Mark Lanegan Band – Somebody’s Knocking



Mark Lanegan não está batendo à porta, o cantor estadunidense está, de fato, batendo a porta – fechando-a com força ou, neste caso, abrindo-a. Obscuro e carregado de sintetizadores, o álbum permeia uma atmosfera meio filme de terror, meio oitentista. 

Lanegan é uma figura conhecida na música, emergindo da cena grunge de Seattle, responsável por bandas como Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, ao lado do Screaming Trees. Somebody’s Knocking é o décimo primeiro álbum de estúdio do cantor e soa como uma retorno a uma época e local específico: a Manchester dos anos 80. 

São 14 faixas ao todo, cerca de 57 minutos de duração com guitarras e sintetizadores marcados. Uma lembrança renovada de um tempo passado, grandes momentos. Mark está convidando todos para uma festa dark – animada – estranha. 

“Disbelief Suspension” e “Letter Never Sent”, as duas primeiras faixas, já iniciam o clima que seguirá por todo o álbum. O que fazer? A festa já está acontecendo ao seu redor, resta ser sugado e convencido por algumas canções, como “Gazing From The Shore” e “She Loved You”, de que esse revival contemporâneo faz sentido e é divertido. 

Um registro agradável, dançante e esquisito. Vamos levar o Mark Lanegan para uma festa? 

OUÇA: “Letter Never Sent”,”Gazing From The Shore”, “Night Flight To Kabul”, “She Loved You”

Vagabon – Vagabon



Vagabon é o nome artístico de Laetitia Tamko, camaronesa multi-instrumentista e multi-talentosa que carrega esse projeto incrível nas costas desde 2014. O primeiro disco viu a luz em 2017 e impressionou pela voz doce e poderosa da moça. O segundo disco, de título proprietário, aparece numa entoada de discos de mulheres poderosas agora em 2019. Não deixa a desejar ao se encaixar nessa boa safra de moças que tomam todas as frentes e dores de serem musicistas nesse mundo que, felizmente, está ficando mais igualitário.

Laetitia se coloca ao lado de todas essas mulheres, equipara-se com seu vozeirão e com suas letras mais fortes e pungentes nesse segundo registro de estúdio. 2019 nos presenteou com discos brilhantes de mulheres independentes, fortes e, acima de tudo, talentosas. Ainda bem.

Esse disco parece se encontrar muito mais e de maneira muito mais cativa, grandiosa e, porque não, melhor. Laetitia encontra em novos sons um lugar mais seguro do que na guitarra mais suja e distorcida do primeiro álbum; um lugar mais seguro na voz mais cristalina e aparente; um lugar mais seguro em menos gritos e mais poesia marcante.

Vagabon, já que é assim que prefere se mostrar ao público, mostra-se mais mulher e mais poderosa nesse segundo álbum. Antes de apoderar-se do mesmo nome do projeto, o disco levava o nome de All The Women In Me, mas teve uma alteração brusca por conta de um pedido da autora que foi a principal inspiração para esse disco. Tomando voz por esse título, pode-se dizer que esse álbum mostra a força do feminino em diversas situações e celebra o “segundo” sexo em seus versos e melodias.

É muito feliz e engrandecedor ver a guinada, para melhor, que Laetitia traz para o Vagabon, fazendo da produção algo mais cristalino e algo mais interessante e mostrando-se para o grande público como alguém mais marcante. A artista torna-se referência na cena e permeará listas de melhores do ano por aí com sua peça e sua obra de arte. Ótimo.

OUÇA: “Full Moon In Gemini”, “Water Me Down” e “Every Woman”

DIIV – Deceiver



Se no início da década, o DIIV surgiu como parte da onda de shoegaze revival que estava em crescente na época, talvez eles tenham se perdido nesse mar. Mesmo que a estética fosse levemente diferenciada, e o lo-fi fosse uma das coisas pelas quais a banda se segurava, não tinha muita coisa que destacasse o grupo, a não ser uma ou outra música pegajosa, e uma considerável evolução do primeiro pro segundo álbum. É muito fácil ser mais um nesse gênero, talvez seja o maior problema dele.

