Hands Like Houses – Anon.


Após um período de dois anos desde o último álbum, os australianos do Hands Like Houses estão com um novo trabalho na praça e já adianto: você faria melhor em não criar tantas expectativas. Antes, porém, de começar a falar sobre o lançamento em questão, gostaria de retomar, brevemente, a trajetória do quinteto de Camberra. Caso você não os conheça, lá vai: a banda existe há dez anos, mas seu debut foi exposto ao mundo apenas há seis. Desde então, foram mais três álbuns – contando com o atual, Anon. O primeiro contato que tive foi com o belíssimo Unimagine – em parte pela capa, confesso – um trabalho leve, com fortes elementos de post-hardcore e alguns sutis aspectos eletrônicos. Não sei se de lá para cá mudei meu gosto por música ou os meninos tomaram outro rumo, mas o fato é que o novo álbum tem um total de uma música a qual você poderia mostrar aos seus amigos sem passar vergonha. Sério.

Para começar, o segundo single de Anon, “Monster”, foi anunciado como tema do programa WWE em sua turnê australiana e, sejamos sinceros, isso não é um bom sinal. Se sua banda faz um som que pode ser usado pela WWE, alguma coisa está errada e nesse caso não foi diferente. Ainda assim, fã é uma raça persistente. Mesmo com dois singles que não seriam capazes de servir nem no despertador, estávamos lá quando saiu o álbum. Primeiro play e… surpresa. A primeira música é genuinamente boa. Poderia facilmente estar em algum trabalho antigo. De fato, deixei no repeat por alguns minutos. Em “Kingdom Come” a harmonia instrumental resgata diversas nuances que haviam sido utilizadas anteriormente pelo grupo, embora dessa vez permeada por um vocal nebuloso, quase etéreo, próximo daquele bastante recorrente no shoegaze. Em termos líricos, bastante interessante. Quase niilista. ‘I can’t pretend that it doesn’t plague me/ I can’t pretend that it hasn’t changed me/ I can’t pretend that I’m not afraid of the end/ I wonder/ Is God getting lonely?’. Em todo caso, a canção é curta tal como a felicidade do ouvinte. Daí para frente é ladeira abaixo.

Basicamente, você poderia descrever o álbum como a trilha sonora do menu de algum jogo genérico – palavra que descreve absolutamente todos os elementos do disco, salvo a primeira faixa. Em termos líricos, novamente, o disco  todo é bastante pobre. Temas clichês como demônios interiores tentando ascender e a confusão de lidar consigo mesmo: ‘overthinking’ – essa não é de todo ruim, by the way. Compare, por exemplo, alguma faixa com qualquer sucesso da banda Skillet e note a semelhança – se essa última faz parte da sua playlist, aliás, feche esse texto. O fato é que não tenho problemas com bandas ruins, mas quando grupos como Hands Like Houses – que já mostraram seu potencial em trabalhos brilhantes – entregam algo tão sintético e vazio de significado, a coisa realmente te deixa chateado. Perante toda essa questão, não posso deixar de pensar que, no fim das contas, não há dúvidas: um fã de Jota Quest certamente adoraria Anon. Melhor seria, com o perdão do trocadilho, permanecer no anonimato.

OUÇA: “Kingdom Come”, “Monster” e “Overthinking”

We Were Promised Jetpacks – The More I Sleep, The Less I Dream


Amadurecimento é um tópico complicado quando falamos sobre artistas musicais. Sempre há dois casos: era ruim e ficou bom, ou o contrário. Logo, nem sempre amadurecer significa evoluir, dependendo do caso e da sua perspectiva sobre ele. Há bandas que decolam pra novas dimensões que nem sabiam que poderiam chegar, e outras que ficam estagnadas em uma experimentação barata ou desinteressante que afasta os fãs antigos que acompanhavam a banda pelo fogo nos olhos que elas possuíam no início.

Com The More I Dream, The Less I Sleep do We Were Promised Jetpacks, pode-se argumentar que o fogo não é mais o mesmo em questão de energia, mas não de formas de trazer uma mistura de emoções em suas canções. Se aqui não tem mais os riffs angulares e pegajosos dos primeiros trabalhos, isso é compensado com a meticulosa construção de uma sonoridade que chega a ser até mais aconchegante, mas se aproveitando de momentos mais vagarosos pra criar certa tensão, uma característica que se manifestava em algumas músicas antigas da banda, mas parece ter finalmente tomado forma nesse álbum.

