Ex Hex – It’s Real



O fato de que Mary Timony não é um nome tão instantaneamente reconhecível quanto Kathleen Hannah, Carrie Brownstein ou Kim Deal é, ao meu ver, quase um crime. A moça é uma guitarrista excepcional e está na ativa desde os anos 90, tendo tocado em bandas como Autoclave e Helium antes de se lançar em uma ótima carreira solo. Em 2011, Mary ao lado de Brownstein, Janet Weiss e Rebecca Cole, lançou o excelente Wild Flag, único álbum da banda de mesmo nome. Pouco depois ela formou o Ex Hex, seu projeto atual.

It’s Real é o segundo álbum da banda, seguindo o ótimo e subvalorizado debut Rips de 2014. O som do Ex Hex segue bastante o que o Wild Flag fez em seu único disco, e talvez ainda mais nesse álbum do que no primeiro. Trata-se de um indie rock extremamente bem feito, com influências de post-punk, garage rock e riot grrrl. It’s Real mostra os vocais de Mary mais fortes e confiantes do que nunca, ótimos riffs e solos de guitarra, e uma bateria matadora. É um álbum de rock bastante simples e sem defeitos.

Mas, por algum motivo, It’s Real falha em causar o mesmo impacto que Rips teve poucos anos atrás. Talvez por ser um disco levemente mais sério e sem tantos coros pop punk nos refrões, talvez por ser menos explosivo do que o anterior. Não há músicas como “Waterfall” ou “Beast” aqui, e esse é o seu maior defeito. O single “Tough Enough” é o mais próximo, mas o restante do disco peca pelo “excesso de seriedade”, de uma certa forma. It’s Real é mais técnico e menos espontâneo do que qualquer outra coisa já lançada por Mary.

Com certeza ainda trata-se de um álbum ótimo e muito acima da média, feito por pessoas que sabem muito bem o que estão fazendo. Timony já tem quase trinta anos de carreira, e toda essa experiência é palpável em cada riff de sua guitarra. Ex Hex segue sendo uma banda que definitivamente vale a audição, assim como tudo o que tem a mão da Mary nesses anos todos.

OUÇA: “Tough Enough”, “Radiate”, “Diamond Drive” e “Good Times”

These New Puritans – Inside The Rose



Ninguém pode dizer que These New Puritans não é uma banda pretensiosa. Em todos os sentidos da palavra. Não basta se auto-rotular neoclássica ou se inspirar em conceitos saídos diretamente da cosmologia. Os álbuns da banda são sempre ambiciosos, tentando encaixar uma série de ideias distintas em um formato que ao menos pareça ser sofisticado. Os resultados, como era de se esperar, são variados, mas, surpreendentemente, costumam estar mais na margem positiva, ao menos no que se refere às avaliações da crítica.

O ponto alto da carreira da banda até agora foi Hidden, um álbum marcado pelo post-rock com uma pegada muito forte de música erudita. Um pouco desse espirito continuou com as produções posteriores e chega até a Inside The Rose. A estrutura do álbum como um todo pode muito bem lembrar uma sinfonia. Está bem longe de ser conceitual, ao menos no sentido de contar com uma narrativa em seu esqueleto, mas é inegavelmente um disco que foi feito para ser ouvido como uma coisa só. Ainda assim, a música clássica passa bem longe da verdadeira sonoridade que experimentamos. Antes disso, estamos escutando um exemplo do post-punk em sua vertente que se pretende mais refinada. Ao menos, é quando mais se aproxima desse gênero que o álbum tem seus melhores momentos.

Com uma duração média que fica próxima dos 5 minutos, as faixas de Inside The Rose juntam uma atmosfera envolvente, ainda que soturna, com melodias que estão entre as mais acessíveis da banda, ao menos até agora. De vez em quando parece existir uma tentativa de exibicionismo, como se quisessem dizer “vejam só o que podemos fazer, como nossa arte é complexa”, mas, na maior parte do tempo, esses esforços conseguem passar como naturais. Se os vocais são consideravelmente fracos, as letras até que são boas, tirando um ou outro clichê ou momento de exagero. Ainda assim, é na instrumentação que These New Puritans sempre mostrou a que veio, e não é diferente com esse disco. Muitas das faixas, inclusive, poderiam ser muito bem instrumentais. A que dá título ao álbum, por exemplo.

