Kaiser Chiefs – Duck



O Kaiser Chiefs tem uma trajetória interessante. Despontou com força com seu debut, Employment, em 2005 no auge do post punk revival. Manteve o sucesso comercial com o disco seguinte, Yours Truly, Angy Mob, e viu as vendas diminuírem gradativamente com os discos seguintes. Ressurgiru com Education, Education, Education & War, o disco mais coeso desde o debut. Stay Together, o disco seguinte, foi o pior trabalho que a banda já fez: forçadamente pop, eletrônico, genérico e esquecível. Assim, a notícia de um novo trabalho, o sétimo, veio com uma dúvida: qual direção a banda seguiria? Seria um retorno aos bons trabalhos ou eles manteriam a mediocridade de Stay Together?

Com o primeiro single dessa nova empreitada, “Record Collection”, a dúvida ainda permaneceu, pois a faixa está justamente no meio do caminho entre o eletrônico e o analógico. Foi somente com o segundo single que o Kaiser Chiefs mostrou realmente qual seria o tom de Duck. “People Know How To Love One Another” é o Kaiser Chiefs fazendo o que sabe fazer de melhor: um rock pegajoso, cheio de energia e com um refrão que já nasce clássico com a repetição constante do nome da faixa, mesmo truque que eles já utilizaram com êxito em “Ruby” e “Never Miss A Beat”.

É justamente essa energia que se destaca no restante do disco. Faixas como “Golden Oldies” e “Don’t Just Stand There, Do Something” poderiam facilmente estar em Yours Truly, Angy Mob ou Employment, apesar de que a sonoridade do disco como um todo está muito mais próxima de Off With Their Heads, o não tão bem-sucedido terceiro disco. As conhecidas características da música do Kaiser Chiefs estão todas presentes em Duck: as guitarras, a bateria bem marcada, alguma intervenção eletrônica, os refrãos e a empolgação dos vocais de Ricky Wilson estão todos lá.

Mas não pense que a banda apenas repetiu truques que deram certo no passado. Há uma série de sutis novidades que podem ser citadas: os metais de sopro da terceira faixa, “Wait”, enriquecem muito seu arranjo e a tornam um dos pontos altos do disco; “The Only Ones” se aproxima bastante do rock de arena com o qual o Kaiser Chiefs já havia flertado, mas nunca executado; “Electric Heart” tem nova preocupação e maior cuidado com as harmonias vocais. No fim das contas, esses detalhes fazem com que Duck soe fresco.

Portanto, pode-se dizer que Duck é essa obra que sabe mesclar o que de melhor a banda sempre fez com sutis e boas novidades em sua música. Quem diria que depois do estrago que foi Stay Together, o Kaiser Chiefs voltaria com um bom disco? Pois foi exatamente o que eles fizeram: um bom disco. E a essa altura da carreira não dá para esperar que eles revolucionem a música, mas depois de Duck podemos continuar esperando por bons, divertidos e bem produzidos discos do Kaiser Chiefs.

OUÇA: “Wait”, “Target Market”, “People Know How To Love One Another” e “The Only Ones”

Slaughter Beach, Dog – Safe And Also No Fear



Uma característica marcante do trabalho de Jake Ewald como Slaughter Beach, Dog é a criação de histórias de pessoas quase sempre quebradas e sua relação com o mundo mas, por se tratar de um projeto solo nos primeiros registros, essa diversidadede vivências não se refletia tão bem no instrumental. Para o terceiro álbum do Slaughter Beach, Dog Ewald trouxe como baixista Ian Farmer, seu antigo companheiro de Modern Baseball, Nick Harris do All Dogs e Zack Robbins do Superheaven e o resultado de contar com músicos diferentes no processo de criação foi um álbum em que o aspecto narrativo que o projeto pede soa mais real por ter recebido inputs musicais de outras fontes além do compositor.

Por tratar de histórias de personagens diferentes, cada música é um universo em si próprio e varia de construções mais clássicas e AOR até pitadas de post-punk, mas a cadência folk quase falada dos vocais de Jake Ewald dá coesão ao trabalho.

