You Me at Six – VI


Crescer é inevitável, evoluir é opcional. Mas essa opção só está disponível para quem está disposto a perder alguns nostálgicos pelo caminho, como é o caso de You Me At Six. Em seu sexto álbum, intitulado VI,  a banda britânica, que nasceu em berço pop punk, um dos gêneros preferidos do emo anos 2000, dá o outro lado de sua face à tapa com novas sonoridades e influências, como elementos eletrônicos, letras mais despretensiosas e ritmos que conversam com o funk.

As músicas que mais se distanciam da tradicional sonoridade turbulenta do grupo são aquelas que evidenciam elementos indie e pop, como “Pray For Me” e “Losing You”. É aqui o lugar que os britânicos mais experimentaram: o sintetizador, que acompanha todas as faixas, aparece como personagem principal e a atmosfera etérea como coadjuvante. Não por acaso, as duas músicas foram feitas em parceria com o produtor Dan Austin, que também trabalha com Robert Plant, Queens Of The Stone Age e Placebo.

Para reafirmar a nova fase, a banda participou como co-produtora de todo o álbum e escolheu duas músicas de trabalho que singularizam a unidade de VI perfeitamente. Enquanto “3 AM” chega com seu pop sintético, “Back Again” traz uma linha de baixo envolvente e um videoclipe em homenagem ao filme The Big Lebowski. A dupla de singles é um veredito, um termo de responsabilidade, a prévia de uma discussão que o grupo não quer nem participar.

Destaque e boa surpresa do disco, “I O U” também aposta em um funk liderado pelo baixo, que conversa de forma energética com a guitarra, bateria e o vocal de Josh Franceschi. Aqui fica ainda mais óbvio o desvio e o insight que atingiram o grupo depois de seu último álbum, Night People, muito mais fiel às origens básicas do pop punk, e do rock numa visão mais ampla.

A mudança é drástica, mas os britânicos não perdem a alma, bem visto na faixa de abertura “Fast Foward”. Assim como já fez Paramore ou até Arctic Monkeys recentemente, o You Me At Six abandonou os anos 2000 definitivamente e perdeu o medo de soar como eles querem, do jeito que querem, com a produção que eles querem, com letras que não se preocupam com o que as pessoas querem.

Ao contrário do que muitos artistas tendem a fazer com o passar dos anos e mudanças de tendências — aqueles exageros em experimentações e arrependimentos em forma de álbum —, a banda inglesa sabe muito bem o que está fazendo. Por isso, a qualidade de VI é tão evidente, que muito provavelmente até os fãs mais conservadores gostaram desse novo, e inesperado, You Me At Six.

OUÇA: “3 AM”, “Back Again” e “Losing You”

Good Charlotte – Generation Rx


Dois anos após o lançamento de Youth Authority, a conhecida banda de pop punk Good Charlotte retorna com seu mais novo álbum Generation Rx, um trabalho em que a banda procura recuperar seu elo com a juventude e alertá-la quanto aos perigos atrelados ao abuso de opióides e medicamentos e a um estilo de vida destrutivo que é vendido como libertador e salvífico.

Generation Rx integra um intenso movimento na música contemporânea dedicado a denunciar o lado mais perverso da epidemia do uso de opióides e medicamentos controlados (sem descartar outras drogas) pela juventude nos dias de hoje. Ao tratar deste assunto, o álbum se coloca ao lado de importantes trabalhos como o KOD (2018) do rapper J. Cole, que também denuncia o abuso de opióides por parte dos jovens e adolescentes norte-americanos. Além disso, Generation Rx é lançado em um contexto em que artistas famosos como Lil Peep e Mac Miller, em um intervalo de menos de um ano, morreram de overdose e em que estrelas como Demi Lovato passaram a falar abertamente sobre seu vício em drogas.

Contudo, embora trate de assuntos de grande importância, a sonoridade do álbum parece perdida no abismo existente entre o pop punk dos anos 2000 que consagrou a banda e as tendências atuais no cenário do pop e do pop rock norte-americanos. Em muitos momentos, sobretudo em faixas como “Generation Rx”, “Self Help” e “Actual Pain”, é possível identificar uma tentativa da banda de mesclar sua sonoridade antiga popularizada nos álbuns The Young And The Hopeless (2002) e The Chronicles Of Life And Death (2004), recheada de overdrives, harmonias e temas mais sombrios e gritos ocasionais, com um tipo de sonoridade mais contemporânea que lembra em diversos momentos a sonoridade vista em One More Light, último álbum do Linkin Park, que se apoia grandemente em elementos eletrônicos.

