Dona Onete – Rebujo



Dona Onete lança o seu terceiro álbum de estúdio e torna ainda mais difícil para o seu público a tarefa de escolher um favorito. Desde os seus sessenta e poucos anos, a quase octogenária artista não trai as raízes que nutrem o seu estilo e através dos ritmos paraenses segue fazendo sua festa e contando suas histórias, mas nunca com o peso de soar repetitiva. Escutar as 11 faixas de Rebujo é prestar audiência a uma sabedoria popular que é, ao mesmo tempo, secular e cotidiana disposta em timbres orgânicos e modernos.

Em seu último lançamento, a artista apresenta uma variedade rítmica ainda mais abundante. Elementos do brega paraense, da batucada de terreiro, da cumbia latina, da guitarrada, do bolero, do swing, entre outros, engrossam o caldo da mistura carimbolesca que a artista faz. “Festa De Tubarão” é o single deste disco. Tem a cara do carnaval de rua. Marchinha animada e ornamentada com flores de jambu e cheiro de tucupi, é fácil de cantar e tem sua cota de duplos sentidos. Assim como os hits “Jamburana” e “Banzeiro”, essa faixa é forte candidata a fazer o gosto popular. No entanto, outras músicas também fazem sua campanha à conquista de ouvintes, é o caso de “Mistura Pai D’égua”, “Fogo Na Aldeia” e “Balanço Do Açaí”.

Nesta última, a guitarra confere à faixa uma densidade rockeira que não se faz ruidosa, mas aumenta a tensão do contexto das inconveniências da colheita do açaí. Ainda na primeira faixa, “Mexe, Mexe”, é possível identificar elementos rítmicos do funk que reforçam o atestado de saliência da Rainha do Chamego. Já em “Musa Da Babilônia”, com a participação de BNegão, o ritmo popular paraense conversa com o samba carioca para exaltar a beleza não de uma garota de Ipanema, mas de uma sereia do Leme, “negra, negra, negra, negra”.

Em “Mexe, Mexe” e “Vem Chamegar”, enquanto convida à dança, Dona Onete faz mistério quanto a essa substância que se produziu em solos amazônicos a partir da miscelânea histórica, isso que é “coisa de branco/de índio e de negro”. Esta temática se faz presente, seja como figura ou fundo, ao longo de todo o álbum. Além disso, ela que é a rainha do assunto, ainda encontra espaço para dar provas do seu chamego, disso que resulta da riqueza cultural e folclórica que banha a artista e o Pará, e que se estende por onde passam os rios dessa terra.

Se por um lado a presença de significantes como “cacuri”, “juriti”, “iraúna”, “suí”, “tucandeira”, “tracuá”, representa uma referência identificatória para os nortistas, por outro, instiga aqueles que não estão familiarizados com o termo. A experiência de ter o toque da palavra desconhecida nos ouvidos se traduz em outra força atrativa ao disco. A novidade é sempre excitante e levanta questões: “que diabo é ‘rebujo’?”.

Rebujo é o movimento que faz subir aquilo que se assentou no fundo das águas, voltando à superfície. Pode-se dizer que é nisso que reside a sua popularidade e o sucesso do trabalho da artista. Ao exaltar as delícias rítmicas concebidas no Norte, ao cantar a cultura popular e cotidiana dos paraenses, ao construir cenários de bregas românticos, sempre usando o abastado dialeto dessas terras, Dona Onete está no front dos artistas que se dispõem ao resgate da musicalidade folclórica e regional e conta com uma gama de músicos talentosos para construir seus arranjos, incrementando estilos e ritmos que conferem robustez sonora. No entanto, isso também pode ser interpretado, do ponto de vista criativo, como uma repetição da forma; interessante enquanto novidade, mas extenuante em sua continuidade prolongada.

Assim, embora o disco seja recheado de boas e marcantes faixas, há também aquelas que passam, e só. Convido o leitor a escutar o disco e identificar por si quais são. Mesmo que possa haver divergências críticas quanto ao valor da obra de Dona Onete, dificilmente ocorrerá um debate a respeito disso em meio à folia das ruas, mais fácil seria se jogar na bagaceira. Enfim, fato é que, mais uma vez, esta senhora faceira nos mostra sua habilidade em condensar suas referências musicais com as profundezas de sua origem, construindo uma identidade artística sincera na medida em que é tradução da identidade de Ionete Gama, a professora aposentada. Ela é o que ela canta.

