Swans – leaving meaning.



O Swans voltou aos estúdios com integrantes modificados. Entre os 20 artistas nos créditos acompanhando Michael Gira, há nomes de peso, como os das irmãs Anna e Maria von Hausswolff nos backing vocals, o do pianista Chris Abrahams e o do guitarrista Ben Frost. Três anos depois de The Glowing Man, que encerrou a aclamada trilogia iniciada no denso The Seer (2012) e continuada em To Be Kind (2014), leaving meaning. chegou em outubro ao público com expectativas altas. Cumpridas, na maior parte.

É bom salientar: leaving não é exatamente um disco totalmente novo do Swans. Ok, de fato está um tanto distante da última trilogia da banda, mas não é como se o terreno de agora fosse totalmente desconhecido. Se você já conhece em parte a discografia do grupo e tem como fase preferida da banda a do disco Children Of God (1986), ou mesmo gosta do projeto paralelo The Angels of Light, esse disco vai ressoar facilmente com você. A sonoridade do novo disco acaba bebendo bastante nas ideias que flertavam com o (neo)folk e atmosferas mais góticas nesses trabalhos anteriores. 

Não que seja um problema em si mesmo. Tem lá suas faixas que engatilham lembranças – “Amnesia” é praticamente uma regravação da faixa de mesmo nome de 1992; “It’s Coming It’s Real”, primeiro single do disco, é praticamente uma filha de “Our Love Lies”; e “Annaline”, uma atualização conceitual de “Evangeline” – e apesar disso, não desanda num trabalho estritamente derivativo ou autocongratulatório. Contudo, existem sim momentos menos inspirados. Principalmente na porção do meio do disco, onde a repetição, elemento quase marca registrada em todas as fases da banda, atua de forma um pouco enfadonha. Um exemplo são as linhas vocais recicladas em atmosferas muito similares entre músicas como a faixa-título, “Cathedrals Of Heaven” e “The Nub”.

Exceto por esses pontos, leaving meaning. é sim um ótimo disco. E acessível, sendo tranquilo afirmar que é uma boa porta de entrada para o grupo. Tem pouco mais de uma hora e meia de duração – que parecem muito, mas comparadas às duas horas de todos os três discos anteriores, todos com faixas beirando ou passando os 30 minutos… Também não existe nenhum momento exatamente brutal, abrasivo ou superdenso (pelo menos na sonoridade, já que nas letras é um ponto discutível). Aqui, mesmo as paranoicas “The Hanging Man” e “Some New Things” e a épica “Sunfucker” são bastante assimiláveis para um primeiro contato. De maneira geral, o trabalho tem um teor orquestrado e bem executado nos arranjos (principalmente de teclas e vocais) de tal forma que o álbum traz genuinamente algo novo e engajante a cada ouvida.

Liricamente, o disco não inova tanto, com as temáticas existenciais e um tanto desagradáveis já comuns à banda. De todo modo, assim como os demais elementos do álbum, também não configura em uma caricatura do que já foi experimentado na carreira do grupo. O Swans põe os pés em águas que já conhece, e apesar de aceitar o preço de deixar para trás o contexto dos trabalhos feitos anteriormente nessa década, fez mais um disco sólido.

OUÇA: “The Hanging Man”, “Some New Things”, “Annaline”

Lower Dens — The Competition

Quatro anos após Escape From Evil (2015), Lower Dens ressurge com um novo álbum intitulado The Competition, e, dessa vez, o duo de Baltimore parece que conseguiu chegar a um resultado coeso e encorpado. Baseado em temas como capitalismo, relacionamentos, e sentimentos como a raiva, por exemplo, a dupla não-binária (ou trans, como afirmou Jana Hunter — sobre si — no Tumblr em 2015) chegou com um trabalho instrumentalmente mais pesado que seus antecessores.

Em “Young Republicans”, Jana canta: “In every generation / There are those who just don’t fit in” e é assim que The Competition soa: como uma aceitação completa daqueles que não se encaixam nos padrões cristalizados da sociedade. Seja pelas letras, ou pelo uso provocador de sintetizadores, ou até mesmo pela uma oitava abaixo na voz de Hunter (devido ao processo de hormonização). Sendo assim, faixa citada é um extrato do que é o novo trabalho. 