Ocasionalmente, o álbum foge desse tipo de sonoridade, como em “California (The Way I Say I Love You)”, uma faixa mais melódica que poderia ser considerada a única “balada” do álbum, embora não seja incomum na discografia da banda colocar faixas desse tipo em seus álbuns. Contudo, ainda assim é uma sonoridade pouco convincente que não capta a atenção do ouvinte e mostra de forma ainda mais clara a dificuldade da banda em se adaptar aos tempos atuais.

Assim, Generation Rx, embora represente uma tentativa da banda Good Charlotte em se adaptar aos tempos atuais e a tocar em assuntos muito importantes e vitais para a nova geração, é um trabalho pouco convincente que peca por não conseguir desenvolver uma sonoridade atraente e falha em sua principal motivação, que é tentar estabelecer de forma profunda um elo com esta nova geração.

OUÇA: “Leech”, “Better Demons” e “Generation Rx”.

Mayday Parade – Sunnyland


É sempre bastante interessante escrever sobre pop-punk. Na maioria das vezes, as bandas entregam trabalhos muito semelhantes, desde a simples harmonia instrumental até o tema das músicas: deixar a cidade natal, desilusões adolescentes e amizades tóxicas são os pilares líricos sobre os quais o gênero se estrutura – o que não é sinônimo de pouca qualidade, vide bandas como Neck Deep e State Champs. Aliás, curioso notar a confusão que parte do senso comum cria em torno desse conceito, confundindo-o com outro que pouca coisa tem de parecido: o emocore. Bandas como Yellowcard, Paramore, My Chemical Romance e Panic! At the Disco não são bandas emo, mas aproximam-se muito mais do pop-punk (para bandas inscritas no emocore, procure por Cap’n Jazz, Brand New, Fresno e Rites of Spring).

Mayday Parade, por sua vez, iniciou sua trajetória na música vendendo EPs no estacionamento da Warped Tour, um festival de música centrado em subgêneros derivados do hardcore. Esse ano, a última e maior edição do evento, a banda tem vaga garantida e, dessa vez, no palco principal. Seu último disco, que marca a transição do selo Fearless para a Rise Records, merece sua atenção. Ao contrário de álbuns predecessores que não passam de clichês – trabalhos genéricos concentrando tudo o que há de mais recorrente no gênero – como Anywhere But Here e Monsters In The Closet, Sunnyland aparece como uma obra concisa, retomando referências dos clássicos A Lesson In Romantics e Mayday Parade – assinaturas da banda.

Quebrando o ciclo de entregar bons álbuns intercalados com álbuns descartáveis, Mayday faz com que nos sintamos escutando ao seu primeiro trabalho. De fato, não me surpreenderia se o primeiro vocalista, Jason Lancaster, aparecesse em um verso. Ainda assim, é importante ressaltar que Sunnyland não é simplesmente uma releitura de seu disco de estreia, mas tem identidade própria, quase experimental. “Piece Of Your Heart”, por exemplo, não é apenas uma das melhores faixas do álbum, mas de toda a discografia da banda. “Is Nowhere”, por sua vez, mostra toda a competência do vocalista Derek Sanders. Por fim, a faixa “Sunnyland” fecha o álbum como uma contemplativa balada acústica – aspecto que a banda explorou dessa vez como nunca antes, vide “Take My Breath Away”, “Where You Are” e “Always Leaving”.

De todo modo, é difícil fazer música atualmente. Mais difícil ainda se você fizer parte de uma banda de pop-punk ou qualquer outro gênero derivado do hardcore. Aqueles que escutavam Brand New ou La Dispute há dez anos, provavelmente escutam Kendrick Lamar e Frank Ocean atualmente. Isso se deve há milhares de fatores. Entre eles, o fato de que bandas como Counterparts ou Touché Amoré ainda fazem o mesmo tipo de som – maravilhoso, verdade seja dita -, ao passo que o apelo de gêneros como rap e indie são muito maiores. O pop-punk e seus primos tornaram-se subgêneros de nicho. Se você frequenta shows dessas bandas, sabe que encontra sempre as mesmas pessoas. Diante desse contexto, Mayday Parade teve de resgatar aquilo que faz com que sejam bons ao passo que arriscam-se como músicos para criar novas composições em um esforço para consolidar sua identidade. Se conseguiram ou não, é outra história e outro texto. Fato é que os meninos da Flórida sabem o que estão fazendo. Coloque seu all star e aproveite.

