Cloud Nothings – Last Building Burning


Em Turning On, de 2010, o Cloud Nothings flertava com um indie pós-punk bem típico da época, com guitarras fazendo referência a Strokes, Interpol e mais do mesmo daquele contexto. Em 2012, porém, com Attack On Memory, a banda de Cleveland mergulhou em um pós-hardcore com referências dos anos 80 e 90, se diferenciando pelo caráter experimental, marcante por um aspecto mais contido, menos “apressado”. Dois anos depois, Here And Nowhere Else seguiu a mesma direção de seu antecessor, porém mais tenso e entusiasmado.

O quarto disco da banda, Life Without Sound, no entanto, surpreendeu a todos quando lançado em 2016, logo após a eleição de Donald Trump. Apostando num som mais contemplativo, menos pesado, ficou o sabor de escolha errada para o momento. O que fãs e críticos esperavam do Cloud Nothings naquela situação era, mais do que nunca, a catarse que os diferencia.

Last Building Burning é evidentemente uma resposta ao álbum anterior. A banda volta a focar no peso e na fúria, o Cloud Nothings que nos acostumamos: direto, visceral, vulnerável. No universo caótico que é construído, algumas faixas parecem como um soco no estômago. “Dissolution” e seus mais de dez minutos de duração nos remetem diretamente aos seus dois maiores discos, anteriormente citados. Como bem notou o crítico Ian Cohen, da SPIN, nesse último registro a banda parece ter gravado dentro de uma garagem com um carro ligado. Dylan Baldi, vocalista e líder da banda, aposta em uma abordagem niilista, deixando-se levar por seus pensamentos mais sombrios: ‘They won’t remember my name, I’ll be alone in my shame‘.

Toda crueza de Last Building Burning, no entanto, acaba por vezes esbarrando em um punk-pop noventista um tanto datado. De qualquer forma, é ótimo encontrar uma banda capaz de reconhecer seus tropeços e buscar um caminho, dentro de sua própria discografia, para reencontrar sua identidade.

OUÇA: “In Shame”, “Dissolution” e “So Right So Clean”

Wild Nothing – Indigo


O quarto álbum do estadunidense Jack Tatum sob o nome Wild Nothing já dá seu recado no refrão do lead single, “Letting Go”: ‘Letting go / I wanna be happier now / I wanna be more than closed‘. A atmosfera que surge neste trabalho é leve e alegre, em muitos momentos causando surpresa para quem já acompanha o trabalho do Wild Nothing.

Ritmos alegres e batidas acentuadas no dream pop dançante marcam Indigo. A proposta se encaixa na discografia como uma continuação do álbum anterior, Life Of Pause (2016), mesclando momentos em que hora se conecta mais com o trabalho passado e momentos em que aponta a nova direção que Tatum vem seguindo. Em algumas canções, como por exemplo, “Canyon On Fire”, vemos a mistura de guitarras marcantes e batidas sintéticas já características do Wild Nothing. Em outros momentos, como em “Letting Go”, esta atmosfera dualista se desfaz em ritmos e arranjos quase que festivos. O clima alegre predomina, sendo a principal marca do álbum. 

O que inicialmente indica que há algo interessante e inovador em Indigo, logo frustra as expectativas. Logo após a primeira faixa, os bons momentos do álbum acabam diluídos em um marasmo persistente onde o conjunto acaba soando fraco e repetitivo, abusando de refrãos pegajosos. Apesar das tentativas de sons progressivos e texturas distintas, o pouco contraste nas canções acaba predominando, fazendo do álbum um trabalho pouco marcante. O clima alegre, no fim das contas, acaba se mostrando algo superficial e cansativo.

Indigo acaba sendo um dos trabalhos mais fraco de Tatum. Apesar de representar uma passagem de sons mais obscuros para algo alegre e ensolarado, isso se da de forma pouco interessante, entediando o ouvinte pela repetitividade das faixas. Acredito que o lado bom do álbum possa ser a direção para trabalhos futuros que ele indica. O Wild Nothing dificilmente desaponta. Vale a pena esperar o próximo capítulo.

