HEALTH – VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR


O HEALTH sempre foi uma banda difícil de explicar porque nos seus álbuns costumavam haver elementos de gêneros muito divergentes e um trabalho de construção de dissonâncias e atmosferas pesadas e alienígenas que perturbavam e instigavam os sentidos. VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR é o quarto álbum do HEALTH, o primeiro trabalho depois da saída do tecladista orignal e co-fundador Jupiter Keyes e vai fundo no peso do metal industrial mas sem a elegância da esquisitice dos registros anteriores.

Em Death Magic, o álbum anterior, o HEALTH conseguiu chegar num ponto de equilíbrio interessante entre o som pesado conceitual cheio de camadas e algo mais pop e acessível. VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR traz o peso trabalhado de uma forma diferente, usando quase nada das múltiplas camadas de sintetizadores características de trabalhos anteriores e apostando mais nas distorções de guitarra e percussão pra fazer um proto-metal industrial que acaba soando achatado e repetitivo.

Um elemento que se mantém dos álbuns anteriores é uma certa coesão conceitual e o tema aqui é o medo de viver no mundo da forma como ele está. Nada parecido com as críticas ácidas à publicidade do Death Magic de 2015 ou o caráter introspectivo e sentimental do Get Color de 2009, apenas um niilismo quase infantil na forma em que aceita e apenas relata que está tudo podre e vamos todos morrer mesmo, então pra que se importar? Letras como as de “THE MESSAGE”, “LOSS DELUXE” e “STRANGE DAYS (1999)” tem reduções simplistas de temas complexos como a morte, o medo e o sofrimento e parecem poemas de um adolescente revoltado e não letras de uma banda que, embora nunca fosse reconhecida por esse aspecto, já trouxe passagens líricas muito interessantes no passado.

Sonoramente, é muito difícil saber quando uma música acaba e começa a outra porque os power acordes aqui se repetem à exaustão sem nenhuma progressão ou nuance e a mixagem que carrega o volume pra criar peso artificialmente de uma forma que parece até amadora faz as músicas soarem ainda mais unidimensionais, achatando os instrumentos e a voz numa camada só. Os riffs que aparecem só geram peso de forma solta sem nenhum propósito narrativo e não envolvem o ouvinte, muito menos são lembrados depois que as músicas acabam.

VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR é, na melhor das hipóteses, um bom álbum pra bater cabeça se você não se importar com a monotonia das construções das faixas. E se torna decepcionante porque não foi um grande ponto de ruptura ou um experimento que não funcionou. Muito pelo contrário, quase todos os elementos que aparecem  aqui já foram trabalhados de forma muito melhor por eles em álbuns anteriores o que deixa a impressão de que, mesmo tendo levado quatro anos pra sair, ainda assim é um álbum preguiçoso.

OUÇA: “PSYCHONAUT” e “BLACK STATIC”

Swervedriver – Future Ruins


Há cinco anos, a banda Swervedriver anunciava seu retorno após um período de hiato de cerca de dezessete anos, contribuindo, muito antes de virar moda – e talvez dando o pontapé inicial – para um movimento repentino de retomada e renovação do gênero shoegaze em que bandas proeminentes e pioneiras como The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, Ride e Slowdive participaram de forma sublime. O álbum I Wasn’t Born To Lose You deixou evidente a capacidade do quarteto de Oxford de retomar sua arte de onde pararam: os riffs etéreos, os vocais nebulosos e as distorções de guitarra criam sempre uma harmoniosa atmosfera característica do som que sempre fizeram. Agora, a bola da vez é o disco Future Ruins, lançado este ano, o que me faz parar para pensar: por que os caras continuam fazendo exatamente o mesmo som que faziam há vinte e cinco anos?

Não me entenda errado, eu adorei o álbum. “The Lonely Crowd Fades In The Air” é simplesmente fantástica, uma das minhas tracks favoritas desse ano até o momento. De modo geral, mesmo reproduzindo fórmulas, o quarteto sabe o que faz: explorando do que parece ser uma inextinguível fonte de combinações diferentes dos mesmos riffs, vocais, letras e, pasmem, criando novas e boas músicas. Quando dei play e ouvi a primeira faixa, me odiei por estar curtindo-a. Digo, a impressão foi de que já havia a escutado muitas vezes antes, mas um quê de ineditismo toma conta de suas percepções e, quando se dá conta, está balançando a cabeça de forma cadenciada.