Seguindo a analogia da sinfonia, é o “terceiro movimento”, indo de “Lost Angel” até o final do álbum o único que parece mais perdido, sendo uma espécie de esvair da obra, que acaba de uma forma um tanto xoxa. Talvez seja uma forma de contrabalancear a intensidade dos dois movimentos anteriores, cada um composto de três músicas, mas acaba parecendo um simples material que sobrou.

Se Inside The Rose não chega à catarse de Hidden, que continua sendo o melhor ponto para conhecer These New Puritans, pode agradar quem quiser algo novo da banda, ou simplesmente um post-punk atmosférico e denso, mas com certo lirismo.

OUÇA: “Into The Fire”, “Where The Trees Are On Fire” e “infinity Vibraphones”

American Football – American Football



Em seu terceiro álbum autointitulado, o American Football supera a atmosfera de nostalgia e mostra um grande amadurecimento sonoro. Deixando para trás o clima emo do final dos anos 90, a banda mostra que segue relevante em 2019, com um som mais adulto.

o American Football, que foi um dos expoentes do emo no final dos anos 90, passou nada menos que 17 anos sem lançar álbum. Quando ressurgiram em 2016, o clima de nostalgia e retorno foram o suficiente para agradar aos fãs e a crítica. A banda que ressurgia conseguia mostrar canções igualmente profundas e consistentes, mesmo depois de tanto tempo. Porém, o terceiro álbum não vem com um intervalo de 17 anos, mas com menos de 3. Um novo disco “mais do mesmo” talvez poderia soar inerte desta vez. Aí que entra o encanto deste novo disco. A banda consegue se reinventar de uma forma impressionante, mantendo suas características passadas ao mesmo tempo que atualiza e move em frente sua sonoridade.

Já na primeira canção, “Silhouettes”, surge quase que um manifesto. A canção de mais de 7 minutos abre portas para o disco, introduzindo a atmosfera intensa e envolvente. Enquanto nos trabalhos anteriores a sonoridade do American Football misturava o emo a algo mais folk, neste disco a mudança fica clara já no início. A aproximação da banda com um som mais próximo ao shoegaze é a grande marca deste trabalho. O álbum se mostra uma combinação do emo com uma atmosfera mais barulhenta, porém minimalista, mergulhada no pós-punk e shoegaze. A aproximação com estes estilos também é reforçado pela parceria com a Rachel Goswell, do Slowdive. 

As parceirias, inclusive, são outro ponto alto deste álbum. A abertura sonora proposta neste trabalho do American Football é reforçada pelos vocais femininos nas 3 parcerias do disco. Nomes grandes como Rachel Goswell (Slowdive), Hayley Williams (Paramore) e Elizabeth Powell (Land of Talk) entraram nas gravações. Os vocais femininos funcionam muito bem na proposta da banda, aumentando o a dramaticidade e envolvimento das cações através do contraste de vocais. A ótima canção “Uncomfortably Numb”, por exemplo, mostra o belo contraponto da letra ora cantada pelo vocalista Mike Kinsella, ora repetida pela inconfundível voz da Hayley Williams.

Este terceiro álbum revela o grande potencial que sempre esteve latente no American Football. Ao deslocar a sonoridade, a banda mostra que se foi um dos expoente do emo duas décadas atrás, ela está pronta para reviver o emo nestes tempos, na sua melhor forma.

OUÇA: “Silhouettes”, “Uncomfortably Numb”, “I Can’t Feel You” e “Doom In Full Bloom”

Hand Habits — placeholder

placeholder é o nome do segundo disco do Hand Habits, projeto de Meg Duffy. O sucessor de Wildly Idle (Humble Before The Void) (2017) é muito bem resumido por sua capa: intimista, pessoal e pálido.