OUÇA: “Piece Of Your Heart”, “Is Nowhere” e “Sunnyland”

The Longshot – Love Is For Losers


The Longshot é uma banda semi-misteriosa, começamos daí. Trata-se do projeto novo solo (?) do vocalista do Green Day, Billie Joe Armstrong. A banda surgiu sem grandes avisos de uma hora pra outra com um EP de três músicas e, apenas uma semana depois, lançou seu primeiro álbum completo, Love Is For Losers.

O álbum é um exemplo primordial de o que Billie Joe sempre soube fazer com maestria: um pop punk cheio de riffs, refrões e letras grudentas. Na real, as músicas de Love Is For Losers se mostram muito melhores e mais interessantes do que o último álbum de sua banda principal.

Talvez tenha a ver com o fato de que desde o American Idiot em 2004, as pessoas esperam que trabalhos novos do Green Day acabem indo pra um lado mais político e que envolvam críticas sociais e ao governo, mesmo que subentendidas. E, de uma certa forma, foi isso o que o Green Day fez nos últimos dez anos ou mais – mesmo a trilogia ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré! de 2012, que mostravam as mais diversas influências que o Green Day pode ter, ainda acabam com o mesmo cunho político. Mas, seguindo a trajetória não-tão-impressionante-assim do Green Day nos últimos anos, por que lançar essas músicas como uma banda separada?

E é aí que chegamos: a política em Love Is For Losers é zero, praticamente. Tratam-se apenas de músicas boas compostas por um dos melhores compositores de pop punk de todos os tempos. Com zero pretensão, com zero pessoas olhando atenciosamente e criticando qualquer riff falho. Love Is For Losers é uma catarse, é Billie Joe escrevendo e cantando as músicas que quiser sem medo de que seja um álbum muito criticado quando levada em conta a reputação de sua banda principal.

Mas, mesmo que Love Is For Losers tivesse sido lançado como um álbum do Green Day, ele seria o melhor álbum do Green Day em anos. Todos os elementos estão aqui, um Green Day das antigas sem preocupações e sem pretensões, apenas escrevendo e tocando por diversão. Tudo isso está aqui, faltando apenas dois terços da banda Green Day.

The Longshot pode, talvez, ser considerado um projeto solo de Billie Joe. Não sabemos quando e se haverá algum segundo disco para essa banda, mas o que importa é o que estamos ouvindo aqui e hoje. E Love Is For Losers é um forte candidato a Melhor do Ano, exatamente por que foi feito sem essa pretensão.

Ao longo de sua carreira, o Green Day já lançou vários álbuns ótimos usando outros nomes – como Money Money 2020 como The Network e Stop Drop And Roll!!! como Foxboro Hottubs – talvez como uma forma de extravasar algo que não caberia direito no som da banda como um todo. E, sempre, após esses álbuns, o próximo do Green Day Oficial veio ótimo. Então nos resta apenas esperar ver o que Green Day nos aguarda, mas mesmo que a banda acabe lançando um disco horrível, ainda teremos a maravilha que é Love Is For Losers.

OUÇA: “The Last Time”, “Soul Surrender”, “Chasing A Ghost” e “Love Is For Losers”.

The Wonder Years – Sister Cities


Uma banda ou artista cativar um público jovem é sempre uma faca de dois gumes. De um lado, você consegue um público fiel e fervoroso que vai engolir cada resquício de juventude que você lançar, mas de outro, se você se distancia da sonoridade imatura que chama a atenção desse público, eles se viram contra esse progresso. Talvez o mais difícil de tudo seja manter um equilíbrio entre esses dois mundos, e aqui o The Wonder Years cumpre essa missão com maestria.

