Mundo Livre S/A – A Dança Dos Não Famosos


Uma das bandas expoentes do manguebeat lança seu nono disco como forma de pontuar sua posição em meio ao caos em que estamos vivendo. Com um instrumental sempre muito bem feito, letras políticas e interessantes – mas algumas machistas aqui e ali – os recifenses são conhecidos na cena alternativa pelas misturas e ritmos sempre bem casados.

A Dança Dos Não Famosos segue com tudo isso, mas está ainda melhor. “Batismo Nukgruuvk” abre o disco com uma combinação muito interessante com um rock pesado e ao fundo um coral de igreja tradicional.

“Meu Nome Está No Topo Da Sagrada Planilha” é a típica canção Mundo Livre S/A: letra sobre drogas e contestando a ordem vigente dos que podem e usam drogas intactos, com uma melodia dançante guiada pelo teclado e bateria.

O momento curioso do disco é inevitavelmente não associar “Special Manguechild” a várias canções do David Bowie. Fica uma linda quebra em um disco tão denso como este. Que logo volta a ficar pesado com a perspicaz Eletrochoque De Gestão: direito até a voz original do temeroso dizendo que não renunciará. Imperdível. Com certeza um dos grandes momentos desse ano.

Outro momento muito inspirado acontece com Vem Pra Rua Tomar Na Cabeça Um Passo Novoo clima soturno, batidas descompassadas e um piano incessante são a cama de fundo para “a democracia é uma ditadura disfarçada” dita por uma mulher de modo bem enfático e certeiro.

Clima que retorna em “O Passo Do $angue: Na Vidraça”: canção específica para o elenão e toda a gama de conservadores acéfalos que tentarão elegê-lo. E com direito a um final necessário e apocalíptico com o Vem Pra Pista Pórrám!”e a dançante e indignante “A Maldição (Das Páginas Que Não Viram)”.

Embora muito recente, e considerando a configuração política incerta do nosso país – o conservadorismo vai vencer nas urnas? – A Dança Dos Não Famosos se tornará, se não o melhor disco da banda, um dos que mais se destacarão na discografia.

OUÇA: “Meu Nome Está No Topo Da Sagrada Planilha”, “Eletrochoque De Gestão” e “A Maldição (Das Páginas Que Não Viram)”

Mahmundi – Para Dias Ruins


A caminhada de Marcela Vale, mais conhecida pelo nome Mahmundi, não é de hoje. Desde seu primeiro EP Efeito Das Cores (2012), Mahmundi tem crescido de forma notável e a cada novo trabalho é possível enxergar claramente seu desenvolvimento como artista e como pessoa. Nesse contexto, Para Dias Ruins, segundo álbum de estúdio da cantora, é o trabalho mais bem-acabado de Mahmundi e pode ser visto tanto como a culminação dos seus trabalhos anteriores quanto como uma pequena amostra do que será sua carreira musical daqui para frente.

Para Dias Ruins, ainda mais que seu predecessor Mahmundi, nos apresenta uma Mahmundi que aposta mais nos refrões e canta de forma mais marcante do que nos trabalhos anteriores. Do ponto de vista sonoro, o álbum recupera alguns elementos do pop rock brasileiro dos anos 90, colocando em evidência, em faixas como “Outono”, uma interação mais orgânica e direta entre guitarra, baixo, bateria e ocasionalmente o piano. Ao lado dessa influência, em faixas como “Alegria” e “Imagem”, o álbum mantém o uso dos sintetizadores e drum machines, um traço característico da trajetória musical de Mahmundi. Os sintetizadores são responsáveis por toda a harmonia nessas faixas e, junto com as drums machines, não oferecem uma sonoridade desconhecida dos ouvintes de Mahmundi, mas é possível identificar um uso mais polido e robusto desses instrumentos. “Imagem”, por exemplo, em alguns momentos lembra muito a faixa “Quase Sem Querer” do EP Setembro (2013), mas é musicalmente mais interessante e bem-acabada.

