Clean Bandit – What Is Love?


Composto por Grace Chatto, Jack Patterson e Luke Patterson, Clean Bandit é um dos maiores projetos musicais da atualidade. Com diversas canções próximas dos 500 milhões de execuções apenas no Spotify (alguns já ultrapassaram e outras estão pertinho), o trio torna pop, comercial e radiofônico tudo aquilo no que toca.

O segundo álbum de estúdio, What Is Love?, chega quatro anos depois do debut, New Eyes, lançado em 2014. Neste novo material, aclamado nas pistas de dança e rádios de todo o mundo, Clean Bandit apresenta canções inéditas e muitas das quais já foram trabalhadas ostensivamente como singles entre 2017 e 2018.

A sonoridade entregue em What Is Love? é alinhada com o que, musicalmente, o mundo tem consumido nesta segunda metade dos anos 2010: a presença de vocais poderosos, batidas tropical house e instrumental sinfônico (piano e violoncelo, em especial), compõem a mistura perfeita para o êxito do trio.

Permeado por colaborações consistentes de figuras em ascensão na cena pop, o novo disco apresenta a banda em arranjos ainda mais pop do que os anteriores. O sucesso nos streamings, por exemplo, vem de algumas das canções do novo material – que traz músicas como “Baby”, com os vocais de Marina and the Diamonds e Luis Fonsi; “Rockabye”, que conta com a participação de Sean Paul e Anne-Marie; “Symphony”, que apresenta vocais de Zara Larsson; “Solo”, com os Demi Lovato, “I Miss You”, com Julia Michels e “Tears”, com Louisa Johnson.

Os destaques para as colaborações certamente incrementam os números do grupo, ao tornarem as canções significativas para diferentes tipos de público – o que foi feito com a fatia latina do mundo com a recente “Baby’, ao trazer Fonsi entoando versos em espanhol ao lado da parceira (improvável) Marina Diamandis. É indiscutível a intenção de alcançar, também, a parcela mundial amante de reggaetown, neste caso em específico.

“Symphony”, “Solo”, “Rockabye” são exemplos de canções que podem já ser tidas como certas na relação de grandes músicas da década. Nestes casos a receita musical sugerida acima é notável, bem como melodias fáceis e letras que grudam. Se a gente soma tudo isso tem a receita do sucesso.

Se traçada uma comparação com New Eyes (2014), que traz dois grandes êxitos em parceria com Jess Glynne, “Real Love” e “Rather Be”, o novo disco vai ainda além em sonoridade e se mostra mais conciso e menos experimental., muito embora o registro anterior seja legítimo e, a exemplo do mais recente, também um grande álbum.

OUÇA: “Baby” e “Tears”

Rita Ora – Phoenix


Mais um fim de ano chega e com ele a depressão.  Também é nessa época que os artistas dão um gás final pra entregarem seus Singles, EPs e Álbums a tempo de aparecer nas listas de melhores do ano. É claro que nem todo mundo têm essa pretensão, como é o caso da Rita Ora. Desde 2015 ela tá numa loucura com o segundo álbum. Se ela fosse brasileira, a história dela ia sair no TV Fama, com certeza.

Tem disco que rende uma resenha gostosa de escrever, assunto a beça pra discutir e te faz clicar várias vezes no botão de replay. O Phoenix gerou uns singles gostosinhos, mas poucas pessoas vão lembrar que dele daqui há 3 anos. Talvez menos. E tudo bem.

Ninguém quer ouvir música pop profunda o tempo todo. Se você faz isso, meus sinceros parabéns. Eu acho chato pra cacete. Ficar prestando atenção em cada detalhe, pensando no que foi que a artista quis dizer e na razão de cada detalhe é cansativo. Só quem gosta demais mesmo de música ou de algum artista faz esse tipo de coisa com frequência.

Às vezes a gente só precisa ouvir um som comercial numa boa, sem muito esforço mental. Phoenix é um entretenimento leve, que não vai exigir muita coisa de você. Um hit aqui, três músicas nada a ver acolá e, quando você menos espera, já acabou. Bom pra ouvir voltando pra casa depois daquele dia cansativo. Em uma época onde quase todas as grandes cantoras pop estão lançando trabalhos conceituais, um álbum como esse é uma brisa de ar fresco.

