Devendra Banhart — Ma



Em Ma, seu mais recente álbum, o cantor Devendra Banhart mais uma vez revisita suas influências do folk e da música latina para criar um trabalho romântico e doce. Ao longo de treze canções, o texano tece um trabalho harmonioso e singelo, com referências espalhadas pelo mapa que resultam em um produto-final interessante, por mais que não consiga sempre escapar da repetição e de uma sonoridade que pode soar muito água-com-açúcar.

Ma é mais um exemplo do talento de Banhart como escritor e performer. Suas composições pulam do inglês para o espanhol, japonês e português com graça — às vezes, na mesma canção —, e esse encontro cultural é bem representado nos arranjos, que mesclam gravações lo-fi com um som tropical. Isso dá ao disco um ar casual e agradável, como algo que poderia ser a trilha-sonora de um luau ou de uma road-trip pela América do Sul.

A referência à música brasileira fica clara na deliciosa faixa “Carolina”, na qual Banhart até canta numa entonação semelhante à de Caetano Veloso. Há uma homenagem forte à MPB, que o cantor conhece muito bem, mas essa é filtrada através o prisma da música folk norte-americana, o que amarra o que ambos os gêneros têm em comum em uma sonoridade “de raíz” dotada de uma agradável familiaridade.

Além desse entendimento do que há de universal e semelhante em suas referências, Ma também é permeado pelo tom de romantismo que está presente em todas as canções do álbum. As composições relatam singelos casos e declarações de amor, um tema salientado pela forma doce que Banhart performa as canções. A figura materna e temas relacionados à infância também surgem em diversos momentos — como adiantado pelo título do álbum —, o que também explica o clima sonhador e tranquilo de Ma.

Essa escolha por uma atmosfera uniformemente nivelada pode fazer com que o disco soe repetitivo, com canções que podem ser intercambiáveis entre si, mas é algo que dá liga e coerência a Ma. Como um todo, trata-se de um álbum maduro e interessante, propondo misturas interculturais que são mais do que um adereço ou uma fantasia, mas um elemento essencial e integral para o DNA artístico de Devendra Banhart.

OUÇA: “Carolina”, “My Boyfriend’s In The Band” e “Kantori Ongaku”

Boogarins – Sombrou Dúvida



Aqui vemos um Boogarins mais palatável e menos dado a experimentações. Muitas das músicas do Sombrou Dúvida permitem entender o que o Dinho fala sem precisar de pesquisas nas letras na internet.

No entanto, ainda é um álbum que mantém a essência “bugarinha”. Ainda há o tom psicodélico e os reverbs para reforçar esse tom, ainda que menos extremados.

Um mesmo verso genial é repetido duas vezes no lançamento da banda goiana: “existe um desgaste no novo / se repete dá nojo/ e isso você não quer ver”. Eu acho que é essa mesmo a ideia, não adianta eles quererem fazer algo novo como Lá Vem A Morte toda vez.

Esse trecho está tanto na faixa-título “Sombra ou Dúvida” como em “Invenção”, as duas lançadas como single. “Invenção” inclusive faz uma homenagem à música “Princesa” dos também goianos Carne Doce.

A versão acabou ficando mais interessante que a original da Carne Doce, pois a roupagem psicodélica do Boogarins dá o toque de graça que faltava na música da Salma Jô e do Macloys. As duas bandas são próximas e já trabalharam juntos em outras faixas antes como “Benzim” e “Dos Namorados”.

“Dislexia Ou Transe” tem uma intro, repetida algumas vezes ao longo da música, que parece muito com a abertura de Globo Rural, porém a semelhança fica só nessa parte mesmo e o resto da música é puro Boogarins. É uma faixa com tudo para ser fixada na cabeça de quem curte esse estilo Tame Impala e a fase mais pop do Pink Floyd.

