Ariel Pink – Oddities Sodomies Vol. 2


Faz sentido que um artista cuja carreira atinge a marca dos 20 anos, como Ariel Pink, inicie um processo de revisitar e lançar compilações e trabalhos menos lapidados feitos ao longo dessas duas décadas. Com a trinca de discos Underground, Oddities Sodomies Vol. 2 e Loverboy o artista californiano e a gravadora nova iorquina Mexican Summer abrem essa etapa e inauguram uma discussão mais reflexiva sobre a obra do músico como um todo.

Nascido e formado na Califórnia, Ariel Pink começou sua trajetória com apoio de seus pais para se tornar um artista plástico. Apesar da graduação no California Arts Institute, onde ele conheceu nomes como John Maus, que colabora na faixa-título de Loverboy, foi na música que Ariel Pink se destacou, apostando em referências vintage dos anos 70 e 80 para consolidar um gênero hoje categorizado como hypnagogic, um tipo de lofi-chillwave fortemente permeado pela nostalgia tecnológica que marcou o estilo de Ariel Pink ao longo desses 20 anos e 14 álbuns.

Esse esforço em trazer uma atmosfera mediada pela tecnologia vintage, intoxicados pelo som do gótico e new wave de nomes dos anos 1980 como The Cure, poderiam facilmente fazer com que a nostalgia da obra de Ariel Pink soasse datada: a obsessão com a cultura de fitas cassete e sintetizadores. Porém, a constante referência à fantasmagoria, por exemplo, com o nome assombrado de seu projeto solo inicial “Ariel Pink’s Haunted Graffiti”, faz com que essa nostalgia não se torne “apolítica”, como sinalizou David Keenan do the Wire, responsável por cunhar o termo hypnagogic pop, uma vez que cria uma consciência geracional.

Esse senso de assombração permeado por um bom humor presente nas letras cheias de trocadilhos são os elementos mais característicos da obra de Ariel Pink e marcas especialmente presentes em Oddities Sodomies Vol. 2.

Apesar de não ser tão cheia de uma proposta estética bem acabada como outros trabalhos de Ariel Pink, vale lembrar do frenético pom pom, de 2014, ou do adorável Mature Themes, de 2012, sinalizado pela Pitchfork como um dos 100 melhores discos da década até então em 2014, Oddities Sodomies Vol. 2 tem momentos memoráveis: “Something About Michael Landon”, “Bolivian Soldier”, “The World Is Yours” e “The Law”, com participação de John Maus, são todas ótimas faixas, com pitadas de comentário social.

Na Pitchfork, Nathan Taylor Pemberton traz a idéia de “hauntology”, cunhada por Derrida e explorada por Mark Fisher, ao relembrar uma entrevista de 2006 na qual Ariel Pink reflete sobre o tempo e espaço da música. A música de Ariel Pink traria uma energia de “tempo colapsando em si mesmo”, como sinal de que a cultura havia chegado em um ponto no qual nada podia mais morrer.

A obra de Ariel Pink e a nova trinca de compilações da Mexican Summer pairam sobre a música contemporânea como um lembrete de que, mesmo sem um corpo físico que pode ser queimado como uma fita cassete, o passado de certa forma vive no presente — mas só se algum gasparzinho com sintetizadores decidir manter ele assim.

OUÇA: “Something About Michael Landon”, “Bolivian Soldier”, “The World Is Yours” e “The Law”

Vivian Girls – Memory



Retornando como se nada tivesse acontecido, o trio Vivian Girls lançou seu primeiro álbum em 8 anos mantendo tudo que tornava a banda atrativa no seu início. É um trabalho bem linear até, com nada fugindo absurdamente do que elas já faziam, só puxando mais pro lado das influências do grunge e do punk. É como uma banda de punk dos anos 90 passada pelo filtro da tendência de dream pop da nossa década atual.