Todos os singles lançados poderiam estar na lista das 7 melhores Jovem Pan. Na minha época de adolescente, isso era grande coisa. Hoje em dia eu sei lá o que quer dizer. Aposentei minha carteirinha de jovem no momento em que pensei em fazer uma piadinha usando “DAORA” e “Rita Ora”. Eu não tenho salvação.

Fico feliz que a Rita Ora tenha conseguido tirar esse projeto do papel. Ela parece uma pessoa bacana. Se o objetivo era renascer das cinzas como uma Fênix, acho que ela deveria ter feito algo menos genérico. Mas é aquela coisa, né? Ela tá ganhando milhões e eu acordo seis e meia da manhã pra chegar no trabalho no horário. O play fica por sua conta e risco.

OUÇA: “Your Song”, “Anywhere”, “Let You Love Me” e “Lonely Together”

Pabllo Vittar – Não Para Não


Não tem muito como nem pra onde fugir, Pabllo Vittar é um fenômeno. Pouquíssimo tempo se passou desde que a drag queen maranhense lançou seu primeiro EP, Open Bar, e depois seu álbum Vai Passar Mal em Janeiro de 2017. Pouco tempo, mas o suficiente para Pabllo fazer parcerias com nomes que vão desde Preta Gil e Anitta até Diplo e Charli XCX. Vai Passar Mal foi um álbum pop incrível, que cumpria exatamente o que prometia: um álbum pop chiclete, feito por uma drag queen mas que transcendeu as barreiras da comunidade LGBT e lançou Pabllo para o mainstream de uma vez por todas.

E agora a moça lança seu segundo disco, Não Para Não. E, pelo menos musicalmente, as coisas parecem ter esfriado um pouco. Bastante, na verdade. A proposta da Pabllo não é e nunca nem foi fazer música pop contemplativa e introspectiva, é verdade, mas Não Para Não peca em ser um pouquinho raso demais até para a pista. Enquanto Vai Passar Mal misturava muito bem o pop com MPB, brega e eletrônico, ele tinha momentos de vulnerabilidade como “Indestrutível” e “Irregular”, coisa que não acontece em momento algum em Não Para Não.

Em seu segundo disco, Pabllo foca muito mais a produção no tecnobrega e forró, em detrimento aos diversos outros estilos misturados que permearam o debut. Isso funciona muito bem em “Buzina”, faixa que abre o disco e com certeza a melhor do trabalho como um todo. Mas no restante, a produção muito monótona acaba se tornando repetitiva e cansa rápido demais. É possível ouvir Vai Passar Mal no repeat descontraidamente, mas Não Para Não logo se torna chato e morno – até mesmo antes do final da primeira audição completa. As participações aqui, de Ludmilla, Urias e Dilsinho, pelo menos, servem um propósito maior do que apenas repetir o que a Pabllo tinha acabado de cantar – como eram todas as presentes no debut, coisa que sempre me incomodou muito na produção de Vai Passar Mal.

Toda a representatividade de Pabllo ter chegado (e se mantido) onde chegou é maravilhosa, sem a menor sombra de dúvida – não podemos nunca nos esquecer de que gostando ou não da música, Pabllo é uma bicha afeminada nordestina que milita publicamente sempre, e isso é extremamente importante e longe de ser pouca coisa. Talvez Não Para Não, mesmo sendo musicalmente duvidoso em sua maioria, sirva exatamente para isso, para manter Pabllo na conversa. Uma conversa que histórico-social é muito mais relevante do que um álbum não muito bom. Por agora isso já é o suficiente, e que o próximo álbum seja mais interessante.

OUÇA: “Buzina”, “Problema Seu” e “Não Vou Deitar”.