Everybody’s Going Somewhere & No One’s Going Anywhere”deixa evidente toda a concomitância dos integrantes, quase deixando de tocar seus instrumentos de forma individual, mas, de outra maneira, concordando uns com os outros tais qual uma engrenagem, um organismo. Mesmo que praticamente seja um som instrumental, a sensação é de que estamos conversando com Adam Franklin, que influenciado pelo mundo em degradação ao seu redor e talvez pelo potencial impacto de futuro, escreveu músicas que capturam tal clima e ao mesmo tempo oferecem uma luz no fim do túnel em uma espécie de viagem nostálgica. Vale muito a pena.

Encerrando, há “Radio Silent”, faixa que sintetize o gênero shoegaze – embora, sejamos sinceros, o Swervedriver nunca realmente pôde ser definido como tal. Sincera, etérea e característica quase como uma canção de ninar, o compasso faz com que o disco encerre como um bom filme: você não vê os créditos passando, mas precisa de algum tempo para voltar à realidade. Um ouvinte familiarizado com o som da banda não se surpreenderá. Não há riscos, novas tentativas ou algo que saia do que pode ser considerado o catálogo do quarteto inglês. Isso, por outro lado, de maneira alguma significa que a decepção é certa, mas, ao contrário, aparece quase como um manifesto de existência do grupo. Para fãs saudosistas, um prato cheio, embora, convenhamos, seria interessante ver o Swervedriver saindo da zona de conforto e arriscando em algumas direções.

OUÇA: “Mary Chain”, “Everybody’s Going Somewhere & No One’s Going Anywhere”, “The Lonely Crowd Fades In The Air” e “Drone Lover”

The Twilight Sad – IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME


É das máximas mais repetidas de todas que é impossível a um mesmo homem tomar banho no mesmo rio duas vezes. Na segunda vez já não é mais o mesmo. Seja o rio, seja o homem. Dessa analogia apresentada por Heráclito, se origina o paradigma de que a única constante é a mudança. A constatação desse processo pode ser verificada em qualquer coisa cuja existência persista por tempo suficiente. Sejam pessoas, obras de arte, grupos artísticos. Acompanhar algo é, portanto, um estudo da transformação e, uma vez constatado isso, pode se apreciar a mudança por ela em si, independente de o resultado ser aquilo que se esperava. A beleza reside no movimento.

E, algumas vezes, ao final o movimento também resulta em algo belo além, como é o caso do IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME último disco da banda escocesa de pós-punk The Twilight Sad.

Quinto registro de estúdio do grupo, o disco vem cinco anos depois do excelente Nobody Wants to be Here And Nobody Wants to Leave e mostra uma significativa mudança de estética e abordagem na composição das faixas. Enquanto o último disco apresentava uma sonoridade claramente influenciada pelo post-punk moderno, com o baixo pronunciado e riffs repetitivos e hipnóticos, além de guitarras altas que criavam paredes de som nas composições – numa influência de shoegaze que às vezes remetia à ênfase no volume e na imposição dada pelo A Place to Bury Strangers -, e o timbre grave do vocal de James Graham, o novo mostra a banda se aproximando de influências bastante distintas, porém não tão distantes assim.

A primeira constatação é a perda de ênfase no baixo e nas guitarras, com o foco ficando agora no uso de sintetizadores e teclados para construir a identidade do disco. Num movimento análogo ao do próprio post-punk, é evidente a influência de New Order no estilo de composição do novo disco, enquanto pelo timbre e teatralidade empregadas no vocal de Graham, a performance do vocalista se aproxime de Bauhaus. Nada disso é apontado de maneira a diminuir o trabalho do novo disco. Expondo suas influências de maneira honesta, o Twilight Sad se move numa direção diferente enquanto mantém seus laços com o gênero ao mesmo tempo que explora a própria interpretação dos estilos nos quais se inspira.