Parece que o grupo retornou com mais fogo nos olhos, e as músicas se encaixam melhor numa gravação um pouco mais limpa, que é o ponto principal desse álbum. A forma como as canções não perdem sua estética lo-fi, mas são muito mais bem equilibradas em questões de mix e produção mantém o charme da proposta da banda, mas amplifica o efeito quando você consegue ouvir tudo na música direitinho, como em “At It Again”. Porém, nem todas são tão bem cuidadas como essa, então a consistência do trabalho não é uniforme. Mas em momentos que as músicas destoam do resto, compensam de certa forma pela energia, como a abertura “Most Of All”, que além de ser cheia de atitude, consegue ser pegajosa como poucas coisas que o Vivian Girls já fez.

E as variações não ficam só na casa do loud/quiet. Os riffs poderosos de “Sludge”, por exemplo, complementam os vocais suaves de forma estranhamente efetiva, criando uma tensão muito similar ao que o Nirvana fazia, mas remodelado pra não parecer tão fora da curva pra esse álbum. Isso ajuda a não torná-lo totalmente repetitivo, e eu digo “totalmente” pois em alguns momentos acaba acontecendo, e aí se vê que há espaço pra banda continuar crescendo, mas não alcançou totalmente esse potencial ainda.

Sendo um dos melhores álbuns da discografia da banda, Memory prova que, mesmo que a banda tenha parado por muito tempo, ainda existe química entre as integrantes, que montaram um álbum que, mesmo que ainda tenha reflexos de suas limitações, mostra que há espaço pra novas ideias entrarem no som do grupo, e talvez atrair todo um novo público.

OUÇA: “Most Of All”, “Sludge” e “Far Away”

Clairo – Immunity



Nessa mesma época em 2017, se você procurasse por Clairo ou ouvisse alguém falando sobre, era bem provável que a primeira informação que chegaria até você seria algo sobre “bedroom pop” ou que ela, Clairo, era a responsável pelas músicas chiclete (“Pretty Girl” e “Flaming Hot Cheetos”) que volta e meia o Spotify insistia em colocar na sua lista de músicas recomendadas.

Assim como muitos nomes do bedroom pop, Clairo construiu sua carreira musical em meio ao Soundcloud e Tumblr, com videoclipes gravados na webcam do computador e melodias de 3 ou 4 acordes feitas no Garageband. Agora, dois anos depois, ao lado de nomes como Cuco e Rex Orange County (que também vieram do bedroom pop) e com algumas parcerias de peso (SG Lewis, Mura Masa, Wallows), a nova realidade é que Clairo, Claire Cottrill, é o que melhor representa a mistura do pop e soft rock jovem em grandes festivais de música mundo afora.

Em seu primeiro álbum de estúdio, Immunity, Cottrill reforça o que a faixa “4EVER” do EP diary 001 (2018) já anunciava: uma nova era de produção, com vocais mais claros e arranjos mais elaborados, mas sem perder a essência lo-fi e chill beats que marcavam as músicas anteriores.

Não é à toa que a excelente produção do álbum ficou por conta de Rostam Batmanglij, ex-Vampire Weekend e que já produziu para nomes fortes do pop, indie e R&B como Carly Rae Jepsen, HAIM, Charli XCX e Frank Ocean. E por falar em HAIM, algumas faixas do disco contam com a ajuda de Danielle Haim na bateria.

Assim como o nome indica, Immunity trata de alguns assuntos delicados, como descobrir e lidar com a sexualidade (“Bags”, “Sofia”, “Softly”); a relação de Cottrill com artrite reumatoide juvenil e como a doença afeta o seu dia-a-dia (“Sinking”, “I Wouldn’t Ask You”); depressão (“Alewife”) e relacionamentos passados com corações partidos (“White Flag”, “Feel Something”).

O disco é recheado de músicas sinceras e emocionais, com influência clara de álbuns como o Blue (1971) de Joni Mitchell, mas o ponto alto do fica por conta de faixas como “Bags” e “I Wouldn’t Ask You”.

