blink-182 – NINE



O blink-182 está de volta! Absurdo dizer isso quase no fim de 2019? Nem um pouco. O nono álbum da banda, intitulado ironicamente de NINE, traz o blink na sua  melhor forma: rebelde, apaixonado e barulhento. O trio californiano trouxe de volta os elementos que ajudaram a construir seu legado pop punk, só que agora com uma pitada generosa de maturidade na produção musical e com muitas experiências de vida.

Finalmente Mark Hoppus, Matt Skiba e Travis Barker soam como uma banda. Desde o fim da formação clássica do grupo, com a saída de Tom DeLonge em 2015, o blink andava completamente desnorteado. O último álbum com DeLonge, Neighborhoods (2011), foi recebido com desconfiança e já mostrava o desacordo musical entre os membros. O primeiro trabalho com Skiba assumindo os vocais e as guitarras, California (2015), parece uma tentativa atrapalhada de mostrar que o grupo ainda estava vivo. 

O que faltava mesmo era o Blink-182 tocar como Blink-182 novamente, e é aí que NINE acerta em cheio. Este novo disco carrega muito do espírito da tríade gloriosa Enema Of The State (1999), Take Off Your Pants And Jacket (2001) e blink-182 (2003) que deu uma legado ao grupo, mas ainda sim traz muita originalidade. Apesar das desavenças, o período nublado de 2011 até 2015 foi fundamental para o amadurecimento pessoal e musical do trio e isso é bem refletido no novo álbum. A primeira faixa, “The First Time”, traz o pop efervescente singular do blink e até se assemelha com o antigo hit “Feeling This”, de 2003. 

“Happy Days”, um dos singles do álbum, traz (desde muito tempo) Mark Hoppus em fúria e confuso, lutando contra os fantasmas que o impedem de crescer – um dos temas recorrentes no álbum Take Off Your Pants And Jacket. A parte romântica de NINE fica por conta da sequência “I Really Wish I Hated You”, “Pin The Grenade” e “No Heart To Speak Of”. As três faixas carregam muita melancolia que só um bom amor adolescente tem e que o grupo já cantou sobre diversas vezes. E se tratando de blink dos velhos tempos claro que tinha que ter espaço para uma dose de humor escatológico: “On Some Emo Shit” é totalmente irônica desde o nome até sua letra obscura. 

A última faixa, “Remember To Forget Me”,  mostra que os rapazes ainda são garotos vulneráveis, gritando desesperadamente acompanhando a evolução de um acústico até a chegada de guitarras e a bateria incomparável de Travis. Aqui se encerra a síntese desse novo blink que carrega seu passado sem ser um fardo. NINE é mais um trabalho que mostra que desespero, solidão e saudade acompanham sempre uma pontinha de esperança. Melancólico demais? Nunca para os emos que cresceram com o blink-182, mas agora precisam lidar com a vida adulta. 

NINE é um álbum saudoso, mas que não se prende somente à nostalgia. Não é um emo sombrio o suficiente, mas carrega tanta emoção que fica difícil de escutar sem sentir uma angústia. O blink-182 amadureceu e nós, sem perceber, amadurecemos juntos. Talvez o álbum soe tão bem justamente por nos levar à uma viagem no tempo sem perder a noção de que não podemos ir tão longe. NINE consolida a mensagem que o blink há tempos tentava pregar: crescer é uma droga, mas infelizmente é necessário. 

OUÇA: “Happy Days”, “I Really Wish I Hated You”, “Pin The Grenade” e “On Some Emo Shit”

The Regrettes — How Do You Love?



Já na introdução, uma declaração do poema “Are You In Love?”, já se pode saber que o segundo disco do grupo punk norte-americano The Regrettes, How Do You Love?, se trata de um trabalho divertido e cheio de energia. Ao longo de quinze faixas, o álbum embala um ritmo frenético e aborda questões românticas a partir de um ponto de vista juvenil.

