Maps & Atlases – Lightlessness Is Nothing New


É curioso observar a vida a certa distância. A maneira como os movimentos das pessoas descreve trajetórias, sempre pendulares, encontros e desencontros, perdas e ganhos, que levam a essas trajetórias se encontrarem, ainda que brevemente ou ainda que para sempre, e, depois do encontro, nenhuma das trajetórias poderia ser a mesma. Talvez essa seja uma análise honesta do que representa o lançamento Lightlessness Is Nothing New, do quarteto de math-com-traços-de-indie-rock de Chicago, Maps & Atlases, primeiro lançamento da banda em seis anos e quarto disco de estúdio do grupo.

Rompendo o que era um hiato não oficial e sem previsão de acabar, a banda voltou a se reunir em um desses movimentos, quando o guitarrista e vocalista Dave Davidson perdeu o pai, e fez do processo de catarse da perda a motivação para um novo trabalho. De repente, o grupo que havia se separado porque, como disse Davidson “não havia mais nada que nós quiséssemos dizer” se via tendo que encontrar de novo as palavras para traduzir algo que dificilmente poderia ser verbalizado: a perda definitiva. E, desse desencontro derradeiro, as trajetórias da vida aproximaram de novo os quatro amigos. Pelo menos por enquanto, a banda havia encontrado algo a dizer.

E a escolha de como dizer também é interessante: ao invés de mergulhar nos sentimentos melancólicos de luto, perda e tudo que acompanha a partida de um ente querido, Davidson e a banda optam por abraçar uma mistura entre euforia e resignação. Por um lado, a celebração da pessoa querida, do impacto dela em vida nas pessoas queridas e no mundo ao seu redor e, por outro, a tristeza conformada de que, infelizmente, tudo que vai existir de agora em diante são memórias e o espaço vazio à mesa nas reuniões em família, e que, enquanto isso é uma dor, é também inevitável, e senti-la e passar por ela é parte do processo.

Musicalmente isso se manifesta num afastamento dos polirritmos e das quebras de tempo do math rock em favor de uma estética mais próxima do dance pop. Ainda existe a identidade do Maps & Atlases, especialmente nas letras bem trabalhadas e nos vocais anasalados de Davidson, mas a variação de camadas tradicional do math rock acaba ficando para trás em favor de uma estrutura mais linear. O resultado da mudança de estilo varia, com algumas faixas casando bem com o estilo, enquanto outras acabam soando cansativas ou pouco criativas. Não é de estranhar que os melhores resultados sejam alcançados quando o quarteto tem sucesso em mesclar essa nova estética com os elementos do seu gênero de origem.

Seja na mistura de indie pop com os tappings em “Fall Apart”, em que os arranjos de guitarra e teclado criando uma atmosfera dançante angulada pelas quebras de ritmo do math (ainda que poucas), nas dissonâncias da faixa seguinte, “Ringing Bell”, em que Davidson reflete sobre a perda do pai enquanto a batida grave e os timbres agudos de guitarra dão relevo à música, ou na dupla “Learn How To Swim” e “War Dreams”, que fazem referência à sonoridade antiga da banda enquanto introduz elementos novos, como os sintetizadores da primeira, é quando combina seu eu de antes com sua identidade presente, que o Maps & Atlases é mais bem sucedido. Ainda que os encontros e desencontros nos mudem, em essência continuamos os mesmos.

O principal ponto fraco do disco talvez seja justamente o novo sentimento. Ainda que traga adições interessantes à sonoridade da banda e seja também uma maneira mais incomum de retratar o luto, a repetição dos temas e dos ritmos se torna um pouco cansativa ao longo da audição. Da mesma forma, o sentimento soa, em alguns momentos, artificial, como uma certa alegria forçada para impedir a si mesmo de refletir sobre um trauma, ou ainda o choque provocado por uma notícia difícil demais de lidar.

