Mac DeMarco – Here Comes The Cowboy


É chegada a hora de dizer a verdade. Não há mais escapatória. As aparências não mais podem enganar. Fato é que eu sou fã de Mac DeMarco. Gosto muito. Eu sei, tem gente que diz que é superestimado. Que virou meme. Que é genérico. Não me importo com essas discussões. Sou uma pessoa simples: ouço Mac Demarco e me sinto feliz e satisfeito com a vida. Quando vi pela primeira vez seu A Take Away Show no canal La Blogothèque, fiquei embasbacado. Comprei um violão só para aprender os riffs do início de “Still Beating” e sair também pelas ruas cantando, fumando, conversando, intercalando os sons da canção com o ambiente barulhento, sirenes e crianças brincando. Esse show, por si só, merecia um review. Acontece que o músico acaba de nos presentear com seu novo álbum, Here Comes The Cowboy, um disco íntimo produzido por ele próprio – e é sobre esse episódio que esse texto se debruçará. Acenda seu cigarro.

Ouvir um álbum de Mac DeMarco é como fazer terapia. Mas é ele quem está no divã, você é o terapeuta, escutando. Desde seu primeiro trabalho, o artista construiu um eu-lírico sincero, indulgente, compassivo. Lamenta-se pelos tempos que foram e não mais voltarão, pelo cansaço da vida cotidiana, pelas mulheres que amou, pelos relacionamentos que não deram certo. Tudo isso tocando uma guitarra como se fosse dormir em qualquer momento. E funciona. Em Here Comes The Cowboy, há mais do Mac Demarco de sempre. E só isso, na verdade. Eu me contento, mas se você espera ouvir algo que seja ousado, experimental e diferente do que o músico tem apresentado em sua carreira, talvez esteja decepcionado. Ainda assim, convenhamos, é sempre bom experimentar a intromissão de canções despreocupadas e odes a cigarros na dinâmica da costumeira rotina.

E quando digo que o novo álbum é apenas um pouco mais do que usualmente se espera de DeMarco, estou, de certa forma, glorificando o disco. O primeiro single, “Nobody”, é genuinamente bom, em todos os sentidos. Paradoxalmente, Mac faz alusão ao fato de que tornou-se uma criatura, um ícone da música – ainda que uma parte de si almejasse ser um artista reconhecido, a outra parte ainda sente saudades do anonimato, da pessoa comum, desconhecida. Uma posição que não há volta: ‘I’m the preacher / A done decision / Another criature / Who’s lost its vision.

Em ‘K’, DeMarco faz um tributo à sua namorada, Kiera McNally, e, olha, ela deve ter curtido bastante. Em entrevista para a revista Huck, diz: “Me and Kiera have known each other six years longer than we’ve dated. It took time for us to get here but she’s part of who I am, I’m part of who she is, and I wouldn’t want it any other way. I’m really lucky”. Em um riff melancólico, o eu-lírico evidencia a experiência de crescer em um relacionamento e junto com ele: “Still so much for me to learn / And as I do, my love stays with you”. Que bonitinho, gente.

E é de amargar o coração, mas nem tudo são flores. O álbum segue uma linha melódica bem sutil, com riffs calmos e um arranjo instrumental leve. E esse é o problema: em muitos momentos, parece que falta algo. Um clímax, um refrão, um entusiasmo. O álbum tem quarenta e seis minutos e às vezes a mudança de faixa não é perceptível para os ouvintes menos atentos. Isso sem falar da terrível “Choo Choo”. Péssima. Pulem essa e tudo certo.

No geral, Here Comes The Cowboy é um bom disco. Há faixas esquecíveis, sim, mas vale a pena. Nada como as obras primas anteriores (não que caiba a comparação), mas um deleite que tem seu merecimento, no fim das contas. Por fim, encerro com um trecho da canção ‘Little Dogs March’, talvez um prelúdio do fim desse estágio de quase sete anos escrito pelo próprio DeMarco: “hope you had your fun…all those days are over now”.

OUÇA: “Nobody”, “Little Dogs March”, “Heart To Heart” e “K”

Foxygen – Seeing Other People


Não é justo tentar comparar minha relação com bandas e a minha relação com pessoas, mas a tentativa de forjar uma trajetória propositalmente “falida” e tornar isso uma piada praticamente não me deixam opção: talvez o Foxygen esteja Seeing Other People para fazer esse disco e tenha, dessa forma, encerrado uma relação consigo mesmo nesse processo de ampliação de referências.