Em “Bags”, é impossível não compartilhar da ansiedade de Clairo sobre gostar de alguma amiga/amigo próximo (em entrevista ao site Genius, Cottrill afirmou que a música é sobre uma de suas primeiras experiências gostando de meninas). A faixa fala sobre não saber lidar com o novo sentimento, e que no final, ter qualquer interação com a pessoa, mesmo que sejam apenas pequenos momentos descontraídos como sentar no sofá e assistir TV, seria melhor do que declarar seus sentimentos e a pessoa eventualmente ir embora (“I guess this could be worse / Walking out the door with your bags”).

Já “I Wouldn’t Ask You”, a faixa de quase 7 minutos que fecha o álbum, é uma emocionante carta de agradecimento que Cottrill dedica à um antigo namorado que a ajudou e a acompanhou no hospital durante períodos de crise de sua artrite reumatoide. A faixa tem dois grandes momentos, com o primeiro sendo uma produção simples, que consiste basicamente em um piano e o vocal, acompanhada por um coral de crianças cantando em loop o verso “I wouldn’t ask you to take care of me”, que por sua vez reforça o sentimento de invalidez de Cottrill perante a situação. O segundo momento é mais upbeat e retrata o momento em que Clairo se da conta do amor e gratidão que sentia pelo parceiro.

Considerando todas as faixas, Immunity mostra o desejo de Clairo e Rostam de pavimentarem um novo caminho, experimentando novos sons e estilos musicais, flertando com o indie rock anos 2000 à lá Strokes em “Sofia” e até uma pegada mais R&B com lo-fi beats em “Softly”.

Com esse álbum de estreia, Clairo mostra para todos que apostavam que ela seria apenas uma One Hit Wonder, ou que ela nunca sairia do seu quarto e continuaria criando melodias no Garageband, que ela na verdade tem potencial e repertório de sobra, e vem ganhando espaço na cena atual junto à outras artistas LGBTQ+ como Snail Mail, girl in red e King Princess.

Músicas como as de Cottrill se fazem cada vez mais necessárias e especiais, principalmente pela naturalidade, sinceridade e delicadeza com que os assuntos são retratados em suas letras. No final, Immunity é como a própria foto da arte de capa: acolhedor, tímido, simples e cativante, mas sem tentar demais.

OUÇA: “North”, “Bags”, “Impossible” e “I Wouldn’t Ask You”

Sebadoh – Act Surprised



Os anos 90 foram áureos para o que, hoje, chamamos de música alternativa. Numa gama de centenas de artistas, os subgêneros se recortaram cada vez mais, e hoje é impossível conhecer todos porque eles continuam se proliferando como gremlins. Mas um dos que mais ficaram conhecidos foi o lo-fi, que sempre soou ter sido gravado na garagem, com alto grau de espontaneidade, além de desafinações e microfonias que mais agradam do que atrapalham.

Não por acaso, o Sebadoh, um dos precursores do segmento junto ao Pavement e Guided By Voices, lançou seis álbuns na década, e apenas 14 anos depois eles se convenceram a gravar juntos novamente, o Defend Yourself, de 2013. Demorou, mas o sucessor pós-hiato chegou em 2019, com Act Surprised, ainda mais nostálgico que o anterior. Com sua característica sonoridade lo-fi, o álbum tem pinceladas de vários trabalhos anteriores da banda, incluindo Smash Your Head On The Punk Rock, de 1992, e The Sebadoh, de 1999.

Primeiro trabalho gravado com a Fire Records, responsável pelo memorável It’s A Shame About Ray de Lemonheads, de 1992, e outros clássicos de Teenage Fanclub e Built to Spill, o novo álbum do trio formado pelo também baixista do Dinosaur Jr Lou Barlow, ao lado do guitarrista Jason Loewenstein e do baterista Bob D’Amico, é um refresh na história do grupo, com faixas que vão do grunge, como em “Celebrate the Void”, ao indie anos 90, como em “Stunned”.