Dito isto, nos 44 minutos de duração do disco há espaço para canções como “Buster Keaton”, uma balada anos 1980, com sintetizadores estelares que fala sobre um romance que surgiu numa tentativa de costurar os lábios, e, claro, não deu muito certo (imagino que nem os lábios nem o relacionamento rs); faixas como “I Drive”, repleta do começo ao fim com super saws e dançante, mesmo que de temática triste; e “In Your House”, uma surpresa simples entre as outras faixas mais recheadas de efeitos sonoros.

Os pontos negativos ficam por conta da tentativa excessiva de se fazer algo no estilo. O som dos anos 1980 é, hoje em dia, inegavelmente um hype e um modelo a ser seguido por muitos. Com isso, The Competition pode se perder diante de tantos e tantos CDs do gênero. No entanto admiro Jana Hunter e Nate Nelson por mostrarem ao mundo exatamente como são e a continuarem exercendo a difícil, mas não impossível, tarefa que é ser no mundo.

OUÇA: “Galapagos”, “Young Republicans”, “Real Thing” e “In Your House”

Bleached – Don’t You Think You’ve Had Enough?



Bleached é uma banda formada pelas irmãs Jennifer e Jessica Clavin, após a dissolução de seu projeto anterior, Mika Miko. A dupla lança agora em 2019 seu terceiro álbum, Don’t You Think You’ve Had Enough?, sucessor do subvalorizado e excelente Welcome The Worms de 2016.

Em Don’t You Think as moças apostam em um som muito mais acessível e polido do que nos trabalhos anteriores, mas ainda mantendo suas raízes no garage rock cru e punk distorcido. O primeiro single do disco, “Hard To Kill”, me soou estranho a princípio exatamente por conta dessas mudanças. Foi apenas depois de ouvir o álbum por completo que tudo fez sentido.

Aqui, as irmãs mostram uma gama muito maior do que podem fazer, misturando ritmos diferentes daqueles que predominam nos outros dois álbuns e ao mesmo tempo criando uma obra bastante coesa, interessante e divertida. Em “Kiss You Goodbye”, com uma guitarra em staccato e bateria disco, trazem talvez o melhor single do álbum. Já em músicas como “Valley To LA” e “Daydream” elas mostram que continuam fazendo seu rock cru ainda bastante bem.

Don’t You Think You’ve Had Enough? é um álbum que mescla constantemente post-punk com os mais variados elementos e todos eles funcinam. É um disco bastante divertido e prova que Jennifer e Jessica sabem muito bem o que estão fazendo. Com certeza um dos mais inesperados e interessantes discos desse primeiro semestre.

OUÇA: “Kiss You Goodbye”, “Rebound City”, “Real Life”, “Daydream”, “Heartbeat Away” e “Hard To Kill”

Gang of Four – Happy Now



Os veteranos do Gang Of Four retornaram à cena com seu mais novo álbum, Happy Now, sucessor de What Happens Next (2015), lançado pelo selo alternativo do frontman Andy Gill. Happy Now, em contraste com seu antecessor, é um álbum eminentemente político por meio do qual o grupo inglês reflete sobre os principais acontecimentos da presente época: Brexit, Trump, pós-verdade e a persistente distribuição de renda ao redor do mundo.

Happy Now dificilmente representa um retorno à sonoridade pela qual o Gang of Four se tornou conhecido nos anos 80, uma sonoridade marcada pelos clássicos riffs funkeados de guitarra, linhas de baixo alucinantes e batidas pesadas e cruas de bateria, o que os tornou expoentes no que se convencionou chamar de pós-punk. Ao contrário, o álbum explora em quase toda sua extensão uma espécie de eletropop misturado com pitadas de rock industrial, recheado de sintetizadores, vozes sampleadas, drum machines e efeitos sonoros.

A sonoridade das faixas é vívida e animada, mas nem por isso deixam de ser sombrias, cruas e intensas; contudo, as faixas são interessantes, não repetitivas e envolventes.

A razão para isso reside no fato de que a formação atual grupo parece estar em maior sintonia do que no disco anterior (desde 2013, Andy Gill, o único remanescente da formação original, vem testando novas formações para o grupo) e Happy Now pode ser visto como um ponto importante para o “longo retorno” do grupo.

