M83 – DSVII.



O M83 se especializou em contar histórias e, por isso, talvez seja uma das bandas que mais se utilizou do formato “álbum” para propor sua arte. Ouvir um disco do M83 é se entregar a um conto de fadas neon onde tudo é fantástico e nostálgico, pois nesse mundo de características epopeicas, o ponto de partida é a imaginação infantil e toda sua extensão. 9 anos após a sua obra-prima Hurry Up, We’re Dreaming pouco resta dúvida sobre o papel que a figura da criança tem para o artista. Poderíamos passar alguns bons parágrafos discutindo as incursões psicológicas da centralidade do papel da criança e seus efeitos na profundidade da obra acima mencionada, mas não é este o objetivo aqui. Basta que saibamos, como chave de análise, que a potência criativa do grupo reside na transformação do mundo cru, quiçá perverso, em um ambiente totalmente inexplorado e ingênuo. A hora da aventura pode ser sempre o agora. É o que assertivamente o M83 nos convida a fazer com seu novo projeto, DSVII.

As pistas do que se espera do álbum começam pela sua capa: um cavaleiro montado em um réptil depara-se com uma escada rumo ao topo de uma pirâmide. Junto a ele, parece aconselhá-lo uma outra criatura mítica. O entorno parece ser um outro planeta tingido de tons foscos de roxo, verde e azul.

A travessia começa, pois, com a epopeica “Hell Riders”, canção de quase 7 minutos de duração dá as primeiras notas e tons da narrativa. DSVII afasta-se notavelmente do maximalismo proposto no álbum de 2011, ou mesmo daquele presente em Junk (2016). Nesta faixa, há coros angelicais (muito presentes em vários outros momentos do disco) e melodias medievalistas muito bem executadas nos sintetizadores que dialogam claramente com as trilhas dos jogos de videogame. O álbum flui perfeitamente a partir daí, as composições e as variedades de som aplicadas enriquecem e conferem uma atmosfera completamente cativante, como é o caso das ótimas e emocionantes “A Bit Of Sweetness”, “Meet The Friends” e “Jeux d’enfants” (novamente, o léxico infanto-juvenil sendo apresentado). São músicas extremamente sensíveis que trabalham em baixos decibéis, mas que funcionam como fôrmas para a imaginação do ouvinte. Um presente para a nossa necessidade de se recolher, refletir e se reinventar.

Passados os 50% da audição do disco, nada resta de dúvida sobre o ótimo trabalho entregue pelo M83. “Lunar Son” é a grande joia da segunda parte do LP, ao passo que traz lindos solos de flautas ritmados por pianos.  Ao final, o álbum revela onde o nosso simpático personagem vai parar: o templo da tristeza. A faixa ata as duas pontas do disco com um desenvolvimento primoroso, valendo-se de todos os elementos explorados nas outras 14 faixas do disco. O final desta faixa não tem nada de tristeza, a parte do fato de que a aventura teve seu fim. A travessia do jovem herói foi completa e muitos passos acima do começo, mas, como em um movimento espiralado, seu fim está na mesma linha do começo.  É hora de voltar a realidade, até que a próxima audição comece e a criança dentro de cada um de nós possa brincar novamente.

OUÇA: “Hell Riders”, “Meet The Friends” e “Lunar Son”

Nick Cave & the Bad Seeds — Ghosteen



Esta é a resenha mais difícil da minha carreira. Desde o dia 03 de outubro, a internet — como um todo — vem falando nesse álbum. E isso vem me apavorando um pouco desde que tirei a sorte grande de falar de Nick Cave & the Bad Seeds, pelo simples fato de não saber se estou à altura. 

Aproveito, porém, a oportunidade de mergulhar nesse universo e trazer a você, caro leitor, um pouco desse turbilhão de emoções que sinto após ouvi-lo. Tentei me “contaminar” o mínimo possível com informações sobre o álbum ou ler outras resenhas para que minhas palavras sejam as mais verdadeiras possíveis.