Outro destaque é “A Tradição”, com uma das letras mais bem construídas e reflexivas do álbum:

“A tradição

Como arma apontada

Mas não quer atirar

Jogue as ideias no ar”

“Sombrou Dúvida” difere muito do seu predecessor Lá Vem A Morte, onde as distorções sonoras eram tamanhas que o que o Dinho falava era totalmente incompreensível. Em “Onda Negra” e “Foi Mal” só dá para entender o que é cantado se a letra for lida antes, agora nas canções deste álbum de 2019, claramente dá para entender tudo.

Neste ano, o conjunto de Goiânia resolveu delimitar uma zona de conforto. Não fizeram mal pois entregaram um álbum de bastante qualidade. Não chega a representar a importância para a música alternativa brasileira que Lá Vem A Morte representa, mas a banda acertou em não querer inventar a roda duas vezes seguidas.

Apostar no garantido com certeza trouxe um resultado melhor do que tentar fazer um Lá Vem A Morte Parte 2.

OUÇA: “Invenção”, “Sombra Ou Dúvida”, “As Chances”, “Dislexia Ou Transe” e “A Tradição”

MUNA – Saves The World


MUNA é Katie Gavin, Josette Maskin e Naomi McPherson. Fazendo música juntas desde 2013, quando iniciaram o projeto, o jovem trio se conheceu na faculdade e, dali, passaram a trabalhar juntas sob a identidade que as tornou famosas.

Depois de um relativo sucesso com os primeiros materiais e um modesto alcance de seu trabalho antes de 2015, a música de Gavin, Maskin e McPherson foi impulsionada por um remix de “Winterbreak”, uma das canções do primeiro álbum do trio, feito pelo DJ Tiësto em 2016.

Após o lançamento primeiro álbum, About U, em 2017, MUNA abriu shows para o Grouplove nos Estados Unidos (e mais recentemente para Harry Styles, também), se apresentou no Lollapalooza em Chicago e teve músicas em trilhas sonoras de audiovisuais, além de aparições na TV americana. As particularidades da música entregue pela banda, composta por três mulheres abertamente lésbicas e celebrando o poder feminino, foram combustíveis que alimentaram a espera espera por mais material inédito.

Saves The World é, assim, uma obra completa. Vai de momentos que parecem clamores, com “Who”, a canções que parecem proposta de outro grupo, como “Number One Fan”, esta última contrastando com a melancolia do restante do álbum. O segundo disco do trio de indie pop foi entregue em 6 de novembro, cerca de dois anos após o debut, About U, ser liberado.

A fórmula — uma atmosfera oitentista, guitarras elétricas, batidas enérgicas e mensagens fortes nas composições — é repetida neste novo registro. MUNA traz junto de si, em Saves The World, questões sobre política, ansiedade e depressão e sobre a sexualidade. O disco serve como um apelo à audiência que, em uníssono com as artistas, vive tempos tempestuosos. A crítica é evidente.

O segundo disco poderia ter tardado mais a chegar — mas teria sido um desperdício de tempo. Seguindo na esteira do sucesso de About U a decisão mais consciente foi se entregar ao novo material do projeto logo os compromissos com a divulgação de disco anterior abrandassem. O que resultou em segundo álbum, com outras 12 músicas inéditas. Quatro das quais trabalhadas com singles antes do lançamento em setembro.

Talvez Saves The World não nos traga hinos como About U nos trouxe, o que é caso de “I Know A Place”, “Loudspeaker” e “So Special”, canções que podem ser tornar atemporais e marcas de uma geração que desperta para sonoridades diferentes na segunda década dos anos 2000. No entanto a mensagem proposta pelas três segue na mesma linha, tão boa quanto o disco anterior.

OUÇA: “Stayaway”, “Who” e “Number One Fan”

Adam Green — Engine Of Paradise



Que Adam Green é um cara particularmente “diferente” todos sabemos, contudo o que também pode ser dito dele é que seu trabalho, seja na música, nas telas de pintura ou até mesmo nas telonas do cinema é sincero a ele mesmo. Sendo assim, desde os Moldy Peaches até Engine Of Paradise — seu décimo álbum de estúdio em carreira solo, lançado no dia 6 de setembro de 2019 —, ele pinta um retrato colorido e cartunista de si e do mundo ao seu redor.

