Mark Ronson – Late Night Feelings



Mark Ronson é conhecido por colaborar com grandes artistas como Amy Winehouse, Lady Gaga, Adele, Lily Allen, Miley Cyrus, Queens of the Stone Age e Bruno Mars. Além disso, possui cinco álbuns solo, tendo ficado bastante conecido por seu hit “Uptown Funk”, em parceria com Bruno Mars, do disco Uptown Special. Em seu quinto disco, Ronson decidiu usar somente vozes femininas e apostar num estilo mais voltado pro disco, e acertou em cheio.

Trazendo a sueca Lykke Li como convidada, a faixa-título do disco – “Late Night Feelings” – exemplifica muito bem o conceito do álbum, trazendo um arranjo com pop dançante acompanando a voz melancólia da cantora. “Find U Again” traz a cantora Camila Cabello e a produção de Kevin Parker, do Tame Impala. É válido destacar a presença da cantora YEBBA que está presente em três excelentes faixas: “Knock, Knock, Knock”; “Don’t Leave Me Lonely” e “When U Went Away”. O grande destaque do disco é a parceria com Miley Cyrus, “Nothing Breaks Like A Heart”, que combina o disco com o country característico no estilo da cantora.

Ronson trabalha muito bem a estética dos anos 70 em Late Night Feelings, mas trazendo as sonorizações com economia em músicas que servem muito bem para dançar e combinam também com momentos mais relaxados. O caminho nostálgico seguido pelo produtor encaixou muito bem com a escolha das cantoras e com o tom das composições. Late Night Feelings não traz um hit como “Uptown Funk”, mas é – como um todo – um dos melhores álbuns da carreira de Mark Ronson.

OUÇA: “Nothing Breaks Like A Heart”, “Find U Again”, “Don’t Leave Me Lonely” e “Late Night Feelings”

Jonas Brothers – Happiness Begins



Nos anos 2000, três irmãos formaram uma banda que ficaria em atividade de 2005 até 2013.  Composto por Kevin, Joe e Nick Jonas, os Jonas Brothers lançaram, em oito anos, quatro álbuns, participaram de filmes da Disney e tiveram a própria série. Em outubro de 2013 o grupo confirmou o encerramento de suas atividades para a tristeza de fãs que acompanhavam os JoBros. 

Dez anos desde o lançamento do último álbum de estúdio, Happiness Begins surge em um cenário frutífero. Há uma nova safra de boy bands provindas do oriente, reuniões de bandas nacionais e internacionais, remakes e uma busca incansável por ressignificar o passado e – tentar – reviver os dias gloriosos. 

 “Sucker”, primeiro single lançado em 1° de março de 2019, por meio da Republic Records, conquistou o seu primeiro lugar nas paradas americanas. Filmado em Hatfield House, palácio localizado em Hertfordshire na Inglaterra, o clipe é megalomaníaco e digno da monarquia, há também a participação de Danielle Jonas, Priyanka Chopra Jonas e Sophie Turner, esposas dos Jonas. 

O novo álbum dos Jonas Brothers possui o maior número de compositores e produtores nele. Há um claro desejo de retornar para o estrelato. Em 2019 guitarras soam um pouco old fashioned, e tudo bem, afinal no novo álbum elas passam despercebidas. É hora da bateria e dos sintetizadores. 

 “Don’t Throw It Away” bebe da mesma fonte de “Sucker”. Atmosfera da costa do Pacífico, praias e um bronzeado saudável. A faixa é brilhante, não só em genialidade, mas em um aspecto visual sinestésico. Uma combinação com ar de veludo molhado. “Cool”, segundo single, brinca com humor e um tom mais acústico. É cativante e brincalhão, estimulando o público a rir da letra e do clipe em si. 

Happiness Begins refere-se à volta dos JoBros, ela não é icônica ou impecável. Mas, neste álbum, a banda mostra uma faceta que deve ser vista e ouvida: homens que até hoje colhem os frutos de uma carreira iniciada precocemente e, desta vez, mais respeitada que em seu início. Não é mais um sonho adolescente, mas uma banda que deve ser ouvida.  Um grupo que entende de música, mídia e personalidade. Estão colhendo o seu melhor momento: o presente.

OUÇA: “Sucker”, “Don’t Throw It Away”, “Happy When I’m Sad” e “Rollercoaster”.

