Cloud Nothings – Last Building Burning


Em Turning On, de 2010, o Cloud Nothings flertava com um indie pós-punk bem típico da época, com guitarras fazendo referência a Strokes, Interpol e mais do mesmo daquele contexto. Em 2012, porém, com Attack On Memory, a banda de Cleveland mergulhou em um pós-hardcore com referências dos anos 80 e 90, se diferenciando pelo caráter experimental, marcante por um aspecto mais contido, menos “apressado”. Dois anos depois, Here And Nowhere Else seguiu a mesma direção de seu antecessor, porém mais tenso e entusiasmado.

O quarto disco da banda, Life Without Sound, no entanto, surpreendeu a todos quando lançado em 2016, logo após a eleição de Donald Trump. Apostando num som mais contemplativo, menos pesado, ficou o sabor de escolha errada para o momento. O que fãs e críticos esperavam do Cloud Nothings naquela situação era, mais do que nunca, a catarse que os diferencia.

Last Building Burning é evidentemente uma resposta ao álbum anterior. A banda volta a focar no peso e na fúria, o Cloud Nothings que nos acostumamos: direto, visceral, vulnerável. No universo caótico que é construído, algumas faixas parecem como um soco no estômago. “Dissolution” e seus mais de dez minutos de duração nos remetem diretamente aos seus dois maiores discos, anteriormente citados. Como bem notou o crítico Ian Cohen, da SPIN, nesse último registro a banda parece ter gravado dentro de uma garagem com um carro ligado. Dylan Baldi, vocalista e líder da banda, aposta em uma abordagem niilista, deixando-se levar por seus pensamentos mais sombrios: ‘They won’t remember my name, I’ll be alone in my shame‘.

Toda crueza de Last Building Burning, no entanto, acaba por vezes esbarrando em um punk-pop noventista um tanto datado. De qualquer forma, é ótimo encontrar uma banda capaz de reconhecer seus tropeços e buscar um caminho, dentro de sua própria discografia, para reencontrar sua identidade.

OUÇA: “In Shame”, “Dissolution” e “So Right So Clean”

Kurt Vile – Bottle It In


Bottle It In é o sétimo álbum de estúdio de Kurt Vile. Aqui, o artista continua experimentando com as sonoridades que estavam presentes nos seus dois últimos trabalhos, b’lieve I’m going down, de 2015 e o álbum colaborativo com Courtney Barnett, Lotta Sea Lice, de 2017. Para quem gostou dos últimos discos, este novo trabalho é, então, um prato cheio.

Em um dos clipes lançado com Barnett, nós vemos muito do dia a dia do ex-The War on Drugs: a vida com a família, as paisagens oceânicas que os cercam. As canções desse álbum, em especial faixas como “Mutinies” e “Bassackwards”, poderiam muito bem servir de trilha sonora para esses momentos. No novo disco, assim como em produções anteriores, as influências de Vile e seu gosto pelo country ficam evidentes. A temática, por sua vez, fica evidente do título do álbum: Kurt Vile canta sobre os sentimentos que às vezes escondemos bem no fundo de nós – não de uma forma melancólica, mas sim resignada, reconhecendo essas sensações.

Além de ser um álbum com uma sonoridade homogênea, que segue o que ele já vinha produzindo, o cantor entrega este novo trabalho sem se importar muito em ser radiofônico – algumas músicas ultrapassam os dez minutos. Assim, Vile não parece muito preocupado se o ouvinte está acompanhando ele durante sua viagem musical – a faixa-título, uma das que têm mais de dez minutos de duração, é uma das melhores do álbum. É justamente por estar seguro do produto que está entregando que o disco funciona. Além disso, Vile conta com a participação de vários artistas para comporem as vozes que emprestam leveza às músicas. Entre as participações especiais, Bottle It In conta com Mary Lattimore, Cass McCombs, Stella Mozgawa (do grupo Warpaint), Holly Laessig e Jess Wolfe (da banda Lucius) e as guitarras de Kim Gordon (do Sonic Youth, em si uma das influências de Vile).