Classifico Ghosteen como um espetáculo sonoro pessoal e introspectivo. Não tenho nenhuma bagagem de Nick Cave, só conheço uma de suas músicas “Into My Arms”, do álbum God Is In The House (2003) e que está presente na trilha sonora de Questão De Tempo, um dos meus filmes favoritos. Lembro que, quando o assisti pela primeira vez, criei um ritual, graças a outra música da trilha sonora que me tocou muito. Logo que o filme acabou, deitei no sofá, coloquei “Spiegel Im Spiegel”, de Arvo Pärt (aka a música mais triste do mundo), para tocar nos fones e fiquei lá deitada. Olhando para o teto. Sentindo a música.

Construo esse cenário, pois logo na primeira canção de Ghosteen eu relembrei esse momento e fui tomada por esse mesmo desejo. Largar tudo, deitar imóvel e deixar com que cada partícula do álbum fosse sentida pelo meu corpo. É um disco para se ouvir assim. Sem pressa. Sem preocupações. Nu. Vazio. Pronto para ser preenchido por cada uma das músicas.

Em sua experimentação gótico-psicodélica, Nick Cave & the Bad Seeds traz camadas e mais camadas de vozes, com o destaque para a voz potente e inconfundível de Nick Cave, além de um instrumental que faz arrepiar qualquer um que ouça, seja nos pianos e órgãos ou nas misturas eletrônicas e distorcidas que o faz. 

É arte pura, dividida em dois atos. “Leviathan” promove um perfeito fim de primeiro ato. Que poderia ser muito bem o fim do álbum. Mas Nick Cave and the Bad Seeds vai além. O segundo é ainda mais experimental, com duas — de suas três canções — com mais de 10 minutos de duração. Embora o destaque nesse segundo momento seja o instrumental, principalmente nas canções mais longas “Ghosteen” e “Hollywood”, é impossível não mencionar “Fireflies”, que funciona quase como um poema a ser declamado por Nick Cave. É um momento precioso e reflexivo. 

Não se engane. É uma obra belíssima, mas igualmente pesada. É preciso respirar e processá-la. 

E eu poderia ficar horas a fio tentando descrever o mais recente trabalho de Nick Cave, mas de nada adiantaria. É um álbum que pede pelo mergulho do ouvinte. Que pede pela suspensão do mundo por 1h e 8 minutos. Faça esse favor a si mesmo. 

Dizer que Ghosteen é o álbum do ano de 2019 talvez seja um eufemismo. Mas é isso. É o melhor álbum que você vai ouvir hoje. E como Nick Cave bem canta em “Waiting For You”: “Sometimes a little bit of faith can go a long, long way”.

OUÇA: >“Waiting For You”, “Hollywood”, “Night Raid” e “Sun Forest”

Chelsea Wolfe – Birth Of Violence



Ao contrário do que o nome faz parecer, o sexto álbum de estúdio da compositora estadunidense é, sonoramente, um dos menos violentos da sua carreira. Isso principalmente em contraste com os flertes metaleiros do anterior Hiss Spun (2017) e o som darkwave consolidado em Abyss (2015). Agora em Birth Of Violence, lançado no dia 13 de setembro, Wolfe segue por caminhos mais acústicos do folk e country para criar o panorama gótico comum a todo o seu trabalho. 

Uma escolha bem consciente, diga-se. Em produção conjunta com o habitual parceiro Ben Chisholm, Wolfe traz uma nova roupagem de som onde os elementos elétricos e de sintetizadores estão mais enterrados na mixagem. Cria-se uma paisagem sonora enevoada como a da capa (destaque aqui para “Little Grave”), prenunciando a tempestade que casualmente chega ao final do trabalho, na gravação de campo “The Storm”. Em cima de tudo isso, sobressai o vocal e o violão, presente em quase todo o disco. Apesar desse caráter acústico remeter a trabalhos do início da carreira (Chelsea inclusive já fez uma compilação só com canções desse tipo, em Unknown Rooms: A Collection Of Acoustic Songs), aqui tudo tem muito mais fidelidade e polidez na gravação.

