JAWS – The Ceiling



Segunda cidade mais habitada da Inglaterra e Reino Unido, depois de Londres, Birmingham é a terra do new wave de Duran Duran, do heavy metal do Black Sabbath e do mathcore de Blakfish — o que, numa análise rápida, podemos descrever como um local de diversidade sonora dentro do rock, experimental e alternativo. É neste cenário que nasceu, em 2012, a banda JAWS e o seu característico dream pop, que ficou conhecido em 2014 com o álbum Be Slowly e seu hit “Think Too Much, Feel Too Little”.

Dois anos depois, Simplicity trazia ainda mais referências a elementos pop e shoegazer ao mesmo tempo. Toda a ambientação e aura atmosférica foi produzida por Gethin Pearson, que acompanharia o trio, pelo menos, até o próximo álbum, o atual lançamento The Ceiling, de 2019. O trabalho sequencial mostrou que a sinergia entre grupo e produtor segue das melhores.

Terceiro álbum de estúdio de JAWS, esse novo complexo sonoro e lírico é explicado pelo vocalista como resultado da sensação de deslocamento frente às rápidas mudanças que acontecem ao nosso redor o tempo todo, seja com amigos, família ou relacionamentos. Isso fica claro logo em “Driving at Night”, com o vocal ora longe, ora próximo de Connor Schofield e a frase “but they’re alright, I don’t know where I’d rather be”.

As melodias mais adocicadas continuam com o seu espaço garantido e dentro da aura contemplativa das faixas. Mas, como a própria banda pontuou, The Ceiling é o trabalho com uma gama maior de diversidade musical. Em relação à experimentação sintética, “Fear” se destaca por ser uma música quase puramente eletrônica. Aqui, o vocal e os coros se resumem a mais um instrumento, e não a líder.

Completamente oposta a sua faixa anterior, “Feel”, um indie pop nublado que poderia muito bem estar nos trabalhos anteriores do trio, “Do You Remember?” foi o que eles acreditam ser a fusão de The Cure e Title Fight, segundo a sua leitura. O peso do som não impediu a letra de tratar do delicado tema de ansiedade social, auto sabotagem e comparação com outras pessoas.

Outra contraposição é feita na pesada “End of the World” frente a leveza da maioria das faixas. A mais longa do álbum é também a que mais leva o ouvinte a um lugar obscuro e, por isso, confunde The Ceiling como uma unidade. Mas o peso emocional imposto nas composições continua na criativa “Patience”, em sua bateria enérgica e sua mistura de ambientes eletrônicos com guitarras mais pesadas.

Duas canções lentas também diferenciam harmonicamente do álbum: “Looking / Passing” e “January” são donas de instrumentos raros na discografia do grupo. Enquanto a primeira se pinta com um piano de background, a segunda é quase acústica e incrementa outros instrumentos aos poucos, como uma construção sonora em que a voz de Schofield nunca esteve tão distante.

Enquanto a envolvente “Please Be Kind” é a romântica de toda a sequência com seu refrão “you are on my mind, so darling, please, be kind”, a que pode resumir toda a criatividade e diversidade da terceira aposta do trio britânico é justamente a faixa-título “The Ceiling”, um pedido quase desesperado ao fim de pensamentos claustrofóbicos, depressivos e ansiosos. Um clamor pela saúde mental.

Com a premissa de “just keep going, there’s no ceiling”, The Ceiling é a prova do crescimento e habilidade de JAWS na forma como coloca suas experimentações, temas abordados e sonoridades que são sua marca registrada, apesar do pouco tempo de estrada. No fundo, o trio segue o próprio conselho de seguir o que quer fazer, falando o que gostaria de falar, mesmo sem se sentir adequado.

OUÇA: “Driving At Night”, “Feel” e “The Ceiling”

HOMESHAKE – Helium


Do início da década pra cá, tem muito artista por aí usando e abusando da estética do chamado Bedroom Pop: uma sonoridade lo-fi, com vocais e instrumentos afogados em distorção de má qualidade que pode ser proposital ou só falta de grana pra fazer algo melhor mesmo, identidade visual remetendo aos momentos mais pessoais da intimidade do artista, e letras simplistas que tocam em tópicos de desilusão amorosa e momentos rotineiros retratados de forma mais melodramática e com linguagem mais acessível, mas com a intenção de trazer o ouvinte pra perto a partir de toda uma atmosfera intimista e pessoal, fazendo o mesmo se sentir confortável com tudo que o artista quer passar e tornando a distância entre os dois menor.

