Sum 41 – Order In Decline



Banda surgida no final dos anos 1990 no esteio da explosão pop punk que popularizou Green Day, Blink 182, Bad Religion, Offspring e Rancid, o Sum 41 de 2019 é bem mais hard rock do que punk. As guitarras deste novo álbum Order In Decline estão bem mais carregadas e as letras menos trabalhadas.

Order In Decline é um álbum bem fácil de agradar na primeira ouvida. Quem gosta de músicas cheias de adrenalina e que remetem a Avenged Sevenfold, Slipknot e Three Days Grace, vai encontrar o trabalho perfeito. 

No entanto, vão se decepcionar aqueles que buscam no álbum o espírito pop punk de 1994, com letras que instam a rebelião, evocam o tédio e a desobediência a autoridades em qualquer instância, dos pais ao governo. 

O momento mais político do álbum é em “45 (A Matter Of Time)”, que fala do 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Embora a letra não fuja muito do espectro simplista da média das músicas do álbum, a composição traz uma ideia interessante de lidar com a dualidade de temer o governo Trump ao mesmo tempo que o classifica como apenas um número.

Já a canção que mais destoa do hard rock predominante no álbum é “Never There”, que também é uma canção fácil de gostar de primeira. O ritmo e a letra melancólica são envolventes e apesar de destoar do ritmo do resto do álbum, casa muito bem no conjunto da obra. 

A composição da letra de “Never There” é representativa de o quanto o processo de pensar as letras foi negligenciado neste álbum. Tome-se esse trecho como exemplo:

I know that if the, the chance appears

Well I’d have no fears

We both share pain

We feel the same

Esses dois trechos da música “Out For Blood” também reforçam que não houve cuidado na elaboração das letras:

So tell me what’s real

I don’t know if I can feel

Tell me what’s right

I don’t see the light

Apesar do pouco esmero nas letras, a volta de Sum 41 é uma boa notícia porque o instrumental é usado de uma maneira excelente e o ritmo das cações tem a qualidade de agradar rápido como poucos álbuns dos anos 2000 para cá conseguem.

O Sum 41 fez uma aposta ao se distanciar do movimento pop punk pelo qual conseguiu surfar e alcançar notoriedade. Essa aposta trouxe mais resultados positivos do que negativos, pois não há nenhum problema em investir na agradabilidade instrumental e utilizar letras fáceis. Não só de composição cabeçuda vive a música.

OUÇA: “The People Vs…”, “Out For Blood”, “Never There”, “45 (A Matter of Time)”

Alex Lahey – The Best Of Luck Club



A Alex Lahey é uma filha da Internet, mas que ganhou elevada notoriedade em seu país – a Austrália – com a ajuda de mídias bem mais tradicionais: ela ganhou dois concursos, ambos em 2016; o primeiro de uma associação para artistas sem contrato e que foi responsável por alavancar a sua carreira com uma gravadora; e o outro, da maior rádio local, a Triple J, que a levou direto para um dos maiores festivais de lá, o grandioso Splendour in the Grass.

Em The Best Of Luck Club, seu segundo álbum, Alex Lahey repete essa fórmula que conquistou toda essa gente lá em 2016 e no seu primeiro disco de 2017. Repete, mas com algumas ressalvas que fazem que esse novo registro não carregue todo seu talento, toda sua glória e toda sua sonoridade, fazendo com que ele seja quase homeopático nessas qualidades.

Apesar de estar dentro de seu lugar seguro, Lahey parece dosar de forma estranha o seu som e quase nenhuma música lembra muito fortemente o que ela fez com intensa maestria no primeiro disco. “Don’t Be So Hard On Yourself”, “Misery Guts” e “Isabella” talvez sejam as únicas faixas que a gente consiga relacionar diretamente com o I Love You Like A Brother em suas guitarras rápidas, sua cantoria eufórica e as letras irônicas, bem feitas e inteligentes.

Apesar de ainda mostrar uma inteligência incrível para compor, ela deixa de lado em muitos momentos as suas viradas harmônicas rápidas e a sua voz quase gritada, que completariam o pacote que ela entrega com louvor desde o começo de sua carreira. Alex se arrisca em melodias mais lentas e BPMs menos energéticos, como estávamos acostumados. E é um pouco estranho ver uma moça com tanta presença se apagar tanto assim.

