Dido – Still On My Mind



A maioria das pessoas não lembra da Dido. Só quando ouvem alguma playlists nostálgica dos anos 00, onde se encontram hits como “White Flag” e “Thank You”. Eu adoro a Dido, mas não acompanhei os últimos passos da sua carreira. Não sei muito sobre o que ela lançou nos últimos anos, mas quando descobri sobre Still On My Mind senti a chama da nostalgia se acender em meu coração.

Sem dúvidas, o maior trunfo da cantora é sua voz. Ela pode te confortar e te assombrar ao mesmo tempo. Ouvir uma música da Dido é como colocar manteiga na frigideira: além do cheiro maravilhoso que toma conta da cozinha é prazeroso ver a manteiga derreter. Só que um disco não se sustenta apenas com a voz. Eu ouvia as músicas e logo me esquecia do que tinha acabado de ouvir. Quase nada deixa um impacto ou capta sua atenção o suficiente pra te convencer que o tempo dedicado a ouvir o álbum valeu a pena.

A voz da Dido varia entre ser incompatível com as batidas sintéticas – como em “Mad Love” – e permanecer num platô enérgico baixo – como em “Walking By”. E mesmo que algumas letras sejam delicadas e sensíveis, isso não é suficiente para alavancar o disco. O que é uma pena, porque o disco abre com a maravilhosa “Hurricane”, uma das melhores músicas da carreira da cantora.

Still On My Mind tem pitadas de melancolia, uma dose emocional familiar e um cheirinho do início dos anos 00 que é inconfundível. Só que já estamos em 2019. Se o objetivo da Dido for fazer um comeback pro mercado, não sei se esse foi o melhor caminho. Ainda bem que posso me agarrar na memória afetiva de “Here With Me”.

OUÇA: “Hurricanes”, “Take You Home” e “Friends”

Avril Lavigne – Head Above Water


Depois do maior hiato de sua carreira – 6 anos desde o lançamento do último álbum -, Avril Lavigne volta com letras reflexivas e acústicas em contraposição aos hits cheios de guitarra e refrões relativamente simples que a tornaram famosa, como “Complicated”, “Girlfriend” e “Sk8er Boi”.

Este novo trabalho é marcado pelo fato dela ter sido diagnosticada em 2015 com doença de Lyme, enfermidade comum, mas que pode ser letal se não tratada. O divórcio com o vocalista do Nickelback, Chad Kroeger, também influencia nas canções.

A faixa que faz uma referência mais direta a luta contra a doença é “Warrior”, última do disco. A música é uma balada acústica na qual Avril se abre sobre o momento em que batalhava pela vida. O refrão adota o tom de superação que marca todo o lançamento: ‘And I’m stronger, that’s why I’m alive / I will conquer, time after time / I’ll never falter, I will survive / I’m a warrior’. A mesma ideia de superar desafios está presente na faixa-título Head Above Water, na qual ela fala sobre manter “a cabeça acima da água” durante a tempestade.

Os destaques do álbum vão para as letras românticas de “Goddess” e “Crush”, que possuem uma pegada de pop misturado com soul e melodias que te pegam na primeira ouvida.

Dumb Blonde” é a mais pop do álbum. Com uma letra bem “girls with attitude”, ela faz o papel de agradar aqueles que sentem falta da Avril de “Girfriend”. As músicas possuem ritmos parecidos e as guitarras não são ignoradas como no resto do disco. Junto com a rapper Nick Minaj, a canadense se coloca como protagonista e diz que não é nenhuma loira burra. A canção pode lembrar um pouco “Hard Out Here” da Lily Allen.

Head Above Water talvez não agrade os fãs mais antigos da Avril. Por ser um trabalho predominantemente acústico e tratar das fraquezas da cantora porta-voz da rebeldia adolescente dos anos 2000, alguns podem estranhar.

No entanto, engana-se quem espera ouvir um disco pessimista, apesar dos temas difíceis abordados, todas as composições focam em transpor essas dificuldades. Ainda que muitos clichês sejam usados, como o discurso batido de “vencer batalhas” e “passar pela tempestade”, Avril  acerta em mostrar a capacidade de se reinventar e externar em suas músicas os demônios internos contra os quais ela luta há 4 anos.