As letras das faixas tratam dos acontecimentos políticos da presente época. Em “Alpha Male”, o grupo critica o presidente estadunidense Donald Trump e os escândalos que acompanham seu governo (inclusive, um dos quadrantes da capa do contém o rosto do presidente) e até sampleia sua voz em alguns trechos; em “Ivanka: ‘My Names On It’”, a crítica se estende à esposa de Trump e ao resto da família do presidente, que são símbolos dos cúmplices e testemunhas coniventes de um governo marcado por escândalos, desmandos e violação de direitos. “I’m A Liar” e “White Lies” nos trazem reflexões sobre a natureza da verdade e como sua importância tem sido relativizada nos grandes territórios de embate político, notadamente as redes sociais.

Happy Now não é exatamente o expoente da arte de protesto de nossos tempos, mas representa um trabalho tematicamente interessante e sonoramente consistente de uma banda que sempre foi marcada por boas e ácidas críticas aos tempos em que esteve inserida. O mais novo trabalho da banda é louvável por não se silenciar diante de catástrofes políticas e sociais que ainda nos assolam e por nos mostrar que a música é um instrumento vital de resistência.

OUÇA: “Alpha Male”, “Change The Locks” e “White Lies”

These New Puritans – Inside The Rose



Ninguém pode dizer que These New Puritans não é uma banda pretensiosa. Em todos os sentidos da palavra. Não basta se auto-rotular neoclássica ou se inspirar em conceitos saídos diretamente da cosmologia. Os álbuns da banda são sempre ambiciosos, tentando encaixar uma série de ideias distintas em um formato que ao menos pareça ser sofisticado. Os resultados, como era de se esperar, são variados, mas, surpreendentemente, costumam estar mais na margem positiva, ao menos no que se refere às avaliações da crítica.

O ponto alto da carreira da banda até agora foi Hidden, um álbum marcado pelo post-rock com uma pegada muito forte de música erudita. Um pouco desse espirito continuou com as produções posteriores e chega até a Inside The Rose. A estrutura do álbum como um todo pode muito bem lembrar uma sinfonia. Está bem longe de ser conceitual, ao menos no sentido de contar com uma narrativa em seu esqueleto, mas é inegavelmente um disco que foi feito para ser ouvido como uma coisa só. Ainda assim, a música clássica passa bem longe da verdadeira sonoridade que experimentamos. Antes disso, estamos escutando um exemplo do post-punk em sua vertente que se pretende mais refinada. Ao menos, é quando mais se aproxima desse gênero que o álbum tem seus melhores momentos.

Com uma duração média que fica próxima dos 5 minutos, as faixas de Inside The Rose juntam uma atmosfera envolvente, ainda que soturna, com melodias que estão entre as mais acessíveis da banda, ao menos até agora. De vez em quando parece existir uma tentativa de exibicionismo, como se quisessem dizer “vejam só o que podemos fazer, como nossa arte é complexa”, mas, na maior parte do tempo, esses esforços conseguem passar como naturais. Se os vocais são consideravelmente fracos, as letras até que são boas, tirando um ou outro clichê ou momento de exagero. Ainda assim, é na instrumentação que These New Puritans sempre mostrou a que veio, e não é diferente com esse disco. Muitas das faixas, inclusive, poderiam ser muito bem instrumentais. A que dá título ao álbum, por exemplo.

Seguindo a analogia da sinfonia, é o “terceiro movimento”, indo de “Lost Angel” até o final do álbum o único que parece mais perdido, sendo uma espécie de esvair da obra, que acaba de uma forma um tanto xoxa. Talvez seja uma forma de contrabalancear a intensidade dos dois movimentos anteriores, cada um composto de três músicas, mas acaba parecendo um simples material que sobrou.

Se Inside The Rose não chega à catarse de Hidden, que continua sendo o melhor ponto para conhecer These New Puritans, pode agradar quem quiser algo novo da banda, ou simplesmente um post-punk atmosférico e denso, mas com certo lirismo.

