ROSALÍA – El Mal Querer


A junção da tradição local e a imponente personalidade identitária se fundem com a melodia tradicional e o R&B modernizado para configurar uma experiência multifacetada de sons e ambientes que tornam El Mal Querer uma experiência valiosa. Introspectiva mas ao mesmo tempo bastante expansiva, a espanhola ROSALÍA funde o melhor da sua origem catalã com a contemporaneidade e urbanismo modernosos em um projeto aguçado e ambicioso.

As referências pop são evidentes e ajudam a inserir o álbum numa dinâmica que, ao invés de soar repetitiva, promove uma sensação de renovação. O tom de voz acaba por marcar em todas as faixas, sendo um elemento de união e ponto alto do disco como um todo, contribuindo para a construção de um imaginário marcado pelas raízes espanholas da cantora, com elementos religiosos e folclóricos associados à contemporaneidade em que o disco se insere.

A primeira faixa e possivelmente mais conhecida, “Malamente”, é uma das mais animadas do álbum e  das mais associáveis a uma sonoridade atual, ajudando a iniciar a série de músicas que sustentam esse estilo mas que o expandem e lhe agregam diferentes elementos complementares.

Sonoridade coesa e permeada por detalhes que favorecem uma movimentação por uma trajetória que faz sentido e vai se complementando com o passar das faixas. Entendido como um álbum de conceito, cada música parece elencar um diferente momento da história que conta, muito relacionada ao imaginário romântico da cantora e a diferentes narrativas envolvendo a relação, associadas a contextos de emoções distintas. É uma conceptualização que gira em torno de um contexto relacional difuso e manipulativo, do qual a autora relata episódios (chamados de capítulos) com energias distintas, algumas mais distorcidas e irreverentes (os momentos mais experimentais do álbum, em que sua voz assume grande destaque) e outros mais estáveis e serenos, para concluir em “A Ningún Hombre” (Nenhum Homem), vocalizando a sua fuga do contexto em que se encontra e ditando sua independência.

Constrói-se, ao todo, um imaginário musical que conduz claramente a uma percepção também visual da história, com a sonoridade voraz do flamenco fortemente marcada e uma tonalidade vocal etérea. Curto, os trinta minutos de duração do álbum não parecem pouco, mas meticulosamente pensados na construção narrativa que parece pautar a condução do disco. “Bagdad”, o capítulo da Liturgia, inicia com uma clara referência rítmica a “Cry Me A River” de Justin Timberlake, transita por momentos exuberantes e remexidos, para posteriormente atrair o momento do Êxtase (Cap. 8), em “Di Mi Nombre”, para uma estabilização. O Mau Amor (em tradução livre) é um nome contundente para classificar a jornada que o álbum atravessa.

A variação sonora aliada à experimentação vocal constroem um cenário prazeroso e com trânsito por diferentes sensações, que posicionam El Mal Querer como uma peça sólida e digna de destaque. A consolidação da espanhola para além desse projeto ainda pode ser questionada (cabe pensar na sustentação dessa ritmicidade e estética ao longo do tempo como risco de monotonicidade), mas a obra, em sua construção individual, se posiciona com facilidade entre as mais diversas e inovadoras do pop de 2018.

OUÇA: “Malamente”, “Pienso En Tu Mirá”, “Bagdad” e “Di Mi Nombre”

Robyn – Honey


O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda.

Oito anos se passaram desde que a sueca lançou o magnífico Body Talk, álbum que mudou e revolucionou o pop eletrônico. Com suas batidas bastante características e letras extremamente profunndas, Robyn (me) mostrou que pop não precisa ser algo raso e sem nenhum real sentimento, que pode e deve trazer algo a mais e não ser apenas música pra encher pistas de dança. Essa Robyn continua presente em Honey, obviamente. Mas parece que dessa vez tem algo faltando em grande parte do disco.