Para o bem, e para o mal: esse é um disco com a performance vocal muito mais contida, em registro mais agudo e sem os elementos agressivos de clipagem do lo-fi, o que faz com que as canções percam um pouco o caráter catártico que sempre marcou a sua obra. Não que Wolfe tenha desaprendido como pesar em sua interpretação: “Erde” e “Dirt Universe” são bons momentos para quem espera esse aspecto do trabalho. Os momentos de crescendo dentro do disco também fortalecem algumas canções, como na abertura “The Mother Road”.

Mas num geral, o clima é menos oscilante, que oscila entre bons momentos e outros infelizmente mais esquecíveis, caso do single “Deranged For Rock & Roll”. Na lírica, os temas como identidade feminina (“The Mother Road”, “Erde”) e desolação (“American Darkness”, “Highway”) transparecem em todo o disco e ajudam a fortalecer a coesão temática dentro da obra que se não soa exatamente como a Chelsea Wolfe de sempre, também está longe de ser um atira-pra-todo-lado.

Birth Of Violence é um disco menor de Chelsea Wolfe em um território que apesar de não ser totalmente novo, facilmente se diferencia da sequência dos últimos trabalhos da artista por uma maior sobriedade. Nesse sentido, a execução é competente, mas as composições menos inspiradas e a estética muito mais contida faz o álbum ficar pouco marcante na comparação.

OUÇA: “The Mother Road”, “Erde”, “Dirt Universe”

Lucy Rose – No Words Left



Você nem precisa ter passado por um término de relacionamento para chorar com o novo álbum da Lucy Rose. No Words Left é quarto disco da compositora britânica e talvez o melhor dos seus 7 anos de carreira.

Conversation don’t come easy, but I’ve got a lot say‘, com esse verso Rose abre a primeira faixa do álbum, “Conversation”. Em uma geração que teve que aprender a criar mais espaços para diálogos, a cantora admite que ainda há dificuldade de ser ouvida, de falar por si só, como mulher, como artista. E em No Words Left parece que ela finalmente coloca tudo para fora. Liricamente, é o melhor que Lucy já alcançou. Soa mais verdadeiro e próximo que suas produções anteriores.

Com letras sobre isolamento, incertezas, Rose é mais dura ou talvez só mais consciente dos seus mais momentos difíceis. Não é álbum de quem ainda está em dor, mas de quem já a superou e consegue olhar para o passado e finalmente entendê-lo. Músicas como “Solo (w)”, que parecem ballads da Kate Bush, demonstram esse distanciamento. É a consciência de que quando estamos sozinhas, parece que algo está faltando – ‘Something’s missing/ When I am solo, so low, solo, so low’.

Em uma época em que todo artista canta sobre suas ansiedades, Lucy Rose se destaca pela sua sinceridade quase crua. ‘And I’m afraid and I’m scared and I’m terrified/ That these things won’t ever change/ For all of my life’, ela canta em ““Treat Me Like A Woman” , uma das melhores músicas do álbum.

No Words Left é um álbum para chorar. Mas com aquele quentinho no coração, porque não estamos sozinhas. É o desabafo de um amiga sobre um momento difícil que ela passou e que agora você está vivenciando. É a frase: “vai ficar tudo bem, tudo passa”.

OUÇA: “Conversation”, “Solo(w)” e “Treat Me Like A Woman”

Avey Tare – Cows On Hourglass Pond


Em fevereiro, pude resenhar Buoys, o sexto álbum solo de um dos membros do Animal Collective, e percebi diálogos, inevitáveis, com outros processos e com a história da banda. Agora, posso resenhar Cows On Hourglass Pond, novo álbum de outro dos Animal Collective, Avey Tare (ou David Portner). Assim como foi inevitável para mim associar e comparar muito do solo Buoys a trabalhos do Animal Collective — com os quais Noah Lennox não necessariamente estava envolvido — vejo enormes paralelos possíveis entre Cows On Hourglass Pond e álbuns antigos do Animal Collective.