“One Down” que abre o álbum é um folk rock sentimental sobre viver uma rotina pacata e fazer tudo o que se espera de um adulto funcional e mesmo assim ficar ansioso ao ponto de se encolher no chão de casa. Essa faixa vai crescendo em potência instrumental até quase chegar a uma solução e para, deixando as questões inacabadas como acontece com frequência com problemas da vida real.

“Good Ones” que vem na sequência ameniza através de uma construção de rock alternativo suave uma letra pesadíssima sobre observar alguém destruindo a própria vida no vício. A linha de guitarra e a cadência de baixo e bateria se tornam mais empolgantes à medida que acompanhamos a história dessa pessoa que vai mais e mais fundo no vício como uma forma de esquecer o sofrimento. O ápice disso é o lampejo de um solo de guitarra que começa a se formar mas nunca chega a tomar força conforme você ouve os últimos versos cantando sobre o fim dessa pessoa na sarjeta tendo suas feridas lambidas por um cão.

Perto do fim da primeira parte do álbum, “Black Oak” experimenta com a narrativa ao trazer dois pontos de vista sobre a mesma história. Na primeira metade da música conhecemos um homem que, depois de beber, pega seu carro e enquanto dirige lembra dos poemas que sua amada escreveu para ele num carvalho escuro. Na segunda parte descobrimos quem é a mulher pois enquanto ela trabalhava num café, ela recebe a notícia de que o homem foi encontrado morto depois de bater em um carvalho escuro. Toda a música tem uma cara de country de rádio americano, daquele tipo que se sintoniza no meio da noite na estrada e ajuda a compor a atmosfera durante os quase sete minutos em que ficamos imersos na história.

As primeiras músicas da segunda metade do álbum tem os instrumentais mais pra cima do registro mas sem perder o caráter instrospectivo e reflexivo. Mesmo nas canções mais simples como na canção de amor indie noventista “Tangerine” há lugar para a melancolia com a guitarra que puxa o mood pra baixo quando o refrão está a ponto de explodir antes do solo de guitarra. “Heart Attack” continua na mesma pegada com um instrumental super feliz bem Beatles em começo de carreira pra falar sobre um cara que está tendo um ataque cardíaco depois de alguns dias difíceis.

Safe And Also No Fear usa histórias cotidianas e bastante comuns para observar como reagimos frente a momentos de desesperança desde coisas pequenas como procurar um cigarro no bolso e não encontrar até perder alguém amado de forma trágica. Todos os personagens estão tentando fazer seu melhor para sobreviver e serem pessoas melhores e ainda assim falham, fazendo com que o ouvinte se veja um pouco em cada história. A beleza do álbum está em suavizar a nossa identificação com momentos de sofrimento e falha através de melodias felizes e construções rítmicas nostálgicas que dizem pra gente que não há nada de errado em se sentir mal de vez em quando.

OUÇA: “One Down”, “Black Oak”, “Good Ones” e “Anything”

Of Monsters and Men – Fever Dream



Sempre me pareceu um fato curioso como um país tão pequeno e isolado como a Islândia consegue alçar tantas bandas relevantes. Talvez o segredo esteja justamente na cultura nórdica tão visível nas canções que de lá saem. Apesar de haver um punhado de artistas islandeses consolidados, sem dúvida a banda nórdica que mais faz barulho no mainstream nos últimos anos foi o Of Monster And Men. O single “Little Talks” (2011) tocou por toda parte, desde baladas indie até comerciais de TV. “Little Talks” abriu as portas para a banda, mas também colocou um grande peso a ser carregado: como dar continuidade a tamanho sucesso? 