Gravado no April Base — estúdio do Justin Vernon —, placeholder pega o que já foi antes apresentado por Duffy e eleva. As 12 faixas do cd cantam a respeito de relacionamentos e prestação de contas, na maior vibe dor de cotovelo (mesmo!). “Oh, but I was just a placeholder / A place and nothing more / Oh, I was just a placeholder / With nothing to stand for”, diz Meg em um dos refrões da faixa de abertura, um perfeito exemplo do desalento intrínseco na obra.

A instrumentalização de placeholder se arquiteta na base do gênero folk: violão ora dedilhado, ora varrido, guitarras bases e quase nuas (salvo os reverbs), baterias em padrões simples e sem pancadaria. Tudo fabricado para que a voz, e a emoção desta, sustente boa parte da melodia. O charme do álbum, nesse quesito, fica por conta do lap steel usado em muitas das faixas, que além de agravar a melancolia, acrescenta um vestígio de sonho as canções, como em “jessica” — faixa que fala sobre coração partido e suas ilusões. No meio do cd existe “heat”: faixa estranha — e imagino que feita pra se estranhar mesmo hehe — totalmente desconexa do restante do conceito de placeholder e funciona como uma quebra curiosa e eletrônica. Na segunda metade o álbum dá uma animadinha (não se emocione muito, é uma animadinha pequena!). Ou talvez só fique menos intensa a sensação de abismo inerente. São acrescentados alguns pianos, mais lap steels (ouvir “guardrail/pwrline” para entender) e, na última canção — “the book on how to change part II” —, um belíssimo saxofone, meio parecido com “For Emma” (For Emma, Forever Ago – 2008), do Bon Iver.

O novo trabalho de Duffy (que se identifica como agênero), como dito, é bastante pautado em sua intimidade e sua atuação no mundo. Anteriormente, em seu álbum de estreia, Meg mantinha o processo da gravação no estilo DIY. Após participar da banda do Kevin Morby e sair em turnê com o artista norte-americano, Duffy parece ter aprendido a gostar de trabalhar em conjunto. E é por isso que, em termos de produção e pós-produção, placeholder se torna superior a Humble Before the Void.

Por fim, o atual projeto se mostra muito maduro. Mesmo sendo um álbum demasiadamente tonal. Pra quem tá na fossa é uma boa opção.

OUÇA: “placeholder”, “yr heart”, “guardrail/pwrline” e “the book on how to change part II”

Ten Fé — Future Perfect, Present Tense



A banda inglesa Ten Fé lançou seu segundo disco intitulado Future Perfect, Present Tense. Apenas dois anos após Hit The Light, os cabeludos miraram em um som bastante ensolarado desta vez. Deixaram um pouco de lado os sintetizadores e abriram o coração pros violões

Ben Moorhouse, Leo Duncan e cia se alicerçaram num soft-rock produzido nos anos 1980 e também na cena musical dos anos 1970 — não o segmento da “disco era” rs. A exemplo, temos as faixas “Echo Park”, que facilmente tocaria nos programas de rádio da madrugada no Brasil devido aos instrumentos de corda adicionados, tornando-a bastante romântica; e “Coasting” faixa pra cima, bastante californian vibes. O álbum ainda traz referências do que se tornou o Britpop: Oasis, Supergrass, Radiohead (nos primeiros trabalhos) e até a irlandesa U2, são exemplos. A faixa de abertura, que também é o primeiro single divulgado — “Won’t Happen” — tem um violão que lembra “Wonderwall” (Oasis), só que um pouco mais animado.

Falando ainda em correspondências, difícil desassociar o timbre de voz do vocalista Ben Moorhouse da voz do Matt Berninger (The National). Principalmente nas faixas “To Lie Here Is Enough” e “Isn’t Ever a Day”. O grave, combinado com o vibrato na voz de Moorhouse harmoniza muito bem nas letras sobre términos e dificuldades nos relacionamentos, arrastando tudo para uma atmosfera melancólica, porém serena.

Como segundo álbum, Future Perfect, Present Tense está meio longe de ser perfeito. De fato, se Hit The Light (2017) fosse o trabalho posterior FPPT seria uma evolução. No entanto, a banda perdeu algumas camadas que faziam o seu som um pouco mais  interessante: os sintetizadores, os falsetes, o sex appeal. Ainda sim, vale ser ouvido e apreciado devido aos seus highlights.

