimentações. Muitas das músicas do Sombrou Dúvida permitem entender o que o Dinho fala sem precisar de pesquisas nas letras na internet.

No entanto, ainda é um álbum que mantém a essência “bugarinha”. Ainda há o tom psicodélico e os reverbs para reforçar esse tom, ainda que menos extremados.

Um mesmo verso genial é repetido duas vezes no lançamento da banda goiana: “existe um desgaste no novo / se repete dá nojo/ e isso você não quer ver”. Eu acho que é essa mesmo a ideia, não adianta eles quererem fazer algo novo como Lá Vem A Morte toda vez.

Esse trecho está tanto na faixa-título “Sombra ou Dúvida” como em “Invenção”, as duas lançadas como single. “Invenção” inclusive faz uma homenagem à música “Princesa” dos também goianos Carne Doce.

A versão acabou ficando mais interessante que a original da Carne Doce, pois a roupagem psicodélica do Boogarins dá o toque de graça que faltava na música da Salma Jô e do Macloys. As duas bandas são próximas e já trabalharam juntos em outras faixas antes como “Benzim” e “Dos Namorados”.

“Dislexia Ou Transe” tem uma intro, repetida algumas vezes ao longo da música, que parece muito com a abertura de Globo Rural, porém a semelhança fica só nessa parte mesmo e o resto da música é puro Boogarins. É uma faixa com tudo para ser fixada na cabeça de quem curte esse estilo Tame Impala e a fase mais pop do Pink Floyd.

Outro destaque é “A Tradição”, com uma das letras mais bem construídas e reflexivas do álbum:

“A tradição

Como arma apontada

Mas não quer atirar

Jogue as ideias no ar”

“Sombrou Dúvida” difere muito do seu predecessor Lá Vem A Morte, onde as distorções sonoras eram tamanhas que o que o Dinho falava era totalmente incompreensível. Em “Onda Negra” e “Foi Mal” só dá para entender o que é cantado se a letra for lida antes, agora nas canções deste álbum de 2019, claramente dá para entender tudo.

Neste ano, o conjunto de Goiânia resolveu delimitar uma zona de conforto. Não fizeram mal pois entregaram um álbum de bastante qualidade. Não chega a representar a importância para a música alternativa brasileira que Lá Vem A Morte representa, mas a banda acertou em não querer inventar a roda duas vezes seguidas.

Apostar no garantido com certeza trouxe um resultado melhor do que tentar fazer um Lá Vem A Morte Parte 2.

OUÇA: “Invenção”, “Sombra Ou Dúvida”, “As Chances”, “Dislexia Ou Transe” e “A Tradição”

Oh Sees – Face Stabber



O psychedelic rock não é uma novidade para ninguém. O estilo percorreu um célebre caminho desde a sua concepção há 59 anos, com contribuição de Frank Zappa, e bandas que, hoje, são clássicos incontestáveis: The Seeds, The Gamblers, The Jimi Hendrix Experience, The Beatles, entre outros. São esses artistas que trouxeram pela primeira vez escolhas de produção musical que muito seriam referenciados e reverenciados no decorrer de todos os anos que atam o momento presente e essa época tão mitificada/mistificada pela maioria das pessoas. Falamos aqui de efeitos de estúdio elaborados tais quais reverb, echo, phasing, loopings em duração, panning e distorção; presença de jams extensos para todos os instrumentos envolvidos; elementos emprestados do free-jazz; sintetizadores…ater-se meticulosamente a todas as características dessa escola musical tomaria extenso tempo e muitas palavras, o que aqui não convém. O fato é que o psych rock ainda está conosco. E a prova disso é a norte-americana, (já) veterana Oh Sees, que com seu novo disco, presta reverência aos grandes dos anos lisérgicos.