O álbum também traz novidades do ponto de vista musical, pois nele Mahmundi explora novos territórios musicais como o reggae em “Qual É A Sua?”, o MPB com elementos de bossa nova em “Eu Quero Ser O Mar”, a sonoridade mais eletrônica em “Felicidade” e uma mistura de MPB e pop no single “Tempo Pra Amar”. A faixa “Tempo Pra Amar” é o maior exemplo da evolução musical de Mahmundi, já que conjuga os sintetizadores que lhe são característicos com um formato mais próximo da música pop brasileira.

Para Dias Ruins é um álbum essencialmente alegre, pois celebra o amor e a calma, nos pede leveza em um cenário nacional pesado e duro, nos oferece um momento de tranquilidade e aponta para nossos amores, para aquilo que está por trás da tensão do nosso dia-a-dia, nos urge a valorizar quem está ao nosso lado em nossas vidas. É um álbum que traz um pouco da cara da nova música brasileira e pode ser ouvido em qualquer momento, inclusive e especialmente nos dias ruins, como sugere seu título. Mahmundi o lançou em um momento oportuno e nos chama a ouvi-lo com o coração aberto.

OUÇA: “Tempo Pra Amar”, “Eu Quero Ser O Mar”, “Alegria”

Carne Doce – Tônus


Eu optei por aguardar ao escrever sobre o novo álbum de Carne Doce, Tônus, terceiro disco de estúdio da banda goiana. Composições menos políticas, vocais menos gritados, instrumental menos afobado. A primeira impressão, um estranhamento saudosista. Inclusive, quem vai aos shows da banda com frequência, já havia experimentado algumas das inéditas ao vivo, e o sentimento que pairava era de curiosidade sobre o que viria no novo trabalho.

Passadas algumas semanas do lançamento, percebo o quão introspectivo, maduro e conciso o disco é. Salma Jô e companhia optaram por falar para dentro ao invés de para fora. Não há momentos catárticos, como “Artemísia” e “Falo” propunham no álbum anterior, Princesa, ou até mesmo “Passivo”, do disco homônimo.

Tônus fala sobre desencontros e impudores, de forma madura e autônoma, assim como a identidade visual do disco, com fotografias de Salma em meia arrastão sob luz negra, produzidas em conjunto com Macloys Aquino, guitarrista da banda.

As novas composições estão menos políticas, mas elas continuam expressando a assinatura de Salma: poesias dúbias e complexas, de diversas interpretações e construções individuais. Mesmo assim, o disco conta majoritariamente com letras sobre o ponto de vista feminino, desmistificando o tabu sexual, como em “Amor Distrai (Durin)”, parceria com Dinho da Boogarins, e ensejando arbítrio nas relações pessoais, como em “Nova Nova”, faixa escolhida como primeiro single.

Instrumentalmente, as linhas de baixo comandadas por Anderson Maia estão um absurdo, como em “Comida Amarga”, por exemplo, enquanto os sintetizadores de João Victor Santana, que inclusive produziu o disco, tomaram maior espaço.

O disco possui diversas camadas poéticas e instrumentais que são descobertas aos poucos pelo ouvinte, e essa é justamente sua beleza. “Golpista”, por exemplo, consegue nos fazer sentir angústia, medo e dúvida em uma única música, e por fim, ainda clama por esperança, por dias melhores.

Tônus é um disco que nos apresenta Carne Doce em sua forma mais genuína. É pele, é corpo, é sentimento. Propõem gostos amargos e agridoces, e conquista espaço a cada ouvida. Aliado à performance de Salma e sua trupe ao vivo, o disco tem potencial de se tornar ainda mais carnal.

OUÇA: “Comida Amarga”, “Nova Nova” e “Golpista”.

Gui Amabis – Miopia


Amarrando todos os seus trabalhos anteriores em um, Gui Amabis lança Miopia, seu quarto disco solo.