Mas se para a resenha de Buoys fiz algum esforço para driblar a (indevida) relação entre esse lançamento e o recente álbum visual Tangerine Reef, do Animal Collective, do qual Noah Lennox não participou, posso tomar a liberdade de comparar — e, mais importante, de distanciar — livremente o homogêneo Tangerine Reef de Cows On Hourglass Pond, novo disco de Avey Tare.

Como se mostra constante no trabalho do Animal Collective e de seus membros individualmente, existe uma preocupação, um tipo de vínculo, criado com o que se entende por natureza e Cows On Hourglass Pond não fica atrás nesse sentido. Permeado pela figura das vacas e cavalos desde a capa, título e todo o material promocional, até faixas explícitas, como “HORS_”, sinto que, ao contrário do sufocante e sem graça Tangerine Reef, uma reflexão audiovisual sobre recifes de corais, Cows On Hourglass Pond nos coloca em perspectiva.

Amplamente influenciado por beats de early techno, o disco mistura essa base ao violão meio “percurssionado” que marca outros trabalhos do Animal Collective, como Sung Tongs sendo o exemplo mais óbvio e “The Meeting of the Waters” a referência à natureza e ao etéreo mais inevitável, em contraponto a trabalhos mais frenéticos como Merriweather Post Pavilion, Paiting With ou Strawberry Jam. Em grande medida, a tentativa de Avey de criar uma atmosfera de natureza respirável é bem sucedida, principalmente, não pelo afastamento dessa onda “frenética”, mas pelo uso cuidadoso dessa possibilidade de forma não tão agressiva: com seus vocais de altos e baixos menos gritados e com o violão.

O arranjo musical de estranheza sutil e delicada combina com muito do que se traz nas letras, em um acordo com a contemporaneidade que só Avey, sozinho ou com o Animal Collective, consegue trazer sem soar forçado. Avey estabelece diálogos com a natureza não por uma negação do contraponto a ela, mas por pequenas interferências reflexivas sobre o a complexidade do descanso, evidente em “Saturdays (Again)”, sobre máquinas, robôs em “K.C. Yours”, e muito sobre memória, amizade, nostalgia. Anseios muito subjetivos misturados a anseios muito coletivos que, por algum motivo, funcionam e se equilibram.

É fácil para mim elogiar qualquer coisa que qualquer membro do Animal Collective faça. É um som que me pega em um nível que poucos outros conseguem. São essas pequenas estranhezas, piadas equinas, referências cômicas entrelaçadas com melodias emotivas, complexas e cheias de camadas que criam um ambiente ao qual é fácil me entregar. Então, entregue de novo, escutem Cows On Hourglass Pond e aproveitem.

OUÇA: “HORS_”, “What’s The Goodside?” e “Saturdays (Again)”

Benjamin Francis Leftwich – Gratitude



A aproximação do eletrônico com o folk sempre rende resultados encantadores. Gratitude de Benjamin Francis Leftwich é um exemplo perfeito dessa dinâmica e um álbum profundo em conteúdo, ao mesmo tempo.

Leftwich é um inglês que, com o novo álbum, conta com três discos na carreira. O primeiro, Last Smoke Before The Snowstorm é de 2011. O segundo veio em 2016, o After The Rain. Ele também tem três extended plays (EPs) na discografia: A Million Miles Out, Pictures e In The Open.

O lançamento mais recente traz a voz distintiva do cantor e compositor entoando 12 músicas inéditas que são reflexos de uma jornada pessoal. De forma geral este é um disco que acrescenta novos elementos ao trabalho de Leftwich ao mesmo tempo em que é uma evolução natural de sua música. É perfeito para quem gosta de ouvir Father John Misty, James Vincent McMorrow, Sufjan Stevens, Ben Howard ou Roo Panes – estes três últimos em especial.