E o que tem de mais interessante nesse novo álbum são os lampejos de paranoia e desconforto que se manifestam ao longo de seus 42 minutos, seja em uma guitarra mais dissonante do resto ou, principalmente, mas letras carregadas de angústia e incerteza do vocalista Adam Thompson como em “Repeating Patterns” que, além de ser a música mais energética e sombria desse trabalho, parece relatar problemas passados em público causados por ansiedade social, e como isso acaba se ocasionando em ações erráticas por parte de quem sofre com isso.

Esses relatos mais intimistas e complexos mostram uma evolução da banda em questão de criar narrativas, e é complementado pela forma como as canções aqui se juntam e moldam uma experiência de álbum. Isso acaba sacrificando um pouco do apelo pop, mas mesmo assim ainda tem vários momentos específicos de destaque aqui. O grande problema mesmo é pra quem vai escutar esse álbum esperando os riffs enérgicos pelos quais a banda ficou conhecida, e vai acabar decepcionando esse público. Mas, depois de algumas audições, a beleza dos espaços em que a banda permite suas canções a respirar acabam trazendo uma experiência que não é muito difícil de agradar a qualquer um que procura algo de agradável nesse gênero. É o caso de um amadurecimento que não depende só da banda, mas também de quem acompanha ela.

OUÇA: “Repeating Patterns”, “The More I Sleep the Less I Dream”, “Make It Easier”, “When I Know More”

JEFF the Brotherhood – Magick Songs


Em dezessete anos de banda, os irmãos Jake e Jamin Orrall nunca fizeram dois álbuns iguais mas uma coisa sempre se manteve constante: a presença de riffs marcantes costumava ser algo que definia o som deles. Em Magick Songs, somos apresentados a uma faceta totalmente diferente da banda, com o desaparecimento quase completo dos riffs poderosos e um trabalho muito mais focado na criação de atmosferas espaciais e de certa forma até místicas.

Uma coisa que se nota logo de cara é que, enquanto os trabalhos anteriores eram bastante claros e diretos tanto na estética instrumental quanto nas letras, Magick Songs soa muito mais enigmático e disperso. Essa diferença se reflete inclusive no processo de produção da banda, que costumava gravar todas as faixas de seus álbuns em poucos dias, mas pra esse último álbum levou em torno de cinco meses juntando pedaços de jam sessions diversas que rolaram entre eles em faixas que parecem mais colagens de experiências do que canções que se esperariam de uma típica banda de rock.

A letra curtíssima da faixa de abertura “Focus On The Magick” ao dizer que “only you can hear the sound” parece deixar claro que esse álbum é uma coisa feita pra olhar pra dentro de si mesmo e buscar entender a imensidão do universo que te cerca. O instrumental é trabalhado com uma melodia que cresce suavemente gerando expectativa pra um clímax que nunca vem pra depois cair abruptamente reforça esa característica cósmica que vai se repetir assumindo outras formas ao longo do registro. “Camel Swallowed Whole” aproveita o último acorde da primeira música e quebra brevemente o clima de viagem instrumental com uma estrutura 4/4 simples e verso-refrão bem definidos, o destaque aqui está pra fusão interessante entre duas linhas de guitarra muito diferentes entre si que acompanham uma linha de flauta doce que conduz a música inteira e some do nada nos momentos finais.

O clima místico é retomado em “Singing Garden” que utiliza uma estética e estrutura da música tradicional japonesa pra montar uma ponte pra “Parachute”, uma canção construída a partir de tempos quebrados com diversas camadas que traduz em seu instrumental e na letra o sentimento dúbio entre a liberdade e a melancolia de ser um viajante pelo céu. Essa dubiedade é expressa pela relação entre as linhas de guitarra e baixo mais downtempo enquanto a flauta, teclado e bateria levam ao mesmo tempo uma carga mais alegre.