Assim como os anteriores, há participações especiais de seus amigos e parceiros de trabalho – Amabis é o produtor de artistas de renome da música brasileira atual, além de ser compositor de trilhas sonoras – que sempre acrescentam muitas lentes às suas composições. Desde Juçara Marçal até sua filha Rosa, de 9 anos – que desbancou a participação de Tulipa Ruiz na música “Quase Um Vinho Bom”.

Mantendo a linha desde Trabalhos Carnívoros (2012) – antes Amabis emprestava suas letras a outras vozes e ficava como um fio condutor de cada sonoridade –, Miopia traz a maioria das suas canções sendo configuradas pelas harmonias e arranjos bem pensados, sua voz serena e forte ao mesmo tempo (além, é claro, a de seus convidados) e as letras sobre o cotidiano urbano, as neuras que nos provocam e os sentimentos profundos com relação ao amor, a vida, suas injustiças, desigualdades e suas reflexões.

A atmosfera soturna é bem composta por instrumentos todos neste mesmo plano, conduzindo as músicas sem muitos sobressaltos. Sendo um produtor de grande experiência, Amabis sabe conduzir a fluidez entre as canções, há sempre um panorama sendo aberto a cada canção que se alterna durante a passagem e a duração do álbum. Os créditos de produção vão para Scotty Hard, engenheiro de som e produtor canadense já bem familiarizado com artistas da música brasileira como a Nação Zumbi.

Há momentos de Miopia em que vozes e instrumentos se sobressaem da melhor forma: Juçara Marçal e seu parceiro saxofone bem marcado formam uma dupla sensacional e dão ainda mais ênfase a letra forte de “Todos Os Dias”. Juçara aparece novamente no disco na esperançosa “Para Mujica” – entre as melhores músicas do álbum.

Algumas das músicas lembram outras composições espalhadas pelos seus trabalhos anteriores, participações em outros discos, ou como no caso de “Contravento”, que foi gravada pela Céu no belo Caravana Sereia Bloom (2012), e também “Miopia”, do disco homônimo (e único) dos Sonantes – seu projeto com seu irmão Rica, Dengue, Pupilo e a já citada Céu.

Embora não seja melhor que Trabalhos Carnívoros, Miopia é um disco curto, porém amplo em sonoridades. E só nos resta esperar que a criatividade de Amabis não se esgote, e que ele continue com essas parcerias que casam sempre tão bem.

OUÇA:  “Contravento”, “Para Mujica” e “Mais Um Whiskey”.

SILVA – Brasileiro


Já em seu título, Brasileiro, novo disco do cantor Silva, defende a tese de que seu autor quer proclamar seu lugar na música brasileira popular, e trazer tal matriz cultural para a linha de frente de seu trabalho. É ousado, pois tal posição convoca imediatamente comparações a uma sonoridade já consagrada, mas o cantor e compositor possui bagagem e simpatia o suficiente para cumprir a missão.

“Brasileiro” corre o risco de cair no enfadonho cliché do voz-e-violão tornado infame por uma geração de artistas sem carisma como AnaVitória, Tiago Iorc ou qualquer um que ouviu Nando Reis demais, mas o inegável talento de Silva faz com que boas comparações a Marisa Monte sejam mais aptas.

Além disso, é notável que ele faz mais do que simplesmente reproduzir o que nomes maiores já haviam feito. Em seu novo álbum, é possível ver uma roupagem atualizada da MPB para as sensibilidades dos jovens de 2018, consumidores de música pop internacional.

Afinal, provavelmente é isso que falta em seus contemporâneos: a coragem de homenagear seus ídolos, mas com personalidade e simpatia. É essa equação que resulta em canções que embalam a atmosfera de tranquilidade sem ser uma página em branco, como a lindíssima “A Cor É Rosa” e “Fica Tudo Bem” (na qual Silva resgata a bela voz de Anitta de sua aborrecida carreira internacional).

Então, é seguro dizer que Brasileiro consegue atender as altas expectativas que coloca sobre si, funcionando como um conjunto de canções charmosas escritas com arranjos minimalistas para exaltar o atraente timbre de Silva. O álbum é uma ótima adição ao repertório da música brasileira, fazendo um esforço para homenagear e repaginar um som reverenciado.