OUÇA: “Letting Go” e “Shallow Water”.

Speedy Ortiz – Twerp Verse


Os anos 90 acabaram, voltaram e já se transformaram em vintage. Muitas tendências ainda estão dando a cara por aí em revistas de moda ou álbuns de bandas de músicos de vinte e tantos anos. Nem todas as modas que fizeram seu retorno são tão boas quanto a pochete e as referências do Speedy Ortiz.

A clássica camiseta de Kim Gordon dizia que as garotas haviam inventado o punk rock, e não os homens. O Riotgrrl com certeza foi a maior prova dessa afirmação. Em tempos de internet e empoderamento feminino, nada consegue chegar perto da força que as feministas punk dos anos 90 tiveram.

Em uma era de infestação de divas pop que tem pouco a dizer e bandas  de pop punk que choram sobre garotas que supostamente arruinaram suas vidas, o Speedy Ortiz se faz extremamente necessário. Apesar de não ser totalmente formado por garotas, a temática e genética da banda são extremamente femininas. Twerp Verse é a prova de que ainda é relevante falar sobre coisas que dizem respeito a nós mesmas.

Buck Me Off” inicia  álbum com uma rebeldia do britpop e distorções do grunge. A sonoridade do trabalho como um todo não foge disso, uma zona de conforto que deixa um pouco a desejar. De qualquer forma, as letras de cada música conseguem se destacar mais do que seu som, o que pode atrapalhar alguns ouvidos que não querem somente palavras para refletir. “Lucky 88” é a música mais pop, mostrando boa parte do potencial vocal da banda e seu carisma orgânico.

Can I Kiss You?” é um filho da fase In Utero do Nirvana, uma reprodução que não é nem um pouco incômoda. Um lugar seguro, talvez uma lembrança que pudesse ir até um pouco mais fundo, buscado mais elementos que encaixariam-se bem no restante do álbum. Sinto um pouco de falta do peso de Major Arcana, uma vontade de mais pulmões e punhos. “You Hate The Title” é uma adição interessante, mas um pouco na contramão do que o álbum apresenta.

Apesar de ter a voz de uma garota vestida de kinder whore [moda típica das riotgirls lá pros anos 90], Sadie Dupuis não soa como uma adolescente. Suas reflexões em “Twerp Verse” não ficam apenas em reclamações sobre homens imaturos ou militância explícita. A sensibilidade ao tratar de assuntos como assédio sexual de uma forma não demagógica e real, como em “Villain”, é impressionante. A quebra da “quarta parede” em I’m Blessed [I’m blessed with perfect pitch/ I waste it on songs that you never even heard of“] com certeza desafia o ouvinte a apertar o botão de repeat.

OUÇA: “Can I Kiss You?”, “Villian”, “Lucky 88”

A Place to Bury Stangers – Pinned


Desde 2012, com Worship, o APTBS vem se aproximando de melodias mais tradicionalmente harmônicas. Uma tendência que se intensificou no disco seguinte e atinge o ápice em Pinned. Ainda podemos ouvir aqui aquela banda dos primeiros discos, mas é inegável que as prioridades da banda mudaram. Simplesmente fazer uma parede sonora com a força mais abrasiva possível não parece mais ser suficiente, e é fácil imaginar que alguns fãs mais apegados aos dois álbuns iniciais da banda sintam que está faltando algo. Realmente, o som de Pinned parece distante, mais abafado do que o normal. Como se, para não exagerar na violência, tivessem gravado atrás de uma retenção acústica, ou como se ouvíssemos um ruído altíssimo, mas de longe.