O uso desses padrões pra aproximar ouvintes a partir de uma dinâmica lo-fi já vem de décadas atrás, com artistas famosos como Daniel Johnston e Elliott Smith, por exemplo, até o garoto que realmente faz suas músicas pesarosas dentro do seu quartinho pra uns gatos pingados na internet ouvirem, como foi o caso do Vinícius (Yoñlu). Porém, a diferença entre o que já tinham feito nesse gênero e o que podemos chamar de Bedroom Pop é a infusão de gêneros como o Jangle Pop e o Psych Pop, usando de sintetizadores e guitarras agudas para criar algo mais relaxante e com uma certa impressão de desleixo.

E foi nessa onda que surgiu o projeto HOMESHAKE, do canadense Peter Sagar, onde absolutamente tudo que descrevi lá em cima sobre o Bedroom Pop foi usado, complementado por loops de bateria eletrônica (nos álbuns mais recentes) e uma voz suave que destaca de forma balanceada os grooves com forte influência de R&B de cada música. Álbuns como Midnignt Snack e Fresh Air conseguiam atingir um equilíbrio interessante pela constante entrega de boas melodias e uma variedade de variações instrumentais que mantinham a atenção do ouvinte sem se tornar pedante ou repetitivo, apesar do último ter quase chegado nessa marca em certos pontos.

Só que o problema de Helium, novo álbum do artista, é que ele é assim quase o tempo inteiro. A produção mais limpa e formal deixa um certo vazio na sonoridade do HOMESHAKE exatamente onde morava o apelo do projeto, deixando mais a atmosfera da coisa pela atmosfera e não pelas gambiarras musicais que distinguiam cada canção em trabalhos anteriores. Se canções como “Like Mariah” e “Just Like My” tinham até certo potencial de serem destaques no álbum por possuírem elementos que se sobressaem, os mesmos foram enterrados por uma mixagem homogênea que acaba cortando qualquer êxtase possível, tornando o que era pra ser “chill music” em música de elevador mesmo.

Mas não se engane, apesar dos exemplos citados, a grande maioria das músicas aqui não tem nada de realmente atrativo pra te fazer voltar a elas. Qualquer elemento engraçadinho como sons de telefone emulados por uma guitarra ou vozes conversando no fundo que tentavam evocar momentos mais rotineiros pra diferenciar a banda de outras do gênero, humanizando essa arte e aconchegando o ouvinte de forma mais incisiva do que o Bedroom Pop tradicional tenta fazer, foi exterminado de vez aqui a favor de sintetizadores sem inspiração e produção lavada que aproximam mais o projeto de algo que você escuta em qualquer rádio genérica de música dos anos 80 de madrugada.

Apesar de não chegar a ser uma ética sonora que realmente desagrade, peca terrívelmente em qualquer chance de longevidade que as músicas poderiam ter, tornando Helium descartável e medíocre, não causando nenhuma impressão realmente digna de qualquer destaque a quem procura uma sonoridade confortável e familiar como quem se sentiu atraído pelos primeiros álbuns do Peter. Partindo da criatividade sonora dele em diversos momentos na discografia, o projeto poderia ter tomado diversos rumos que destacam essas forças, mas aparentemente escolheram seguir o caminho mais enfadonho.

OUÇA: “Like Mariah”, “All Night Long” e “Just Like My”

Pedro the Lion – Phoenix


Após 15 anos lançando discos em seu próprio nome, David Bazan ressurge das cinzas com Phoenix. Pedro The Lion anunciou o encerramento das atividades em 2006 e retornou em um disco melancólico e recheado de letras sobre o passado, reflexões e pedidos de desculpas por acontecimentos de muito tempo atrás.