As composições são reflexos de momentos tempestuosos que o artista viveu durante os três antes que antecederam o lançamento do novo registro e a divulgação do, até então, último trabalho. Gratitude vem de sua recuperação de problemas com álcool e aborda temas como introspecção e conforto.

É um álbum mais maduro e mais sério, certamente mais emocional, também, do que os registros antecessores. A musicalidade de sua voz, no entanto, é mantida e não há nenhum distanciamento daquilo que Leftwich já foi musicalmente falando – mesmo que existam rupturas entre o seu eu de hoje e o de antes.

Gratitude é um álbum contemplativo. Toda discografia de Benjamin Francis Leftwich o é. Este álbum, em particular, merece atenção pelo fato de ser pessoal e narrar de uma maneira muito bonita a forma como um homem pode se relacionar com suas próprias questões.

OUÇA: “Look Ma!”, “Tell Me You Started To Pray” e “Blue Dress”

Amanda Palmer – There Will Be No Intermission



Amanda Palmer é uma pessoa extremamente passional em tudo o que faz, desde sempre. Sua carreira musical, com toda a certeza, não é diferente. Eu pessoalmente sou muito fã da moça desde seus tempos com o The Dresden Dolls e acompanho sua carreira solo desde o “fim” do duo. There Will Be No Intermission é seu quarto álbum solo, se contarmos o Amanda Palmer Goes Down Under, que foi gravado ao vivo, e o primeiro desde o incrível Theatre Is Evil em 2012. E Intermission é um álbum essencial da Amanda.

Trata-se, provavelmente, do álbum mais pessoal de toda a sua carreira. Lidando com temas como maternidade, morte, amor, aborto e casamento, Amanda canta todas as suas dores de forma bastante explícita e honesta sem medir suas palavras. ‘I was peeing in the bathroom and had left for just one second / ‘Cause I thought he couldn’t move and he was safe / As I came out I saw him falling in slow motion to the floor / It was probably the worst moment of my life‘, Palmer canta em “A Mother’s Confession”, a faixa mais longa com quase onze minutos de duração. ‘At least the baby didn’t die‘, ela continua em seu refrão.

There Will Be No Intermission é, também, um álbum minimalista quando comparado a seus outros. Toda a exposição emocional é feita através de músicas compostas apenas usando piano ou ukulele na maior parte do tempo. Isso, e o fato de que várias de suas músicas já eram conhecidas desde 2015, faz com que o álbum pareça em grande parte do tempo algo não muito impressionante.

É sem dúvida alguma um trabalho bastante confessional e com composições belíssimas – o maior problema aqui é que elas não necessariamente funcionam como um álbum coeso. Por se tratar de, no total, 20 faixas, em que muitas delas ultrapassam os seis minutos e são em sua grande maioria cantadas apenas por Amanda acompanhada de um único instrumento (piano ou ukulele), Intermission acaba sendo bastante monótono. Não existem grandes variações em ritmo ou composições e isso atrapalha um pouco o ouvinte – o real foco de Amanda aqui está em suas letras.

As letras, sim, são maravilhosas do começo ao fim. Lindíssimas, abordando temas complicados e universais a todos – principalmente a mulheres que são mães. There Will Be No Intermission desde sua capa, com Amanda completamente nua e segurando uma espada, mostra a força dessa mulher em todos os sentidos.

Mas a monotonia de Intermission infelizmente faz com que o seu álbum mais poético e pessoal já lançado tenha um tom não muito memorável. Analisar There Will Be No Intermission enquanto uma coletânea de poesias e devaneios musicados o torna um álbum memorável, mas (por falta de outra palavra) chato de se ouvir do começo ao fim. Em suas 20 faixais, o disco percorre quase uma hora e meia e são poucos os momentos em que Amanda brilha nesse contexto – se você analisar as músicas faixa a faixa é possível se emocionar e mergulhar na proposta de Amanda. Mas essas faixas todas simplesmente não funcionam tão bem como uma obra completa e coesa.

