The Dandy Warhols – Why You So Crazy


Com exceção de um ou outro hit ao longo do caminho, o Dandy Warhols nunca foi um grande sucesso comercial mesmo nos meios mais alternativos da música, mas sempre foi uma banda muito inventiva e eclética brincando e experimentando dentro das vertentes do rock alternativo com resultados muito interessantes ao longo de 10 álbuns de estúdio. Why You So Crazy vai fundo na pegada eletrônica pincelada pelos músicos em Distortland de 2016 mas sem a graça de seu predecessor e traz alguns elementos country sem muito contexto pra algumas canções.

O que mais decepciona em Why You So Crazy  é que ninguém ali parece estar usando sua capacidade total. O vocalista Courtney Taylor-Taylor que em trabalhos anteriores, embora não fosse um vocal super potente, aproveitava a característica de sua voz pra compor as harmonias, aqui fica quase escondido em sussurros e prejudicado pela mixagem que joga seu vocal por baixo do instrumental; Peter Holmstron e Brent DeBoer seguram bem a cozinha mas sem muita energia nem inventividade para dar mais corpo e vida ao som quase mecânico que se desenvolve no álbum; e Zia McCabe que já fez coisas incríveis com seus sintetizadores tanto nas músicas mais pop quanto nas mais viajadas do Dandy Warhols usa uma programação datada e simplista que não empolga muito.

O disco já começa pesando a mão num eletrônico genérico com a introdução “Fred N Ginger” e “Terraform” e a profusão de beats e efeitos especiais faz com que seja difícil entender algum conceito musical por trás delas e mais difícil ainda entender o que está sendo cantado. Ao longo do álbum essa (falta de) estrutura se repete em músicas como “Next Thing I Know”, que tenta criar uma atmosfera espacial mais obscura mas acaba se tornando assustadoramente monótona e “To The Church”, que tenta evocar a fase mais eletrônica de Bowie através de algumas levadas de baixo e violão mas não funciona muito bem por ser um tratamento puramente estético sem muita relação com algum conceito ou as faixas que a circundam. Essas faixas são carregadíssimas de efeitos e um certo experimentalismo que é até interessante em certa medida mas sem nada que realmente cative e faça você sem lembrar delas depois que o álbum acaba.

No lado menos eletrônico do álbum temos algumas coisas mais interessantes mas nada muito brilhante como “Motor City Steel” e “Highlife” que usam uma estrutura country tocada com instrumentos eletrônicos pra tirar sarro dos exageros e clichês característicos do country radiofônico americano e embora sejam sim um pouco repetitivas ainda são faixas divertidas e que expressam bem alguma intenção e não são apenas um amontoado de beats e efeitos dispersos. Perdida no começo do álbum temos “Be Alright” que saiu como primeiro single e pode ser uma terrível propaganda enganosa porque é a faixa que mais se parece com o rock alternativo que o Dandy Warhols já fez ao longo da carreira e é uma ótima música que não tem nenhum outro paralelo nesse registro.

Why You So Crazy chega até nós no ano em que o quarteto de Portland compelta 25 anos de carreira e, embora sonoramente seja bastante diferente de seus predecessores, ainda celebra de forma sutil muitos dos maneirismos de diversos momentos desse quarto de século. De toda forma, apesar de toda a estranheza e a falta de algo que seja realmente brilhante e marcante, podemos dizer que esse registro ainda está dentro do que o Dandy Warhols faz que é experimentar até as últimas consequências com toda a liberdade, não importando o resultado.

OUÇA: “Be Alright”, “Thee Elegant Bum” e “Motor City Steel”

Blood Red Shoes – Get Tragic


A dupla inglesa Blood Red Shoes retorna após um período de cinco anos com seu quinto álbum de estúdio, Get Tragic, após  lançarem singles soltos em 2017 e 2018. E as coisas estão bem diferentes aqui dessa vez, quase não parece se tratar da mesma banda cujo som punk e sujo permeou seus outros discos. Na maior parte do tempo, o que Laura-Mary Cartar e Steven Ansell apresentam em Get Tragic é bem mais calmo, contido e eletrônico do que estamos acostumados.