Curiosamente, a impressão de que o disco, ao mesmo tempo que fala sobre os encontros e desencontros e as mudanças de trajetória, retrata também o choque de Davidson e a dificuldade de lidar com essa nova ausência fica mais evidente com as duas últimas (e melhores) faixas do álbum: em “4/25”, o tom mais grave e o andamento da música aproximam mais ela de um som mais dissonante, o ritmo mais lento também é uma mudança positiva quando o resto do disco aprecia apressado e (às vezes forçadamente) feliz. Comparado com o resto das faixas do disco, essa parece o momento depois de um trauma quando, livre da adrenalina, Davidson pode parar e refletir sobre o acontecido e é finalmente atingido pelo choque e a descarga de emoções.

A faixa seguinte, “Wrong Kind Of Magic”, acompanha a mudança de andamento da faixa anterior. É um fim muito potente, vulnerável, para um disco que nasceu de uma perda. Os elementos eletrônicos praticamente desaparecem ou tomam o segundo plano, dando mais espaço para os sons graves e o vocal. O luto finalmente exige ser reconhecido e Davidson precisa processar a morte do pai. Essa faixa soa como o processo de compreender que algumas coisas vão nos deixar.

Nenhuma perda é triste só por ela, mas por todos os potenciais que ela encerra. A despedida de algo que não faz mais parte de nós é também fazer as pazes com a conclusão desses potenciais, os tempos verbais têm que ser atualizados e planos e projetos passam a ser conjugados no futuro do pretérito. Essa é, ao fim e ao cabo, a conclusão a que Davidson chega com o fim do disco. A dialética da existência reside nos movimentos pendulares que aproximam e afastam os indivíduos. Entender que em todo encontro existe o prólogo de uma despedida, é afinal, parte do processo de amadurecer.

OUÇA: “Fall Apart”, “Ringing Bell”, “Learn How To Swim”, “Wrong Kind Of Magic”

And So I Watch You from Afar – The Endless Shimmering


O som dos irlandeses da And So I Watch You From Afar nunca foi meu estilo. Não sou fã do instrumental principalmente baseado em guitarras mais pesadas, nem do clima geral das músicas. Além disso, depois de um primeiro álbum fortíssimo, a banda lançou dois álbuns mornos e um completamente frio. Fui ouvir o quinto, The Endless Shimmering, com um pé atrás e preguiça.

E fui pega de surpresa.

Como mencionei, desde 2009 ASIWYFA lançou 5 discos: um forte, dois medianos, um fraco e The Endless Shimmering. Se a trajetória da banda fosse mais sólida, The Endless Shimmering não seria uma surpresa. Mas além de ser um bom álbum em comparação com os anteriores, é um bom álbum por si.

Ao longo das 9 faixas distribuídas em 44 minutos, The Endless Shimmering é carregado de camadas e de intensidade nos arranjos. Por conta disso é o tipo de álbum que dá para ouvir mais de uma vez sem se tornar repetitivo. Ao mesmo tempo, traz um ar de que foi feito entre amigos, sem a necessidade de impressionar terceiros – o que é bastante impressionante levando em consideração os trabalhos anteriores.

Gravado ao vivo durante um retiro de 9 dias, The Endless Shimmering foi definido pelo And So I Watch You From Afar como um “retorno à forma”. Em algum grau, talvez eles mesmos reconheçam que os três álbuns anteriores a esse foram um desvio das intenções iniciais do projeto. Porém, faixas como “Mullally” ficam perigosamente na linha tênue entre o retorno e a repetição da fórmula. Felizmente, a grandiosidade de outras músicas, como “Dying Giants”, afasta essa possibilidade.

De modo geral, The Endless Shimmering não é explosivo, nem uma obra de arte imperdível. É um álbum sólido que pode anunciar o retorno às (boas) raízes de uma banda que tem tudo para se estabelecer como referência de post-rock.

OUÇA: “Terrors Of Pleasure”, “Dying Giants”, “All I Need Is Space” e “The Endless Shimmering”.

This Town Needs Guns – Disappointment Island

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Eu já tinha ouvido outras bandas de math rock, mas não sabia direito o que o termo significava ou o que caracterizava o subgênero musical. Até ouvir This Town Needs Guns (atualmente TTNG). Quando você pensa em um tipo de música, vem em mente ‘aquela’ banda. Não precisa ser a melhor ou a mais popular, mas é aquela banda que representa e inclui em suas músicas as características principais do estilo. No caso, TTNG é a minha para math rock contemporâneo. E conseguiram manter esse posto com seu terceiro álbum, Disappointment Island.