Foxygen, como outras bandas tipo The Lemon Twigs, faz do rock anos 60-70 sua principal referência. Como aconteceu quando fiz a resenha do Go To School, tenho alguma preocupação pelo futuro de uma banda cujas referências estão majoritariamente em um passo que é bem exaustivamente visitado no indie rock. Não porque isso seja um problema, na verdade, é impossível fugir disso, de fato, mas porque isso coloca um limite nos trabalhos. Em alguma medida, e correndo o risco de soar especulativa, Seeing Other People parece a ida inevitável em direção ao glam rock que seria capaz de ao mesmo tempo manter uma trajetória coerente para o Foxygen (e impedir a total exaustão dos fãs caso a banda insistisse ainda mais no referencial “Velvet Undergroundesco”) e indicar o fim de uma era que define o estilo da banda como um todo.

Porém, em Seeing Other People, essa trajetória não soa natural, soa apenas inevitável e, em alguma medida, melancólica e cômica. Em alguns momentos (como na faixa-título “Seeing Other People”) isso parece extremamente caricato de si mesmo, como se o Foxygen estivesse fazendo um cover de Foxygen com um baixo forte e bem cheio de swag. Não soa nada mal quando coloco nesses termos, mas soa surpreendentemente cômico quando se escuta de fato.

Apesar de tudo isso, as músicas não são ruins e é um disco divertido. “Work” e “Face The Facts” trazem alguns elementos cômicos em suas letras e, junto da presença forte de um piano otimista e que tem sons de auto superação, montam uma imagem irônica de rockqueiros em fim de carreira para Seeing Other People.

O problema é: fica impossível saber até que ponto essa performance de fim de carreira é algo que pode ser uma piada engraçada que vai ser seguida por um próximo álbum a nível We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic ou se vai indicar, de fato, o esgotamento total do Foxygen. Vamos aguardar.

OUÇA: “Work”, “Seeing Other People” e “Face The Facts”

Weyes Blood – Titanic Rising



Esta foi a primeira vez que entrei em contato com a produção do Weyes Blood, projeto prolífico da americana Natalie Mering, que lançou seu debut em 2011, com The Outside Room. E o primeiro play que dei em Titanic Rising, quarto álbum da cantora, eu já pensei “ora ora temos aqui uma discípula de Joni Mitchell.”

Se você se encanta por essa estética folk anos 1970, de The Carpenters, Carole King e Cass Elliot, seja bem-vindo. Titanic Rising é um refinamento dessa estética com um ar atualizado, as prenúncias de um novo retro-futurismo já cantado anteriormente por artistas como First-Aid Kit e Julia Holter.

Sendo assim, tudo iria de vento em popa para essa resenha: sonoridade familiar, melodias aconchegantes, até a própria capa do álbum um deleite visual por si só. Mas assim que “A Lot’s Gonna Change” terminou, e deixou uma atmosfera soturna e melancólica no ar eu perdi o rumo. ‘Let me change my words, show me where it hurts’. E tudo dói, acredite em mim.

Mering se aventura liricamente por um universo profundo e delicado, cantando com honestidade sobre melancolias que podem ser até disparos para uma tristeza reprimida. É um olhar calmo para o caos que encanta e desconcerta. A jornada onírica do álbum lentamente ganha contornos de esperança conforme o registro avança, até culminar em “Nearer To Thee”. A faixa instrumental combina com a faixa de abertura e dá uma noção cíclica para o produto.

O álbum é uma sequência de pontos altos, e não há partes que pareçam deslocadas. Tudo se encaixa. A radiofônica “Everyday” é genial eu sua letra jocosa. ‘True love is making a comeback for only half of us, the rest just feel bad‘. Em “Mirror Forever”, o ritmo fúnebre é embalado por uma letra tão concisa que mostra que Mering é de um esmero no estúdio invejável.

Todo esse liricismo apoiado em arranjos de orquestra e synths muito atualizados, como é o caso de “Movies” ou “Andromeda”, tão ricas em instrumental que poderiam se sustentar sem vocal algum. Eu poderia fazer citações de cada uma das canções, esmiuçar cada um dos violinos, apenas para mostrar que aqui está um dos melhores trabalhos do ano.

Depois de duas semanas escutando o álbum, finalmente consegui me tornar um pouco imune à melancolia que as canções emanam Fica então um veredito menos desesperador : Titanic Rising é sobre tristeza, mas é sobre esperança mais que tudo. Um feixe de luz reverso, que sai do fundo sombrio do oceano e vai de encontro a superfície, à procura de mais luz. O Weyes Blood fez um produto impecável e que certamente será lembrado no futuro.