Honey é bastante curto, tratam-se apenas de nove músicas e pouco mais de trinta minutos, e nele Robyn aposta em algo completamente diferente de tudo o que já havia feito – mesmo quando consideramos o começo de sua carreira como cantora adolescente. O pop de Body Talk é urgente, visceral, com batidas  emocionantes que se encalacravam em tudo ao seu redor. Aqueles primeiros sete segundos de “Dancing On My Own” antes da bateria começar já ilustram tudo isso. E Honey… não.

Sei que comparar os dois álbums é algo bem burro e estúpido de se fazer, muito tempo se passou entre eles e muita coisa mudou  – como era a sua vida oito anos atrás? Com certeza bastante diferente do que é agora. Robyn também merece ter mudado e evoluído nesse tempo. Mas não comparar os dois álbuns é quase impossível.

Honey é um álbum bastante delicado e suave, talvez exatamente para se contrapor à explosão incessante que foi Body Talk (lembrando que, originalmente, Body Talk foi um projeto de 3 EPs que permeou o ano de 2010 inteiro, sendo compilado apenas posteriormente). É natural que as coisas se acalmem um pouco, mas Honey acaba sendo parado e introspectivo demais até para Robyn – alguém que faz música pop introspectiva de excelente qualidade.

Em 2018 Robyn mostra continua sendo a força pop maestral que sempre foi, mas ela não se supera. Nem se esforça para tal. Honey é um álbum muito bom, por que não tinha como ser diferente. Mas depois de tanto tempo de espera, apenas ‘bom’ parece quase um passo atrás para a cantora.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”

Allie X – Super Sunset


Allie X vem voando mais alto nos últimos anos. Especialmente depois do hit “Paper Love”, sua fanbase teve um crescimento considerável e ela entrou na categoria de cantoras Pop adotadas pelos fãs como uma grande promessa do gênero, daquelas que quando se estouram ouvimos aos quatro ventos “EU SOU FÃ DESDE PRIMEIRO EP” etc.

Super Sunset tem oito músicas com duas intros. É praticamente um EP. Acho que nem cabe uma super resenha descrevendo cada aspecto desse trabalho. A equipe de produtores acertou a mão e Allie X manteve os mesmos aspectos que fizeram CollXtion II interessante. Tecnicamente, esse é um disco perfeito. Pena que falta profundidade.

Allie X tem 33 anos e sinto como se estivesse ouvindo composições de uma mulher de 20. O erro não é da cantora, veja bem. O álbum é comercial o suficiente para ir bem nos charts de música pop e tocar em qualquer balada do gênero, mas não traz assuntos relevantes o suficiente para me prenderem a atenção. É um disco que me lembrou bastante The Fame, da Lady Gaga. Só que já se passaram 10 anos desde que ele foi lançado.

Se você está a procura de um synthpop/indie pop bem produzidos, pode ouvir Super Sunset sem medo. É uma audição gostosa e divertida. Se está procurando por algo que saia do lugar comum, é melhor procurar outras artistas.

OUÇA: Tudo. Pelo amor de Deus, são só 21 minutos.

The Ting Tings – The Black Light


Dez anos. Esse é, de maneira rústica, o intervalo de tempo entre o primeiro álbum e esse quarto, o The Black Light, na carreira dos britânicos do Ting Tings. “Shut Up And Let Me Go” e “That’s Not My Name” aparte, é possível traçar um panorama interessante dentro desse grande espaço de tempo: de onde a dupla partiu e até aonde a dupla está agora. E, além disso, de que o maior instrumento da carreira do duo acaba sendo o tempo e como ele molda os interesses deles.

Nesse quarto disco a dupla abusa muito mais de elementos industriais que permearam um pouco os álbuns anteriores – se observarmos o single solto “Hands” antecessor ao segundo álbum conseguimos enxergar bem essa construção – e consegue deixar esse ritmo eletrônico mais cru e emergencial de uma maneira interessante para ser trabalhado dentro de uma banda tipificada dentro do grande gênero indie. Jules e Katie ainda abusam de elementos da grande ressurgência da cena techno, criando uma amalgama eletrônica com elementos de guitarra dentro de seu novo estilo – um indie pop electro industrial bem bolado.