A grande tirada de Deceiver é que, esse sim, consegue fazer algo muito mais interessante, ao mesclar outros gêneros na fórmula do DIIV, tornando cada música uma surpresa diferente. Diferenciar todas as músicas em um álbum de shoegaze já é um ótimo passo pra se destacar, e aqui a banda se utiliza de riffs que vão do grunge ao post hardcore melódico, e melodias inventivas que se encaixam muito melhor nessa sonoridade do que encaixava nas antigas da banda.

A melancolia do refrão de “Horsehead” dá o tom do álbum: não é mais aquele shoegaze divertidinho de antes. E a letra fala sobre o envolvimento do vocalista Cole com drogas de uma forma muito sutil, mas que passa uma sinceridade que é o carro chefe do trabalho. O mais engraçado é que, por exemplo, a banda brinca com a letra do refrão de “I Wanna Be Adored” do Stone Roses e suas múltiplas variações em “Skin Game”, enquanto esse provavelmente é o trabalho mais afastado dos moldes deixados pela mesma. Deceiver tá mais pra um filho de Smashing Pumpkins com Brand New e Title Fight, mas talvez não atingindo o mesmo nível de agressão dos mesmos.

Tirando, é claro, no que é provavelmente a melhor música do álbum, “Blankenship”, que tá muito mais pra Sonic Youth com Cloud Nothings. A carga política das letras, dando voz ao ativismo ecológico da banda, aliada aos breakdowns estrondosos e melodias suaves que se complementam perfeitamente, dão aquela pitada de atitude essencial, é o clímax que o álbum inteiro criou uma tensão pra chegar. E mesmo que seja um trabalho mais agressivo e sujo, a beleza de momentos como “Between Tides”, e a inspiração chupada de My Bloody Valentine em “For The Guilty” equilibram bem a energia do projeto.

A forma como Deceiver foi montado, as bases pelas quais ele se guia, e a forma como ele te cativa a continuar ouvindo é o que o DIIV precisava pra se provar no seu gênero. A inteligência das letras e a força dos instrumentos, aliados a uma produção impecável, traz balanço ao som da banda e torna tudo nele mais sincero. É a química perfeita que o grupo precisava achar pra engatar, e finalmente surfar na onda do shoegaze com propriedade.

OUÇA: “Blankenship”, “Horsehead”, “Taker” e “Skin Game”

Angel Olsen – All Mirrors



Com uma trajetória baseada em ousadia e confiança valem a pena no fim do dia Angel Olsen tece um dos melhores álbums de 2019 e também o trabalho mais coeso de sua carreira. Em sua atmosfera emoldurada por orquestras que moldam e amplificam o poder e e tom dramático de suas composições All Mirros é um marco à evolução de um dos nomes mais importantes do indie rock atual, firmando os alicerces da era de Olsen, longe de acabar, como uma grande letrista contemporânea.

Suas duas faixas iniciais “Lark” e “All Mirrors” criam um prefácio poderoso, formatado por arranjos profundos e um olhar sobre o passado e reflexões sobre ser e sentir, como expostos principalmente em “Lark”: “Every  time I turn to you / I see the past, it’s all that lasts”. O presságio d eum errendo sobre amar outra pessoas e suas consequências.

No geral Olsen constrói uma atimofera onde relacionamentos e pessoas consequêntemente podem te machucar e que o amor próprio é a chave para superar a dor de um coração partido como retratado em “Chance” – uma das mais belas canções desse ano – “I wish I could un-see some things that gave me life / I wish I could un-know some things that told me so / I wish I could believe all that’s been promised me”.

Angel conclui uma evolução sonora e escrita a ser admirada e compartilhada.

