Kamasi Washington – Heaven And Earth


O grandioso saxofonista estadunidense Kamasi Washington volta à cena com o lançamento do aguardado Heaven And Earth, álbum duplo sucessor do debut The Epic (2015) e do EP The Harmony Of Difference (2017), um ambicioso e complexo projeto que confirma Washington não somente como um dos grandes nomes do jazz contemporâneo, mas como um dos grandes artistas e instrumentistas dessa geração.

Heaven And Earth, lançado pelo selo britânico independente Young Turks (Sampha, FKA Twigs, The xx), é o resultado de dois anos de trabalho intenso de Kamasi Washington, de sua banda chamada The Next Stepdo coletivo de jazz The West Coast Get Down de Los Angeles e de estrelas como Thundercat e Terrace Martin.

O projeto é composto por dois álbuns de oito músicas cada: o primeiro é chamado de Earth e o segundo Heaven. Segundo o próprio Kamasi Washington, Earth representa o mundo exterior como ele mesmo o vê e Heaven representa o mundo interior do músico, sendo que, combinados, formam um belíssimo retrato da mente e das inspirações artísticas de Kamasi Washington. Earth é mais agitado, mais frenético, mais urgente. Heaven é mais espacial, introspectivo e espiritual. Mas, não bastasse o grande esforço de lançar um álbum nesses moldes, o projeto é acompanhado de um terceiro CD com 5 faixas, que inclui dois covers: “Will You Love Me Tomorrow” e “Ooh Child”.

Nesse contexto, a proposta do álbum pode ser resumida nas palavras do músico em seu Facebook: “O mundo em que minha mente vive, vive na minha mente”. Essa “dualidade” entre dois mundos nos permite caminhar pelos diversos territórios criativos espalhados ao longo das 16 faixas do álbum, todas produzidas e arranjadas pelo próprio Kamasi Washington e executadas por ele e o time extraordinário que o acompanha fielmente. No entanto, apesar de Washington ser a mente criativa por trás do álbum, todos os músicos envolvidos com o projeto têm seus momentos de destaque e são parte indispensável na feitura desse belo projeto.

À mesma maneira do antecessor The Epic, Heaven and Earth retoma diversos elementos clássicos e indispensáveis do jazz como a aposta na improvisação, a interação orgânica do saxofone tenor de Washington com o contrabaixo, piano e bateria, além dos vertiginosos e inconfundíveis solos de Kamasi Washington e faixas longas que giram em torno de 10 minutos. Contudo, também traz um forte elemento (já visto em The Epic) que é a orquestração da maioria das faixas, o que é percebido já na faixa de abertura, “Fists Of Fury”, uma releitura politizada do tema do filme “Fúria do Dragão” (ou Fist Of Fury) de Bruce Lee (1972). Kamasi dotou as faixas de largas camadas de cordas e vocais celestiais, o que dá ao ouvinte a impressão de que o álbum foi produzido para ser tocado com apoio de uma grande orquestra (algo que não é estranho às performances ao vivo de Washington). Além disso, faixas como “Testify” e “Journey” são cantadas pela excelente Patrice Quinn, outras são salpicadas por ritmos latinos e caribenhos e elementos da música africana e há ainda faixas como “Street Fighter Mas” que revisitam a tradição do G-Funk.

Ainda que seja possível identificar suas grandes influências e temáticas, talvez seja uma tarefa impossível representar Heaven And Earth em palavras, pois este é um álbum feito para ser experimentado, sentido, vivido. Heaven And Earth é um projeto que pode ser ouvido sozinho e também pode ser ouvido entre amigos, pois as dimensões pessoais e comunitárias se sobrepõem ao longo do álbum, bem como a dialética entre os mundos interior e exterior nos fornecem ricas percepções sobre a própria obra – e sobre nossas próprias vidas – a cada nova audição.

Por fim, o grande mérito de Heaven And Earth reside na maestria com que os diversos temas e as diversas escolas musicais são representados e executados ao longo do álbum. Em Heaven And Earth, Kamasi Washington consegue conciliar sua enorme gama de influências, ao mesmo tempo em que aperfeiçoa temas e ideias já apresentadas ao mundo em The Epic. Heaven And Earth é um exemplo perfeito de como o jazz contemporâneo tem enorme relevância no cenário musical atual e tem trazido mais inovações do que qualquer outro gênero em evidência hoje.