Já na abertura, com “[10 Reasons For Modern Drugs]”, os teclados ganham a companhia rápida de uma linha de baixo moderna que acelera o ritmo da música, dando à faixa um andamento dinâmico que cria o cenário para a entrada da teatral segunda faixa “Shooting Dennis Hooper Shooting”, uma das melhores do disco. Aqui o Twilight Sad reduz a presença dos sintetizadores, permitindo que o baixo volte a ocupar o espaço central da composição, enquanto os sintetizadores preenchem os vazios deixados por ele, criando a impressão de um instrumental solene e dramático que cresce próximo do clímax da música. A dramaticidade continua com a faixa seguinte, “The Arbor”, que volta a enfatizar os teclados e a diminuir a velocidade, se aproximando decididamente das influências apresentadas pela banda. O baixo e os sintetizadores criam uma atmosfera distante que reforça a lugubridade da música. IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é um disco sobre mágoas, as dúvidas trazidas pelo que provoca a mágoa e a aprender a não esperar que essas dúvidas sejam respondidas. Não é a resposta que faz diferença, é aprender a lidar com a pergunta.

Naturalmente, o disco não é sem falhas. Enquanto músicas como a lenta e despida “Sunday Day13” e as rápidas e raivosas “Girl Chewing Gum” e “Let/s Get Lost” não soam particularmente ruins ou fora de lugar no setlist do disco, a simplicidade e as escolhas de composição delas, quando colocadas lado a lado com as outras faixas do disco, faz com que elas empalideçam em comparação. E num disco tão denso e emocionalmente carregado, falhar em causar uma impressão forte é uma fraqueza.

Outras faixas que surpreendem com as direções adotadas pela banda são “I/m Not Here [missing face]”, que hipnotiza com um refrão forte e envolvente, o ritmo acelerado e carregado de dramatismo é carregado pela dualidade entre bateria e sintetizadores, que representa a o contraste entre o peso interno dos sentimentos e a fachada suave com que eles se manifestam fora de nós. “Auge/Maschine” volta a dar lugar à raiva, com uma avalanche de sintetizadores que soterra o ouvinte no que pode ser uma nova direção para a banda: abrir mão das paredes de guitarras do shoegaze em favor de uma igual presença esmagadora de sintetizadores influenciados pelo synthpop. O último bom destaque é a Keep it All to Myself, que também dá predominância aos sintetizadores, com o adicional de um riff serpenteante e agudo de guitarra após os refrões que cadenciam a música, carregando de rancor a faixa.

IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é uma excelente obra para o catálogo do Twilight Sad. Sabendo explorar os elementos que definiram sua identidade, como a voz de Graham, o instrumental predominantemente grave e os andamentos cadenciados, a banda se aproxima de uma nova influência com os sintetizadores e teclados, entrando num território que possui um grau de parentesco com o post-punk que vinham praticando até então. É talvez um dos melhores discos da carreira do quarteto escocês e um resultado que dificilmente eles conseguirão repetir, mas tudo bem.

Ninguém conseguiria mesmo.

OUÇA: “Shooting Dennis Hooper Shooting”, “The Arbor”, “I’m Not Here [missing face]”, “Auge/Maschine” e “Keep It All To Myself”

Cloud Nothings – Last Building Burning


Em Turning On, de 2010, o Cloud Nothings flertava com um indie pós-punk bem típico da época, com guitarras fazendo referência a Strokes, Interpol e mais do mesmo daquele contexto. Em 2012, porém, com Attack On Memory, a banda de Cleveland mergulhou em um pós-hardcore com referências dos anos 80 e 90, se diferenciando pelo caráter experimental, marcante por um aspecto mais contido, menos “apressado”. Dois anos depois, Here And Nowhere Else seguiu a mesma direção de seu antecessor, porém mais tenso e entusiasmado.

O quarto disco da banda, Life Without Sound, no entanto, surpreendeu a todos quando lançado em 2016, logo após a eleição de Donald Trump. Apostando num som mais contemplativo, menos pesado, ficou o sabor de escolha errada para o momento. O que fãs e críticos esperavam do Cloud Nothings naquela situação era, mais do que nunca, a catarse que os diferencia.

Last Building Burning é evidentemente uma resposta ao álbum anterior. A banda volta a focar no peso e na fúria, o Cloud Nothings que nos acostumamos: direto, visceral, vulnerável. No universo caótico que é construído, algumas faixas parecem como um soco no estômago. “Dissolution” e seus mais de dez minutos de duração nos remetem diretamente aos seus dois maiores discos, anteriormente citados. Como bem notou o crítico Ian Cohen, da SPIN, nesse último registro a banda parece ter gravado dentro de uma garagem com um carro ligado. Dylan Baldi, vocalista e líder da banda, aposta em uma abordagem niilista, deixando-se levar por seus pensamentos mais sombrios: ‘They won’t remember my name, I’ll be alone in my shame‘.