Phoenix é um álbum conceitual sobre a casa de infância em Phoenix, Arizona, de Bazan, bem como alguns dos problemas e memórias que a cidade o traz. Recentemente, essas memórias vieram a tona após a primeira visita como adulto. O  álbum é um mergulho gentil e generoso no passado, que se traduz no futuro. É ao mesmo tempo nostálgico e progressivo, proporcionando o melhor dos dois mundos.

As canções, frequentemente cantadas na primeira pessoa, abrigam narrativas altamente pessoais, mas profundamente ressonantes. David Bazan mergulha em sua infância no deserto para fazer as pazes com as pessoas que ele machucou – especialmente a si mesmo.

Depois de duas décadas culpando família, amigos, Deus, capitalismo e a própria vida por seus problemas, Bazan agora se confronta com seus próprios problemas, e o álbum se desenrola como um convite para o ouvinte fazer o mesmo.

Ano novo, nova perspectiva – hora de acertar o botão de reinicialização. Phoenix é a perfeita re-introdução a Pedro, The Lion, e prova que a espera de 15 anos valeu a pena. Poderoso e emotivo, é altamente compreensível e se destaca como um álbum de doações, apoiado por algumas das melhores produções de Pedro The Lion até hoje. Repleto de guitarras distorcidas e pratos estrondosos por toda parte, junto com suas letras satíricas.

OUÇA: “Yellow Bike”, “My Phoenix” e “Quietest Friend”

Cloud Nothings – Last Building Burning


Em Turning On, de 2010, o Cloud Nothings flertava com um indie pós-punk bem típico da época, com guitarras fazendo referência a Strokes, Interpol e mais do mesmo daquele contexto. Em 2012, porém, com Attack On Memory, a banda de Cleveland mergulhou em um pós-hardcore com referências dos anos 80 e 90, se diferenciando pelo caráter experimental, marcante por um aspecto mais contido, menos “apressado”. Dois anos depois, Here And Nowhere Else seguiu a mesma direção de seu antecessor, porém mais tenso e entusiasmado.

O quarto disco da banda, Life Without Sound, no entanto, surpreendeu a todos quando lançado em 2016, logo após a eleição de Donald Trump. Apostando num som mais contemplativo, menos pesado, ficou o sabor de escolha errada para o momento. O que fãs e críticos esperavam do Cloud Nothings naquela situação era, mais do que nunca, a catarse que os diferencia.

Last Building Burning é evidentemente uma resposta ao álbum anterior. A banda volta a focar no peso e na fúria, o Cloud Nothings que nos acostumamos: direto, visceral, vulnerável. No universo caótico que é construído, algumas faixas parecem como um soco no estômago. “Dissolution” e seus mais de dez minutos de duração nos remetem diretamente aos seus dois maiores discos, anteriormente citados. Como bem notou o crítico Ian Cohen, da SPIN, nesse último registro a banda parece ter gravado dentro de uma garagem com um carro ligado. Dylan Baldi, vocalista e líder da banda, aposta em uma abordagem niilista, deixando-se levar por seus pensamentos mais sombrios: ‘They won’t remember my name, I’ll be alone in my shame‘.

Toda crueza de Last Building Burning, no entanto, acaba por vezes esbarrando em um punk-pop noventista um tanto datado. De qualquer forma, é ótimo encontrar uma banda capaz de reconhecer seus tropeços e buscar um caminho, dentro de sua própria discografia, para reencontrar sua identidade.

OUÇA: “In Shame”, “Dissolution” e “So Right So Clean”

Kurt Vile – Bottle It In


Bottle It In é o sétimo álbum de estúdio de Kurt Vile. Aqui, o artista continua experimentando com as sonoridades que estavam presentes nos seus dois últimos trabalhos, b’lieve I’m going down, de 2015 e o álbum colaborativo com Courtney Barnett, Lotta Sea Lice, de 2017. Para quem gostou dos últimos discos, este novo trabalho é, então, um prato cheio.