OUÇA: “A Mother’s Confession”, “Drowning In The Sound”, “Bigger On The Inside” e “Voicemail For Jill”

Ian Brown – Ripples



Em seu sétimo álbum solo, o ex-vocalista do Stone Roses faz um trabalho que altera entre composições boas, que grudam nos ouvidos – como “First World Problems”, o single que abre Ripples -, e sons repetitivos, que não se destacam tanto entre as dez faixas que compõem o novo disco. Ian Brown toca vários dos instrumentos utilizados nas músicas, além de ser o produtor do álbum. Ripples, aliás, é um trabalho em família: os filhos do vocalista fazem parte de sua banda e ajudaram a escrever várias músicas. É também o primeiro trabalho de Brown em dez anos, desde o álbum solo anterior, My Way.

Mas nem tudo é negativo: em vários momentos, a voz de Brown soa muito bem, ainda mais considerando que o músico tem 56 anos de idade. É um dos pontos altos deste trabalho, que conta com dois covers – “Black Roses”, de Barrington Levy, e “Break Down the Wall”, de Mikey Dread. Há outras faixas memoráveis, como “The Dream and the Dreamer” e o “Blue Sky Day”. Em várias músicas, inclusive nessa última, um blues com um quê de Nina Simone, há um ar de desesperança em relação à humanidade, em especial quando ele canta sobre como tratamos a nós mesmos – ou como os governantes tratam o povo – e ao nosso planeta.

No fim, Ripples é um trabalho mediano, mas que quando alcança momentos bons, são muito bons. É possível que agrade mais os fãs de longa data do cantor, que o seguem desde a época de Stone Roses e ficaram na espera por um novo trabalho de estúdio da banda. Fica a satisfação de ouvir mais uma vez uma das vozes característica mais da cena Madchester.N

OUÇA: “First World Problems”, “The Dream And The Dreamer” e “Blue Sky Day”

Said the Whale – Cascadia


Pouco se fala, mas Cascadia — título do 6º álbum de estúdio da Said the Whale — é o nome dado a uma biorregião localizada a oeste da América do Norte. É também o nome escolhido para uma proposta de país (país este que abrangeria alguns pontos dos Estados Unidos e Canadá). Inclusive, se olharmos o merchan da banda, veremos a bandeira verde, azul e branca do país proposto em meio aos demais itens à venda.

Em termos de som, Cascadia mostra o trio canadense (formado por Tyler Bancroft, Ben Worcester e Jaycelyn Brown) mais pop. Melodias melosas, letras diretas e simples, instrumentos básicos (guitarra, baixo, bateria e teclado). Nada muito fora da caixa.

Com 12 faixas, o sucessor de As Long As Your Eyes Are Wide, tem faixas que se sobrepõem: a faixa título tem uma pegada indie rock parecida com a de bandas como Real Estate. “Old Soul, Young Heart”, por sua vez, freia a levada pop rock do disco e incorpora o folk com ukulele e acordeon. “Record Shop” é meio nostálgica e chicletinho (até demais), parece ter sido tirada de um disco antigo do Weezer. “Moonlight”, que tem jeitão de lado B, tem belos teclados.

A paternidade recente de Bancroft serve de guia nos temas das letras: “Level Best”, penúltima faixa, é uma balada de amor incondicional; “Love Don’t Ask”, cantada por Worcester, além de possuir teclas semelhantes a xilofones infantis, parece querer ensinar uma lição e ao mesmo tempo provar esse amor incondicional.

Cascadia funciona bem como faixas independentes. O álbum não soa como uma unidade, apesar de navegar pelas águas do pop rock/indie rock quase todos os seus 38 minutos de duração. Acaba que, para os ouvintes que não são tão fãs da banda, o cd se torna meio cansativo, mais do mesmo. Porém, certamente os adoradores curtiram este que, para o próprio frontman, é o “mais Said the Whale dos álbuns do Said the Whale”.