Toda crueza de Last Building Burning, no entanto, acaba por vezes esbarrando em um punk-pop noventista um tanto datado. De qualquer forma, é ótimo encontrar uma banda capaz de reconhecer seus tropeços e buscar um caminho, dentro de sua própria discografia, para reencontrar sua identidade.

OUÇA: “In Shame”, “Dissolution” e “So Right So Clean”

Wild Nothing – Indigo


O quarto álbum do estadunidense Jack Tatum sob o nome Wild Nothing já dá seu recado no refrão do lead single, “Letting Go”: ‘Letting go / I wanna be happier now / I wanna be more than closed‘. A atmosfera que surge neste trabalho é leve e alegre, em muitos momentos causando surpresa para quem já acompanha o trabalho do Wild Nothing.

Ritmos alegres e batidas acentuadas no dream pop dançante marcam Indigo. A proposta se encaixa na discografia como uma continuação do álbum anterior, Life Of Pause (2016), mesclando momentos em que hora se conecta mais com o trabalho passado e momentos em que aponta a nova direção que Tatum vem seguindo. Em algumas canções, como por exemplo, “Canyon On Fire”, vemos a mistura de guitarras marcantes e batidas sintéticas já características do Wild Nothing. Em outros momentos, como em “Letting Go”, esta atmosfera dualista se desfaz em ritmos e arranjos quase que festivos. O clima alegre predomina, sendo a principal marca do álbum. 

O que inicialmente indica que há algo interessante e inovador em Indigo, logo frustra as expectativas. Logo após a primeira faixa, os bons momentos do álbum acabam diluídos em um marasmo persistente onde o conjunto acaba soando fraco e repetitivo, abusando de refrãos pegajosos. Apesar das tentativas de sons progressivos e texturas distintas, o pouco contraste nas canções acaba predominando, fazendo do álbum um trabalho pouco marcante. O clima alegre, no fim das contas, acaba se mostrando algo superficial e cansativo.

Indigo acaba sendo um dos trabalhos mais fraco de Tatum. Apesar de representar uma passagem de sons mais obscuros para algo alegre e ensolarado, isso se da de forma pouco interessante, entediando o ouvinte pela repetitividade das faixas. Acredito que o lado bom do álbum possa ser a direção para trabalhos futuros que ele indica. O Wild Nothing dificilmente desaponta. Vale a pena esperar o próximo capítulo.

OUÇA: “Letting Go” e “Shallow Water”.

Speedy Ortiz – Twerp Verse


Os anos 90 acabaram, voltaram e já se transformaram em vintage. Muitas tendências ainda estão dando a cara por aí em revistas de moda ou álbuns de bandas de músicos de vinte e tantos anos. Nem todas as modas que fizeram seu retorno são tão boas quanto a pochete e as referências do Speedy Ortiz.

A clássica camiseta de Kim Gordon dizia que as garotas haviam inventado o punk rock, e não os homens. O Riotgrrl com certeza foi a maior prova dessa afirmação. Em tempos de internet e empoderamento feminino, nada consegue chegar perto da força que as feministas punk dos anos 90 tiveram.

Em uma era de infestação de divas pop que tem pouco a dizer e bandas  de pop punk que choram sobre garotas que supostamente arruinaram suas vidas, o Speedy Ortiz se faz extremamente necessário. Apesar de não ser totalmente formado por garotas, a temática e genética da banda são extremamente femininas. Twerp Verse é a prova de que ainda é relevante falar sobre coisas que dizem respeito a nós mesmas.

Buck Me Off” inicia  álbum com uma rebeldia do britpop e distorções do grunge. A sonoridade do trabalho como um todo não foge disso, uma zona de conforto que deixa um pouco a desejar. De qualquer forma, as letras de cada música conseguem se destacar mais do que seu som, o que pode atrapalhar alguns ouvidos que não querem somente palavras para refletir. “Lucky 88” é a música mais pop, mostrando boa parte do potencial vocal da banda e seu carisma orgânico.

Can I Kiss You?” é um filho da fase In Utero do Nirvana, uma reprodução que não é nem um pouco incômoda. Um lugar seguro, talvez uma lembrança que pudesse ir até um pouco mais fundo, buscado mais elementos que encaixariam-se bem no restante do álbum. Sinto um pouco de falta do peso de Major Arcana, uma vontade de mais pulmões e punhos. “You Hate The Title” é uma adição interessante, mas um pouco na contramão do que o álbum apresenta.