OUÇA: “Goddess”, “Crush” e “Head Above Water”

Ariana Grande – thank u, next


thank u, next é o último álbum de Ariana Grande, uma das maiores artistas pops da atualidade. sweetener (2018) mostrou uma artista lidando com os problemas de sua vida com uma atitude positiva. Alegre, iluminado, embasado em resiliência e até mesmo uma dose de negação. thank u, next, como um bom antagonista shakespeariano, escancara uma outra postura. Sentimentos negativos, raiva e melancolia; um lado B de como lidar também com essas mesmas experiências negativas que não aparentam dar trégua.

Ao suceder rapidamente o lançamento anterior, fica inevitável colocar os dois discos lados a lado. sweetener marcou uma transição da cantora rumo a um produto mais autoral e autêntico. Com o auxílio de Pharell Williiams na produção, o produto foi um registro prospectivo, forte, progressista dentro do que pode ser no urban pop.

Desse lançamento para cá, uma série de eventos aumentaram a exposição de Ariana, e seus ressentimentos também. Toda a postura positiva e enérgica dela no trabalho anterior sede espaço à traços de personalidades visto como ruins e posturas não-convencionais, uma maneira diferente de ver os problemas da vista.

Uma das características marcantes é uma ambientação uníssona e presente. As músicas partem de uma base harmônica semelhante, um urban pop mais lento e “chilled”, com mais elementos de trap. Surge uma aura sombria, mais introspectiva, que projeta esse trabalho como o tão recorrente disco “dark pop” da carreira das cantoras americanas.

A primeira faixa, “imagine”, já atesta grande parte do que vem pela frente. Um beat devagar e a voz de Ariana em primeiro plano, com direito a whistle notes de Mariah Carey e um desfecho ao som de violinas. Ariana lida ao longo dos 41 minutos com amores impossíveis, incapacidade de se relacionar, consumismo. Dificuldade de lidar com o passado, arrependimentos e uma incapacidade de mudar essas características. “I admit I’m a lil messep up” ela canta em needy.

O álbum tem pontos altos excelentes, embasado alto escalão de produtores e compositores envolvidos no projeto. Os saxofones e o baixo elaborado em “bloodline”, meticulosamente curados por Max Martin, fazem dela facilmente uma das melhores faixas do ano. “fake smile” e “make up” tem uma estrutura pop tão bem casada que é bem provável tocar em qualquer rádio durante o próximo ano.

Obviamente um registro tão longo feito em tão pouco tempo tem momentos pouco cativantes. As insossas “bad idea” e “ghostin” parecem que poderiam usar de mais um tempo no estúdio. O disco finaliza com os três singles já lançados, que de fato fazem o recorte mais comercial do álbum. A faixa homônima realmente sintetiza todo o posicionamento de Ariana: olhando para si mesma e compreendendo suas falhas e erros, e tirando algum proveito.

thank u, next é sim um álbum melancólica de sua própria maneira. Mas antes disso, é sobre não saber lidar emocionalmente com as várias circunstâncias da vida. Ariana tem atualmente 11 anos de carreira. Com esse mesmo tempo de carreira, Mariah Carey já havia lançado Butterfly; Whitney Houston se preparava para lançar o My Love Is Your Love; Madonna atingia sua época mais polêmica com a sexualidade, Erotica e o sex book.  Seguindo essa lógica, provavelmente estamos nos aproximando do auge da carreira de Ariana. Seria thank u, next esse momento?

p.s.: Alguém ensina essa menina a usar letra maiúscula, por favor.

OUÇA: “imagine”, “bloodline” e “fake smile”

Clean Bandit – What Is Love?


Composto por Grace Chatto, Jack Patterson e Luke Patterson, Clean Bandit é um dos maiores projetos musicais da atualidade. Com diversas canções próximas dos 500 milhões de execuções apenas no Spotify (alguns já ultrapassaram e outras estão pertinho), o trio torna pop, comercial e radiofônico tudo aquilo no que toca.

O segundo álbum de estúdio, What Is Love?, chega quatro anos depois do debut, New Eyes, lançado em 2014. Neste novo material, aclamado nas pistas de dança e rádios de todo o mundo, Clean Bandit apresenta canções inéditas e muitas das quais já foram trabalhadas ostensivamente como singles entre 2017 e 2018.