OUÇA: “Fists Of Fury”, “Testify”, “Street Fighter Mas” e “Journey”

Paloma Faith – The Architect


A maternidade. Eu não sou mãe e nem poderia ser para conseguir falar com propriedade sobre o que é passar por esse marco na vida. Mesmo assim, pensar que sua vida não é mais a única pela qual você será responsável durante boa parte da sua vida te leva a pensar em inúmeras situações complicadas e enxergar o mundo de outra forma, totalmente diferente do seu pensamento anterior. Os problemas sociais, políticos, econômicos, ambientais, entre outros, começam a ter um peso diferente e tudo parece impactar o seu futuro de uma maneira gigante. A Paloma Faith teve seu primeiro filho no final de 2016. E está bem claro que The Architect carrega todo esse peso [ser mãe] em seus pormenores.

O quarto disco da cantora, como a mesma declarou, é uma observação social. The Architect aparece depois da maternidade de Faith e leva todo esse peso de pensamentos sobre o futuro – como ele vai ser, como evitar dele ser catastrófico, como proteger a humanidade, etc. Sobretudo, então, esse álbum é um disco praticamente temático e é o primeiro dela que se insere nesse panorama. Apesar de seu processo de criação ter começado antes da maternidade, acredito que boa parte dele foi pensado posteriormente ou durante a gravidez da britânica. Está nítido nas letras e em algumas melodias uma certa urgência por algo melhor e maior – vide “Kings And Queens” – e a preocupante “WW3”, que parece a realidade que vivemos atualmente.

Faith também afirma que é a primeira vez que ela olha pra fora do seu pensamento, que olha para a sociedade e que versa sobre o futuro. Todos os outros discos, realmente, são sobre o amor e sobre si. The Architect não deixa de ser uma oportunidade para falar mais sobre como ela pensa politicamente e sobre como ela enxerga o mundo; pode olhar para fora de si, mas não se afasta muito de sua persona – no final das contas é autocentrado como os outros e isso é mero detalhe aqui.

Então é aqui que, provavelmente, veremos o máximo de veia política na música da cantora. Ela tem um público assumidamente mais inclinado ao pop que de política não quer saber muito, é claro. Paloma Faith fez um disco falando sobre o futuro e seus anseios para um descarrego emocional, praticamente, e fez bastante coisa bonita aqui. Depois de ter sido convidada para ser jurada do The Voice UK – Paloma é uma das personas mais influentes da música britânica, atualmente – eu esperava que ela fosse guinar totalmente ao pop – algo como fizera em Fall To Grace –, mas, felizmente, vemos alguns bons sons ligados ao soul e ao quasi gospel típicos do primeiro e terceiro álbuns da moça – como a própria “Crybaby”, primeiro single desse aqui.

Musicalmente falando, The Architect não tem muita novidade em suas músicas. É uma continuação do que a cantora fazia e continua fazendo muito bem; infelizmente as suas guinadas em direção ao pop (como “Still Around”) acabam ficando cansativas com as letras repetitivas e os sintetizadores batidos e, mais uma vez, tirando boa parte da força do álbum (como fez com seu segundo disco), que começa muito bem e vai decaindo e decaindo…; Paloma Faith ainda tem uma força magnífica em sua voz e são nessas mergulhadas em um som mais chiclete que ela acaba estragando o brilho do seu maior diferencial. De qualquer modo, a maternidade, no fim das contas, parece ter caído muito bem para ela e o disco é um belo exemplo de como aplicar esse marco na vida em forma de música – nem sempre tão boa, claro, mas interessante.

OUÇA: “Guilty”, “Crybaby” e “Kings And Queens”

Parov Stelar – The Burning Spider

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Parov Stelar não é um artista fácil para todos. Considerado uma das mais importantes referências para o eletroswing do mundo, o DJ e produtor austríaco iniciou a carreira tocando em baladas ainda nos anos 90, para em 2001 lançar o seu primeiro disco, o Shadow Kingdom. Foram 14 discos lançados – entre coletâneas e lives – até aqui com o The Burning Spider. As novidades são tantas que, até para um fã como eu, fica difícil acompanhar o que ele lança.