Essa distância, no entanto, traz um elemento que enriquece a sonoridade que a banda se propõe a construír. É mais fácil ouvir e entender a riqueza de detalhes quando nos afastamos um pouco. Com isso, APTBS se aproxima ainda mais das suas influências no shoegaze, dream pop e, particularmente, no post-punk. Qualquer uma dessas três categorizações parecem ser mais apropriadas para Pinned do que o noise rock com o qual eram rotulados anteriormente.

O conjunto de faixas é bastante coeso e de qualidade. Mesmo os elementos mais inesperados, como uns bons segundos ao som de uma furadeira, não parecem estar fora de lugar, mas antes lembram acenos à sua fase mais experimental. E representam momentos de inflexão no álbum, já que a estrutura da maior parte agora dá uma guinada a sonoridades mais palatáveis. Não que vá chegar às rádios que só tocam pop, longe disso, mas Pinned pode ser um bom ponto de entrada para quem não conhece a banda, ou quem tinha alguma ojeriza pelo excesso de ruído e de volume. Os riffs tem um espaço maior aqui do que em qualquer trabalho da banda, o que os torna, se não cantaroláveis, ao menos marcantes.

Esse quinto álbum reforça a impressão de que A Place to Bury Strangers é uma espécie de Jesus & Mary Chain dos anos 2000. Não só porque os experimentalismos de ambas fazem parte de um mesmo ramo que une o post-punk ao indie contemporâneo, mas porque agora podemos ver paralelos também na sua carreira. Assim como os J&MC acabou por se encantar das melodias mais convencionais, ainda que sem deixar sua identidade por completo, APTBS também parece ter atingido uma fase mais preocupada com o que podem fazer com sua música além de exprimir o caos e quebrar paradigmas. Pode ser uma forma de maturidade perceber que não podem continuar fazendo a mesma coisa de sempre, mas, felizmente, sem deixar de serem quem são.

A fraqueza de Pinned talvez seja até a de não se entregar tanto à harmonia e cultivar a dissonância. Falta uma faixa com a força que “You Are The One” teve em 2012, por exemplo. Um dos fatores fundamentais para isso é que as letras não estão particularmente fortes, tendendo a ficar num campo muito genérico. Ainda assim, provavelmente é o melhor álbum da banda até aqui. E, para os fãs, vale a pena ouvir a versão estendida, de mais de uma hora, que tem mais elementos que remetem à fase pré-Worship.

OUÇA: “I Know I’ve Done Bad Things”, “Situations Changes”, “Act Your Age” e “There’s Only One Of Us”

Preoccupations – New Material


Cada vez mais a tendência da música é voltar ao passado, utilizar uma ideia da época escolhida e fazer com que tal sonoridade alcance lugares que não alcançou em seu tempo. A volta de estéticas antigas, desde as cheias de neon dos anos 80 até as mais grosseiras dos anos 90, moldam diversos trabalhos não só na música, mas também na cultura pop em geral. Então, com isso o ciclo cultural retorna pro ponto original e a frase ‘old school is the new cool’ não soa mais tão errada.

Preoccupations (antiga Viet Cong) faz parte do revival post punk que vemos em massa desde o início dos anos 2000, logo não deveria mais nem ser tão essencial pra uma resenha falar sobre essa wave. Mas o caso aqui é que, de álbum em álbum, a banda mergulha cada vez mais em suas influências. Se antes eles seguiam o som de riffs angulares e pontudos de bandas como Gang of Four revestidos pela melancolia de outras como The Cure e Echo and the Bunnymen, nesse álbum tal melancolia se torna o foco. Com a angustia claustrofóbica catártica de músicas como “Espionage” e o aparente desapego emocional demonstrado em looping no refrão de “Disarray”, é difícil não se lembrar da sonoridade carregada do Joy Division.

Mas o diferencial desse trabalho é exatamente esse afastamento de um som mais energético pra investir em uma experiência mais “pesada”. Com o destaque de baixos e baterias cavernosas e vocais amargos, a guitarra deixa de ser o foco da música, trabalhando em conjunto com o resto para criar um clima mais obscuro, criando uma tensão em canções como “Doubt” e “Antidote” com um ritmo mais lento e calculado que se arrasta demais em certos pontos, perdendo a adrenalina que a banda passava posteriormente.