O rock entusiasmado do The Regrettes remete a uma sonoridade retrô, e a união dessa musicalidade com canções que apontam “fazer uma playlist juntos” como a prova definitiva de amor é uma mistura que agrada e diverte. A guitarra elétrica parece perfeita para animar uma festa adolescente, uma atmosfera moderna que a lírica do grupo consegue imitar com exatidão. Canções como o single “I Dare You” são impossíveis de se ouvir sem, no mínimo, bater o pé no chão de acordo com a batida.

No entanto, em um disco que parece não ter tempo para descansar, o ritmo festivo pode soar bobo e repetitivo em momentos. Isso faz com que o disco pareça mais longo do que de fato é, com seus 44 minutos de duração. Além disso, as menções insistentes a esse universo colegial, como na faixa “Coloring Book” e “Dress Up”, criam um ar pretensioso com suas metáforas e throwbacks um tanto quanto óbvios.

How Do You Love? é um disco alegre que anda na corda-bamba entre a doçura e a ironia. Liricamente, lida com as complexidades da vida romântica nos anos 2010, e as escolhas sonoras remetentes aos anos 1960 oferecem uma contradição deliciosa de se ouvir. Por mais que o pique de batidas por minuto possa cansar o ouvido, é um trabalho cheio de personalidade.

OUÇA: “Pumpkin”, “I Dare You” e “California Friends”

Sum 41 – Order In Decline



Banda surgida no final dos anos 1990 no esteio da explosão pop punk que popularizou Green Day, Blink 182, Bad Religion, Offspring e Rancid, o Sum 41 de 2019 é bem mais hard rock do que punk. As guitarras deste novo álbum Order In Decline estão bem mais carregadas e as letras menos trabalhadas.

Order In Decline é um álbum bem fácil de agradar na primeira ouvida. Quem gosta de músicas cheias de adrenalina e que remetem a Avenged Sevenfold, Slipknot e Three Days Grace, vai encontrar o trabalho perfeito. 

No entanto, vão se decepcionar aqueles que buscam no álbum o espírito pop punk de 1994, com letras que instam a rebelião, evocam o tédio e a desobediência a autoridades em qualquer instância, dos pais ao governo. 

O momento mais político do álbum é em “45 (A Matter Of Time)”, que fala do 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Embora a letra não fuja muito do espectro simplista da média das músicas do álbum, a composição traz uma ideia interessante de lidar com a dualidade de temer o governo Trump ao mesmo tempo que o classifica como apenas um número.

Já a canção que mais destoa do hard rock predominante no álbum é “Never There”, que também é uma canção fácil de gostar de primeira. O ritmo e a letra melancólica são envolventes e apesar de destoar do ritmo do resto do álbum, casa muito bem no conjunto da obra. 

A composição da letra de “Never There” é representativa de o quanto o processo de pensar as letras foi negligenciado neste álbum. Tome-se esse trecho como exemplo:

I know that if the, the chance appears

Well I’d have no fears

We both share pain

We feel the same

Esses dois trechos da música “Out For Blood” também reforçam que não houve cuidado na elaboração das letras:

So tell me what’s real

I don’t know if I can feel

Tell me what’s right

I don’t see the light

Apesar do pouco esmero nas letras, a volta de Sum 41 é uma boa notícia porque o instrumental é usado de uma maneira excelente e o ritmo das cações tem a qualidade de agradar rápido como poucos álbuns dos anos 2000 para cá conseguem.

O Sum 41 fez uma aposta ao se distanciar do movimento pop punk pelo qual conseguiu surfar e alcançar notoriedade. Essa aposta trouxe mais resultados positivos do que negativos, pois não há nenhum problema em investir na agradabilidade instrumental e utilizar letras fáceis. Não só de composição cabeçuda vive a música.

OUÇA: “The People Vs…”, “Out For Blood”, “Never There”, “45 (A Matter of Time)”

Alex Lahey – The Best Of Luck Club



A Alex Lahey é uma filha da Internet, mas que ganhou elevada notoriedade em seu país – a Austrália – com a ajuda de mídias bem mais tradicionais: ela ganhou dois concursos, ambos em 2016; o primeiro de uma associação para artistas sem contrato e que foi responsável por alavancar a sua carreira com uma gravadora; e o outro, da maior rádio local, a Triple J, que a levou direto para um dos maiores festivais de lá, o grandioso Splendour in the Grass.