Engine Of Paradise aborda, no geral, um tema bastante atual: a relação entre o ser humano e a tecnologia. A faixa título resume essa ideia quando diz: “This world could be a paradise / a 3D model” ou até mesmo “I need you to read the world for me”, confrontando o que as novas tecnologias têm feito em nosso lugar como seres vivos pensantes e o que elas projetam em nossas vidas. O clipe da mesma canção ainda brinca — no estilo cartunista de Green — com grandes multinacionais, redes de fast foods, destruição da natureza e colonização, agregando, portanto, outras perspectivas à composição.

Outro ponto alto do CD é a orquestração em boa parte das canções, fazendo o padrão de composição de Adam Green (violão, bateria, baixo, guitarra e seu inconfundível vocal barítono) adquirir um teor mais encorpado e maduro. Isso pode ser visto na faixa “Freeze My Love”, terceira do disco, clássica ao gênero folk. A canção possui ainda uma vibe infantil (no clipe aparece, inclusive, a filha do artista), e rememora alguns dos trabalhos de Kimya Dawson, sua ex-companheira de Moldy Peaches.

Com pouco mais de 20 minutos, Engine Of Paradise conta com boas participações: Jonathan Rado (do Foxygen) e Florence Welch, queridinha do mundo millennial-alternativo. O álbum, por si, é gostosinho de ouvir. Tem boas composições, letras reflexivas e exóticas, mas não traz surpresas e, por isso, não se sobrepõe a trabalhos anteriores.

OUÇA: “Engine Of Paradise”, “Freeze My Love”, “Rather Have No Thing”.

Whitney – Forever Turned Around



O duo de estadunidense Whitney, composto por Max Kakacek and Julien Ehrlich, retorna ao cenário musical com o lançamento de seu segundo álbum de estúdio Forever Turned Around, lançado recentemente pelo selo Secretly Canadian. Forever Turned Around, ao contrário de seu alegre e radiante antecessor Light Upon The Lake, apresenta um aspecto bem mais introspectivo e intimista e nele há sérias e sinceras reflexões sobre relacionamentos e vida cotidiana. O álbum, apesar de reter elementos de seu predecessor, revela um Whitney mais maduro, sério e aberto a explorar questões decisivas que emergem de um relacionamento íntimo e intenso.

Forever Turned Around é um álbum íntimo e sincero, quase uma troca de correspondências entre duas pessoas que se amam muito e acabam dizendo coisas muito bonitas ao lado de coisas muito sérias e às vezes muito duras e difíceis de lidar. 

As faixas apresentam quase a mesma sonoridade e parecem se sobrepor como capítulos de uma longa história que tem mais continuidades do que rupturas. São faixas que em sua maioria são executadas por um violão acompanhado de um conjunto de cordas, baixo e bateria e que têm uma tonalidade mais triste, intimista e reflexiva que se encaixa perfeitamente com a temática do álbum.

Momentos de solidão são sobrepostos às boas memórias de momentos de convívio mútuo e os tempos de alegria são avaliados à luz dos momentos tristes que marcam uma vida de convívio intenso entre duas pessoas. Sobretudo, há uma profunda reflexão sobre se aquele relacionamento deve persistir e como as coisas podem melhorar em um futuro incerto.

Faixas como “Valleys (My Love)” e “Giving Up” descrevem perfeitamente esse momento de dúvida que muitas se coloca no centro de um relacionamento íntimo. O que fazer diante de uma crise? Quem seremos depois disso tudo? O que será desse relacionamento? São perguntas que perpassam todas as faixas do álbum e dão a ele uma boa dose de sinceridade e honestidade.

Forever Turned Around é um álbum belo, vulnerável e intimista de um grupo que vem se consolidando no cenário musical atual. É uma bela reflexão sobre a vida, relacionamentos e sobre o futuro e vale ser ouvido por todos, sem exceção.