OUÇA: “Festa Do Tubarão”, “Balanço Do Açaí”, “Ação E Reação”

As Bahias e A Cozinha Mineira – Tarântula



Nessa altura da vida, acredito que a maravilhosa banda As Bahias e a Cozinha Mineira dispensa grandes apresentações. O trio já nos presenteou com os incríveis álbuns Mulher (2015) e Bixa (2017) e agora chegam em seu terceiro trabalho de estúdio, Tarântula. E as coisas continuam seguindo como era de se esperar, só que quase.

Em um mundo utópico, o fato de que Assucena e Raquel são travestis não deveria importar em absolutamente nada, mas a realidade não é essa. Para nós LGBTs a mera existência sendo quem é já se trata de um ato político, principalmente em nosso cenário atual, e isso é ainda mais verdade para a população T. E as duas levantam essa bandeira com muita força toda a oportunidade que têm, e isso é absurdamente necessário e algo incrível. Em sua música não é diferente, e aqui isso acontece mais do que nos trabalhos anteriores.

Mulher foi marcado por músicas épicas como “Apologia Às Virgens Mães” e “Uma Canção Pra Você (Jaqueta Amarela)”, mas é “Reticências” e “Josefa Maria” que realmente representam o álbum: uma gama gigantesca de influências e uma constante mudança de direção e ritmo, muitas vezes na mesma música. Em Bixa, foram adicionados elementos eletrônicos e uma produção mais pop acessível, mas ainda mantendo sua essência no MPB, passando por boleros e baladas. E agora em Tarântula

Tarântula tenta seguir na mesma linha do Bixa, com menos eletrônicos, mas com a mesma produção acessível e impecável. É a primeira vez em que existe uma música da banda cantada apenas pelo Rafael (a linda “Volta”), e também a primeira participação creditada de um artista de fora em um álbum das Bahias (Projota em “Tóxico Romance”). Mas mesmo se tratando de um álbum ótimo e com certeza acima da média, Tarântula peca um pouco e falta quando comparado com os outros dois.

As letras e composições continuam inteligentíssimas, com destaque para “Pipoco E Pipoca” e “Chute De Direita”, que são o tipo de música que não poderia ter vindo de nenhum outro artista. “Das Estrelas”, com um ótimo clipe estrelado pela maravilhosa Renata Carvalho, retoma o mesmo tom épico de “Uma Canção Pra Você” e um destaque bastante positivo. “Tóxico Romance”, com toda a certeza é a melhor música do trabalho, com uma letra bastante sexual sobre um encontro ilícito durante uma madrugada da vida. E quem nunca?

Existem sim músicas incríveis e destaques excelentes, mas esse é o problema de Tarântula: são destaques, e não o álbum todo. Pela primeira vez existem músicas não tão memoráveis em um disco das Bahias. Tarântula tem tudo o que “deveria” ter em um álbum das Bahias, ele só não tem no geral a mesma força que existe em seus outros dois lançamentos.

Eu já disse isso aqui mesmo no YMD em algum momento e agora repito: assistam às Bahias e a Cozinha Mineira ao vivo quando puderem, mesmo se não gostarem tanto das músicas feitas pelas moças. Elas são donas de um dos melhores shows ao vivo da música nacional.

OUÇA: “Tóxico Romance”, “Pipoco E Pipoca”, “Das Estrelas”, “Chute De Direita” e “Mátria”

Liniker e Os Caramelows – Goela Abaixo



Acho que ninguém atualmente na música brasileira consegue transmitir tão bem o sentimento puro de carinho quanto Liniker e os Caramelows. Goela Abaixo não é apenas um álbum para ouvir com a @, para sentir saudade da @, é mais do que isso. É sobre como carinho é universal, é necessário, principalmente em tempos com disseminação de ódio, de amor em aplicativos. Carinho é político.

No vídeo de lançamento de Goela Abaixo, segundo álbum de Linker e os Caramelows, em meio ao barulho de carros, a Liniker, hoje aos 23 anos, dá um depoimento muito honesto e aberto sobre o processo de gerar o disco. Como ela mesmo diz foi muito difícil, mas ao mesmo tempo muito mais maduro. Tudo mudou bastante para Liniker e a banda, Rafael Barone (baixo), Pericles Zuanon (bateria), William Zaharanszki (guitarra), Renata Éssis (backing vocal), Marja Lenski (percussão), Fernando TRZ (teclados) e Éder Araújo (saxofone).