Em um dos clipes lançado com Barnett, nós vemos muito do dia a dia do ex-The War on Drugs: a vida com a família, as paisagens oceânicas que os cercam. As canções desse álbum, em especial faixas como “Mutinies” e “Bassackwards”, poderiam muito bem servir de trilha sonora para esses momentos. No novo disco, assim como em produções anteriores, as influências de Vile e seu gosto pelo country ficam evidentes. A temática, por sua vez, fica evidente do título do álbum: Kurt Vile canta sobre os sentimentos que às vezes escondemos bem no fundo de nós – não de uma forma melancólica, mas sim resignada, reconhecendo essas sensações.

Além de ser um álbum com uma sonoridade homogênea, que segue o que ele já vinha produzindo, o cantor entrega este novo trabalho sem se importar muito em ser radiofônico – algumas músicas ultrapassam os dez minutos. Assim, Vile não parece muito preocupado se o ouvinte está acompanhando ele durante sua viagem musical – a faixa-título, uma das que têm mais de dez minutos de duração, é uma das melhores do álbum. É justamente por estar seguro do produto que está entregando que o disco funciona. Além disso, Vile conta com a participação de vários artistas para comporem as vozes que emprestam leveza às músicas. Entre as participações especiais, Bottle It In conta com Mary Lattimore, Cass McCombs, Stella Mozgawa (do grupo Warpaint), Holly Laessig e Jess Wolfe (da banda Lucius) e as guitarras de Kim Gordon (do Sonic Youth, em si uma das influências de Vile).

OUÇA: “Bottle It In”, “Mutinies” e “One Trick Ponies”

Phosphorescent – Ces’t La Vie


Ces’t La Vie é um trabalho impecável, resultado de mais uma entrega do Matthew Houck. É o primeiro álbum inédito em meia década, e o novo na sequência de trabalhos do artista.

A voz distantemente melódica e as batidas intimistas, somadas ao tom melancólico do artista criam um ambiente, ao qual Houck nos remete enquanto canta sobre a paternidade e mudanças neste novo registro. É preciso evocar um estado de espírito para entender Phosphorescent e realmente mergulhar na atmosfera criada em seu trabalho – com menos guitarras e elementos eletrônicos, talvez, mas muito semelhante ao que a banda Kings Of Leon fez em álbuns como WALLS e, especialmente, Mechanical Bull.

O rock alternativo que o artista propõe se mistura com o folk e composições que se tornam lamentos contemplativos muito fáceis de compreender.

Em atividade desde 2001, a carreira produtiva Houck de até então estava de molho desde o último álbum de estúdio, Muchacho, de 2013. Em 2015 houve um lançamento de um disco ao vivo, o Live at the Music Hall, com 19 canções interpretadas em shows no Music Hall of Williamsburg, no Brooklyn.

“New Birth In New England” é o registro mais upbeat do álbum. São 9 músicas, distribuídas em 46 minutos. O álbum é aberto com “Black Moon/Silver Waves” e encerra com “Black Waves/Silver Moon”.

OUÇA: “These Rocks”, “Christmas Down Under” e “There From Here”.

Colleen Green – Casey’s Tape/Harmontown Loops


Já tinha ouvido I Want To Grow Up, trabalho anterior da cantora e compositora americana Colleen Green, em 2015. A capa pink do álbum, com a artista usando um chapeuzinho de festa de aniversário já indicava o conteúdo do disco: um indie pop delicinha e colorido, honesto, direto ao ponto, sem firulas. A fórmula permanece nesse novo trabalho, talvez mais crua, mas não menos divertida.

Bebendo na fonte das grandes mulheres do rock da década de 90, de Kim Deal à Kim Gordon, de Elastica a Luscious Jackson, e no indie rock americano clássico, mais copo-de-sangria e festinha descolada possível, Casey’s Tape/Harmontown Loops não traz uma música ruim que seja. Ainda que peque na uniformidade das faixas (mas convenhamos que o indie rock de universidade não tem lá muito pra onde ir), faixas como “Here It Comes”, “Cold Shoulder”, “Green My Eyes”, e a deliciosa “I wanna be ignored” (a meu ver, mais parecida com a sonoridade do álbum anterior), estruturam-se a partir de melodias assoviáveis, redondinhas, que, se estão longe de trazerem algo de novo, cumprem bem a função a que se propõem: punk pop noise bonitinho pra quem tem uma prateleira de livros legais no quarto. Além disso, contando com apenas 9 faixas, é um álbum-pílula, curtinho, que nunca fica boring.