OUÇA: “Giving Up”, “Forever Turned Around” e “Valleys (My Love)”

Ride – This Is Not A Safe Place



Ride, originalmente, aparece como uma das mais importantes bandas constituintes do gênero shoegaze, lançando seu debut Nowhere – considerado um dos pilares da cena – há cerca de trinta anos. Seis anos depois, o grupo anunciou seu fim – e vamos combinar que o movimento shoegaze também esfriou por volta dessa época. Há cinco anos, porém, Ride anuncia sua volta com sua formação original, assim como diversas outras bandas pioneiras do gênero, formando uma nova frente para uma espécie de reconstrução do shoegaze, resgatando elementos da primeira leva, mas acrescentando diversos outros. Um verdadeiro deleite para os fãs de uma cena que parecia ter se extinguido.

Pessoalmente, Ride é uma das minhas bandas favoritas. Ano passado, naquelas listas de fim de ano que o Spotify disponibiliza para conferirmos nossas músicas mais ouvidas durante certo tempo, duas das faixas do último trabalho do grupo, Weather Diaries, estavam entre as cinco primeiras. É sempre um prazer escrever sobre novos trabalhos do quarteto. Nesse segundo álbum pós-hiato, This Is Not A Safe Place, a banda nos presenteia com o que há de melhor no gênero: ao passo que não deixa de lado o que construiu de melhor em termos musicais, inova e nos mostra o potencial de cada músico constituinte do grupo. Nos mostra porque aparece, ainda hoje, como uma das peças mais importantes na montagem da cena.

A primeira faixa, “R.I.D.E.” introduz o que vem pela frente de maneira sutil. É quase toda instrumental, exceto por uma palavra que aparecem sem mais nem menos: o próprio nome da banda. Não há motivos para isso, exceto, talvez, uma tentativa dos músicos de dizer que não estão nem aí para o que a gente vai pensar. Que o mundo, afinal, para eles, de fato é um lugar seguro, ao contrário do que diz o título do disco. A partir daí fica difícil selecionar de qual faixa comentarei primeiro. Vamos por ordem de aparição.

“Future Love”­ é literalmente o hino do shoegaze. Se você quiser apresentar a cena para alguém, faça-o escutar isso. Não estou sendo pretensioso. Atualmente, pode-se dizer que apenas o Slowdive e Jesus and Mary Chain fizeram algo parecido. Os riffs nebulosos da guitarra, a voz etérea Mark Gardener misturando-se aos outros elementos sonoros, como um só. As notas do baixo fornecendo certa consistência para o som, ao mesmo tempo em que deixa-o leve e suave. A bateria, por sua vez, acompanha o ritmo quase não aparecendo. O que é diferente em “Repetition” e “Kill Switch”, onde a guitarra e a bateria aparecem de forma mais contrastante, dando à faixa certa atmosfera mais pesada com relação às músicas subsequentes. Mesmo a voz de Gardener está diferente: parecem mil Marks cantando ao mesmo tempo. Créditos ao produtor, DJ Erol Alkan, que produziu também disco anterior da banda, Weather Diaries. O show continua com “Clouds Of Saint Marie”. Essa faixa, meus amigos, se tomasse forma física, veríamos algo como a capela de Notre Dame. Uma obra-prima, em todos os sentidos. Feita para grudar na cabeça de quem escuta. Inclusive: ‘Clouds of Saint Marie / (Na-na-na-nananana) / She reigns over me.’

“Fifteen Minutes” tem riffs excelentes, mas a quebra de tempo não contribuiu para a composição final. “Jump Jet” é incrível: sua atmosfera crescente empolga genuinamente. “Dial Up” é delicada e lenta. Parece uma tarde chuvosa. Vale muito a pena. “End Game”, no entanto, é a melhor coisa que Ride já fez desde “Vapour Trail” ou “Lannoy Point”: as repetições sutis da letra em meio aos versos desconexos do refrão aliados à atmosfera crescente em direção à ponte é com certeza uma das melhores coisas que ouvi nesse ano: ‘what went wrong? / what is wrong with you?’