Com Animals e 13.0.0.0.0, a banda parecia estar experimentando, tentando encontrar sua identidade em meio a métricas excêntricas e progressões de guitarra cada vez mais complexas, sempre fazendo jus ao bom e velho rock matemático. No novo álbum, mantiveram o ritmo alternante e complementar entre os instrumentos, assim como a vibe melancólica. Diferente do tom que o título do álbum transmite, fãs que se apaixonaram pelos primeiros dois projetos da banda não se desapontarão.

No final das resenhas, geralmente seleciono algumas músicas que se destacaram, os hits do álbum. Achei mais difícil que o normal encontrar alguma música que chamasse atenção nesse disco, acredito que porque não haja uma. Por exemplo, a faixa “Whatever, Whenever” possui todos os elementos clássicos de uma composição do TTNG, mas não demonstra o tom do álbum por completo. Os dois primeiros álbuns, da mesma maneira. Acredito que não seja por acaso.

Disappointment Island deve ser escutado por inteiro, como uma obra formada de pequenas peças encaixadas, de preferência em um dia chuvoso, acompanhado de um chá/café de escolha.

OUÇA: “Whatever, Whenever” e “There’s No ‘I’ In Time”

Foals – What Went Down

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I buried my heart in a hole in the ground with the lights and the roses and the cowards downtown

A pegada do disco é revelada nos segundos iniciais da própria faixa-título do quarto registro dos ingleses. “What Went Down” mostra que Foals, novamente, mudou. Mudou e se reinventou mais uma vez e, mais uma vez, fez isso com maestria. What Went Down, o disco, coloca mais um pilar perfeito na metamorfose ambulante que é a banda, chega ao hall de sucessos e mostra a versatilidade latente deles; todos os registros de estúdio dos caras foram e são bastante distintos até agora e com esse não poderia ser diferente. Não há semblante imediato de qualquer um dos Foals anteriores por aqui e isso continua sendo incrível como sempre foi.

Esse quarto disco ainda consegue ser mais único que os outros pela maneira como se reinventa dentro de um mesmo local; se Antidotes tinha a pegada bastante divertida e agitada, Total Life Forever passou um pouco dessa felicidade constante e colocou mais ritmo e Holy Fire conseguiu mostrar um lado que o Foals até então só tinha mostrado em “Spanish Sahara”, por exemplo. What Went Down parece não ter direção, demonstrar e resgatar alguns Foals dentro de um mesmo registro, além de adicionar várias novas vertentes que talvez possam ser exploradas em futuros discos.

O disco talvez possa ainda estar muito fresco na mente, mas assim como tinta fresca mancha na roupa, esse álbum manchou no cérebro de uma maneira gigante. De maneira geral, fora as particularidades de cada música, as guitarras estão frenéticas, pesadas, gritando, aceleradas, violentas; a voz de Yannis saí gritada – e isso cabe perfeitamente aqui -, forte, visceral, pungente e dá quase pra sentir a veia dele saltando na garganta; a linha de fundo está interessante e elevando toda a sonoridade da banda a um patamar maravilhoso.

É curioso ver num mesmo painel músicas que funcionariam muito bem para uma viagem, como “Birch Tree” e “Lonely Hunter”, ao lado de outras extremamente sujas e raivosas, como “Snake Oil”, além de outras bastante ritmadas como “Albatross” e “Night Swimmers”. Daí com esse material todo reunido que parece totalmente sem direção que vem a grande sacada da banda: What Went Down esconde, por trás de tanta metamorfose, as letras mais incríveis da carreira da banda, sem dúvida. E esse talvez fosse um dos lados que o quinteto ainda não tivesse colocado a exaustão. Agora foi a hora e eles mostraram como tudo ficou consolidado num único pilar, no final das contas. Ouça o álbum novamente e observe toda a poesia inserida por trás de tanta força bruta ou vá a uma das mais acessíveis, como “London Thunder”, por exemplo.