ROSALÍA – El Mal Querer


A junção da tradição local e a imponente personalidade identitária se fundem com a melodia tradicional e o R&B modernizado para configurar uma experiência multifacetada de sons e ambientes que tornam El Mal Querer uma experiência valiosa. Introspectiva mas ao mesmo tempo bastante expansiva, a espanhola ROSALÍA funde o melhor da sua origem catalã com a contemporaneidade e urbanismo modernosos em um projeto aguçado e ambicioso.

As referências pop são evidentes e ajudam a inserir o álbum numa dinâmica que, ao invés de soar repetitiva, promove uma sensação de renovação. O tom de voz acaba por marcar em todas as faixas, sendo um elemento de união e ponto alto do disco como um todo, contribuindo para a construção de um imaginário marcado pelas raízes espanholas da cantora, com elementos religiosos e folclóricos associados à contemporaneidade em que o disco se insere.

A primeira faixa e possivelmente mais conhecida, “Malamente”, é uma das mais animadas do álbum e  das mais associáveis a uma sonoridade atual, ajudando a iniciar a série de músicas que sustentam esse estilo mas que o expandem e lhe agregam diferentes elementos complementares.

Sonoridade coesa e permeada por detalhes que favorecem uma movimentação por uma trajetória que faz sentido e vai se complementando com o passar das faixas. Entendido como um álbum de conceito, cada música parece elencar um diferente momento da história que conta, muito relacionada ao imaginário romântico da cantora e a diferentes narrativas envolvendo a relação, associadas a contextos de emoções distintas. É uma conceptualização que gira em torno de um contexto relacional difuso e manipulativo, do qual a autora relata episódios (chamados de capítulos) com energias distintas, algumas mais distorcidas e irreverentes (os momentos mais experimentais do álbum, em que sua voz assume grande destaque) e outros mais estáveis e serenos, para concluir em “A Ningún Hombre” (Nenhum Homem), vocalizando a sua fuga do contexto em que se encontra e ditando sua independência.

Constrói-se, ao todo, um imaginário musical que conduz claramente a uma percepção também visual da história, com a sonoridade voraz do flamenco fortemente marcada e uma tonalidade vocal etérea. Curto, os trinta minutos de duração do álbum não parecem pouco, mas meticulosamente pensados na construção narrativa que parece pautar a condução do disco. “Bagdad”, o capítulo da Liturgia, inicia com uma clara referência rítmica a “Cry Me A River” de Justin Timberlake, transita por momentos exuberantes e remexidos, para posteriormente atrair o momento do Êxtase (Cap. 8), em “Di Mi Nombre”, para uma estabilização. O Mau Amor (em tradução livre) é um nome contundente para classificar a jornada que o álbum atravessa.

A variação sonora aliada à experimentação vocal constroem um cenário prazeroso e com trânsito por diferentes sensações, que posicionam El Mal Querer como uma peça sólida e digna de destaque. A consolidação da espanhola para além desse projeto ainda pode ser questionada (cabe pensar na sustentação dessa ritmicidade e estética ao longo do tempo como risco de monotonicidade), mas a obra, em sua construção individual, se posiciona com facilidade entre as mais diversas e inovadoras do pop de 2018.

OUÇA: “Malamente”, “Pienso En Tu Mirá”, “Bagdad” e “Di Mi Nombre”

Robyn – Honey


O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda.

Oito anos se passaram desde que a sueca lançou o magnífico Body Talk, álbum que mudou e revolucionou o pop eletrônico. Com suas batidas bastante características e letras extremamente profunndas, Robyn (me) mostrou que pop não precisa ser algo raso e sem nenhum real sentimento, que pode e deve trazer algo a mais e não ser apenas música pra encher pistas de dança. Essa Robyn continua presente em Honey, obviamente. Mas parece que dessa vez tem algo faltando em grande parte do disco.

Honey é bastante curto, tratam-se apenas de nove músicas e pouco mais de trinta minutos, e nele Robyn aposta em algo completamente diferente de tudo o que já havia feito – mesmo quando consideramos o começo de sua carreira como cantora adolescente. O pop de Body Talk é urgente, visceral, com batidas  emocionantes que se encalacravam em tudo ao seu redor. Aqueles primeiros sete segundos de “Dancing On My Own” antes da bateria começar já ilustram tudo isso. E Honey… não.