Paralelamente, é possível traçar um panorama e várias semelhanças entre Alex Lahey e sua conterrânea, a Courtney Barnett. Alex parece seguir muito de perto os passos da outra moça, que também é LGBT, também vem de Melbourne, também tem uma habilidade impressionante com a guitarra, também tem um poder de letrista excelente; ou seja, as duas tem um pacote de habilidades e qualidades muito idêntico e um começo de carreira bem parecido.

Barnett, assim como Lahey, se manteve em seu lugar seguro no seu segundo álbum e aqui aparece mais uma semelhança: o lugar comum acabou enfraquecendo e as doses mudadas ficaram sem uma certa qualidade e categoria que era esperada da musicista. A energia abaixou, a poeira baixou e o furor do debut bem colocado acabaram se perdendo um pouco.

E tudo bem isso tudo. The Best Of Luck Club não é um álbum ruim, é apenas um disco que tem músicas que mostram que Alex Lahey tem ainda seu talento ali e outras músicas que parecem um deslize rápido que não deve ser repetido. No fim das contas, temos um álbum com músicas memoráveis, mas que não se vê como completo como obra composta.

OUÇA: “Don’t Be So Hard On Yourself” e “Isabella”

CHAI – Punk



Punk é o segundo álbum completo da banda japonesa CHAI, seguindo seu debut Pink em 2017. Apenas o fato de que seu debut se chama Pink e o segundo álbum, Punk, já dá pra ter uma ideia que o senso de humor é algo bastante importante para as moças de Nagoya. O quarteto faz uma mistura interessante e inusitada de pop punk com elementos dance, eletrônicos e de girl band anos 60.

As moças do CHAI têm como propósito redefinir o que é ser ‘kawaii’ em japonês, ou seja, o que significa ser ‘cute’ em inglês; ou ‘bonitinho’/’fofo’ em português. Elas fazem isso com uma mensagem bastante simples e inclusiva de que todos podem ser kawaii, cada pessoa de sua forma, mesmo quando isso vai contra os padrões de beleza (principalmente) japoneses. Algo bastante simples mesmo e universal, mas não pouco importante e bastante feminista.

O som e mensagem das moças já atraiu atenção desde seus primeiros lançamentos, os EPs Hottakara Series e Homegoro Series, principalmente na Europa. Seu single “Gyaranboo” se encontrou no Top 50 das músicas mais ouvidas no Spotify no Reino Unido sem nenhum esforço por parte da banda. Talvez por esse motivo elas tenham sido convidadas pelos queridinhos do hype Superorganism para ser sua banda de abertura.

O CHAI realmente faz uma música bastante diferente, até mesmo para os padrões da música japonesa atual, o que as torna bem interessantes. Elas definem seu som como influenciado por Cansei de Ser Sexy, Gorillaz e Jamiroquai, assim como Chvrches e Justice. Punk traz todas essas influências e também adiciona elementos mais tradicionais pop punk resultando em um álbum divertidíssimo do começo ao fim.

Diversão, mas com um propósito, parece ser o objetivo final das moças do CHAI o tempo todo e isso é bastante perceptível. As letras oscilam o tempo todo entre o japonês e o inglês, e o sotaque da vocalista principal Mana é tão carregado que nem sempre é possível distinguir entre os dois idiomas. E isso, nem de longe, é um problema ao longo da audição do disco.

Sempre houveram alguns nomes orientais que conseguiram se manter no mundo musical ocidental, como o X-Japan e o Shonen Knife, e agora com a explosão de k-pop acontecendo no mundo pop, o preconceito ocidental com músicas e línguas orientais parece estar um pouco mais leve. E isso é tudo o que as meninas do CHAI precisam para poderem se firmar como um nome relevante dentro da esfera alternativa. Talento e qualidade musical para isso elas já mostraram que têm.

OUÇA: “Choose Go!”, “Fashionista”, “I’m Me”, “Feel The Beat” e “This Is Chai”

The Maine – You Are OK



Ano sim, ano não, o The Maine aposta em novos projetos. São um total de sete álbuns em onze anos. Produtividade. Em março, a banda lançou You Are OK, sucessor de Lovely Little Lonely, de 2017.