Nos seus dois primeiros ótimos álbuns, a banda passou a ser mundialmente conhecida pela sua sonoridade nórdica que mistura indie com folk. Melodias muito bem articulada por letras que remetem cenários islandeses com lagos, florestas e montanhas. Seus discos anteriores mostram uma evolução e amadurecimento desta fórmula característica do of Monsters And Men. Fever Dream não segue esta mesma linha. A banda não mira nem no sucesso radiofônico do passado, nem na sonoridade pop folk que consagrou. Aqui vemos uma banda que sai da sua zona de conforto para explorar novos ares. A proposta do disco é misturar os elementos folk com com sons eletrônicos, abstraindo os elementos marcantes e conhecidos da banda em sonoridades mais leves e difusas. O que vemos em Fever Dream é um Of Monsters And Men completamente novo. E como em toda aposta, há riscos. 

De forma alguma Fever Dream chega a ser um álbum ruim. Porém, ao deixar de lado suas características mais marcantes, a banda se perde num generalismo. O disco é um conjunto melodias bonitas, mas genéricas. Todo intimismo e personalidade dos álbuns passadas se perde em um disco que poderia ser de muitas outras bandas além do Of Monsters And Men. Sem nenhum single muito forte, nem nada que se sobressaia, Fever Dream marca o ponto mais fraco da carreira dos islandeses.

Sem o mesmo encanto do passado, a banda se afasta cada vez mais do seu momento de glória de 2011. Ao tentar se modernizar, o Of Monsters And Men esquece o que os fez ser o que são. Não foi desta vez que tivemos um substituto para “Little Talks”.

OUÇA: “Róróró” e “Wars”

Violent Femmes – Hotel Last Resort



O Violent Femmes não precisa de mais álbuns para ser lembrado. O caldeirão sonoro apresentado no álbum autointitulado de 1983 — e que se mostrou ainda mais aberto a experimentações líricas e sonoras no religioso Hallowed Ground, de 1984 — já bastaria. A banda de Milwaukee não se parecia exatamente com quase nada rolando na primeira metade dos anos 80 e pavimentou o que hoje se conhece como Folk Punk, com o seu jeito acústico tosco, instrumentos insólitos e urgência nas letras. Mas de lá pra cá, o grupo de Gordon Gano lançou mais oito álbuns. Passou por momentos mais pop, como em The Blind Leading the Naked (1987) e o subestimado Why Do Birds Sing? (1991) até chegar a uma sequência de discos que, ao menos desde a metade dos anos 90, não parecem ter agregado muita relevância à discografia do grupo.

Então, o que há de novo em Hotel Last Resort, décimo álbum de estúdio da banda, lançado no último dia 26 de julho? Praticamente nada. Não é como se fosse um desastre total — o álbum apresenta uma produção mais crua que dá consistência e funciona com a proposta dos Femmes, e há algumas músicas passáveis. Aliás, esse é o principal problema aqui: é um trabalho esquecível, onde até os momentos bacanas se parecem mais com sobras ou músicas pouco inspiradas.

Quando não só ruins mesmo. A abertura “Another Chorus” é um exemplo desse último caso, que até fica na cabeça, só que pela irritação gerada que faz querer que Gano cumpra finalmente o apelo de “please don’t sing another chorus”. Há outros momentos em que o grupo simplesmente não parece ter nada de interessante a dizer. O ápice disso acontece na tentativa fracassada de soar político em “I’m Nothing (Hotel Last Resort)”, com participação do skatista Stefan Janoski; e na completamente desnecessária a cappella “Sleepin’ at the Meetin’”, que facilmente tem a letra mais ridícula do disco.

Há momentos melhores. A faixa-título, com participação do lendário Tom Verlaine (Television), é um dos pontos altos do disco, tanto pela duração mais longa quanto pela sua própria letra. O arranjo percussivo de “I’m Not Gonna Cry” e o diálogo construído na introspectiva “Paris To Sleep” também têm seu valor. A melhor parte do álbum, porém, vem ao final de “God Bless America”, com um breve trecho instrumental que lembra os melhores momentos do grupo no passado.

O Hotel Last Resort do Violent Femmes oferece uma estadia genérica. O som ambiente dele não está descaracterizado, é com certeza a mesma banda seminal, sem querer se tornar jovial à força. Só que é por demais o que exatamente se esperaria. E com faixas que, definitivamente, não são cinco estrelas.

OUÇA: “Hotel Last Resort” e “I’m Not Gonna Cry”

Bleached – Don’t You Think You’ve Had Enough?