The Black Light demorou quatro anos para aparecer desde Super Critical, mesmo intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo álbuns, e essa pausa se pareceu muito necessária para eles. Esse quarto álbum parece servir como momento de autocrítica, de aceitar que sua identidade e criatividade do primeiro álbum foram essenciais para aquele instante, mas não estão mais alinhadas com os interesses da banda atualmente – o tempo, o grande instrumento.

Dentro desse panorama, The Black Light parece ser o primeiro álbum verdadeiramente do The Ting Tings desde o primeiro disco, aonde eles mostram de maneira muito mais fluida e fácil quais são os interesses deles atualmente. Essa falta de identidade fez a dupla sofrer muito e parecer uma reconstrução bizarra do sucesso do seu primeiro disco nos álbuns anteriores. Esse quarto álbum vem como uma construção de um novo modelo para a banda e, esperamos, que apareça como uma vontade de aprimoramentos e maior consciência nas composições dos próximos álbuns.

No fim das contas, o Ting Tings parece ter se reinventado dentro do seu mesmo jogo mais uma vez. Eu particularmente acho que a discografia da dupla tem seus momentos de luz e que possuí músicas geniais dentro das singularidades de seus álbuns – “Day To Day” e “Wrong Club”, por exemplo – mas The Black Light é, talvez, o álbum mais interessante desde o seu primeiro e grande sucesso. Apesar dos pesares, é bonito ver que a dupla continua na ativa e continua entregando música bem pensada para nos alimentar, mesmo que ainda vivam, em 2018, sob a sombra do seu sucesso de primeira viagem lá em 2008.

OUÇA: “A & E” e “Blacklight”

MØ – Forever Neverland


A expectativa em torno de Forever Neverland foi grande, e isso, graças a qualidade de seu antecessor No Mythologies To Follow lançado em 2014. Assim, foram quatro anos para o tão esperado – e temido – segundo álbum da cantora e compositora dinamarquesa, mas durante esse intervalo foram lançados singles e o EP When I Was Young (2017).

Mesmo que a cantora não tenha ficado no completo silêncio durante esses quatro anos, sabemos bem que os anseios, medos permearam muito o lançamento do segundo disco. É óbvio que todo artista passa pelo medo do “temido segundo disco”, ainda mais quando o álbum de estréia possui uma imensa qualidade. Assim, não foi diferente com ela, temia-se que ela abandonasse completamente a sua essência e se lançasse à “plasticidade do Pop” cedendo o controle de seu trabalho aos “grandiosos da indústria”.

Assim, ao ouvir Forever Neverland percebemos o acúmulo de sonoridades que MØ buscou nesse tempo e no mergulho que deu em torno dos conhecimentos relacionados ao pop, isto é, a cantora e compositora trabalhou com cerca de trinta produtores do segmento eletrônico e experimental, o que evidencia o trabalho dela em buscar constantemente a inventividade. Além disso, vemos contribuições de Diplo – em “Sun In Our Eyes”- , de Charli XCX – em “If It’s Over” – , de What So Not And Two Feet – em “Mercy” – e de Empress Of – em “Red Wine” -, ou seja, aqui nos deparamos com as faixas mais interessantes do álbum.

No entanto, acredito que Forever Neverland divida opiniões, alguns poderão pensar que ele possui faixas rasas com batidas plásticas, que trata-se de algo mais formatado e de qualidade inferior ao álbum anterior; outros poderão pensar que trata-se de um álbum que ainda mantém a essência, mas que investiu em experimentações e sonoridades próximas ao Pop de forma profunda; e além desses, tantos outros pensamentos surgirão a cada audição desse álbum.

Na tentativa de concluir, Forever Neverland não é decepcionante, ele pode ser diferente do seu antecessor e pode não ter agradado quem esperava a mesma fórmula dele, mas podemos dizer que o registro mergulhou em segmentos experimentais e eletrônicos com o intuito de ampliar o acesso ao público. Porém, isso não significa que suas faixas são rasas, plásticas, descartáveis, isto é, o registro possui um outro tipo de apelo, mas não acredito que MØ “perdeu essência”, acredito que seja outro registro, outro contexto, com outras possibilidades, sonoridades, experimentações e devemos considerar esse  outro momento da cantora/compositora. Óbvio, o álbum possui altos e baixos em sua execução, mas concluímos que: Forever Neverland sobreviveu à tão temida “maldição do segundo disco”.