São dez faixas que evidenciam uma produção mais apurada e um amadurecimento do conjunto. O The Maine aparenta ter entendido o lance de “temos que crescer”, sem perder as raízes e a independência. Antes do lançamento do álbum, três faixas já haviam sido divulgadas anteriormente,”Numb Without You”, “My Best Habit” e “Broken Parts”.

Em junho de 2019, o The Maine virá ao Brasil para uma série de shows em quatro cidades.  Em um post no Instagram, John O’Callaghan, vocalista da banda, afirmou que o lançamento do álbum é muito importante para  a banda e que, desta vez, eles estão apresentado um trabalho de forma mais ambiciosa.

“Slip The Noose”, primeira faixa do álbum, é deliciosamente nostálgica ao soar como o  My Chemical Romance. Não se trata de uma cópia, mas uma bela lembrança, uma influência. O instrumental da música é poderoso e diferente, demonstrando ao ouvinte que algo único está por vir.

“My Best Habit” e “Numb Without You” são as próximas canções de You Are OK e já haviam sido lançadas anteriormente. A primeira é rápida – talvez a velocidade seja um dos pontos geradores do álbum – e possui uma base de batida eletrônica; a segunda rememora a questão da rapidez, mas com um refrão cantado de maneira mais lenta. O’Callaghan, nesta composição, deixa claro como a paixão tomou conta de seu corpo e alma violentamente. As batidas refletem essa violência.

“I Feel It All Over” sugere aquilo que estamos acostumados a escutar nas produções sonoras dos garotos do Arizona. O contraponto do álbum fica nos ombros de “Forevermore”, faixa acústica e sólida, em que os vocais de O’Callaghan reinam supremos e convictos. Boa jogada. “Tears Won’t Cry (Shinju)” e “One Sunset” reforçam uma das características mais marcantes do projeto: baterias definidas e rápidas.

“Flowers On the Grave” encerra o álbum vagarosamente. São nove minutos que poderiam muito bem serem resolvidos em, no máximo, cinco. Não é um grande erro, mas faltou coesão.

You Are OK é urbano, sagaz e rápido. Um instrumental bem resolvido que ascende com a potência vocal de John. É, de fato, um álbum que aposta no amadurecimento e na exposição de sua força. Com o perdão da piada, eu tô mais que ok com este novo álbum.

OUÇA: “Slip The Noose”,“Numb Without You”, “Forevermore” e “Tears Won’t Cry (Shinju)”

You Me at Six – VI


Crescer é inevitável, evoluir é opcional. Mas essa opção só está disponível para quem está disposto a perder alguns nostálgicos pelo caminho, como é o caso de You Me At Six. Em seu sexto álbum, intitulado VI,  a banda britânica, que nasceu em berço pop punk, um dos gêneros preferidos do emo anos 2000, dá o outro lado de sua face à tapa com novas sonoridades e influências, como elementos eletrônicos, letras mais despretensiosas e ritmos que conversam com o funk.

As músicas que mais se distanciam da tradicional sonoridade turbulenta do grupo são aquelas que evidenciam elementos indie e pop, como “Pray For Me” e “Losing You”. É aqui o lugar que os britânicos mais experimentaram: o sintetizador, que acompanha todas as faixas, aparece como personagem principal e a atmosfera etérea como coadjuvante. Não por acaso, as duas músicas foram feitas em parceria com o produtor Dan Austin, que também trabalha com Robert Plant, Queens Of The Stone Age e Placebo.

Para reafirmar a nova fase, a banda participou como co-produtora de todo o álbum e escolheu duas músicas de trabalho que singularizam a unidade de VI perfeitamente. Enquanto “3 AM” chega com seu pop sintético, “Back Again” traz uma linha de baixo envolvente e um videoclipe em homenagem ao filme The Big Lebowski. A dupla de singles é um veredito, um termo de responsabilidade, a prévia de uma discussão que o grupo não quer nem participar.

Destaque e boa surpresa do disco, “I O U” também aposta em um funk liderado pelo baixo, que conversa de forma energética com a guitarra, bateria e o vocal de Josh Franceschi. Aqui fica ainda mais óbvio o desvio e o insight que atingiram o grupo depois de seu último álbum, Night People, muito mais fiel às origens básicas do pop punk, e do rock numa visão mais ampla.