O álbum devia ter acabado aqui. Seria perfeito. Nota máxima. Mas não me entenda errado: as duas últimas canções não são ruins, apenas não estão no mesmo patamar das anteriores. “Shadow Behind The Sun” não empolga. Os riffs são bons, mas a música parece não caminhar para nenhum lugar. “In This Room”, por sua vez, não deveria ser uma faixa de encerramento. Não encerra nada. Talvez se colocada no miolo do álbum sua apreciação fosse diferente. Após “End Game”, as faixas que vieram em seguida foram ofuscadas. Por fim, se tivesse que reclamar de algo desse disco, seria com certeza sobre sua capa. Essa capa é péssima.

OUÇA: “End Game”, “Future Love” e “Clouds Of Saint Marie”

Bon Iver – i,i



Já faz mais de uma década desde o debut do Bon Iver, For Emma, Forever Ago (2007). Nestes anos, o Bon Iver se consagrou como essa entidade quase mística liderada pelo estadunidense Justin Vernon. Chegando ao seu quarto álbum da melhor forma possível, o Bon Iver se mostra uma banda madura cujos discos veem crescendo e amadurecendo com o passar dos anos.

i,i não poderia ser um álbum mais adequado para este momento de mais de uma década de banda. Ele chega neste clima de celebração do Bon Iver, expondo características da sua discografia como colagens ao longo do disco. Nos lembra dos diversos fragmento de encantamento que levou o Bon Iver a ser tão aclamado pela crítica. Aqui, nos deparamos tanto com a sonoridade folk de For Emma, Forever Ago (2007) e Bon Iver (2011), quanto com a experimentação e texturas eletrônicas de 22, A Million (2016). 

A atmosfera do álbum se encaixa exatamente após 22, A Million, onde todos os ensaios do trabalho passado mostram frutos grandiosos. Enquanto o álbum anterior surpreendia pela excentricidade e experimentação, i,i consegue transpor tudo isso para ou outro patamar. Os sintetizadores e elementos eletrônicos já soam de forma mais natural ao se misturarem com o folk e as variações de volume tão características do Bon Iver. É justamente ao dosar estas texturas eletrônicas com momentos serenos que surgem os grandes encantos de i,i. O álbum evolui de desta maneira intimista, envolvente e calorosa, criando um clima familiar e inovador ao mesmo tempo.

i,i representa um fechamento de ciclo para o Bon Iver. Faz a amarração dos três álbuns anteriores ao conseguir sintetizar anos de amadurecimento em um trabalho sólido. É uma verdadeira celebração de mais de uma década de banda. Um trabalho que ainda apresenta a mesma beleza de For Emma, Forever Ago, somada com anos de amadurecimento e experimentações. 

OUÇA: “Hey, Ma”, “U (Man Like)”, “Naeem”, “Faith” e “Marion”

Apeles – Crux



Após a dissolução do excelente duo Quarto Negro, o vocalista Eduardo Praça se lançou com um novo projeto solo chamado Apeles e Crux é seu segundo álbum completo de estúdio. Crux chega agora e segue o ótimo Rio Do Tempo de 2017, mas é apenas agora em Crux que a impressão geral do álbum é que ele se trata de uma quase continuação do que Eduardo fazia com o Quarto Negro.

Rio Do Tempo é um álbum excelente, e é claro que por se tratar da mesma pessoa ele já tinha um ar de conhecido, em músicas como “Clérigo” e “Imensamente Sutil” isso ficava bastante claro. Os mesmos pianos e clima semi-shoegaze de sempre, mas em Rio Do Tempo eles eram utilizados de uma outra maneira. Mas CruxCrux, sonora e liricamente, parece se tratar da continuação de Amor Violento, o excepcional último álbum do Quarto Negro lançado em 2015.

O single “A Alegria Dos Dias Dorme No Calor Dos Teus Braços” é a maior prova disso. Um dos vários pontos altos de Crux e com certeza uma das melhores músicas lançadas nesse ano de 2019, ela poderia facilmente integrar Amor Violento como nada que o Eduardo fez como Apeles até agora poderia.