Isso não é necessariamente algo ruim, é na verdade bastante interessante ver essa mudança de direção e coisas novas e diferentes vindo dos dois. Principalmente quando se trata do punk que a banda sempre apresentou, chega uma hora em que qualquer banda com 10 anos de carreira e quatro álbuns de estúdio precisa fazer uma escolha. Ou manter-se no mesmo som confortável de sempre que sabe que agradará seus fãs; ou adicionar novos elementos, mudar seu som e correr o risco de que tal mudança não seja bem recebida. E, por isso, meus sinceros parabéns à dupla.

Em seu quinto disco eles arriscaram bastante, e conseguiram fazer isso sem perder sua identidade. Get Tragic é bastante fora de seu lugar comum, com um uso quase constante de teclados e pianos no background das composições enquanto a guitarra e bateria continuam sendo os instrumentos de destaque. Isso tudo é algo bastante interessante e maravilhoso, tentar coisas novas e surpreender seus fãs é sempre melhor do que entregar o mesmo álbum pela quinta vez. É uma pena, então, que a única coisa que faltou em Get Tragic seja a qualidade das músicas.

Como qualquer disco do Blood Red Shoes, não existem destaques óbvios – a dupla preza muito pela coexão de seus trabalhos e eles sempre mantêm o nível do começo ao fim. Mas, aqui, o nível está um pouco mais pra baixo do padrão que eles costumavam fazer. Não se trata de um trabalho exatamente ruim, se ele fosse um debut de qualquer outra banda seria um disco ótimo. Mas para a dupla, que já nos mostrou no passado álbuns muito melhores, essa reinvenção parece ter sido jogada fora. Os ótimos elementos novos adicionados são interessantes mas não o suficiente para se ignorar o fato de que simplesmente não se trata de seu melhor trabalho.

A direção que resolveram tomar aqui é uma incrível, e espero que eles continuem nessa em discos futuros. E espero que da próxima vez voltem com as composições no nível que vinham apresentando antes. Aí sim, teremos um disco excelente.

OUÇA: “Bangsar”, “Howl” e “Mexican Dress”

Pedro the Lion – Phoenix


Após 15 anos lançando discos em seu próprio nome, David Bazan ressurge das cinzas com Phoenix. Pedro The Lion anunciou o encerramento das atividades em 2006 e retornou em um disco melancólico e recheado de letras sobre o passado, reflexões e pedidos de desculpas por acontecimentos de muito tempo atrás.

Phoenix é um álbum conceitual sobre a casa de infância em Phoenix, Arizona, de Bazan, bem como alguns dos problemas e memórias que a cidade o traz. Recentemente, essas memórias vieram a tona após a primeira visita como adulto. O  álbum é um mergulho gentil e generoso no passado, que se traduz no futuro. É ao mesmo tempo nostálgico e progressivo, proporcionando o melhor dos dois mundos.

As canções, frequentemente cantadas na primeira pessoa, abrigam narrativas altamente pessoais, mas profundamente ressonantes. David Bazan mergulha em sua infância no deserto para fazer as pazes com as pessoas que ele machucou – especialmente a si mesmo.

Depois de duas décadas culpando família, amigos, Deus, capitalismo e a própria vida por seus problemas, Bazan agora se confronta com seus próprios problemas, e o álbum se desenrola como um convite para o ouvinte fazer o mesmo.

Ano novo, nova perspectiva – hora de acertar o botão de reinicialização. Phoenix é a perfeita re-introdução a Pedro, The Lion, e prova que a espera de 15 anos valeu a pena. Poderoso e emotivo, é altamente compreensível e se destaca como um álbum de doações, apoiado por algumas das melhores produções de Pedro The Lion até hoje. Repleto de guitarras distorcidas e pratos estrondosos por toda parte, junto com suas letras satíricas.

OUÇA: “Yellow Bike”, “My Phoenix” e “Quietest Friend”

Juliana Hatfield – Weird


Juliana Hatfield está de volta à cena com seu mais novo álbum Weird, sucessor de Pussycat (2017), um trabalho no qual, ainda mais que em seu predecessor, a cantora e guitarrista procura conciliar a sonoridade pela qual se tornou conhecida nos anos 90 com as novas demandas da música contemporânea.