A mudança é drástica, mas os britânicos não perdem a alma, bem visto na faixa de abertura “Fast Foward”. Assim como já fez Paramore ou até Arctic Monkeys recentemente, o You Me At Six abandonou os anos 2000 definitivamente e perdeu o medo de soar como eles querem, do jeito que querem, com a produção que eles querem, com letras que não se preocupam com o que as pessoas querem.

Ao contrário do que muitos artistas tendem a fazer com o passar dos anos e mudanças de tendências — aqueles exageros em experimentações e arrependimentos em forma de álbum —, a banda inglesa sabe muito bem o que está fazendo. Por isso, a qualidade de VI é tão evidente, que muito provavelmente até os fãs mais conservadores gostaram desse novo, e inesperado, You Me At Six.

OUÇA: “3 AM”, “Back Again” e “Losing You”

Good Charlotte – Generation Rx


Dois anos após o lançamento de Youth Authority, a conhecida banda de pop punk Good Charlotte retorna com seu mais novo álbum Generation Rx, um trabalho em que a banda procura recuperar seu elo com a juventude e alertá-la quanto aos perigos atrelados ao abuso de opióides e medicamentos e a um estilo de vida destrutivo que é vendido como libertador e salvífico.

Generation Rx integra um intenso movimento na música contemporânea dedicado a denunciar o lado mais perverso da epidemia do uso de opióides e medicamentos controlados (sem descartar outras drogas) pela juventude nos dias de hoje. Ao tratar deste assunto, o álbum se coloca ao lado de importantes trabalhos como o KOD (2018) do rapper J. Cole, que também denuncia o abuso de opióides por parte dos jovens e adolescentes norte-americanos. Além disso, Generation Rx é lançado em um contexto em que artistas famosos como Lil Peep e Mac Miller, em um intervalo de menos de um ano, morreram de overdose e em que estrelas como Demi Lovato passaram a falar abertamente sobre seu vício em drogas.

Contudo, embora trate de assuntos de grande importância, a sonoridade do álbum parece perdida no abismo existente entre o pop punk dos anos 2000 que consagrou a banda e as tendências atuais no cenário do pop e do pop rock norte-americanos. Em muitos momentos, sobretudo em faixas como “Generation Rx”, “Self Help” e “Actual Pain”, é possível identificar uma tentativa da banda de mesclar sua sonoridade antiga popularizada nos álbuns The Young And The Hopeless (2002) e The Chronicles Of Life And Death (2004), recheada de overdrives, harmonias e temas mais sombrios e gritos ocasionais, com um tipo de sonoridade mais contemporânea que lembra em diversos momentos a sonoridade vista em One More Light, último álbum do Linkin Park, que se apoia grandemente em elementos eletrônicos.

Ocasionalmente, o álbum foge desse tipo de sonoridade, como em “California (The Way I Say I Love You)”, uma faixa mais melódica que poderia ser considerada a única “balada” do álbum, embora não seja incomum na discografia da banda colocar faixas desse tipo em seus álbuns. Contudo, ainda assim é uma sonoridade pouco convincente que não capta a atenção do ouvinte e mostra de forma ainda mais clara a dificuldade da banda em se adaptar aos tempos atuais.

Assim, Generation Rx, embora represente uma tentativa da banda Good Charlotte em se adaptar aos tempos atuais e a tocar em assuntos muito importantes e vitais para a nova geração, é um trabalho pouco convincente que peca por não conseguir desenvolver uma sonoridade atraente e falha em sua principal motivação, que é tentar estabelecer de forma profunda um elo com esta nova geração.

OUÇA: “Leech”, “Better Demons” e “Generation Rx”.

Mayday Parade – Sunnyland


É sempre bastante interessante escrever sobre pop-punk. Na maioria das vezes, as bandas entregam trabalhos muito semelhantes, desde a simples harmonia instrumental até o tema das músicas: deixar a cidade natal, desilusões adolescentes e amizades tóxicas são os pilares líricos sobre os quais o gênero se estrutura – o que não é sinônimo de pouca qualidade, vide bandas como Neck Deep e State Champs. Aliás, curioso notar a confusão que parte do senso comum cria em torno desse conceito, confundindo-o com outro que pouca coisa tem de parecido: o emocore. Bandas como Yellowcard, Paramore, My Chemical Romance e Panic! At the Disco não são bandas emo, mas aproximam-se muito mais do pop-punk (para bandas inscritas no emocore, procure por Cap’n Jazz, Brand New, Fresno e Rites of Spring).