Madonna – Madame X



O que faz um álbum ser bom? A artista por si só basta? São os hits? Os charts? Tem que ter uma farofa? São os produtores, os feats, a presença ou não de um conceito? Boas letras? Acho que isso é muito individual. Tudo isso pode ou não ser importante, mas o principal é o que ele desperta dentro de você.

Julgar o trabalho de um artista é completamente subjetivo. É claro que temos pessoas preparadas para fazer isso, mas quanta coisa ruim, ruim mesmo faz um sucesso danado? Esse texto ficaria gigantesco se eu citasse alguns e tenho certeza que seria super criticada por ter mencionado certas bandas. Arte é isso. Cada um tem uma percepção.

A Madonna sempre foi e sempre será uma pessoa polêmica. Nem sempre por ter um trabalho interessante, mas é inegável que ela é uma das cantoras mais fascinantes do mundo. Quando ela anunciou Madame X eu fiquei muito ansiosa, até ela lançar “Medellín”. Aí, Madonna… Jura?

Então vieram os feats com o Swae Lee e o Quavo. Minha Nossa Senhora… “Crave” até tem um refrão que gruda na cabeça, mas “Future” é um horror. Madonna, você não precisa lançar uma música WOKE pra fazer sucesso. Puta que pariu, Madonna. Me ajuda.

Baseado nos singles, esperava uma bomba. Até que ela lançou “Dark Ballet”. Eu sou grande defensora de que uma música não deve se apoiar em um clipe, mas esse não é o caso. A música e o clipe são complementares, mas uma vez que visto o clipe é difícil dissociar o som da imagem. Alí estava a cantora que os fãs tanto amam. E desse momento em diante, a Madonna brilhou. 

Fazia muito, mas muito tempo que eu não ouvia um álbum dela e sentia os arrepios que senti. Acho que a última vez que isso aconteceu foi com o Confessions On A Dance Floor. Mas Madame X me pegou. Foram tantas boas surpresas que quase me esqueci dos singles que ela lançou antes do álbum sair oficialmente. A cereja no bolo foi ouvir a rainha do pop cantando um funk (!) em português (!!). Eu sei que é um cover, mas quem liga? Ficou maravilhoso. 

Madame X não precisava de dois feats com o Maluma. Não precisava de faixas WOKE. Não precisava de uma porção de outras coisas. Mesmo assim é um trabalho surpreendente, repleto de bons momentos e misturas sonoras marcantes. Vemos aqui uma Madonna revigorada, fresca e pronta pra outra. Pode ser que você acredite, como muitos, que ela precisa se aposentar. Pra mim, a arte que ela apresenta para o mundo é um presente. Que disco, meus amigos. Que disco.

OUÇA: Tudo. É a Madonna, gente. Tem que ouvir pelo menos uma vez.

Jamie Cullum — Taller



“Wheels”, do Jamie Cullum, é uma música que marcou a minha adolescência na época do ensino médio. Muito cantei seu “woooooah, is this something that I never, something that I never had” — isso lá no começo dos anos 2010.

Em 2016, fui pra Buenos Aires assistir The Strypes no Personal Fest e quem foi um dos headliners da primeira noite? Ninguém menos que o tal do Jamie Cullum. Tive a chance de assistir boa parte do seu show e ouvir aquele hino adolescente ao vivo, num momento meio “full circle”, mesmo que eu desconhecesse todo o resto do seu repertório. Tudo isso para dizer que cá estou eu, em 2019, resenhando seu oitavo disco, Taller.

Mesmo tendo esse passado com o artista, ouvir Taller é como se fosse meu primeiro contato com Jamie Cullum — um momento de descoberta e mergulho no universo do multi-instrumentista que já acumula 20 anos de carreira e é considerado um dos principais nomes do jazz contemporâneo.

Já na primeira música, a homônima “Taller”, dá para entender o porquê do inglês ter se tornado uma referência em seu gênero. Sua música é bastante atual, ao mesmo tempo que carrega o peso de anos de ritmo.

“Life Is Grey” é mais lentinha, destacando os vocais de Jamie, mas cresce no final com um piano completamente apaixonante. Inclusive, o piano de todo o álbum é precioso. E talvez eu seja suspeita para falar, visto que sou apaixonada pelo instrumento, mas o piano de Cullum tem o poder de tornar qualquer música umas mil vezes mais incrível.

Seja nas mais animadas, como “Usher”, ou nas tranquilas, como “Drink”, Jamie Cullum nos mostra que está no seu elemento. É impossível passar batido pelas suas canções. Toda a mistura dos vocais do cantor, o instrumental preciso e os backing vocals — que estão presentes em grande parte do álbum — é perfeita.