Sei que comparar os dois álbums é algo bem burro e estúpido de se fazer, muito tempo se passou entre eles e muita coisa mudou  – como era a sua vida oito anos atrás? Com certeza bastante diferente do que é agora. Robyn também merece ter mudado e evoluído nesse tempo. Mas não comparar os dois álbuns é quase impossível.

Honey é um álbum bastante delicado e suave, talvez exatamente para se contrapor à explosão incessante que foi Body Talk (lembrando que, originalmente, Body Talk foi um projeto de 3 EPs que permeou o ano de 2010 inteiro, sendo compilado apenas posteriormente). É natural que as coisas se acalmem um pouco, mas Honey acaba sendo parado e introspectivo demais até para Robyn – alguém que faz música pop introspectiva de excelente qualidade.

Em 2018 Robyn mostra continua sendo a força pop maestral que sempre foi, mas ela não se supera. Nem se esforça para tal. Honey é um álbum muito bom, por que não tinha como ser diferente. Mas depois de tanto tempo de espera, apenas ‘bom’ parece quase um passo atrás para a cantora.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”

Allie X – Super Sunset


Allie X vem voando mais alto nos últimos anos. Especialmente depois do hit “Paper Love”, sua fanbase teve um crescimento considerável e ela entrou na categoria de cantoras Pop adotadas pelos fãs como uma grande promessa do gênero, daquelas que quando se estouram ouvimos aos quatro ventos “EU SOU FÃ DESDE PRIMEIRO EP” etc.

Super Sunset tem oito músicas com duas intros. É praticamente um EP. Acho que nem cabe uma super resenha descrevendo cada aspecto desse trabalho. A equipe de produtores acertou a mão e Allie X manteve os mesmos aspectos que fizeram CollXtion II interessante. Tecnicamente, esse é um disco perfeito. Pena que falta profundidade.

Allie X tem 33 anos e sinto como se estivesse ouvindo composições de uma mulher de 20. O erro não é da cantora, veja bem. O álbum é comercial o suficiente para ir bem nos charts de música pop e tocar em qualquer balada do gênero, mas não traz assuntos relevantes o suficiente para me prenderem a atenção. É um disco que me lembrou bastante The Fame, da Lady Gaga. Só que já se passaram 10 anos desde que ele foi lançado.

Se você está a procura de um synthpop/indie pop bem produzidos, pode ouvir Super Sunset sem medo. É uma audição gostosa e divertida. Se está procurando por algo que saia do lugar comum, é melhor procurar outras artistas.

OUÇA: Tudo. Pelo amor de Deus, são só 21 minutos.

The Ting Tings – The Black Light


Dez anos. Esse é, de maneira rústica, o intervalo de tempo entre o primeiro álbum e esse quarto, o The Black Light, na carreira dos britânicos do Ting Tings. “Shut Up And Let Me Go” e “That’s Not My Name” aparte, é possível traçar um panorama interessante dentro desse grande espaço de tempo: de onde a dupla partiu e até aonde a dupla está agora. E, além disso, de que o maior instrumento da carreira do duo acaba sendo o tempo e como ele molda os interesses deles.

Nesse quarto disco a dupla abusa muito mais de elementos industriais que permearam um pouco os álbuns anteriores – se observarmos o single solto “Hands” antecessor ao segundo álbum conseguimos enxergar bem essa construção – e consegue deixar esse ritmo eletrônico mais cru e emergencial de uma maneira interessante para ser trabalhado dentro de uma banda tipificada dentro do grande gênero indie. Jules e Katie ainda abusam de elementos da grande ressurgência da cena techno, criando uma amalgama eletrônica com elementos de guitarra dentro de seu novo estilo – um indie pop electro industrial bem bolado.