Em “Sunshine”, uma das músicas de trabalho, parece mais que estamos ouvindo a um ensaio do trio no estúdio, pela despreocupação sonora, tanto nos instrumentos, quanto na voz de Lou. E esta é a clássica fórmula de Sebadoh: soar livre e espontâneo ao cantar frases de auto sabotagem como “I need sunshine to ignore”. Funciona e faz muito sentido mesmo em faixas mais melódicas como “Medicate” e “Reykjavik”.

A energia do trio está presente em todas as músicas e faz com que Act Suprised seja um álbum completo, como uma unidade perfeita. Este é mais um trabalho que prova o poder de Sebadoh de não apenas se acostumar a estar em um furacão de referências da música alternativa, mas de ainda fazer músicas incrivelmente simples, furiosas e irregulares — e, mesmo assim, inovadoras, criativas e repletas de um coração pulsante.

OUÇA: “Stunned”, “Sunshine” e “Belief”

JAWS – The Ceiling



Segunda cidade mais habitada da Inglaterra e Reino Unido, depois de Londres, Birmingham é a terra do new wave de Duran Duran, do heavy metal do Black Sabbath e do mathcore de Blakfish — o que, numa análise rápida, podemos descrever como um local de diversidade sonora dentro do rock, experimental e alternativo. É neste cenário que nasceu, em 2012, a banda JAWS e o seu característico dream pop, que ficou conhecido em 2014 com o álbum Be Slowly e seu hit “Think Too Much, Feel Too Little”.

Dois anos depois, Simplicity trazia ainda mais referências a elementos pop e shoegazer ao mesmo tempo. Toda a ambientação e aura atmosférica foi produzida por Gethin Pearson, que acompanharia o trio, pelo menos, até o próximo álbum, o atual lançamento The Ceiling, de 2019. O trabalho sequencial mostrou que a sinergia entre grupo e produtor segue das melhores.

Terceiro álbum de estúdio de JAWS, esse novo complexo sonoro e lírico é explicado pelo vocalista como resultado da sensação de deslocamento frente às rápidas mudanças que acontecem ao nosso redor o tempo todo, seja com amigos, família ou relacionamentos. Isso fica claro logo em “Driving at Night”, com o vocal ora longe, ora próximo de Connor Schofield e a frase “but they’re alright, I don’t know where I’d rather be”.

As melodias mais adocicadas continuam com o seu espaço garantido e dentro da aura contemplativa das faixas. Mas, como a própria banda pontuou, The Ceiling é o trabalho com uma gama maior de diversidade musical. Em relação à experimentação sintética, “Fear” se destaca por ser uma música quase puramente eletrônica. Aqui, o vocal e os coros se resumem a mais um instrumento, e não a líder.

Completamente oposta a sua faixa anterior, “Feel”, um indie pop nublado que poderia muito bem estar nos trabalhos anteriores do trio, “Do You Remember?” foi o que eles acreditam ser a fusão de The Cure e Title Fight, segundo a sua leitura. O peso do som não impediu a letra de tratar do delicado tema de ansiedade social, auto sabotagem e comparação com outras pessoas.

Outra contraposição é feita na pesada “End of the World” frente a leveza da maioria das faixas. A mais longa do álbum é também a que mais leva o ouvinte a um lugar obscuro e, por isso, confunde The Ceiling como uma unidade. Mas o peso emocional imposto nas composições continua na criativa “Patience”, em sua bateria enérgica e sua mistura de ambientes eletrônicos com guitarras mais pesadas.

Duas canções lentas também diferenciam harmonicamente do álbum: “Looking / Passing” e “January” são donas de instrumentos raros na discografia do grupo. Enquanto a primeira se pinta com um piano de background, a segunda é quase acústica e incrementa outros instrumentos aos poucos, como uma construção sonora em que a voz de Schofield nunca esteve tão distante.

Enquanto a envolvente “Please Be Kind” é a romântica de toda a sequência com seu refrão “you are on my mind, so darling, please, be kind”, a que pode resumir toda a criatividade e diversidade da terceira aposta do trio britânico é justamente a faixa-título “The Ceiling”, um pedido quase desesperado ao fim de pensamentos claustrofóbicos, depressivos e ansiosos. Um clamor pela saúde mental.