A sonoridade entregue em What Is Love? é alinhada com o que, musicalmente, o mundo tem consumido nesta segunda metade dos anos 2010: a presença de vocais poderosos, batidas tropical house e instrumental sinfônico (piano e violoncelo, em especial), compõem a mistura perfeita para o êxito do trio.

Permeado por colaborações consistentes de figuras em ascensão na cena pop, o novo disco apresenta a banda em arranjos ainda mais pop do que os anteriores. O sucesso nos streamings, por exemplo, vem de algumas das canções do novo material – que traz músicas como “Baby”, com os vocais de Marina and the Diamonds e Luis Fonsi; “Rockabye”, que conta com a participação de Sean Paul e Anne-Marie; “Symphony”, que apresenta vocais de Zara Larsson; “Solo”, com os Demi Lovato, “I Miss You”, com Julia Michels e “Tears”, com Louisa Johnson.

Os destaques para as colaborações certamente incrementam os números do grupo, ao tornarem as canções significativas para diferentes tipos de público – o que foi feito com a fatia latina do mundo com a recente “Baby’, ao trazer Fonsi entoando versos em espanhol ao lado da parceira (improvável) Marina Diamandis. É indiscutível a intenção de alcançar, também, a parcela mundial amante de reggaetown, neste caso em específico.

“Symphony”, “Solo”, “Rockabye” são exemplos de canções que podem já ser tidas como certas na relação de grandes músicas da década. Nestes casos a receita musical sugerida acima é notável, bem como melodias fáceis e letras que grudam. Se a gente soma tudo isso tem a receita do sucesso.

Se traçada uma comparação com New Eyes (2014), que traz dois grandes êxitos em parceria com Jess Glynne, “Real Love” e “Rather Be”, o novo disco vai ainda além em sonoridade e se mostra mais conciso e menos experimental., muito embora o registro anterior seja legítimo e, a exemplo do mais recente, também um grande álbum.

OUÇA: “Baby” e “Tears”

Rita Ora – Phoenix


Mais um fim de ano chega e com ele a depressão.  Também é nessa época que os artistas dão um gás final pra entregarem seus Singles, EPs e Álbums a tempo de aparecer nas listas de melhores do ano. É claro que nem todo mundo têm essa pretensão, como é o caso da Rita Ora. Desde 2015 ela tá numa loucura com o segundo álbum. Se ela fosse brasileira, a história dela ia sair no TV Fama, com certeza.

Tem disco que rende uma resenha gostosa de escrever, assunto a beça pra discutir e te faz clicar várias vezes no botão de replay. O Phoenix gerou uns singles gostosinhos, mas poucas pessoas vão lembrar que dele daqui há 3 anos. Talvez menos. E tudo bem.

Ninguém quer ouvir música pop profunda o tempo todo. Se você faz isso, meus sinceros parabéns. Eu acho chato pra cacete. Ficar prestando atenção em cada detalhe, pensando no que foi que a artista quis dizer e na razão de cada detalhe é cansativo. Só quem gosta demais mesmo de música ou de algum artista faz esse tipo de coisa com frequência.

Às vezes a gente só precisa ouvir um som comercial numa boa, sem muito esforço mental. Phoenix é um entretenimento leve, que não vai exigir muita coisa de você. Um hit aqui, três músicas nada a ver acolá e, quando você menos espera, já acabou. Bom pra ouvir voltando pra casa depois daquele dia cansativo. Em uma época onde quase todas as grandes cantoras pop estão lançando trabalhos conceituais, um álbum como esse é uma brisa de ar fresco.

Todos os singles lançados poderiam estar na lista das 7 melhores Jovem Pan. Na minha época de adolescente, isso era grande coisa. Hoje em dia eu sei lá o que quer dizer. Aposentei minha carteirinha de jovem no momento em que pensei em fazer uma piadinha usando “DAORA” e “Rita Ora”. Eu não tenho salvação.

Fico feliz que a Rita Ora tenha conseguido tirar esse projeto do papel. Ela parece uma pessoa bacana. Se o objetivo era renascer das cinzas como uma Fênix, acho que ela deveria ter feito algo menos genérico. Mas é aquela coisa, né? Ela tá ganhando milhões e eu acordo seis e meia da manhã pra chegar no trabalho no horário. O play fica por sua conta e risco.