Bleached é uma banda formada pelas irmãs Jennifer e Jessica Clavin, após a dissolução de seu projeto anterior, Mika Miko. A dupla lança agora em 2019 seu terceiro álbum, Don’t You Think You’ve Had Enough?, sucessor do subvalorizado e excelente Welcome The Worms de 2016.

Em Don’t You Think as moças apostam em um som muito mais acessível e polido do que nos trabalhos anteriores, mas ainda mantendo suas raízes no garage rock cru e punk distorcido. O primeiro single do disco, “Hard To Kill”, me soou estranho a princípio exatamente por conta dessas mudanças. Foi apenas depois de ouvir o álbum por completo que tudo fez sentido.

Aqui, as irmãs mostram uma gama muito maior do que podem fazer, misturando ritmos diferentes daqueles que predominam nos outros dois álbuns e ao mesmo tempo criando uma obra bastante coesa, interessante e divertida. Em “Kiss You Goodbye”, com uma guitarra em staccato e bateria disco, trazem talvez o melhor single do álbum. Já em músicas como “Valley To LA” e “Daydream” elas mostram que continuam fazendo seu rock cru ainda bastante bem.

Don’t You Think You’ve Had Enough? é um álbum que mescla constantemente post-punk com os mais variados elementos e todos eles funcinam. É um disco bastante divertido e prova que Jennifer e Jessica sabem muito bem o que estão fazendo. Com certeza um dos mais inesperados e interessantes discos desse primeiro semestre.

OUÇA: “Kiss You Goodbye”, “Rebound City”, “Real Life”, “Daydream”, “Heartbeat Away” e “Hard To Kill”

METZ — Automat



Se você é fã de barulheira, deixe-me pregar a palavra do METZ. Mais um nome da série de “bandas que eu conheci através do GTA V e sua rádio Vinewood Boulevard” — assim como o FIDLAR. Com seu noise rock de alta qualidade, o METZ é incrível, mas é preciso dizer que não é uma banda pra qualquer um. 

Dois anos depois de Strange Peace, o terceiro disco de estúdio do trio canadense, eles decidiram acalmar o coração dos fãs sedentos de novidade com um lançamento especial. Automat é um compilado de 43 minutos com singles, B-sides, demos e versões especiais de seus sons, que foram remasterizadas pelo produtor Matthew Barnhart.

Com um som bem sujo — no melhor sentido da palavra — e trabalhado em muita distorção, Automat já começa em uma nota muito boa com “Soft Whiteout”, que é uma boa introdução para quem nunca ouviu a banda antes. 

Umas das principais características do METZ e seu noise, é que o som inunda o ambiente, preenchendo-o com barulho e seu instrumental marcante, como é o caso de “Lump Sums”. Das músicas desse disco que para mim são novidade, uma que me chamou muito a atenção foi “Ripped On The Fence”, uma canção bastante poderosa.

De seu disco de estreia, o homônimo METZ, lançado em 2012, aparecem as velhas conhecidas “Negative Space – 7 inch version” e “Wet Blanket – Demo”. “Wet Blanket” foi a primeira música que eu conheci do Metz, lá na trilha sonora do GTA V. Então, ouvi-la nesta nova roupagem foi quase um presente pessoal.

Não posso deixar de mencionar a homônima “Automat”, que ao longo de seus quatro minutos faz a gente dar aquela balançadinha, acompanhando o ritmo —  o que me faz pensar que deve ser uma baita música para presenciar ao vivo. 

Mesmo com a remasterização para entrar no corte final do Automat, a audição é como se fosse um exercício para acompanhar a evolução da banda e suas várias fases de 2012 para cá, como na dobradinha que saiu naquele ano, mas apenas como single, “Dirty Shirt” / “Leave Me Out”. Ou ainda nas canções que fecham o álbum, “Pure Auto” e “Eraser”, que já tinham sido lançadas em 2016 como B-side e single, respectivamente. 