Com a premissa de “just keep going, there’s no ceiling”, The Ceiling é a prova do crescimento e habilidade de JAWS na forma como coloca suas experimentações, temas abordados e sonoridades que são sua marca registrada, apesar do pouco tempo de estrada. No fundo, o trio segue o próprio conselho de seguir o que quer fazer, falando o que gostaria de falar, mesmo sem se sentir adequado.

OUÇA: “Driving At Night”, “Feel” e “The Ceiling”

HOMESHAKE – Helium


Do início da década pra cá, tem muito artista por aí usando e abusando da estética do chamado Bedroom Pop: uma sonoridade lo-fi, com vocais e instrumentos afogados em distorção de má qualidade que pode ser proposital ou só falta de grana pra fazer algo melhor mesmo, identidade visual remetendo aos momentos mais pessoais da intimidade do artista, e letras simplistas que tocam em tópicos de desilusão amorosa e momentos rotineiros retratados de forma mais melodramática e com linguagem mais acessível, mas com a intenção de trazer o ouvinte pra perto a partir de toda uma atmosfera intimista e pessoal, fazendo o mesmo se sentir confortável com tudo que o artista quer passar e tornando a distância entre os dois menor.

O uso desses padrões pra aproximar ouvintes a partir de uma dinâmica lo-fi já vem de décadas atrás, com artistas famosos como Daniel Johnston e Elliott Smith, por exemplo, até o garoto que realmente faz suas músicas pesarosas dentro do seu quartinho pra uns gatos pingados na internet ouvirem, como foi o caso do Vinícius (Yoñlu). Porém, a diferença entre o que já tinham feito nesse gênero e o que podemos chamar de Bedroom Pop é a infusão de gêneros como o Jangle Pop e o Psych Pop, usando de sintetizadores e guitarras agudas para criar algo mais relaxante e com uma certa impressão de desleixo.

E foi nessa onda que surgiu o projeto HOMESHAKE, do canadense Peter Sagar, onde absolutamente tudo que descrevi lá em cima sobre o Bedroom Pop foi usado, complementado por loops de bateria eletrônica (nos álbuns mais recentes) e uma voz suave que destaca de forma balanceada os grooves com forte influência de R&B de cada música. Álbuns como Midnignt Snack e Fresh Air conseguiam atingir um equilíbrio interessante pela constante entrega de boas melodias e uma variedade de variações instrumentais que mantinham a atenção do ouvinte sem se tornar pedante ou repetitivo, apesar do último ter quase chegado nessa marca em certos pontos.

Só que o problema de Helium, novo álbum do artista, é que ele é assim quase o tempo inteiro. A produção mais limpa e formal deixa um certo vazio na sonoridade do HOMESHAKE exatamente onde morava o apelo do projeto, deixando mais a atmosfera da coisa pela atmosfera e não pelas gambiarras musicais que distinguiam cada canção em trabalhos anteriores. Se canções como “Like Mariah” e “Just Like My” tinham até certo potencial de serem destaques no álbum por possuírem elementos que se sobressaem, os mesmos foram enterrados por uma mixagem homogênea que acaba cortando qualquer êxtase possível, tornando o que era pra ser “chill music” em música de elevador mesmo.

Mas não se engane, apesar dos exemplos citados, a grande maioria das músicas aqui não tem nada de realmente atrativo pra te fazer voltar a elas. Qualquer elemento engraçadinho como sons de telefone emulados por uma guitarra ou vozes conversando no fundo que tentavam evocar momentos mais rotineiros pra diferenciar a banda de outras do gênero, humanizando essa arte e aconchegando o ouvinte de forma mais incisiva do que o Bedroom Pop tradicional tenta fazer, foi exterminado de vez aqui a favor de sintetizadores sem inspiração e produção lavada que aproximam mais o projeto de algo que você escuta em qualquer rádio genérica de música dos anos 80 de madrugada.