OUÇA: “Into The Fire”, “Where The Trees Are On Fire” e “infinity Vibraphones”

White Lies – Five


Tocar uma composição clássica (ou que soe assim) em sintetizadores não é uma novidade. Wendy Carlos já fazia isso com suas versões de Bach e até mesmo o MGMT fez algo assim em Little Dark Age. Mas, se essa banda parecia querer emular os cravos com um ritmo mozartiano, White Lies se apropriou de uma estética totalmente distinta em “Time To Give”, faixa que abre Five, o (aptamente intitulado) quinto álbum da banda. Aqui os sintetizadores se aproximam mais de órgãos tocando uma fuga grandiloquente. É um ponto chave da canção e o mais próximo que a banda chega de transmitir sensações de êxtase em uns bons anos. Embora o recurso a uma sonoridade que reconfigure a música clássica não se restrinja a essa canção, não é utilizado em excesso, mas caracteriza muito bem o estilo e a emoção por trás de todo esse álbum.

Não é esse o único fantasma do passado que assola Five. Já há alguns discos White Lies vem se tornando cada vez mais dependentes da capacidade de seu vocalista. Se, no seu debute, há dez anos, a estética era completamente pós-punk, agora a comparação que não pode ser escapada é a com outras bandas focadas em crooners como McVeigh parece convencido a se tornar. É verdade que os vocais sempre foram uma parte importante da identidade da banda, seja por sua emulação do pós-punk ou por seu tom grave ressaltado. Mas, se em To Lose My Life o foco dos vocais parecia ser transmitir as letras, agora isso é deixado em lado em prol de uma utilização da voz por ela mesma. O que não é algo ruim, mas faz com que sintamos falta de músicas com as quais possamos cantar junto. Alguns dos melhores momentos de Five são justamente esses, quando sentimos vontade de entrar junto ao refrão. Ou aqueles em que a riqueza de camadas sonoras nos faz como que flutuar no espaço. Essas são duas características quase impossíveis de serem combinadas.

As tentativas de unir ambições tão distantes, assim como o recurso a estéticas passadas (seja no instrumental clássico ou nos vocais de big band) fazem com que Five seja uma obra profundamente pós-moderna. E fazem também com que o White Lies esteja o mais distante que já esteve de suas referências no pós-punk, ao mesmo tempo que abraçando uma melancolia ainda mais pronunciada. A euforia dançante que marcou trabalhos anteriores da banda raramente encontra espaço aqui. Difícil é só saber se isso acontece por acidente ou por uma maturidade inevitável. De modo geral, no entanto, é um álbum bem balanceado, que dificilmente desagradará quem gostou da produção da banda a partir de Ritual. Talvez fique aquém do debute, é verdade, mas quantas bandas são capazes de sobreviver a uma comparação do tipo? E, por outro lado, as composições de Five são bastante acessíveis, fáceis mesmo de ouvir.

Lembro de ter ouvido a banda tocando para um palco ainda quase vazio no Festival Planeta Terra, o primeiro que fui, tendo me mudado pouco antes para uma cidade onde poderia conferir as bandas que gostava. A banda alternava hits do primeiro álbum e músicas então recém-lançadas do segundo, o que fazia com que dançasse uma e parasse na outra. Acho que, em um show atual da banda, a quantidade de tempo parado seria muito maior.

OUÇA: “Time To Give”, “Tokyo” e “Jo?”

The Twilight Sad – IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME


É das máximas mais repetidas de todas que é impossível a um mesmo homem tomar banho no mesmo rio duas vezes. Na segunda vez já não é mais o mesmo. Seja o rio, seja o homem. Dessa analogia apresentada por Heráclito, se origina o paradigma de que a única constante é a mudança. A constatação desse processo pode ser verificada em qualquer coisa cuja existência persista por tempo suficiente. Sejam pessoas, obras de arte, grupos artísticos. Acompanhar algo é, portanto, um estudo da transformação e, uma vez constatado isso, pode se apreciar a mudança por ela em si, independente de o resultado ser aquilo que se esperava. A beleza reside no movimento.

E, algumas vezes, ao final o movimento também resulta em algo belo além, como é o caso do IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME último disco da banda escocesa de pós-punk The Twilight Sad.

Quinto registro de estúdio do grupo, o disco vem cinco anos depois do excelente Nobody Wants to be Here And Nobody Wants to Leave e mostra uma significativa mudança de estética e abordagem na composição das faixas. Enquanto o último disco apresentava uma sonoridade claramente influenciada pelo post-punk moderno, com o baixo pronunciado e riffs repetitivos e hipnóticos, além de guitarras altas que criavam paredes de som nas composições – numa influência de shoegaze que às vezes remetia à ênfase no volume e na imposição dada pelo A Place to Bury Strangers -, e o timbre grave do vocal de James Graham, o novo mostra a banda se aproximando de influências bastante distintas, porém não tão distantes assim.