OUÇA: “Bottle It In”, “Mutinies” e “One Trick Ponies”

Phosphorescent – Ces’t La Vie


Ces’t La Vie é um trabalho impecável, resultado de mais uma entrega do Matthew Houck. É o primeiro álbum inédito em meia década, e o novo na sequência de trabalhos do artista.

A voz distantemente melódica e as batidas intimistas, somadas ao tom melancólico do artista criam um ambiente, ao qual Houck nos remete enquanto canta sobre a paternidade e mudanças neste novo registro. É preciso evocar um estado de espírito para entender Phosphorescent e realmente mergulhar na atmosfera criada em seu trabalho – com menos guitarras e elementos eletrônicos, talvez, mas muito semelhante ao que a banda Kings Of Leon fez em álbuns como WALLS e, especialmente, Mechanical Bull.

O rock alternativo que o artista propõe se mistura com o folk e composições que se tornam lamentos contemplativos muito fáceis de compreender.

Em atividade desde 2001, a carreira produtiva Houck de até então estava de molho desde o último álbum de estúdio, Muchacho, de 2013. Em 2015 houve um lançamento de um disco ao vivo, o Live at the Music Hall, com 19 canções interpretadas em shows no Music Hall of Williamsburg, no Brooklyn.

“New Birth In New England” é o registro mais upbeat do álbum. São 9 músicas, distribuídas em 46 minutos. O álbum é aberto com “Black Moon/Silver Waves” e encerra com “Black Waves/Silver Moon”.

OUÇA: “These Rocks”, “Christmas Down Under” e “There From Here”.

Colleen Green – Casey’s Tape/Harmontown Loops


Já tinha ouvido I Want To Grow Up, trabalho anterior da cantora e compositora americana Colleen Green, em 2015. A capa pink do álbum, com a artista usando um chapeuzinho de festa de aniversário já indicava o conteúdo do disco: um indie pop delicinha e colorido, honesto, direto ao ponto, sem firulas. A fórmula permanece nesse novo trabalho, talvez mais crua, mas não menos divertida.

Bebendo na fonte das grandes mulheres do rock da década de 90, de Kim Deal à Kim Gordon, de Elastica a Luscious Jackson, e no indie rock americano clássico, mais copo-de-sangria e festinha descolada possível, Casey’s Tape/Harmontown Loops não traz uma música ruim que seja. Ainda que peque na uniformidade das faixas (mas convenhamos que o indie rock de universidade não tem lá muito pra onde ir), faixas como “Here It Comes”, “Cold Shoulder”, “Green My Eyes”, e a deliciosa “I wanna be ignored” (a meu ver, mais parecida com a sonoridade do álbum anterior), estruturam-se a partir de melodias assoviáveis, redondinhas, que, se estão longe de trazerem algo de novo, cumprem bem a função a que se propõem: punk pop noise bonitinho pra quem tem uma prateleira de livros legais no quarto. Além disso, contando com apenas 9 faixas, é um álbum-pílula, curtinho, que nunca fica boring.

Casey’s Tape/Harmontown Loops poderia muito bem estar na trilha de The Kids Are All Right (no Brasil, Minhas Mães, Meu Pai), filme ótimo da cineasta americana Lisa Cholodenko, lançado em 2010. Bom pra se ouvir num dia bem fresco e ensolarado de setembro.

OUÇA: “Here It Comes”, “Cold Shoulder”, “Green My Eyes” e “I Wanna Be Ignored”.

Still Corners – Slow Air


É estranho e até divertido reparar como os trabalhos do Still Corners seguem um padrão bem ao acaso, mas com um pouco de imaginação é mais do que fácil notar seu trajeto e perceber como tudo se conecta. Partindo das madrugadas grogues de Dead Blue (2016) a dupla agora se encontra mais desperta, mas ainda criando suas típicas atmosferas espaciais, no entanto dessa vez isso não se limita ao seu som, e criando um conceito firmado nos visuais de filmes antigos e auto-exploração, a banda projeta essa nova perspectiva de vida em Slow Air, sem se importar muito com o que era esperado deles.