Previamente sendo uma banda basicamente de pop punk, The Wonder Years sempre se destacou de seus companheiros de cena pela criatividade de seus álbuns, e eles estariam muito bem se continuassem nesse caminho. Mas desde o álbum anterior, No Closer To Heaven, a banda vem se aventurando com mais elementos de gêneros como Emo e Rock Alternativo pra compor a imagem de uma banda mais madura, que foca em temas mais melancólicos e sérios.

Mas se o grupo flertou com essa onda alternativa antes, aqui eles mergulham de vez nessa ideia, e isso é aparente desde a primeira música (“Raining In Kyoto”), misturando uma entrega emocional forte dos vocais e uma cascata de guitarras que injetam adrenalina nos moldes sonoros já deixados pela banda nos trabalhos anteriores. Tal visceralidade é um dos pontos que vendem a ideia do álbum, mas talvez a mudança mais interessante seja a presença de sintetizadores em músicas como “Pyramids Of Salt” e “We Look Like Lightning”, que contribuem pra aumentar o suspense e a profundidade sonora do álbum.

Sister Cities é o ponto de virada definitivo da banda para uma mudança total de gênero. Se os temas e instrumentais amadureciam a cada álbum que saia, esse é o ápice da discografia do grupo. Com letras fortes e significativas e melodias pegajosas e bem trabalhadas, é difícil não reconhecer a genialidade do grupo. Mas talvez seja mais difícil ainda reclamar do álbum só por não ser mais pop punk, já que esse álbum pode apelar até pra o público desse gênero, e é assim que o The Wonder Years consegue tal equilíbrio de manter seu público antigo e evoluir. E, honestamente, quem reclama está maluco.

OUÇA: “Raining In Kyoto”, “Sister Cities”, “The Ghosts Of Right Now” e “The Orange Grove”

Tiny Moving Parts – Swell


A probabilidade é uma ciência cruel. Estatisticamente, quanto mais estendido é um processo, maior é a chance de algo nele não sair como o planejado. Do mesmo jeito, não é raro (ou injustificado) o receio que uma parte dos fãs de um artista pode sentir quando esse artista passa a lançar muitos trabalhos num curto período de tempo. Logicamente, todos podem ser excelentes e manter a qualidade que os fãs esperam, mas a cada novo lançamento aumenta a possibilidade de que o próximo não seja tão bom quanto o desejado. Com frequência, também, essa onda de lançamentos em rápida sucessão dá a impressão que o processo criativo do álbum é corrido, pouco planejado, superficial.  São essas, a princípio, as sensações mais presentes depois de ouvir Swell, sexto disco de estúdio do trio americano de math/emo/pop punk Tiny Moving Parts.

Lançado dois anos depois do último disco da banda, Celebrate, e sendo o quarto lançamento do trio nos últimos cinco anos, Swell apresenta em pouco mais de trinta minutos de audição a estrutura básica que notabilizou o Tiny Moving Parts dentro da (agora não tão) recente onda de ressurgimento do emo e do pop punk: instrumentais técnicos, letras diretas, o vocalista Dylan Mattheisen com sua característica performance emotiva com os vocais rasgados e os gritos vulneráveis, só que apresenta tudo isso carente de dois elementos essenciais: criatividade e sentimento.

De primeira, a impressão que a banda passa é a de estar cansada. Possivelmente um problema, em parte, da mixagem, as músicas soam todas baixas, abafadas, e o próprio vocal de Dylan parece extenuado, os gritos são menos intensos e ele aparenta não alcançar as notas que alcançava em outros discos. Soma-se a isso o fato de que a maioria das músicas mostra muito pouca imaginação da banda em fugir dos atributos comuns do seu estilo de composição, ao ponto em que é difícil de diferenciar qual é qual. Até um elemento estilístico, como os trechos em que a melodia é reduzido a apenas um instrumento (geralmente a guitarra ou a bateria) mais baixo até que o vocal de Dylan surge num grito trazendo consigo o resto dos instrumentos, é repetido em todas as músicas. Liricamente, a banda também soa pouco inspirada, com letras que soam lugar-comum e até piegas, chegando a fazer duvidar que o autor delas é o mesmo artista que escreveu “Grayscale”, “Vacation Bible School”, “Dakota” e “Common Cold”. Longe de entregar o sentimento ou a variedade dos outros discos, Swell é uma obra pragmática, e não no bom sentido, como uma tarefa cumprida por ser obrigação mas pela qual não se tem prazer. Inércia pura. Uma segunda-feira de manhã.