The Black Light demorou quatro anos para aparecer desde Super Critical, mesmo intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo álbuns, e essa pausa se pareceu muito necessária para eles. Esse quarto álbum parece servir como momento de autocrítica, de aceitar que sua identidade e criatividade do primeiro álbum foram essenciais para aquele instante, mas não estão mais alinhadas com os interesses da banda atualmente – o tempo, o grande instrumento.

Dentro desse panorama, The Black Light parece ser o primeiro álbum verdadeiramente do The Ting Tings desde o primeiro disco, aonde eles mostram de maneira muito mais fluida e fácil quais são os interesses deles atualmente. Essa falta de identidade fez a dupla sofrer muito e parecer uma reconstrução bizarra do sucesso do seu primeiro disco nos álbuns anteriores. Esse quarto álbum vem como uma construção de um novo modelo para a banda e, esperamos, que apareça como uma vontade de aprimoramentos e maior consciência nas composições dos próximos álbuns.

No fim das contas, o Ting Tings parece ter se reinventado dentro do seu mesmo jogo mais uma vez. Eu particularmente acho que a discografia da dupla tem seus momentos de luz e que possuí músicas geniais dentro das singularidades de seus álbuns – “Day To Day” e “Wrong Club”, por exemplo – mas The Black Light é, talvez, o álbum mais interessante desde o seu primeiro e grande sucesso. Apesar dos pesares, é bonito ver que a dupla continua na ativa e continua entregando música bem pensada para nos alimentar, mesmo que ainda vivam, em 2018, sob a sombra do seu sucesso de primeira viagem lá em 2008.

OUÇA: “A & E” e “Blacklight”

MØ – Forever Neverland


A expectativa em torno de Forever Neverland foi grande, e isso, graças a qualidade de seu antecessor No Mythologies To Follow lançado em 2014. Assim, foram quatro anos para o tão esperado – e temido – segundo álbum da cantora e compositora dinamarquesa, mas durante esse intervalo foram lançados singles e o EP When I Was Young (2017).

Mesmo que a cantora não tenha ficado no completo silêncio durante esses quatro anos, sabemos bem que os anseios, medos permearam muito o lançamento do segundo disco. É óbvio que todo artista passa pelo medo do “temido segundo disco”, ainda mais quando o álbum de estréia possui uma imensa qualidade. Assim, não foi diferente com ela, temia-se que ela abandonasse completamente a sua essência e se lançasse à “plasticidade do Pop” cedendo o controle de seu trabalho aos “grandiosos da indústria”.

Assim, ao ouvir Forever Neverland percebemos o acúmulo de sonoridades que MØ buscou nesse tempo e no mergulho que deu em torno dos conhecimentos relacionados ao pop, isto é, a cantora e compositora trabalhou com cerca de trinta produtores do segmento eletrônico e experimental, o que evidencia o trabalho dela em buscar constantemente a inventividade. Além disso, vemos contribuições de Diplo – em “Sun In Our Eyes”- , de Charli XCX – em “If It’s Over” – , de What So Not And Two Feet – em “Mercy” – e de Empress Of – em “Red Wine” -, ou seja, aqui nos deparamos com as faixas mais interessantes do álbum.

No entanto, acredito que Forever Neverland divida opiniões, alguns poderão pensar que ele possui faixas rasas com batidas plásticas, que trata-se de algo mais formatado e de qualidade inferior ao álbum anterior; outros poderão pensar que trata-se de um álbum que ainda mantém a essência, mas que investiu em experimentações e sonoridades próximas ao Pop de forma profunda; e além desses, tantos outros pensamentos surgirão a cada audição desse álbum.

Na tentativa de concluir, Forever Neverland não é decepcionante, ele pode ser diferente do seu antecessor e pode não ter agradado quem esperava a mesma fórmula dele, mas podemos dizer que o registro mergulhou em segmentos experimentais e eletrônicos com o intuito de ampliar o acesso ao público. Porém, isso não significa que suas faixas são rasas, plásticas, descartáveis, isto é, o registro possui um outro tipo de apelo, mas não acredito que MØ “perdeu essência”, acredito que seja outro registro, outro contexto, com outras possibilidades, sonoridades, experimentações e devemos considerar esse  outro momento da cantora/compositora. Óbvio, o álbum possui altos e baixos em sua execução, mas concluímos que: Forever Neverland sobreviveu à tão temida “maldição do segundo disco”.