Automat pode até ser um álbum para os fãs. Mas, para mim, é um belo cartão de visita do METZ e pode ser uma boa introdução para quem ainda não sabe do que a banda se trata. Algumas das melhores canções dos onze anos de carreira estão aqui, em roupagens novas, mas que valem à pena serem ouvidas. 

Veredito: É uma boa trilha sonora para um dia de fúria. Ou para o caso de você querer conhecer uma banda nova e bem doidinha.

OUÇA: “Wet Blanket – Demo”, “Ripped On The Fence”, “Leave Me Out”

The Black Keys – “Let’s Rock”



Os Black Keys voltaram. Cinco anos após seu último lançamento, Turn Blue, o duo de blues rock de Ohio chega com o incendiário “Let’s Rock”, 9º álbum da banda. Os três primeiros singles apresentados em 2019 (“Lo/Hi”, “Eagle Bird” e “Go”) já mostravam uma proposta mais crua e direta nas novas produções. E, de fato, o que vemos em “Let’s Rock” é um Black Keys mais ácido e marrento do que nunca.

Assim que começamos a ouvir o álbum, imediatamente percebemos o pavio queimar. A abertura é marcada pelo riff penetrante de “Shine A Little Light”, que soa como um lamento agressivo sobre a perda e a morte. As canções, em geral, se destoam liricamente dos enérgicos arranjos de guitarra de Dan Auerbach. Inclusive, “Let’s Rock” é uma ode ao efeito overdrive e a sujeira distorcida do fuzz que acompanham a banda desde seu início.

Arranjos melancólicos surgem em “Walk Across The Water”, que mostra a outra face do álbum. Ora poderoso e mordaz, ora denso e bruxuleante, “Let’s Rock” carrega uma dualidade que só poderia ser transposta em um álbum de blues. A dança é dividida entre 12 faixas distribuídas em 39 minutos e encerra de forma explosiva com “Fire Walk With Me”.

O duo abusa da simplicidade e usa como matéria bruta guitarras cheias de overdrive e fuzz nas faixas. As composições remetem muito ao tempo que precede o Magic Potion, de 2006. Porém, tudo é feito de forma muito mais madura e consciente, e o disco acaba por transmitir uma certa dose de atrevimento em seus acordes.

A estrada e as crises internas entre Dan Auerbach e Patrick Carney parecem ter os forjado para esse momento. Os Black Keys voltaram com a segurança de quem enfrentou seus demônios e voltou para contar a história. E que história.

OUÇA: “Shine A Little Light”, “Tell Me Lies”, “Under The Gun”.

The Raconteurs – Help Us Stranger



O The Raconteurs foi, durante muito tempo, uma alçada experimental e um projeto paralelo quase que de gaveta do excelentíssimo e talentoso Jack White. Foi uma surpresa, em 2006, quando ele lançou o primeiro disco do quarteto junto com outros nomes como Brendan Benson e dois membros do The Greenhornes, mostrando que podia fazer coisas diferentes do saudoso White Stripes. O Raconteurs ficou em foco durante um tempo para o músico, mas acabou sendo engavetado para dar lugar a sua carreira solo e ao The Dead Weather.

Em 2019, de supetão, eles voltam com o terceiro disco de estúdio, Help Us Stranger, num contexto aonde o estilo musical antigo, com pitadas de blues e garage rock, já não é e não se faz mais tão interessante. E, nesse contexto musical diferente em que estamos hoje, é ainda mais interessante perceber que Jack e companhia sabem muito bem disso e desviam o som do The Raconteurs para algo mais polido e menos sujo, na maior parte do tempo; fazendo adições interessantes e incursões simples para mostrar as novidades.

Help Us Stranger tem poucas coisas que podem se relacionar com os dois álbuns que o precedem, como algumas distorções aqui e ali, ou músicas mais rápidas e enérgicas, mas, essencialmente, é uma redenção a um feijão-com-arroz bem feito e entregue com a tradicional primazia do grupo.