A primeira constatação é a perda de ênfase no baixo e nas guitarras, com o foco ficando agora no uso de sintetizadores e teclados para construir a identidade do disco. Num movimento análogo ao do próprio post-punk, é evidente a influência de New Order no estilo de composição do novo disco, enquanto pelo timbre e teatralidade empregadas no vocal de Graham, a performance do vocalista se aproxime de Bauhaus. Nada disso é apontado de maneira a diminuir o trabalho do novo disco. Expondo suas influências de maneira honesta, o Twilight Sad se move numa direção diferente enquanto mantém seus laços com o gênero ao mesmo tempo que explora a própria interpretação dos estilos nos quais se inspira.

Já na abertura, com “[10 Reasons For Modern Drugs]”, os teclados ganham a companhia rápida de uma linha de baixo moderna que acelera o ritmo da música, dando à faixa um andamento dinâmico que cria o cenário para a entrada da teatral segunda faixa “Shooting Dennis Hooper Shooting”, uma das melhores do disco. Aqui o Twilight Sad reduz a presença dos sintetizadores, permitindo que o baixo volte a ocupar o espaço central da composição, enquanto os sintetizadores preenchem os vazios deixados por ele, criando a impressão de um instrumental solene e dramático que cresce próximo do clímax da música. A dramaticidade continua com a faixa seguinte, “The Arbor”, que volta a enfatizar os teclados e a diminuir a velocidade, se aproximando decididamente das influências apresentadas pela banda. O baixo e os sintetizadores criam uma atmosfera distante que reforça a lugubridade da música. IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é um disco sobre mágoas, as dúvidas trazidas pelo que provoca a mágoa e a aprender a não esperar que essas dúvidas sejam respondidas. Não é a resposta que faz diferença, é aprender a lidar com a pergunta.

Naturalmente, o disco não é sem falhas. Enquanto músicas como a lenta e despida “Sunday Day13” e as rápidas e raivosas “Girl Chewing Gum” e “Let/s Get Lost” não soam particularmente ruins ou fora de lugar no setlist do disco, a simplicidade e as escolhas de composição delas, quando colocadas lado a lado com as outras faixas do disco, faz com que elas empalideçam em comparação. E num disco tão denso e emocionalmente carregado, falhar em causar uma impressão forte é uma fraqueza.

Outras faixas que surpreendem com as direções adotadas pela banda são “I/m Not Here [missing face]”, que hipnotiza com um refrão forte e envolvente, o ritmo acelerado e carregado de dramatismo é carregado pela dualidade entre bateria e sintetizadores, que representa a o contraste entre o peso interno dos sentimentos e a fachada suave com que eles se manifestam fora de nós. “Auge/Maschine” volta a dar lugar à raiva, com uma avalanche de sintetizadores que soterra o ouvinte no que pode ser uma nova direção para a banda: abrir mão das paredes de guitarras do shoegaze em favor de uma igual presença esmagadora de sintetizadores influenciados pelo synthpop. O último bom destaque é a Keep it All to Myself, que também dá predominância aos sintetizadores, com o adicional de um riff serpenteante e agudo de guitarra após os refrões que cadenciam a música, carregando de rancor a faixa.

IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é uma excelente obra para o catálogo do Twilight Sad. Sabendo explorar os elementos que definiram sua identidade, como a voz de Graham, o instrumental predominantemente grave e os andamentos cadenciados, a banda se aproxima de uma nova influência com os sintetizadores e teclados, entrando num território que possui um grau de parentesco com o post-punk que vinham praticando até então. É talvez um dos melhores discos da carreira do quarteto escocês e um resultado que dificilmente eles conseguirão repetir, mas tudo bem.

Ninguém conseguiria mesmo.

