Carly Rae Jepsen – Dedicated



Dedicated é o tão aguardado quarto álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen, seu primeiro depois de ter mudado completamente o jogo e o cenário da música pop com Emotion em 2015. Emotion foi um trabalho que pegou muita gente de surpresa, eu incluso, com o nível de suas composições. De uma hora pra outra, aparentemente, a cantora de “Call Me Maybe” que virou meme nos entrega uma obra ambiciosa, coesa e extremamente bem escrita e produzida. Emotion, querendo ou não, é um dos melhores e mais influentes álbuns pop das últimas décadas – até seu acompanhante, Emotion Side B, ilustrava que seus b-sides e músicas rejeitadas ainda eram melhores do que álbuns completos de outras pessoas por aí.

Seguindo essa torrente de música boa e bem feita, Carly lançou em 2017 a perfeição pop que é o single “Cut To The Feeling”. E agora todos estavam de olho nela, no que viria depois. Se Emotion foi lançado quando muitos ainda a consideravam apenas ‘a moça de “Call Me Maybe”‘, um pop farofeiro que não devia ser levado a sério, as coisas agora estão dramaticamente diferentes. E é aí que Dedicated entra, chega e quebra com tudo de novo. E dessa vez não podemos mais dizer que estamos surpresos.

Desde a primeira música divulgada ano passado, “Party For One”, Carly já profetizava que seu novo trabalho seria um pouco mais sóbrio e sério do que Emotion foi, mas ainda mantendo sua essência chiclete e leve. De uma vez por todas fica claro que Carly fez aulas com a sueca Robyn sobre como construir uma narrativa e forte densa tendo como base as batidas (“Cry”, “Your Type”). Dedicated traz tudo isso e ainda completa com uma excelente influência do pop dos anos 70, como Cher e Donna Summer.

Os temas tratados liricamente no álbum continuam sendo relacionamentos, crushes correspondidos ou não, decepções amorosas e confissões. Nada exatamente inovador, seja na música pop ou no indie underground, mas que quando são bem feitos e bem escritos se tornam verdadeiras gemas. O melhor exemplo disso está em “Now That I Found You”, uma música sobre quando você tem uma conexão instantânea e quase inexplicável com o @, e o twist em seu refrão está nos versos ‘Don’t give it up, don’t say it hurts‘ – o @ não parece estar tão pronto para essa ligação quanto Carly. Mas ela está, e continua ‘I want it all‘, tanto o bom quanto o não-tão-bom. E quem nunca passou por isso?

A universalidade das letras em Dedicated é, no fim do dia, seu maior trunfo. Carly canta sobre coisas, situações e pessoas comuns a todos, criando e contando histórias fáceis de se identificar – de uma forma não tão diferente do que nomes como Courtney Barnett o fazem, em um tipo completamente diferente de som. Em “Happy Not Knowing”, Carly traz uma dinâmica inusitada (quase como quando Robyn cantou em “Call Your Girlfriend” sobre ser ‘a outra’) cantando sobre o quanto ela não quer que o @ se declare, sobre o quanto ela não quer saber sobre os reais sentimentos do @. ‘If there’s something between you and me, baby, I have no time for it‘, ela canta em seu refrão.

Em “Too Much”, provavelmente a melhor composição do disco inteiro, Carly confessa que sempre faz as coisas ‘demais’. Festas, álcool, sentimentos, pessoas; tudo é 8 ou 80. ‘Is this too much?‘, ela pergunta em um momento quase sussurrado de vulnerabilidade. Confessar que seus sentimentos são ‘demais’ não é uma coisa fácil, por que sempre existe o risco de que o @ se assuste com tal sinceridade. Essa é uma linha tênue sobre a qual Carly caminha o disco inteiro.

A sensação que Dedicated passa é que dessa vez Carly está sem medo de mostrar quem realmente é, como ela pensa e sente as coisas ao seu redor. E às vezes isso tudo realmente é too much. Carly está mais crua e vulnerável do que nunca aqui, se expondo como nunca o fez antes. Depois de ouvir Dedicated, minha vontade é sentar num boteco do centro de São Paulo e tomar um gin tônica barato com ela, enquanto conversamos sobre os @ e a vida de forma geral. Por que agora tenho certeza de que essa mulher, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, me entenderia.

OUÇA: “Too Much”, “Julien”, “Now That I Found You”, “The Sound”, “Want You In My Room” e “Real Love”

Norah Jones – Begin Again



Com sua estrondosa estreia, Norah Jones se consolidou como figura central do jazz contemporâneo. Com o tempo, porém, provou sua versatilidade enquanto fazia passagens por outros elementos para complementar a tradicionalidade do seu estilo.