“Celebration” e “Locator” trazem uma pegada mais espiritual usando percussões levemente inspiradas em batidas africanas e sintetizadores e sopros com uma pegada árabe pra passar essa mensagem. “Wasted Lands” segue na mesma vibe mas a levada de baixo e bateria parece bem preguiçosa e amarra de forma bem frouxa os elementos tão diversos que constroem a faixa, parecendo mais um improviso em cima de uma mesma base sem muita relação com o que vem antes ou depois. “Relish” que vem na sequência embora com pouquíssimos elementos passa muito mais uma mensagem de desprendimento da realidade e parece que o álbum poderia ter acabado aqui mesmo de uma forma muito mais consistente e interessante mas não é isso o que acontece.

De “The Mother” até “Farewell To The Sun”, o que vemos é o JEFF The Brotherhood que já conhecíamos de álbuns anteriores, trazendo riffs como condutores e bastante peso, com a diferença de usar estruturas inspiradas no post-punk e no industrial mais pesado dos alemães dos anos 80. São músicas muito bem construídas mas essa sequência final parece simplesmente um aproveitamento de sobras de álbuns anteriores e são totalmente desconectadas do que veio antes. As letras enigmáticas continuam ali mas me pergunto qual a necessidade de trazer a sua forma habitual de fazer música num último momento se desde o começo desse álbum eles vinham em um esforço de desconstruir expectativas e marcar um novo momento pra banda.

De forma geral, em seu décimo terceiro álbum, os irmãos de Nashville parecem que pararam de procurar o riff perfeito e passaram a buscar alguma outra coisa. Mas o que eles buscam? Ainda é difícil saber.

OUÇA: “Focus On The Magick”, “Parachute” e “Relish”

Nine Inch Nails – Bad Witch


Chegar aqui e dizer que Bad Witch é um retorno à forma para Trent Reznor e ao mesmo tempo algo novo e experimental é a saída fácil. Escrever que a volta das guitarras e vocais extremamente destorcidos envolvidos por sons atmosféricos macabros é um revival do som industrial pesado dos tempos de Broken, The Downward Spiral e The Fragile é pouco. Não, acho que o caso aqui é um pouco mais do que isso. Minto, BEM MAIS.

E mesmo que por cima pareça que Bad Witch é so um músico em uma crise de meia idade resmungando sobre os rumos que a humanidade está tomando e tentando ser ‘edgy’ como nos velhos tempos, há elementos nas entrelinhas que dizem muito sobre seu estado mental atual e como ele lida com isso. O nome do álbum, das faixas, a capa, toda essa imagética formada em torno do projeto aponta pra outra coisa. Há uma certa espiritualidade aqui que torna toda a experiência mais complexa, esotérica e interessante de se destrinchar, trazendo uma dualidade que só se revela a partir do momento que você começa a reparar nos detalhes da obra.

Sim, a crítica de como a sociedade bate palmas para a decomposição de qualquer rastro de dignidade restante é muito presente, batendo diretamente na cara de quem elegeu Trump como presidente dos Estados Unidos. Mas há um outro lado dessa história, algo que aspira a transcender todos esses clichês que nós esperamos de “músicos revoltados com política”. De certa forma, esse álbum soa como um jeito que Trent encontrou de tentar se reconectar com seu velho amigo, David Bowie.

A metamorfose descrita em “Shit Mirror”, ao mesmo tempo que mostra uma visão pessimista do que os humanos estão se tornando com metáforas básicas, também parece se inspirar em uma figura que se transforma de modo a servir como símbolo de algo detestável dentro da sociedade, tal como Bowie usou sua persona de Thin White Duke na época do álbum Station to Station para promover um ser apático a diversos tipos de emoções humanas. Todo esse desdém sarcástico nas letras sobre a situação em que o mundo se encontra se prolonga pelo álbum, como em “Ahead Of Ourselves” e “God Break Down The Door” vemos um personagem desesperançoso, que só aceita seu destino.

E não é só no tema das letras que essa conexão faz sentido. A dinâmica entre vocais barítonos graves, padrões de tempo de batida puxados de gêneros como drum-and-bass e jazz e a inclusão de instrumentos de sopro mixados a uma atmosfera mórbida proveniente de sintetizadores carregados e build-ups pacientes remetem aos trabalhos de Bowie em seu último álbum, Blackstar, como uma tentativa de resgatar e prosseguir com a obra de seu amigo, como se a mesma estivesse incompleta.