Essa maturidade é algo muito perceptível ao longo do álbum, parece que as músicas forma mais gestadas que em Remonta (2016), parece que até os sentimentos foram mais superados ou mais nutridos. O primeiro álbum trazia quase uma urgência. “Deixa eu bagunçar você”, propunha, pedia ou implorava Liniker em “Zero”, música de Cru e Remonta.

Gravado na estrada, Goela Abaixo nasce de um outro momento. O disco foi concebido em diferentes partes do mundo. De Berlim (“Beau” e “Calmô”)  e Lisboa (“Amarela Peixão”) a São Paulo, Botucatu, Araraquara e Rio de Janeiro. Surge assim um novo sentimento tão presente quanto o carinho – a saudade.

Saudade, carinho, intimidade, paixão, calma, dor, paciência. O mais lindo do novo álbum de Liniker e os Caramelows é que todos esses sentimento e sensações estão crus nas letras e na própria atmosfera do disco. O que sentimos pode ser ambíguo, incontrolável, pode ser muito bom e muito ruim, talvez seja tudo isso até ao mesmo tempo. Essa é a alegria ou a tristeza de sentir, de se permitir sentir.

Assim, como já podíamos perceber em Remonta, Goela é um álbum guiado por vozes, desde de “Brechoque“, que abre o disco, até o refrão da faixa seguinte, “Lava“. Os instrumentos estão muitos mais polidos e com uma pegada mais rhythm and blues, como “Beau“.

Outro destaque são as participações. A cantora carioca Mahmundi é a convidada da música “Bem Bom”. Já a faixa que gerou o título do disco, Goela, foi gravado com um coral lindo de mulheres composto por Linn da Quebrada, Mel Gonçalves, Juliana Strassacapa, Ayiosha Avellar, Natália Nery, Grasielli Gontijo, Tássia Reis, Lina Pereira, Josyara e Renata Éssis, integrante da banda.

OUÇA: “Calmô”, “Amarela Paixão”, “Beau”, “Brechoque” e “Goela”

O Terno – atrás/além



Mais um lançamento da banda paulista O Terno tomou conta da internet no fim de abril. <atrás/além>, lançado pelo selo Risco,  é o sucessor de Melhor Do Que Parece, o terceiro álbum da banda. Foram quase dois anos e meio entre o  lançamento desses dois projetos, nesse meio tempo, Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d’O Terno, lançou seu primeiro álbum solo Recomeçar. Era hora de recomeçar, de novo. Do vazio e da incerteza surgiu <atrás/além>, afinal, o que é a passagem tempo?

Maturidade e envelhecimento não significam sempre a mesma coisa, mas, neste disco, é possível que as palavras sejam utilizadas como sinônimas. O trio formado por Biel Basile, Guilherme D’Almeida e Tim Bernardes vivem uma transição temporal frenética – nem tão jovens, nem tão velhos.

O tempo é a duração das coisas que nós, seres humanos, vivemos e presenciamos. É isso que que cria a ideia de presente, passado e futuro. Todas essas fendas dão espaço para visitas intermináveis a diferentes momentos. Há uma ideia de brevidade eterna – a antítese é convocada a cada música. Tim, na primeira canção, canta que é muito cedo para parar pelo caminho, almejando a chegada da idade. Em “Pegando leve”, segunda faixa, ideias opostas são exploradas no refrão: ‘Quero descansar, mas também quero sair / Quero trabalhar, mas quero me divertir / Quero me cobrar, mas saber não me ouvir / Quero começar, mas quero chegar no fim’, a pressa adulta ziguezagueia na cabeça do ouvinte, um fluxo infindável de incertezas cotidianas pipocando.

A temática contemporânea choca-se com a melodia que parece ter sido deslocada de um cenário sonoro no fim dos anos 60. Uma viagem temporal onde as malas estão a bordo de um carro, em uma viagem à praia  – a maresia, o sol, a brisa e a nostalgia lomográfica são evocadas. Poderia fazer parte de um tempo dos Mutantes, Brian Wilson ou das canções mais melódicas dos Beatles. Há um processo de recuperação e preservação da memória, cada nota parece ser o gancho para que lembranças pipoquem na mente dos ouvintes. No quarto álbum, O Terno usou a maturidade para repensar as fusões temporais. E o que acontecerá no futuro?