Begin Again é um compilado de colaborações inusitadas que a artista desenvolveu durante 2018, e apresenta novas formas de enxergar sua obra, embora seja menos experimental do que seus projetos passados. O resultado é uma descontraída junção de faixas que parecem ter sido concebidas de forma orgânica, sem grandes pretensões.

Por um lado, faixas como “It Was You” dão um toque leve ao todo e divertem pela sua suavidade. Essa, aliás, é uma das músicas mais essencialmente jazzy e reconhecíveis, que impulsa o álbum para um momento mais animado, clima não tão presente nas outras faixas, que entoam melodias mais suaves e frias.

Por outro lado, a surpresa não é o ponto de destaque deste curto projeto, tornando-se previsível mesmo sendo composto por apenas sete músicas.

A abertura com “My Heart Is Open” constrói o caminho para uma sonoridade diferente explorando caminhos novos e construindo uma composição mais lenta que retoma sons sintéticos. Essa estrutura se acalma logo em “Begin Again”, retomando uma mais tradicional, mesmo que ainda não essencialmente a Norah da estreia.

“Uh Oh” é outro momento curioso e fora da curva para o projeto, que utiliza das diferentes camadas vocais associadas a um R&B sutil para uma faixa um pouco mais densa e de atmosfera psicodélica, semelhante à apresentada no início.

A compilação de Begin Again não surte um efeito essencialmente profundo, mas ganha um toque de encanto pela criatividade sutil e as adições vocais que a cantora proporciona com o tom suave.

É também uma face distinta de Norah, mais descontraída e despretensiosa, embora com a tonalidade refinada de sempre.

OUÇA: “Uh Oh” e “It Was You”

MARINA – LOVE + FEAR



Para um álbum de uma artista pop, pode se dizer que Love + Fear, da galesa MARINA (agora sem The Diamonds), foi aguardado de modo especial. Isso porque ao fim da divulgação de Froot (2015), a artista tinha dado uma pausa na carreira musical para se dedicar a estudos por algum tempo. Voltando pouco a pouco às atividades a partir do final do ano passado, ela começou mudando o nome artístico e lançando “Baby”, parceria dela junto a Luis Fonsi em música de Clean Bandit. Desde então, outros singles foram divulgados com clipes; e em fevereiro, veio anúncio de um álbum duplo. No início do mês passado, saiu a primeira parte, Love, mas só no último dia 26 que a obra total foi revelada.

O resultado é decepcionante. Exceto pela voz marcante de MARINA, sempre competente, tudo aqui soa muito genérico. E olha que se trata de um disco com alguma variação, que vai de beats e efeitos vocais inspirados pela ascensão do reggaeton (“Orange Trees”, “Superstar”, “You”) e passa por levadas de electropop tradicional (“Enjoy Your Life”, “Believe In Love”), com alguns trechos de baladas ao piano (“To Be Human”, “Soft To Be Strong”) e com efeitos orquestrados (“Life Is Strange”) nas 16 faixas. Acontece que nada disso traz uma marca maior de diferenciação da artista de outros de mesmo estilo  – algo que ela fez razoavelmente bem no quase kitsch The Family Jewels (2010) e no coeso synthpop de Froot.

As composições também estão longe de serem as melhores da artista. Num geral, não são marcantes, havendo um ou outro refrão de maior destaque, menos pela beleza do que pela irritação. O-Oo-Oo-Orange… E por falar em letras, ao ser guiado por um conceito das duas emoções primitivas, o álbum também traz uma lírica baseada na superação e positividade. Em tese, soa bacana; mas, pela extensão do disco e pela forma da mensagem quase autoajuda martelando nas duas partes – “you have to be soft to be strong”, “no more suckers in my life”, “so enjoy your life” -, o que se obtém mais facilmente é o cansaço.

Dito isso, há sim momentos positivos no disco. A já citada voz da artista é muito bem utilizada em algumas faixas, como nas linhas sintetizadas de “End Of The Earth” e “Life Is Strange”, com os melhores arranjos do disco. O single principal, “Handmade Heaven”, se não empolga tanto quanto os de álbuns anteriores, não compromete ao mostrar a nova fase otimista da galesa. Da mesma forma, se não fosse tão longo e repetitivo na mensagem lírica, o álbum poderia ser muito mais aproveitado, de preferência com escolhas de produção melhores. Mas o resultado final não inspira amor nem amedronta; no máximo, gera esquecimento.