E é aí que está o maior ponto desse projeto: ele também parece, de certa forma, incompleto. Teoricamente, faz parte de uma trilogia de EPs junto com os previamente lançados Not The Actual Events e Add Violence, mas na prática acaba se sobressaindo e se tornando um monstro próprio, com novas ambições e uma mensagem própria. Por exemplo, a capa possui 5 imagens, e uma delas foi usada como arte do single “God Break Down The Door”. Se são 5 imagens e cada uma representa uma música, está faltando uma imagem, certo?

Errado. A sexta imagem é o nulo, é o branco que preenche o resto do quadrado, e essa parte representa “Over And Out”. Uma canção vagarosa repleta de grooves que se aproxima da sonoridade mais recente dos álbuns do Nine Inch Nails descreve um desnorteamento por parte do narrador, como se ele estivesse tentando encontrar algo que não sabe o que é e se suas memórias estivessem se desvanecendo, e junto delas a sua existência se fosse junto. Mas quem é esse narrador? Depois de todas as referências à escondidas anteriormente no álbum, não seria surpreendente se essa fosse uma reflexão de Reznor sobre a relação de Bowie com ele.

O álbum termina com a frase “I’ve always been 10 years ahead of you, over and over again”. E se o Trent queria provar isso, Bad Witch executa exatamente esse propósito.

OUÇA: “God Break Down The Door”, “Over And Out” e “Ahead Of Ourselves”

Girls Names – Stains On Silence


Depois de um último álbum visivelmente mais comercial e da saída do baterista Gib Cassidy, os norte-irlandeses do Girls Names haviam dado uma parada, abandonando o protótipo do que viria a se tornar Stains On Silence. Com uma postura de nada a perder, os músicos remanescentes decidiram retomar o projeto, regravar as faixas engavetadas usando uma drum machine pra substituir o baterista e, com arranjos bem mais sombrios, lançaram um dos álbuns mais diferentes da banda.

Esqueça os acordes rápidos e riffs empolgantes dos trabalhos anteriores. Aqui eles mergulham fundo na parte mais pesada do post-punk que já influenciou o som deles no passado. A voz de Cathal Cully aqui fica sempre nas oitavas mais graves e às vezes até se confunde com o baixo tamanho o peso. Outra coisa que quase não aparece nesse álbum são refrões, as letras são grandes e densas e deixam pouco espaço pra algo que possa ser repetido junto. O mais próximo disso são algumas passagens de “The Impaled Mystique” e “Fragments Of A Portrait”.

O álbum tem uma atmosfera pesada e suja desde o primeiro momento. “25” que abre o disco te coloca em um lugar escuro com a cadência de bateria e o piano quase teatral. Tudo isso associado ao vocal profundo e a cama de cordas sintetizadas deixa o ar ainda mais pesado. A forma abrupta como a faixa termina reforça ainda mais essa ideia de perigo e medo. Na sequência, “Haus Proud” subverte a expectativa do ouvinte com uma linha de baixo, synths e bateria eletrônica típicos de um pop mais dançante mas tocados com acordes menores, brincando com esses elementos pra continuar com o clima soturno da faixa. A mixagem dessa canção em alguns momentos é bizarrísima, abafando em momentos aparentemente aleatórios alguns instrumentos e a voz sem nenhum controle e fica a dúvida se tudo isso faz parte do conceito ou se foi um erro grosseiro mesmo.

“The Impaled Mystique” lá no meio do álbum é ainda bastante densa mas é o menos sombrio que o álbum consegue chegar com seu quase refrão com um sintetizador, o vocalista atingindo as notas mais altas que ele vai fazer no disco todo e um riff que fica menos focado em reverbs e usa mais notas isoladas do meio pro final da faixa. Este é um dos momentos em que a falta de uma bateria real incomoda pois a dinâmica de solos entre os instrumentos é bem interessante mas o loop da baterial eletrônica é duro demais e quebra o som orgânico que acontece em volta.

As faixas “Fragments Of A Portrait”/”A Moment And A Year” são complementares, a primeira uma repetição incessante de um riff e algumas frases, a segunda um instrumental conceitual performada com sons pouco comuns mas organizada por alguns poucos acordes da faixa anterior. É um dos momentos esquisitos do álbum com longos momentos de silêncio e dissonâncias mas que casam bem com a proposta do álbum.