No final das contas, esse terceiro disco vai ser notado como um álbum essencial por marcar a volta do projeto, que eu considero o mais interessante do Jack White, depois de 11 anos. Não possui reinvenções da roda; não possui adições ou mergulhos corajosos, como aconteceu anteriormente; não tem arranjos grandiosos; tampouco mostra Jack White e Brendan Benson em seus momentos de liricistas mais criativos. Help Us Stranger é praticamente um serviço para os fãs e uma desculpa para vê-los em turnê.

O que nos resta aqui é, então, esperar que o foco volte para os Raconteurs; e é praticamente certo que isso vai acontecer, já que eles estão colhendo bons frutos do repentino reaparecimento – turnês lotadas, espaços dignos em festivais internacionais, topos inéditos de paradas e críticas em tons positivos nos sites mais reconhecidos. Vamos aguardar que não se passem mais dez anos para que um projeto tão interessante como esse volte a tona – Jack White mantenha-se ocupado aqui, por favor!

OUÇA: “Bored And Razed”, “Now That You’re Gone” e “Live A Lie”

black midi – Schlagenheim



No contexto atual de como se consome música, sem limites territoriais e físicos pra ouvir qualquer artista, seja ele estourado nas paradas da América, ou isolado no seu quarto no interior da Bélgica, a concepção de nichos musicais começa a perder sentido. Ok ok, talvez pelo menos a sua exclusividade, que é o ponto principal que define esse conceito. E se antigamente cenas inteiras se construíam e desconstruíam fora dos holofotes, hoje em dia só basta que uma ideia interessante atinja as pessoas certas, iniciando um efeito dominó que, só por esse boca-a-boca virtual massivo, leva uma banda esquisita a um público que não só aceita seus trejeitos, como também acaba carregando em si uma parte dessa bizarrice para seus próprios projetos.

Com um show simples em uma sessão da rádio KEXP, a banda britânica black midi chamou atenção por suas estruturas temporais puxadas do post hardcore que, por sua vez, puxou as mesmas do jazz lá no início dos anos 90. Se essa era uma sonoridade que atingia a um nicho limitado na sua época, perpassando por bares e casas de shows pequenas, mas com um público fiel ao movimento, hoje em dia esse gênero possui um “crossover appeal” devido a como suas influências em bandas mais modernas acaba criando interesse em quem quer mais coisas do tipo.

Então, não é de se surpreender que uma banda como black midi assine com uma grande gravadora sem perder aquilo que a faz única. Se, de certa forma, em Schlagenheim, esteticamente a banda puxe muito da ideologia DIY (do it yourself) de seus antecessores, a produção mais detalhada dá espaço para todos os instrumentos respirarem sem atropelar uns aos outros no processo, algo complicado de se fazer mantendo meio termo entre o bagunçado e o polido. Pois mesmo que as músicas estejam organizadas de forma perfeccionista, as mutações pelas quais elas passam estão longe de ser previsíveis.

E esse equilíbrio também é exigido do ouvinte, que pode optar pelas passagens pegajosas e sublimes de “Speedway”, canção que soa mais livre das pretensões de variabilidade estrutural que o resto do álbum, ou pela imprevisibilidade de “Of Schlagenheim” e “Western”, que se utilizam de uma série de dinâmicas de gêneros diferentes, mudando de propósito ao longo de seus percursos, e mantendo sua curiosidade. E mesmo assim, em “bmbmbm”, a banda se utiliza de sua própria pressuposta flexibilidade para brincar com o público, se usando de uma nota pela maior parte da música, sempre quase ao ponto de quebrar, mantendo o interesse e a expectativa de quem já espera um descarrilhamento depois de 6 músicas totalmente voláteis.

A atmosfera criada aqui também tem parte importante na definição de uma sonoridade coesa, já que mesmo que as canções saltem entre diferentes ritmos elas todas possuem uma bateria cirúrgica que complementa qualquer ideia que se infiltra repentinamente, guitarras sincopadas e vocais histéricos que dão uma sensação de desconforto, principalmente na melhor música do álbum, “Near DT, MI”, que junta uma intro voraz com um verso calmo que constrói um suspense que prende o ouvinte até estourar de novo, com vocais e guitarras esquizofrênicas.

