Orchestral Manoeuvres in the Dark – The Punishment Of Luxury


Uma das questões que aparece em diversos artistas e obras é a separação entre mensagem e aparência, ou forma e conteúdo. No caso da música, o que acontece é  dicotomia letra e música. No mais recente trabalho do Orchestral Manoeuvres In The Dark (OMD) essa separação simplesmente não existe. É impossível entender os instrumentais sem as letras e vice-versa.

Desde registros mais antigos, a questão da tecnologia no mundo ocidental e as implicações que isso traz já dava as caras no trabalho do OMD e em The Punishment of Luxury, a mensagem é que, embora você possa trazer o que quiser até si com um simples digitar do teclado, a tristeza ainda paira em toda a atmosfera da condição humana.

Já na faixa de abertura somos expostos ao tom que o álbum vai ter. “The Punishment of Luxury” canta que a punição pela arrogância e luxúria humana chegou há muito tempo e se torna pior a cada dia. A mensagem ganha força com a ironia em utilizar sintetizadores, um alto aparato tecnológico num beat e melodias altamente pop e pra cima.

Uma falha do álbum é a forma como as camadas de som em algumas faixas são construídas. “Robot Man” e “As We Open, So We Close” são claros exemplos disso. Embora o resultado final sejam melodias legaizinhas que ficam grudadas na sua cabeça por dias, não existe hierarquia entre os diversos instrumentos e synths, dificultando um pouco a compreensão dos elementos que formam cada canção.

Uma característica interessante do trabalho do OMD é a construção das músicas com elementos pouco usuais. Em “La Mitrailleuse” o som de armas é utilizado para construir não apenas ritmo mas melodia de uma maneira muito criativa.

Mesmo sendo uma banda antiga com o primeiro álbum datando de 1980 e utilizando uma estética new wave/synthpop da primeira geração do estilo, o OMD não é de forma alguma uma banda que tenta fazer algo retrô. Apresentando seus conceitos através de uma estética antiga, o grupo mostra que é possível passar uma mensagem relevante nesse estilo sem apelar a referências baratas.

OUÇA: “The Punishment of Luxury”, “Art Eats Art”, “La Mitrailleuse” e “The View From Here”

Blondie – Pollinator

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Com 40 anos de carreira, Blondie é uma banda que não precisa de apresentação. Pensar em Blondie é pensar imediatamente em “Heart Of Glass” e “One Way Or Another”, músicas cheias de batidas e ritmos contagiantes, com uma sonoridade que não envelhece. Com Pollinator, essa tendência tem continuidade: chega a ser um choque lembrar que Debbie Harry, a icônica blondie, hoje tem 71 anos de idade. Não é uma característica que ela deixa transparecer na voz, porém. O vocal de Debbie tem tanto vigor nas onze faixas deste 11º álbum quanto tinha nos anos 1970.

Em Pollinator, a banda conta com uma série de “convidados especiais”, que aparecem em colaborações ao longo do álbum – os convidados vão de Sia a Joan Jett, de Charli XCX a Johnny Marr. Mas é quando a banda reafirma sua identidade, soando inegavelmente como o Blondie que conquistou seu público – caso de músicas como “Doom Or Destiny” e “Long Time” – que este álbum brilha de verdade.

O que não quer dizer que as parcerias foram um equívoco – há sim, aqui e ali, uma sensação de que talvez falte um pouco de uniformidade ao álbum, mas é algo inevitável, dado a proposta do disco. Nem por isso Pollinator deixa de ser um bom álbum do Blondie – ouvir as onze faixas sem querer sair dançando e cantando junto com Debbie Harry é um desafio e tanto.

OUÇA: “Long Time”, “When I Gave Up On You” e “Love Level”.

Drowners – On Desire

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O primeiro álbum que trouxe Drowners perante os holofotes da música indie popular não deixou claro a intenção da banda ou a direção para que estava seguindo. Acabaram por ser mais uma banda de um álbum só que algumas pessoas escutaram e curtiram, e era isso. Or was it?

On Desire procura dar um novo rumo ao projeto, apresentando melodias mais complexas e maduras. Com o som no último álbum repleto de influências de outras grandes bandas de indie rock ‘atual’ como The Strokes, The Libertines e The Vaccines, é notável a mudança no estilo da banda.

Incrementaram elementos icônicos como as batidas ressonantes da bateria acompanhadas de acordes no violão e base mais apagada no sintetizador. Receita clássica dos anos 80, aprimorada por uma banda inglesa que serve de inspiração para Drowners: The Smiths. É possível identificar essa admiração na música “Human Remains”. Feche os olhos ao escutar essa faixa e (procurando ignorar a ausência do sotaque inglês) você se sentirá em Londres, na época em que ombreiras e mullets não eram um suicídio social.