Decidi começar essa review pela segunda faixa: “Step Two” é um clássico do Parov. Lilja Bloom, sua esposa e parceira de tantos trabalhos passados se faz presente mais uma vez, o que traz um tom de familiaridade para o som. A música é curta e direta, a batida acelerada cresce à partir de violinos que se mesclam aos midis, loopings e à voz bastante sensual de Lilja.

“Cuba Libre” traz samples incríveis da voz de Mildred Bailey, artista conhecida como a rainha do swing nos anos 30. Uma produção que resume basicamente o conceito de eletroswing: dar bases e vida sintética para clássicos dos blues e swing norte americano. “Black Coffe” segue o mesmo caminho, com voz e trompetes de Wingy Manone. Boa parte da diversão do disco e justamente ir atrás dessas referências e conhecer sonoridades incríveis e muitas vezes pouco exploradas, para quem curte, o disco é um prato cheio: Stuff Smith e Lightnin’ Hopkins são outros exemplos presentes.

Já “State of Union”, uma das duas faixas com vocais do Andaluze, é – ou deveria ser – outro ponto alto do disco. O single de divulgação do disco é um pouco exagerado no pop e chega a ficar clichezona. Parov ainda peca um pouco na escolha de seus featurings contemporâneos, o que distoa muito a faixa do resto dos trabalhos.

O disco é uma ótima escolha para o fãs da banda. Talvez não seja, entretanto, a melhor apresentação do Parov. A única certeza é que se trata de um disco animado e peculiar pela sua nostalgia.

OUÇA: “x”, “x” e “x”

Diana Krall – Turn Up The Quiet

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Mais de duas décadas após seu primeiro lançamento, Diana Krall dificilmente é um nome que passa despercebido no cenário musical, já que sua fama é conhecida pelos fãs tradicionais de jazz e também se estende ao público maior que guarda pouca ou nenhuma relação com este gênero musical. Passados dois anos sem nenhum lançamento, a cantora canadense volta à cena com Turn Up The Quiet, uma bela ode ao grande cancioneiro popular norte-americano e aos standards, talvez a forma mais intimista e apaixonada do jazz.

Em Turn Up The Quiet, Diana Krall retorna a uma sonoridade que remete aos seus primeiros anos de carreira, período em que a cantora revisitava clássicos de Frank Sinatra, Gershwin e Ella Fitzgerald e era presença marcada nos grandes festivais de jazz ao redor do mundo. Contudo, nesse novo álbum, Diana conta com a produção do celebrado e recém-falecido produtor Tommy LiPuma (Paul McCartney, Natalie Cole, Bill Evans e outros) e apresenta uma instrumentação impecável e absolutamente clássica – piano, bateria, guitarra e contrabaixo – ocasionalmente acompanhada de algumas cordas e violino.

No álbum, Diana evidencia o que de melhor há no chamado quiet jazz, aquele jazz tranquilo, intimista, sem muita exaltação e estável. Os ouvintes mais incautos poderiam considerar as faixas como sendo uma grande coleção de músicas de elevador, não fosse o caráter clássico de várias das faixas. As faixas são interpretações modernas de importantes canções do grande cancioneiro popular norte-americano, aquelas músicas mais tradicionais dos anos 20, 30 e 40 que se tornaram conhecidas do mundo pela voz de Frank Sinatra, Louis Armstrong, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Billie Holiday e outros e são conhecidos como standards. “Night And Day”, uma das músicas mais reinterpretadas no jazz e fora do jazz, recebe um pano de fundo contemporâneo, decididamente intimista e amável pela voz soprosa de Diana Krall. “Blue Skies”, canção que data de meados dos anos 20 e que já foi interpretada por Ella Fitzgerald, ganha um aspecto introspectivo e confessional na voz de Diana, como se a canção estivesse alojada no coração da cantora há tempos. Outras faixas também possuem este mesmo aspecto, como por exemplo “No Moon At All”, “Dream” e “Moonglow”.