“The Age of Anxiety” é uma das músicas mais bonitas (e tristes) que eu já ouvi e dá vontade de ficar ouvindo em looping — para sempre. Muito simples, em sua maior parte marcada apenas por voz e piano, é um verdadeiro hino da contemporaneidade, sendo muito fácil de se identificar. “I hope the band won’t make me sing along.”

“You Can’t Hide Away From Love” tem toda a atmosfera clássica e nos faz viajar no tempo. Poderia muito bem fazer parte de um filme antigo em preto-e-branco…

Da mesma forma que “Taller” abre o álbum brilhantemente, a calminha “Endings Are Beginnings” foi a escolha certeira para encerrar o disco. É como se o cantor sussurrasse a letra no nosso ouvido, quase que numa canção de ninar.

Taller é um dos melhores discos que eu tive o prazer de ouvir em 2019. São quase 40 minutos de melodias muito gostosas, um cosmos musical inteiro a ser explorado. É um álbum para ouvir de uma vez só — para parar tudo e ouvir. Foi feito para ser contemplado. E merece ser contemplado. É uma obra de arte!

OUÇA: “The Age Of Anxiety”, “Life Is Grey”, “Taller” e “Drink”.

Carly Rae Jepsen – Dedicated



Dedicated é o tão aguardado quarto álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen, seu primeiro depois de ter mudado completamente o jogo e o cenário da música pop com Emotion em 2015. Emotion foi um trabalho que pegou muita gente de surpresa, eu incluso, com o nível de suas composições. De uma hora pra outra, aparentemente, a cantora de “Call Me Maybe” que virou meme nos entrega uma obra ambiciosa, coesa e extremamente bem escrita e produzida. Emotion, querendo ou não, é um dos melhores e mais influentes álbuns pop das últimas décadas – até seu acompanhante, Emotion Side B, ilustrava que seus b-sides e músicas rejeitadas ainda eram melhores do que álbuns completos de outras pessoas por aí.

Seguindo essa torrente de música boa e bem feita, Carly lançou em 2017 a perfeição pop que é o single “Cut To The Feeling”. E agora todos estavam de olho nela, no que viria depois. Se Emotion foi lançado quando muitos ainda a consideravam apenas ‘a moça de “Call Me Maybe”‘, um pop farofeiro que não devia ser levado a sério, as coisas agora estão dramaticamente diferentes. E é aí que Dedicated entra, chega e quebra com tudo de novo. E dessa vez não podemos mais dizer que estamos surpresos.

Desde a primeira música divulgada ano passado, “Party For One”, Carly já profetizava que seu novo trabalho seria um pouco mais sóbrio e sério do que Emotion foi, mas ainda mantendo sua essência chiclete e leve. De uma vez por todas fica claro que Carly fez aulas com a sueca Robyn sobre como construir uma narrativa e forte densa tendo como base as batidas (“Cry”, “Your Type”). Dedicated traz tudo isso e ainda completa com uma excelente influência do pop dos anos 70, como Cher e Donna Summer.

Os temas tratados liricamente no álbum continuam sendo relacionamentos, crushes correspondidos ou não, decepções amorosas e confissões. Nada exatamente inovador, seja na música pop ou no indie underground, mas que quando são bem feitos e bem escritos se tornam verdadeiras gemas. O melhor exemplo disso está em “Now That I Found You”, uma música sobre quando você tem uma conexão instantânea e quase inexplicável com o @, e o twist em seu refrão está nos versos ‘Don’t give it up, don’t say it hurts‘ – o @ não parece estar tão pronto para essa ligação quanto Carly. Mas ela está, e continua ‘I want it all‘, tanto o bom quanto o não-tão-bom. E quem nunca passou por isso?

A universalidade das letras em Dedicated é, no fim do dia, seu maior trunfo. Carly canta sobre coisas, situações e pessoas comuns a todos, criando e contando histórias fáceis de se identificar – de uma forma não tão diferente do que nomes como Courtney Barnett o fazem, em um tipo completamente diferente de som. Em “Happy Not Knowing”, Carly traz uma dinâmica inusitada (quase como quando Robyn cantou em “Call Your Girlfriend” sobre ser ‘a outra’) cantando sobre o quanto ela não quer que o @ se declare, sobre o quanto ela não quer saber sobre os reais sentimentos do @. ‘If there’s something between you and me, baby, I have no time for it‘, ela canta em seu refrão.