Com Face Stabber (Castle Face Records, 2019), a banda atinge a impressionante marca de 22 discos de estúdio, se considerarmos todos os outros quinhentos nomes que a banda já possuiu. Se dividirmos a carreira dos moços em duas fases, é justo dizer que entre 2003 e 2014 a produção musical não se destaca à causa da aposta em um jogo de referências demasiadamente amplo, porém superficial. A partir do disco Mutilator Defeated At Last (2015) a banda apresenta uma evolução concreta, um álbum mais funky que o comum, com experimentações rítmicas interessantes e diminui excessos. Encaixa, por três anos consecutivos, 2015-2017, bons discos, portanto, com destaque para o ótimo  Orc (2017). Após o morno Smote Reverser (2018), a banda chega com o novo disco tentando retomar a montante. Porém, mesmo que seja uma máquina muito bem lubrificada, a banda volta a patinar.  

O Oh Sees opta por um Face Stabber com uma hora de vinte minutos de duração, com duas músicas que ultrapassam a marca dos dez minutos, agindo no conjunto do disco como conclusões de duas partes. São elas a faixa 6 “Scutum & Scorpium” e a derradeira “Henchlock” (o álbum tem 14 faixas…).  Longas músicas levam, novamente, a um álbum de excessos, o  que aparenta ser o calcanhar de aquiles do carreira deste grupo particular. 

Em Face Stabber você verá a cartilha do psych rock, mencionada no primeiro parágrafo. Não é só isso. Há também no álbum doses abusivas de ambient rock e prog rock. O trio mistura tudo nos numerosos e longos jams  presentes em mais de 60% do disco, configurando a principal característica desse lançamento. Estes grandes segmentos de improvisação trazem consigo solos de guitarras embebidas em efeitos, teclados esquizofrênicos, percussão bem acelerada. Adicione a esse caldeirão de coisas, os efeitos engraçados nos vocais de John Dwyer, como durante a fraca abertura “The Daily Heavy”. O caos reina absoluto, o que não necessariamente significa algo de positivo, afinal  são vários os trechos onde o caos mais se assemelha a uma grande bagunça do que, efetivamente, a uma catarse musical. 

Em geral, não se trata de um álbum ruim. Que fique registrado. O talento da banda e a coragem em arriscar um disco com a envergadura pretendida devem ser levados em consideração. Mas não há como escapar. Ao final, fica a impressão de que as músicas poderiam ser construídas de uma maneira melhor: a banda poderia ter reduzido (drasticamente em alguns casos) a duração das músicas,  conferindo-lhes concisão e melhor acabamento. Curiosamente, a “correção” dos erros praticados no disco estão também no mesmo. É o caso da soturna “Snickersee” e das pancadarias “Gholü” e “Heartworm”, as faixas mais breves da tracklist. Se o destaque positivo fica por conta dessas, são as maiores que deixam a experiência do disco mais fatigada e menos interessante; não que a escolha de faixas mais longas seja de toda sorte uma escolha ruim, mas progressões e composições melódicas sem objetivo, junto de decisões estilísticas jogadas com certo desleixo exagerado não ajudam. Seguramente, o clichê “menos é mais” é de bom tom nessa conversa toda.  

Há um desencantamento com essa banda, na medida que se sabe muito bem do que são capazes. Nasce então uma frustração, principalmente, porque o grupo de John Dwyer já trilhou erros parecidos, senão iguais muitas vezes anteriormente. Mas tudo bem, ano que vem daremos a vigésima terceira chance para ver o Oh Sees acertar em cheio.

OUÇA: “Snickersee”, “Gholü” e “Heartworm”

Camarones Orquestra Guitarrística — Surfers



O fato é: essa vai ser uma resenha um tanto regional e pessoal. Teje dito.

Camarones Orquestra Guitarrística é uma banda de rock instrumental potiguar com mais de 10 anos de carreira, turnês mundiais, passagem pelo Rock in Rio, curtida por alguns ícones do rock brasileiro e com 7 discos de estúdio nas costas (mais 1 ao vivo!). No dia 27 de maio eles lançaram Surfers, pelo Dosol. E por que você nunca ouviu falar nela? Também não sei. 