O que talvez piora a situação de Swell é que, diante de uma fundação dessas, os poucos elementos diferentes, como corais e instrumentos de sopro, apresentados pela banda fazem pouco para melhorar o disco. A adição de vocais femininos, em dueto com Dylan principalmente nos refrões, parece fora de lugar, e também é repetida sempre dentro da mesma estrutura, ao ponto que quando aparece em “It’s Too Cold Tonight”, é outra coisa que soa cansativa, até previsível. Com essas dificuldades, o que garante algum destaque positivo no disco fica sendo a já referida qualidade técnica dos três membros, especialmente nas penúltima e antepenúltima faixas, “Malfunction” e “Wishbone”, provavelmente as melhores do disco, com a influência de math e as quebras de ritmo que fogem um pouco à estrutura formulaíca do resto das músicas.

Quando um dos pontos positivos do disco é ele ser curto (31 min), é evidente que a obra em si deixou a desejar. Também é claro que não é a incompetência dos membros da banda, dada a qualidade que os outros álbuns apresentaram no passado, mas a falta de força e interesse de Swell faz parecer um sinal de que a banda precise dar um tempo nas gravações e se concentrar em outras coisas no momento, como excursionar, talvez até buscar novas influências. Com mais tempo e um processo criativo mais cuidadoso, lapidado, as chances é de que um novo trabalho deva ter um resultado melhor. Pelo menos é isso que as probabilidades indicam.

OUÇA: “Malfunction” e “Wishbone”

Fall Out Boy – M A N I A


Nos dias de hoje o pop punk se resume a um grupo relativamente pequeno, um tanto diferente de quando estourou nos anos 2000. As bandas da época que ainda prevalecem tiveram que encontrar uma forma de se reinventar, porque, infelizmente, continuar no sofrimento do punk moderno se tornou extremamente datado e hoje em dia não faz tanto sentido quanto fazia na época. Esse foi o caso de uma das bandas que ajudou a solidificar o gênero vive uma transformação constante desde o seu retorno após um hiato de 5 anos, sempre buscando a experimentação de outros gêneros tentando se encontrar (ou não). M A N I A seu mais novo lançamento não fica fora dessa e afunda o pé no EDM. Sério.

M A N I A já se mostra complicado antes mesmo do lançamento, que era previsto para setembro do ano passado, porém os próprios membros não estavam satisfeitos com o resultado, então foi necessário um pouco mais de tempo para finalizar a produção e ter um resultado que agradasse a todos. Mas a verdade é que nem mesmo os meses a mais conseguiram esconder a dificuldade que a banda ainda possui para se encontrar: Suas letras continuam falando sobre a dificuldade de se encaixar, crescer, o ambiente familiar, mas a sonoridade mostra uma tentativa falha de misturar o som raiz do Fall Out Boy com um extremamente contemporâneo resulta um clima bastante instável.
É quase como se a banda tentasse seguir o caminho radiofônico do Maroon 5, e nesse quesito eles acertam, com singles como “Hold Me Tight Or Don’t” e “Champions”, mas com certeza afasta os fãs de longa data com batidas eletrônicas e muito pop.

No entanto a segunda parte do álbum é bastante tranquila e você pode respirar mais aliviado depois de ouvir tanta batida eletrônica e efeitos de sintetizadores, e para mim é onde o trunfo do cd se encontra: Wilson (Expensive Mistakes). Uma das músicas que fazem você se lembrar que, em algum lugar debaixo de todos esses efeitos e essa tentativa louca de se encaixar numa sonoridade atual, o Fall Out Boy que ajudou a construir aquele gênero dos anos 2000 ainda está ali, com uma das melhores frases do disco inteiro: I’ll stop wearing black when they make a darker color.

No fim das contas, M A N I A é mais uma das tentativas do Fall Out Boy de tentar se manter relevante num cenário musical em que eles não sabem muito bem aonde se encaixar. Repleto de riscos e buscando de todas as formas não viver do passado.

OUÇA: “Wilson (Expensive Mistakes)”, “Church”, “Champions” e “Hold Me Tight Or Don’t”

Anti-Flag – American Fall


A nova era do terror americana é um prato cheio para o Anti-Flag, uma banda que está na ativa desde o século passado, quando nossas preocupações pareciam ser outras. Duas décadas depois, o punk volta a dar as suas caras, sem saber direito onde pode se encaixar no intenso fluxo de informação que a Geração Z consome.