Em The Best Of Luck Club, seu segundo álbum, Alex Lahey repete essa fórmula que conquistou toda essa gente lá em 2016 e no seu primeiro disco de 2017. Repete, mas com algumas ressalvas que fazem que esse novo registro não carregue todo seu talento, toda sua glória e toda sua sonoridade, fazendo com que ele seja quase homeopático nessas qualidades.

Apesar de estar dentro de seu lugar seguro, Lahey parece dosar de forma estranha o seu som e quase nenhuma música lembra muito fortemente o que ela fez com intensa maestria no primeiro disco. “Don’t Be So Hard On Yourself”, “Misery Guts” e “Isabella” talvez sejam as únicas faixas que a gente consiga relacionar diretamente com o I Love You Like A Brother em suas guitarras rápidas, sua cantoria eufórica e as letras irônicas, bem feitas e inteligentes.

Apesar de ainda mostrar uma inteligência incrível para compor, ela deixa de lado em muitos momentos as suas viradas harmônicas rápidas e a sua voz quase gritada, que completariam o pacote que ela entrega com louvor desde o começo de sua carreira. Alex se arrisca em melodias mais lentas e BPMs menos energéticos, como estávamos acostumados. E é um pouco estranho ver uma moça com tanta presença se apagar tanto assim.

Paralelamente, é possível traçar um panorama e várias semelhanças entre Alex Lahey e sua conterrânea, a Courtney Barnett. Alex parece seguir muito de perto os passos da outra moça, que também é LGBT, também vem de Melbourne, também tem uma habilidade impressionante com a guitarra, também tem um poder de letrista excelente; ou seja, as duas tem um pacote de habilidades e qualidades muito idêntico e um começo de carreira bem parecido.

Barnett, assim como Lahey, se manteve em seu lugar seguro no seu segundo álbum e aqui aparece mais uma semelhança: o lugar comum acabou enfraquecendo e as doses mudadas ficaram sem uma certa qualidade e categoria que era esperada da musicista. A energia abaixou, a poeira baixou e o furor do debut bem colocado acabaram se perdendo um pouco.

E tudo bem isso tudo. The Best Of Luck Club não é um álbum ruim, é apenas um disco que tem músicas que mostram que Alex Lahey tem ainda seu talento ali e outras músicas que parecem um deslize rápido que não deve ser repetido. No fim das contas, temos um álbum com músicas memoráveis, mas que não se vê como completo como obra composta.

OUÇA: “Don’t Be So Hard On Yourself” e “Isabella”

CHAI – Punk



Punk é o segundo álbum completo da banda japonesa CHAI, seguindo seu debut Pink em 2017. Apenas o fato de que seu debut se chama Pink e o segundo álbum, Punk, já dá pra ter uma ideia que o senso de humor é algo bastante importante para as moças de Nagoya. O quarteto faz uma mistura interessante e inusitada de pop punk com elementos dance, eletrônicos e de girl band anos 60.

As moças do CHAI têm como propósito redefinir o que é ser ‘kawaii’ em japonês, ou seja, o que significa ser ‘cute’ em inglês; ou ‘bonitinho’/’fofo’ em português. Elas fazem isso com uma mensagem bastante simples e inclusiva de que todos podem ser kawaii, cada pessoa de sua forma, mesmo quando isso vai contra os padrões de beleza (principalmente) japoneses. Algo bastante simples mesmo e universal, mas não pouco importante e bastante feminista.

O som e mensagem das moças já atraiu atenção desde seus primeiros lançamentos, os EPs Hottakara Series e Homegoro Series, principalmente na Europa. Seu single “Gyaranboo” se encontrou no Top 50 das músicas mais ouvidas no Spotify no Reino Unido sem nenhum esforço por parte da banda. Talvez por esse motivo elas tenham sido convidadas pelos queridinhos do hype Superorganism para ser sua banda de abertura.