Conheci Camarones na adolescência. Meu professor de História, na época, era baterista da banda e convidou a turma pra ouvir e tal. Eu me animei, fui a um show no (finado, mas para sempre querido) Dosol Rock Bar e achei daora meeesmo. Surf music, galera animada e apaixonada pelo que faz (grande salve para Ana Morena, rainha das 4 cordas e dos sorrisos!) e um show bem eletrizante. Ao longo do tempo a banda mudou a formação algumas vezes, mas sem perder o que há em seu ventre. A atual Camarones conta com Ana Morena, Anderson Foca (ambos integrantes originais), Yves Fernandes e Alexandre Capilé (aquele do Sugar Kane sim). 

A verdade é que a banda pode ser sintetizada por duas palavras já ditas: rock e energia. O sétimo álbum não é diferente. O cd já se inicia com uma vibe à la batman surfista, com a faixa-título, num conjunto de guitarra + baixo na mesma linha + bateria dançante. Aliás, baixo e bateria fazem a cozinha do Camarones um lugar muito vibrante, coeso, apaixonante (e apaixonado!). “Tromba D’água” lhe deixa com o riff na cabeça, e é perfeita pra meter aquele headbanging no bar inferninho da sua cidade. Para os fãs de Weezer e afins, a mais legal vai ser “Buddy Holliday” (com espaço pra trocadilho com a banda californiana). Em seguida, vem a surpresinha do álbum: “Cartagena”, imersa na América Latina com uma mistura de ska, cumbia, guitarrada e, quem sabe, carimbó. Certamente essa faixa foi criada ou inspirada em uma das passagens da banda pelo norte brasileiro. Ainda pertencem ao cd a faixa com jeitão de RG da Camarones: “Stinky Skunk”; a suingada “Ultralevel”; a alternativa “Ian”; e ”Fortim Auors”, fechando o trabalho. 

E por que escutar Surfers — ou qualquer outro trabalho da Camarones? É fato que a música instrumental vem ganhando, cada vez mais, um espaço no coração dos brasileiros. A exemplo disso temos a também de surf music Beach Combers, a também natalense Mahmed etc. Essa abertura permite um maior dinamismo na música autoral do país, bem como uma maior gratificação e reconhecimento dos selos e gravadoras independentes. E, por último, é um bom álbum! Veloz (20 minutos de duração), caseiro, mas sem deixar de ter seus charmes. Então, vida longa a Camarones!

OUÇA: “Ian”, “Buddy Holiday” e “Cartagena”

Yeasayer – Erotic Reruns



Em seu quinto álbum, o Yeasayer vai fundo no repertório mais pop que apareceu timidamente ao longo dos anos e traz um álbum sem nenhuma das esquisitices e experimentações de seus antecessores com a intenção de falar de forma bem humorada sobre relacionamentos, sexo e cultura mas acaba soando infantil nas letras e repetitivo nos instrumentais.

Abraçar elementos pop não é novidade pro Yeasayer, o trio nova iorquino já havia dado pitadas de um som mais comercial em outros trabalhos mas  sempre mantendo uma pegada mais experimental e psicodélica no corpo dos registros. Em Erotic Reruns eles abandonam o experimentalismo e trazem um som mais fácil de digerir que, embora tenha algumas passagens interessantes, não cativa muito por ser repetitivo e maçante mesmo com faixas bem curtas.

“People I Loved” que abre o disco tem uma levada legal de baixo durante a música toda e alguns breaks que quase empolgam mas a dobradinha do riff com o falsete do vocal se tornam irritantes depois do primeiro break e os “na na na” que quebram uma letra que traz um questionamento sobre ser duro demais com quem se ama parecem deslocados e esvaziam uma letra e um instrumental que tinham bastante potencial.

“Ecstactic Baby” que vem na sequência sofre do mesmo problema. Conduzida por uma linha melódica de sintetizador intessante que em outro álbum do Yeasayer teria sido desenvolvida em algo mais complexo e rico musicalmente mas aqui repete os mesmos acordes até o fim com um refrão que parece ter sido pensado pra tocar em peça publicitária jovem.