OUÇA: “Echo Park”, “Coasting”, “No Light Lasts forever” e “Caught On The Inside”

Weezer – Weezer (The Black Album)



Lançado no primeiro dia de março deste ano, o décimo terceiro álbum do Weezer surgiu após o hype engraçadinho em cima do Teal Album, projeto de covers divertidos com visual à la Choque de Cultura. Visualmente, The Black Album soaria como roqueiros suados cobertos de gosma preta sobre um fundo infinito. Em termos sonoros,  eu não sei o que deveria parecer.

Em entrevista à Entertainment Weekly, Rivers Cuomo disse que alguns  fãs disseram imaginar que seria um álbum de heavy metal, super pesado. Cuomo afirmou que é justamente o contrário. Há  pouca guitarra e todas as músicas foram baseadas no piano.

O álbum é composto por dez faixas são, em média, trinta e oito minutos de um projeto produzido por  Dave Sitek e capitaneado por Rivers Cuomo e dizer isso me machuca – eu acho Weezer uma preciosidade e, uma vez por semana, ao menos, escuto o The Blue Album e agradeço – mas, cara, eis um álbum cujo destaque é não possuir destaque.

Mudança e renovação são admiráveis e importantes, mas saber fazê-los da melhor forma também é. Não se trata de um álbum mal feito ou com baixa qualidade, e sim, um álbum sem propósito, ou melhor, sem ideia definida. Não há recorte, pauta ou norte. Parece que eles apenas se juntaram e falaram: “vamos!”.

Por se tratar de Weezer, isso não torna The Black Album a experiência mais horrível e cruel do mundo. Há toques de pop, um leve flerte com hip hop, animação e até melancolia. Uma salada de frutas com muitos elementos e pouca coesão, seja na ligação de uma faixa à outra, seja no álbum como um conceito.

“High As A Kite” e  “Piece Of Cake” são bons exemplos dessa junção de melancolia e alegria. Em  “Piece Of Cake”, Cuomo parece cantar sobre se entregar – e talvez se iludir  – em contato com uma paixão, há o uso das drogas para consertar os problemas e até espaço para um gato chamado Baudelaire, como o poeta francês. Essa melancolia musical da faixa, por sua vez, soa mística e individualista, como uma busca pelo absoluto.

O jogo de contrastes do Weezer entre luzes e sombras é feito pela relação entre letra e melodia. Parece existir, nas entrelinhas, algo de sombrio ou de quebra de expectativa nas letras, como se Cuomo mostra-se que não dá a mínima para o que esperam do Weezer.

É difícil saber para onde o Weezer está indo, principalmente quando o trabalho, como um todo, soa tão fácil de esquecer. Qual a próxima cor que o Weezer irá explorar?N

OUÇA: “High As A Kite”, “Piece Of Cake”, “I’m Just Being Honest” e “Byzantine”


Julia Jacklin – Crushing



A Julia Jacklin é uma moça australiana de 28 anos, no momento dessa resenha, que você talvez nunca tenha ouvido falar. E eu sinto pena de você por seus ouvidos nunca terem cruzado o caminho dela, caso seja essa a sua situação (corrija-a imediatamente). O seu primeiro álbum, Don’t Let The Kids Win, apareceu em 2016 e não fez uma legião de novos fãs surgir para a moça naquele momento. Crushing aparece agora, em 2019, com a Jacklin em sua base de folk, sólida e cativante, destacando elementos mais pesados e interessantes que antes estavam tímidos no meio de um som com algumas camadas de sujeira.

Crushing mostra uma Jacklin fazendo um som com um ar mais polido e infinitamente mais preparada para colher os frutos que esse álbum vai render (e já está rendendo, haja visto as turnês com datas esgotadas em diversos locais do mundo, os convites para posições-chave em festivais, o lugar elevado nas paradas de sucesso da Austrália e as boas notas dadas pela crítica especializada), versando de maneira mais forte, poderosa e cheia de sua personalidade sobre problemas de relacionamentos (sejam eles amorosos ou familiares) com um toque agridoce de guitarras com uma bateria ritmada.