O fator distintivo do álbum, além dos grandes clássicos revisitados, é a temática de canções de amor, puro e simples. O álbum não foge dessa temática e Diana Krall parece trazer de volta aquele lado mais apaixonado do jazz imortalizado nos standards. Com canções profundas e ao mesmo tempo despretensiosas, Turn Up The Quiet tem uma capacidade de deixar o ouvinte mais à vontade, dando a oportunidade de mergulhar na história do jazz e imaginar como o estilo era ouvido em décadas já esquecidas.

Em Turn Up The Quiet Diana Krall traz de volta a força esquecida dos standards e convida todos, por meio de canções de amor, a buscar inspiração em um estilo musical rico e profundamente influente até os dias de hoje. Até quem não costuma ouvir jazz pode se beneficiar da experiência de ouvir o álbum e, mesmo que este pareça repetitivo por vezes, certamente mostra o valor de Diana Krall como artista nos dias de hoje.

OUÇA: “Night And Day”, “Moonglow” e “L-O-V-E”

Niia – I

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2017 estava sendo um ano extremamente morno de lançamentos para mim, fora um ou outro álbum aqui e ali, estava bem claro que esse seria um ano repleto de mais lançamentos para fãs a deriva, cada qual em seu canto, com pouca coisa recebendo um destaque maior, mas isso acabou sendo uma oportunidade perfeita pra revisitar minha pasta de músicas antigas, enfiar minha cara no pop e querer mais, e foi nessa desventura musical boba que eu tive a adorável surpresa de conhecer Niia, e se por ventura você também estiver com um tempinho livre de seus favoritos, olha, vale muito a pena dar uma chance pra moça hein…

I é o primeiro álbum de trabalho de Niia Bertino, basicamente o que você precisa saber é que ela adora brincar com R&B, jazz, pop e clichês, e faz tudo isso funcionar lindamente. Amor vai, amor vem, vou foder com sua vida e rebolados em dias ensolarados, é essa a vibe que você vai encontrar por aqui, nada de novo sob o sol… exceto pelos seus gêneros, que não dão tanto as caras quanto deviam, faz muito bem saber que músicas comerciais de qualidade ainda estão vivas e fora das rádios pra se poder saborear até não aguentar mais.

Um dos grandes prós do álbum é a capacidade vocal da cantora, o que até poderia soar estúpido levando em conta que estamos falando de música, mas o que mais se vê no cenário musical atual é a dependência de artistas em sua instrumentalidade e afins, especialmente quando se trata de experimentalismo, Niia ainda tem um longo caminho pela frente e muito espaço para amadurecimento vocal, mas o potencial atual é mais do que o suficiente para estabelecê-la como uma artista a qual deve se estar atento. E não bastando isso ser suficiente, singles antigos da cantora que ficaram fora do álbum ou simplesmente pertenciam a uma outra fase de sua carreira, dão bons indícios de uma versatilidade pra lá de bem-vinda num futuro incerto.

O principal problema que I encontra é a instabilidade das músicas ao longo da audição, além de entregar logo de cara suas faixas mais fortes e marcantes, da metade do álbum adiante a sensação de se estar ouvindo demos não passa despercebida, músicas que poderiam ser muito mais trabalhadas parecem ter sido colocadas lá a esmo, a cantora por si só meio que compensa por essa baixa, mas até isso fica meio nublado com a instrumental tomando a dianteira algumas vezes e a deixando pra trás e vice-versa, e fica um gostinho amargo na boca sabendo que I poderia ser muito mais grandioso.

Uma das coisas que eu mais faço questão (e encorajo pessoa a fazerem) é sempre sair de minha zona de conforto de músicas estranhas, duvidosas e geralmente incompreensíveis e abrir os braços para o maistream e clichês, Niia foi claramente uma adição em minha lista, é sempre bom ser pego de guarda baixa por esses artistas os quais nunca se ouviu falar e acabar totalmente baqueado pela surpresa de um bom álbum que vai em contrapartida com o que se escuta religiosamente em dias normais. Sem mais delongas: seja bem-vinda a meu cartão de memória minha querida!

OUÇA: “Sideline”, “Nobody” e “Last Night In Los Feliz”

Norah Jones – Day Breaks

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Após o progressivo distanciamento de estilo sonoro, com as diversas experimentações realizadas pela artista nos últimos anos, Day Breaks revela que esta ainda consegue criar um belíssimo disco de jazz, que nos lembra o tão bem-sucedido Come Away With Me, apesar de não alcançar o mesmo nível deste primeiro álbum que lhe rendeu Grammys e deu um boost na sua carreira.