OUÇA: “I Want You”, “Blur”, “Beautiful Wreck” e “If It’s Over”

SOPHIE – OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES


Começando essa resenha num tom mais pessoal, eu não acho estar desapontado com os lançamentos de 2018, mas eu andava sentindo um… Mal-estar? Inquietação? Não sei ao certo, apenas sentia que alguma coisa estava faltando na leva de álbuns desse ano. Não necessariamente algo que botasse todos os outros artistas no chinelo ou ofuscasse seus trabalhos, apenas algo único, novo… Algo fresco. Algo com uma sonoridade extraterritorial, com uma paleta bem específica de cores em tons frios, com talvez um vermelho se destacando para gerar algum foco, teria que soar familiar, mas ao contrário? De cabeça pra baixo quem sabe… E totalmente destroçado, mas apenas o suficiente pra poder ser reconstruído. E não, eu não fumei, cheirei ou injetei nada, isso é realmente uma necessidade que eu andava sentindo em relação a música ultimamente, e foi exatamente com esses exatos aspectos que SOPHIE me atingiu com uma voadora de dois pés, arregaçando tudo em mim da melhor maneira possível (???). Enfim, a vida sorriu pra mim, e vai sorrir pra você também depois dessa resenha e download. Insira emojis sorrindo e surtando aqui.

O grande barato de OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES é que o quanto mais se analisa ele, mais ideias vão brotando sobre seu desenvolvimento, inspirações e afins. Desde movimentos artísticos que estudamos no ensino médio e aulas de química que a gente faz questão de esquecer, até vida em outros planetas e zoom em supernovas, SOPHIE literalmente parece dissecar o pop e reconstruí-lo usando bases eletrônicas pra trazê-lo de volta á vida de uma maneira nova e inventiva.

Enquanto o compilado PRODUCT (2015) continha fortes singles previamente já conhecidos e dava indício de uma artista totalmente visionária, o mesmo parecia apressado demais para estampar o nome da cantora no mundo, as novas canções, apesar de boas, não faziam juz ao potencial total de SOPHIE. Por sorte, o pouco material foi mais do que o suficiente pra chamar a atenção de outros artistas, e a cantora se manteve mais do que ativa no mercado. Bom, vamos ser sinceros, se tu consegue uma participação em uma música pra Madonna… As coisas andam bem. Não bastando isso, SOPHIE esteve tão envolvida com tantos artistas e gêneros musicais diferentes, que era simplesmente uma questão de tempo ela ter seu lugar embaixo do sol. E foi dito e feito.

De todas suas colaborações, as com Charli XCX (que parece ter tomado SOPHIE como sua queridinha, já com ela há um bom tempo em seus álbuns) e Let’s Eat Grandma talvez sejam as que mais representem o rumo que a cantora resolveu tomar, seja pelo pop envolvido, a desconstrução e remodelagem sensorial que suas batidas causam ou as explosões de ânimo envolvidas em seu trabalho. Mas isso tudo era um aperitivo bem pequeno em comparação com o que estava por vir. OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES trouxe a tona não apenas o já conhecido talento da cantora, como também várias camadas novas dela própria, seja em corpo, sem medo de entregar sua nudez, voz, já que previamente eram segundos e terceiros no vocal e por fim, mais e mais facetas de sua capacidade como musicista, não falhando em abocanhar novos fãs e colocar os já de carteirinha em êxtase!