A segunda metade do álbum é mais rica instrumentalmente com músicas como “Let Me Listen On You” que trabalha muito bem uma levada instrumental do pop rock setentista com um arranjo eletropop cheio de sintetizadores dissonantes e detalhes realmente instigantes que fazem o ouvinte se envolver do começo ao fim da faixa.

“Ohm Death” tem mais cara do pop atual que a banda demonstrou querer fazer no começo do disco mas trabalhada de uma forma bem mais rica com um som que preenche em várias camadas, amarrado por um baixo potente e sensual combinado a linhas de teclado que dão um ar bem urbano pra faixa.

Erotic Reruns como um todo é bem conciso e bem amarrado, o álbum tem quase trinta minutos e as faixas funcionam bem juntas mas quando você presta atenção a cada uma individualmente  parece que sempre falta algo pra elas impactarem o ouvinte mesmo com um ou outro elemento bem colocado.

OUÇA: “Let Me Listen On You”, “Ohm Death” e “Fluttering In The Floodlights”

Mac DeMarco – Here Comes The Cowboy


É chegada a hora de dizer a verdade. Não há mais escapatória. As aparências não mais podem enganar. Fato é que eu sou fã de Mac DeMarco. Gosto muito. Eu sei, tem gente que diz que é superestimado. Que virou meme. Que é genérico. Não me importo com essas discussões. Sou uma pessoa simples: ouço Mac Demarco e me sinto feliz e satisfeito com a vida. Quando vi pela primeira vez seu A Take Away Show no canal La Blogothèque, fiquei embasbacado. Comprei um violão só para aprender os riffs do início de “Still Beating” e sair também pelas ruas cantando, fumando, conversando, intercalando os sons da canção com o ambiente barulhento, sirenes e crianças brincando. Esse show, por si só, merecia um review. Acontece que o músico acaba de nos presentear com seu novo álbum, Here Comes The Cowboy, um disco íntimo produzido por ele próprio – e é sobre esse episódio que esse texto se debruçará. Acenda seu cigarro.

Ouvir um álbum de Mac DeMarco é como fazer terapia. Mas é ele quem está no divã, você é o terapeuta, escutando. Desde seu primeiro trabalho, o artista construiu um eu-lírico sincero, indulgente, compassivo. Lamenta-se pelos tempos que foram e não mais voltarão, pelo cansaço da vida cotidiana, pelas mulheres que amou, pelos relacionamentos que não deram certo. Tudo isso tocando uma guitarra como se fosse dormir em qualquer momento. E funciona. Em Here Comes The Cowboy, há mais do Mac Demarco de sempre. E só isso, na verdade. Eu me contento, mas se você espera ouvir algo que seja ousado, experimental e diferente do que o músico tem apresentado em sua carreira, talvez esteja decepcionado. Ainda assim, convenhamos, é sempre bom experimentar a intromissão de canções despreocupadas e odes a cigarros na dinâmica da costumeira rotina.

E quando digo que o novo álbum é apenas um pouco mais do que usualmente se espera de DeMarco, estou, de certa forma, glorificando o disco. O primeiro single, “Nobody”, é genuinamente bom, em todos os sentidos. Paradoxalmente, Mac faz alusão ao fato de que tornou-se uma criatura, um ícone da música – ainda que uma parte de si almejasse ser um artista reconhecido, a outra parte ainda sente saudades do anonimato, da pessoa comum, desconhecida. Uma posição que não há volta: ‘I’m the preacher / A done decision / Another criature / Who’s lost its vision.

Em ‘K’, DeMarco faz um tributo à sua namorada, Kiera McNally, e, olha, ela deve ter curtido bastante. Em entrevista para a revista Huck, diz: “Me and Kiera have known each other six years longer than we’ve dated. It took time for us to get here but she’s part of who I am, I’m part of who she is, and I wouldn’t want it any other way. I’m really lucky”. Em um riff melancólico, o eu-lírico evidencia a experiência de crescer em um relacionamento e junto com ele: “Still so much for me to learn / And as I do, my love stays with you”. Que bonitinho, gente.