O sexto álbum da Norah Jones é uma tentativa de retornar às origens da artista, voltando, portanto, com o piano como instrumento principal nas composições, mas com o diferencial de que ela resgata alguns dos estilos explorados ao longo do caminho trilhado pela artista anteriormente, o que nos mostra que a Norah Jones é capaz de transitar tranquilamente entre o jazz, blues, rock, country e pop.

Quanto ao conteúdo das suas músicas, dá para perceber que não mais nos deparamos com faixas românticas e sim com aquelas que saem desse estilo – “Flipside” e “Carry On” são exemplos – já que retratam assuntos mais proeminentes e sempre atuais como aspectos sociais, angústias, violência, paz e esperança. E claro, as músicas ganham retoques sonoros que fazem toda a diferença no conjunto final do disco, à título de exemplo o solo maravilhoso do saxofone soprano na oitava música, a presença do órgão ou baixo tanto elétrico quanto mais melódico ao acompanhar outras canções ou até mesmo a sutil guitarra na música que dá nome ao álbum – Day Breaks. Não só ela nos agracia com suas músicas autorais super jazzísticas e intimistas, que são o foco do álbum, como também nos dá a oportunidade de ouvir clássicos de letras mais obscuras como “Don’t Be Denied”, do Neil Young, “Peace”, do Horace Silver e “Fleurette Africaine (African Flower)”, do Duke Ellington. interpretados na tão relaxante, potente e ao mesmo tempo suave voz da artista.

No entanto, apesar de algumas faixas serem realmente muito boas e dignas de aplausos, o disco parece perder o brilho quando chega à sua metade, podendo soar um pouco entediante. Essa impressão desvanece apenas quando a divertida e mais animada “Once I Had A Laugh” começa a tocar.

No mais, independentemente do disco não ser o melhor da artista, foi um ótimo adendo ao seu repertório e reflete uma Norah Jones mais amadurecida, consciente daquilo que já produziu.

OUÇA: “Flipside”, “Tragedy” e “Carry On”.

Michael Kiwanuka – Love & Hate

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‘Calling for my demons now to let me go. I need something, give me something wonderful’

Na primeira vez que ouvi “Black Man In A White World”, primeiro single de Love & Hate, fui transportado para o meio de uma marcha pela igualdade de direitos entre brancos e negros americanos nos anos 60, tal foi a força da letra que ouvi e do ritmo presente que possui a combinação exata entre Motown e África. A primeira vez que ouvi a música foi também a primeira vez que vi seu vídeo. Talvez o melhor vídeo que vi em muitos anos (e que não levará prêmio algum, uma vez que Beyoncé ou Taylor Swift não estão nele). A soma dos dois fatores, som e imagem, foi arrebatadora. Duvido que você, independentemente da sua cor, não se sinta tocado, questionado e incomodado com o que vê e ouve neste primor que resulta da música de Kiwanuka e do vídeo de Hiro Murai.

Michael Kiwanuka é o vencedor do Sound of… da BBC de 2012. Filho de ugandenses fugidos do regime de Idi Amin Dada, o rapaz nascido em Londres lançou seu debut, Home Again, naquele mesmo ano. O disco foi extremamente bem produzido, uma perfeição neo-soul que destacou o grave de sua voz. Talvez pela pressão em ser “the next big thing” ou pela produção milimetricamente vintage, o disco acabou ficando redondo demais e, apesar de todo talento envolvido, beirou perigosamente o genérico. Isso fez com que, injustamente, os olhares em sua direção se dispersassem rapidamente.

Quatro anos depois, Kiwanuka retorna com seu segundo álbum, Love & Hate. Esse longo período longe dos holofotes e a falta de pressão sobre seu novo trabalho deram a liberdade que o artista precisava para olhar para dentro de si, revisitar suas dores e suas influências e transformar tudo isso em música. O resultado não poderia ser outro. Temos em mãos um disco extremamente acima da média se comparado com o que é feito hoje nos batidos mercados americano e britânico. Por vezes arriscado, sempre bem arranjado e produzido, com boas letras e ótima interpretação, Love & Hate é um desses discos que não aparecem todo dia.