Apesar de não chegar a ser uma ética sonora que realmente desagrade, peca terrívelmente em qualquer chance de longevidade que as músicas poderiam ter, tornando Helium descartável e medíocre, não causando nenhuma impressão realmente digna de qualquer destaque a quem procura uma sonoridade confortável e familiar como quem se sentiu atraído pelos primeiros álbuns do Peter. Partindo da criatividade sonora dele em diversos momentos na discografia, o projeto poderia ter tomado diversos rumos que destacam essas forças, mas aparentemente escolheram seguir o caminho mais enfadonho.

OUÇA: “Like Mariah”, “All Night Long” e “Just Like My”

Pedro the Lion – Phoenix


Após 15 anos lançando discos em seu próprio nome, David Bazan ressurge das cinzas com Phoenix. Pedro The Lion anunciou o encerramento das atividades em 2006 e retornou em um disco melancólico e recheado de letras sobre o passado, reflexões e pedidos de desculpas por acontecimentos de muito tempo atrás.

Phoenix é um álbum conceitual sobre a casa de infância em Phoenix, Arizona, de Bazan, bem como alguns dos problemas e memórias que a cidade o traz. Recentemente, essas memórias vieram a tona após a primeira visita como adulto. O  álbum é um mergulho gentil e generoso no passado, que se traduz no futuro. É ao mesmo tempo nostálgico e progressivo, proporcionando o melhor dos dois mundos.

As canções, frequentemente cantadas na primeira pessoa, abrigam narrativas altamente pessoais, mas profundamente ressonantes. David Bazan mergulha em sua infância no deserto para fazer as pazes com as pessoas que ele machucou – especialmente a si mesmo.

Depois de duas décadas culpando família, amigos, Deus, capitalismo e a própria vida por seus problemas, Bazan agora se confronta com seus próprios problemas, e o álbum se desenrola como um convite para o ouvinte fazer o mesmo.

Ano novo, nova perspectiva – hora de acertar o botão de reinicialização. Phoenix é a perfeita re-introdução a Pedro, The Lion, e prova que a espera de 15 anos valeu a pena. Poderoso e emotivo, é altamente compreensível e se destaca como um álbum de doações, apoiado por algumas das melhores produções de Pedro The Lion até hoje. Repleto de guitarras distorcidas e pratos estrondosos por toda parte, junto com suas letras satíricas.

OUÇA: “Yellow Bike”, “My Phoenix” e “Quietest Friend”

Cloud Nothings – Last Building Burning


Em Turning On, de 2010, o Cloud Nothings flertava com um indie pós-punk bem típico da época, com guitarras fazendo referência a Strokes, Interpol e mais do mesmo daquele contexto. Em 2012, porém, com Attack On Memory, a banda de Cleveland mergulhou em um pós-hardcore com referências dos anos 80 e 90, se diferenciando pelo caráter experimental, marcante por um aspecto mais contido, menos “apressado”. Dois anos depois, Here And Nowhere Else seguiu a mesma direção de seu antecessor, porém mais tenso e entusiasmado.

O quarto disco da banda, Life Without Sound, no entanto, surpreendeu a todos quando lançado em 2016, logo após a eleição de Donald Trump. Apostando num som mais contemplativo, menos pesado, ficou o sabor de escolha errada para o momento. O que fãs e críticos esperavam do Cloud Nothings naquela situação era, mais do que nunca, a catarse que os diferencia.

Last Building Burning é evidentemente uma resposta ao álbum anterior. A banda volta a focar no peso e na fúria, o Cloud Nothings que nos acostumamos: direto, visceral, vulnerável. No universo caótico que é construído, algumas faixas parecem como um soco no estômago. “Dissolution” e seus mais de dez minutos de duração nos remetem diretamente aos seus dois maiores discos, anteriormente citados. Como bem notou o crítico Ian Cohen, da SPIN, nesse último registro a banda parece ter gravado dentro de uma garagem com um carro ligado. Dylan Baldi, vocalista e líder da banda, aposta em uma abordagem niilista, deixando-se levar por seus pensamentos mais sombrios: ‘They won’t remember my name, I’ll be alone in my shame‘.