O tom da banda nova iorquina tornou-se mais obscuro e profundo, tanto na melodia composta por uma base de sintetizadores e baixo mais sombrios, vocais mais depressivos (lembrando mais uma vez aquela banda inglesa) e momentos iluminadores na guitarra que permitem uma respirada em meio a melancolia. Isso em si não é um problema. A confusão ocorre quando músicas mais agitadas entram em conflito com o tom depressivo de outras músicas, tudo no mesmo álbum, tornando-o um tanto inconsistente.

Se a intenção era que esse álbum firmasse Drowners em seu posto no cenário da música indie popular atual, não foi uma missão bem sucedida. Apesar de haverem momentos memoráveis no álbum, existem faixas que não encaixam muito bem na proposta. E, embora tenham amadurecido musicalmente, a mudança de um ritmo mais eloquente e acelerado do álbum de lançamento há mais de 2 anos atrás para a calma e maturidade de On Desire acaba sendo um balde de água fria para os fãs que se apaixonaram pela primeira imagem da banda. Assim como o a capa do álbum, o que o futuro reserva para Drowners é aberto a interpretações, incerto.

OUÇA: “Troublemaker”, “Human Remains”, “Another Go” e “Pick Up The Pace”

Ladyhawke – Wild Things

LADYHAWKE

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É só um artista sair da fossa e lançar um material novo realçando sua felicidade para que detratores comecem a criticar simplesmente pelo fato de as músicas inéditas não serem mais tristes como as anteriores. Esse tipo de avaliação não é o que a Ladyhawke merece, já que o 3º álbum dela é tão consistente e satisfatório quanto os anteriores.

A cantora nativa da Nova Zelândia começou chamando a atenção por conta de músicas com uma pegada retrô, lançadas no debut My Delirium. Depois de alguns anos, foi a vez de conhecermos um lado mais sombrio de Pip Brown, nome da cantora. Com Anxiety, muitos demônios que dominavam a mente da artista foram explorados em canções mais calmas, mas bastante inquietantes.

Depois de superar a bad causada por decepções e frustrações, principalmente devido à etapa em que se afundava em álcool, Ladyhawke deixou Londres para morar em Los Angeles, casando-se e alcançando uma felicidade que ajudou a jovem a retomar seu lado divertido com força total, refletido no seu álbum mais recente, denominado Wild Things.

Como não poderia deixar de ser, os vocais no novo álbum continuam suaves e sedutores, remetendo a La Roux em várias músicas, em função dos arranjos oitentistas. Não faltam synths e outros elementos que dão um ar vintage às músicas eletrônicas, bem como uma sonoridade que aposta no dream-pop. Assim, as músicas novas tornaram-se as mais radiofônicas da Ladyhawke até aqui. Canções como “The River” e “Golden Girl”, por exemplo, são apenas alguns exemplos de como a cantora conseguiu explorar o pop sem abandonar sua complexidade.

As letras continuam abordando inseguranças e corações partidos. No entanto, Wild Things possui uma vibração mais positiva e contagiante. Diante de tanta animação, fica difícil não cantarolar as músicas do álbum da Ladyhawke, que não deve nada a outros artistas cujas músicas causam o mesmo efeito, como Carly Rae Jepsen, CHVRCHES e MS MR.

OUÇA: “Let It Roll”, “Sweet Fascination”, “Money To Burn”, “Wonderland” e “A Love Song”.

Pet Shop Boys – Super

PETSHOP

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Os anos 80, especialmente no que diz respeito à música, formaram uma época muito peculiar e distinta, cujas influências e criações são facilmente reconhecíveis para quem as ver e ouvir. Muitas canções criadas naquela época são tão características que transportam o ouvinte diretamente àquele tempo. O Pet Shop Boys é uma grande parte dessa história, um dos maiores símbolos da era oitentista, especialmente em relação à música eletrônica. Porém, o que faz do duo uma banda especial é sua capacidade de se manter relevante e atual através das décadas, característica que só fica mais evidente com seu novo álbum, Super.

A dupla Neil Tennant e Chris Lowe, que irá completar incríveis 35 anos de carreira em agosto, é muito bem-sucedida em não deixar suas origens para trás, mas incorporá-las a tendências atuais: o que o Pet Shop Boys faz em Super, segunda etapa da trilogia iniciada em Eletric, é música eletrônica que traz elementos que vão agradar a quem acompanha a carreira da banda desde 1981 – o tradicional synthpop, junto de letras que por vezes emprestam tons sombrios às batidas dançantes, estão presentes como sempre -, mas que não esquece da geração atual. É impossível ouvir Super e não sentir vontade de dançar ao som das batidas de faixas como “Happiness” e “Undertow”.