Love & Hate é um álbum que traz referências de várias vertentes da música negra. Há soul, pitadas de gospel e blues. A forte canção de abertura “Cold Little Heart” com seus 10 minutos recheados de coros e solos de guitarra indica que este será um álbum bem diferente de Home Again. Na verdade, é uma grande evolução de seu debut. É um disco muito mais cru e com muito mais sentimento. Com canções mais longas, fugindo do padrão radiofônico, Kiwanuka dá destaque à sua guitarra, claramente influenciada por bandas da virada dos anos 60 para os 70. A soma da guitarra com as cordas, corais e a voz grave do artista transformam várias canções em experiências quase espirituais, vide a faixa “Rule The World”.

As letras permitem diferentes interpretações e, com uma visão mais ampla, são muito mais do que canções de amor, pesar ou reconciliação. São canções sobre a inquietude do ser, sobre alienação, sobre não ser aceito e ter ou não perdão. É sobre ser, nas palavras do artista, um homem negro em um mundo branco. O auge do disco é a canção “Love & Hate”. São sete minutos de um arranjo que casa perfeitamente cordas, coros, piano e guitarra e, acima de tudo, sete minutos de Kiwanuka expondo seus demônios, forças, fraquezas e implorando por catarse, por aquela maravilha da frase que abre o texto.

Love & Hate é o mais próximo de um clássico que um disco soul chegou nestes anos pós-Winehouse. Pena que o introspectivo Kiwanuka não recebe a mesma exposição que a explosiva Amy (merecidamente) recebeu. A torcida é para que o Mercury Prize o ponha mais uma vez em evidência. Em um mundo justo, este álbum não passaria despercebido de maneira alguma. Mas, parafraseando o próprio Kiwanuka, ele é um homem negro em um mundo branco. E todos nós só perdemos com isso.

PS.: Em mais de trinta resenhas para o You! Me! Dancing! essa é apenas a segunda vez que dou uma nota superior a nove. Vos peço: me ouçam e ouçam Love & Hate. E vejam o vídeo de “Black Man In A White World”. De nada.

OUÇA: “Black Man In A White World”, “Love & Hate”, “Cold Little Heart” e “The Final Frame”

Schnellertollermeier – X

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A tríade baixo, bateria e guitarra certamente foi responsável por inúmeros grupos excepcionais ao longo da história da música, essencialmente durante os anos 60 e 70, época de incontáveis bandas que, volta e meia, confrontavam as margens do que é possível estabelecer nesse contexto, abusando completamente dos limites impostos na simplicidade que os três instrumentos, sozinhos, transmitem. Bem, hoje em dia ainda temos ótimos representantes no campo desse atrevimento que possui a famosa composição clássica do rock. O trio suíço Schnellertollermeier, já com um álbum de estúdio no currículo, certamente é um desses novos nomes que transpassam a música além de sua capacidade habitual, o grupo, com nome digno de um trava-língua dos mais complicados, faz de X (seu novo disco) um exercício do que há de mais absurdo e violento na música instrumental contemporânea, levando o ouvinte a questionar, no instante de entrega ao álbum, de onde vem tamanha força que o power trio passa ao longo das sete pancadas instrumentais que o disco possui. X, acima de tudo, é um trabalho de imersão em fúria e caos, que se utiliza de sua grosseria para criar um dos maiores e mais brutais monumentos musicais que você seguramente escutará em 2015.

Sendo uma banda completamente instrumental, como exposto anteriormente, o Schnellertollermeier compensa a falta de vocais do álbum para buscar, na barbárie, na selvageria intensa da arte, a sua real comunicação direta. O que existe aqui é um desafio, que, por sua vez, transmite um pacto de entendimento entre o artista e o ouvinte, sendo esse acordo muito maior do que qualquer outro diálogo mais tradicional por meio de vocais. O que presenciamos em X é a sinergia na acepção mais primal e animalesca da música, na busca da cooperação que o álbum conduz, o consenso do mais forte, do arrebatamento, o resultado do que há no choque sensorial entre artista-ouvinte. “X” abre com uma longa jornada com pouco mais de 20 minutos de duração, sob uma marcha tribal que vai, gradativamente, assumindo um corpo cru e monolítico, criando uma frágil linha entre o punk, a desordem, o caos… Com o jazza simetria, o aperfeiçoamento. Pois, nesse limite de extremos, a música do power trio suíço acaba criando um redemoinho de psicodelismo, isso sob o regimento do que mais parece ser uma batalha punk-jazz alçada em livre improvisação, onde eventualmente acontecem pequenos intervalos, esporádicos, mais lentos e melódicos, passando uma não-distinção do que é realmente improvisado e coordenado.