OUÇA: “I Want You”, “Blur”, “Beautiful Wreck” e “If It’s Over”

SOPHIE – OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES


Começando essa resenha num tom mais pessoal, eu não acho estar desapontado com os lançamentos de 2018, mas eu andava sentindo um… Mal-estar? Inquietação? Não sei ao certo, apenas sentia que alguma coisa estava faltando na leva de álbuns desse ano. Não necessariamente algo que botasse todos os outros artistas no chinelo ou ofuscasse seus trabalhos, apenas algo único, novo… Algo fresco. Algo com uma sonoridade extraterritorial, com uma paleta bem específica de cores em tons frios, com talvez um vermelho se destacando para gerar algum foco, teria que soar familiar, mas ao contrário? De cabeça pra baixo quem sabe… E totalmente destroçado, mas apenas o suficiente pra poder ser reconstruído. E não, eu não fumei, cheirei ou injetei nada, isso é realmente uma necessidade que eu andava sentindo em relação a música ultimamente, e foi exatamente com esses exatos aspectos que SOPHIE me atingiu com uma voadora de dois pés, arregaçando tudo em mim da melhor maneira possível (???). Enfim, a vida sorriu pra mim, e vai sorrir pra você também depois dessa resenha e download. Insira emojis sorrindo e surtando aqui.

O grande barato de OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES é que o quanto mais se analisa ele, mais ideias vão brotando sobre seu desenvolvimento, inspirações e afins. Desde movimentos artísticos que estudamos no ensino médio e aulas de química que a gente faz questão de esquecer, até vida em outros planetas e zoom em supernovas, SOPHIE literalmente parece dissecar o pop e reconstruí-lo usando bases eletrônicas pra trazê-lo de volta á vida de uma maneira nova e inventiva.

Enquanto o compilado PRODUCT (2015) continha fortes singles previamente já conhecidos e dava indício de uma artista totalmente visionária, o mesmo parecia apressado demais para estampar o nome da cantora no mundo, as novas canções, apesar de boas, não faziam juz ao potencial total de SOPHIE. Por sorte, o pouco material foi mais do que o suficiente pra chamar a atenção de outros artistas, e a cantora se manteve mais do que ativa no mercado. Bom, vamos ser sinceros, se tu consegue uma participação em uma música pra Madonna… As coisas andam bem. Não bastando isso, SOPHIE esteve tão envolvida com tantos artistas e gêneros musicais diferentes, que era simplesmente uma questão de tempo ela ter seu lugar embaixo do sol. E foi dito e feito.

De todas suas colaborações, as com Charli XCX (que parece ter tomado SOPHIE como sua queridinha, já com ela há um bom tempo em seus álbuns) e Let’s Eat Grandma talvez sejam as que mais representem o rumo que a cantora resolveu tomar, seja pelo pop envolvido, a desconstrução e remodelagem sensorial que suas batidas causam ou as explosões de ânimo envolvidas em seu trabalho. Mas isso tudo era um aperitivo bem pequeno em comparação com o que estava por vir. OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES trouxe a tona não apenas o já conhecido talento da cantora, como também várias camadas novas dela própria, seja em corpo, sem medo de entregar sua nudez, voz, já que previamente eram segundos e terceiros no vocal e por fim, mais e mais facetas de sua capacidade como musicista, não falhando em abocanhar novos fãs e colocar os já de carteirinha em êxtase!