A linha de produção do Foals segue a mesma: todos os álbuns que possuem sua, agora, famosa marquinha de FOALS em letras garrafais com o título do álbum embaixo com linhas apropriadas delimitando o espaço, além da paisagem marítima, parecem seguir uma mesma finesse ao afinar e cortar as pontas soltas. E o Foals acertou muito bem, de novo, essas irregularidades que talvez poderiam trazer o disco abaixo. Como aqui o Foals não dá espaço para comiserações na sua instrumentação e entrosamento entre as diferentes linhas, é o sujo cristalino que faz What Went Down reverberar da maneira certa.

A tinta ainda está fresca, sim, mas com certeza o Foals vai angariar ainda mais frutos e críticas positivas para os seus trabalhos como já conseguiu para todos os seus outros lançamentos. Em seu universo particular, What Went Down mostra uma versatilidade dentro de uma versatilidade, como se enxergássemos microscopicamente dentro dessa tinta fresca as moléculas se agitando, mas unidas num único propósito. É, sem dúvida, macroscopicamente, o disco menos linear dos caras, com batidas mais experimentais e naturais ao mesmo tempo; com uma voz mais marcante, que fica que nem luz piscante no cérebro; com as letras mais sinceras e honestas da carreira. O Foals parece não conseguir parar de atingir novos auges – Holy Fire parecia que tinha sido o choque final e o estouro maravilha da banda, estávamos errados e talvez estejamos novamente no futuro. Ainda bem.

OUÇA: Você não vai querer perder nada desse disco.

Battles – La Di Da Di

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Elaborar qualquer teoria sobre o Battles é uma batalha. (OK, o trocadilho não é dos mais inteligentes, mas…) A complexidade do som da banda pode justificar os mais de 30 minutos que passei com a página em branco tentando começar a escrever esta resenha. Pode justificar, também, os 4 anos que o trio nova iorquino passou sem lançar músicas novas desde Gloss Drop (2011).

O motivo? Perfeccionismo. Da mesma maneira que eu escrevo e reescrevo um parágrafo várias e várias vezes, Ian Williams, Dave Konopka e John Stanier só acabam um disco quando terminam. La Di Da Di veio dessa lapidação constante: cada um tinha suas respectivas ideias e, só depois de muitos cafés, muitos ensaios e muitas discussões, as 12 faixas ficaram prontas. Talvez isso seja característico em bandas incluídas no balaio do “math rock”, mas, pouquíssimas são capazes de dar um nó na sua cabeça quanto o Battles.

Vamos (tentar) desatar o nó, então.

Se, em Gloss Drop, as participações especiais soavam como uma tentativa de preencher o vazio – já não tão recente – deixado pela saída de Tyondai Braxton, em La Di Da Di, elas não existem. É tudo em trio, é tudo instrumental. O álbum concretiza a formação da banda e mostra o quanto os loops e batidas quebradas ficaram ainda mais intensos – tão intensos que, chegados a um certo ponto, podem até te saturar.

Tudo o que escrevi até então pode não querer dizer muita coisa – e nem esse 7.9 aí em cima quer. Mas, uma coisa é certa: La Di Da Di é um disco complicado. Pr’uma banda engenhosa como o Battles, você precisa de atenção, e muita. Em meio a todas essas “good vibes”, é muito bom saber que eles voltaram para azucrinar.

OUÇA: “The Yabba”, “FF Bada” e “Flora > Fauna”

And So I Watch You from Afar – Heirs

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And So I Watch You from Afar é uma banda de rock – pelo menos segundo a Wikipedia. “Banda de rock” costuma ser um termo genérico demais para definir a estética sonora de um grupo musical, mas para eles não existe outra alternativa. Post-rock, noise-rock, krautrock e math rock se juntam de modo interessante e inovador – mas só para quem nunca ouviu o trabalho da banda. Sou familiarizado com o álbum Gangs, de 2011. Lá, o And So I Watch You from Afar mostra toda sua potência e diversidade sonora em faixas como a que titula o álbum e a impressionante “BEAUTIFULUNIVERSEMASTERCHAMPION”. É forte, único e avassalador.