Em “Too Much”, provavelmente a melhor composição do disco inteiro, Carly confessa que sempre faz as coisas ‘demais’. Festas, álcool, sentimentos, pessoas; tudo é 8 ou 80. ‘Is this too much?‘, ela pergunta em um momento quase sussurrado de vulnerabilidade. Confessar que seus sentimentos são ‘demais’ não é uma coisa fácil, por que sempre existe o risco de que o @ se assuste com tal sinceridade. Essa é uma linha tênue sobre a qual Carly caminha o disco inteiro.

A sensação que Dedicated passa é que dessa vez Carly está sem medo de mostrar quem realmente é, como ela pensa e sente as coisas ao seu redor. E às vezes isso tudo realmente é too much. Carly está mais crua e vulnerável do que nunca aqui, se expondo como nunca o fez antes. Depois de ouvir Dedicated, minha vontade é sentar num boteco do centro de São Paulo e tomar um gin tônica barato com ela, enquanto conversamos sobre os @ e a vida de forma geral. Por que agora tenho certeza de que essa mulher, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, me entenderia.

OUÇA: “Too Much”, “Julien”, “Now That I Found You”, “The Sound”, “Want You In My Room” e “Real Love”

Norah Jones – Begin Again



Com sua estrondosa estreia, Norah Jones se consolidou como figura central do jazz contemporâneo. Com o tempo, porém, provou sua versatilidade enquanto fazia passagens por outros elementos para complementar a tradicionalidade do seu estilo.

Begin Again é um compilado de colaborações inusitadas que a artista desenvolveu durante 2018, e apresenta novas formas de enxergar sua obra, embora seja menos experimental do que seus projetos passados. O resultado é uma descontraída junção de faixas que parecem ter sido concebidas de forma orgânica, sem grandes pretensões.

Por um lado, faixas como “It Was You” dão um toque leve ao todo e divertem pela sua suavidade. Essa, aliás, é uma das músicas mais essencialmente jazzy e reconhecíveis, que impulsa o álbum para um momento mais animado, clima não tão presente nas outras faixas, que entoam melodias mais suaves e frias.

Por outro lado, a surpresa não é o ponto de destaque deste curto projeto, tornando-se previsível mesmo sendo composto por apenas sete músicas.

A abertura com “My Heart Is Open” constrói o caminho para uma sonoridade diferente explorando caminhos novos e construindo uma composição mais lenta que retoma sons sintéticos. Essa estrutura se acalma logo em “Begin Again”, retomando uma mais tradicional, mesmo que ainda não essencialmente a Norah da estreia.

“Uh Oh” é outro momento curioso e fora da curva para o projeto, que utiliza das diferentes camadas vocais associadas a um R&B sutil para uma faixa um pouco mais densa e de atmosfera psicodélica, semelhante à apresentada no início.

A compilação de Begin Again não surte um efeito essencialmente profundo, mas ganha um toque de encanto pela criatividade sutil e as adições vocais que a cantora proporciona com o tom suave.

É também uma face distinta de Norah, mais descontraída e despretensiosa, embora com a tonalidade refinada de sempre.

OUÇA: “Uh Oh” e “It Was You”

MARINA – LOVE + FEAR



Para um álbum de uma artista pop, pode se dizer que Love + Fear, da galesa MARINA (agora sem The Diamonds), foi aguardado de modo especial. Isso porque ao fim da divulgação de Froot (2015), a artista tinha dado uma pausa na carreira musical para se dedicar a estudos por algum tempo. Voltando pouco a pouco às atividades a partir do final do ano passado, ela começou mudando o nome artístico e lançando “Baby”, parceria dela junto a Luis Fonsi em música de Clean Bandit. Desde então, outros singles foram divulgados com clipes; e em fevereiro, veio anúncio de um álbum duplo. No início do mês passado, saiu a primeira parte, Love, mas só no último dia 26 que a obra total foi revelada.

O resultado é decepcionante. Exceto pela voz marcante de MARINA, sempre competente, tudo aqui soa muito genérico. E olha que se trata de um disco com alguma variação, que vai de beats e efeitos vocais inspirados pela ascensão do reggaeton (“Orange Trees”, “Superstar”, “You”) e passa por levadas de electropop tradicional (“Enjoy Your Life”, “Believe In Love”), com alguns trechos de baladas ao piano (“To Be Human”, “Soft To Be Strong”) e com efeitos orquestrados (“Life Is Strange”) nas 16 faixas. Acontece que nada disso traz uma marca maior de diferenciação da artista de outros de mesmo estilo  – algo que ela fez razoavelmente bem no quase kitsch The Family Jewels (2010) e no coeso synthpop de Froot.