OUÇA: “Your Song”, “Anywhere”, “Let You Love Me” e “Lonely Together”

Pabllo Vittar – Não Para Não


Não tem muito como nem pra onde fugir, Pabllo Vittar é um fenômeno. Pouquíssimo tempo se passou desde que a drag queen maranhense lançou seu primeiro EP, Open Bar, e depois seu álbum Vai Passar Mal em Janeiro de 2017. Pouco tempo, mas o suficiente para Pabllo fazer parcerias com nomes que vão desde Preta Gil e Anitta até Diplo e Charli XCX. Vai Passar Mal foi um álbum pop incrível, que cumpria exatamente o que prometia: um álbum pop chiclete, feito por uma drag queen mas que transcendeu as barreiras da comunidade LGBT e lançou Pabllo para o mainstream de uma vez por todas.

E agora a moça lança seu segundo disco, Não Para Não. E, pelo menos musicalmente, as coisas parecem ter esfriado um pouco. Bastante, na verdade. A proposta da Pabllo não é e nunca nem foi fazer música pop contemplativa e introspectiva, é verdade, mas Não Para Não peca em ser um pouquinho raso demais até para a pista. Enquanto Vai Passar Mal misturava muito bem o pop com MPB, brega e eletrônico, ele tinha momentos de vulnerabilidade como “Indestrutível” e “Irregular”, coisa que não acontece em momento algum em Não Para Não.

Em seu segundo disco, Pabllo foca muito mais a produção no tecnobrega e forró, em detrimento aos diversos outros estilos misturados que permearam o debut. Isso funciona muito bem em “Buzina”, faixa que abre o disco e com certeza a melhor do trabalho como um todo. Mas no restante, a produção muito monótona acaba se tornando repetitiva e cansa rápido demais. É possível ouvir Vai Passar Mal no repeat descontraidamente, mas Não Para Não logo se torna chato e morno – até mesmo antes do final da primeira audição completa. As participações aqui, de Ludmilla, Urias e Dilsinho, pelo menos, servem um propósito maior do que apenas repetir o que a Pabllo tinha acabado de cantar – como eram todas as presentes no debut, coisa que sempre me incomodou muito na produção de Vai Passar Mal.

Toda a representatividade de Pabllo ter chegado (e se mantido) onde chegou é maravilhosa, sem a menor sombra de dúvida – não podemos nunca nos esquecer de que gostando ou não da música, Pabllo é uma bicha afeminada nordestina que milita publicamente sempre, e isso é extremamente importante e longe de ser pouca coisa. Talvez Não Para Não, mesmo sendo musicalmente duvidoso em sua maioria, sirva exatamente para isso, para manter Pabllo na conversa. Uma conversa que histórico-social é muito mais relevante do que um álbum não muito bom. Por agora isso já é o suficiente, e que o próximo álbum seja mais interessante.

OUÇA: “Buzina”, “Problema Seu” e “Não Vou Deitar”.

ROSALÍA – El Mal Querer


A junção da tradição local e a imponente personalidade identitária se fundem com a melodia tradicional e o R&B modernizado para configurar uma experiência multifacetada de sons e ambientes que tornam El Mal Querer uma experiência valiosa. Introspectiva mas ao mesmo tempo bastante expansiva, a espanhola ROSALÍA funde o melhor da sua origem catalã com a contemporaneidade e urbanismo modernosos em um projeto aguçado e ambicioso.

As referências pop são evidentes e ajudam a inserir o álbum numa dinâmica que, ao invés de soar repetitiva, promove uma sensação de renovação. O tom de voz acaba por marcar em todas as faixas, sendo um elemento de união e ponto alto do disco como um todo, contribuindo para a construção de um imaginário marcado pelas raízes espanholas da cantora, com elementos religiosos e folclóricos associados à contemporaneidade em que o disco se insere.

A primeira faixa e possivelmente mais conhecida, “Malamente”, é uma das mais animadas do álbum e  das mais associáveis a uma sonoridade atual, ajudando a iniciar a série de músicas que sustentam esse estilo mas que o expandem e lhe agregam diferentes elementos complementares.