OUÇA: “Shooting Dennis Hooper Shooting”, “The Arbor”, “I’m Not Here [missing face]”, “Auge/Maschine” e “Keep It All To Myself”

Esben and The Witch – Nowhere


Algumas bandas conseguem continuar as mesmas apesar de mudarem muito. Esben and the Witch é uma delas. Ao ouvir Nowhere, não podemos dizer que a sensação seja de algum modo muito distinta da que vinha lentamente se apossando de nossos ossos nos primeiros álbuns. A banda continua particularmente sombria. E isso em uma intensidade que é difícil encontrar hoje em dia, ao menos fora do campo do metal. E a raiz das mudanças que a banda encarnou podem se originar aí. Cada vez mais caminham para ser uma banda de metal. Se no começo eram uma vertente do dream pop particularmente obscura, com muitos elementos eletrônicos, mas que não abafavam a visceralidade, hoje os vocais estão menos etéreos e mais dramáticos, com uma ênfase nos instrumentos do power trio deixando de lado tudo que tinham de experimental, que fazia com que se distinguissem de centenas de outras bandas.

O correto seria avaliar Nowhere como um álbum de metal, pois é isso que ele é. Acredito que quem gosta desse estilo musical e ainda não conhece a banda deve escutar esse trabalho e, provavelmente, vai gostar do resultado. Embora talvez se decepcione com os outros discos, caso se proponha a ir mais a fundo. Como álbum de metal, Nowhere é um belo representante. Já como um disco de Esben and The Witch, deixa bastante a desejar.

Se ainda existem alguns, sutis, traços de post-rock, também é verdade que as melodias são bastante tradicionais, beirando o genérico.

Os vocais aqui tomam um destaque inédito na trajetória do grupo. E, de fato, não são ruins. Mas os melismas exagerados, encaixados numa produção que é muito clara, faz com que o resultado seja esquecivel. Tudo é muito limpo, com um espírito operático que torna difícil a conexão. A sensação é de extrema artificialidade. Se a versão do gótico presente nesse disco não chega a ser a mesma da de um filme do Tim Burton, ao menos é igualmente desprovida de emoção real, da aflição que sabemos que o trio sabe fazer tão bem.

Não são só os vocais que seguram notas mais do que deviam. As guitarras constantemente fazem o mesmo, causando uma verdadeira sensação de que o álbum se arrasta. E de que estamos ouvindo uma mesma canção, ainda que com seus altos e baixos. A parte boa disso é que, por não ser longo, Nowhere pode realmente ser experimentado como se fosse uma única faixa, uma espécie de sinfonia. Considerando as referências das quais o metal costuma se apropriar, não é difícil imaginar que essa foi exatamente a intenção.

Ou seja, se, depois de ouvir as duas primeiras músicas, ainda tiver vontade de continuar, estiver gostando, pode ter certeza de que o resto também o fará, caso contrário, melhor passar para a próxima.

OUÇA: “A Desire For Light” e “Dull Gret”

Hands Like Houses – Anon.


Após um período de dois anos desde o último álbum, os australianos do Hands Like Houses estão com um novo trabalho na praça e já adianto: você faria melhor em não criar tantas expectativas. Antes, porém, de começar a falar sobre o lançamento em questão, gostaria de retomar, brevemente, a trajetória do quinteto de Camberra. Caso você não os conheça, lá vai: a banda existe há dez anos, mas seu debut foi exposto ao mundo apenas há seis. Desde então, foram mais três álbuns – contando com o atual, Anon. O primeiro contato que tive foi com o belíssimo Unimagine – em parte pela capa, confesso – um trabalho leve, com fortes elementos de post-hardcore e alguns sutis aspectos eletrônicos. Não sei se de lá para cá mudei meu gosto por música ou os meninos tomaram outro rumo, mas o fato é que o novo álbum tem um total de uma música a qual você poderia mostrar aos seus amigos sem passar vergonha. Sério.

Para começar, o segundo single de Anon, “Monster”, foi anunciado como tema do programa WWE em sua turnê australiana e, sejamos sinceros, isso não é um bom sinal. Se sua banda faz um som que pode ser usado pela WWE, alguma coisa está errada e nesse caso não foi diferente. Ainda assim, fã é uma raça persistente. Mesmo com dois singles que não seriam capazes de servir nem no despertador, estávamos lá quando saiu o álbum. Primeiro play e… surpresa. A primeira música é genuinamente boa. Poderia facilmente estar em algum trabalho antigo. De fato, deixei no repeat por alguns minutos. Em “Kingdom Come” a harmonia instrumental resgata diversas nuances que haviam sido utilizadas anteriormente pelo grupo, embora dessa vez permeada por um vocal nebuloso, quase etéreo, próximo daquele bastante recorrente no shoegaze. Em termos líricos, bastante interessante. Quase niilista. ‘I can’t pretend that it doesn’t plague me/ I can’t pretend that it hasn’t changed me/ I can’t pretend that I’m not afraid of the end/ I wonder/ Is God getting lonely?’. Em todo caso, a canção é curta tal como a felicidade do ouvinte. Daí para frente é ladeira abaixo.