O que não quer dizer que o último álbum do duo seja uma sucessão de batidas nonstop. Há um ou outro momento mais sereno em Super – embora sem nunca deixar a veia pop de lado. São esses momentos, e a mistura do passado e do presente, equilibrada de forma eficiente pelos eternos pop kids, que fazem deste disco mais um marco positivo em sua carreira.

OUÇA: “The Pop Kids”, “Twenty-something” e “Undertow”

Oberhofer – Chronovision

oberhofer

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O maior trunfo de Chronovision é, de cara, te colocar imerso na atmosfera do álbum. O instrumental de abertura que dá título ao álbum, um pouco destoante de todo o resto do disco é o ponto chave pra essa imersão e, conforme o disco avança, você sente como se tivesse caminhando por lugares desconhecidos, sendo guiado somente pelas melodias. Após gravar 106 demos em diferentes estúdios dos Estados Unidos, Brad Oberhofer e companhia escolheram 12 faixas para compor o trabalho.

Emendada na faixa-título, “Nevana” é cativante com uma pegada post-punk mais melódica e cumpre bem o papel de ser a primeira faixa cantada do disco e segurar a atenção do ouvinte. “Together/Never” vem na sequência com um riff marcante que explode aos poucos com a percussão ao fundo e uma letra simples que faz você ficar cantando por dias depois, com certeza a faixa mais carismática do disco.

O clima de empolgação segue até a metade do disco, quando “Sea Of Dreams”, reduzindo a velocidade do disco com uma letra meio triste, meio motivacional, que casa muito bem com assobios e a melodia do piano, acompanhados da bateria marcando os compassos da faixa. A canção seguinte continua muito bem a sequência mais pra baixo do disco que volta a acelerar logo em seguida.

A partir de “White Horse, Black River”, o disco acaba ficando meio monótono, repetição de estruturas e, tirando as letras e alguns poucos instrumentais mais empolgantes, o que vemos é mais do que já rolou na primeira metade do disco. Mesmo a faixa final, que reduz mais uma vez o tempo pra acabar, não tem o mesmo brilho das baladas anteriores.

O que acontece em Chronovision é começar muito bem e perder a força com o decorrer das faixas, cada uma com seus pontos altos e baixos, porém todas se encaixando muito bem dentro da proposta da banda e, embora repetitivo na segunda parte, não é de forma alguma cansativo e merece atenção pela forma como segura a atenção, mesmo com menos força do começo até o final.

OUÇA: “Together/Never”, “White Horse, Black River”e “Sun Halo”

 

Chvrches – Every Open Eye

CHURCHES

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“Throw me no more bones and I will tell you no lies this time”

Donos de um dos melhores discos de 2013, seu excelente debut The Bones Of What You Believe, os escoceses do Chvrches retornam agora em 2015 com o tão-temido segundo trabalho. O segundo disco é um período bastante delicado para a maioria das bandas, principalmente as que fizeram um sucesso grande, como é o caso do Chvrches, em seu primeiro álbum. É o segundo álbum que determina se a banda teve ‘sorte’ no primeiro ou se realmente possuem o talento para continuar em uma carreira boa. E, principalmente, é o segundo álbum que determina se a banda sabe caminhar a linha bastante tênue entre seguir fiel à sua estética e mostrar evolução ou apenas regravar o primeiro disco uma segunda vez. E o Chvrches? Fez tudo isso da forma certa, lançando o melhor segundo álbum que eles poderiam.

Se em The Bones Of What You Believe o Chvrches foi se introduzindo aos poucos, com as linhas de vocais e sintetizadores leves de “The Mother We Share” antes de te mergulhar completamente em “Lies” e “Science/Visions”, em Every Open Eye sua proposta é a oposta. O álbum começa com “Never Ending Circles”, já com os sintetizadores mais densos do álbum como se fosse uma continuação direta de seu anterior. Mas, ao decorrer do álbum, vemos um Chvrches que se mostra aos poucos cada vez mais otimista do que o de Bones.

A discografia do Chvrches até aqui, com apenas curtos dois álbuns, pode ser comparada a um mergulho. No primeiro, eles te introduzem à água e te empurram para baixo. No segundo, eles pegam sua mão e te puxam de volta à superfície. Essa transição já é completada na faixa quatro de Every Open Eye, a incrível “Make Them Gold”. A partir daí, vemos variações diferentes de um Chvrches otimista, leve e positivo. E isso é maravilhoso. ‘We are falling, but not alone. We will take the best parts of ourselves and make them gold‘.