Na questão musical, esse segundo disco acaba não entrando em méritos muito diferentes do que ela fez no seu primeiro álbum. As guitarras estão aqui mais presentes do que no outro registro, mas é o folk interessante misturado com o indie pop cativante que deixa tudo mais aprazível. O ponto alto; a cereja do bolo, talvez, seja a voz suave da moça, completando tudo com uma maestria significativa. Crushing chega no primeiro trimestre e já desponta facilmente como um álbum que certamente veremos em listas independentes por aí, em posições de destaque.

Crushing é um álbum sensível, mas sem soar melodramático e carregado. A sua sensibilidade reside na cadência leve, mais ainda assim acelerada e o ressoar das guitarras em músicas como “Pressure To Party”; também aparece com facilidade no agudo segurado da voz doce e nas batidinhas leves de bateria em músicas como “Turn Me Down”. Ele é gostoso de ouvir em dias chuvosos e cinzas, mas também tem uma aura ensolarada que o coloca perfeitamente para um dia fresco. Sua leveza é o seu principal trunfo e quando menos percebemos já chegamos em “Comfort”, querendo repetir essa viagem dos seus quase quarenta minutos.

No fim das contas, Julia Jacklin conseguiu nos entregar um álbum com uma consistência tremenda, que não se perde e entrega um pacote completo e tocante. Começa pequeno e acanhado em “Body” e vai crescendo música após música. Julia soube entender aonde tinha entregado pouco em Don’t Let The Kids Win, apara aqui as pontas soltas e chega com os dois pés no peito com um trabalho autoral gigante e marcante.

OUÇA: “Pressure To Party”, “Don’t Know How To Keep Loving You” e “You Were Right”

Sundara Karma — Ulfilas’ Alphabet



O Sundara Karma é uma banda que costumava aparecer nas playlists automáticas que o Spotify cria quando algum disco que eu estava ouvindo acabava. Muito escutei “Indigo Puff” e outras canções deles sem querer. E, embora isso tenha acontecido um bom número de vezes, eu nunca fui muito atrás de conhecer a banda. Então quando essa resenha caiu no meu colo, eu vi como uma boa oportunidade de conhecer uma “banda nova” e explorar mais a fundo a sua sonoridade e seu disco.

Ulfilas’ Alphabet é o segundo disco do Sundara Karma e foi lançado no dia 1º de março, dando sequência ao seu debut album Youth Is Only Ever Fun in Retrospect, que saiu em 2017.

No geral, o álbum é upbeat, com boas guitarras e uma sonoridade extremamente familiar, que para mim traz uma sensação de “rock inglês”, whatever that means. E eu não posso deixar de exaltar a voz do Oscar Pollock, com sua força no grave, que completa o combo da “nostalgia sonora” que eu senti ao ouvir o álbum.

Apesar de ser carregado de memórias e referências, que remetem às mais variadas décadas, o álbum é muito “novo”. Tem um frescor de novidade, ainda que busque em “recursos clássicos” a solução para fazer um hit.

A primeira música, “A Song For My Future Self” já estabelece o tom do disco e é uma das minhas canções favoritas do álbum. Tem boas camadas sonoras, uma pegada meio setentista, distorções e um excelente instrumental — que você vai ouvir através de todo o álbum.

A combinação de “Symbols Of Joy & Eternity” e “Higher States” é, para mim, preciosa. São duas músicas com cara de hit que trazem uma sensação de que eu já as conheço a vida toda — sem soar como se fossem uma cópia barata ou rip-off de outros artistas, mas que apresentam características musicais que soam confortáveis aos ouvidos.

A cada nova música vamos descobrindo uma nova faceta do quarteto, como na canção “The Changeover”, mais lenta que o resto do álbum e onde podemos apreciar toda a potência dos vocais — que, por momentos, lembra até o vozeirão de David Bowie. Preciso destacar, também, “Illusions” e “Duller Days”, canções meio dark e que tem um quê de Franz Ferdinand, trazendo uma vibe muito gostosa ao disco.