OUÇA: “Everyday”, “Andromeda” e “Movies”.

Francisco, el Hombre – RASGACABEZA



Francisco El Hombre volta depois de 3 anos de SOLTASBRUXA, primeiro álbum de estúdio e que levou o grupo a ter projeção no Brasil. Em RASGACABEZA a banda meio mexicana e meio brasileira investiu em uma mudança drástica e apostou em uma homenagem ao agito com o uso de inúmeras metáforas sobre fogo.

Das 8 faixas, apenas a sexta “O Tempo É Sua Morada (Celebrar)” possui um ritmo calmo e serve como respiro para o ouvinte em meio a toda fuligem do fogo das outras músicas.

No álbum de estreia as músicas de batidas reflexivas eram mais predominantes como “Sincero”, “Triste, Louca Ou Má” e “Axé, Auê, Sem Fuzuê”.

Outra mudança é o uso menos recorrente da crítica política explícita como acontecia nas canções de 2016 “Bolso Nada” e “Tá Com Dólar, Tá Com Deus”. Isso não significa que a banda tenha ficado menos engajada, mas apenas que as “críticas sociais fodas” ficaram mais nas entrelinhas.

A faixa com uma referência menos escondida é a última do disco “Se Hoje Tá Assim (Imagina o Amanhã)”. Com destaque para esses versos:  Viatura dita o medo (medo de sair) / Na moldura, retrocedo / De censura, vive o medo (medo de cair) /Criatura, surto cedo.

Com exceção de “O Tempo É Sua Morada”, a faixa mais outsider do disco, todo o álbum é uma enorme convocação para sair da zona de conforto, se mexer e tomar atitudes pró-ativas.

Um dos refrões que mais representa o espírito de RASGACABEZA é o da faixa “Parafuso Solto (Ponto Morto)”, que faz um dos convites mais fortes para sair da inércia:


Vai, acreditando que não cai
Pisa fundo até onde dá
Se essa bobina se afogar
Troca a peça e da-lhe pau
Já não arranco nem a pau
E o couro aguenta malemar
Meu sangue é óleo sujo
E minha mente rente à beira vai

Francisco El Hombre fez um movimento arriscado ao romper com a fórmula que o levou ao sucesso com SOLTASBRUXA, mas a jogada resultou em um trabalho de igual qualidade, ainda que por outros motivos.

RASGACABEZA mantém a essência das influências de MPB e raízes latinas do Francisco El Hombre, mas sai da zona de conforto ao apostar em algo que pode parecer na superfície o agito pelo agito, mas que no fundo traz a mesma veia política apresentada nas músicas de 2016.

OUÇA: “Travou (Tela Azul)”, “Encaldeirando (Aqui Dentro Tá Quente)”, “Parafuso Solto (Ponto Morto)” e “Manda Bala Fogo (Não Preciso De Você)”

Pond — Tasmania



A banda-irmã do Tame Impala pega emprestado o nome da famosa ilha próxima à Austrália para ambientar seu oitavo álbum de estúdio em pouco mais de dez anos. Produzido conjuntamente por Kevin Parker com o grupo, Tasmania apresenta um Pond ainda mais dançante e acessível, que parece começar justamente de onde terminou em The Weather (2017). Também aqui o rótulo de psicodelia está atrelado a uma estrutura de canção pop, seguindo a mesma trilha que Parker tem feito desde 2015 em seus projetos e produções.

Por falar na produção, de fato não se pode reclamar de uma falta de esmero. Em comparação com a fase mais rockeira da banda em álbuns como Hobo Rocket (2013), tudo soa muito mais polido aqui. Vocais, entre os mais limpos e os distorcidos, estão bem mixados com o restante do grupo, e há linhas melódicas de sintetizadores e baixos eletrônicos bem trabalhadas que dão base a toda a obra. A capa colorida engana um pouco: sim, é um som bastante solar esparso que te espera no novo trabalho, mas nem de longe tão variado quanto pode fazer parecer a fachada arco-íris.