Porém, o álbum brilha mesmo em momentos em que se solta mais, criando melodias com um teor pop que tem a medida suficiente de bizarrice pra não ser radio friendly, como em “Disarray”. E no fim, a constante alternação em sua tracklist entre o desinteressante e o cativante, acaba removendo um possível clímax, ou qualquer motivo pra ouvir o álbum inteiro em uma tacada. Mas se quiser pegar algumas das músicas sugeridas abaixo pra ouvir, elas tem força o suficiente para manter qualquer entusiasta de post punk entretido.

OUÇA: “Disarray”, “Espionage”, “Decompose” e “Solace”

The Men – Drift


Em corridas de média e longa distância existe um elemento essencial à vitória que nem sempre é mencionado com a importância devida: a consistência. De nada interessa a um corredor de maratona ser o mais rápido ou o mais ágil. No final, um fundista que não mantém consistentemente o desempenho não completa a prova.  Começar algo, afinal, é muito fácil do que mantê-lo.

Essa é a primeira sensação que é despertada quando Drift, novo disco do The Men, chega ao fim. Sétimo disco de estúdio do quarteto nova-iorquino de punk/post-punk, Drift se assemelha a um corredor de cem metros rasos em uma corrida de quarenta e dois quilômetros: é dada a largada e, depois de um trio de faixas que compõem possivelmente uma das melhores aberturas de disco de 2018 (pelo menos entre bandas de rock), o impulso se perde em passagens fracas e pouco criativas até acabar numa nota decepcionante.

Se fosse um carro, Drift, ironicamente, seria um dragster.

Depois do tiro de largada, em que a banda joga toda a sua mão, revelando um leque de influências variado e profundamente instigante, no restante do álbum as faixas vão pouco a pouco perdendo fôlego e se deixando ultrapassar, até finalmente cruzar a linha de chegada em um arrastamento melancólico.

Seja na mistura de baixo robusto e bateria sólida de post-punk com uma batida eletrônica, que emolduram os metais dissonantes e o vocal teatral da faixa de abertura, “Maybe I’m Crazy”, ou na sincera influência de jazz, com o baixo melódico e a guitarra aguda e melancólica da música seguinte, “When I Held You In my Arms”, a banda parece desesperada por tomar a frente e se colocar na dianteira, ainda que não consiga manter o ritmo depois. O apogeu do disco chega na terceira faixa “Secret Light”, que abre com uma percussão quase selvagem logo acrescida de um piano que ao mesmo tempo traz à lembrança o instrumental de bebops e cria um senso de pressa na música. Os vocais sussurados, quase em segundo plano, somados ao baixo e a instrumentos de sopro, dão personalidade à faixa, de longe o ápice criativo do disco.

Depois da terceira faixa, a banda perde intensidade, com cada música seguinte sendo quase uma analogia ao corredor que dispara na frente e depois vai se vendo perder posições, adversário depois de adversário, sem ter mais forças para tentar se manter na dianteira. Passando pelo folk pouco criativo de “Rose On Top Of The World” e “So High”, para o hard rock genérico e monótono de “I Killed Someone”, o que parece predominar no álbum é uma série de músicas que estão ali com o único propósito de preencher o disco.

“Sleep”, a sétima faixa, se torna o último impulso de um corredor já não tem mais esperanças de vencer mas ainda quer provar para si mesmo que é capaz de encerrar a prova com força. Voltando à influência de blues e folk, a composição simples, apenas com violão e gaita, criam uma atmosfera espectral, que envolve o ouvinte e quase conjura as imagens de um deserto de terra vermelha e um cavaleiro assombrado e solitário. A aura fantasmagórica mostra a competência da banda em criar uma atmosfera.