Eu adoraria achar que é apenas exagero meu, mas o que SOPHIE faz realmente vai bem além do que apenas criar música, se há uma forma mais exata de definir isso, seria alquimia sonora. Seja frenética ou extremamente suave, artificial ou crua, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES automaticamente vai além de ser apenas um álbum maravilhoso e se torna uma grande promessa do que esta por vir, e isso pode ser absolutamente tudo o que SOPHIE imaginar ou quiser, pois poder para criar qualquer coisa,  já está claro que ela tem. Mesmo trabalhando com aspectos mais experimentais e industriais, a aliança com o pop permite que o trabalho da cantora seja mais do que bem-vindo aonde quer que ele seja levado. Se eu tiver que citar algum contra do álbum, talvez seja esse pequeno problema se manifestando nessa resenha, e vamos a ele: QUAL A NECESSIDADE DE UM TÍTULO TÃO GRANDE, PESTE? TENHA PENA DE MEUS DEDOS MULHER! Mas fora isso, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES é sem sombra de dúvidas um dos melhores lançamentos do ano e mais do que recomendado para toda e qualquer pessoa… Evangélicos nem tanto, eles provavelmente vão achar que o diabo está envolvido, mas veja bem… Sem o pacto nós nada somos, e o da SOPHIE é um exemplo a ser seguido.

OUÇA: “It’s Okay To Cry”, “Is It Cold In The Water?” e “Immaterial”

Troye Sivan – Bloom


O momento em que Troye Sivan lança seu segundo álbum de estúdio não vem do acaso: o australiano vem construíndo uma ampla gama de seguidores desde seus inícios no YouTube há alguns anos. A consolidação da sua carreira como cantor muito deve a essa época mas, para além disso, Sivan é o reflexo daqueles que cresceram vendo seus vídeos.

Algo que Bloom deixa claro desde seu início é o tom aberto e dinâmico com que o cantor aborda sua sexualidade: abertamente gay desde a época dos vídeos, suas vivências como jovem LGBT são claramente expostas na dinâmica do disco. As experiências não são tão diferentes de qualquer jovem adulto que explora relacionamentos e sua sexualidade mas, em termos de sensibilidade e vulnerabilidade, se tornam relevantes. A primeira experiência sexual de um jovem gay passivo é abordada de maneira leve e até romantizada por Sivan que, no contexto da faixa, funciona bem como uma narrativa sensual e intrínseca bastante interessante.

As influências musicais são claras e também dizem muito a respeito da formação de Sivan enquanto jovem da classe média australiana. O álbum é expressamente pop, talvez o mais pop que um cantor de 23 anos com a ampla rede de fãs adolescentes consegue ser, mas de certa forma, é um pop maduro, com momentos de produção excepcional que o destacam de qualquer revival do pop vintage que caracteriza as rádios de hoje. Sivan pode ser, por vezes, um respiro para a monotonia e desgaste que o gênero consegue causar. Em outros momentos, porém, reproduz modelos e, assim como seus contemporâneos, pode cansar.

A sonoridade, apesar de não muito destoante, é realçada pela certa transparência e delicadeza com que Troye caminha pelos versos. A vulnerabilidade passa a ser, então, uma das maiores características do álbum: seja pela produção sútil ou pelas letras expostas e amplamente pessoais. Mesmo que não seja necessariamente diferente de construções líricas comuns ao universo pop ou melodias muito fora da curva, o trajeto de escutar Bloom dá uma sensação de leveza e positividade ao se atravessar. Limitado a dez faixas, o projeto finaliza bem amarrado: ee mais extenso, o álbum poderia correr o risco de ser muito monótono e repetitivo.

Momentos mais dançantes como o da faixa título ou o de “Lucky Strike” se potencializam quando associados ao passo mais lento da parceria com Ariana Grande (“Dance To This”) ou, ainda, à progressão lenta de “The Good Side” ou “Postcard”.

Sivan se encaixa numa onda jovem do cenário pop bastante preocupada em trazer questões relacionadas a gênero e sexualidade, com visuais e expressões cada vez mais desinibidas mas, em oposição a outros promissores do cenário, Sivan o faz de forma leve e sútil, deixando sua boa marca no momento do gênero se situa para 2018 e, ainda, evidenciando sua proeminência na cultura queer, com potencial de amadurecimento para uma figura marcante do pop comercial LGBT.