OUÇA: “Atrás / Além”, “Bielzinho / Bielzinho” e “Profundo / Superficial”

Jards Macalé – Besta Fera


Passados quase oito anos desde o último trabalho do tipo, Jards Anet da Vida, da Selva, da Silva, ou simplesmente Macalé, retorna com um novo álbum de estúdio. Mas diferentemente daquele Jards (2011, registrado também de forma audiovisual no documentário de mesmo nome de Eryk Rocha), o foco em Besta Fera (2019) não é em regravações dele próprio, muito menos em versões de outros artistas. As 12 faixas de autoria ou coautoria do Maldito (“é a mãe!”) que aparecem aqui são tocadas em parceria com um grupo afiado – ao todo, são 18 músicos creditados além de Macalé, com a produção de Kiko Dinucci (Passo Torto, Metá Metá) e Thomas Harres.

Para encadear tudo isso, Jards mergulha na obscuridade. É claro que a morbidez e as sombras não apareceram em sua obra hoje; porém, muito provavelmente esse é o seu trabalho mais enfático em todas essas características. Talvez a situação do país tenha ajudado também… O breu, o fundo, a cidade noturna, a experiência-limite: tudo aparece de cara na capa, a última feita pelo fotógrafo Cafi. E surge nos arranjos, como no instrumental e coro desesperado de “Vampiro de Copacabana”, abrindo o disco.

Dentro das demais faixas, essas escolhas são próximas entre si e até em certos aspectos e timbres funcionam como algo já esperado, ao pensar em outros trabalhos dos participantes do álbum (os dois últimos álbuns de Elza Soares e os do Metá Metá, por exemplo). Isso pode causar alguma decepção, mas não se pode dizer que as tentativas são caricaturais ou monótonas. Evidente que não seria justo com o homem que já fez coisas como Contrastes (1977) se não houvesse variedade.

E há. Por aqui, Jards recita com a rouquidão habitual, ao som de cavaquinhos e metais, um Gregório de Matos que parece falar dele mesmo, que cantou nas últimas décadas como o Boca do Inferno os vícios do Brasil. Já ali, canta um Ezra Pound borbulhando água, afogado pela guitarra abrasiva de Guilherme Held e por uma bateria sensacional de Harres. Acolá, ele já está praticamente numa psicodelia nordestina, falando de cidades malvadas e acordos escusos, nessa que é talvez o ponto alto do disco (“Pacto De Sangue”, parceria com Capinam). Só voz e violão, tropeçando em “Obstáculos”. E assim por diante, o compositor apresenta um caminho sonoro com significados amorosos, políticos e existenciais, provavelmente próprio de quem já viveu três quartos de século.

Engana-se quem espera saudosismo barato. Ou mesmo um pessimismo exagerado. É possível dizer isso não apenas pelas parcerias consistentes com artistas mais novos — e que, ainda assim, são de gerações bem distintas entre si, como Juçara Marçal e Tim Bernardes —, mas sobretudo pela capacidade de Jards de extrair da adversidade força, amor e graça. Ao final, o disco até parece traçar uma espécie de testamento. Em “Valor”, gravada em 1981, o músico vem com uma voz muito menos afônica questionar a longevidade de seu legado. Isso no mesmo disco em que, chamando o vento e enfrentando o sol, mostra encontrar a resistência pessoal. Diante de todas as décadas entre o sucesso de suas músicas e o relativo ostracismo de sua carreira, mais um ciclo se fecha.

Seria um final? Ele mesmo reflete e responde num samba mais tradicional, “Tempo E Contratempo”, e despista mais uma vez. A resenha começou falando que Jards Macalé estava de volta. É mais provável que ele simplesmente estava, e assim continue. “E essa que é a graça.”