É irônico que logo em seguida entre a teatralidade preopotente e exagerada de “Final Prayer”, com elementos pesados e repetitivos que parecem ansiosos em criar a sensação de um clímax assombroso e sufocante, mas que deixam a impressão de uma banda que se levou a sério demais.  A última faixa, “Come To Me” mal parece merecer ser mencionada a não ser como uma versão mais preguiçosa e repetida de “Sleep”.

Ao fim e ao cabo, Drift tem o sabor agridoce de uma derrota que parecia vitória. O disco apresenta, ao longo de suas quatro melhores faixas, as influências e a inventividade para criar um trabalho explosivo e tridimensional, mas essa energia é pouco a pouco perdida a cada composição repetitiva. No fim da audição, o sentimento é de que existe um potencial pra explorar e falta o fôlego. Não é a conclusão mais agradável, mas não existe solução numa corrida a não ser seguir adiante com mais força.

OUÇA: “Maybe I’m Crazy”,  “When I Held You in my Arms”,  “Secret Light” e “Sleep”

No Age – Snares Like A Haircut


Lembram quando lá por 2009~2010 houve uma cena considerável de bandas que estavam resgatando as guitarras distorcidas vindas do shoegaze e punk que permearam uma boa parte da música – desde o indie pop até o experimental? Bandas como The Pains of Being Pure at Heart, Japandroids, Best Coast, Wavves e Dum Dum Girls até os menos conhecidos Helen Stellar, Air Formation e Male Bonding. No meio dessa cena, uma das bandas mais memoráveis foi o No Age e seus incríveis Nouns e Everything In Between.

O No Age, dupla formada por Randy Randall e Dean Allen, mistura essa tal distorção com uma força punk agressiva e sensibilidade melódica tornando-os um dos principais nomes do gênero. Mas como nem tudo é perfeito, seu último trabalho havia sido o chatíssimo An Object, lançado em 2013. Pouco tempo depois veio o hiato e a banda ficou sem dar sinais de vida por alguns anos, até agora quando anunciaram, no final do ano passado, seu novo álbum Snares Like A Haircut e o single “Soft Collar Fad”.

O single em questão parecia bastante promissor e mostrava que talvez o No Age houvesse se recuperado do deslize que foi o último trabalho; mesmo sendo uma música um pouco mais calma para os padrões da banda, trata-se de uma volta ao seu punk melódico característico. As coisas estavam se encaminhando para uma bela volta. É uma grande pena, então, que o resto do álbum é bem sem graça.

Snares Like A Haircut é um álbum sem emoção nenhuma. Salvo pouquíssimas exceções, o disco parece sem vida e arrastado com vocais preguiçosos e instrumentais, por falta de outra palavra, chatos. Falta explosão, falta vontade. É como se Snares Like A Haircut existisse apenas por uma obrigação, não por que a banda quis fazê-lo de verdade e estivesse se divertindo enquanto o construía. A impressão que fica é que toda a originalidade da banda ficou lá em 2010.

Snares Like A Haircut é completamente esquecível e sem vida, a volta do No Age depois de cinco anos sem material novo se mostra uma verdadeira decepção. Algumas bandas possuem prazo de validade, sendo só boas e/ou relevantes dentro de um contexto e momento histórico específicos. E esse é o caso do No Age, que em 2018 não parece ter mais nada de interessante pra mostrar.

OUÇA: “Soft Collar Fad” e “Cruise Control”.

Cults – Offering


Cults poderia ser apenas mais um caso de banda que impressionou a mídia com seus singles de debut e ganhou espaço, contrato com gravadora famosa, fãs ao redor do mundo, e então passou a produzir um trabalho mais morno. Mas a dupla não aparenta falta de vontade em manter os motivos pelo qual ganhou esse reconhecimento. Formado por e Madeline Follin (vocais) e Brian Oblivion (vocais, guitarra, teclado e percussão), o duo carrega em seu trabalho uma forte herança do synthpop dos anos 80. O single “Go Outside” de seu EP de estreia, intitulado Cults 7, foi classificado como “Best New Music” pelo Pitchfork, e em seu álbum de debut, Cults manteve a qualidade de suas gravações, e ganhou seu segundo “Best New Music” pelo single “Abducted”.