As composições também estão longe de serem as melhores da artista. Num geral, não são marcantes, havendo um ou outro refrão de maior destaque, menos pela beleza do que pela irritação. O-Oo-Oo-Orange… E por falar em letras, ao ser guiado por um conceito das duas emoções primitivas, o álbum também traz uma lírica baseada na superação e positividade. Em tese, soa bacana; mas, pela extensão do disco e pela forma da mensagem quase autoajuda martelando nas duas partes – “you have to be soft to be strong”, “no more suckers in my life”, “so enjoy your life” -, o que se obtém mais facilmente é o cansaço.

Dito isso, há sim momentos positivos no disco. A já citada voz da artista é muito bem utilizada em algumas faixas, como nas linhas sintetizadas de “End Of The Earth” e “Life Is Strange”, com os melhores arranjos do disco. O single principal, “Handmade Heaven”, se não empolga tanto quanto os de álbuns anteriores, não compromete ao mostrar a nova fase otimista da galesa. Da mesma forma, se não fosse tão longo e repetitivo na mensagem lírica, o álbum poderia ser muito mais aproveitado, de preferência com escolhas de produção melhores. Mas o resultado final não inspira amor nem amedronta; no máximo, gera esquecimento.

OUÇA: “End Of The Earth” e “Life Is Strange”

Khalid — Free Spirit



O mundo conheceu Khalid em 2017, quando o jovem estadunidense de então 19 anos lançou seu debut American Teen. O cantor logo conquistou seu lugar ao sol graças ao seu vozeirão embalado por um beat gostosinho. Dois anos depois, Khalid nos apresenta o seu Free Spirit.

Revelação do R&B contemporâneo, Khalid tem um jeito sutil de transitar entre o pop e o hip hop e traz isso bem nítido no novo trabalho.

A versão mais hip hop de Khalid pode ser percebida em faixas como “Bad Luck” e “Better” — esta última que estava presente no EP Suncity (2018), junto de “Saturday Nights”, que encerra o disco.

Seu lado mais pop fica por conta de músicas como “Talk”, canção que é o grande hit de Free Spirit. Feita em parceria com o Disclosure, a música é chiclete mesmo e conta com um clipe bem millennial, em uma estética pinteréstica e que lembra um pouco “Hotline Bling”, do Drake.

Apesar de ter algumas músicas que parece que a gente já ouviu antes (estou olhando para você, “Bluffin’”), temos canções muito boas, como “Free Spirit”, “Twenty One” e “Self”. “Hundred” é minha música favorita do álbum, porque além de trazer com mais intensidade o Khalid que eu já conhecia, é uma música com superpotencial de hit prontinho para estourar — e tem a letra perfeita.

São 57 minutos e 17 músicas para apreciar todo o talento de Khalid. E como 17 músicas é bastante coisa, não é sempre que o cantor acerta. As parcerias, “Don’t Pretend”, com SAFE, e “Outta My Head”, com John Mayer, por exemplo, ficam um pouco fora de lugar, eu diria. Talvez tenha faltado um pouco de edição aqui, às vezes menos é mais.  

Khalid, agora com 21 anos, tem o rosto e o espírito livre da nova geração da música pop. Free Spirit pode não ser uma obra-prima impecável (saudades, era American Teen), mas tem boas letras, boas batidas e bons hits; é um disco coeso, gostosinho e vale a ouvida.

Fun fact: Junto do lançamento do disco, Khalid lançou um curta metragem homônimo, que explora a mensagem do disco. Se você curtiu o álbum, vale assistir.

OUÇA: “Hundred”, “Talk”, “Twenty One”, “Self”.

Sara Bareilles – Amidst The Chaos



Em 2013, Sara Bareilles lançou The Blessed Unrest, que rendeu a ela uma merecida indicação ao Grammy de melhor álbum. Desde então, a norte-americana se manteve ocupada com projetos como a trilha sonora da peça Waitress, indicada ao Tony, prêmio máximo da Broadway. Nesses seis anos, os Estados Unidos e o mundo mergulharam em uma situação estarrecedora, devido à ascensão de políticos como Donald Trump. Isso inspirou Sara a criar Amidst The Chaos, sua forma de lidar com a bagunça que temos vivido.