Nunca é divertido quando uma banda da qual você é fã encerra as atividades, e com muita frequência isso é seguido por outros trabalhos de seus membros (falando nisso, Yatho o projeto atual de Thiago Klein, outra metade do Quarto Negro, também vale e muito a audição), mas em Crux Eduardo anda por uma linha bastante tênue e complicada, muito mais do que foi em Rio Do Tempo.

O restante do álbum mantém, claro, o mesmo clima mas Eduardo segue adicionando guitarras e violões distorcidos o suficiente para diferenciá-los de sua banda anterior. Seus temas e letras, entretanto, aproximam Crux muito mais a Amor Violento do que a Rio Do Tempo; com seu clima de pessimismo esperançoso, se isso faz algum sentido.

Crux no geral se mostra como um ótimo álbum, vindo de alguém que já fez coisas excelentes no passado e se encontra no caminho para atingir tal excelência de novo. Crux mostra que o passado do Eduardo com o Quarto Negro não foi esquecido e que ele está sabendo muito bem aglutinar elementos em seu novo projeto. Crux mostra um Eduardo ainda mais confiante do que antes e não decepciona, é um álbum muito bem feito e produzido, e com certeza uma das coisas mais interessantes do ano até agora.

OUÇA: “A Alegria Dos Dias Dorme No Calor Dos Teus Braços”, “Deságua”, “Reflexo Turvo” e “Pele”

Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold



I need something pretty to help me ease my pain‘. Esse é o primeiro verso da faixa-título, que abre o nono álbum de estúdio da lendária banda americana Sleater-Kinney. ‘But I’m broken in two, cause I’m broken inside‘ é o verso que o encerra. Não se trata em momento algum de um álbum fácil, leve e divertido.

É impossível falar de The Center Won’t Hold sem comentar sobre o fato de que ele foi inteiramente produzido pela Annie Clark, também conhecida como St. Vincent. E sua influência no trabalho final já era perceptível desde a capa e a música “Hurry On Home“, primeira divulgada pela banda para promover o álbum. Trata-se da música mais explicitamente sexual já gravada pela banda, e sonoramente mistura o tradicional som do S-K com uma produção bastante urgente e moderna quase robótica, característica principalmente do último álbum da Annie, o excelente MASSEDUCTION. Mas as coisas param por aí. O restante do álbum todo é Sleater-Kinney do começo ao fim.

Também é impossível falar desse disco sem citar a saída de Janet Weiss, a melhor baterista de rock da história, que anunciou que estava deixando a banda faltando pouco mais de um mês para o lançamento de The Center Won’t Hold. “The band is heading in a new direction and it is time for me to move on.“, seu anúncio no twitter dizia. The Center Won’t Hold é o nono álbum da banda e o sétimo gravado e composto com Janet nas baquetas, e essa notícia veio como um baque para Deus e o mundo. Tudo o que o S-K sempre fez em toda a sua carreira foi seguir em direções novas a cada trabalho, indo do punk cru de Dig Me Out ao psicodélico The Woods. Poderia a mudança dessa vez ser tão drástica a ponto de sua baterista há 24 anos querer sair da banda? Bom, não. Mas também sim.

The Center Won’t Hold é com certeza o álbum menos acessível da banda até hoje, o mais difícil e o mais controverso. Ele também marca a primeira vez em que as guitarristas e vocalistas Carrie Brownstein e Corin Tucker escreveram separadamente e isso é bastante claro. A diferença entre as músicas da Corin e as da Carrie são bastante evidentes, causando uma certa disparidade e idiosincrasia que nunca antes apareceu. Aquela sua tradicional dinâmica de tirar o fôlego de uma começar um verso ou riff em sua guitarra e a outra terminar quase passando por cima não está presente em nenhum momento aqui. De uma certa forma, apesar de tudo, The Center Won’t Hold têm as composições e músicas mais estruturalmente tradicionais de sua carreira como S-K também.