OUÇA: “A Cor É Rosa”, “Fica Tudo Bem” e “Prova Dos Nove”

Elza Soares – Deus É Mulher


Dispensando apresentações, uma das mulheres mais fortes que esse país tem lança mais um álbum, e que compõe muito bem esse ano (e essa época) que está repleto de ótimos trabalhos nacionais.

80 anos e verbalizando liricamente tudo o que nós não conseguimos fazer: posicionar-nos. Um verdadeiro safanão. Elza começa justamente jogando tudo. “O Que Se Cala” remete ao seu passado, essa sociedade que moldou (por certo tempo) o que a artista falava e como agia, mas que não faz mais. Agora – como sempre? – é a hora de falar o que deve ser dito, se reafirmar e ter o direito de não ser condenado por isso. “O meu país é meu lugar de fala” é o clamor da artista para que as minorias (que são a maioria) tenham o direito de existir e se posicionar sem serem reprimidos por isso. Ótimo início de obra.

Logo em seguida vêm a sensacional “Exú Nas Escolas”: liberdade religiosa e cultural no ensino já. Quebra de tabus são mais do que necessários. Além da mensagem imprescindível, esse funk ultra metalizado fica na cabeça. A combinação da batida, desse baixo e do riff agudo é perfeita.

A tríade “Banho”, “Eu Quero Comer Você” e “Língua Solta” é o momento em que esperávamos. Traduções da condição e do que é ser mulher nessa sociedade, mas ao mesmo tempo, de nós mesmas nos entendermos. Às vezes é difícil se entender, não é mesmo? Destaque pro baixo gorduroso como cama de fundo de “Eu Quero Comer Você” – assim como o de “Clareza” que surge mais adiante.

E a letra de “Língua Solta”, hein? Que sacada mais brilhante! Devemos usar sempre a nossa capacidade de falar “pelos ouvidos” – sempre condenada pelos homens, pra nos fazer calar – para nos ajudar. Dar atenção aos próprios sentidos e ter a língua solta é a solução.

“Hienas Na TV”, “Clareza”, “Um Olho Aberto” e “Credo” são as irônicas chamadas para que fiquemos espertas, e não caiamos nas armadilhas que nos cercam por todos os lados, e às vezes dentro de nossas mentes. Desde prestar atenção às mentiras que nos contam na TV, no discurso “ambientalista” (ecocapitalista) que quer desnaturalizar nossos comportamentos e até a religião. Nessas canções os elementos eletrônicos suscitam inclusive outras percepções e sentidos.

Tudo culmina perfeitamente na “Dentro De Cada Um” e “Deus Há De Ser”. “A mulher vai sair de dentro de cada um” é o futuro não muito distante e que apontará para novos caminhos nesses tempos que só nos impulsionam para abismos de incertezas.

Deus é Mulher é um disco importante para a música brasileira contemporânea, e escancara o óbvio: que Elza Soares é uma grande artista. Quantos musicistas chegam nessa idade e lançam trabalhos relevantes? Elza é uma rara exceção. Como se não bastasse toda a sua história e importância na nossa cultura, ela ainda nos dá mais motivos para reverenciá-la hoje em dia.

OUÇA: “Exú Nas Escolas”, “Eu Quero Comer Você” e “Deus Há De Ser”.

Juliano Gauche – Afastamento


Afastamento é o terceiro álbum do Juliano Gauche após o término da banda capixaba Solana.

Seu disco homônimo de 2013 e Nas Estâncias de Dzyan (2016) provaram que Juliano é um compositor de destaque nesses últimos anos na cena independente do tal rock nacional. Todas as canções destes discos são dignos de atenção.