Se a banda peca aqui, é justamente pela repetição e pela artificialidade. Isso já fica evidente nos seis minutos de “Daisy”, primeira faixa e um dos singles do álbum. Ela inicia com uma criativa mudança de andamento de uma introdução mais relaxante para um ambiente festivo, porém logo redunda em um mar de timbres pouco originais e uma cozinha que remete à psicodelia dançante surgida em fins dos anos 80, sem muito a acrescentar. Sem falar na coda arrastada que parece perdida, ocupando quase dois minutos ao final…

Esse tipo de escolhas sonoras permeia basicamente todo o trabalho, que alterna muito pouco entre os dois climas apresentados na abertura. Não é de todo ruim: a tentativa gera canções que isoladamente tem seus méritos, como nos questionamentos sobre pertencimento da título “Tasmania”, na transitória “Goodnight, P.C.C.” (atenção especial para a linha percussiva) e em “Burnt Out Star”, maior música do disco em duração e grandiosidade. Contudo, essa alternância pequena faz os 48 minutos parecerem maiores do que são, por puro excesso do mesmo.

Liricamente falando, o disco pode parecer bobo ou nonsense em uma primeira audição; contudo, há temas profundos ocultos em vários momentos. Crueldade social (“The Boys Are Killing Me”), a busca/cobrança por politização nas letras (“Hand Mouth Dancer”) e a fama (“Burnt Out Star”) são alguns dos tópicos discorridos, principalmente por Nick Allbrook, que co-assina nove das dez faixas. Não há passagens muito memoráveis, mas também não existe contraste agressivo entre letra e música, o que garante fluidez na escuta ao menos nesse aspecto. E assim, Tasmania se encerra trazendo um Pond em terreno sonoro conhecido e bem produzido, mas com pouca inventividade e diferenciação entre as canções.

OUÇA: “Goodnight, P.C.C.” e “Burnt Out Star”

Kurt Vile – Bottle It In


Bottle It In é o sétimo álbum de estúdio de Kurt Vile. Aqui, o artista continua experimentando com as sonoridades que estavam presentes nos seus dois últimos trabalhos, b’lieve I’m going down, de 2015 e o álbum colaborativo com Courtney Barnett, Lotta Sea Lice, de 2017. Para quem gostou dos últimos discos, este novo trabalho é, então, um prato cheio.

Em um dos clipes lançado com Barnett, nós vemos muito do dia a dia do ex-The War on Drugs: a vida com a família, as paisagens oceânicas que os cercam. As canções desse álbum, em especial faixas como “Mutinies” e “Bassackwards”, poderiam muito bem servir de trilha sonora para esses momentos. No novo disco, assim como em produções anteriores, as influências de Vile e seu gosto pelo country ficam evidentes. A temática, por sua vez, fica evidente do título do álbum: Kurt Vile canta sobre os sentimentos que às vezes escondemos bem no fundo de nós – não de uma forma melancólica, mas sim resignada, reconhecendo essas sensações.

Além de ser um álbum com uma sonoridade homogênea, que segue o que ele já vinha produzindo, o cantor entrega este novo trabalho sem se importar muito em ser radiofônico – algumas músicas ultrapassam os dez minutos. Assim, Vile não parece muito preocupado se o ouvinte está acompanhando ele durante sua viagem musical – a faixa-título, uma das que têm mais de dez minutos de duração, é uma das melhores do álbum. É justamente por estar seguro do produto que está entregando que o disco funciona. Além disso, Vile conta com a participação de vários artistas para comporem as vozes que emprestam leveza às músicas. Entre as participações especiais, Bottle It In conta com Mary Lattimore, Cass McCombs, Stella Mozgawa (do grupo Warpaint), Holly Laessig e Jess Wolfe (da banda Lucius) e as guitarras de Kim Gordon (do Sonic Youth, em si uma das influências de Vile).

OUÇA: “Bottle It In”, “Mutinies” e “One Trick Ponies”

Jungle – For Ever


O primeiro álbum do Jungle me conquistou e grudou em meus ouvidos de uma maneira que quando descobri o som deles, não parei de ouvir por semanas. Tive inclusive a oportunidade de ouvi-los ao vivo, o que só fez minha paixão crescer ainda mais. Agora, 2 anos depois, lançam For Ever e, com esse segundo projeto mostram que paixão pode sim ser convertida em um relacionamento sério de anos.

Parte do poder que a música tem sobre nossos cérebros é enraizada na memória. Se quando você ouviu pela primeira vez aquela música, estava passando por um mau momento, a associação provavelmente não será das melhores. Já passei por maus bocados ouvindo Jungle e nunca consegui associar as músicas da banda com a tristeza do momento. Muito pelo contrário, é a banda a qual eu recorro quando preciso de um boost de energia e vitalidade.