O CHAI realmente faz uma música bastante diferente, até mesmo para os padrões da música japonesa atual, o que as torna bem interessantes. Elas definem seu som como influenciado por Cansei de Ser Sexy, Gorillaz e Jamiroquai, assim como Chvrches e Justice. Punk traz todas essas influências e também adiciona elementos mais tradicionais pop punk resultando em um álbum divertidíssimo do começo ao fim.

Diversão, mas com um propósito, parece ser o objetivo final das moças do CHAI o tempo todo e isso é bastante perceptível. As letras oscilam o tempo todo entre o japonês e o inglês, e o sotaque da vocalista principal Mana é tão carregado que nem sempre é possível distinguir entre os dois idiomas. E isso, nem de longe, é um problema ao longo da audição do disco.

Sempre houveram alguns nomes orientais que conseguiram se manter no mundo musical ocidental, como o X-Japan e o Shonen Knife, e agora com a explosão de k-pop acontecendo no mundo pop, o preconceito ocidental com músicas e línguas orientais parece estar um pouco mais leve. E isso é tudo o que as meninas do CHAI precisam para poderem se firmar como um nome relevante dentro da esfera alternativa. Talento e qualidade musical para isso elas já mostraram que têm.

OUÇA: “Choose Go!”, “Fashionista”, “I’m Me”, “Feel The Beat” e “This Is Chai”

The Maine – You Are OK



Ano sim, ano não, o The Maine aposta em novos projetos. São um total de sete álbuns em onze anos. Produtividade. Em março, a banda lançou You Are OK, sucessor de Lovely Little Lonely, de 2017.

São dez faixas que evidenciam uma produção mais apurada e um amadurecimento do conjunto. O The Maine aparenta ter entendido o lance de “temos que crescer”, sem perder as raízes e a independência. Antes do lançamento do álbum, três faixas já haviam sido divulgadas anteriormente,”Numb Without You”, “My Best Habit” e “Broken Parts”.

Em junho de 2019, o The Maine virá ao Brasil para uma série de shows em quatro cidades.  Em um post no Instagram, John O’Callaghan, vocalista da banda, afirmou que o lançamento do álbum é muito importante para  a banda e que, desta vez, eles estão apresentado um trabalho de forma mais ambiciosa.

“Slip The Noose”, primeira faixa do álbum, é deliciosamente nostálgica ao soar como o  My Chemical Romance. Não se trata de uma cópia, mas uma bela lembrança, uma influência. O instrumental da música é poderoso e diferente, demonstrando ao ouvinte que algo único está por vir.

“My Best Habit” e “Numb Without You” são as próximas canções de You Are OK e já haviam sido lançadas anteriormente. A primeira é rápida – talvez a velocidade seja um dos pontos geradores do álbum – e possui uma base de batida eletrônica; a segunda rememora a questão da rapidez, mas com um refrão cantado de maneira mais lenta. O’Callaghan, nesta composição, deixa claro como a paixão tomou conta de seu corpo e alma violentamente. As batidas refletem essa violência.

“I Feel It All Over” sugere aquilo que estamos acostumados a escutar nas produções sonoras dos garotos do Arizona. O contraponto do álbum fica nos ombros de “Forevermore”, faixa acústica e sólida, em que os vocais de O’Callaghan reinam supremos e convictos. Boa jogada. “Tears Won’t Cry (Shinju)” e “One Sunset” reforçam uma das características mais marcantes do projeto: baterias definidas e rápidas.

“Flowers On the Grave” encerra o álbum vagarosamente. São nove minutos que poderiam muito bem serem resolvidos em, no máximo, cinco. Não é um grande erro, mas faltou coesão.

You Are OK é urbano, sagaz e rápido. Um instrumental bem resolvido que ascende com a potência vocal de John. É, de fato, um álbum que aposta no amadurecimento e na exposição de sua força. Com o perdão da piada, eu tô mais que ok com este novo álbum.