OUÇA: “Lark”, “Chance”, “New Love Cassette”, “Spring”, “Tonight” e “Summer”

Cigarettes After Sex – Cry



Poucas são as bandas que conseguem imprimir uma noção cinematográfica tão marcante para sua melodia quanto o Cigarettes After Sex. A aeronave caindo sobre o oceano, o vapor do chuveiro, a brisa litorânea, as luzes baixas da cidade, a mistura do sonho e do real imprimem um uso largado de sinestesias e figuras visuais e fazem com que o som enxuto e simples (dito como minimalista) seja capaz de produzir a mais tenra melancolia no ouvinte. É, verdadeiramente e intencionalmente – dado o profundo conhecimento que o líder da banda possui sobre cinema – como se as angústias existenciais e a busca pela felicidade da personagem Nana (Vivre Sa Vie, 1962), filme seminal da Nouvelle Vague francesa, ressoassem nas linhas do baixo da banda, no tenor único de Greg Gonzáles e no eterno jogo preto-e-branco proposto no LP1. E lembro-me o quão refrescante fora ver uma reciclagem de referências tão bem feita como a que ocorreu neste disco.

Em Cry, o álbum do dia, o Cigarettes, no entanto, se depara com uma espécie de dilema mal resolvido: qual o limite entre a falta de inspiração e a opção por um caminho seguro? Aqui tudo se turva. São 9 faixas toadas em uma mesma estética já bem conhecida pelo público, afinal, havia sido apresentada por eles: percussão no limite da inexistência, guitarras e efeitos, notas compridas no baixo, sintetizadores dóceis e a voz do cantor. O disco é largado no piloto-automático em uma grande reta, sem cantos e curvas. E disso decorre duas percepções: a primeira, positiva, que acarreta uma espécie de fluxo de consciência, tornando as cenas ali descritas todas pouco precisas, todas muito voluptuosas, entorpecendo o ouvinte. Uma espécie de white noise para devaneios acordados. A segunda, negativa, que a obra recorre em preguiça pura e simples, representada pela falta de textura, muitas vezes, que tendem a desequilibrar a balança para o lado negativo.

A outra questão que fica parece já ter virado polêmica: do que se trata as letras de Gonzáles. O processo criativo do líder da banda envolveu uma viagem longa as ilhas espanholas no Mediterrâneo. Nesse cenário paradisíaco, Greg sentiu-se inspirado a descrever novas cenas de sexo idealizado e frustrações amorosas sob um enquadramento encharcado de sentimentalismo pegajoso. O Cigarettes After Sex erram, pois, ao substituir a lírica dos temas banais presentes no LP1 para os plásticos clichês ultrarromânticos sobre o amor moderno neste daqui. São versos como os seguintes que tiram boa parte da seriedade do projeto:

 “There was a hentai video that I saw/
I told you about the night that we first made love/
About a girl who as soon as she made you cum/  Would show you the future and tell you your fortune”

(“Hentai”)

 “Could you love me instead of all the boyfriends you get?
Know I’d make you forget about all of those rich fuckboy”.

(“Kiss It Of Me”)

Feitas todas essas considerações, o disco é passível de redenção – o que é uma grande derrota para uma banda da qual se esperava muito mais. Isso se deve a um único fator: a magistral capacidade do Cigarettes After Sex de compor melodias surreais, arrebatadoras. Se fosse possível, pois, resumir o disco em uma música, esta seria a paradoxal “Hentai”: tosca na letra, sublime na melodia. “Heavenly”, o ponto mais alto do disco, também pode ser definida de maneira similar.

Em geral, o sentimento que fica é que essa coletânea de músicas são versões pouco inspiradas do primeiro disco, embora não sejam necessariamente ruins. Se nada, o disco prova que a banda tem bastante o que mostrar musicalmente, mas para isso será preciso encontrar novos caminhos criativos dentro do que o Cigarettes sabe melhor fazer: encantar pelo simples.

OUÇA: “Heavenly”, “Hentai” e “Cry”

Foals – Everything Not Saved Will Be Lost



A banda Foals prometeu para este ano de 2019 um projeto ambicioso de 20 músicas divididas em dois álbuns de mesmo nome. Everything Not Saved Will Be Lost não faz nada de extraordinário, mas também não se perde no meio do caminho e a banda inglesa entrega um pacote de muitas músicas acima da média.