Produzido por ele mesmo e por Catatau (do Cidadão Instigado), Afastamento tem o ritmo em certos momentos similar aos seus discos anteriores – mas com um pé maior no rock, mesmo que com menos vigor. Em entrevistas recentes, Juliano destacou algumas de suas influências para esse disco: desde Pink Floyd, o krautrock, a banda eletrônica francesa The Dø e até João Guimarães Rosa – a leitura de Grande Sertão: Veredas fez brotar a letra de “Pra Festejar Em Silêncio”.

Nesse disco, a presença de guitarras mais marcadas voltaram, as letras têm menor enfoque na astrologia, a voz e o andamento das músicas e do disco dão a ideia justamente de maior introspecção pois no geral são mantras, poucas são as canções cadenciadas, e tudo isso somado dá o clima soturno de isolamento pela distância e reflexão.

A primeira música lançada há algumas semanas foi “Pedaço De Mim”. Ao ler seu título e ouvi-la é inevitável não pensar na música de mesmo nome de Chico Buarque. Assim como fazer o comparativo da perspectiva da saudade entre os dois compositores – ou melhor, a ausência de saudade de Gauche. Enquanto a falta de alguém para o Chico é como a sua metade exilada e um membro amputado, para Gauche é a vontade de se livrar de uma vez de alguém/algo que não sai da mente – que se vai aos poucos e que ele não quer que volte. Ou quem sabe, ao mesmo tempo que se livra desse sentimento, se livra um pouco de si, que está conectado intrinsecamente ao seu passado ou estado de consciência que não deve estar presente mais.

E esse é o espírito do disco como um todo. A vontade de se afastar do passado, e percebê-lo com novos olhos, para também superá-lo.

Em uma época em que o retrocesso ao passado parece surgir toda vez em que assistimos a televisão, ou ouvimos conversas nas ruas, nos dá o medo iminente de que tudo daquilo que suamos para deixar pra trás possa voltar — justamente disso que se trata “Dos Cachorros Sisudos”.

Juliano continua com a tradição de sempre gravar a canção de um amigo em seus discos: no primeiro, “Sérgio Sampaio Volta” do Cérebro Eletrônico; no segundo, “1,99” de João Moraes; neste, uma das que mais se destacam, “Tem Dia Que É Demais”, do Gustavo Macacko, ex-Bloco Bleque.

No entanto, as letras não parecem mais tão redondinhas e geniais como as dos discos anteriores – “Dos Dois” e “Todos Esses Dias Estranhei A Nossa Vida” dão essa quebra indesejada. Seu disco homônimo ainda se destaca perante os demais em todos sentidos.

OUÇA: “Pedaço de Mim”, “Dos Cachorros Sisudos” e “Longe, Enfim”.

Chuva – Chuva


Se todos os estilos musicais fossem caminhos pelos quais as pessoas que ouvem e fazem música seguissem suas jornadas de autodescobrimento, seria numa esquina entre o emo e o folk que nós encontraríamos parado, sentado numa pedra e observando a paisagem, o disco Chuva, primeiro disco do projeto homônimo de Lucas Vasconcelos, conhecido antes por ser o vocalista da banda cult de emo Umnavio. Aqui, Lucas troca os gritos urgentes e as melodias diretas e enérgicas do emo e do hardcore por uma sonoridade mais despojada e simples, e também é o produto individual de Lucas, o que faz o projeto assumir uma personalidade mais concreta.

Além de ser o primeiro disco completo, Chuva é também o primeiro registro de inéditas do trabalho autoral de Lucas. Antes do álbum, ele havia lançado uma série de cinco eps com músicas que haviam sido gravadas no período entre 2006 e 2011. Em comparação com essas compilações, Chuva apresenta variações interessantes, em particular a adição de outros instrumentos ao projeto, como bateria, escaleta e trompete. Como se depois de muito tempo numa viagem solitária, Chuva houvesse encontrado companheiros na jornada que, muito como companheiros reais, oferecem um novo leque de possibilidades para o futuro da jornada.