Progressivamente o disco também parece alçar uma curiosa evolução estética, algo que aparenta ser próprio do processo de criação e concepção que a música possui; como dito anteriormente, a primeira faixa abre o álbum sob uma interpretação primitiva, quasitribal, num ode ritualístico que já convida o ouvinte para a sua proposta de entrega cerimonial. Aos poucos, no entanto, esse festejo rudimentar vai assumindo uma carne mais, digamos… metalizada, robótica, em um transcurso de aparente desenvolvimento tecnológico, algo diferente de sua proposta inicial, mais humana, com veias e vísceras, dando um caráter singular a toda animosidade que o disco possui, representando um suposto embate entre esses processos, entre esses corpos distintos. Homem vs. máquina, a brutalidade então é apresentada sobre duas facetas: o rosto mundano, concreto, no turbilhão noise terreno e material; e na visão mecânica, robotizada do math rock, no avant-prog mais maquinário e desumano.

O disco então vai seguindo nessa diretriz evolutiva, encontrando pelo caminho espasmos de delicadeza que se (con)fundem com grosseria e agressividade, até que, como todo ciclo, retorna à sua gênese profana, em uma ordem de eterno retorno. Por isso mesmo a última faixa do disco é um fato curioso no álbum, afinal, como dito, ela representa uma espécie de regresso, funcionando apenas como uma réplica da primeira e abusiva canção de 20 minutos; entretanto, essa cópia, ainda assim, me parece mais disforme do que a anterior, do que seu espelho. “X (excerpt)”, é mais debilitada, com quase 14 minutos a menos do que a original, porém não menos bela, como se a banda na verdade tivesse se desgastado exaustivamente no primeiro percurso, a versão mais sinóptica da música transmite um significado um tanto simbólico, me parece uma tentativa falha de repetir esse trajeto sucessivamente, um trabalho pesado como o de Sísifo e a vastidão do absurdo. Sem descansos, sem afagos. O que escutamos aqui trata-se de um trabalho forte, árduo, tão poderoso e difícil quanto carregar uma enorme rocha montanha acima, solitário, mudo e incansavelmente, mesmo que ela role para o início inúmeras e inúmeras vezes, sob uma sentença infinita que mais parece não ter sentido, quando o sentido, por sua vez, é o próprio trajeto.

OUÇA: “X” e “Riot”

Meghan Trainor – Title

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2014 foi um ótimo ano quando se trata de novos artistas que estouraram. Três exemplos fáceis de mencionar são Sam Smith, Iggy Azalea, e claro, Meghan Trainor. Com o massivo hit “All About That Bass” um spotlight foi acesso em cima de Meghan e todos começaram a prestar mais atenção naquela garota comum cheia de atitude. Prova disso foi o lançamento de Title, que debutou em 1º lugar na Billboard destronando o brilhante e mega sucedido 1989 de Taylor Swift.

“All About That Bass” foi escrita por Meghan em parceria com Kevin Kadish e, apesar de retratar a adolescência de ambos, Trainor seria inicialmente apenas sua compositora, direcionando a mesma para cantoras como Beyoncé e Adele. Após ser contratada pela Epic Records e devido a sua relação pessoal com a canção, decidiram que a faixa seria seu debut single, o que surpreendentemente resultou em um enorme sucesso nas rádios, nos charts e em impressionantes números de vendas mundiais. Além disso, também desbancou recordes de outros cantores como Michael Jackson e ainda lhe rendeu duas indicações ao 57º Grammy Awards.