Para quem conhece Juliana Hatfield dos seus tempos de Blake Babies e de sua curta carreira solo em meados dos anos 90 sabe que a cantora tem uma voz e estilo inconfundíveis. Nesse sentido, talvez o maior trunfo de Weird seja a tradução desse estilo para os padrões do pop rock contemporâneo.

As guitarras já não são mais tão sujas como eram em Sunburn do Blake Babies e a voz de Juliana, embora ainda inconfundivelmente aguda, já não é mais tão aguda como era nos anos 90, mas podemos enxergar diversas continuidades na sonoridade e nas influências que permeiam o álbum. A forte influência de Dinosaur Jr. se faz sentir em quase todo o álbum, embora Juliana Hatfield explore um tipo de som menos sombrio e mais alegre que a sonoridade dos dinossauros.

As letras gravitam em torno da personalidade inusitada, não-confirmista e freak da cantora (daí o título do álbum, explorado na faixa “It’s So Weird”) e também trazem reflexões sobre que caminhos seguir, sobre medos e sobre a dificuldade de mudar muitas coisas (como em “Receiver” e “Broken Doll”).

Por fim, o álbum, embora animado e ensolarado, se torna por demais repetitivo em sua segunda metade, o que torna a experiencia auditiva um tanto enfadonha. Weird é um álbum decente que pode representar a continuidade da carreira solo de Juliana Hatfield e sua tentativa de caminhar pelos territórios da música contemporânea, mas ainda é falho em muitos aspectos e pouco imaginativo em várias partes.

OUÇA: “It’s So Weird”, “Staying In” e “Broken Doll”

Alice Merton – Mint


Nascida na Alemanha, Alice Merton passou a juventude trocando de moradia, passando por Berlim, Nova York, Londres e muitas outras cidades. Essa vida cigana a inspirou a criar “No Roots”, música presente no EP (2017) de mesmo nome e que também foi incluída em Mint, sua estreia como cantora solo.

O primeiro trabalho como cantora e compositora foi como integrante da banda alemã Fahrenhaidt, com o álbum The Book Of Nature, de 2015. Depois disso, Alice fundou a gravadora Paper Plane Records, junto de seu empresário, Paul Grauwinkel. Foi lá que nasceu “No Roots”, que marcou presença em paradas de diversos países em 2018.

A confiança passada pela artista em seu maior hit até agora é notada nas demais canções de Mint, realizado com o produtor Nicholas Rebscher. Assim como muitas cantoras pop se lançando no mercado, o debut de Alice segue uma fórmula sem riscos. No caso da alemã, são músicas curtas com refrãos irresistíveis e melodias fortes, em que guitarras nervosas amenizam os vocais adocicados.

Mesmo não evitando alguns lugares-comuns, a artista tem muito potencial como compositora, abordando suas experiências de forma descontraída, mas sem ser superficial ou se apoiar em letras românticas. O tom despretensioso do álbum aconteceu justamente porque a cantora estava cansada de ter que responder sobre a pressão de fazer algo à altura de seu primeiro hit.

Com um trabalho consistente e cheio de energia, Alice Merton já provou que pode trilhar um longo caminho no pop. Em “I Don’t Hold A Grudge”, pianos se destacam mais que as guitarras, revelando que sua capacidade de explorar outras sonoridades com facilidade. Mas se decidir manter o mesmo estilo no próximo álbum, não será algo ruim, pois Mint tem vivacidade de sobra sem ser enjoativo.

OUÇA: “No Roots”, “Funny Business”, “Lash Out” e “Trouble In Paradise”

Deerhunter – Why Hasn’t Everything Already Disappeared?


Why Hasn’t Everything Already Disappeared?, novo álbum do grupo Deerhunter, é uma ótima demonstração de como construir a atmosfera doce e melancólica que diversas bandas indies almejam sem soar pedestre ou repetitivo. Com dez canções e tocando por menos de 40 minutos no total, o disco é consistente ao criar melodias evocativas e agradáveis ao ouvido.

O Deerhunter consegue fluir entre climas mais grandiosos (como em “Détournement” e seus imponentes sintetizadores) e canções mais mais modestas (como a introdutória “Death In Midsummer”) graças a uma sensibilidade nos arranjos que confere ao disco uma sonoridade idílica e meditativa. O álbum como um todo tem uma inegável beleza que parece sempre flertar com a tristeza.