OUÇA: “Slip The Noose”,“Numb Without You”, “Forevermore” e “Tears Won’t Cry (Shinju)”

You Me at Six – VI


Crescer é inevitável, evoluir é opcional. Mas essa opção só está disponível para quem está disposto a perder alguns nostálgicos pelo caminho, como é o caso de You Me At Six. Em seu sexto álbum, intitulado VI,  a banda britânica, que nasceu em berço pop punk, um dos gêneros preferidos do emo anos 2000, dá o outro lado de sua face à tapa com novas sonoridades e influências, como elementos eletrônicos, letras mais despretensiosas e ritmos que conversam com o funk.

As músicas que mais se distanciam da tradicional sonoridade turbulenta do grupo são aquelas que evidenciam elementos indie e pop, como “Pray For Me” e “Losing You”. É aqui o lugar que os britânicos mais experimentaram: o sintetizador, que acompanha todas as faixas, aparece como personagem principal e a atmosfera etérea como coadjuvante. Não por acaso, as duas músicas foram feitas em parceria com o produtor Dan Austin, que também trabalha com Robert Plant, Queens Of The Stone Age e Placebo.

Para reafirmar a nova fase, a banda participou como co-produtora de todo o álbum e escolheu duas músicas de trabalho que singularizam a unidade de VI perfeitamente. Enquanto “3 AM” chega com seu pop sintético, “Back Again” traz uma linha de baixo envolvente e um videoclipe em homenagem ao filme The Big Lebowski. A dupla de singles é um veredito, um termo de responsabilidade, a prévia de uma discussão que o grupo não quer nem participar.

Destaque e boa surpresa do disco, “I O U” também aposta em um funk liderado pelo baixo, que conversa de forma energética com a guitarra, bateria e o vocal de Josh Franceschi. Aqui fica ainda mais óbvio o desvio e o insight que atingiram o grupo depois de seu último álbum, Night People, muito mais fiel às origens básicas do pop punk, e do rock numa visão mais ampla.

A mudança é drástica, mas os britânicos não perdem a alma, bem visto na faixa de abertura “Fast Foward”. Assim como já fez Paramore ou até Arctic Monkeys recentemente, o You Me At Six abandonou os anos 2000 definitivamente e perdeu o medo de soar como eles querem, do jeito que querem, com a produção que eles querem, com letras que não se preocupam com o que as pessoas querem.

Ao contrário do que muitos artistas tendem a fazer com o passar dos anos e mudanças de tendências — aqueles exageros em experimentações e arrependimentos em forma de álbum —, a banda inglesa sabe muito bem o que está fazendo. Por isso, a qualidade de VI é tão evidente, que muito provavelmente até os fãs mais conservadores gostaram desse novo, e inesperado, You Me At Six.

OUÇA: “3 AM”, “Back Again” e “Losing You”

Good Charlotte – Generation Rx


Dois anos após o lançamento de Youth Authority, a conhecida banda de pop punk Good Charlotte retorna com seu mais novo álbum Generation Rx, um trabalho em que a banda procura recuperar seu elo com a juventude e alertá-la quanto aos perigos atrelados ao abuso de opióides e medicamentos e a um estilo de vida destrutivo que é vendido como libertador e salvífico.

Generation Rx integra um intenso movimento na música contemporânea dedicado a denunciar o lado mais perverso da epidemia do uso de opióides e medicamentos controlados (sem descartar outras drogas) pela juventude nos dias de hoje. Ao tratar deste assunto, o álbum se coloca ao lado de importantes trabalhos como o KOD (2018) do rapper J. Cole, que também denuncia o abuso de opióides por parte dos jovens e adolescentes norte-americanos. Além disso, Generation Rx é lançado em um contexto em que artistas famosos como Lil Peep e Mac Miller, em um intervalo de menos de um ano, morreram de overdose e em que estrelas como Demi Lovato passaram a falar abertamente sobre seu vício em drogas.