“Stains On Silence” é uma faixa interessante com sua melodia quase toda construída pela linha vocal em conjunto com um sintetizador. No entanto a repetição dessas poucas linhas de sintetizador, o loop da bateria que não casa muito bem com o que está acontecendo em volta e o comprimento exagerado pra uma faixa que poderia ser bem melhor se fosse menor, acabam fazendo com que o ouvinte perca o interesse lá pela metade dela.

Encerrando o álbum temos “Karoline” a faixa que mais lembra os trabalhos anteriores do Girls Names com a linha de bateria constutuída por muitos pratos e melodias construídas por arpejos de teclado e guitarra ainda bastante sujos mas bem menos pesados que as canções anteriores. Parece um pouco deslocada do restante do álbum mas é um momento isolado criativo onde os músicos deixam pouco espaço para o vazio numa dinâmica que alterna um instrumento por vez fazendo reverb enquanto os outros preenchem os compassos do meio com as notas do acorde arpejadas.

Em Stains On Silence vemos que os músicos estão bastante confiantes e fizeram o que quiseram nesse disco sem muita preocupação com o retorno do público. Mesmo com as dificuldades técnicas aparentes no álbum, temos aqui uma exploração de temas e estruturas do post-punk que, para além de trazer uma estética sombria, revela todo o potencial dos músicos de assumir riscos e tentar produzir algo conceitualmente interessante com poucos elementos à disposição.

OUÇA: “25”, “The Impaled Mystique” e “Karoline”

Lebanon Hanover – Let Them Be Alien


Cá estamos. É um prazer escrever sobre Lebanon Hanover. Há alguns meses, um amigo me apresentou a banda She Past Away e, desde então, resgatei meu eu fã de Joy Division e enveredei mais uma vez pelos caminhos do post-punk e darkwave. Dentre as diversas bandas que atingiram-me os tímpanos, devo dizer que Lebanon Hanover conquistou seu lugar ao sol em minha playlist. Devorei a discografia da dupla europeia em pouquíssimo tempo e não preciso dizer que fiquei extremamente ansioso com o anuncio do lançamento previsto para abril deste ano, o álbum Let Them Be Alien.

A última vez que o duo deu as caras foi há dois anos com o single “Babes Of The 80s”, cuja versão original ficou um tanto ofuscada pelo remix de Tobias Bernstrup – um tanto destoante do som que a banda costuma fazer, do ponto de vista técnico. Agora, Larissa Iceglass e William Maybelline embarcam mais uma vez em uma jornada de inquietação e desânimo em seu quinto álbum de estúdio. Prova da influência de Lebanon Hanover na onda atual do gênero pode ser verificada ao constatar que, em um mês, foram vendidas todas as mil cópias disponíveis do disco em vinil somente na pré-venda e em plena era do streaming – isso tudo antes de ser disponibilizado sequer o primeiro single, “Alien”.

Em uma primeira audição, o ouvinte desatento pode inferir que a música permanece em um continuo mais do mesmo. Não poderia estar mais enganado. Tecnicamente, é verdade que os vocais permanecem graves e sombrios, o baixo se mantém repetitivo e o teclado com fortes influências industriais. O contexto lírico, porém, muda completamente o cenário e estética da coisa. Dessa vez, o álbum trata de temas que tangenciam principalmente a inquietação social, a alienação e a miséria de viver em um mundo decadente. Ainda que nenhuma dessas asserções sejam necessariamente inéditas, é claramente perceptível a mudança de ênfase em relação aos trabalhos anteriores.

A primeira música, “Alien”, consegue sintetizar todo o álbum e sua filosofia em apenas cinco minutos, como o episódio piloto de uma série que promete ser bastante promissora. Partindo do conceito exposto no título e aliado à uma atmosfera instrumental inebriante e concomitantemente contagiosa, o eu lírico deixa evidente toda uma condição de alienação em relação ao resto da sociedade ‘and until then my desolation / will be my trademark / Iʼll always remain alien‘.

Em “Kiss Me Until My Lips Fall Off”, particularmente presente entre as minhas favoritas de toda a discografia, o duo mistura requintes de romantismo ao cotidiano obscuro e inerente a condição humana nos versos ‘I’ve tried everything to block out the pain / But it just seems to haunt me / In every possible way / Kiss me until my lips fall off / Kiss me until I start to rot’.