As composições de Bradford Cox são inteligentes ao ligar com uma variada gama de tópicos como o pessimismo a um cenário político extremista ou o lado tóxico da nostalgia, mas sempre usando uma abordagem coerente à natureza do disco ao elaborar composições crípticas e simbólicas. Por diversas vezes, pode não ficar claro ao ouvinte sobre o que as canções de Why Hasn’t Everything Already Disappeared? se tratam, mas a performance do grupo não deixa dúvida de qual sentimento eles buscam retratar.

Todos esses acertos na concepção do álbum se sintetizam na escolha perfeita para encerrá-lo com “Nocturne”, uma faixa sensacional que faz jus a sua duração de mais de seis minutos. A canção é uma viagem de beleza distorcida, usando efeitos para fazer a voz do vocalista soar como uma fita K-7 antiga: um toque que simboliza a preocupação do Deerhunter em entregar intimismo dentro de seu estilo lírico.

OUÇA: “Nocturne”, “Futurism” e “Détournement”

Better Oblivion Community Center – Better Oblivion Community Center


Better Oblivion Community Center é uma dupla de folk rock formada por ninguém menos do que Phoebe Bridgers e Conor Oberst. Ele, queridinho do indie com seu Bright Eyes e inúmeros trabalhos solo, um dos mais interessantes e prolíficos compositores de sua geração. Ela, um dos melhores nomes do so-called ‘indie folk rock’ atual, lançou seu ótimo debut Stranger In The Alps em 2017 e ano passado foi responsável, ao lado de Lucy Dacus e Julien Baker, pelo melhor EP de 2018: boygenius. Uma combinação que não tinha como dar errado, e realmente não deu.

Better Oblivion Community Center também é o nome do primeiro (talvez único?) álbum da dupla, uma das melhores surpesas desse ano de 2019 que mal começou. O disco foi gravado e produzido completamente em segredo ano passado, e é bem de leve um concept album sobre o fictício Better Oblivion Community Center, uma espécie de spa distópico. Não há exatamente uma grande narrativa que engloba todas as músicas, por isso dá até pra se ignorar essa pequena premissa e simplesmente apreciar o álbum.

O som apresentado pela dupla é um folk rock bastante básico, na verdade, sem grandes experimentações ou novidades para o gênero, mas é extremamente bem feito e produzido. Suas vozes combinam perfeitamente, algo que já sabíamos com “Would You Rather”, de Stranger In The Alps, cujos vocais de apoio de Oberst já previam tal colaboração. E agora aqui dividem completamente o holofote, já que nenhum se sobressai mais do que o outro.

Ambos cantam em suas carreiras sobre sentimentos de alienação, depressão, melancolia e solidão de forma leve, empatética e sincera, honesta. Essa honestidade é o que dá o tom predominante de Better Oblivion Community Center, cantando sobre personagens que na maioria do tempo são levados a um extremo ou outro, de forma sutil e calma. ‘All this freedom just freaks me out‘, canta Oberst em “My City”, continuando o tema de ‘nem-sempre-as-coisas-boas-são-realmente-tão-boas-assim’ que ele já fazia com o Bright Eyes desde sempre. O mais impressionante é que Bridgers não parece ofuscada, ela sempre responde à altura e completa as ideias de Oberst com uma confiança que nem sempre é comum a artistas que literalmente estão apenas começando.

Bridgers eleva Oberst da mesma forma como ele a ajuda a sair de sua zona de conforto e escrever canções-narrativa. Better Oblivion Community Center é um casamento com divisão total de bens; dois grandes artistas empurrando um ao outro a coisas novas ao mesmo tempo em que um sempre está lá para apoiar o outro. Apesar do tom calmo e confiante, a dinâmica entre os dois é de tirar o fôlego. Sem contar que Better Oblivion é o melhor trabalho de Oberst desde, talvez, The People’s Key em 2011. E Bridgers, apesar de seu pouco tempo de carreira, já sabe muito bem quem é como artista e que tem um longo e ótimo futuro pela frente.