Um dos diferenciais de Meghan está presente em suas influências, que vão do jazz ao doo-wop, como em “Walkshame”, além de também ter um pezinho no soul, como em “What If I”, por exemplo; influências essas perceptíveis durante o álbum inteiro. Baladas românticas também estão presentes, como a belíssima parceria com John Legend em “Like I’m Gonna Lose You”. Além disso, sua voz é outra grande qualidade. Com uma rouquidão única e memorável, Meghan coloca vida às suas próprias composições.

Mesmo oferecendo mais do mesmo, música popular e chiclete, Meghan possui o pacote completo: canta, compõe e tem boa imagem. Com conteúdo de sobra ela conseguiu se destacar nesse mundaréu da música popular internacional, cativando milhares de pessoas e se tornando um ícone consolidado com o lançamento de Title. Que ela consiga manter esta posição por mais tempo e não caia no esquecimento. Talento pra isso? Ela tem de sobra.

OUÇA: “All About That Bass”, “Walkashame”, “Lips Are Moving” e “No Good For You”

Benjamin Clementine – At Least For Now

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Receio. Essa é a palavra que veio à minha mente quando eu decidi fazer esta resenha que estou escrevendo agora. Benjamin Clementine não é algo fácil de se lidar e muito menos de falar sobre. Começamos o ano de maneira estonteante e eu estava com medo de deixar qualquer detalhe de fora sobre o melhor cantor da última semana. Cantor parece pouco para o rapaz. Poeta, talento, prodígio. Eu não sei o que falar, só sentir, por isso tenho receio.

Mas do receio reúne-se a força para falar sobre e aposto que o próprio Clementine riria da minha cara se eu falasse sobre esse medo de falar sobre ele. E com nada menos que: impressionante. Essa é a palavra perfeita que pode descrever o que Benjamin Clementine consegue fazer de maneira tão natural e fluída no seu primeiro álbum, At Least For Now. Não existe eu-lírico na poesia do cantor londrino, o protagonismo é dele e só ele pode e deve tomar frente de todas suas letras, não há espaço para alter-egos ou impersonalidade. Ele viveu, ele sofreu, ele que relatar para quem está ouvindo, de maneira direta e incorporando a figura de si próprio em sua aventura dentro de letras tocantes, profundas e escarificantes.

At Least For Now acaba sendo uma pequena biografia da vida de Clementine, indicando momentos de dificuldade, cansaço de tudo (“St-Clementine-On-Tea-And-Crois”), fossa profunda… A voz de Clementine encanta; toca na alma; faz ferida e deixa aberta, sangrando. Dá pra quase (por que não queremos protagonizar a causa) sentir o que se passou com o moço. Sofrimentos apurados facilmente em suas letras de fácil acesso e sem muitas metáforas; diretas, cuspidas, escarradas na face da dor.

O background de piano complementa perfeitamente e o sentimento só empodera-se, aumenta, potencializa com o dedilhar de teclas, pausadas, espaçadas. At Least For Now tem paixão pela dor e da dor faz toda sua alçada e o piano está ali para dar aquele tom de trilha sonora para um musical triste, sombrio e interessante. A esquizofrenia pontilhada e bem colocada das teclas de alguns momentos de músicas como “Then I Heard A Bachelor’s Cry” e “Adios” dão toques especiais ao versar do poeta Clementine e deixam tudo num enlace sentimental que beira a perfeição.

At Least For Now é um compilado de músicas que versam sobre a vida de alguém e as observações do mundo sob estes mesmos olhos, poéticos, pensantes, reflexivos. Elas podem sim retratar muito bem a vida de milhares de pessoas por aí, inclusive de mim mesmo ou de ti, mas a vivência de Benjamin Clementine foi perfeitamente encenada e encarnada nessa composição maestral, orgástica, incólume. Seja em matérias de crescimento, de relacionamentos, de vivência, Benjamin Clementine consegue expor muito bem suas feridas de uma forma que chega a ser gigantesca, sonora, sem pudores e nos toma de emoção, fazendo questão de nos engolir com tamanho sentimento, explosão, acontecimento. Essa ferida não vai cicatrizar tão cedo e isso é muito bom.

OUÇA: Uma biografia não deve ser lida em pedaços. Leia tudo, sinta tudo, ouça tudo.