Um dos maiores destaques de Every Open Eye é, com certeza, a faixa “Clearest Blue”. Com seu constante crescendo até explodir de uma forma bastante contida, não é difícil se imaginar correndo por um campo aberto tendo-a como trilha sonora. Também é possível trocar a ideia do campo aberto para uma academia dos anos 80 ou a gravação de um vídeo de jazzercise. E por falar nisso; o Chvrches sempre flertou com essa coisa música-de-academia (“Strong Hand”, “Now Is Not The Time”), mas agora pararam com o flerte e resolveram assumir o relacionamento, como visto em “Empty Threat”. E isso também é maravilhoso.

O Chvrches fez um dos melhores álbuns de 2013 com seu synthpop-com-quase-cara-de-shoegaze, e continuaram sua carreira com um dos melhores álbuns de 2015. Seu synthpop perdeu a quase cara de shoegaze, mas em seu lugar foram adicionados sintetizadores cristalinos, letras otimistas e um clima geral de positividade que não parecia muito comum ao Chvrches de antes. E isso é maravilhoso.

OUÇA: “Clearest Blue”, “Empty Threat”, “Make Them Gold”, “Bury It”, “Never Ending Circles” e “Playing Dead”

a-ha – Cast In Steel

aha

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Ombreiras. Laquê. Sintetizadores. a-ha é tudo isso e muito mais.

Nascido em 1982 na Noruega, o trio fez um sucesso estrondoso no anos oitenta com seu debut, Hunting High And Low, de 1985. O disco, que completou três décadas há três meses, é recheado de hits radiofônicos e clássicos instantâneos. É difícil (e quase impossível) olhar para música pop e para a new wave como um gênero sem reconhecer a importância de “Take On Me” e da faixa homônima. No início da era dos videoclipes, essas músicas têm uma importância não somente sonora, mas também visual, já que os respectivos videoclipes resultaram em vídeos icônicos que ainda hoje são relevantes, atuais, influentes e reconhecidos. Tente listar os melhores clipes da história e não incluí-los. É quase um sacrilégio.

Os outros trabalhos da banda, apesar de venderem graças ao primeiro disco, não tiveram força ou o impacto de Hunting High And Low. Cast In Steel é o décimo registro dos noruegueses e o primeiro depois do excelente Foot Of The Mountain, lançado em 2009. Foi com esse disco que o trio decidiu excursionar pelo mundo por uma última vez e despedir dos seus fãs. a-ha chegou ao fim.

Para logo voltar dos mortos esse ano.

Com show comemorativo no Rock in Rio, para celebrar trinta anos também da sua primeira apresentação no festival, fica a pergunta: do que vive a-ha? E eu respondo com toda a reverência de quem é apaixonado pelos hits dos caras: a-ha vive de passado. E não é ruim ou feio viver de passado, quando seu passado é glorioso. Quem dera eu ter dois dos maiores clássicos dos anos 80 no meu currículo. Nem eu e nem o público brasileiro mostramos ter problemas com isso: basta olhar o número de apresentações aqui no Brasil na última turnê dos caras: 7 show nas terras de Regina Casé, um número que se contrapõe às apenas cinco apresentações em toda América do Norte.

As doze canções de Cast In Steel estão estagnadas no tempo. Ignorando-se a qualidade de som e produção do primeiro disco, eu diria que não há muitas evoluções ou amadurecimento. E isso não é necessariamente ruim. Indo com as expectativas certas, o disco é bastante divertido, assim como a discografia do a-ha. Aqui não há músicas fortes como as do debut ou do álbum anterior, da mesma maneira que não existem músicas sofríveis.

A ingênua balada “Under The Makeup” é uma comparação sofrível: um amante que deseja ver sua amada sem nenhuma máscara, com a visão mais sincera. O piano ganha contornos com o violão e sintetizador até alcançar um refrão bobo que funcionaria perfeitamente dentro de um setlist ao vivo. “Cast In Steel”, que abre o recente trabalho, é a faixa mais forte e interessante que pode ser encontrada, cheias de toques eletrônicos que poderiam remeter ao ouvinte mais distraído o som do Owl City no começo da carreira. Distraído porque isso é a-ha em sua plenitude, sendo doce e brega. “Living At The End Of The World” é outro destaque, também pretensiosa, doce, calma e continua, onde o baixo agrada aos ouvidos e complementa a suavidade dos sintetizadores.