Sonoridade coesa e permeada por detalhes que favorecem uma movimentação por uma trajetória que faz sentido e vai se complementando com o passar das faixas. Entendido como um álbum de conceito, cada música parece elencar um diferente momento da história que conta, muito relacionada ao imaginário romântico da cantora e a diferentes narrativas envolvendo a relação, associadas a contextos de emoções distintas. É uma conceptualização que gira em torno de um contexto relacional difuso e manipulativo, do qual a autora relata episódios (chamados de capítulos) com energias distintas, algumas mais distorcidas e irreverentes (os momentos mais experimentais do álbum, em que sua voz assume grande destaque) e outros mais estáveis e serenos, para concluir em “A Ningún Hombre” (Nenhum Homem), vocalizando a sua fuga do contexto em que se encontra e ditando sua independência.

Constrói-se, ao todo, um imaginário musical que conduz claramente a uma percepção também visual da história, com a sonoridade voraz do flamenco fortemente marcada e uma tonalidade vocal etérea. Curto, os trinta minutos de duração do álbum não parecem pouco, mas meticulosamente pensados na construção narrativa que parece pautar a condução do disco. “Bagdad”, o capítulo da Liturgia, inicia com uma clara referência rítmica a “Cry Me A River” de Justin Timberlake, transita por momentos exuberantes e remexidos, para posteriormente atrair o momento do Êxtase (Cap. 8), em “Di Mi Nombre”, para uma estabilização. O Mau Amor (em tradução livre) é um nome contundente para classificar a jornada que o álbum atravessa.

A variação sonora aliada à experimentação vocal constroem um cenário prazeroso e com trânsito por diferentes sensações, que posicionam El Mal Querer como uma peça sólida e digna de destaque. A consolidação da espanhola para além desse projeto ainda pode ser questionada (cabe pensar na sustentação dessa ritmicidade e estética ao longo do tempo como risco de monotonicidade), mas a obra, em sua construção individual, se posiciona com facilidade entre as mais diversas e inovadoras do pop de 2018.

OUÇA: “Malamente”, “Pienso En Tu Mirá”, “Bagdad” e “Di Mi Nombre”

Robyn – Honey


O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda.

Oito anos se passaram desde que a sueca lançou o magnífico Body Talk, álbum que mudou e revolucionou o pop eletrônico. Com suas batidas bastante características e letras extremamente profunndas, Robyn (me) mostrou que pop não precisa ser algo raso e sem nenhum real sentimento, que pode e deve trazer algo a mais e não ser apenas música pra encher pistas de dança. Essa Robyn continua presente em Honey, obviamente. Mas parece que dessa vez tem algo faltando em grande parte do disco.

Honey é bastante curto, tratam-se apenas de nove músicas e pouco mais de trinta minutos, e nele Robyn aposta em algo completamente diferente de tudo o que já havia feito – mesmo quando consideramos o começo de sua carreira como cantora adolescente. O pop de Body Talk é urgente, visceral, com batidas  emocionantes que se encalacravam em tudo ao seu redor. Aqueles primeiros sete segundos de “Dancing On My Own” antes da bateria começar já ilustram tudo isso. E Honey… não.

Sei que comparar os dois álbums é algo bem burro e estúpido de se fazer, muito tempo se passou entre eles e muita coisa mudou  – como era a sua vida oito anos atrás? Com certeza bastante diferente do que é agora. Robyn também merece ter mudado e evoluído nesse tempo. Mas não comparar os dois álbuns é quase impossível.

Honey é um álbum bastante delicado e suave, talvez exatamente para se contrapor à explosão incessante que foi Body Talk (lembrando que, originalmente, Body Talk foi um projeto de 3 EPs que permeou o ano de 2010 inteiro, sendo compilado apenas posteriormente). É natural que as coisas se acalmem um pouco, mas Honey acaba sendo parado e introspectivo demais até para Robyn – alguém que faz música pop introspectiva de excelente qualidade.