OUÇA: “End Of The Earth” e “Life Is Strange”

Khalid — Free Spirit



O mundo conheceu Khalid em 2017, quando o jovem estadunidense de então 19 anos lançou seu debut American Teen. O cantor logo conquistou seu lugar ao sol graças ao seu vozeirão embalado por um beat gostosinho. Dois anos depois, Khalid nos apresenta o seu Free Spirit.

Revelação do R&B contemporâneo, Khalid tem um jeito sutil de transitar entre o pop e o hip hop e traz isso bem nítido no novo trabalho.

A versão mais hip hop de Khalid pode ser percebida em faixas como “Bad Luck” e “Better” — esta última que estava presente no EP Suncity (2018), junto de “Saturday Nights”, que encerra o disco.

Seu lado mais pop fica por conta de músicas como “Talk”, canção que é o grande hit de Free Spirit. Feita em parceria com o Disclosure, a música é chiclete mesmo e conta com um clipe bem millennial, em uma estética pinteréstica e que lembra um pouco “Hotline Bling”, do Drake.

Apesar de ter algumas músicas que parece que a gente já ouviu antes (estou olhando para você, “Bluffin’”), temos canções muito boas, como “Free Spirit”, “Twenty One” e “Self”. “Hundred” é minha música favorita do álbum, porque além de trazer com mais intensidade o Khalid que eu já conhecia, é uma música com superpotencial de hit prontinho para estourar — e tem a letra perfeita.

São 57 minutos e 17 músicas para apreciar todo o talento de Khalid. E como 17 músicas é bastante coisa, não é sempre que o cantor acerta. As parcerias, “Don’t Pretend”, com SAFE, e “Outta My Head”, com John Mayer, por exemplo, ficam um pouco fora de lugar, eu diria. Talvez tenha faltado um pouco de edição aqui, às vezes menos é mais.  

Khalid, agora com 21 anos, tem o rosto e o espírito livre da nova geração da música pop. Free Spirit pode não ser uma obra-prima impecável (saudades, era American Teen), mas tem boas letras, boas batidas e bons hits; é um disco coeso, gostosinho e vale a ouvida.

Fun fact: Junto do lançamento do disco, Khalid lançou um curta metragem homônimo, que explora a mensagem do disco. Se você curtiu o álbum, vale assistir.

OUÇA: “Hundred”, “Talk”, “Twenty One”, “Self”.

Sara Bareilles – Amidst The Chaos



Em 2013, Sara Bareilles lançou The Blessed Unrest, que rendeu a ela uma merecida indicação ao Grammy de melhor álbum. Desde então, a norte-americana se manteve ocupada com projetos como a trilha sonora da peça Waitress, indicada ao Tony, prêmio máximo da Broadway. Nesses seis anos, os Estados Unidos e o mundo mergulharam em uma situação estarrecedora, devido à ascensão de políticos como Donald Trump. Isso inspirou Sara a criar Amidst The Chaos, sua forma de lidar com a bagunça que temos vivido.

O lançamento começa muito bem, explorando a inquietação da cantora por meio de músicas pulsantes como “Armor”, uma espécie de grito de autodefesa e fortalecimento. Na primeira metade do álbum, a artista explora guitarras e harpas, elementos atípicos para a sonoridade dela.

O problema começa na segunda parte do álbum, pois Sara não apresenta absolutamente nada novo, tanto nas melodias quanto nas letras. Músicas como “Poetry by Dead  Man” e até “A Safe Placeto Land”, dueto com John Legend, transformam a festa num enterro, graças a um ritmo sonolento, sendo esquecidas assim que terminam.

Apesar de não estar à altura dos álbuns anteriores, Amidst The Chaos está longe de ser fraco. Até nas canções menos inspiradas, Sara Bareilles nos lembra do motivo de ser uma das compositoras mais respeitadas da indústria. E não há um momento sequer em que a cantora não consiga nos encantar com seu domínio vocal e a suavidade com que canta, o que já serve para nos acalmar durante tempos caóticos e desoladores.

OUÇA: “No Such Thing”, “Eyes On You”, “Armor” e “Wicked Love”

Billie Eilish – WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?

Precisamos falar sobre Billie Eilish.