Encerrando com “Petals”, há uma ressignificação do conceito de escuridão – aqui, abarcando todo o espectro designado por ‘darkness’- , agora não mais como incerteza, tristeza ou pesar e sofrimento, mas, ao contrário, como terra natal, o único lugar confortável para aqueles que são alienígenas sociais e julgam-se a sós ‘deathly are my day / alone in my chamber / absent is joy when you’re not around / the dark has never been so dark / without you my sweetheart’.

Em linhas gerais, pode-se dizer que a música de Lebanon Hanover personifica e dá forma ao estado de espírito que caracteriza o gênero. Os riffs elegantes mesclados aos sintetizadores e graves profundos da dupla designam uma atmosfera intimista ao mesmo tempo que conversam com milhares de pessoas, uma de cada vez. As letras incorporam as insatisfações e ensejos daqueles que não sentem-se contemplados na vida em sociedade. Let Them Be Alien carrega tudo isso e muito mais em um registro ímpar de um som que todos que apreciam boa música fariam bem em dar uma chance.

OUÇA: “Alien”, “Kiss Me Until My Lips Fall Off”, “Petals” e “My Favorite Black Cat”

A Place to Bury Stangers – Pinned


Desde 2012, com Worship, o APTBS vem se aproximando de melodias mais tradicionalmente harmônicas. Uma tendência que se intensificou no disco seguinte e atinge o ápice em Pinned. Ainda podemos ouvir aqui aquela banda dos primeiros discos, mas é inegável que as prioridades da banda mudaram. Simplesmente fazer uma parede sonora com a força mais abrasiva possível não parece mais ser suficiente, e é fácil imaginar que alguns fãs mais apegados aos dois álbuns iniciais da banda sintam que está faltando algo. Realmente, o som de Pinned parece distante, mais abafado do que o normal. Como se, para não exagerar na violência, tivessem gravado atrás de uma retenção acústica, ou como se ouvíssemos um ruído altíssimo, mas de longe.

Essa distância, no entanto, traz um elemento que enriquece a sonoridade que a banda se propõe a construír. É mais fácil ouvir e entender a riqueza de detalhes quando nos afastamos um pouco. Com isso, APTBS se aproxima ainda mais das suas influências no shoegaze, dream pop e, particularmente, no post-punk. Qualquer uma dessas três categorizações parecem ser mais apropriadas para Pinned do que o noise rock com o qual eram rotulados anteriormente.

O conjunto de faixas é bastante coeso e de qualidade. Mesmo os elementos mais inesperados, como uns bons segundos ao som de uma furadeira, não parecem estar fora de lugar, mas antes lembram acenos à sua fase mais experimental. E representam momentos de inflexão no álbum, já que a estrutura da maior parte agora dá uma guinada a sonoridades mais palatáveis. Não que vá chegar às rádios que só tocam pop, longe disso, mas Pinned pode ser um bom ponto de entrada para quem não conhece a banda, ou quem tinha alguma ojeriza pelo excesso de ruído e de volume. Os riffs tem um espaço maior aqui do que em qualquer trabalho da banda, o que os torna, se não cantaroláveis, ao menos marcantes.

Esse quinto álbum reforça a impressão de que A Place to Bury Strangers é uma espécie de Jesus & Mary Chain dos anos 2000. Não só porque os experimentalismos de ambas fazem parte de um mesmo ramo que une o post-punk ao indie contemporâneo, mas porque agora podemos ver paralelos também na sua carreira. Assim como os J&MC acabou por se encantar das melodias mais convencionais, ainda que sem deixar sua identidade por completo, APTBS também parece ter atingido uma fase mais preocupada com o que podem fazer com sua música além de exprimir o caos e quebrar paradigmas. Pode ser uma forma de maturidade perceber que não podem continuar fazendo a mesma coisa de sempre, mas, felizmente, sem deixar de serem quem são.

A fraqueza de Pinned talvez seja até a de não se entregar tanto à harmonia e cultivar a dissonância. Falta uma faixa com a força que “You Are The One” teve em 2012, por exemplo. Um dos fatores fundamentais para isso é que as letras não estão particularmente fortes, tendendo a ficar num campo muito genérico. Ainda assim, provavelmente é o melhor álbum da banda até aqui. E, para os fãs, vale a pena ouvir a versão estendida, de mais de uma hora, que tem mais elementos que remetem à fase pré-Worship.