Casey’s Tape/Harmontown Loops poderia muito bem estar na trilha de The Kids Are All Right (no Brasil, Minhas Mães, Meu Pai), filme ótimo da cineasta americana Lisa Cholodenko, lançado em 2010. Bom pra se ouvir num dia bem fresco e ensolarado de setembro.

OUÇA: “Here It Comes”, “Cold Shoulder”, “Green My Eyes” e “I Wanna Be Ignored”.

Still Corners – Slow Air


É estranho e até divertido reparar como os trabalhos do Still Corners seguem um padrão bem ao acaso, mas com um pouco de imaginação é mais do que fácil notar seu trajeto e perceber como tudo se conecta. Partindo das madrugadas grogues de Dead Blue (2016) a dupla agora se encontra mais desperta, mas ainda criando suas típicas atmosferas espaciais, no entanto dessa vez isso não se limita ao seu som, e criando um conceito firmado nos visuais de filmes antigos e auto-exploração, a banda projeta essa nova perspectiva de vida em Slow Air, sem se importar muito com o que era esperado deles.

Ainda se mantendo constantes no que sua roupagem habitual transmite, o duo, mesmo tentando algo novo, optou por não mudar tão drasticamente o que já fazem mais do que bem, e no lugar de seus ares sonhadores e anuviados, seu novo registro retrata cenários urbanos noturnos bem abertos, fugindo de vez em quando para a beira de uma praia ou a estrada mais próxima, e apesar de alheios aos próprios mistérios, sempre soam imersos nas possibilidades de onde sua jornada vai levá-los. O aspecto sintético da banda continua lá, mas trabalhando em perfeita harmonia com guitarras e teclados, dividindo os holofotes sem pressa ou competição, essa combinação é inclusive o ponto alto do álbum, encobrindo qualquer vestígio de tristeza de algumas partes do álbum, fazendo Slow Air até acolhedor em sua viagem solitária.

E em busca de algo ou alguém, a banda parece se perder cada vez mais, não necessariamente de uma forma negativa, há liberdade nisso, mas também deslocação de todo o resto do mundo, mesmo se mantendo aberta a conexões, ela também está disposta a seguir para onde quer que o vento sopre, sem hora pra chegar, sem hora pra partir, volátil demais para sequer termos tempo de entendê-la. Slow Air tem toda essa dualidade inquietante, não inconveniente, mas bem fora do alcance de quem tem os pés no chão. E com letras simples e paisagens rápidas, o Still Corners segue se aventurando sem rumo, apenas confiando em seus instintos mais básicos.

Apesar da dupla continuar extremamente subestimada, parece seguir feliz seu caminho, dessa vez dedicada a apenas acreditar em si mesma e se deixar levar, sem paciência para pensar demais ou muitos malabarismos visuais. Mais do que qualquer outra coisa, a banda parece querer transcender, não apenas o plano físico como também suas limitações emocionais e psíquicas, e não por motivos de querer fazer parte de algo maior, e sim se dar conta disso. Mas voltando pra nossa realidade banal, infelizmente a gente não encontra nada muito novo ou memorável em Slow Air, com a exceção talvez de “Sad Movies” (que apesar de genérica, é extremamente emocional e há um apelo de pertencimento nela), todo o álbum soa desforme demais, apesar de partir de uma ideia bem dinâmica e ter uma estética super agradável, não parece ter havido muito planejamento além de sua base, a tentativa de querer ir além é mais do que bem-vinda, mas não há nenhum convite para o ouvinte embarcar nessa jornada, esquecidos onde a banda partiu, sem promessa de voltar.

OUÇA: “Sad Movies”, Black Lagoon” e “Whisper”.

Snail Mail – Lush


Aos 19 anos recém-completos, e antes mesmo de lançar seu primeiro disco, Lindsey Jordan já era chamada de “a adolescente mais inteligente do rock” ou de “a líder do novo movimento indie” pelas publicações especializadas em música mais relevantes do mundo. Pode parecer exagero para quem nunca ouviu falar da menina norte-americana por trás do nome Snail Mail, mas seu trabalho de estreia, Lush, confirma: às vezes é melhor acreditar na hype.