Basicamente, você poderia descrever o álbum como a trilha sonora do menu de algum jogo genérico – palavra que descreve absolutamente todos os elementos do disco, salvo a primeira faixa. Em termos líricos, novamente, o disco  todo é bastante pobre. Temas clichês como demônios interiores tentando ascender e a confusão de lidar consigo mesmo: ‘overthinking’ – essa não é de todo ruim, by the way. Compare, por exemplo, alguma faixa com qualquer sucesso da banda Skillet e note a semelhança – se essa última faz parte da sua playlist, aliás, feche esse texto. O fato é que não tenho problemas com bandas ruins, mas quando grupos como Hands Like Houses – que já mostraram seu potencial em trabalhos brilhantes – entregam algo tão sintético e vazio de significado, a coisa realmente te deixa chateado. Perante toda essa questão, não posso deixar de pensar que, no fim das contas, não há dúvidas: um fã de Jota Quest certamente adoraria Anon. Melhor seria, com o perdão do trocadilho, permanecer no anonimato.

OUÇA: “Kingdom Come”, “Monster” e “Overthinking”

We Were Promised Jetpacks – The More I Sleep, The Less I Dream


Amadurecimento é um tópico complicado quando falamos sobre artistas musicais. Sempre há dois casos: era ruim e ficou bom, ou o contrário. Logo, nem sempre amadurecer significa evoluir, dependendo do caso e da sua perspectiva sobre ele. Há bandas que decolam pra novas dimensões que nem sabiam que poderiam chegar, e outras que ficam estagnadas em uma experimentação barata ou desinteressante que afasta os fãs antigos que acompanhavam a banda pelo fogo nos olhos que elas possuíam no início.

Com The More I Dream, The Less I Sleep do We Were Promised Jetpacks, pode-se argumentar que o fogo não é mais o mesmo em questão de energia, mas não de formas de trazer uma mistura de emoções em suas canções. Se aqui não tem mais os riffs angulares e pegajosos dos primeiros trabalhos, isso é compensado com a meticulosa construção de uma sonoridade que chega a ser até mais aconchegante, mas se aproveitando de momentos mais vagarosos pra criar certa tensão, uma característica que se manifestava em algumas músicas antigas da banda, mas parece ter finalmente tomado forma nesse álbum.

E o que tem de mais interessante nesse novo álbum são os lampejos de paranoia e desconforto que se manifestam ao longo de seus 42 minutos, seja em uma guitarra mais dissonante do resto ou, principalmente, mas letras carregadas de angústia e incerteza do vocalista Adam Thompson como em “Repeating Patterns” que, além de ser a música mais energética e sombria desse trabalho, parece relatar problemas passados em público causados por ansiedade social, e como isso acaba se ocasionando em ações erráticas por parte de quem sofre com isso.

Esses relatos mais intimistas e complexos mostram uma evolução da banda em questão de criar narrativas, e é complementado pela forma como as canções aqui se juntam e moldam uma experiência de álbum. Isso acaba sacrificando um pouco do apelo pop, mas mesmo assim ainda tem vários momentos específicos de destaque aqui. O grande problema mesmo é pra quem vai escutar esse álbum esperando os riffs enérgicos pelos quais a banda ficou conhecida, e vai acabar decepcionando esse público. Mas, depois de algumas audições, a beleza dos espaços em que a banda permite suas canções a respirar acabam trazendo uma experiência que não é muito difícil de agradar a qualquer um que procura algo de agradável nesse gênero. É o caso de um amadurecimento que não depende só da banda, mas também de quem acompanha ela.

OUÇA: “Repeating Patterns”, “The More I Sleep the Less I Dream”, “Make It Easier”, “When I Know More”