E é de amargar o coração, mas nem tudo são flores. O álbum segue uma linha melódica bem sutil, com riffs calmos e um arranjo instrumental leve. E esse é o problema: em muitos momentos, parece que falta algo. Um clímax, um refrão, um entusiasmo. O álbum tem quarenta e seis minutos e às vezes a mudança de faixa não é perceptível para os ouvintes menos atentos. Isso sem falar da terrível “Choo Choo”. Péssima. Pulem essa e tudo certo.

No geral, Here Comes The Cowboy é um bom disco. Há faixas esquecíveis, sim, mas vale a pena. Nada como as obras primas anteriores (não que caiba a comparação), mas um deleite que tem seu merecimento, no fim das contas. Por fim, encerro com um trecho da canção ‘Little Dogs March’, talvez um prelúdio do fim desse estágio de quase sete anos escrito pelo próprio DeMarco: “hope you had your fun…all those days are over now”.

OUÇA: “Nobody”, “Little Dogs March”, “Heart To Heart” e “K”

Foxygen – Seeing Other People


Não é justo tentar comparar minha relação com bandas e a minha relação com pessoas, mas a tentativa de forjar uma trajetória propositalmente “falida” e tornar isso uma piada praticamente não me deixam opção: talvez o Foxygen esteja Seeing Other People para fazer esse disco e tenha, dessa forma, encerrado uma relação consigo mesmo nesse processo de ampliação de referências.

Foxygen, como outras bandas tipo The Lemon Twigs, faz do rock anos 60-70 sua principal referência. Como aconteceu quando fiz a resenha do Go To School, tenho alguma preocupação pelo futuro de uma banda cujas referências estão majoritariamente em um passo que é bem exaustivamente visitado no indie rock. Não porque isso seja um problema, na verdade, é impossível fugir disso, de fato, mas porque isso coloca um limite nos trabalhos. Em alguma medida, e correndo o risco de soar especulativa, Seeing Other People parece a ida inevitável em direção ao glam rock que seria capaz de ao mesmo tempo manter uma trajetória coerente para o Foxygen (e impedir a total exaustão dos fãs caso a banda insistisse ainda mais no referencial “Velvet Undergroundesco”) e indicar o fim de uma era que define o estilo da banda como um todo.

Porém, em Seeing Other People, essa trajetória não soa natural, soa apenas inevitável e, em alguma medida, melancólica e cômica. Em alguns momentos (como na faixa-título “Seeing Other People”) isso parece extremamente caricato de si mesmo, como se o Foxygen estivesse fazendo um cover de Foxygen com um baixo forte e bem cheio de swag. Não soa nada mal quando coloco nesses termos, mas soa surpreendentemente cômico quando se escuta de fato.

Apesar de tudo isso, as músicas não são ruins e é um disco divertido. “Work” e “Face The Facts” trazem alguns elementos cômicos em suas letras e, junto da presença forte de um piano otimista e que tem sons de auto superação, montam uma imagem irônica de rockqueiros em fim de carreira para Seeing Other People.

O problema é: fica impossível saber até que ponto essa performance de fim de carreira é algo que pode ser uma piada engraçada que vai ser seguida por um próximo álbum a nível We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic ou se vai indicar, de fato, o esgotamento total do Foxygen. Vamos aguardar.

OUÇA: “Work”, “Seeing Other People” e “Face The Facts”

Weyes Blood – Titanic Rising



Esta foi a primeira vez que entrei em contato com a produção do Weyes Blood, projeto prolífico da americana Natalie Mering, que lançou seu debut em 2011, com The Outside Room. E o primeiro play que dei em Titanic Rising, quarto álbum da cantora, eu já pensei “ora ora temos aqui uma discípula de Joni Mitchell.”

Se você se encanta por essa estética folk anos 1970, de The Carpenters, Carole King e Cass Elliot, seja bem-vindo. Titanic Rising é um refinamento dessa estética com um ar atualizado, as prenúncias de um novo retro-futurismo já cantado anteriormente por artistas como First-Aid Kit e Julia Holter.