Em uma simples e rápida “navegada” pelas redes, nos deparamos facilmente com o nome Billie Eilish. Vemos comentários elogiando o seu trabalho, vídeos contando um pouco mais sobre Billie e vemos alguns comentários trazendo o questionamento: quem é Billie Eilish? Essas reações podem ser justificadas pelo crescimento meteórico da jovem de 17 anos que vem atraindo a atenção musicalmente, visualmente, esteticamente, ou seja, uma coisa é fato, Billie Eilish está na boca do povo e quem ainda não conhece o seu trabalho, com toda certeza irá buscar algo sobre ela para saciar a curiosidade em torno dessa figura tão emblemática.

Assim, não é por acaso que o seu álbum WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? foi tão esperado e bastante comentado. Vale ressaltar que Billie Eilish produziu o álbum – e seus trabalhos anteriores – com o irmão Finneas O’ Connell em sua casa e a qualidade do registro – e do alcance do trabalho – mostra que essa parceria está dando muito certo. Em algumas faixas, conseguimos ouvir risadas e interações entre eles, o que mostra os momentos descontraídos da produção e a diversão, mesmo que algumas faixas possuam temáticas um pouco mais pesadas.

WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? mostra o seu potencial e reúne faixas com melodias variadas, o que aumenta a possibilidade de alcance, já que determinado público pode curtir a parte do álbum “menos estranha/pesada” e outra parte curtir o restante do álbum. Isto é, no álbum temos faixas mais sentimentais, suaves com uso do piano, violão, voz e outras faixas com sintetizadores, baixo que exploram uma faceta mais sombria, estranha do trabalho.

Apesar de existir esses “dois lados” dentro do mesmo álbum, esses lados coexistem de forma harmoniosa e não deixam de fazer sentido, já que as letras falam sobre relacionamentos, medicamentos, feridas, mágoas, depressão, pesadelos, suicídio, ou seja, WHEN WE ALL FALL ASLEEP é sobre ser vulnerável, sobre se relacionar e acabar ferido, sobre ter pesadelos, sobre não estar bem, sobre tomar remédios, sobre saúde mental, enfim, sobre vulnerabilidades. Embora Billie Eilish possa trazer estranhamentos, precisamos falar sobre Billie Eilish e do alcance que ela possui, ela é uma artista muito jovem com um alcance enorme e muitos jovens se identificam com ela, seja musicalmente/esteticamente/visualmente, se inspiram nela e sentem/vivem boa parte de suas letras.

Por fim, WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? merece ser ouvido, seja por curiosidade ou por gosto, e devemos tentar compreender o que é a Billie Eilish para a indústria da música atual e como ela anda reverberando enquanto fenômeno para ouvintes mais jovens.  Afinal, podemos considerar Billie uma artista pop, mas ela é uma artista jovem de 17 anos – que apesar de causar um pouco de estranhamento – lançou um álbum interessante e que canta sobre pesadelos, mágoas, depressão – assuntos que tocam em muitas feridas.

OUÇA: “You Should See Me In A Crown”, “All The Good Girls Go To Hell”, “When The Party’s Over”, “My Strange Addiction” e “Bury A Friend”

Dido – Still On My Mind



A maioria das pessoas não lembra da Dido. Só quando ouvem alguma playlists nostálgica dos anos 00, onde se encontram hits como “White Flag” e “Thank You”. Eu adoro a Dido, mas não acompanhei os últimos passos da sua carreira. Não sei muito sobre o que ela lançou nos últimos anos, mas quando descobri sobre Still On My Mind senti a chama da nostalgia se acender em meu coração.

Sem dúvidas, o maior trunfo da cantora é sua voz. Ela pode te confortar e te assombrar ao mesmo tempo. Ouvir uma música da Dido é como colocar manteiga na frigideira: além do cheiro maravilhoso que toma conta da cozinha é prazeroso ver a manteiga derreter. Só que um disco não se sustenta apenas com a voz. Eu ouvia as músicas e logo me esquecia do que tinha acabado de ouvir. Quase nada deixa um impacto ou capta sua atenção o suficiente pra te convencer que o tempo dedicado a ouvir o álbum valeu a pena.

A voz da Dido varia entre ser incompatível com as batidas sintéticas – como em “Mad Love” – e permanecer num platô enérgico baixo – como em “Walking By”. E mesmo que algumas letras sejam delicadas e sensíveis, isso não é suficiente para alavancar o disco. O que é uma pena, porque o disco abre com a maravilhosa “Hurricane”, uma das melhores músicas da carreira da cantora.