OUÇA: “I Know I’ve Done Bad Things”, “Situations Changes”, “Act Your Age” e “There’s Only One Of Us”

Preoccupations – New Material


Cada vez mais a tendência da música é voltar ao passado, utilizar uma ideia da época escolhida e fazer com que tal sonoridade alcance lugares que não alcançou em seu tempo. A volta de estéticas antigas, desde as cheias de neon dos anos 80 até as mais grosseiras dos anos 90, moldam diversos trabalhos não só na música, mas também na cultura pop em geral. Então, com isso o ciclo cultural retorna pro ponto original e a frase ‘old school is the new cool’ não soa mais tão errada.

Preoccupations (antiga Viet Cong) faz parte do revival post punk que vemos em massa desde o início dos anos 2000, logo não deveria mais nem ser tão essencial pra uma resenha falar sobre essa wave. Mas o caso aqui é que, de álbum em álbum, a banda mergulha cada vez mais em suas influências. Se antes eles seguiam o som de riffs angulares e pontudos de bandas como Gang of Four revestidos pela melancolia de outras como The Cure e Echo and the Bunnymen, nesse álbum tal melancolia se torna o foco. Com a angustia claustrofóbica catártica de músicas como “Espionage” e o aparente desapego emocional demonstrado em looping no refrão de “Disarray”, é difícil não se lembrar da sonoridade carregada do Joy Division.

Mas o diferencial desse trabalho é exatamente esse afastamento de um som mais energético pra investir em uma experiência mais “pesada”. Com o destaque de baixos e baterias cavernosas e vocais amargos, a guitarra deixa de ser o foco da música, trabalhando em conjunto com o resto para criar um clima mais obscuro, criando uma tensão em canções como “Doubt” e “Antidote” com um ritmo mais lento e calculado que se arrasta demais em certos pontos, perdendo a adrenalina que a banda passava posteriormente.

Porém, o álbum brilha mesmo em momentos em que se solta mais, criando melodias com um teor pop que tem a medida suficiente de bizarrice pra não ser radio friendly, como em “Disarray”. E no fim, a constante alternação em sua tracklist entre o desinteressante e o cativante, acaba removendo um possível clímax, ou qualquer motivo pra ouvir o álbum inteiro em uma tacada. Mas se quiser pegar algumas das músicas sugeridas abaixo pra ouvir, elas tem força o suficiente para manter qualquer entusiasta de post punk entretido.

OUÇA: “Disarray”, “Espionage”, “Decompose” e “Solace”

Suuns – Felt


O quarto álbum dos canadenses do Suuns chega em tom de transição, mas ao invés de se lançarem abruptamente em uma nova sonoridade, eles resolveram voltar ao próprio ponto de partida e fazerem algo com uma perspectiva diferente, e de volta ao berço de seus dois primeiros álbuns e sem muita pressa, Felt chega bem mais livre do rock de seus antecessores e aberto a toda inventividade que o Suuns se permitir.

Felt é um daqueles álbuns que definitivamente não são pra qualquer um, até mesmo pra quem é habituado com rock experimental e industrial; sons irritantes, descoordenados, em baixa frequência ou bem agudos são a cereja no topo do bolo da banda, e por mais estranho que possa soar, são esses os principais fatores que fazem de Felt um álbum bem consistente.O controle anterior que o Suuns tinha, tanto no aspecto instrumental quanto vocal, abre espaço para um som bem interpretativo e desapegado de harmonias óbvias, mesmo com algumas distorções em sua voz aqui e ali, os vocais são bem amigáveis, em especial pra quem é acostumado com artistas independentes, o Suuns acaba ficando em algum lugar entre Radiohead e Cloud Control. É um daqueles trabalhos “duvidosos” de artistas que não tem como meta principal um álbum digerível, e sim uma experimentação de sensações, sejam positivas ou negativas, a exploração é o grande objetivo.