Sendo assim, tudo iria de vento em popa para essa resenha: sonoridade familiar, melodias aconchegantes, até a própria capa do álbum um deleite visual por si só. Mas assim que “A Lot’s Gonna Change” terminou, e deixou uma atmosfera soturna e melancólica no ar eu perdi o rumo. ‘Let me change my words, show me where it hurts’. E tudo dói, acredite em mim.

Mering se aventura liricamente por um universo profundo e delicado, cantando com honestidade sobre melancolias que podem ser até disparos para uma tristeza reprimida. É um olhar calmo para o caos que encanta e desconcerta. A jornada onírica do álbum lentamente ganha contornos de esperança conforme o registro avança, até culminar em “Nearer To Thee”. A faixa instrumental combina com a faixa de abertura e dá uma noção cíclica para o produto.

O álbum é uma sequência de pontos altos, e não há partes que pareçam deslocadas. Tudo se encaixa. A radiofônica “Everyday” é genial eu sua letra jocosa. ‘True love is making a comeback for only half of us, the rest just feel bad‘. Em “Mirror Forever”, o ritmo fúnebre é embalado por uma letra tão concisa que mostra que Mering é de um esmero no estúdio invejável.

Todo esse liricismo apoiado em arranjos de orquestra e synths muito atualizados, como é o caso de “Movies” ou “Andromeda”, tão ricas em instrumental que poderiam se sustentar sem vocal algum. Eu poderia fazer citações de cada uma das canções, esmiuçar cada um dos violinos, apenas para mostrar que aqui está um dos melhores trabalhos do ano.

Depois de duas semanas escutando o álbum, finalmente consegui me tornar um pouco imune à melancolia que as canções emanam Fica então um veredito menos desesperador : Titanic Rising é sobre tristeza, mas é sobre esperança mais que tudo. Um feixe de luz reverso, que sai do fundo sombrio do oceano e vai de encontro a superfície, à procura de mais luz. O Weyes Blood fez um produto impecável e que certamente será lembrado no futuro.

OUÇA: “Everyday”, “Andromeda” e “Movies”.

Francisco, el Hombre – RASGACABEZA



Francisco El Hombre volta depois de 3 anos de SOLTASBRUXA, primeiro álbum de estúdio e que levou o grupo a ter projeção no Brasil. Em RASGACABEZA a banda meio mexicana e meio brasileira investiu em uma mudança drástica e apostou em uma homenagem ao agito com o uso de inúmeras metáforas sobre fogo.

Das 8 faixas, apenas a sexta “O Tempo É Sua Morada (Celebrar)” possui um ritmo calmo e serve como respiro para o ouvinte em meio a toda fuligem do fogo das outras músicas.

No álbum de estreia as músicas de batidas reflexivas eram mais predominantes como “Sincero”, “Triste, Louca Ou Má” e “Axé, Auê, Sem Fuzuê”.

Outra mudança é o uso menos recorrente da crítica política explícita como acontecia nas canções de 2016 “Bolso Nada” e “Tá Com Dólar, Tá Com Deus”. Isso não significa que a banda tenha ficado menos engajada, mas apenas que as “críticas sociais fodas” ficaram mais nas entrelinhas.

A faixa com uma referência menos escondida é a última do disco “Se Hoje Tá Assim (Imagina o Amanhã)”. Com destaque para esses versos:  Viatura dita o medo (medo de sair) / Na moldura, retrocedo / De censura, vive o medo (medo de cair) /Criatura, surto cedo.

Com exceção de “O Tempo É Sua Morada”, a faixa mais outsider do disco, todo o álbum é uma enorme convocação para sair da zona de conforto, se mexer e tomar atitudes pró-ativas.