Depois de toda a viagem de Ulfilas’ Alphabet, “Home (There Was Never Any Reason To Feel So Alone)” acalma os ânimos e encerra o álbum brilhantemente, com seus beats e elementos eletrônicos.

Eu não consigo ouvir o álbum sem pensar, “bah, essa é uma banda inglesa”. Além do sotaque, a banda carrega a identidade britânica nas nuances de suas canções e, também, no visual. Da terra do renomado Reading Festival, a banda está na ativa desde 2011 e, se continuar nesse caminho terá uma carreira bem próspera pela frente.

Assim como a capa do disco propõe, Ulfila’s Alphabet é um disco bom de mexer o esqueleto. Se você gosta de conhecer bandas novas e curte um bom indie rock, o Sundara Karma é uma ótima pedida!

OUÇA: “A Song For My Future Self”, “Symbols Of Joy & Eternity”, “Duller Days” e “Higher States”

Pond — Tasmania



A banda-irmã do Tame Impala pega emprestado o nome da famosa ilha próxima à Austrália para ambientar seu oitavo álbum de estúdio em pouco mais de dez anos. Produzido conjuntamente por Kevin Parker com o grupo, Tasmania apresenta um Pond ainda mais dançante e acessível, que parece começar justamente de onde terminou em The Weather (2017). Também aqui o rótulo de psicodelia está atrelado a uma estrutura de canção pop, seguindo a mesma trilha que Parker tem feito desde 2015 em seus projetos e produções.

Por falar na produção, de fato não se pode reclamar de uma falta de esmero. Em comparação com a fase mais rockeira da banda em álbuns como Hobo Rocket (2013), tudo soa muito mais polido aqui. Vocais, entre os mais limpos e os distorcidos, estão bem mixados com o restante do grupo, e há linhas melódicas de sintetizadores e baixos eletrônicos bem trabalhadas que dão base a toda a obra. A capa colorida engana um pouco: sim, é um som bastante solar esparso que te espera no novo trabalho, mas nem de longe tão variado quanto pode fazer parecer a fachada arco-íris.

Se a banda peca aqui, é justamente pela repetição e pela artificialidade. Isso já fica evidente nos seis minutos de “Daisy”, primeira faixa e um dos singles do álbum. Ela inicia com uma criativa mudança de andamento de uma introdução mais relaxante para um ambiente festivo, porém logo redunda em um mar de timbres pouco originais e uma cozinha que remete à psicodelia dançante surgida em fins dos anos 80, sem muito a acrescentar. Sem falar na coda arrastada que parece perdida, ocupando quase dois minutos ao final…

Esse tipo de escolhas sonoras permeia basicamente todo o trabalho, que alterna muito pouco entre os dois climas apresentados na abertura. Não é de todo ruim: a tentativa gera canções que isoladamente tem seus méritos, como nos questionamentos sobre pertencimento da título “Tasmania”, na transitória “Goodnight, P.C.C.” (atenção especial para a linha percussiva) e em “Burnt Out Star”, maior música do disco em duração e grandiosidade. Contudo, essa alternância pequena faz os 48 minutos parecerem maiores do que são, por puro excesso do mesmo.

Liricamente falando, o disco pode parecer bobo ou nonsense em uma primeira audição; contudo, há temas profundos ocultos em vários momentos. Crueldade social (“The Boys Are Killing Me”), a busca/cobrança por politização nas letras (“Hand Mouth Dancer”) e a fama (“Burnt Out Star”) são alguns dos tópicos discorridos, principalmente por Nick Allbrook, que co-assina nove das dez faixas. Não há passagens muito memoráveis, mas também não existe contraste agressivo entre letra e música, o que garante fluidez na escuta ao menos nesse aspecto. E assim, Tasmania se encerra trazendo um Pond em terreno sonoro conhecido e bem produzido, mas com pouca inventividade e diferenciação entre as canções.