Mayday Parade, por sua vez, iniciou sua trajetória na música vendendo EPs no estacionamento da Warped Tour, um festival de música centrado em subgêneros derivados do hardcore. Esse ano, a última e maior edição do evento, a banda tem vaga garantida e, dessa vez, no palco principal. Seu último disco, que marca a transição do selo Fearless para a Rise Records, merece sua atenção. Ao contrário de álbuns predecessores que não passam de clichês – trabalhos genéricos concentrando tudo o que há de mais recorrente no gênero – como Anywhere But Here e Monsters In The Closet, Sunnyland aparece como uma obra concisa, retomando referências dos clássicos A Lesson In Romantics e Mayday Parade – assinaturas da banda.

Quebrando o ciclo de entregar bons álbuns intercalados com álbuns descartáveis, Mayday faz com que nos sintamos escutando ao seu primeiro trabalho. De fato, não me surpreenderia se o primeiro vocalista, Jason Lancaster, aparecesse em um verso. Ainda assim, é importante ressaltar que Sunnyland não é simplesmente uma releitura de seu disco de estreia, mas tem identidade própria, quase experimental. “Piece Of Your Heart”, por exemplo, não é apenas uma das melhores faixas do álbum, mas de toda a discografia da banda. “Is Nowhere”, por sua vez, mostra toda a competência do vocalista Derek Sanders. Por fim, a faixa “Sunnyland” fecha o álbum como uma contemplativa balada acústica – aspecto que a banda explorou dessa vez como nunca antes, vide “Take My Breath Away”, “Where You Are” e “Always Leaving”.

De todo modo, é difícil fazer música atualmente. Mais difícil ainda se você fizer parte de uma banda de pop-punk ou qualquer outro gênero derivado do hardcore. Aqueles que escutavam Brand New ou La Dispute há dez anos, provavelmente escutam Kendrick Lamar e Frank Ocean atualmente. Isso se deve há milhares de fatores. Entre eles, o fato de que bandas como Counterparts ou Touché Amoré ainda fazem o mesmo tipo de som – maravilhoso, verdade seja dita -, ao passo que o apelo de gêneros como rap e indie são muito maiores. O pop-punk e seus primos tornaram-se subgêneros de nicho. Se você frequenta shows dessas bandas, sabe que encontra sempre as mesmas pessoas. Diante desse contexto, Mayday Parade teve de resgatar aquilo que faz com que sejam bons ao passo que arriscam-se como músicos para criar novas composições em um esforço para consolidar sua identidade. Se conseguiram ou não, é outra história e outro texto. Fato é que os meninos da Flórida sabem o que estão fazendo. Coloque seu all star e aproveite.

OUÇA: “Piece Of Your Heart”, “Is Nowhere” e “Sunnyland”

The Longshot – Love Is For Losers


The Longshot é uma banda semi-misteriosa, começamos daí. Trata-se do projeto novo solo (?) do vocalista do Green Day, Billie Joe Armstrong. A banda surgiu sem grandes avisos de uma hora pra outra com um EP de três músicas e, apenas uma semana depois, lançou seu primeiro álbum completo, Love Is For Losers.

O álbum é um exemplo primordial de o que Billie Joe sempre soube fazer com maestria: um pop punk cheio de riffs, refrões e letras grudentas. Na real, as músicas de Love Is For Losers se mostram muito melhores e mais interessantes do que o último álbum de sua banda principal.

Talvez tenha a ver com o fato de que desde o American Idiot em 2004, as pessoas esperam que trabalhos novos do Green Day acabem indo pra um lado mais político e que envolvam críticas sociais e ao governo, mesmo que subentendidas. E, de uma certa forma, foi isso o que o Green Day fez nos últimos dez anos ou mais – mesmo a trilogia ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré! de 2012, que mostravam as mais diversas influências que o Green Day pode ter, ainda acabam com o mesmo cunho político. Mas, seguindo a trajetória não-tão-impressionante-assim do Green Day nos últimos anos, por que lançar essas músicas como uma banda separada?