Apesar de ter a voz de uma garota vestida de kinder whore [moda típica das riotgirls lá pros anos 90], Sadie Dupuis não soa como uma adolescente. Suas reflexões em “Twerp Verse” não ficam apenas em reclamações sobre homens imaturos ou militância explícita. A sensibilidade ao tratar de assuntos como assédio sexual de uma forma não demagógica e real, como em “Villain”, é impressionante. A quebra da “quarta parede” em I’m Blessed [I’m blessed with perfect pitch/ I waste it on songs that you never even heard of“] com certeza desafia o ouvinte a apertar o botão de repeat.

OUÇA: “Can I Kiss You?”, “Villian”, “Lucky 88”

A Place to Bury Stangers – Pinned


Desde 2012, com Worship, o APTBS vem se aproximando de melodias mais tradicionalmente harmônicas. Uma tendência que se intensificou no disco seguinte e atinge o ápice em Pinned. Ainda podemos ouvir aqui aquela banda dos primeiros discos, mas é inegável que as prioridades da banda mudaram. Simplesmente fazer uma parede sonora com a força mais abrasiva possível não parece mais ser suficiente, e é fácil imaginar que alguns fãs mais apegados aos dois álbuns iniciais da banda sintam que está faltando algo. Realmente, o som de Pinned parece distante, mais abafado do que o normal. Como se, para não exagerar na violência, tivessem gravado atrás de uma retenção acústica, ou como se ouvíssemos um ruído altíssimo, mas de longe.

Essa distância, no entanto, traz um elemento que enriquece a sonoridade que a banda se propõe a construír. É mais fácil ouvir e entender a riqueza de detalhes quando nos afastamos um pouco. Com isso, APTBS se aproxima ainda mais das suas influências no shoegaze, dream pop e, particularmente, no post-punk. Qualquer uma dessas três categorizações parecem ser mais apropriadas para Pinned do que o noise rock com o qual eram rotulados anteriormente.

O conjunto de faixas é bastante coeso e de qualidade. Mesmo os elementos mais inesperados, como uns bons segundos ao som de uma furadeira, não parecem estar fora de lugar, mas antes lembram acenos à sua fase mais experimental. E representam momentos de inflexão no álbum, já que a estrutura da maior parte agora dá uma guinada a sonoridades mais palatáveis. Não que vá chegar às rádios que só tocam pop, longe disso, mas Pinned pode ser um bom ponto de entrada para quem não conhece a banda, ou quem tinha alguma ojeriza pelo excesso de ruído e de volume. Os riffs tem um espaço maior aqui do que em qualquer trabalho da banda, o que os torna, se não cantaroláveis, ao menos marcantes.

Esse quinto álbum reforça a impressão de que A Place to Bury Strangers é uma espécie de Jesus & Mary Chain dos anos 2000. Não só porque os experimentalismos de ambas fazem parte de um mesmo ramo que une o post-punk ao indie contemporâneo, mas porque agora podemos ver paralelos também na sua carreira. Assim como os J&MC acabou por se encantar das melodias mais convencionais, ainda que sem deixar sua identidade por completo, APTBS também parece ter atingido uma fase mais preocupada com o que podem fazer com sua música além de exprimir o caos e quebrar paradigmas. Pode ser uma forma de maturidade perceber que não podem continuar fazendo a mesma coisa de sempre, mas, felizmente, sem deixar de serem quem são.

A fraqueza de Pinned talvez seja até a de não se entregar tanto à harmonia e cultivar a dissonância. Falta uma faixa com a força que “You Are The One” teve em 2012, por exemplo. Um dos fatores fundamentais para isso é que as letras não estão particularmente fortes, tendendo a ficar num campo muito genérico. Ainda assim, provavelmente é o melhor álbum da banda até aqui. E, para os fãs, vale a pena ouvir a versão estendida, de mais de uma hora, que tem mais elementos que remetem à fase pré-Worship.