Mas nada disso necessariamente é uma coisa ruim, pelo contrário. O que o álbum falta de coesão ele compensa com toda a certeza em qualidade. Os mais diversos humores se entrelaçam e se encavalam e resultam, por vezes, em transições incríveis como da sombria “RUINS” para a leve “LOVE”. E “LOVE”… Outro ponto que é impossível de se ignorar nesse disco.

“LOVE” é, literalmente, uma declaração de amor da Carrie Brownstein à banda como um todo e a tudo o que já passaram e viveram (talvez à Corin um pouquinho mais). Citando em sua letra toda a sua trajetória e trabalhos passados, ela nos conta como foi o começo de tudo e conclui onde estão agora. ‘There’s nothing more frightening and nothing more obscene than a well-worn body demanding to be seen‘, uma crítica ferrenha ao fato de que mulheres após uma certa idade (as três já passaram dos 40 anos) são colocadas de lado por que ‘envelhecer é feio’.

Outra música que merece um destaque especial é “The Dog/The Body”, penúltima faixa. É a mais próxima da velha dinâmica do S-K, seus versos quase proféticos ‘If you wanna go, can’t find a reason not to leave‘ seguem o refrão mais ‘todos-juntos-com-seus-isqueiros-e-celulares’ da carreira da banda.

Quem me conhece minimamente sabe que esta se trata da minha banda favorita, trago em minha pele uma homenagem permanente a elas e ao que significam pra mim. E The Center Won’t Hold foi com certeza um dos álbuns mais difíceis de se resenhar, pra mim, em todos esses anos de You! Me! Dancing!. E o resultado é que, sim, elas foram para uma nova direção. Talvez a mais drástica que já tomaram até hoje. Mas eu ainda estou aqui com elas. Agora apenas com Carrie e Corin. Call the doctor, dig me out of this mess.

OUÇA: “LOVE”, “Hurry On Home”, “The Center Won’t Hold”, “The Dog/The Body”, “Bad Dance” e “RUINS”

Ra Ra Riot – Superbloom



Em seu quinto álbum de estúdio o Ra Ra Riot não foge da fórmula pré-estabelecida do indie pop good vibes com melodias suaves e letras igualmente suaves, sem abordagem de temas complexos e que evocam calma e tranquilidade.

A banda não arrisca muito e acaba presa em uma forma, que embora seja agradável de ouvir, não traz novidade e é facilmente confundida com trabalhos antigos tanto do Ra Ra Riot como do Vampire Weekend, Phoenix e MGMT.

A melhor e mais chiclete faixa do novo disco é “A Check For Daniel”, que em alguns momentos lembra “aquela do Vampire Weekend” (“A Punk”). É a música mais agitada e dançante do álbum e a única que não economiza tanto nas guitarras.

Outro destaque do álbum é a faixa “Belladonna”, que tem um refrão contagiante, e um arranjo musical construído de forma excelente. Os instrumentos são perfeitamente encaixados com um coro de fundo e um interlúdio com diálogos em japonês.

Não há muito o que comentar sobre a composição das letras de Superbloom, todas são genéricas e parecem terem sido feitas somente para preencher os arranjos já construídos, que são muito bons e a principal qualidade da nova obra.

O trabalho novo do Ra Ra Riot não fugiu da zona de conforto. Às vezes isso é bom, outras vezes isso é ruim. Nesse caso o resultado é mais positivo que negativo, mas se tivessem buscado arriscar poderia ter saído um trabalho melhor.

A fórmula indie pop ainda não está totalmente esgotada e permite o surgimento de álbuns de boa qualidade, mas é preciso que se procure alternativas para reinventar.

Sem fugir muito do formato, o Phoenix tentou fazer algo original com o Bankrupt! em 2014 e o Vampire Weekend fez neste ano com Father Of The Bride. Talvez no próximo trabalho o Ra Ra Riot possa trazer sua contribuição para reinventar o indie pop.

OUÇA: “Belladonna”, “A Check For Daniel”, “War & Famine” e “This Time Of Year”