Em 2018 Robyn mostra continua sendo a força pop maestral que sempre foi, mas ela não se supera. Nem se esforça para tal. Honey é um álbum muito bom, por que não tinha como ser diferente. Mas depois de tanto tempo de espera, apenas ‘bom’ parece quase um passo atrás para a cantora.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”

Allie X – Super Sunset


Allie X vem voando mais alto nos últimos anos. Especialmente depois do hit “Paper Love”, sua fanbase teve um crescimento considerável e ela entrou na categoria de cantoras Pop adotadas pelos fãs como uma grande promessa do gênero, daquelas que quando se estouram ouvimos aos quatro ventos “EU SOU FÃ DESDE PRIMEIRO EP” etc.

Super Sunset tem oito músicas com duas intros. É praticamente um EP. Acho que nem cabe uma super resenha descrevendo cada aspecto desse trabalho. A equipe de produtores acertou a mão e Allie X manteve os mesmos aspectos que fizeram CollXtion II interessante. Tecnicamente, esse é um disco perfeito. Pena que falta profundidade.

Allie X tem 33 anos e sinto como se estivesse ouvindo composições de uma mulher de 20. O erro não é da cantora, veja bem. O álbum é comercial o suficiente para ir bem nos charts de música pop e tocar em qualquer balada do gênero, mas não traz assuntos relevantes o suficiente para me prenderem a atenção. É um disco que me lembrou bastante The Fame, da Lady Gaga. Só que já se passaram 10 anos desde que ele foi lançado.

Se você está a procura de um synthpop/indie pop bem produzidos, pode ouvir Super Sunset sem medo. É uma audição gostosa e divertida. Se está procurando por algo que saia do lugar comum, é melhor procurar outras artistas.

OUÇA: Tudo. Pelo amor de Deus, são só 21 minutos.

The Ting Tings – The Black Light


Dez anos. Esse é, de maneira rústica, o intervalo de tempo entre o primeiro álbum e esse quarto, o The Black Light, na carreira dos britânicos do Ting Tings. “Shut Up And Let Me Go” e “That’s Not My Name” aparte, é possível traçar um panorama interessante dentro desse grande espaço de tempo: de onde a dupla partiu e até aonde a dupla está agora. E, além disso, de que o maior instrumento da carreira do duo acaba sendo o tempo e como ele molda os interesses deles.

Nesse quarto disco a dupla abusa muito mais de elementos industriais que permearam um pouco os álbuns anteriores – se observarmos o single solto “Hands” antecessor ao segundo álbum conseguimos enxergar bem essa construção – e consegue deixar esse ritmo eletrônico mais cru e emergencial de uma maneira interessante para ser trabalhado dentro de uma banda tipificada dentro do grande gênero indie. Jules e Katie ainda abusam de elementos da grande ressurgência da cena techno, criando uma amalgama eletrônica com elementos de guitarra dentro de seu novo estilo – um indie pop electro industrial bem bolado.

The Black Light demorou quatro anos para aparecer desde Super Critical, mesmo intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo álbuns, e essa pausa se pareceu muito necessária para eles. Esse quarto álbum parece servir como momento de autocrítica, de aceitar que sua identidade e criatividade do primeiro álbum foram essenciais para aquele instante, mas não estão mais alinhadas com os interesses da banda atualmente – o tempo, o grande instrumento.

Dentro desse panorama, The Black Light parece ser o primeiro álbum verdadeiramente do The Ting Tings desde o primeiro disco, aonde eles mostram de maneira muito mais fluida e fácil quais são os interesses deles atualmente. Essa falta de identidade fez a dupla sofrer muito e parecer uma reconstrução bizarra do sucesso do seu primeiro disco nos álbuns anteriores. Esse quarto álbum vem como uma construção de um novo modelo para a banda e, esperamos, que apareça como uma vontade de aprimoramentos e maior consciência nas composições dos próximos álbuns.

No fim das contas, o Ting Tings parece ter se reinventado dentro do seu mesmo jogo mais uma vez. Eu particularmente acho que a discografia da dupla tem seus momentos de luz e que possuí músicas geniais dentro das singularidades de seus álbuns – “Day To Day” e “Wrong Club”, por exemplo – mas The Black Light é, talvez, o álbum mais interessante desde o seu primeiro e grande sucesso. Apesar dos pesares, é bonito ver que a dupla continua na ativa e continua entregando música bem pensada para nos alimentar, mesmo que ainda vivam, em 2018, sob a sombra do seu sucesso de primeira viagem lá em 2008.

OUÇA: “A & E” e “Blacklight”