Quando pediam pra descrever o som de Jungle, eu sempre descrevia como uma mistura do estilo dos BeeGees com as batidas de Daft Punk, mas sempre achei uma descrição incompleta. Em For Ever, o grupo inglês não se distanciou de seu som característico recheado de falsetos, ritmos hipnotizantes de batidas eletrônicas e uma parede de som ao fundo das faixas que afunda você no mundo que Jungle cria em cada música. É impressionante. Ainda é o mesmo som de Jungle, mas o grupo também experimenta o suficiente para que o álbum não caia na mesmice.

Com letras abordando temas desde relacionamentos até introspecção e auto-reflexão, Jungle nunca foi uma banda que só joga palavras em batidas chicletes esperando que vire um hit. É uma banda complexa, com um potencial enorme para grandes coisas e que continua me conquistando até hoje. Se você tiver oportunidade, veja-os ao vivo. É uma experiência de outro mundo.

Uma última sugestão: na primeira escutada do álbum, deite e use fones de ouvido. Depois, pode estourar sua caixa de som. Jungle não é uma banda para ser escutada baixo. #Jungle4Ever

OUÇA: “Cherry”, “Beat 54 (All Good Now)” e “Heavy, California”

Spiritualized – And Nothing Hurt


Spiritualized é uma banda que foi formada em Warwickshire, na Inglaterra, por Jason Pierce – também chamado de J. Spaceman – no início dos anos 90. Assim, trata-se de uma banda com uma bagagem musical extensa e que sempre surpreendeu seus ouvintes com seus registros lançados por conta de sua potência sonora.

Agora, após seis anos, Spiritualized lança seu oitavo álbum de estúdio intitulado And Nothing Hurt. Durante a primeira audição, nos deparamos com um registro sonoro repleto de sentimentos  e também com muitos detalhes, sejam com os arranjos, os vocais e/ou  as guitarras, isto é, nos deparamos com um belo conjunto de camadas instrumentais/vocais crescentes e decrescentes durante toda a execução do álbum. Logo, é inegável que a produção do álbum é interessantíssima, rica em detalhes e melodias, e muito bem elaborada/executada por Jason Pierce.

And Nothing Hurt nos mostra uma faceta mais confessional, intimista de Jason Pierce,  fazendo com que o registro soe mais melancólico e íntimo do que trabalhos anteriores de Spiritualized. Sendo assim, o álbum é um compartilhamento de sentimentos muito bem musicados e que deixa em evidência a entrega, o mergulho de Jason Pierce em cada composição, em cada detalhe presente no registro.

Em linhas gerais, Jason Pierce criou um álbum sem pressa, mergulhou nele de todas as formas possíveis e nos mostrou toda a sua entrega sentimental e musical sendo materializada em nove faixas muito bem elaboradas/executadas e tão graciosas de se ouvir. Por fim, mesmo que Spiritualized tenha uma trajetória de mais de duas décadas, And Nothing Hurt não deixa de surpreender e de ser um registro sonoro marcante para a banda, ou seja, And Nothing Hurt não é um álbum morno e está longe de ser, ele é um álbum profundo e vemos Jason Pierce se despir nele e mergulhar em toda a sua imensidão sonora.

OUÇA: “A Perfect Miracle”, “Let’s Dance”, “Damaged”, “The Prize” e “Sail On Through”

Hey Geronimo – CONTENT


Meu primeiro contato com Hey Geronimo foi estritamente por conta dessa resenha. A banda de Brisbane fugiu do meu radar com seu primeiro álbum, Crashing Into The Sun, de 2016. Procurando sobre o histórico da banda, esbarrei em um artigo recente do site australiano Music Feeds em que a banda falava sobre o In Rainbows do Radiohead. Pouco mais do que aquilo foi necessário para eu me interessar em o que eles tinham para mostrar.

CONTENT, segundo álbum da banda, é indie nostálgico criado à partir de uma premissa distópica. Uma crítica ao mundo ultra-moderno, com tecnologia intrínseca e desmaterialização das relações interpessoais (que pode soar um pouco banky no contexto atual). Isso conjugado a synths psicodélicos, seguindo a linha que Tame Impala e MGMT fizeram em trabalhos passados. No entanto, é louvável que eles tenham ido a fundo na temática que eles já flertavam desde o álbum de estreia. Em metade das faixas está creditado Alex, uma inteligência artificial responsável por composições e arranjos dentro do álbum. O tema é extremamente explícito liricamente, com faixas como “Working For Google” e “Disconnect”.