Ainda se mantendo constantes no que sua roupagem habitual transmite, o duo, mesmo tentando algo novo, optou por não mudar tão drasticamente o que já fazem mais do que bem, e no lugar de seus ares sonhadores e anuviados, seu novo registro retrata cenários urbanos noturnos bem abertos, fugindo de vez em quando para a beira de uma praia ou a estrada mais próxima, e apesar de alheios aos próprios mistérios, sempre soam imersos nas possibilidades de onde sua jornada vai levá-los. O aspecto sintético da banda continua lá, mas trabalhando em perfeita harmonia com guitarras e teclados, dividindo os holofotes sem pressa ou competição, essa combinação é inclusive o ponto alto do álbum, encobrindo qualquer vestígio de tristeza de algumas partes do álbum, fazendo Slow Air até acolhedor em sua viagem solitária.

E em busca de algo ou alguém, a banda parece se perder cada vez mais, não necessariamente de uma forma negativa, há liberdade nisso, mas também deslocação de todo o resto do mundo, mesmo se mantendo aberta a conexões, ela também está disposta a seguir para onde quer que o vento sopre, sem hora pra chegar, sem hora pra partir, volátil demais para sequer termos tempo de entendê-la. Slow Air tem toda essa dualidade inquietante, não inconveniente, mas bem fora do alcance de quem tem os pés no chão. E com letras simples e paisagens rápidas, o Still Corners segue se aventurando sem rumo, apenas confiando em seus instintos mais básicos.

Apesar da dupla continuar extremamente subestimada, parece seguir feliz seu caminho, dessa vez dedicada a apenas acreditar em si mesma e se deixar levar, sem paciência para pensar demais ou muitos malabarismos visuais. Mais do que qualquer outra coisa, a banda parece querer transcender, não apenas o plano físico como também suas limitações emocionais e psíquicas, e não por motivos de querer fazer parte de algo maior, e sim se dar conta disso. Mas voltando pra nossa realidade banal, infelizmente a gente não encontra nada muito novo ou memorável em Slow Air, com a exceção talvez de “Sad Movies” (que apesar de genérica, é extremamente emocional e há um apelo de pertencimento nela), todo o álbum soa desforme demais, apesar de partir de uma ideia bem dinâmica e ter uma estética super agradável, não parece ter havido muito planejamento além de sua base, a tentativa de querer ir além é mais do que bem-vinda, mas não há nenhum convite para o ouvinte embarcar nessa jornada, esquecidos onde a banda partiu, sem promessa de voltar.

OUÇA: “Sad Movies”, Black Lagoon” e “Whisper”.

Snail Mail – Lush


Aos 19 anos recém-completos, e antes mesmo de lançar seu primeiro disco, Lindsey Jordan já era chamada de “a adolescente mais inteligente do rock” ou de “a líder do novo movimento indie” pelas publicações especializadas em música mais relevantes do mundo. Pode parecer exagero para quem nunca ouviu falar da menina norte-americana por trás do nome Snail Mail, mas seu trabalho de estreia, Lush, confirma: às vezes é melhor acreditar na hype.

Ao longo de dez faixas, todas compostas por Lindsey – que também acompanhou bem de perto todo o processo de produção do disco – fica evidente uma honestidade absurda e uma habilidade de usar a seu favor a pouca idade – como para ser adolescente melodramática na brilhante “Pristine”. Ao mesmo tempo, mostra uma maturidade lírica e capacidade de dizer coisas dolorosas e duras com leveza, como faz em “Intro”, com um “they don’t love you, do they?” quase que resignado.

Nos temas que aborda – seus sentimentos, interesses românticos, desilusões – ela aposta sempre na transparência emocional, contando pequenas histórias imersivas que tornam cada música de Lush única. Lindsey não quer se colocar em nenhum pedestal e, mesmo depois de confessar algo profundo, certamente acrescentará alguma mensagem do tipo “bem, a vida é assim”. Ela sabe que até as piores coisas que está sentindo eventualmente vão passar.