Heirs vem e faz a mesma coisa. É como um “mais do mesmo”, mas esse mesmo é muito bom e vale a pena. Mas talvez “mais do mesmo” não seja o termo correto a se utilizar, já que carrega um teor pejorativo que não cabe aqui. O que geralmente seria um problema para uma banda com um som que parece flertar tanto com o experimental – a mesmice – não chega a atrapalhar. Ao contrário: faz com que você se sinta em casa. Confortável. Algo que pode não agradar alguns, admito, mas que me conquistou.

O álbum começa rápido e feroz, como se tentasse te agarrar e não deixar fugir. Uma novidade: letras. Letras simples, mas letras! Nao são fáceis de entender e se parecem muito com “gritos de torcida”, mas te dão uma direção melódica para seguir em algumas músicas – o que é sempre bom. Falando em melodias, as do Heirs te cativam. Ainda bem, já que algumas músicas buscam o apoio delas até o fim, repetindo-as inúmeras vezes. Mas a grande sacada do And So I Watch You from Afar foi fazer com que os ouvintes buscassem essa repetição. “Redesigned A Million Times” é um ótimo exemplo: um riff delicioso logo na intro e vocais que te prendem com vigor e grudam na sua cabeça por horas.

O álbum segue alternando momentos calmos e agressivos, tornando-se até um pouco “previsível”, mas nem isso tira os méritos do disco. É mais expectativa do que previsibilidade, se é que me entendem. A cereja do bolo é justamente a faixa de encerramento (“Tryer, You”), com belas guitarras hipnóticas. Esse é um daqueles álbuns que te fazem ter vontade de montar uma banda – ou aprender um instrumento -, e é difícil um álbum ser muito melhor que isso. Palmas aos irlandeses.

OUÇA: “Redesigned A Million Times”, “Tryer, You” e “Fucking Lifer”

Maybeshewill – Fair Youth

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Cinco rapazes, quatro instrumentos, nenhuma palavra, inúmeras melodias. Maybeshewill é uma banda instrumental vinda de Leicester, Reino Unido, que pouco importa o sotaque britânico de seus membros. Desde 2005 na ativa e com três álbuns e um EP nas costas, eles vêm com Fair Youth para provar que conseguem fazer mágica sem ao menos emitir uma palavra.

Partimos do pressuposto que Fair Youth trata de sentimentos. E o mais interessante é que sempre haverá uma diferente interpretação para cada faixa dependendo do momento no qual ouvi-la. Seria até um insulto dizer que o álbum serve como música de fundo, mas essa é exatamente a beleza dele. Tudo é tão meticulosamente calculado que atinge um efeito grandioso e muito fácil de ouvir. O álbum é tão contínuo do início ao fim que até se torna difícil escolher nossas faixas favoritas, mesmo tendo aquelas que se destacam mais.

O grande problema de bandas instrumentais é que com a ausência de um vocalista, precisam achar outras formas para prender a atenção do ouvinte. Isto prova a grande habilidade instrumental de seus membros, uma vez que conseguem criar faixas memoráveis que nos remetem à diferentes emoções tão bem quanto qualquer outra banda com músicas letradas. As únicas palavras que podemos realmente encontrar no álbum são os títulos das músicas. Mesmo assim, sua primeira faixa, que mais parece uma introdução, não tem nome exato, apenas “…” para a imaginação e interpretação de cada um.

Fair Youth é composto em grande parte por faixas positivas que nos remetem a sentimentos como alegria, nostalgia e calmaria. Ele é uma baita terapia musical depois de difíceis momentos de turbulência. Grandes cores emocionais para o corpo e a alma quando palavras são simplesmente desnecessárias. Beleza por si só, da qual você não se arrependerá de ouvir e sempre o tocará quando sentir a necessidade.