OUÇA: “Pacto De Sangue” e “Tempo E Contratempo

Pabllo Vittar – Não Para Não


Não tem muito como nem pra onde fugir, Pabllo Vittar é um fenômeno. Pouquíssimo tempo se passou desde que a drag queen maranhense lançou seu primeiro EP, Open Bar, e depois seu álbum Vai Passar Mal em Janeiro de 2017. Pouco tempo, mas o suficiente para Pabllo fazer parcerias com nomes que vão desde Preta Gil e Anitta até Diplo e Charli XCX. Vai Passar Mal foi um álbum pop incrível, que cumpria exatamente o que prometia: um álbum pop chiclete, feito por uma drag queen mas que transcendeu as barreiras da comunidade LGBT e lançou Pabllo para o mainstream de uma vez por todas.

E agora a moça lança seu segundo disco, Não Para Não. E, pelo menos musicalmente, as coisas parecem ter esfriado um pouco. Bastante, na verdade. A proposta da Pabllo não é e nunca nem foi fazer música pop contemplativa e introspectiva, é verdade, mas Não Para Não peca em ser um pouquinho raso demais até para a pista. Enquanto Vai Passar Mal misturava muito bem o pop com MPB, brega e eletrônico, ele tinha momentos de vulnerabilidade como “Indestrutível” e “Irregular”, coisa que não acontece em momento algum em Não Para Não.

Em seu segundo disco, Pabllo foca muito mais a produção no tecnobrega e forró, em detrimento aos diversos outros estilos misturados que permearam o debut. Isso funciona muito bem em “Buzina”, faixa que abre o disco e com certeza a melhor do trabalho como um todo. Mas no restante, a produção muito monótona acaba se tornando repetitiva e cansa rápido demais. É possível ouvir Vai Passar Mal no repeat descontraidamente, mas Não Para Não logo se torna chato e morno – até mesmo antes do final da primeira audição completa. As participações aqui, de Ludmilla, Urias e Dilsinho, pelo menos, servem um propósito maior do que apenas repetir o que a Pabllo tinha acabado de cantar – como eram todas as presentes no debut, coisa que sempre me incomodou muito na produção de Vai Passar Mal.

Toda a representatividade de Pabllo ter chegado (e se mantido) onde chegou é maravilhosa, sem a menor sombra de dúvida – não podemos nunca nos esquecer de que gostando ou não da música, Pabllo é uma bicha afeminada nordestina que milita publicamente sempre, e isso é extremamente importante e longe de ser pouca coisa. Talvez Não Para Não, mesmo sendo musicalmente duvidoso em sua maioria, sirva exatamente para isso, para manter Pabllo na conversa. Uma conversa que histórico-social é muito mais relevante do que um álbum não muito bom. Por agora isso já é o suficiente, e que o próximo álbum seja mais interessante.

OUÇA: “Buzina”, “Problema Seu”, “Trago Seu Amor De Volta” e “Não Vou Deitar”.

Mundo Livre S/A – A Dança Dos Não Famosos


Uma das bandas expoentes do manguebeat lança seu nono disco como forma de pontuar sua posição em meio ao caos em que estamos vivendo. Com um instrumental sempre muito bem feito, letras políticas e interessantes – mas algumas machistas aqui e ali – os recifenses são conhecidos na cena alternativa pelas misturas e ritmos sempre bem casados.

A Dança Dos Não Famosos segue com tudo isso, mas está ainda melhor. “Batismo Nukgruuvk” abre o disco com uma combinação muito interessante com um rock pesado e ao fundo um coral de igreja tradicional.

“Meu Nome Está No Topo Da Sagrada Planilha” é a típica canção Mundo Livre S/A: letra sobre drogas e contestando a ordem vigente dos que podem e usam drogas intactos, com uma melodia dançante guiada pelo teclado e bateria.

O momento curioso do disco é inevitavelmente não associar “Special Manguechild” a várias canções do David Bowie. Fica uma linda quebra em um disco tão denso como este. Que logo volta a ficar pesado com a perspicaz Eletrochoque De Gestão: direito até a voz original do temeroso dizendo que não renunciará. Imperdível. Com certeza um dos grandes momentos desse ano.

Outro momento muito inspirado acontece com Vem Pra Rua Tomar Na Cabeça Um Passo Novoo clima soturno, batidas descompassadas e um piano incessante são a cama de fundo para “a democracia é uma ditadura disfarçada” dita por uma mulher de modo bem enfático e certeiro.

Clima que retorna em “O Passo Do $angue: Na Vidraça”: canção específica para o elenão e toda a gama de conservadores acéfalos que tentarão elegê-lo. E com direito a um final necessário e apocalíptico com o Vem Pra Pista Pórrám!”e a dançante e indignante “A Maldição (Das Páginas Que Não Viram)”.