Toda crueza de Last Building Burning, no entanto, acaba por vezes esbarrando em um punk-pop noventista um tanto datado. De qualquer forma, é ótimo encontrar uma banda capaz de reconhecer seus tropeços e buscar um caminho, dentro de sua própria discografia, para reencontrar sua identidade.

OUÇA: “In Shame”, “Dissolution” e “So Right So Clean”

Kurt Vile – Bottle It In


Bottle It In é o sétimo álbum de estúdio de Kurt Vile. Aqui, o artista continua experimentando com as sonoridades que estavam presentes nos seus dois últimos trabalhos, b’lieve I’m going down, de 2015 e o álbum colaborativo com Courtney Barnett, Lotta Sea Lice, de 2017. Para quem gostou dos últimos discos, este novo trabalho é, então, um prato cheio.

Em um dos clipes lançado com Barnett, nós vemos muito do dia a dia do ex-The War on Drugs: a vida com a família, as paisagens oceânicas que os cercam. As canções desse álbum, em especial faixas como “Mutinies” e “Bassackwards”, poderiam muito bem servir de trilha sonora para esses momentos. No novo disco, assim como em produções anteriores, as influências de Vile e seu gosto pelo country ficam evidentes. A temática, por sua vez, fica evidente do título do álbum: Kurt Vile canta sobre os sentimentos que às vezes escondemos bem no fundo de nós – não de uma forma melancólica, mas sim resignada, reconhecendo essas sensações.

Além de ser um álbum com uma sonoridade homogênea, que segue o que ele já vinha produzindo, o cantor entrega este novo trabalho sem se importar muito em ser radiofônico – algumas músicas ultrapassam os dez minutos. Assim, Vile não parece muito preocupado se o ouvinte está acompanhando ele durante sua viagem musical – a faixa-título, uma das que têm mais de dez minutos de duração, é uma das melhores do álbum. É justamente por estar seguro do produto que está entregando que o disco funciona. Além disso, Vile conta com a participação de vários artistas para comporem as vozes que emprestam leveza às músicas. Entre as participações especiais, Bottle It In conta com Mary Lattimore, Cass McCombs, Stella Mozgawa (do grupo Warpaint), Holly Laessig e Jess Wolfe (da banda Lucius) e as guitarras de Kim Gordon (do Sonic Youth, em si uma das influências de Vile).

OUÇA: “Bottle It In”, “Mutinies” e “One Trick Ponies”

Phosphorescent – Ces’t La Vie


Ces’t La Vie é um trabalho impecável, resultado de mais uma entrega do Matthew Houck. É o primeiro álbum inédito em meia década, e o novo na sequência de trabalhos do artista.

A voz distantemente melódica e as batidas intimistas, somadas ao tom melancólico do artista criam um ambiente, ao qual Houck nos remete enquanto canta sobre a paternidade e mudanças neste novo registro. É preciso evocar um estado de espírito para entender Phosphorescent e realmente mergulhar na atmosfera criada em seu trabalho – com menos guitarras e elementos eletrônicos, talvez, mas muito semelhante ao que a banda Kings Of Leon fez em álbuns como WALLS e, especialmente, Mechanical Bull.

O rock alternativo que o artista propõe se mistura com o folk e composições que se tornam lamentos contemplativos muito fáceis de compreender.

Em atividade desde 2001, a carreira produtiva Houck de até então estava de molho desde o último álbum de estúdio, Muchacho, de 2013. Em 2015 houve um lançamento de um disco ao vivo, o Live at the Music Hall, com 19 canções interpretadas em shows no Music Hall of Williamsburg, no Brooklyn.

“New Birth In New England” é o registro mais upbeat do álbum. São 9 músicas, distribuídas em 46 minutos. O álbum é aberto com “Black Moon/Silver Waves” e encerra com “Black Waves/Silver Moon”.

OUÇA: “These Rocks”, “Christmas Down Under” e “There From Here”.