Depois de quatro anos desde o seu último álbum Static, Cults está de volta ao rolê com seu terceiro álbum de estúdio intitulado Offering, trazendo mais synth e indie pop em um trabalho bastante maduro. No anúncio do novo álbum a banda falou sobre a faixa título, uma das mais vulneráveis, e que fala sobre oferecer esperança e se doar às pessoas a sua volta mesmo em situações em que parece impossível: “It’s hard these days to feel like you’re being heard, or like the people who might hear you care enough to look outside themselves and help you”.

Rejeição é um tema bastante recorrente em Offereing, as duas faixas “I Took Your Picture” e “With My Eyes Closed” complementam uma a outra não apenas no título, inclusive em um clipe para as duas músicas os nomes foram postos juntos. Offering também mostra uma característica bastante interessante enquanto você o ouve: as primeiras faixas trazem melodias mais dançantes, e a partir da faixa “Right Words” as músicas começam a ficar um pouco mais calmas, com um estilo que traz uma certa sensação de conforto. A partir daí as músicas também compartilham de uma mesma característica: todas tem algum momento de transição, onde as melodias ficam mais intensas e conseguem te levar para dentro das histórias contadas ali.

Apesar de essa transição ser bem construída e as faixas serem muito boas, há aquele sentimento de que são todas muito parecidas, e isso pode causar desinteresse em algum momento; “Natural State” e “Nothing Is Written” são exemplos disso. Mas há destaques nas duas partes do Offering: “Recovery” e “I Took Your Picture” trazem uma sensação de preenchimento bastante satisfatória no início do álbum, e as três últimas faixas: “Talk In Circles”, “Clear from Far Away” e “Gilded Lily”, não decepcionam. Pode se destacar, inclusive, a construção de “Clear from Far Away”, onde os vocais e a melodia parecem ter sido explorados ao máximo.

É notável o amadurecimento da banda nesse período de hiato, Offering se mostra um trabalho muito bem planejado. Uma curiosidade que não deve ser deixada de lado é o fato de que Cults já cantou em português em uma parceria com o grupo Superhuman Happiness. Se trata de uma versão da música “Um Canto de Afoxé para o Bloco de Ilê”, de Caetano Veloso, para o álbum Red Hot + Rio 2, parte de uma campanha de conscientização sobre a AIDS.

OUÇA: “I Took Your Picture”, “Talk In Circles” e “Clear from Far Away”.

Bully – Losing


Crescer é laborioso. É um processo longo, difícil, cheio de altos e baixos (normalmente mais baixos) e que às vezes não compensa. Não me leve a mal, não estou dizendo que não devemos tentar amadurecer; muito pelo contrário: a sede de progresso é uma característica intrínseca a nós, mas que não é facilmente saciada. Não sei se os integrantes do Bully concordam minha opinião, mas eles com certeza são um bom exemplo para ilustrá-la.

Losing, o novo registro da banda, tinha muito potencial. Depois do debut Feels Like muito bem recebido, as expectativas pelo próximo álbum haviam se tornado grandes. A banda ter ido para a Sub Pop e lançado singles promissores só colaboraram ainda mais para o hype. Infelizmente, o que o disco traz de mais importante é uma demonstração do que o Bully pode ser, e não o que atualmente é.

Vamos concordar que é incrível a pretensão de Alicia Bognanno (vocalista e fundadora da banda): ela escreveu, produziu e canta em todas as faixas do álbum. Sua voz potente e estarrecedora que marcou Feels Like continua firme e forte em Losing, porém agora também mostra um lado mais calmo e contido. Além disso, seu lirismo brilha muito quando é íntimo, pessoal; em contrapartida, as letras com temas mais “universais” são um pouco clichês e simplistas demais. Mesmo assim, é quase impossível não ver (ou ouvir, no caso) que é ela quem carrega o disco nas costas.