Armados de hinos e um toque pop que sempre conseguiu deixá-los nas paradas, o Anti-Flag sempre deixou clara suas posições, ainda que, neste álbum, não tenha feito nenhuma referência direta ou nominal ao presidente Donald Trump.

American Fall fala sobre os mesmos assuntos que a banda tratou há 20 anos atrás e provavelmente vai falar daqui há mais 20 anos (se continuarem na ativa). A diferença, neste momento em específico, é a publicidade do inimigo. Os atos, motivos e desenrolamentos nunca foram tão descaradamente explícitos e boa parte da responsabilidade disso é o acesso a informação que, aos poucos, se torna mais democratizado. A informação existe, mas continua oculta em um labirinto nebuloso e cheio de armadilhas que se tornou nosso sistema atual.

Em “American Attraction”, a banda consegue pontuar de maneira exata a quase hipnótica distração maneira com que as pessoas são submetidas. A faixa consegue explicar a injeção anestésica da mídia até mesmo na maneira letárgica com que o vocalista Justin canta os versos que falar do famoso “pão e circo”. Uma canção pouco esperançosa e incômoda, ainda que pareça calculadamente “cool” e “pop” em seu instrumental.

Em sequência, o Anti-Flag volta à sua programação normal, logo na segunda música do CD, que nos traz de volta para um refrão poderoso: “These are the days that test your heart and soul, strap yourself in for the American Fall”.

Um dos destaques do álbum é a o instrumental ska de “When The Wall Falls”, uma música que tem todas características dos maiores hinos do Anti-Flag. Um grande refrão, que pega na primeira vez que você escuta a música, um baixo marcante, um bom solo de teclado e a maneira confortável e familiar com que a banda fala de política. Diferente dos álbuns anteriores, o Anti-Flag voltou a deixar o punk-pop envolvê-los. Isso não deixa o álbum menos político ou menos bem pensado. O toque de Benji Madden na produção do disco foi fundamental para alcançar esse tom, uma sonoridade que pode aproximá-los dos mais jovens.

Em “Liar”, consegue trazer de volta o sentimento de ouvir Anti-Flag pela primeira vez, no auge de “Turncoat” e “911 for Peace”. Muito similar a essa era, a banda pode até se repetir e ser clichê. No entanto, o que mais pedi nesses anos foi a volta dessa sensação, um gole a mais daquela sonoridade tão vibrante.

Os ideias de liberdade e democracia que nos cercam, ainda estão imersos em uma sociedade que pouco fala sobre intolerância, preconceito e desrespeito. Mesmo que muitas dessas discussões tenham ganhado o holofote, poucas mídias conseguem mostrar esses discursos sem o uso da demagogia.

O Anti-Flag ainda incomoda, não por fazer o diferente. Ainda que seja mais do mesmo, nossa sociedade continua os as mesmas doenças diagnosticadas há 20 anos atrás e, seu discurso, mesmo que repetido, é extremamente necessário.

OUÇA: “Racists”, “When The Wall Falls”, “Liar”, “Throw It Away”.

The Rasmus – Dark Matters


Cada cultura lida de modo particular com o desconhecido, com a morte e com sentimentos negativos. Seja pela sutileza dos tons claros japoneses ou na abundância de cores fortes presente no Dia dos Mortos, há sempre a assinatura daquilo que é possível e desejável em cada lugar. A música, como catalisador cultural que é, materializa essas manifestações. Aqui, para nós interessa a região da Escandinávia, berço de bandas famosas pela abordagem de temas obscuros – quem aí se lembra das igrejas queimadas e o império do black metal no início da década de 90? É nessa região, mais especificamente na Finlândia onde surgiu o The Rasmus – que está bem longe da pungência do black metal, mas que ilustra bem o sentimento de naturalidade de um povo em relação ao mais sombrio do existencial produzido pela humanidade.