Embora muito recente, e considerando a configuração política incerta do nosso país – o conservadorismo vai vencer nas urnas? – A Dança Dos Não Famosos se tornará, se não o melhor disco da banda, um dos que mais se destacarão na discografia.

OUÇA: “Meu Nome Está No Topo Da Sagrada Planilha”, “Eletrochoque De Gestão” e “A Maldição (Das Páginas Que Não Viram)”

Mahmundi – Para Dias Ruins


A caminhada de Marcela Vale, mais conhecida pelo nome Mahmundi, não é de hoje. Desde seu primeiro EP Efeito Das Cores (2012), Mahmundi tem crescido de forma notável e a cada novo trabalho é possível enxergar claramente seu desenvolvimento como artista e como pessoa. Nesse contexto, Para Dias Ruins, segundo álbum de estúdio da cantora, é o trabalho mais bem-acabado de Mahmundi e pode ser visto tanto como a culminação dos seus trabalhos anteriores quanto como uma pequena amostra do que será sua carreira musical daqui para frente.

Para Dias Ruins, ainda mais que seu predecessor Mahmundi, nos apresenta uma Mahmundi que aposta mais nos refrões e canta de forma mais marcante do que nos trabalhos anteriores. Do ponto de vista sonoro, o álbum recupera alguns elementos do pop rock brasileiro dos anos 90, colocando em evidência, em faixas como “Outono”, uma interação mais orgânica e direta entre guitarra, baixo, bateria e ocasionalmente o piano. Ao lado dessa influência, em faixas como “Alegria” e “Imagem”, o álbum mantém o uso dos sintetizadores e drum machines, um traço característico da trajetória musical de Mahmundi. Os sintetizadores são responsáveis por toda a harmonia nessas faixas e, junto com as drums machines, não oferecem uma sonoridade desconhecida dos ouvintes de Mahmundi, mas é possível identificar um uso mais polido e robusto desses instrumentos. “Imagem”, por exemplo, em alguns momentos lembra muito a faixa “Quase Sem Querer” do EP Setembro (2013), mas é musicalmente mais interessante e bem-acabada.

O álbum também traz novidades do ponto de vista musical, pois nele Mahmundi explora novos territórios musicais como o reggae em “Qual É A Sua?”, o MPB com elementos de bossa nova em “Eu Quero Ser O Mar”, a sonoridade mais eletrônica em “Felicidade” e uma mistura de MPB e pop no single “Tempo Pra Amar”. A faixa “Tempo Pra Amar” é o maior exemplo da evolução musical de Mahmundi, já que conjuga os sintetizadores que lhe são característicos com um formato mais próximo da música pop brasileira.

Para Dias Ruins é um álbum essencialmente alegre, pois celebra o amor e a calma, nos pede leveza em um cenário nacional pesado e duro, nos oferece um momento de tranquilidade e aponta para nossos amores, para aquilo que está por trás da tensão do nosso dia-a-dia, nos urge a valorizar quem está ao nosso lado em nossas vidas. É um álbum que traz um pouco da cara da nova música brasileira e pode ser ouvido em qualquer momento, inclusive e especialmente nos dias ruins, como sugere seu título. Mahmundi o lançou em um momento oportuno e nos chama a ouvi-lo com o coração aberto.

OUÇA: “Tempo Pra Amar”, “Eu Quero Ser O Mar”, “Alegria”

Carne Doce – Tônus


Eu optei por aguardar ao escrever sobre o novo álbum de Carne Doce, Tônus, terceiro disco de estúdio da banda goiana. Composições menos políticas, vocais menos gritados, instrumental menos afobado. A primeira impressão, um estranhamento saudosista. Inclusive, quem vai aos shows da banda com frequência, já havia experimentado algumas das inéditas ao vivo, e o sentimento que pairava era de curiosidade sobre o que viria no novo trabalho.

Passadas algumas semanas do lançamento, percebo o quão introspectivo, maduro e conciso o disco é. Salma Jô e companhia optaram por falar para dentro ao invés de para fora. Não há momentos catárticos, como “Artemísia” e “Falo” propunham no álbum anterior, Princesa, ou até mesmo “Passivo”, do disco homônimo.