OUÇA: “I Know I’ve Done Bad Things”, “Situations Changes”, “Act Your Age” e “There’s Only One Of Us”

Preoccupations – New Material


Cada vez mais a tendência da música é voltar ao passado, utilizar uma ideia da época escolhida e fazer com que tal sonoridade alcance lugares que não alcançou em seu tempo. A volta de estéticas antigas, desde as cheias de neon dos anos 80 até as mais grosseiras dos anos 90, moldam diversos trabalhos não só na música, mas também na cultura pop em geral. Então, com isso o ciclo cultural retorna pro ponto original e a frase ‘old school is the new cool’ não soa mais tão errada.

Preoccupations (antiga Viet Cong) faz parte do revival post punk que vemos em massa desde o início dos anos 2000, logo não deveria mais nem ser tão essencial pra uma resenha falar sobre essa wave. Mas o caso aqui é que, de álbum em álbum, a banda mergulha cada vez mais em suas influências. Se antes eles seguiam o som de riffs angulares e pontudos de bandas como Gang of Four revestidos pela melancolia de outras como The Cure e Echo and the Bunnymen, nesse álbum tal melancolia se torna o foco. Com a angustia claustrofóbica catártica de músicas como “Espionage” e o aparente desapego emocional demonstrado em looping no refrão de “Disarray”, é difícil não se lembrar da sonoridade carregada do Joy Division.

Mas o diferencial desse trabalho é exatamente esse afastamento de um som mais energético pra investir em uma experiência mais “pesada”. Com o destaque de baixos e baterias cavernosas e vocais amargos, a guitarra deixa de ser o foco da música, trabalhando em conjunto com o resto para criar um clima mais obscuro, criando uma tensão em canções como “Doubt” e “Antidote” com um ritmo mais lento e calculado que se arrasta demais em certos pontos, perdendo a adrenalina que a banda passava posteriormente.

Porém, o álbum brilha mesmo em momentos em que se solta mais, criando melodias com um teor pop que tem a medida suficiente de bizarrice pra não ser radio friendly, como em “Disarray”. E no fim, a constante alternação em sua tracklist entre o desinteressante e o cativante, acaba removendo um possível clímax, ou qualquer motivo pra ouvir o álbum inteiro em uma tacada. Mas se quiser pegar algumas das músicas sugeridas abaixo pra ouvir, elas tem força o suficiente para manter qualquer entusiasta de post punk entretido.

OUÇA: “Disarray”, “Espionage”, “Decompose” e “Solace”

The Men – Drift


Em corridas de média e longa distância existe um elemento essencial à vitória que nem sempre é mencionado com a importância devida: a consistência. De nada interessa a um corredor de maratona ser o mais rápido ou o mais ágil. No final, um fundista que não mantém consistentemente o desempenho não completa a prova.  Começar algo, afinal, é muito fácil do que mantê-lo.

Essa é a primeira sensação que é despertada quando Drift, novo disco do The Men, chega ao fim. Sétimo disco de estúdio do quarteto nova-iorquino de punk/post-punk, Drift se assemelha a um corredor de cem metros rasos em uma corrida de quarenta e dois quilômetros: é dada a largada e, depois de um trio de faixas que compõem possivelmente uma das melhores aberturas de disco de 2018 (pelo menos entre bandas de rock), o impulso se perde em passagens fracas e pouco criativas até acabar numa nota decepcionante.

Se fosse um carro, Drift, ironicamente, seria um dragster.

Depois do tiro de largada, em que a banda joga toda a sua mão, revelando um leque de influências variado e profundamente instigante, no restante do álbum as faixas vão pouco a pouco perdendo fôlego e se deixando ultrapassar, até finalmente cruzar a linha de chegada em um arrastamento melancólico.

Seja na mistura de baixo robusto e bateria sólida de post-punk com uma batida eletrônica, que emolduram os metais dissonantes e o vocal teatral da faixa de abertura, “Maybe I’m Crazy”, ou na sincera influência de jazz, com o baixo melódico e a guitarra aguda e melancólica da música seguinte, “When I Held You In my Arms”, a banda parece desesperada por tomar a frente e se colocar na dianteira, ainda que não consiga manter o ritmo depois. O apogeu do disco chega na terceira faixa “Secret Light”, que abre com uma percussão quase selvagem logo acrescida de um piano que ao mesmo tempo traz à lembrança o instrumental de bebops e cria um senso de pressa na música. Os vocais sussurados, quase em segundo plano, somados ao baixo e a instrumentos de sopro, dão personalidade à faixa, de longe o ápice criativo do disco.