E é aí que chegamos: a política em Love Is For Losers é zero, praticamente. Tratam-se apenas de músicas boas compostas por um dos melhores compositores de pop punk de todos os tempos. Com zero pretensão, com zero pessoas olhando atenciosamente e criticando qualquer riff falho. Love Is For Losers é uma catarse, é Billie Joe escrevendo e cantando as músicas que quiser sem medo de que seja um álbum muito criticado quando levada em conta a reputação de sua banda principal.

Mas, mesmo que Love Is For Losers tivesse sido lançado como um álbum do Green Day, ele seria o melhor álbum do Green Day em anos. Todos os elementos estão aqui, um Green Day das antigas sem preocupações e sem pretensões, apenas escrevendo e tocando por diversão. Tudo isso está aqui, faltando apenas dois terços da banda Green Day.

The Longshot pode, talvez, ser considerado um projeto solo de Billie Joe. Não sabemos quando e se haverá algum segundo disco para essa banda, mas o que importa é o que estamos ouvindo aqui e hoje. E Love Is For Losers é um forte candidato a Melhor do Ano, exatamente por que foi feito sem essa pretensão.

Ao longo de sua carreira, o Green Day já lançou vários álbuns ótimos usando outros nomes – como Money Money 2020 como The Network e Stop Drop And Roll!!! como Foxboro Hottubs – talvez como uma forma de extravasar algo que não caberia direito no som da banda como um todo. E, sempre, após esses álbuns, o próximo do Green Day Oficial veio ótimo. Então nos resta apenas esperar ver o que Green Day nos aguarda, mas mesmo que a banda acabe lançando um disco horrível, ainda teremos a maravilha que é Love Is For Losers.

OUÇA: “The Last Time”, “Soul Surrender”, “Chasing A Ghost” e “Love Is For Losers”.

The Wonder Years – Sister Cities


Uma banda ou artista cativar um público jovem é sempre uma faca de dois gumes. De um lado, você consegue um público fiel e fervoroso que vai engolir cada resquício de juventude que você lançar, mas de outro, se você se distancia da sonoridade imatura que chama a atenção desse público, eles se viram contra esse progresso. Talvez o mais difícil de tudo seja manter um equilíbrio entre esses dois mundos, e aqui o The Wonder Years cumpre essa missão com maestria.

Previamente sendo uma banda basicamente de pop punk, The Wonder Years sempre se destacou de seus companheiros de cena pela criatividade de seus álbuns, e eles estariam muito bem se continuassem nesse caminho. Mas desde o álbum anterior, No Closer To Heaven, a banda vem se aventurando com mais elementos de gêneros como Emo e Rock Alternativo pra compor a imagem de uma banda mais madura, que foca em temas mais melancólicos e sérios.

Mas se o grupo flertou com essa onda alternativa antes, aqui eles mergulham de vez nessa ideia, e isso é aparente desde a primeira música (“Raining In Kyoto”), misturando uma entrega emocional forte dos vocais e uma cascata de guitarras que injetam adrenalina nos moldes sonoros já deixados pela banda nos trabalhos anteriores. Tal visceralidade é um dos pontos que vendem a ideia do álbum, mas talvez a mudança mais interessante seja a presença de sintetizadores em músicas como “Pyramids Of Salt” e “We Look Like Lightning”, que contribuem pra aumentar o suspense e a profundidade sonora do álbum.

Sister Cities é o ponto de virada definitivo da banda para uma mudança total de gênero. Se os temas e instrumentais amadureciam a cada álbum que saia, esse é o ápice da discografia do grupo. Com letras fortes e significativas e melodias pegajosas e bem trabalhadas, é difícil não reconhecer a genialidade do grupo. Mas talvez seja mais difícil ainda reclamar do álbum só por não ser mais pop punk, já que esse álbum pode apelar até pra o público desse gênero, e é assim que o The Wonder Years consegue tal equilíbrio de manter seu público antigo e evoluir. E, honestamente, quem reclama está maluco.