Eu adoraria achar que é apenas exagero meu, mas o que SOPHIE faz realmente vai bem além do que apenas criar música, se há uma forma mais exata de definir isso, seria alquimia sonora. Seja frenética ou extremamente suave, artificial ou crua, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES automaticamente vai além de ser apenas um álbum maravilhoso e se torna uma grande promessa do que esta por vir, e isso pode ser absolutamente tudo o que SOPHIE imaginar ou quiser, pois poder para criar qualquer coisa,  já está claro que ela tem. Mesmo trabalhando com aspectos mais experimentais e industriais, a aliança com o pop permite que o trabalho da cantora seja mais do que bem-vindo aonde quer que ele seja levado. Se eu tiver que citar algum contra do álbum, talvez seja esse pequeno problema se manifestando nessa resenha, e vamos a ele: QUAL A NECESSIDADE DE UM TÍTULO TÃO GRANDE, PESTE? TENHA PENA DE MEUS DEDOS MULHER! Mas fora isso, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES é sem sombra de dúvidas um dos melhores lançamentos do ano e mais do que recomendado para toda e qualquer pessoa… Evangélicos nem tanto, eles provavelmente vão achar que o diabo está envolvido, mas veja bem… Sem o pacto nós nada somos, e o da SOPHIE é um exemplo a ser seguido.

OUÇA: “It’s Okay To Cry”, “Is It Cold In The Water?” e “Immaterial”

Troye Sivan – Bloom


O momento em que Troye Sivan lança seu segundo álbum de estúdio não vem do acaso: o australiano vem construíndo uma ampla gama de seguidores desde seus inícios no YouTube há alguns anos. A consolidação da sua carreira como cantor muito deve a essa época mas, para além disso, Sivan é o reflexo daqueles que cresceram vendo seus vídeos.

Algo que Bloom deixa claro desde seu início é o tom aberto e dinâmico com que o cantor aborda sua sexualidade: abertamente gay desde a época dos vídeos, suas vivências como jovem LGBT são claramente expostas na dinâmica do disco. As experiências não são tão diferentes de qualquer jovem adulto que explora relacionamentos e sua sexualidade mas, em termos de sensibilidade e vulnerabilidade, se tornam relevantes. A primeira experiência sexual de um jovem gay passivo é abordada de maneira leve e até romantizada por Sivan que, no contexto da faixa, funciona bem como uma narrativa sensual e intrínseca bastante interessante.

As influências musicais são claras e também dizem muito a respeito da formação de Sivan enquanto jovem da classe média australiana. O álbum é expressamente pop, talvez o mais pop que um cantor de 23 anos com a ampla rede de fãs adolescentes consegue ser, mas de certa forma, é um pop maduro, com momentos de produção excepcional que o destacam de qualquer revival do pop vintage que caracteriza as rádios de hoje. Sivan pode ser, por vezes, um respiro para a monotonia e desgaste que o gênero consegue causar. Em outros momentos, porém, reproduz modelos e, assim como seus contemporâneos, pode cansar.

A sonoridade, apesar de não muito destoante, é realçada pela certa transparência e delicadeza com que Troye caminha pelos versos. A vulnerabilidade passa a ser, então, uma das maiores características do álbum: seja pela produção sútil ou pelas letras expostas e amplamente pessoais. Mesmo que não seja necessariamente diferente de construções líricas comuns ao universo pop ou melodias muito fora da curva, o trajeto de escutar Bloom dá uma sensação de leveza e positividade ao se atravessar. Limitado a dez faixas, o projeto finaliza bem amarrado: ee mais extenso, o álbum poderia correr o risco de ser muito monótono e repetitivo.

Momentos mais dançantes como o da faixa título ou o de “Lucky Strike” se potencializam quando associados ao passo mais lento da parceria com Ariana Grande (“Dance To This”) ou, ainda, à progressão lenta de “The Good Side” ou “Postcard”.

Sivan se encaixa numa onda jovem do cenário pop bastante preocupada em trazer questões relacionadas a gênero e sexualidade, com visuais e expressões cada vez mais desinibidas mas, em oposição a outros promissores do cenário, Sivan o faz de forma leve e sútil, deixando sua boa marca no momento do gênero se situa para 2018 e, ainda, evidenciando sua proeminência na cultura queer, com potencial de amadurecimento para uma figura marcante do pop comercial LGBT.

OUÇA: “Bloom”, “Postcard”, “The good Side” e “Lucky Strike”