Lush prova que Lindsey Jordan merece mesmo a alcunha de adolescente mais inteligente do rock. Mas se Snail Mail é mesmo o futuro do rock ou não, ainda é muito cedo para saber. Espero que seja.

OUÇA: “Pristine”, “Stick”, “Golden Dream” e “Full Control”.

Dr. Dog – Critical Equation


Há dois anos, Dr. Dog lançava o disco surpresa The Psychedelic Swamp. Um ano depois, veio Abandoned Mansion. Agora, temos Critical Equation. Essa breve tradição de soltar um álbum anualmente pode parecer preocupante numa análise superficial – ora, não seria a pressa inimiga da perfeição? Fato é que o quinteto americano parece não se importar com inovações ou em sair de sua zona de conforto. Salvo por dégradés em floreios psicodélicos e influências countries variando de um trabalho ao outro, as músicas dos três últimos álbuns poderiam ser todas misturadas sem perda da identidade de cada trabalho. Apesar de ser bastante perceptível a falta de um encadeamento conceitual estruturante em cada disco – que mais parecem mixtapes -, as melodias são sempre bem definidas e cativantes e as letras funcionam muito bem no aparato instrumental.

Não obstante, nem só de termos técnicos sobrevive uma banda. O primeiro single liberado foi também a primeira faixa do disco, “Listening In”. Minimalista, a melodia fornece o pilar para o eu-lírico expor toda sua indiferença perante fatores externos (animals, dead in the night, eletric lights). Apesar de escutá-los conversar, não se sente contemplado. O mesmo não acontece com seus demônios internos: ‘I can hear the fear in me talking / And it’s talking ‘bout me’. “Buzzing In The Light” aparece como uma das melhores faixas do disco, particularmente. Modesta, as letras são simples e a melodia – com fortes influências dos Beatles e uma pitada de Cornershop -, é melancólica, mas alegre. “Virginia Please”, por sua vez, com certeza entra na lista das melhores composições da banda. Aqui, o eu-lírico tenta retomar relações com Virgínia (o estado americano ou uma pessoa?), mesmo que o preço seja alto: ‘Baby, look, why ain’t you calling me? / I’ll give it up and you can have all of me’.

É importante destacar o trabalho de McMicken (e Toby Leaman) nos vocais. Durante todo o disco, há sobreposições, variações de tons e notas, falsetes e diversos outros aparatos que enriquecem a experiência do ouvinte e qualidade do álbum. Ainda que, retomando, não existam inovações técnicas e tudo não passe de uma reorganização do que já fizeram antes, os veteranos do Dr. Dog entregam boas músicas e não decepcionam. Preguiçosos, talvez, mas sair da zona de conforto pode causar certo mau estar na comunidade de fãs, especialmente por parte daqueles mais saudosistas. No caso de Dr. Dog, são raros aqueles que dizem gostar apenas dos antigos álbuns. Ainda que os primeiros conservem uma pegada mais acústica, são todos muito parecidos, afinal.

OUÇA: “Listening In”, “Buzzing In The Light”, “Virginia Please”, “Heart Killer” e “Coming Out Of The Darkness”

Hinds – I Don’t Run


Conheci Hinds quando as moças lançaram seu primeiro álbum, Leave Me Alone, e o resenhei aqui para o site dois anos atrás. Acabei descobrindo uma banda bastante divertida e despretensiosa que me cativou desde o início e a admiração só aumentou depois de vê-las ao vivo ano passado. As moças são divertidíssimas, carismáticas e sabem como poucas bandas ‘novas’ prender seu público do começo ao fim do espetáculo, contando histórias e fazendo piadas e, é claro, com a sua música.

Seu segundo disco, I Don’t Run, chegou finalmente e ele é uma continuação direta do anterior, sem mais nem menos. Seu lo-fi continua o mesmo, a dinâmica dos vocais misturados e confusos com sotaque espanhol bastante carregado também é a mesma. I Don’t Run é a continuação de Leave Me Alone, e ponto.