Tudo em Schlagenheim possui um charme artístico de coisas que já existiam antes na cena, mas mistura tudo em uma modelagem nova, dando um novo respiro pro gênero e tornando tudo mais interessante devido ao modo imprevisível, cirúrgico e dissonante que se entrega. black midi prova que é possível conciliar uma sonoridade fiel aos seus antecessores, que desconstruíam as estruturas da música em si, e uma produção moderna e palatável para um público maior. É difícil não ficar animado com uma banda dessas, sinceramente.

OUÇA:  “Speedway”, “Near DT, MI”, “bmbmbm”, “953”, “Ducter”

Two Door Cinema Club – False Alarm



False Alarm é o quarto disco dos queridos Two Door Cinema Club. Quem ouviu apenas o debut, quase dez anos atrás, e se deparou com alguma faixa deste novo trabalho em algum serviço de streaming deve estar se perguntando: afinal, o que houve com o Two Door Cinema Club? A verdade é que False Alarm traz uma nova banda. As guitarras espertas ficaram de lado e agora sobram teclados, sintetizadores, bases eletrônicas e até participações de rappers. Para os saudosistas, talvez essa mudança não agrade tanto, mas não dá para negar que essa mudança caiu muito bem.

A mudança apontada no disco anterior, Gameshow, é bastante aprofundada aqui. Gameshow soou como o trabalho de uma banda perdida, à procura de identidade, mesclando a sonoridade já conhecida com experimentações pouco inspiradas. Já False Alarm se mostra bem mais coeso que seu predecessor e está com os dois pés firmemente fincados na música eletrônica. Há um forte senso de álbum e não mais uma coleção de singles desconexos. Canções que isoladas poderiam soar mais fracas passam a fazer todo sentido quando ouvidas no contexto do disco.

Bandas com origem no indie com guitarras bastante presentes não costumam criar obras sólidas quando entram de cabeça na música eletrônica, vide o desastre que foi Stay Together, o último disco do Kaiser Chiefs. Mas o Two Door Cinema Club soube explorar essa sonoridade muito bem. Para os padrões da banda, pode-se até dizer que False Alarm é um disco experimental. No entanto, tudo é filtrado pela forma com que eles sempre criaram música, tornando as faixas bastante acessíveis. E isso é um grande elogio para quem tem a clara intenção de criar música pop.

Dessa vez, a influência oitentista vem bem forte, mais especificamente do Devo, um dos criativos e talentosos patinhos feios daquela década. E aqui é possível citar diversos paralelos entre as bandas: indo do peso dos teclados e sintetizadores, dos efeitos nos vocais, da estrutura das canções até à ironia das letras e à marcada identidade visual. O Two Door Cinema Club nunca se esforçou tanto para criar uma marca visual como faz em False Alarm. A capa do disco, os pôsteres da turnê, os lyric vídeos, os videoclipes oficiais, as apresentações ao vivo… De forma louvável, tudo isso divide a mesma estética, reforçando ainda mais a coesão do disco.

“Satellite”, segundo single e penúltima faixa do disco, resume bem a essência de False Alarm. A faixa contém os elementos que caracterizam essa segunda fase do Two Door Cinema Club. Os efeitos na voz estão lá. Os sintetizadores a la Devo também. As guitarras ainda existem, mas estão em segundo, terceiro ou quarto plano. O que se mantém intacto é o talento em criar músicas para as pessoas dançarem, seja lá com qual instrumento for.

É fato que todo aquele indie pop perfeito com guitarras espertas dos dois primeiros discos ficou para trás. No entanto, essas palavras são escritas sem nenhum pesar. False Alarm é um disco muito bem resolvido. A obra é coesa e conta ainda com singles capazes de integrar os setlists sem fazer feio quando comparados aos clássicos indies da discografia da banda. False Alarm é a prova de que o Two Door Cinema Club está em constante mutação. E essa mutação lhes caiu muito bem, uma vez que está mantida a qualidade das canções que os rapazes entregam.

OUÇA: “Once”, “Satellite”, “Talk”, “Dirty Air” e “Break”