O lançamento começa muito bem, explorando a inquietação da cantora por meio de músicas pulsantes como “Armor”, uma espécie de grito de autodefesa e fortalecimento. Na primeira metade do álbum, a artista explora guitarras e harpas, elementos atípicos para a sonoridade dela.

O problema começa na segunda parte do álbum, pois Sara não apresenta absolutamente nada novo, tanto nas melodias quanto nas letras. Músicas como “Poetry by Dead  Man” e até “A Safe Placeto Land”, dueto com John Legend, transformam a festa num enterro, graças a um ritmo sonolento, sendo esquecidas assim que terminam.

Apesar de não estar à altura dos álbuns anteriores, Amidst The Chaos está longe de ser fraco. Até nas canções menos inspiradas, Sara Bareilles nos lembra do motivo de ser uma das compositoras mais respeitadas da indústria. E não há um momento sequer em que a cantora não consiga nos encantar com seu domínio vocal e a suavidade com que canta, o que já serve para nos acalmar durante tempos caóticos e desoladores.

OUÇA: “No Such Thing”, “Eyes On You”, “Armor” e “Wicked Love”

Billie Eilish – WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?

Precisamos falar sobre Billie Eilish.

Em uma simples e rápida “navegada” pelas redes, nos deparamos facilmente com o nome Billie Eilish. Vemos comentários elogiando o seu trabalho, vídeos contando um pouco mais sobre Billie e vemos alguns comentários trazendo o questionamento: quem é Billie Eilish? Essas reações podem ser justificadas pelo crescimento meteórico da jovem de 17 anos que vem atraindo a atenção musicalmente, visualmente, esteticamente, ou seja, uma coisa é fato, Billie Eilish está na boca do povo e quem ainda não conhece o seu trabalho, com toda certeza irá buscar algo sobre ela para saciar a curiosidade em torno dessa figura tão emblemática.

Assim, não é por acaso que o seu álbum WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? foi tão esperado e bastante comentado. Vale ressaltar que Billie Eilish produziu o álbum – e seus trabalhos anteriores – com o irmão Finneas O’ Connell em sua casa e a qualidade do registro – e do alcance do trabalho – mostra que essa parceria está dando muito certo. Em algumas faixas, conseguimos ouvir risadas e interações entre eles, o que mostra os momentos descontraídos da produção e a diversão, mesmo que algumas faixas possuam temáticas um pouco mais pesadas.

WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? mostra o seu potencial e reúne faixas com melodias variadas, o que aumenta a possibilidade de alcance, já que determinado público pode curtir a parte do álbum “menos estranha/pesada” e outra parte curtir o restante do álbum. Isto é, no álbum temos faixas mais sentimentais, suaves com uso do piano, violão, voz e outras faixas com sintetizadores, baixo que exploram uma faceta mais sombria, estranha do trabalho.

Apesar de existir esses “dois lados” dentro do mesmo álbum, esses lados coexistem de forma harmoniosa e não deixam de fazer sentido, já que as letras falam sobre relacionamentos, medicamentos, feridas, mágoas, depressão, pesadelos, suicídio, ou seja, WHEN WE ALL FALL ASLEEP é sobre ser vulnerável, sobre se relacionar e acabar ferido, sobre ter pesadelos, sobre não estar bem, sobre tomar remédios, sobre saúde mental, enfim, sobre vulnerabilidades. Embora Billie Eilish possa trazer estranhamentos, precisamos falar sobre Billie Eilish e do alcance que ela possui, ela é uma artista muito jovem com um alcance enorme e muitos jovens se identificam com ela, seja musicalmente/esteticamente/visualmente, se inspiram nela e sentem/vivem boa parte de suas letras.

Por fim, WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? merece ser ouvido, seja por curiosidade ou por gosto, e devemos tentar compreender o que é a Billie Eilish para a indústria da música atual e como ela anda reverberando enquanto fenômeno para ouvintes mais jovens.  Afinal, podemos considerar Billie uma artista pop, mas ela é uma artista jovem de 17 anos – que apesar de causar um pouco de estranhamento – lançou um álbum interessante e que canta sobre pesadelos, mágoas, depressão – assuntos que tocam em muitas feridas.

OUÇA: “You Should See Me In A Crown”, “All The Good Girls Go To Hell”, “When The Party’s Over”, “My Strange Addiction” e “Bury A Friend”