Still On My Mind tem pitadas de melancolia, uma dose emocional familiar e um cheirinho do início dos anos 00 que é inconfundível. Só que já estamos em 2019. Se o objetivo da Dido for fazer um comeback pro mercado, não sei se esse foi o melhor caminho. Ainda bem que posso me agarrar na memória afetiva de “Here With Me”.

OUÇA: “Hurricanes”, “Take You Home” e “Friends”

Avril Lavigne – Head Above Water


Depois do maior hiato de sua carreira – 6 anos desde o lançamento do último álbum -, Avril Lavigne volta com letras reflexivas e acústicas em contraposição aos hits cheios de guitarra e refrões relativamente simples que a tornaram famosa, como “Complicated”, “Girlfriend” e “Sk8er Boi”.

Este novo trabalho é marcado pelo fato dela ter sido diagnosticada em 2015 com doença de Lyme, enfermidade comum, mas que pode ser letal se não tratada. O divórcio com o vocalista do Nickelback, Chad Kroeger, também influencia nas canções.

A faixa que faz uma referência mais direta a luta contra a doença é “Warrior”, última do disco. A música é uma balada acústica na qual Avril se abre sobre o momento em que batalhava pela vida. O refrão adota o tom de superação que marca todo o lançamento: ‘And I’m stronger, that’s why I’m alive / I will conquer, time after time / I’ll never falter, I will survive / I’m a warrior’. A mesma ideia de superar desafios está presente na faixa-título Head Above Water, na qual ela fala sobre manter “a cabeça acima da água” durante a tempestade.

Os destaques do álbum vão para as letras românticas de “Goddess” e “Crush”, que possuem uma pegada de pop misturado com soul e melodias que te pegam na primeira ouvida.

Dumb Blonde” é a mais pop do álbum. Com uma letra bem “girls with attitude”, ela faz o papel de agradar aqueles que sentem falta da Avril de “Girfriend”. As músicas possuem ritmos parecidos e as guitarras não são ignoradas como no resto do disco. Junto com a rapper Nick Minaj, a canadense se coloca como protagonista e diz que não é nenhuma loira burra. A canção pode lembrar um pouco “Hard Out Here” da Lily Allen.

Head Above Water talvez não agrade os fãs mais antigos da Avril. Por ser um trabalho predominantemente acústico e tratar das fraquezas da cantora porta-voz da rebeldia adolescente dos anos 2000, alguns podem estranhar.

No entanto, engana-se quem espera ouvir um disco pessimista, apesar dos temas difíceis abordados, todas as composições focam em transpor essas dificuldades. Ainda que muitos clichês sejam usados, como o discurso batido de “vencer batalhas” e “passar pela tempestade”, Avril  acerta em mostrar a capacidade de se reinventar e externar em suas músicas os demônios internos contra os quais ela luta há 4 anos.

OUÇA: “Goddess”, “Crush” e “Head Above Water”

Ariana Grande – thank u, next


thank u, next é o último álbum de Ariana Grande, uma das maiores artistas pops da atualidade. sweetener (2018) mostrou uma artista lidando com os problemas de sua vida com uma atitude positiva. Alegre, iluminado, embasado em resiliência e até mesmo uma dose de negação. thank u, next, como um bom antagonista shakespeariano, escancara uma outra postura. Sentimentos negativos, raiva e melancolia; um lado B de como lidar também com essas mesmas experiências negativas que não aparentam dar trégua.

Ao suceder rapidamente o lançamento anterior, fica inevitável colocar os dois discos lados a lado. sweetener marcou uma transição da cantora rumo a um produto mais autoral e autêntico. Com o auxílio de Pharell Williiams na produção, o produto foi um registro prospectivo, forte, progressista dentro do que pode ser no urban pop.

Desse lançamento para cá, uma série de eventos aumentaram a exposição de Ariana, e seus ressentimentos também. Toda a postura positiva e enérgica dela no trabalho anterior sede espaço à traços de personalidades visto como ruins e posturas não-convencionais, uma maneira diferente de ver os problemas da vista.

Uma das características marcantes é uma ambientação uníssona e presente. As músicas partem de uma base harmônica semelhante, um urban pop mais lento e “chilled”, com mais elementos de trap. Surge uma aura sombria, mais introspectiva, que projeta esse trabalho como o tão recorrente disco “dark pop” da carreira das cantoras americanas.