OUÇA: “Bloom”, “Postcard”, “The good Side” e “Lucky Strike”

Ariana Grande – Sweetener


Oi gente, tudo bom? Tô no meio das melhores férias da vida e esqueci completamente de ouvir o novo álbum da Ariana Grande. Me desculpem. Deus é mulher etc, mas entre ouvir as músicas novas e fazer um passeio de barco no meio de uma praia paradisíaca no Rio Grande do Norte ouvindo Furacão Love – “My Baby”.mp3 eu preferi embarcar na experiência completa da música do momento.

Gosto muito da Ariana. Da linhagem “estrelas da Disney Channel que deram certo” ela é minha favorita por ser um combo vozeirão + pop farofa. EU SEI que nem tudo que ela lança é assim, mas quem não gosta de uma farofada? “Break Free”, “Side To Side”, “Problem”, “Greedy” e tantos outros que vou deixar de fora pra esse review não parecer uma lista do buzzfeed de melhores músicas da diva pop.

Eu sou muito fã de Dangerous Woman e fiquei com medo que ela entornasse o caldo do próximo disco pra alguma coisa conceitual chata. Quando ela lançou a capa do álbum e vi que era uma foto dela de cabeça pra baixo fiquei mais preocupada ainda. Aí ela lançou o disco e… Tá bacana.

Depois de um atentado, o fim de um relacionamento de 2 anos e um noivado repentino, as grandes mudanças na vida de Ariana são sentidas em Sweetener. A sensação é que a cantora resolveu viver a vida que deseja, sem  amarras e sem remorsos, na maior vibe “O que é, O que é?”.

É isso, pessoal. Deixem a moça viver e não ter a vergonha de ser feliz. Deixem ela cantar e cantar e cantar a beleza de ser uma eterna aprendiz. Se Ariana Grande achou sua voz, está apaixonada e quer arriscar um pouco mais com sua música, quem sou eu pra fazer um review de 10 parágrafos falando sobre o que esse disco é ou deixa de ser?

OUÇA: “God Is A Woman”, “R.E.M.”, “Successful”, “No Tears Left To Cry” e o disco todo se vocês curtirem muito a Ariana Grande.

Jake Shears – Jake Shears


É inevitável comparar o debut solo de alguém que fazia parte de um grupo. No caso de Jake Shears, que integrava o bem-sucedido Scissor Sisters, fica claro o quanto da sua identidade musical era essencial para a fórmula de sucesso da banda, conhecida por músicas adoradas pelo público gay devido ao ritmo dançante, às letras alegres e a conotações sexuais de sobra.

O lançamento de Jake Shears acontece seis anos depois do último álbum do Scissor Sisters. Ouvir seu novo trabalho é como fazer um tour por todas as fases do grupo, desde a origem influenciada por Bee Gees, Elton John e David Bowie, passando pela fase hedonista do brilhante Night Work, de 2010, até o álbum final, com uma pegada pop menos nostálgica.

A familiaridade com as músicas da banda não é um ponto negativo, principalmente porque Shears tenta fazer do sua estreia solo uma evolução do que já fazia antes. A principal diferença está nas letras mais reveladoras de algumas canções, em que ele expõe seu lado mais sombrio, como em “The Bruiser”.

Pode ficar tranquilo, pois até nas músicas com letras mais melancólicas o tom é de diversão. A versatilidade da voz de Shears é um show à parte. A forma fluida com que ele canta usando falsetes passa a impressão de que há duas pessoas fazendo um dueto. Violinos, saxofones, guitarras, violão e muito piano garantem uma atmosfera delirante.

E quem estava preocupado com a possibilidade de Jake Shears voltar mais discreto, pode respirar aliviado. Seu confiante debut solo é cheio de glamour, safadeza e provocacao, tudo com bastante humor. Quem mais faria músicas pop exaltando bigodes como se estivesse em um filme pornô gay dos anos 70?

OUÇA: “Good Friends”, “Big Bushy Mustache”, “S.O.B.” e “All For What”.