O grupo foi apresentado ao mundo por meio do single “In the Shadows”, no começo dos anos 2000 e desde então, embora em menor escala, tem produzido uma série de canções que combinam a típica melancolia dos países do norte europeu com uma roupagem sob medida para as rádios – fórmula essa bem usada por bandas como HIM, Cinema Bizarre e umas tantas outras. Embora a Finlândia e outros países do território sejam extremamente amigáveis ao som doce/dark que bandas como essa bandas produzem, abocanhar um quinhão cada vez maior de mundo ainda é objetivo.

Para o Rasmus isso continua possível, principalmente agora com o lançamento de Dark Matters (2017), disco que não leva a banda a um novo patamar, mas que também não representa de forma alguma um declínio. As canções do novo trabalho se assemelham bastante aos discos anteriores, especialmente o Dead Letters (2003), ou seja, embalagens adocicadas para temas nem tão palatáveis assim. A receita para a manutenção de um público bastante ativo, principalmente no norte europeu onde, como já dito, essa abordagem da música pop é vista com bastante naturalidade.

Para tal missão a banda conta agora com canções como “Something In The Dark” e “Nothing”, destaques absolutos do disco, sendo a primeira destas um passeio homeopático por “A Forest” do Cure, inofensiva, mas eficaz. Já Nothing representa bastante boa parte da produção de Dark Matters, o pop P&B da banda aliado a doses moderadas de badulaques eletrônicos – moderação que caminha bem até “Black Days”, onde infelizmente a produção peca pela mescla de gêneros que não rende nada além de uma música extremamente previsível e entediante. Pena.

Dark Matters, não será o disco do ano, certamente, mas em algum lugar exatamente agora há um adolescente significando uma parte de sua vida pelas linhas do álbum, é por isso que bandas como o Rasmus existem. Ainda bem.

OUÇA: “Something In The Dark”, “Nothing”, “Crystalline” e “Delirium”.

Enter Shikari – The Spark


Quem conheceu o Enter Shikari como uma das bandas mais expressivas da mistura entre post-hardcore e música eletrônica, talvez não reconheça a nova roupagem que o grupo trás em The Spark. Os vocais guturais e gritos rasgados, característicos dos álbuns anteriores do Enter Shikari, deram espaço a uma voz jovial e pop punk que não era tão conhecida assim pelos fãs.

Claro, o pop punk não era uma novidade para os fãs de post-hardcore lá em 2005, afinal, o Enter Shikari surgiu quando muitos estilos musicais derivados do emo dos anos 90 estavam em alta.  O curioso foi o retroceder que a banda fez: a escolha de ir por um caminho alternativo depois de uma década de carreira.

As influências do Enter Shikari sempre flertaram com o punk pop, mas nunca foram tão concretizadas quanto neste álbum. Nos seus trabalhos anteriores, a banda apostou muito mais no hip-hop e no hardcore, em uma mistura ao nu metal, o que destoa totalmente das faixas hiperativas do The Spark.

Os sintetizadores pesados e distorcidos deram lugar a melodias cruas e grudentas no teclado. “The Sights” pontua um ritmo parecido ao de bandas indie como o Bloc Party, mas explode como um hino do Taking Back Sunday em seu refrão.

O Enter Shikari repete alguns clichês conhecidos do público em seu novo álbum, algo um tanto inevitável no gênero. Ao invés de ousar de forma mais arriscada, a banda permaneceu em lugares comuns que, ainda que sejam repetições, não soam totalmente mal ao ouvido.

As letras por vezes são focadas em problemas gerais da atualidade, assuntos relevantes e necessários. A nova roupagem do Enter Shikari pode vai novos fãs e, com letras simples e didáticas, pode despertar o questionamento necessário em uma geração frenética por mudança.

Alguns momentos de lucidez, como em “An Ode to Lost Jigsaw Pieces” e “Rabble Rouser”, mostram que a banda não foi somente pelo caminho que parecia mais lucrativo. O Enter Shikari pode não ser o mesmo, mas o que mais se destaca neste disco é a paixão em que a banda coloca seus pulmões para fora.

Talvez o grupo tenha se cansado dos clichês de si mesmo e tenha fugido das glórias que os fizeram conhecidos. Em nesse novo caminho, o Enter Shikari consegue ficar acima da média das bandas novas que tentam emular o sucesso do pop punk em 2005.

The Spark é agradável, dançante: contagia. Como a banda define, é uma luz no fim do túnel.

OUÇA: “The Sights”, “Take My Country Back”, “Rabble Rouser”