Dessa segunda vez, as meninas não resolveram apostar em grandes mudanças e experimentalismos, mas sim em se aprimorar no que já faziam antes. E o resultado é exatamente isso. I Don’t Run peca, no entanto, pelo quase excesso de músicas lentas. As que são mais parecidas com o que já conhecíamos antes das moças, como “New For You” e “Tester” acabam se tornando os pontos mais altos do álbum.

I Don’t Run não é um álbum que fará com que o mundo preste atenção nas espanholas, dificilmente ele estará em alguma lista de melhores do ano e realmente quem o ouvirá é quem já conhece o trabalho delas do debut. Nesse contexto, I Don’t Run é um álbum ótimo que serve seu propósito lindamente. Um prato cheio pra quem é fã do gênero lo-fi, mas previsível do começo ao fim. E digo isso com a melhor das intenções.

OUÇA: “Tester”, “Finally Floating” e “New For You”

Frankie Cosmos – Vessel


Para Greta Kline, vocalista da banda Frankie Cosmos, escrever músicas é um ato contínuo de conversar com ela mesma. São mais de 50 álbuns no band camp e dois produzidos em estúdio. E em seu terceiro álbum, Vessel, somos mais uma vez convidados  a entrar nesse diálogo de crescer, chorar e amadurecer. É como uma conversa com um amigo ou com nós mesmos.

Quando ouvimos Frankie Cosmos parece que nada existe além daquela música. O universo lírico de letras nos transporta para o profundo sentimento de “relatable”.  O track Being Live é quase que um resumo lírico do álbum. Nos deparamos com um verso que com certeza já repetimos em momentos silenciosos, talvez no transporte público, provavelmente em uma segunda-feira.

Being alive

Matters quite a bit

Even when you

Feel like shit

Os dois primeiros discos do Frankie Cosmos, Zentropyand  e Next Thing, eram masterclasses de rock indie de dois minutos ou menos. Já em Vessel, sentimos falta de um indie um pouco mais obscuro e melancólico, como temos na música, quase hino, Fool. Com batidas animadas e rápidas, a parte instrumental capta o ritmo frenético, as mudanças de humor, a honestidade de uma vida urbana agitada, como se fosse um microcosmos de nosso pensamentos: fazendo mil coisas, pensando mil coisas, enquanto tentamos não desistir.

Com um som mais polido, com guitarras mais trabalhadas e elementos eletrônicos meticulosos, Vessel não é uma reinvenção de Frankie Cosmos. Pelo contrário, é uma expansão tanto em nível musical quanto em lírico. Tanto que a diferença mais imediata entre o Vessel e os álbuns anteriores é o nível de experimentação composicional. Greta Kline sempre foi capaz de transpor profundos significados em letras aparentemente simples e em seu terceiro álbum isso se torna ainda mais evidente.

Greta é uma adolescente apaixonada perdendo sua linha de raciocínio em Duet. Já em Camaralize, primeiro track do álbum, em meio a uma psicodelia típica do fim dos anos 60, seu coração fica muito sensível e é melhor devolvê-lo (“When the heart gets too tender/ Return it to the sender”). Dificilmente existiria uma forma mais exata de descrever um o amor perdido.

Vessel traduz as interações pessoais e impessoais que compõem a vida moderna com um background musical frenético, a melhor representação dos pensamentos e emoções que passam em uma cabeça millennial . E como todo millennial pode ser taxadode chato, repetitivo, infantil, imaturo. Mas, são esses “defeitos” que permitem uma interpretação da vida e do amor de forma completamente honesta. Frankie Cosmos tem a coragem de ser vulnerável.

OUÇA: “Being Alive”, “Jesse”, “Duet” e “Being Alive”.

Soccer Mommy – Clean


And I’m just a victim of changing planets / My Scorpio rising and my parents‘ É apenas na oitava faixa que Soccer Mommy faz referência à astrologia, mas seu álbum de estreia, Clean, se coloca como quintessencialmente millennial desde o início. Dependendo de quem escuta, essa classificação pode ser um elogio ou um demérito. Como alguém que partilha da idade e dos referenciais culturais de Sophie Allison — a pessoa real por trás do nome artístico — eu me encaixo na primeira categoria. Até aqueles que rolam os olhos ao ouvir a palavra M deveriam reconhecer essa obra como uma captura fiel de como é vivenciar a adolescência prolongada característica dessa geração como uma jovem mulher, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos amorosos.