Nicki Minaj – Queen


Fazia tempo que um álbum não me dava tanta dor de cabeça pra resenhar e provavelmente aterrorizava a chefia do blog com tanto atraso, mas cá estamos nós. Acho mais do que justo sempre me focar no trabalho que o artista entrega e passar longe de fandoms e notícias tendenciosas (pra melhor ou pra pior), mas com a fama de Nicki Minaj sendo do tamanho do mundo, foi impossível filtrar tudo, e rodeada de pronunciamentos e burburinhos a moça vem a tona com Queen, e enquanto a cantora aparenta se divertir e se sentir orgulhosa em seu trabalho, no mundo real, Nicki não parece tão satisfeita como soa…

Indo direto ao assunto, Queen é sim um álbum bacana, com boa parte de seus melhores momentos sendo a volta da artista as suas raízes e entregando raps fluídos e descontraídos, que claramente vão animar fãs mais antigos, apesar de pecar quando se trata de profundidade, é um álbum bem trabalhado e de boa qualidade, mas com tantos novos artistas nos holofotes desse ano, legitimamente felizes com o que estão fazendo e sem medo de soltarem a língua, Nicki Minaj fica apenas pelos cantos, presa dentro de sua própria cabeça e preocupada demais com a opinião do resto do mundo, estatísticas e afins. Fica difícil apontar com clareza os altos do álbum quando se está mais preocupado com o estado da artista.

E é esse o problema com Queen (e a própria cantora): a inconsistência da imagem que Nicki transparece. Enquanto por um lado ela se mostra uma mulher forte, dona do próprio nariz, denunciando injustiças na indústria musical e passando boas mensagens de empoderamento e conscientização para seus fãs em shows, por outro ela por vezes parece bem distante de seu público, reclusa com seu círculo de amigos famosos, num outro patamar de vida e consequentemente mais superficial e com parcerias extremamente duvidosas. Enquanto The Pinkprint (2014), compartilha alguns dos mesmos problemas que Queen, ele segue sendo mais melódico e viciante, as parcerias são mais consistentes e impactantes, e apesar de tender mais para o pop, ele não é engolido por seus participantes como o novo registro. O público tem acesso a uma Nicki mais vulnerável e decidida, mas bem alheia aos movimentos políticos (e mais do que necessários de serem mencionados) e sororidade quando realmente conta, sendo essa uma surpresa bem negativa do álbum, desperdiçando uma boa oportunidade para falar de algo além dos altos e baixos de relacionamentos amorosos, meio que deixando a entender o álbum gira mais em torno do seu ego do que qualquer outra coisa.

Mesmo com a mídia sendo constantemente bem dissimulada com a cantora e dramatizando situações que não são nada de mais, realmente fica bem incerto saber se Nicki realmente está falando em nome de outras mulheres ou apenas sendo rancorosa com outros artistas por não estar satisfeita com sua publicidade e vendas, quase sempre ficando a mercê daquele meio-termo onde não se sabe se ela está sendo mal interpretada ou apenas se expressando mal. E até os ares se acalmarem e as coisas serem acertadas, o público já perdeu o interesse na situação, ficando apenas com a primeira impressão da coisa toda.

A essa altura do campeonato é até ridículo esperar um álbum ruim de Nicki Minaj, munida com uma boa leva de músicas perfeitas para bombarem nas rádios e dando os ares da graça de seus dias de mixtape (“Barbie Dreams” e “Chun Swae” sendo ótimos exemplo disso), a cantora garante um bom alcance de satisfação para todos os seus fãs, com sonoridade e letras bem contagiantes. Queen passa bem de longe de ser um álbum ruim, mas é quase inevitável não pensar que ele poderia ser bem melhor, mas ao invés de pensar nisso de uma forma negativa, é mais prático e realista encarar isso como mais espaço pro desenvolvimento da cantora, que independente de qualquer controvérsia e contratempo, se mostra tanto uma rapper quanto uma popstar sempre em ascenção.

OUÇA: “Hard White”, “Chun-Li” e “Come See About Me”.