OUÇA: “Raining In Kyoto”, “Sister Cities”, “The Ghosts Of Right Now” e “The Orange Grove”

Tiny Moving Parts – Swell


A probabilidade é uma ciência cruel. Estatisticamente, quanto mais estendido é um processo, maior é a chance de algo nele não sair como o planejado. Do mesmo jeito, não é raro (ou injustificado) o receio que uma parte dos fãs de um artista pode sentir quando esse artista passa a lançar muitos trabalhos num curto período de tempo. Logicamente, todos podem ser excelentes e manter a qualidade que os fãs esperam, mas a cada novo lançamento aumenta a possibilidade de que o próximo não seja tão bom quanto o desejado. Com frequência, também, essa onda de lançamentos em rápida sucessão dá a impressão que o processo criativo do álbum é corrido, pouco planejado, superficial.  São essas, a princípio, as sensações mais presentes depois de ouvir Swell, sexto disco de estúdio do trio americano de math/emo/pop punk Tiny Moving Parts.

Lançado dois anos depois do último disco da banda, Celebrate, e sendo o quarto lançamento do trio nos últimos cinco anos, Swell apresenta em pouco mais de trinta minutos de audição a estrutura básica que notabilizou o Tiny Moving Parts dentro da (agora não tão) recente onda de ressurgimento do emo e do pop punk: instrumentais técnicos, letras diretas, o vocalista Dylan Mattheisen com sua característica performance emotiva com os vocais rasgados e os gritos vulneráveis, só que apresenta tudo isso carente de dois elementos essenciais: criatividade e sentimento.

De primeira, a impressão que a banda passa é a de estar cansada. Possivelmente um problema, em parte, da mixagem, as músicas soam todas baixas, abafadas, e o próprio vocal de Dylan parece extenuado, os gritos são menos intensos e ele aparenta não alcançar as notas que alcançava em outros discos. Soma-se a isso o fato de que a maioria das músicas mostra muito pouca imaginação da banda em fugir dos atributos comuns do seu estilo de composição, ao ponto em que é difícil de diferenciar qual é qual. Até um elemento estilístico, como os trechos em que a melodia é reduzido a apenas um instrumento (geralmente a guitarra ou a bateria) mais baixo até que o vocal de Dylan surge num grito trazendo consigo o resto dos instrumentos, é repetido em todas as músicas. Liricamente, a banda também soa pouco inspirada, com letras que soam lugar-comum e até piegas, chegando a fazer duvidar que o autor delas é o mesmo artista que escreveu “Grayscale”, “Vacation Bible School”, “Dakota” e “Common Cold”. Longe de entregar o sentimento ou a variedade dos outros discos, Swell é uma obra pragmática, e não no bom sentido, como uma tarefa cumprida por ser obrigação mas pela qual não se tem prazer. Inércia pura. Uma segunda-feira de manhã.

O que talvez piora a situação de Swell é que, diante de uma fundação dessas, os poucos elementos diferentes, como corais e instrumentos de sopro, apresentados pela banda fazem pouco para melhorar o disco. A adição de vocais femininos, em dueto com Dylan principalmente nos refrões, parece fora de lugar, e também é repetida sempre dentro da mesma estrutura, ao ponto que quando aparece em “It’s Too Cold Tonight”, é outra coisa que soa cansativa, até previsível. Com essas dificuldades, o que garante algum destaque positivo no disco fica sendo a já referida qualidade técnica dos três membros, especialmente nas penúltima e antepenúltima faixas, “Malfunction” e “Wishbone”, provavelmente as melhores do disco, com a influência de math e as quebras de ritmo que fogem um pouco à estrutura formulaíca do resto das músicas.

Quando um dos pontos positivos do disco é ele ser curto (31 min), é evidente que a obra em si deixou a desejar. Também é claro que não é a incompetência dos membros da banda, dada a qualidade que os outros álbuns apresentaram no passado, mas a falta de força e interesse de Swell faz parecer um sinal de que a banda precise dar um tempo nas gravações e se concentrar em outras coisas no momento, como excursionar, talvez até buscar novas influências. Com mais tempo e um processo criativo mais cuidadoso, lapidado, as chances é de que um novo trabalho deva ter um resultado melhor. Pelo menos é isso que as probabilidades indicam.

OUÇA: “Malfunction” e “Wishbone”