O maior problema de Losing é sua redundância. Algumas faixas são intensas e contrastantes, porém muitas outras soam como mais do mesmo. Das diversas vezes que parei para ouvir o álbum, começava motivado (as primeiras músicas, principalmente “Feel The Same”, são ótimas), mas quase não notava seu fim. Perdendo momento, o som começa a virar ruído branco, e você muitas vezes fica sem saber quando uma música terminou e outra começou. Dói admitir isso porque, como disse e reitero, esse disco tinha potencial. As músicas que realmente se destacam dão uma pala de o que o registro poderia ter sido. Talvez se fosse mais enxuto (para um álbum de grunge/garage rock, 40 minutos é bastante coisa) seu triunfo seria maior.

No início da resenha, falei sobre crescimento e como isso pode ser trabalhoso. O que vejo em Losing é parte do processo de amadurecimento de uma banda que pode muito, mas ainda é pouco. O álbum falha em te prender em diversos momentos, mas quando consegue não tem como se soltar. É uma montanha-russa de qualidade que – e eu quero muito acreditar nisso – está bem longe de ser o ápice do grupo. Se esse for o caso, com certeza ouviremos coisas muito mais interessantes do Bully no futuro.

OUÇA: “Feel The Same”, “Kills To Be Resistant”, “Blame”, “Hate and Control”.

Alvvays – Antisocialites


Três anos foi o suficiente para a banda canadense Alvvays guardar e drenar uma energia que tornaria seu novo álbum, Antisocialites, ainda melhor que seu debut autointitulado. Ao longo das 10 faixas de seu novo trabalho, é possível sentir flertes com novas sonoridades que foram além de seu jangle dream pop característico para criar composições criativas e com mais peso, sem abandonar seu lado intenso e emocional.

“In Undertow” foi o primeiro single que o grupo de Toronto escolheu, incluindo um videoclipe lúdico que faz jus sinestésico ao seu estilo, feito para uma faixa que é uma das mais fortes e bonitas do lançamento. Uma das características das novas músicas é a velocidade – meio punk, meio garage-rock – que aparece logo na terceira faixa, “Plimsoll Punks”, um som doce e agitado digno de ganhar espaço na trilha sonora de Clube dos Cinco (1985).

Mais um videoclipe chegou pouco depois, com “Dreams Tonite”, uma balada romântica e um vídeo ambientado nos anos 60, momento afetivo certo para uma banda que tem no jangle pop – sonoridade que torna o trabalho do quinteto canadense nostálgico e aveludado – sua maior referência. A expectativa dos trabalhos audiovisuais do grupo – que vão além do complemento, são parte fundamental do universo Alvvays – é sempre à espera desse casamento de som e imagem capaz de nos transmitir para uma realidade paralela.

As batidas mais rápidas reaparecem em “Your Type” e “Hey”, faixa com menos reverb e pura de Antisocialites. Uma clara referência da banda, que traz todo o ambiente shoegaze em sua sonoridade, é Jesus and Mary Chain, com quem Alvvays dividiu o palco este ano. Para retribuir a parceria com seus, aparentemente, ídolos, o grupo canadense homenageou o vocalista Jim Reid em “Lollipop (Ode to Jim)”.

Os falsetes ainda mais altos e intensos da vocalista Molly Rankin também são um ponto marcante do álbum. E essa voz alçando novas escalas complementa a ideia de que alguns limites claros da estreia da banda realmente foram ultrapassados em nome de não apenas uma nova experimentação, mas também de uma nova fase que permitiu e, provavelmente, permitirá combinações ainda mais interessantes que fomentam o universo do chamado indie pop.

OUÇA: “In Undertow”, “Dreams Tonite”, “Your Type” e “Lollipop (Ode to Jim)”