Tônus fala sobre desencontros e impudores, de forma madura e autônoma, assim como a identidade visual do disco, com fotografias de Salma em meia arrastão sob luz negra, produzidas em conjunto com Macloys Aquino, guitarrista da banda.

As novas composições estão menos políticas, mas elas continuam expressando a assinatura de Salma: poesias dúbias e complexas, de diversas interpretações e construções individuais. Mesmo assim, o disco conta majoritariamente com letras sobre o ponto de vista feminino, desmistificando o tabu sexual, como em “Amor Distrai (Durin)”, parceria com Dinho da Boogarins, e ensejando arbítrio nas relações pessoais, como em “Nova Nova”, faixa escolhida como primeiro single.

Instrumentalmente, as linhas de baixo comandadas por Anderson Maia estão um absurdo, como em “Comida Amarga”, por exemplo, enquanto os sintetizadores de João Victor Santana, que inclusive produziu o disco, tomaram maior espaço.

O disco possui diversas camadas poéticas e instrumentais que são descobertas aos poucos pelo ouvinte, e essa é justamente sua beleza. “Golpista”, por exemplo, consegue nos fazer sentir angústia, medo e dúvida em uma única música, e por fim, ainda clama por esperança, por dias melhores.

Tônus é um disco que nos apresenta Carne Doce em sua forma mais genuína. É pele, é corpo, é sentimento. Propõem gostos amargos e agridoces, e conquista espaço a cada ouvida. Aliado à performance de Salma e sua trupe ao vivo, o disco tem potencial de se tornar ainda mais carnal.

OUÇA: “Comida Amarga”, “Nova Nova” e “Golpista”.

Gui Amabis – Miopia


Amarrando todos os seus trabalhos anteriores em um, Gui Amabis lança Miopia, seu quarto disco solo.

Assim como os anteriores, há participações especiais de seus amigos e parceiros de trabalho – Amabis é o produtor de artistas de renome da música brasileira atual, além de ser compositor de trilhas sonoras – que sempre acrescentam muitas lentes às suas composições. Desde Juçara Marçal até sua filha Rosa, de 9 anos – que desbancou a participação de Tulipa Ruiz na música “Quase Um Vinho Bom”.

Mantendo a linha desde Trabalhos Carnívoros (2012) – antes Amabis emprestava suas letras a outras vozes e ficava como um fio condutor de cada sonoridade –, Miopia traz a maioria das suas canções sendo configuradas pelas harmonias e arranjos bem pensados, sua voz serena e forte ao mesmo tempo (além, é claro, a de seus convidados) e as letras sobre o cotidiano urbano, as neuras que nos provocam e os sentimentos profundos com relação ao amor, a vida, suas injustiças, desigualdades e suas reflexões.

A atmosfera soturna é bem composta por instrumentos todos neste mesmo plano, conduzindo as músicas sem muitos sobressaltos. Sendo um produtor de grande experiência, Amabis sabe conduzir a fluidez entre as canções, há sempre um panorama sendo aberto a cada canção que se alterna durante a passagem e a duração do álbum. Os créditos de produção vão para Scotty Hard, engenheiro de som e produtor canadense já bem familiarizado com artistas da música brasileira como a Nação Zumbi.

Há momentos de Miopia em que vozes e instrumentos se sobressaem da melhor forma: Juçara Marçal e seu parceiro saxofone bem marcado formam uma dupla sensacional e dão ainda mais ênfase a letra forte de “Todos Os Dias”. Juçara aparece novamente no disco na esperançosa “Para Mujica” – entre as melhores músicas do álbum.

Algumas das músicas lembram outras composições espalhadas pelos seus trabalhos anteriores, participações em outros discos, ou como no caso de “Contravento”, que foi gravada pela Céu no belo Caravana Sereia Bloom (2012), e também “Miopia”, do disco homônimo (e único) dos Sonantes – seu projeto com seu irmão Rica, Dengue, Pupilo e a já citada Céu.

Embora não seja melhor que Trabalhos Carnívoros, Miopia é um disco curto, porém amplo em sonoridades. E só nos resta esperar que a criatividade de Amabis não se esgote, e que ele continue com essas parcerias que casam sempre tão bem.

OUÇA:  “Contravento”, “Para Mujica” e “Mais Um Whiskey”.