Quis muito ouvir esse disco e escrever algo ofensivo sobre como a volta aos palcos foi apenas uma sacada de marketing, mas me arrependi docemente. É que no fundo, no fundo eles também não estão se cobrando profundidade ou relevância: já romperam esse paradigma. O que é ser relevante na Indústria Cultural, principalmente volátil como o gênero pop? Talvez a relevância está me agradar aos fãs, ao nicho, coisa que o a-ha faz de sobra.

A primeira audição me agradou muito mais que a terceira, provando minha teoria de estagnação. Não é o melhor disco do ano, mas também não é o pior. Um trabalho divertido pra quem já cresceu o bastante para não se levar a sério.

OUÇA: “Under The Makeup”, “Cast In Steel” e “Living At The End Of The World”

Alpine – Yuck

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O território do pop é grande e nada homogêneo. E é isso o que o torna interessante: caso contrário, seria apenas puro entretenimento. Nada contra isso, mas culturalmente estimulante e, por isso, bom, quando o experimental abre alas para reflexões – sejam elas quais forem – e para a sinestesia. Aqui, entenda sinestesia como adaptar a trilha às sensações que ela te proporciona. Por exemplo: ouvir o novo álbum da banda australiana Alpine, para mim, foi como mergulhar em um quarto coberto de tintas candy color com alguns objetos de metal e materiais enferrujados.

Ao mesmo tempo, é bom simplesmente dançar e cantar refrões chiclete como se não houvesse amanhã. Estou me repetindo? Bom, o ponto aqui é: o álbum Yuck é mais um passo no amadurecimento do chamado indie pop. Parece audacioso para um grupo vizinho geograficamente ao Tame Impala querer seguir seus passos inventivos e conceituais? Talvez. Mas comparações assim nunca são justas, afinal.

Com faixas difíceis, como a introdutória “Come On” ou “Standing Not Sleeping” (talvez esses sejam os objetos de metal), e hits de baladas, tal qual o single “Foolish” e “Damn Baby”, o álbum traz diferentes referências musicais e abre mais espaço para o experimental do que o anterior A Is For Alpine. Mais bateria, mais guitarra, mais violão, mais violino – ainda que tudo isso, no final, soe repetitivo e seja fácil de decorar. Mas é por isso que chamamos de pop, não é?

Por ter duas vocalistas, Phoebe Baker e Lou James e suas vozes doces, a Alpine poderia ter explorado muito melhor diferentes linhas de vocais em seus trabalhos anteriores. E é por isso que o sexteto australiano ganhou muito com o novo álbum: a inserção de falsetes, coros, sussurros e interessantes lógicas tonais mostram que um trabalho refinado foi feito para trabalhar as duas vozes.

Além da maior exploração de instrumentos analógicos e novos efeitos de sintetizadores (aqueles materiais já enferrujados, que batem carteirinha em festivais  como SXSW e Lollapalooza), Yuck sofre ora picos energéticos, ora picos que beiram estranheza. E isso é tanto positivo – o ouvinte realmente se prende nas faixas e pode mergulhar nelas profundamente –, quanto negativo – seria o álbum apenas um teste para novas sonoridades?

Apesar de criar um universo único em cada faixa e menos unidade de álbum, Yuck parece uma intenção geral de experimentação e trilha pelo caminho mais previsível, porém mais justo de qualquer disco de indie pop: misturar e testar elementos para trazer ouvintes, e não cair no esquecimento após seu hit de balada ficar no passado.

OUÇA: “Foolish”, “Jellyfish” e “Standing Not Sleeping”

Wire – Wire

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A lendária banda de post-punk britânico Wire é uma das poucas do segmento que ainda consegue se manter atual mesmo depois de quase 40 anos de carreira. Depois de Change Become Us, de 2013 – um álbum que reúne músicas tocadas ao vivo de 1979 a 1980 que nunca tinham sido gravadas até então -, o Wire lançou um disco homônimo, mostrando nele sua capacidade de ser contemporâneo e clássico ao mesmo tempo.

Os destaques do disco são “Blogging”, música que abre o disco, “In Manchester” – com riffs de guitarra perfeitamente combinados com sintetizador e “Joust & Jostle”, que mostra claramente porque Wire é uma banda referência do post-punk underground.

Wire pode não se comparar a discos clássicos da banda – como Pink Flag ou Chairs Missing – e também não se destaca além do underground, mas não deixa a desejar em nenhum aspecto. Produção, composição e ordem das músicas são impecáveis, tornando o disco muito prazeroso de ouvir e mostra que, mesmo depois de quase 40 anos de carreira, o Wire ainda tem muito a mostrar.

OUÇA: “Blogging”, “In Manchester” e “Joust & Jostle”