Se eu fosse apontar um defeito nesse álbum, ele seria justamente esse: todas as músicas são sobre a relação dela com um homem. Mesmo assim, as impressões dela sobre suas necessidades nesses relacionamentos revelam muito sobre a cultura e as relações de poder que os influenciam, transformando relatos pessoais em testemunhos significativos dos “tempos modernos”. Mitski, citada por Allison como uma de suas maiores influências, é outra artista que não trata do amor como um fim em si mesmo, mas um espelho de suas ansiedades e da cultura na qual ela está inserida.

Assim como Mitski, Soccer Mommy oscila entre uma melancolia mais silenciosa, mais puxada para as origens de bedroom pop da artista, e um ressentimento explosivo que emprega guitarras mais agressivas para se traduzir sonoramente, ainda que Soccer Mommy se aproxime mais de Margaret Glaspy do que de Mitski nesses momentos. Em termos de melodia, Clean não se afasta muito dos lançamentos independentes da artista (Collection, de 2017 e For Young Hearts, de 2016), mas a produção de Gabe Wax (que já trabalhou com artistas como The War On Drugs, Beirut e Cass McCombs) dá um brilho extra ao álbum, tornando sua voz mais clara e abrindo espaço para solos mais marcantes.

Em Clean, independência é um objetivo, mas nem sempre uma realidade. Soccer Mommy é uma mulher de seu tempo, consciente de que não deseja ser um animal de estimação que seu amante exibe e só dá atenção quando e como lhe é mais conveniente (“Your Dog”), mas ainda quer ser amada e frequentemente se vê interpretando papéis com os quais não necessariamente concorda, como o da namorada ciumenta que se sente em competição com a garota perfeita (“Cool” e “Last Girl”). Ao longo das dez faixas, ela evidencia o quanto a nossa autopercepção tem o poder de influenciar (e ser influenciada) pelos relacionamentos em nossas vidas, especialmente como mulheres. Em todos os momentos em que ela aparenta estar decepcionada com o objeto de suas afeições, ela também está visivelmente decepcionada consigo mesma por não ser imune a esses sentimentos de dependência e idealização.

Clean é um álbum sobre vulnerabilidade e decepção, temas que se ajustam bem à intimidade que o estilo escolhido por Allison permite. A maior parte das músicas parecem confissões feitas durante a madrugada para uma amiga de confiança, com letras profundamente perceptivas (dela mesma e dos outros), ainda que contraditórias como apreensões sentimentais da realidade podem ser. Assim como uma conversa íntima, o álbum parece um espaço seguro para tais declarações. Mostrando sua humanidade sem medo, ela nos faz sentir como se pudéssemos fazer o mesmo.

O foco em relacionamentos que o álbum assume torna ainda mais interessante a escolha e abordagem de sua canção final, “Wildflowers”. Depois de nove canções de análise minuciosa de suas ansiedades e necessidades no campo amoroso, Sophie se volta a ela mesma. Na música de fechamento, ela está sozinha, em busca de paz. ‘I want to be who I wasn’t / I want to dance and not feel the gloom‘, canta Sophie. Suas palavras parecem a de alguém que busca seu centro, tentando encontrar uma identidade fixa, independente do que outros projetam nela e vice-versa.

Nas outras faixas, o título do álbum parece se referir ao exercício da honestidade emocional acima de tudo. Associado a “Wildflowers”, no entanto, ele passa a sugerir renovação. As alusões à missa (‘I found God on Sunday‘) na letra constroem uma imagem que, coincidentemente ou não, lembra a cena final de Lady Bird (2017), outro recente marco cultural da geração que Soccer Mommy representa. Em meio à busca pela emancipação, Sophie Allison também parece retornar às suas referências mais primordiais para encontrar equilíbrio.

OUÇA: “Your Dog”, “Blossom (Wasting All My Time)”, “Scorpio Rising” e “Wildflowers”