Mas a consistência do álbum é também seu maior problema, independente de todas as faixas serem devidamente polidas e darem um ótimo seguimento uma para outra, o tom de Felt se torna bem repetitivo e não tão inovador quanto poderia ser, e se tratando de um álbum experimental, o peso disso é bem maior. O álbum soa completo e satisfeito com si mesmo, sem deixas ou brechas em suas canções como nos trabalhos anteriores do Suuns em alguns momentos, mas a impressão que fica é a de um estado de mente e espírito bem breve, bem fora do nosso alcance, e da mesma forma que há mérito nisso, há também uma necessidade de mais proximidade e de um correlacionamento mais direto e cru com a obra.

Felt acada sendo uma tentativa bem tímida mas segura do Suuns em se redescobrir, e apesar de não chegarem no fim dessa jornada aqui, ela indica bases bem firmes para a banda continuar explorando e seguindo em frente. Se você está em busca de uma sonoridade introspectiva e bem fora dos padrões pop/rock, Felt é uma boa recomendação, mas vale a pena relembrar que existe uma chance bem grande do Suuns, ou pelo menos desse álbum, simplesmente não serem pra você.

OUÇA: “Watch You, Watch Me”, “Control” e “Make It Real”

The Soft Moon – Criminal


Criminal é um álbum pesado. Sua densidade aparece em todos os elementos possíveis: a voz de Luis Vasquez surge como urros guturais cheios de raiva, a guitarra é repetitiva e incessante e vem sempre acompanhada por uma bateria igualmente frenética. Mas você não precisaria nem escutá-lo para adivinhar isso: a tracklist já ilustra bem o que vamos encontrar ali, com títulos como “The Pain”, “Ill”, “Choke” e “It Kills”. Suas letras soam como acusações na maior parte do tempo, e todos os elementos combinados produzem uma sensação completamente claustrofóbica. Não é agradável, mas também há a impressão de que não era para ser.

Ainda que a impalatabilidade de Criminal seja intencional — ou ao menos pareça ser — ele adota um molde um tanto previsível para passar a sua mensagem. O artista não parece conseguir transcender todos os clichês de um álbum de revolta e dor, produzindo canções uniformemente barulhentas e caóticas. A impressão é de estar ouvindo uma grande música de 39 minutos, cortada diligentemente em pedaços de quatro minutos. É possível identificar elementos interessantes no meio de tudo, mas a sua coexistência constante em uma sobrecarga de sons torna o álbum maçante e previsível.

Os destaques surgem nos poucos respiros que lhe são permitidos: “ILL”, por exemplo, foge à tempo acelerada das canções precedentes e explora melhor a distorção da guitarra, acompanhando-a de batidas que também destoam do ritmo que ocupa o resto do álbum. A ausência da voz de Vasquez aproxima a canção de seus trabalhos anteriores, que pareciam deixar mais espaço para nuance do que esse. Em Criminal, não há a sutileza de outras de suas músicas, que preferiam instigar um senso de instabilidade e medo por meio de batidas constantes, porém leves. É um álbum que parece ter a intenção de assustar quem o escuta de maneira tão grossa que acaba caindo na breguice.

Há valor nas letras, que expõem as experiências de abuso enfrentadas pelo artista na infância. Elas exploram temas de autodestruição e baixa autoestima de forma honesta e seca, ainda que com alguma poesia. São destaques os versos de “It Kills” ‘I wish for anything / that tears me down / the more and more I drown‘, que comunicam o mais profundo auto-ódio. Os mesmos sentimentos aparecem de forma ainda mais óbvia em “Burn”, que retrata o cansaço frente a uma mente que parece irreparavelmente quebrada, e mostra o desejo de fugir de si mesmo: ‘Why does this existence feel like this / Cause it burns‘ e ‘I wish I could be somebody else / Cause it burns‘. No entanto, essa é a parte mais difícil de prestar atenção ao escutar o álbum. Em Criminal, a voz é apenas mais um instrumento em meio a muitos outros.

Como um todo, Criminal soa tão clichê que parece uma paródia. O vocal de Vasquez adota um tipo de sussurro violento e arrastado que poderia pertencer a qualquer artista que um garoto de doze anos descobrindo o rock ouviria no volume máximo, trancado em seu quarto, provavelmente pensando em como o mundo não o compreende. As músicas conjuram imagens de clipes desnecessariamente gráficos e “provocadores” de artistas como Nine Inch Nails e Marilyn Manson — com a diferença de que The Soft Moon o faz com alguns anos de atraso.

OUÇA: “ILL”, “It Kills” e “Burn”