A primeira parte foi lançada em março deste ano e traz canções típicas do indie rock popularizado no começos do milênio por The Strokes, em Is This It, Arctic Monkeys, em Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, e no álbum autointitulado do Franz Ferdinand. Aliás, essa é uma característica permanente na discografia de Foals, que surgiu em 2005 e faz parte desse movimento de indie rock com pegadas de garage rock.

Das primeiras dez faixas lançadas pelo Foals, “Syrup” é um dos destaques. O arranjo musical fica mais agitado conforme o decorrer da música. A primeira metade dela segue em um compasso mais lento, mas já dando a impressão que vai descarrilhar para um ritmo mais agitado, o que de fato acontece.

“On The Luna” também é outro destaque da primeira parte de ESWNBL. Ela já começa agitada, com guitarra bastante aparente.  Há também política nessa música e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é diretamente citado em uma estrofe:

When I was a Kung-Fu kid on the Luna

I was moonin’ at the Bella Luna

Trump clogging up my computer

But I’m watching all day, all day

A primeira parte do novo álbum do Foals é mais contido em si mesmo. Embora ainda seja um disco com predominância de sons expansivos com o uso de instrumentos elétricos e bateria, há nele músicas acústicas, ou quase, como “Moonlight”.

Everything Not Saved Will Be Lost II, lançado neste mês de outubro, dobra a aposta e é quase todo expansivo tanto no ritmo quanto nas composições das letras. “Runner” é pura guitarra do início ao fim.

“Like Lightning” resume bem o espírito do álbum mencionado em seu título, ou seja, que o mundo está à beira de um apocalipse, e que tudo que não está salvo, será perdido.

I know my way back, I’ve seen that sky collapse

I’ve heard that thunder clap

I’ve seen that lightning crack

I know my way home

I’ll mend my broken bones

I’ve seen that

Lightning crack

É um álbum de 20 músicas que consegue manter uma coesão e mostra um bom resultado, que é acima da média. No entanto, nada de diferente é feito, nada que deixe uma marca para ser lembrada nas próximas décadas. 

A banda continua fazendo o bom trabalho que faz há 14 anos, mas segue apostando na fórmula do indie e garage rock iniciada no começo dos anos 2000.

OUÇA: “Syrup”, “On The Luna”, “Exits”, “The Runner”, “Dreaming Of” e “Like Lightning”

Miniature Tigers – Vampires In The Daylight



Vampires In The Daylight é um álbum sobre os sentimentos conflitantes que vem à tona depois do término de um relacionamento e reflete esses conflitos esteticamente com um emaranhado de construções e gêneros musicais diversos que pouco conversam entre si para além da temática.

“Caged Bird” trabalha uma construção rítmica característica do folk rock com uma guitarra fazendo um harpejo de poucas notas combinado a elementos espaciais como uma linha de cordas sintetizada para dar o ar melancólico do momento de separação cantado na letra e vai ficando mais esperançosa com a entrada de uma bateria conforme o personagem da música vai aceitando que vai ficar bem apesar da dor.

“Manic Upswings” muda a pegada instrumental pra algo mais animado, bastante influenciado pelo rock alternativo do fim dos anos 90 para passar a sensação de estar completamente se embebedando e buscando euforia como uma forma de esquecer a dor de não ter quem você ama do seu lado. É um dos melhores instrumentais do disco e o riff é daqueles contagiantes que te faz querer cantarolar depois que a música acaba. Na sequência temos “Rattlesnake ASMR”, uma vinheta esquisita e que parece meio inacabada e não acrescenta muito ao restante do álbum.

Mais à frente no registro temos “Wish”, trazendo elementos do pop rock e do R&B de boy bands para assumir suas falhas e desejar ter sido alguém melhor para a sua amada. É uma faixa bastante agradável melodicamente mas, mesmo que o conceito todo gire em algo mais deprê, seria interessante ver alguma explosão de potência vocal aqui porque o instrumental dá muitas deixas para que isso aconteça mas essa expectativa nunca se concretiza.