Ao longo de dez faixas, todas compostas por Lindsey – que também acompanhou bem de perto todo o processo de produção do disco – fica evidente uma honestidade absurda e uma habilidade de usar a seu favor a pouca idade – como para ser adolescente melodramática na brilhante “Pristine”. Ao mesmo tempo, mostra uma maturidade lírica e capacidade de dizer coisas dolorosas e duras com leveza, como faz em “Intro”, com um “they don’t love you, do they?” quase que resignado.

Nos temas que aborda – seus sentimentos, interesses românticos, desilusões – ela aposta sempre na transparência emocional, contando pequenas histórias imersivas que tornam cada música de Lush única. Lindsey não quer se colocar em nenhum pedestal e, mesmo depois de confessar algo profundo, certamente acrescentará alguma mensagem do tipo “bem, a vida é assim”. Ela sabe que até as piores coisas que está sentindo eventualmente vão passar.

Lush prova que Lindsey Jordan merece mesmo a alcunha de adolescente mais inteligente do rock. Mas se Snail Mail é mesmo o futuro do rock ou não, ainda é muito cedo para saber. Espero que seja.

OUÇA: “Pristine”, “Stick”, “Golden Dream” e “Full Control”.

Dr. Dog – Critical Equation


Há dois anos, Dr. Dog lançava o disco surpresa The Psychedelic Swamp. Um ano depois, veio Abandoned Mansion. Agora, temos Critical Equation. Essa breve tradição de soltar um álbum anualmente pode parecer preocupante numa análise superficial – ora, não seria a pressa inimiga da perfeição? Fato é que o quinteto americano parece não se importar com inovações ou em sair de sua zona de conforto. Salvo por dégradés em floreios psicodélicos e influências countries variando de um trabalho ao outro, as músicas dos três últimos álbuns poderiam ser todas misturadas sem perda da identidade de cada trabalho. Apesar de ser bastante perceptível a falta de um encadeamento conceitual estruturante em cada disco – que mais parecem mixtapes -, as melodias são sempre bem definidas e cativantes e as letras funcionam muito bem no aparato instrumental.

Não obstante, nem só de termos técnicos sobrevive uma banda. O primeiro single liberado foi também a primeira faixa do disco, “Listening In”. Minimalista, a melodia fornece o pilar para o eu-lírico expor toda sua indiferença perante fatores externos (animals, dead in the night, eletric lights). Apesar de escutá-los conversar, não se sente contemplado. O mesmo não acontece com seus demônios internos: ‘I can hear the fear in me talking / And it’s talking ‘bout me’. “Buzzing In The Light” aparece como uma das melhores faixas do disco, particularmente. Modesta, as letras são simples e a melodia – com fortes influências dos Beatles e uma pitada de Cornershop -, é melancólica, mas alegre. “Virginia Please”, por sua vez, com certeza entra na lista das melhores composições da banda. Aqui, o eu-lírico tenta retomar relações com Virgínia (o estado americano ou uma pessoa?), mesmo que o preço seja alto: ‘Baby, look, why ain’t you calling me? / I’ll give it up and you can have all of me’.

É importante destacar o trabalho de McMicken (e Toby Leaman) nos vocais. Durante todo o disco, há sobreposições, variações de tons e notas, falsetes e diversos outros aparatos que enriquecem a experiência do ouvinte e qualidade do álbum. Ainda que, retomando, não existam inovações técnicas e tudo não passe de uma reorganização do que já fizeram antes, os veteranos do Dr. Dog entregam boas músicas e não decepcionam. Preguiçosos, talvez, mas sair da zona de conforto pode causar certo mau estar na comunidade de fãs, especialmente por parte daqueles mais saudosistas. No caso de Dr. Dog, são raros aqueles que dizem gostar apenas dos antigos álbuns. Ainda que os primeiros conservem uma pegada mais acústica, são todos muito parecidos, afinal.

OUÇA: “Listening In”, “Buzzing In The Light”, “Virginia Please”, “Heart Killer” e “Coming Out Of The Darkness”