Contudo, embora trate de assuntos de grande importância, a sonoridade do álbum parece perdida no abismo existente entre o pop punk dos anos 2000 que consagrou a banda e as tendências atuais no cenário do pop e do pop rock norte-americanos. Em muitos momentos, sobretudo em faixas como “Generation Rx”, “Self Help” e “Actual Pain”, é possível identificar uma tentativa da banda de mesclar sua sonoridade antiga popularizada nos álbuns The Young And The Hopeless (2002) e The Chronicles Of Life And Death (2004), recheada de overdrives, harmonias e temas mais sombrios e gritos ocasionais, com um tipo de sonoridade mais contemporânea que lembra em diversos momentos a sonoridade vista em One More Light, último álbum do Linkin Park, que se apoia grandemente em elementos eletrônicos.

Ocasionalmente, o álbum foge desse tipo de sonoridade, como em “California (The Way I Say I Love You)”, uma faixa mais melódica que poderia ser considerada a única “balada” do álbum, embora não seja incomum na discografia da banda colocar faixas desse tipo em seus álbuns. Contudo, ainda assim é uma sonoridade pouco convincente que não capta a atenção do ouvinte e mostra de forma ainda mais clara a dificuldade da banda em se adaptar aos tempos atuais.

Assim, Generation Rx, embora represente uma tentativa da banda Good Charlotte em se adaptar aos tempos atuais e a tocar em assuntos muito importantes e vitais para a nova geração, é um trabalho pouco convincente que peca por não conseguir desenvolver uma sonoridade atraente e falha em sua principal motivação, que é tentar estabelecer de forma profunda um elo com esta nova geração.

OUÇA: “Leech”, “Better Demons” e “Generation Rx”.

Mayday Parade – Sunnyland


É sempre bastante interessante escrever sobre pop-punk. Na maioria das vezes, as bandas entregam trabalhos muito semelhantes, desde a simples harmonia instrumental até o tema das músicas: deixar a cidade natal, desilusões adolescentes e amizades tóxicas são os pilares líricos sobre os quais o gênero se estrutura – o que não é sinônimo de pouca qualidade, vide bandas como Neck Deep e State Champs. Aliás, curioso notar a confusão que parte do senso comum cria em torno desse conceito, confundindo-o com outro que pouca coisa tem de parecido: o emocore. Bandas como Yellowcard, Paramore, My Chemical Romance e Panic! At the Disco não são bandas emo, mas aproximam-se muito mais do pop-punk (para bandas inscritas no emocore, procure por Cap’n Jazz, Brand New, Fresno e Rites of Spring).

Mayday Parade, por sua vez, iniciou sua trajetória na música vendendo EPs no estacionamento da Warped Tour, um festival de música centrado em subgêneros derivados do hardcore. Esse ano, a última e maior edição do evento, a banda tem vaga garantida e, dessa vez, no palco principal. Seu último disco, que marca a transição do selo Fearless para a Rise Records, merece sua atenção. Ao contrário de álbuns predecessores que não passam de clichês – trabalhos genéricos concentrando tudo o que há de mais recorrente no gênero – como Anywhere But Here e Monsters In The Closet, Sunnyland aparece como uma obra concisa, retomando referências dos clássicos A Lesson In Romantics e Mayday Parade – assinaturas da banda.

Quebrando o ciclo de entregar bons álbuns intercalados com álbuns descartáveis, Mayday faz com que nos sintamos escutando ao seu primeiro trabalho. De fato, não me surpreenderia se o primeiro vocalista, Jason Lancaster, aparecesse em um verso. Ainda assim, é importante ressaltar que Sunnyland não é simplesmente uma releitura de seu disco de estreia, mas tem identidade própria, quase experimental. “Piece Of Your Heart”, por exemplo, não é apenas uma das melhores faixas do álbum, mas de toda a discografia da banda. “Is Nowhere”, por sua vez, mostra toda a competência do vocalista Derek Sanders. Por fim, a faixa “Sunnyland” fecha o álbum como uma contemplativa balada acústica – aspecto que a banda explorou dessa vez como nunca antes, vide “Take My Breath Away”, “Where You Are” e “Always Leaving”.