Se fosse escalada para festivais como o Lollapalooza, a banda se sairia bem pelo conteúdo popular do seu som. No mais, Cascadia não mostra grandes novidades para o mundo da música. Contudo, soa como a vontade de se construir algo novo. Fica na vontade, assim como o país.

OUÇA: “Cascadia”, “Level Best” e “UnAmerican”

Glen Hansard – Between Two Shores


No fim da primeira década dos anos 2000, a música pop recebeu uma avalanche de bandas de indie rock, que durante um tempo se tornaram um dos principais gêneros da música no período. Logo em seguida, previsivelmente, o conceito de indie (apesar da dificuldade em definir elementos estéticos característicos) foi incorporado por outros gêneros musicais. Uma das combinações a alcançar maior sucesso em sua combinação com o indie foi o indie folk. Mumford & Sons, Ben Howard, City & Colour, Benjamin Francis Leftwich, Angus & Julia Stone, The Swell Season e, posteriormente em carreira solo, Glen Hansard, são talvez as mais famosas representantes do estilo nesse período.

Apesar da variedade, esteticamente as bandas e artistas de indie folk ofereciam pouca variedade entre si. Músicas com ênfase em violão e bateria, ocasionalmente o uso de instrumentos tradicionais do folk, como o contrabaixo ou o banjo, letras que tratavam de temas bucólicos e a vida campestre ou as tradicionais músicas sobre relacionamentos. A criatividade não era a maior colheita nos campos do indie folk.

Avança para o ano de 2018 e temos Between Two Shores, terceiro disco de Glen Hansard (que também fez parte do duo The Swell Season), e temos uma agradável surpresa. Com influências de jazz, blues, e uma maior variação de sonoridades, o disco surpreende positivamente justamente por se afastar da sonoridade característica do folk, ainda que se mantenha fiel a suas origens. É curioso como a variação entre essas duas estéticas (a experimentação com outros estilos e a fidelidade à estética do indie folk) afetam até a percepção do tempo das faixas: as que se afastam da repetição e arriscam parecem mais curtas, enquanto as que repetem a fórmula parecem ter o tempo estendido.

Com uma forte presença de metais na maior parte das faixas que dão textura e relevo à sonoridade do disco, Hansard também evidencia a forte influência de blues na composição de baixo e bateria que conferem ao disco groove e profundidade. A adição pontual de piano, teclado ou violino também deixam a composição do disco mais colorida. São dos metais e da bateria as melhores passagens na composição do disco, dando às músicas emoção, especialmente nos momentos em que os vocais de Glen brilham mais.

Ironicamente, os vocais, junto com o violão, são a parte mais fraca do disco. No caso do instrumento, pela sua repetição e falta de brilho, enquanto no caso dos vocais, isso se deve à oscilação na entrega: quando é mais vulnerável e intenso, aumenta ainda mais a força da faixa, mas quando é mais sóbrio e contido, deixa a canção desinteressante. Essa oposição fica clara em “Lucky Man” e “One Of Us Will Lose”, respectivamente a melhor e a pior faixa do disco.

No geral, Between Two Shores é um disco de indie folk que é bom quando não é de folk. A adição de metais, piano e violino deixam a música de Glen Hansard muito mais colorida e corajosa, abrindo um caminho instigante onde ele pode explorar sua criatividade. Por outro lado, quando se rende às convenções do seu estilo de origem, Hansard faz pouco além de reforcá-las e oferecer estruturas repetitivas e até cansativa. Talvez o potencial mais interessante para Hansard esteja em deixar as praias e se aventurar em mar mais aberto.

OUÇA: “Lucky Man”, “Roll On Slow”, “Why Woman”, “Wheels On Fire” e “Wreckless Heart”