A primeira faixa, “imagine”, já atesta grande parte do que vem pela frente. Um beat devagar e a voz de Ariana em primeiro plano, com direito a whistle notes de Mariah Carey e um desfecho ao som de violinas. Ariana lida ao longo dos 41 minutos com amores impossíveis, incapacidade de se relacionar, consumismo. Dificuldade de lidar com o passado, arrependimentos e uma incapacidade de mudar essas características. “I admit I’m a lil messep up” ela canta em needy.

O álbum tem pontos altos excelentes, embasado alto escalão de produtores e compositores envolvidos no projeto. Os saxofones e o baixo elaborado em “bloodline”, meticulosamente curados por Max Martin, fazem dela facilmente uma das melhores faixas do ano. “fake smile” e “make up” tem uma estrutura pop tão bem casada que é bem provável tocar em qualquer rádio durante o próximo ano.

Obviamente um registro tão longo feito em tão pouco tempo tem momentos pouco cativantes. As insossas “bad idea” e “ghostin” parecem que poderiam usar de mais um tempo no estúdio. O disco finaliza com os três singles já lançados, que de fato fazem o recorte mais comercial do álbum. A faixa homônima realmente sintetiza todo o posicionamento de Ariana: olhando para si mesma e compreendendo suas falhas e erros, e tirando algum proveito.

thank u, next é sim um álbum melancólica de sua própria maneira. Mas antes disso, é sobre não saber lidar emocionalmente com as várias circunstâncias da vida. Ariana tem atualmente 11 anos de carreira. Com esse mesmo tempo de carreira, Mariah Carey já havia lançado Butterfly; Whitney Houston se preparava para lançar o My Love Is Your Love; Madonna atingia sua época mais polêmica com a sexualidade, Erotica e o sex book.  Seguindo essa lógica, provavelmente estamos nos aproximando do auge da carreira de Ariana. Seria thank u, next esse momento?

p.s.: Alguém ensina essa menina a usar letra maiúscula, por favor.

OUÇA: “imagine”, “bloodline” e “fake smile”

Clean Bandit – What Is Love?


Composto por Grace Chatto, Jack Patterson e Luke Patterson, Clean Bandit é um dos maiores projetos musicais da atualidade. Com diversas canções próximas dos 500 milhões de execuções apenas no Spotify (alguns já ultrapassaram e outras estão pertinho), o trio torna pop, comercial e radiofônico tudo aquilo no que toca.

O segundo álbum de estúdio, What Is Love?, chega quatro anos depois do debut, New Eyes, lançado em 2014. Neste novo material, aclamado nas pistas de dança e rádios de todo o mundo, Clean Bandit apresenta canções inéditas e muitas das quais já foram trabalhadas ostensivamente como singles entre 2017 e 2018.

A sonoridade entregue em What Is Love? é alinhada com o que, musicalmente, o mundo tem consumido nesta segunda metade dos anos 2010: a presença de vocais poderosos, batidas tropical house e instrumental sinfônico (piano e violoncelo, em especial), compõem a mistura perfeita para o êxito do trio.

Permeado por colaborações consistentes de figuras em ascensão na cena pop, o novo disco apresenta a banda em arranjos ainda mais pop do que os anteriores. O sucesso nos streamings, por exemplo, vem de algumas das canções do novo material – que traz músicas como “Baby”, com os vocais de Marina and the Diamonds e Luis Fonsi; “Rockabye”, que conta com a participação de Sean Paul e Anne-Marie; “Symphony”, que apresenta vocais de Zara Larsson; “Solo”, com os Demi Lovato, “I Miss You”, com Julia Michels e “Tears”, com Louisa Johnson.

Os destaques para as colaborações certamente incrementam os números do grupo, ao tornarem as canções significativas para diferentes tipos de público – o que foi feito com a fatia latina do mundo com a recente “Baby’, ao trazer Fonsi entoando versos em espanhol ao lado da parceira (improvável) Marina Diamandis. É indiscutível a intenção de alcançar, também, a parcela mundial amante de reggaetown, neste caso em específico.

“Symphony”, “Solo”, “Rockabye” são exemplos de canções que podem já ser tidas como certas na relação de grandes músicas da década. Nestes casos a receita musical sugerida acima é notável, bem como melodias fáceis e letras que grudam. Se a gente soma tudo isso tem a receita do sucesso.

Se traçada uma comparação com New Eyes (2014), que traz dois grandes êxitos em parceria com Jess Glynne, “Real Love” e “Rather Be”, o novo disco vai ainda além em sonoridade e se mostra mais conciso e menos experimental., muito embora o registro anterior seja legítimo e, a exemplo do mais recente, também um grande álbum.

OUÇA: “Baby” e “Tears”