De todo modo, é difícil fazer música atualmente. Mais difícil ainda se você fizer parte de uma banda de pop-punk ou qualquer outro gênero derivado do hardcore. Aqueles que escutavam Brand New ou La Dispute há dez anos, provavelmente escutam Kendrick Lamar e Frank Ocean atualmente. Isso se deve há milhares de fatores. Entre eles, o fato de que bandas como Counterparts ou Touché Amoré ainda fazem o mesmo tipo de som – maravilhoso, verdade seja dita -, ao passo que o apelo de gêneros como rap e indie são muito maiores. O pop-punk e seus primos tornaram-se subgêneros de nicho. Se você frequenta shows dessas bandas, sabe que encontra sempre as mesmas pessoas. Diante desse contexto, Mayday Parade teve de resgatar aquilo que faz com que sejam bons ao passo que arriscam-se como músicos para criar novas composições em um esforço para consolidar sua identidade. Se conseguiram ou não, é outra história e outro texto. Fato é que os meninos da Flórida sabem o que estão fazendo. Coloque seu all star e aproveite.

OUÇA: “Piece Of Your Heart”, “Is Nowhere” e “Sunnyland”

The Longshot – Love Is For Losers


The Longshot é uma banda semi-misteriosa, começamos daí. Trata-se do projeto novo solo (?) do vocalista do Green Day, Billie Joe Armstrong. A banda surgiu sem grandes avisos de uma hora pra outra com um EP de três músicas e, apenas uma semana depois, lançou seu primeiro álbum completo, Love Is For Losers.

O álbum é um exemplo primordial de o que Billie Joe sempre soube fazer com maestria: um pop punk cheio de riffs, refrões e letras grudentas. Na real, as músicas de Love Is For Losers se mostram muito melhores e mais interessantes do que o último álbum de sua banda principal.

Talvez tenha a ver com o fato de que desde o American Idiot em 2004, as pessoas esperam que trabalhos novos do Green Day acabem indo pra um lado mais político e que envolvam críticas sociais e ao governo, mesmo que subentendidas. E, de uma certa forma, foi isso o que o Green Day fez nos últimos dez anos ou mais – mesmo a trilogia ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré! de 2012, que mostravam as mais diversas influências que o Green Day pode ter, ainda acabam com o mesmo cunho político. Mas, seguindo a trajetória não-tão-impressionante-assim do Green Day nos últimos anos, por que lançar essas músicas como uma banda separada?

E é aí que chegamos: a política em Love Is For Losers é zero, praticamente. Tratam-se apenas de músicas boas compostas por um dos melhores compositores de pop punk de todos os tempos. Com zero pretensão, com zero pessoas olhando atenciosamente e criticando qualquer riff falho. Love Is For Losers é uma catarse, é Billie Joe escrevendo e cantando as músicas que quiser sem medo de que seja um álbum muito criticado quando levada em conta a reputação de sua banda principal.

Mas, mesmo que Love Is For Losers tivesse sido lançado como um álbum do Green Day, ele seria o melhor álbum do Green Day em anos. Todos os elementos estão aqui, um Green Day das antigas sem preocupações e sem pretensões, apenas escrevendo e tocando por diversão. Tudo isso está aqui, faltando apenas dois terços da banda Green Day.

The Longshot pode, talvez, ser considerado um projeto solo de Billie Joe. Não sabemos quando e se haverá algum segundo disco para essa banda, mas o que importa é o que estamos ouvindo aqui e hoje. E Love Is For Losers é um forte candidato a Melhor do Ano, exatamente por que foi feito sem essa pretensão.

Ao longo de sua carreira, o Green Day já lançou vários álbuns ótimos usando outros nomes – como Money Money 2020 como The Network e Stop Drop And Roll!!! como Foxboro Hottubs – talvez como uma forma de extravasar algo que não caberia direito no som da banda como um todo. E, sempre, após esses álbuns, o próximo do Green Day Oficial veio ótimo. Então nos resta apenas esperar ver o que Green Day nos aguarda, mas mesmo que a banda acabe lançando um disco horrível, ainda teremos a maravilha que é Love Is For Losers.

OUÇA: “The Last Time”, “Soul Surrender”, “Chasing A Ghost” e “Love Is For Losers”.