OUÇA: “In Amber”, “Fair Youth” e “Permanence”

You Blew It! – Keep Doing What You’re Doing

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Na final do refrão de “Match & Tinder”, música que abre Keep Doing What You’re Doing, segundo disco do You Blew It!, escutamos a frase ‘But I’m having trouble trying to find the right way to say I feel less than confident‘. Com esse trecho, o vocalista Tanner Jones nos dá quase uma síntese do que é esse álbum do You Blew It! e do porquê o seu gênero nunca vai deixar de ser interessante. Não importa se você tem 15 anos, vinte e poucos ou quarenta, há sempre um momento da vida em que você não vai encontrar as palavras para dizer que se sente como o cara mais inseguro da sala. E é pra isso que a música emo está aí.

Com o fim da onda de sucesso que o emo alcançou na década passada, o que a gente vê atualmente é o gênero voltando para a cena alternativa que sempre habitou, longe daquele estereótipo ridículo que foi criado. O You Blew It! faz parte da safra nova que puxa bastante para o lado do punk rock, criando um contraste com a cena do ‘midwest emo’ que está revivendo a parte mais instrumental do gênero, utilizando influências do post-rock ao lado de clássicos do emo dos anos 90, como American Football e Mineral.

Se a cena indie atual cada vez mais se distancia da energia do punk rock, deixando um pequeno espaço para bandas como Japandroids e Titus Andronicus, no meio – talvez negligenciado por muitos – da música emo, é onde conseguimos encontrar esse rock pulsante, em que todas as angústias e decepções são colocadas sem firulas em cima de linhas de guitarra. Quer algo mais revigorante que um grito de ‘You’ve made the list of people I’d like to forget‘ em cima de uma pancadaria de bateria e guitarras? É isso que o You Blew It! faz.

Comparando com o primeiro disco da banda, Keep Doing… é um belo avanço para os rapazes da Flórida, principalmente nas letras. É interessante perceber como todas as músicas do You Blew It! trabalham em cima de uma frase matadora. Às vezes parece que a canção inteira, construída contando uma historinha de decepção, não vai chegar a lugar algum, mas de repente vem aquela frase que te acerta e repete na sua cabeça sem parar. Um certo amadurecimento aparece no fim também, quando, após falar sobre decepções durante nove músicas, a banda encerra o disco com ‘Maybe things aren’t quite as bad as I let myself believe‘. Um certo olhar de reflexão em cima do drama.

O grande problema do álbum é o fato de se tornar repetitivo durante a audição. A fórmula funciona perfeitamente nas primeiras três ou quatro músicas, e, por mais que tenha bons pontos depois, eles parecem ofuscados pela ideia de que você já ouviu aquilo antes. “Strong Island”, a terceira faixa, estabelece o ponto mais forte do disco logo no início, com 30 segundos de um instrumental explosivo logo na introdução.

Escutar o You Blew It! é uma viagem garantida para os seus 16 anos, quando tudo parecia mais pesado do que realmente era e nada parecia te entender melhor do que os gritos que acompanhavam as guitarras. A mágica está em ver que esse efeito funciona mesmo depois que você já passou dessa fase, afinal, aquele adolescente inseguro já foi você, e, de alguma maneira, ele vai estar sempre escondido em algum canto aí dentro, procurando as melhores palavras para dizer que não se sente confiante.

OUÇA: “Match & Tinder”, “Strong Island” e “Gray Matter”

This Town Needs Guns – 13.0.0.0.0

2013thistownneedsguns 

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O cartão de entrada do álbum já dá idéia sobre como o álbum segue: com referência ao calendário maia e sua relação com o fim do mundo, 13.0.0.0.0 soa um tanto quanto repetitivo, porém um repetitivo que não incomoda, que relaxa. As principais características da banda são traduzidas nesse disco, assim como no anterior – Animal -, só que dessa vez um pouco mais elegante através da voz do seu novo vocalista, que traz um toque suave e prazeroso durante os minutos decorrentes do álbum.

Mais do que interessante, as guitarras sobrepostas roubam a cena e apontam ao talento: a capacidade de percepção musical dos meninos ingleses. A construção de cada faixa parece ter a quantidade ideal de informação musical, com atenção desde as letras até a quantidade de instrumentos. Instrumentos estes que variam e surpreendem em faixas curtas puramente instrumentais, as quais eu não entendi muito bem o sentido. Elas não marcam nenhuma mudança – as músicas que vêm depois de cada faixa se parecem com as anteriores!