Depois da terceira faixa, a banda perde intensidade, com cada música seguinte sendo quase uma analogia ao corredor que dispara na frente e depois vai se vendo perder posições, adversário depois de adversário, sem ter mais forças para tentar se manter na dianteira. Passando pelo folk pouco criativo de “Rose On Top Of The World” e “So High”, para o hard rock genérico e monótono de “I Killed Someone”, o que parece predominar no álbum é uma série de músicas que estão ali com o único propósito de preencher o disco.

“Sleep”, a sétima faixa, se torna o último impulso de um corredor já não tem mais esperanças de vencer mas ainda quer provar para si mesmo que é capaz de encerrar a prova com força. Voltando à influência de blues e folk, a composição simples, apenas com violão e gaita, criam uma atmosfera espectral, que envolve o ouvinte e quase conjura as imagens de um deserto de terra vermelha e um cavaleiro assombrado e solitário. A aura fantasmagórica mostra a competência da banda em criar uma atmosfera.

É irônico que logo em seguida entre a teatralidade preopotente e exagerada de “Final Prayer”, com elementos pesados e repetitivos que parecem ansiosos em criar a sensação de um clímax assombroso e sufocante, mas que deixam a impressão de uma banda que se levou a sério demais.  A última faixa, “Come To Me” mal parece merecer ser mencionada a não ser como uma versão mais preguiçosa e repetida de “Sleep”.

Ao fim e ao cabo, Drift tem o sabor agridoce de uma derrota que parecia vitória. O disco apresenta, ao longo de suas quatro melhores faixas, as influências e a inventividade para criar um trabalho explosivo e tridimensional, mas essa energia é pouco a pouco perdida a cada composição repetitiva. No fim da audição, o sentimento é de que existe um potencial pra explorar e falta o fôlego. Não é a conclusão mais agradável, mas não existe solução numa corrida a não ser seguir adiante com mais força.

OUÇA: “Maybe I’m Crazy”,  “When I Held You in my Arms”,  “Secret Light” e “Sleep”

No Age – Snares Like A Haircut


Lembram quando lá por 2009~2010 houve uma cena considerável de bandas que estavam resgatando as guitarras distorcidas vindas do shoegaze e punk que permearam uma boa parte da música – desde o indie pop até o experimental? Bandas como The Pains of Being Pure at Heart, Japandroids, Best Coast, Wavves e Dum Dum Girls até os menos conhecidos Helen Stellar, Air Formation e Male Bonding. No meio dessa cena, uma das bandas mais memoráveis foi o No Age e seus incríveis Nouns e Everything In Between.

O No Age, dupla formada por Randy Randall e Dean Allen, mistura essa tal distorção com uma força punk agressiva e sensibilidade melódica tornando-os um dos principais nomes do gênero. Mas como nem tudo é perfeito, seu último trabalho havia sido o chatíssimo An Object, lançado em 2013. Pouco tempo depois veio o hiato e a banda ficou sem dar sinais de vida por alguns anos, até agora quando anunciaram, no final do ano passado, seu novo álbum Snares Like A Haircut e o single “Soft Collar Fad”.

O single em questão parecia bastante promissor e mostrava que talvez o No Age houvesse se recuperado do deslize que foi o último trabalho; mesmo sendo uma música um pouco mais calma para os padrões da banda, trata-se de uma volta ao seu punk melódico característico. As coisas estavam se encaminhando para uma bela volta. É uma grande pena, então, que o resto do álbum é bem sem graça.

Snares Like A Haircut é um álbum sem emoção nenhuma. Salvo pouquíssimas exceções, o disco parece sem vida e arrastado com vocais preguiçosos e instrumentais, por falta de outra palavra, chatos. Falta explosão, falta vontade. É como se Snares Like A Haircut existisse apenas por uma obrigação, não por que a banda quis fazê-lo de verdade e estivesse se divertindo enquanto o construía. A impressão que fica é que toda a originalidade da banda ficou lá em 2010.

Snares Like A Haircut é completamente esquecível e sem vida, a volta do No Age depois de cinco anos sem material novo se mostra uma verdadeira decepção. Algumas bandas possuem prazo de validade, sendo só boas e/ou relevantes dentro de um contexto e momento histórico específicos. E esse é o caso do No Age, que em 2018 não parece ter mais nada de interessante pra mostrar.

OUÇA: “Soft Collar Fad” e “Cruise Control”.