O álbum abre com “The Last Public Telephone”, e progressivamente vai avançando em direção a uma sonoridade mais palatável, mais próximo do post-punk, com batidas mais rítmicas e guitarras mais presentes. Ainda há suficiente espaço para elementos eletrônicos e distorções e tudo corrobora no conceito final. Faixas como “Too Human”, “Young Again” e a excelente “Bad Citizen” são tão cativantes que a comovem o ouvinte. Serve para lembrar que o indie rock mais formuláico pode ser extremamente agradável quando feito com entusiasmo e dedicação.

A dobradinha final, com “Seat 8A” e “Faster Than Light”dão o tom necessário de desfecho que todo bom álbum tema. O Hey Geronimo produziu um álbum coeso, excelente, e muito agradável. Apesar de tratar de um tema ao qual eu pessoalmente sou averso, ainda foi bom o suficiente para cativar. Isso já é mais que necessário para que a banda entre no radar sonoro definitivamente e não saia por um bom tempo.

OUÇA: “Too Human”, “Young Again” e “Bad Citizen”

The Lemon Twigs – Go To School


É difícil pensar em alguma banda formada nos anos 2000 cujas influências iniciais não sejam calcadas no cânone do rock clássico: Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Pink Floyd, Queen e por aí vai. Cada grande banda da virada do milênio com sua especificidade de influências, todos os grandes nomes beberam dos clássicos: de Oasis a Arctic Monkeys no Reino Unido, de Muse a Strokes nos Estados Unidos, todo esse pessoal, em algum ponto de sua formação musical, discutiu com os colegas de banda qual era o melhor disco dos Beatles.

Isso foi especialmente marcante no início dos anos 2000 com as primeiras bandinhas de indie rock dançante, à la Fratellis, The Kooks, The Wombats, cujas raízes nos elementos retrôs desse “rockzinho” eram elementos marcantes, mas pareceu se afastar da produção mais atual no indie-rock-pop, que tira sua firmeza de elementos do início da eletrônica, do punk e de um folk não-acústico, como Hinds, Mac DeMarco, Homeshake e por aí vai. Os elementos de retrô seguem fortes, mas não mais pautados no rock de pai.

Quem vai na contramão dessa onda são os irmãos D’Addario que, sob nome artístico de The Lemon Twigs, lançam seu segundo álbum, Go To School. Fortemente pautado nesse rock clássico, o som dos meninos de 19 e 21 anos me transporta para minha própria adolescência e início de formação musical: discussões pautadas em Beatles x Rolling Stones e uma influência estética forte de Swinging London, uma busca forte por bandas de rock dos anos 70.

Fortemente apoiado em melodias simples, com muito violino, piano e vocais afinados, Go To School aposta em uma narrativa que se estende pelo disco inteiro: a de um macaco adolescent criado por humanos que passa por todos os processos de questionamento (de si, da sociedade, do mundo) que adolescentes humanos. Em letras (e melodias) pouco grudentas, os meninos D’Addario navegam pelas referências de rock clássico com bom humor e leveza, fazendo um disco confortável. Por vezes, a construção do menino macaco se torna um pouco cansativa — e afasta algumas melodias que poderiam ser mais hits pela necessidade de firmar uma progressão narrativa.

A mistura da metáfora simples dos embates sociais e existenciais do macaco e da volta à natureza com o conforto do instrumental “conhecido” por qualquer um que tenha o rock clássico como referência cria um disco que, como foi posto pelo Pitchfork, é perfeitamente adequado à idade e período de vida dos meninos. De caráter performático e meio glamuroso, eles trazem um contraponto interessante à cultura do despojado “feito em casa” que reina na música independente há quase duas décadas — apesar de a gravação do álbum ter ocorrido essencialmente no porão da casa dos pais dos D’Addario, que participam na produção do álbum.

Desde a estréia da dupla com Do Hollywood, em 2016, que já vinha com essa proposta “saudosista” forte, adotada com outras referências por bandas como Whitney, Foxygen e as próprias meninas HAIM, os Lemon Twigs se mostram bastante promissores. Go To School é o encaminhamento do que foi iniciado há dois anos: jovens em busca de uma voz própria em meio a muitas referências variadas e ricas. Porém, assim como o experimentalismo pelo experimentalismo pode ser cansativo, o retrô em excesso é limitado. E, a julgar pelo repeteco de Go To School, pode ser um desafio para os D’Addario vislumbrar novos horizontes e formular uma identidade pautada, bem, neles mesmos.

OUÇA: “The Fire” e “Wonderin’ Ways”