Um dos refrões que mais representa o espírito de RASGACABEZA é o da faixa “Parafuso Solto (Ponto Morto)”, que faz um dos convites mais fortes para sair da inércia:


Vai, acreditando que não cai
Pisa fundo até onde dá
Se essa bobina se afogar
Troca a peça e da-lhe pau
Já não arranco nem a pau
E o couro aguenta malemar
Meu sangue é óleo sujo
E minha mente rente à beira vai

Francisco El Hombre fez um movimento arriscado ao romper com a fórmula que o levou ao sucesso com SOLTASBRUXA, mas a jogada resultou em um trabalho de igual qualidade, ainda que por outros motivos.

RASGACABEZA mantém a essência das influências de MPB e raízes latinas do Francisco El Hombre, mas sai da zona de conforto ao apostar em algo que pode parecer na superfície o agito pelo agito, mas que no fundo traz a mesma veia política apresentada nas músicas de 2016.

OUÇA: “Travou (Tela Azul)”, “Encaldeirando (Aqui Dentro Tá Quente)”, “Parafuso Solto (Ponto Morto)” e “Manda Bala Fogo (Não Preciso De Você)”

Pond — Tasmania



A banda-irmã do Tame Impala pega emprestado o nome da famosa ilha próxima à Austrália para ambientar seu oitavo álbum de estúdio em pouco mais de dez anos. Produzido conjuntamente por Kevin Parker com o grupo, Tasmania apresenta um Pond ainda mais dançante e acessível, que parece começar justamente de onde terminou em The Weather (2017). Também aqui o rótulo de psicodelia está atrelado a uma estrutura de canção pop, seguindo a mesma trilha que Parker tem feito desde 2015 em seus projetos e produções.

Por falar na produção, de fato não se pode reclamar de uma falta de esmero. Em comparação com a fase mais rockeira da banda em álbuns como Hobo Rocket (2013), tudo soa muito mais polido aqui. Vocais, entre os mais limpos e os distorcidos, estão bem mixados com o restante do grupo, e há linhas melódicas de sintetizadores e baixos eletrônicos bem trabalhadas que dão base a toda a obra. A capa colorida engana um pouco: sim, é um som bastante solar esparso que te espera no novo trabalho, mas nem de longe tão variado quanto pode fazer parecer a fachada arco-íris.

Se a banda peca aqui, é justamente pela repetição e pela artificialidade. Isso já fica evidente nos seis minutos de “Daisy”, primeira faixa e um dos singles do álbum. Ela inicia com uma criativa mudança de andamento de uma introdução mais relaxante para um ambiente festivo, porém logo redunda em um mar de timbres pouco originais e uma cozinha que remete à psicodelia dançante surgida em fins dos anos 80, sem muito a acrescentar. Sem falar na coda arrastada que parece perdida, ocupando quase dois minutos ao final…

Esse tipo de escolhas sonoras permeia basicamente todo o trabalho, que alterna muito pouco entre os dois climas apresentados na abertura. Não é de todo ruim: a tentativa gera canções que isoladamente tem seus méritos, como nos questionamentos sobre pertencimento da título “Tasmania”, na transitória “Goodnight, P.C.C.” (atenção especial para a linha percussiva) e em “Burnt Out Star”, maior música do disco em duração e grandiosidade. Contudo, essa alternância pequena faz os 48 minutos parecerem maiores do que são, por puro excesso do mesmo.

Liricamente falando, o disco pode parecer bobo ou nonsense em uma primeira audição; contudo, há temas profundos ocultos em vários momentos. Crueldade social (“The Boys Are Killing Me”), a busca/cobrança por politização nas letras (“Hand Mouth Dancer”) e a fama (“Burnt Out Star”) são alguns dos tópicos discorridos, principalmente por Nick Allbrook, que co-assina nove das dez faixas. Não há passagens muito memoráveis, mas também não existe contraste agressivo entre letra e música, o que garante fluidez na escuta ao menos nesse aspecto. E assim, Tasmania se encerra trazendo um Pond em terreno sonoro conhecido e bem produzido, mas com pouca inventividade e diferenciação entre as canções.

OUÇA: “Goodnight, P.C.C.” e “Burnt Out Star”