OUÇA: “Goodnight, P.C.C.” e “Burnt Out Star”

Telekinesis — Effluxion


“Back-to-basics”. É assim que Michael Benjamin Lerner descreve o novo trabalho com o Telekinesis. Effluxion, seu 5º álbum, saiu pela Merge Records no dia 22 de fevereiro. O cd tem 10 faixas e passeia um pouco mais pelo indie rock e rock propriamente dito do que seu antecessor Ad Infinitum (2015).

Para compreender um pouco mais Effluxion é preciso voltar para o debut de Lerner: Telekinesis! (2009). O músico foi descoberto por Chris Walla, ex-integrante da Death Cab for Cutie, que o ajudou a produzir o primeiro disco. Todos os instrumentos do álbum de estreia foram tocados por Michael, o que torna o trabalho bastante pessoal. Os demais álbuns tiveram participações do próprio Chris Walla, dos músicos de apoio de Lerner e também do Jim Eno (Spoon). Na obra atual, Michael resolveu voltar às raízes e fazer tudo por si próprio, desde os instrumentos tocados, até a mixagem. E é daí que surge uma das coisas positivas de Effluxion: uma boa mixagem. Limpa, sem medo de jogar os baixos e as baterias para cima, sem medo de ser quieto quando necessário.  A faixa título, por exemplo, assusta o ouvinte nos seus primeiros segundos por sua quietude e por seu som seco. Por pouco mais de 1 minuto até parece uma música perdida dos Beatles, algo ali do Yellow Submarine ou do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club.

Inclusive, Lerner não nega ser grande fã da banda e que sua música é abundantemente influenciada pelo quarteto. É até curioso, pelo fato dele ter estudado no Liverpool Institute of Performing Arts, do Paul McCartney. Durante a primeira metade do álbum, essa predileção se mostra evidente: na levada padrão das baterias, nas linhas de baixo, nos violões melódicos e nos pianos pulsantes. No finalzinho, o som fica mais preto no branco, mais direto. Exemplo disso é a faixa “A Place in The Sun”, já lançada como single anteriormente, que surgiu depois de uma ida fracassada ao cardiologista: “My heart’s a ping pong ball skipping in a sea of goo”, diz Lerner em uma das metáforas divertidas dentre várias nas suas composições.

Falando um pouco mais sobre as faixas, “Effluxion”, que abre o cd, dá as caras para essa aventura de Lerner, sobre o ato de compor e de deixar a composição fluir. “Like Nothing”, 3ª faixa, se comporta como um iêiêiê tanto pela vibe da música, quanto por sua letra que parece ambientada nos anos 1960: ‘Minivans moms and dancehall dads / Find a little slice of the happy and sad’. “Set a Course” é parecida com faixas dos primeiros cds: folk, voz e violão no maior estilo Sufjan Stevens, S. Carey e cresce para uma batida constante e de balançar a cabeça, ao mesmo tempo em que o eu-lírico recorda sua trilha pela vida e aconselha os demais: ‘I was lost / I was found / Now just look at me / Set a course / And take it easy’. “Out of Blood” fecha o álbum como um sonho-pesadelo — um pouco mais parecido com o Ad Infinitum — com sintetizadores, programações e hi-hats.

Quanto ao título do novo trabalho do Telekinesis, ele se deriva de uma palavra latina “effluere”, que em português significa mais ou menos fluir para fora, deixar sair. Em inglês — entrando no contexto da produção, já que é de natureza norte-americana —, a palavra “effluxion” tem duas possíveis interpretações: o ato de escorrer e a passagem do tempo. Como aquela velha história do rio blá blá blá. O conceito do título é muito bem atrelado as canções: a já citada “Effluxion” e “Running Like a River”.

No geral, Effluxion tem um quê de homenagem aos clássicos. Gostoso de ouvir, dançante, tem composições divertidas e reflexivas (mas não tanto), é romântico quando tem que ser, é pop quando tem que ser, é pessoal e esperançoso, por fim. Depois dos 30 anos, Michael Benjamin Lerner, aprendeu muito e resolveu que seria bom voltar ao básico, que seria bom confiar em si e no que a vida tem a nos trazer.

OUÇA: “Effluxion”, “Cut The Quick”, “A Place In The Sun” e “Set A Course”