Se nos EPs antigos a sonoridade de Chuva se aproximava em estilo e motivos à do Flatsound de Mitch Welling, o disco revela uma variedade maior de influências na formação da identidade artística de Lucas, ao mesmo tempo que move o projeto em direção a uma sonoridade mais característica e própria. A base característica de folk e emo recebe pinceladas de som que lembram de American Football, com o trompete, a um forró, graças à escaleta. O uso dos instrumentos que fogem ao padrão do folk/emo, inclusive, é um dos pontos fortes do disco.

Boa parte das faixas segue uma mesma estrutura: o vocal agudo e levemente juvenil de Lucas – resquício do emo – e o violão começam a música e seguem sozinhos por um tempo, até que o resto dos instrumentos se junta à harmonia e a música ganha em corpo e volume. A fórmula funciona com resultados variados, se encaixando melhor a algumas composições que a outras, em particular nas duas faixas iniciais.  “Estrada” é a faixa de abertura do disco e fala sobre o movimento de partida que a vida segue após uma certa idade, o crescendo do final da música pode ser comparado à urgência desse momento transicional da vida. Já “Bentinho”, música seguinte do álbum, enquanto repete a fórmula de abertura e também o uso de pausas em certos momentos da música, expande o modelo ao acrescentar os trompetes e ao passar o protagonismo do violão para a bateria, o que dá profundidade à música e confere relevo à voz de Lucas.

O principal destaque fica por conta de “Flocos”, que vai na direção inversa à das outras faixas – talvez seja esse um dos motivos da evidência  – e resume a música apenas à voz e ao violão na maior parte da faixa. É aqui também que a escaleta aparece, distanciando mais e positivamente essa música do resto das composições do disco e dando até mesmo ares de ritmo nordestino. O tema da letra, sobre a relação de Lucas com seu cachorro de estimação também foge ao convencional (e por um instante evoca “An Idea Is A Greater Monument Than A Cathedral”, do Empire! Empire!) e além da surpresa, apresenta o verso mais bonito do disco.

Naturalmente, Chuva não é sem defeitos. O modelo de composição, que começa com o violão e a voz e depois ganha a participação dos outros instrumentos é repetido em seis das sete faixas do disco, e acaba por soar formulaico. O recurso de pausa também é repetido em muitas das faixas, e nem sempre alcança o efeito desejado de interromper o movimento da música. As letras também em alguns momentos soam restritas e poderiam explorar mais outros temas ou outras construções sintáticas, como Lucas já mostrou ser capaz de fazer com o Umnavio.

Chuva é um bom disco, e um avanço importante das experiências que os primeiros EPs representaram, a composição de faixas mais longas e a adição de outros instrumentos são indícios do que o projeto pode explorar em próximos trabalhos. Resta talvez abandonar as seguranças e correr o risco de não seguir fórmulas. Ser adulto, como o próprio disco ensina, é deixar coisas para trás.

OUÇA: “Estrada”, “Bentinho” e “Flocos”

Anelis Assumpção – Taurina


Incrível como que a astrologia voltou com tudo. Antes os que entendiam ou gostavam muito desse conhecimento milenar se escondiam, ou não deixavam abertamente o quanto se interessavam. Atualmente isso muitas vezes rege relações, aprofunda afeições automaticamente, é utilizado por alguns como explicação pras mais variadas situações, etc.

No entanto, como disse Anelis em uma entrevista recentemente, não é somente sobre se identificar com seu signo que se trata Taurina. O animal do signo, a vaca, também é um símbolo que permite várias interpretações. Desde a vaca por si própria, o animal que se doa/é aproveitado por inteiro, até como animal sagrado em determinadas sociedades, e usado como xingamento na nossa.

Após quatro anos do lançamento de Amigos Imaginários, Anelis nos mostra o seu melhor disco.

“Mergulho Interior” é praticamente uma introdução para o que virá no restante do disco: “senta aqui comigo nessa pedra/azeite derrama teu cheiro/sedimenta/vamos dar um mergulho interior”. Taurina diz muito sobre a relação de mulheres e delas dentro das famílias. O ato de conversar na cozinha – lugar onde a compositora escreveu muitas das músicas nesse disco – enquanto preparam alimentos, sabendo das suas alquimias e propriedades.