A mistura de acústico e trechos imensamente manipulados digitalmente rotulam o álbum como algo singularmente math-rock, mas incluem muitos artefatos do indie em suas faixas eletrizantes – e do blues quando o piano aparece. Se bem que eu não sou de rotular música, coloco ora na gaveta “gosto” ora na “não gosto”, e esse álbum vai na primeira, principalmente pelo fato de ter guitarras, bateria e baixo entrelaçados com talento.

Um álbum, além de simples, bom de ouvir sem compromisso, de melodias belas, letras intrigantes, e por aí vai. Só deixa a desejar nas decisões quanto à distribuição do conteúdo. Músicas que não têm muito sentido, ou que se parecem muito com outras do próprio disco. Diria que é um álbum vitorioso por conta das dificuldades que a banda teve desde o início da carreira, de membros irem e virem e, mesmo assim, tão aí, produzindo coisa audível.

OUÇA: “Left Aligned” e “Havoc In The Forum”

And So I Watch You from Afar – All Hail Bright Futures

2013andsoiwatchyoufromafar 

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Um som de virtuosos com mania de grandeza numa arte gráfica lindíssima. Parece o paraíso, só que não é; é o terceiro álbum, All Hail Bright Futures, do trio de Belfast, And So I Watch You from Afar, com a arte gráfica de Matthew Bolger. Sem a menor sombra de dúvida, o disco de maior impacto e esmero de sua carreira; ou, como ilustrado em suas próprias palavras: “algo destemidamente novo”. Entretanto, para anulação do paraíso (e do “destemidamente novo”), na maior parte de sua duração, a forma não condiz com o conteúdo do álbum.

All Hail Bright Futures concentra em sua melhor qualidade, o seu pior defeito. É um disco coeso mas, ainda assim, esparso. A maioria dos sons são claros e as cadências, muito bem apresentadas, porém, enquanto um volume assustador é empregado em praticamente todas as faixas, o desenrolar das canções tende a expressar uma ironia desgastante. Não há um ar épico, apesar de um acúmulo impressionante de agitação sonora. Conquanto isso seja, em parte, criticável, o disco também agrada com a mesma característica. Das doze faixas, doze criam em nossos ouvidos como que uma explosão de purpurina. Um montante exacerbado de arco-íris se configura enquanto sintetizadores e guitarras gritam e se divertem num bacanal regado a confete. Praticamente um carnaval gringo.

Não há proximidade com termos psicodélicos. A sonoridade tão bem polida (o disco aparenta uma composição simples, porém, de produção e performance complexa), se assemelha ao bem humorado grupo de Louisiana, Givers, com o acréscimo de guitarras intensamente distorcidas e alguns sintetizadores berrantes, além de uma intenção como que de uma narração de fábula moderna; O And So I Watch You from Afar não se esforça na poesia do disco, a ausência de letras é preocupante e estranhável, porém, pouco importa, já que um outro espetáculo se mantém como ocupação para o ouvinte. Igualmente os títulos, aleatórios, como por exemplo “Ka Ba Ta Bo Da Ka”, pouco importam mas são um bocado úteis já que as músicas soam homogêneas entre si e as faixas não tem grandes significados no fim das contas. O álbum se encerra como que num circo, com urras de empolgação e samplers de onomatopeias numa faixa de sete longos minutos.

O disco busca sonoridades grandiosas mas foge das sequências sentimentalistas clichês no cenário atual. Os únicos momentos sossegados se encontram nos últimos trinta segundos de “Ambulance” e na bela e pequenina “Trails” rica em diálogos paralelos. A predominância de acordes maiores em All Hail Bright Futures atribue um tom cínico que, infelizmente, tende a cansar e, em alguns momentos, até soar como que trilha sonora para jogo de video game. Eles pouco acrescentam à música global e tampouco estreiam algum estilo inovador em All Hail Bright Futures, contudo enriquecem o setor que, por apelar para harmonias agressivas e barulhentas, compensam com variedades apreciáveis de pequenas doses de criatividade contida.

OUÇA: “Big Thinks Do Remarkable”, “Rats On Rock” e “All Hail Bright Futures”