“Cool” vem logo depois e é uma faixa esquisita no melhor sentido da forma como só o Miniature Tigers sabe fazer. Tem elementos de pop dançante genérico, passagens eletrônicas destacando e sampleando trechos da própria música, uma guitarra cavalgada e um violão base junto com a bateria compondo o ritmo de uma forma bastante inventiva. A música acaba numa virada estranha e vira um instrumental meio desconectado do restante que reflete esse estado de desconcerto que acontece quando você está quase superando o término e alguma coisa te quebra do nada e a bad volta com força.

A faixa-título é uma das mais solares do disco, conduzida por uma bateria constante e a linha de guitarra que aparece com mais força em momentos pontuais e fala sobre querer expressar os sentimentos com clareza mesmo que isso seja desconfortável. O interlúdio com o piano, os sintetizadores e a voz suave marcam essa transição de consciência e a gente começa a acreditar que dá pra ficar bem e aceitar até mesmo os sentimentos ruins. A faixa continua com “Guilty Sunsets” que pega o tema instrumental da predecessora e transforma em uma espécie de vinheta para as últimas faixas do disco que não tem nada de muito interessante a ser destacado a não ser por algumas passagens de guitarra de “Better Than Ezra”.

No geral, Vampires In The Daylight soa bastante sincero e, talvez por isso, algumas faixas isoladamente tenham bastante impacto em quem viveu situações parecidas de descontrole e tristeza pelo fim de um relacionamento. No entanto, se escutado de ponta a ponta, causa uma estranheza que te deixa na dúvida se é proposital pelo conceito ou apenas algo feito sem muito cuidado.

OUÇA: “Manic Upswings”, “Cool” e “Vampires In The Daylight”

Swim Deep — Emerald Classics



Em seu terceiro disco, Emerald Classics, o grupo britânico Swim Deep segue em frente com sua tradição de um indie pop alegre e leve. Em meio a sintetizadores e um sutil throwback para os anos 1980, o álbum traz quarenta minutos de canções convencionais que, por mais que funcionem, não conseguem causar uma impressão duradoura no ouvinte.

O tema principal do disco, anunciado de maneira explícita no título da canção inicial “To Feel Good”, é justamente uma ode a um olhar mais gentil sobre a vida. Com uma produção simples, esse sentimento é transmitido com autenticidade em Emerald Classics, um trabalho que soa íntimo para o grupo. Trata-se de um álbum tranquilo e sem muitas reviravoltas, com todas as canções seguindo um mesmo modelo.

Talvez esse seja o grande problema: o álbum é um trabalho homogêneo demais, ao ponto de parecer pouco criativo e com um apanhado de ideias que são recicladas de canção em canção. Como um todo, ele surpreende por usar a sonoridade dos anos 1980 e 1990 despida de sua alta energia, mas há pouca variação entre uma faixa e outra. Há algumas exceções, como a ótima “Drag Queens In Soho”, que consegue injetar um pouco de vida e converter o sentimento etéreo de felicidade do disco em uma emoção mais palpável. Já em “Father I Pray”, o grupo de Birmingham insere sons de coral que ajudam a dar peso à canção.

Emerald Classics é um disco que surpreende ao usar uma abordagem mais doce e tranquila para uma sonoridade repleta de instrumentos psicodélicos. No entanto, o resultado final é adocicado demais, ao ponto de se tornar enjoativo. Apesar de seus méritos, o mais novo álbum de Swim Deep não consegue se destacar entre o catálogo atual do indie pop.

OUÇA: “Drag Queens In Soho”, “0121 Desire” e “Father I Pray”

Allah-Lahs – LAHS


Não é preciso ouvir muito mais do que algumas músicas da discografia do quarteto de rock psicodélico de Los Angeles Allah-Lahs para entender a proposta geral da banda: surf rock com uma distorçãozinha.

O quarto disco deles, LAHS, não é diferente. Lançado em 11 de outubro pelo selo Mexican Summer, LAHS não foge ao trajeto para o qual os trabalhos anteriores da banda já apontavam. Continua a vibe retrô, com fortes referências a alguns momentos de Velvet Underground, e praiana.