E é nesse mergulho interior que afloram os sentimentos todos retratados nas músicas seguintes. E um dos mais fortes é a perda da irmã Serena em 2016: “Gosto Serena”, e talvez “Caroço” também. Com certeza duas das mais lindas canções.

Além das canções, entre elas são intercaladas conversas ao telefone, diálogos, devaneios, que nos fazem repensar certos aspectos, rir e/ou lembrar de conversas que temos com nossos amigos.

E ainda por cima, como sempre, o pessoal que toca com a artista é digno de nota. É inevitável não admirar a musicalidade deste álbum, como por exemplo, as melodias e vozes em “Moela” e a percussão e os sutis efeitos de “Escalafobética” e “Água”. Pelo disco inteiro ouvimos contribuições de João Donato, Céu, Russo Passapusso, Ava Rocha, Liniker e outros. Anelis participa de vários trabalhos de outros artistas, e vários outros participam dos dela.

Também conta com uma música do pai, Itamar, a “Receita Rápida” no final do disco. Um ótimo encerramento e síntese das relações declamadas.

O pessoal que criou a tal “nova MPB” com certeza não conhece artistas como Anelis. Ela está muito a frente das boas moças/bons moços tentando ser boas praças, com suas barbas da moda e tchubarubas, que ganham mercado pelo visual e pré-fabricados-hits-fofinhos. Precisamos reconhecer as mulheres fortes e realmente talentosas que não tem ‘vergonha’ de compor músicas tão boas e íntimas como “Chá De Jasmim”, ou seja, Anelis e Serena Assumpção.

OUÇA: “Mergulho Interior”, “Chá De Jasmim” e “Caroço”.

Francisco Okabe – Vital


Francisco Okabe é um musicista natural de Bauru, mas que vive e gravou todos os seus trabalhos em Curitiba pelo selo Onça Discos. Em 2016 lançou seu primeiro trabalho solo, o EP Ah Não Ser Eu Toda Gente E Toda Parte! que obteve certo reconhecimento na mídia independente.

E agora em janeiro lançou seu primeiro álbum solo, o Vital. Repleto de canções bem brasileiras, majoritariamente calcadas na bossa nova, o disco surpreende no instrumental e nas letras. Francisco mostra que é um estudioso do instrumento até na hora de chocar-nos com notas de certa forma fora de contexto na música “Reconstrução” – uma clara referência à música “Construção” de Chico Buarque. Com certeza uma das suas maiores influências.

Sem medo de falar das frivolidades cotidianas, como as memórias do Facebook ou vídeos no Youtube, ou então das mudanças pelas quais passamos na vida, ou dos receios mais profundos com relação à vida (“Mudanças”), ou dos problemas para compor músicas de sucesso e a indústria cultural (“Canção Qualquer”) o compositor se mostra como um excelente letrista. Com talento para compor canções que falam sobre a contemporaneidade mesmo que muito estereotipadas pelas suas épocas de ouro, quando o cotidiano das brasileiras e brasileiros eram completamente diferentes dos nossos dias.

Mas também deve-se fazer menção para as ótimas canções instrumentais como “Chorinho Novo Pra Waltel” e “Um Corpo Que Cai”. O ponto baixo é a tentativa de fazer um rap (“Camaleão”). Brancos fazendo rap no geral não ficam muito bons mesmo.

O destaque vai para “Desurbano”: um fusion bem brasileiro, com a melhor letra do disco. Diz muito sobre o caos urbano influenciando indivíduos, com ótimas mixagens de sons de trânsito, como buzinas, e também barulhos de aparelhos eletrônicos – às vezes se unindo aos metais próprios da música criando uma atmosfera sonora muito interessate. O que logo de cara poderia sugerir que o artista é de São Paulo, mas não, esse ritmo louco da vida urbana está homogeneizado por muitas cidades.

OUÇA: “Desurbano”, “Mudanças” e “Canção Qualquer”.