De modo geral, o disco não tem grandes elementos que o diferenciem dos anteriores. O pouco que poderíamos ver de novidade é alguma pegada muito leve um pouco mais country em algumas faixas, como “In The Air”, e a faixa inteiramente cantada em português, “Prazer Em Te Conhecer”, também um pouquinho mais country, mas ainda bem apegada ao estilo original da banda. Em entrevistas, os integrantes afirmam curtir música brasileira (Marcos Valle, Jorge Ben, Caetano Veloso, Erasmo Carlos) e, apesar de terem trabalhado nela com ajuda da atriz Karina Fontes na composição de “Prazer em te conhecer”, atribuem a escolha do idioma mais à ascendência portuguesa de um deles do que ao interesse pela cultura brasileira. Outro momento em que existe uma brincadeira com idiomas é na faixa que fecha o disco “Pleasure”, balada em um espanhol carregado de sotaque.

Embora eu não esperasse nada diferente do que foi entregue em LAHS, é inevitável o sentimento de que a banda caiu na mesmice ou de que se mostra desinteressada em tomar riscos maiores com suas produções. Para um conjunto que passou pelo colégio e por um trabalho na loja de discos Amoeba Records em Los Angeles juntos e produziu quatro álbuns ao longo de 10 anos, talvez fosse a hora de assumir uma postura de mais experimentalismo.

LAHS não é de forma alguma um disco ruim. As faixas são interessantes e, apesar de se ater fortemente ao estilo que a banda já vem explorando desde sua formação, existem uns poucos novos elementos que, se explorados de forma mais consistente em próximos trabalhos, podem dar aos Allah-Lahs uma nova dimensão e, quem sabe, tornar a banda interessante novamente.

OUÇA: “Prazer Em Te Conhecer”, “Roco Ono”, “Polar Onion”

Vivian Girls – Memory



Retornando como se nada tivesse acontecido, o trio Vivian Girls lançou seu primeiro álbum em 8 anos mantendo tudo que tornava a banda atrativa no seu início. É um trabalho bem linear até, com nada fugindo absurdamente do que elas já faziam, só puxando mais pro lado das influências do grunge e do punk. É como uma banda de punk dos anos 90 passada pelo filtro da tendência de dream pop da nossa década atual.

Parece que o grupo retornou com mais fogo nos olhos, e as músicas se encaixam melhor numa gravação um pouco mais limpa, que é o ponto principal desse álbum. A forma como as canções não perdem sua estética lo-fi, mas são muito mais bem equilibradas em questões de mix e produção mantém o charme da proposta da banda, mas amplifica o efeito quando você consegue ouvir tudo na música direitinho, como em “At It Again”. Porém, nem todas são tão bem cuidadas como essa, então a consistência do trabalho não é uniforme. Mas em momentos que as músicas destoam do resto, compensam de certa forma pela energia, como a abertura “Most Of All”, que além de ser cheia de atitude, consegue ser pegajosa como poucas coisas que o Vivian Girls já fez.

E as variações não ficam só na casa do loud/quiet. Os riffs poderosos de “Sludge”, por exemplo, complementam os vocais suaves de forma estranhamente efetiva, criando uma tensão muito similar ao que o Nirvana fazia, mas remodelado pra não parecer tão fora da curva pra esse álbum. Isso ajuda a não torná-lo totalmente repetitivo, e eu digo “totalmente” pois em alguns momentos acaba acontecendo, e aí se vê que há espaço pra banda continuar crescendo, mas não alcançou totalmente esse potencial ainda.

Sendo um dos melhores álbuns da discografia da banda, Memory prova que, mesmo que a banda tenha parado por muito tempo, ainda existe química entre as integrantes, que montaram um álbum que, mesmo que ainda tenha reflexos de suas limitações, mostra que há espaço pra novas ideias entrarem no som do grupo, e talvez atrair todo um novo público.

OUÇA: “Most Of All”, “Sludge” e “Far Away”