OUÇA: “Dylan Thomas”, “Exception To The Rule”, “Sleepwakin’” e “My City”.

Sharon Van Etten – Remind Me Tomorrow


O novo álbum de Sharon Van Etten é uma questão de tempo. Dez anos depois do seu primeiro trabalho de estúdio oficial e cinco depois do último, a artista estadunidense volta em Remind Me Tomorrow. E entrega um estilo, que, em contraste com a bagunça na capa, é consistente: há aqui métodos de composição diferentes do habitual, mas ainda assim em sintonia com o restante da sua obra e com as suas memórias e projeções de futuro.

Aqui, as faixas guiadas pelo violão e guitarra sumiram. E sabe aqueles arranjos de banda de folk rock, que havia em discos como Epic (2010) e Are We There (2014)? Pois é, também não estão presentes. No lugar disso tudo, brilham teclas e baterias, em uma produção mais eletrônica feita por John Congleton, que já trabalhou com artistas como St. Vincent e Angel Olsen. Da parte de Sharon, esse novo rumo não veio do nada: prenúncios podem ser encontrados em faixas mais antigas (“Taking Chances”, “Break Me”), mas só em Remind esse contexto sonoro se tornou padrão. Longe de ser por formalidade, uma das faixas, “Jupiter 4”, leva o nome de um modelo de sintetizador, instrumento que em paralelo ao piano compõe a base de todas as composições.

É um álbum sonoramente coeso, portanto. E agradável: Van Etten já sabia criar ambientes confortáveis para o ouvinte, e conseguiu transportar bem essa característica para os arranjos. Surgem timbres que remetem a paisagens mais úmidas ou etéreas, sobretudo com o uso de reverberação na voz. E os melhores momentos do trabalho surgem quando essa habilidade é utilizada para gerar um crescendo, como na já citada “Jupiter 4” e no single “Seventeen”, no qual a compositora conversa com seu eu de vinte anos atrás na melhor interpretação vocal do disco.

Talvez nem todas as escolhas se encaixem perfeitamente. Quanto aos arranjos, exceto por poucos elementos aparentemente deslocados — final abrupto em “No One’s Easy To Love”, bateria eletrônica estranha na introdução de “Comeback Kid” —, eles de fato foram bem escolhidos e trabalhados nessa mudança de som. Negativamente falando, o que pega mais é a simplificação da estrutura das faixas, com letras e motivos sonoros mais repetitivos do que em trabalhos anteriores.

É justo dizer que essa preferência, com seções mais pegajosas, como em “Comeback Kid”, “You Shadow” e “Hands”, tem a virtude da acessibilidade e da persistência da canção no ouvinte. Contudo, no caso isso compromete a exploração de outras características de Van Etten, como as harmonias vocais e mudanças de dinâmica ao longo da faixa. Essas marcas ainda estão ali, mas menos presentes, chamando inclusive mais atenção quando aparecem, seja de forma mais visceral (“Seventeen”) ou introspectiva (“Malibu”).

Nos temas líricos, a compositora mantém a sua força de sempre. Há repetições, mas nada é bobo ou raso. Aparecem memórias ásperas e afetuosas de relacionamentos atuais e passados, desafios da sua adolescência e considerações sobre o futuro dela e de seu filho, nascido em 2017. Em um disco marcado por mudanças e transitoriedade em vários sentidos, é uma escolha singular terminar o trabalho olhando para o que é permanente na sua relação materna: ‘You love me either way / You stay‘. E de certa forma, o que fica para o ouvinte é que apesar de todas as diferenças, este é ainda um trabalho de Sharon Van Etten — de ontem e do amanhã; mas, sobretudo, um trabalho do agora.

OUÇA: “Seventeen” e “Malibu”.

The 1975 – A Brief Inquiry Into Online Relationships


Vivemos em uma época em que líderes de grandes nações quase começaram uma nova Guerra Mundial por trocarem indiretas pelo Twitter e em que a propagação em massa de informações duvidosas pela internet decidiu resultados de eleições mundo a fora. Nessa mesma época, em que é tão fácil ter tudo ali, online, prontinho para ser consumido, um dos motivos (talvez o único) para você ainda manter contato constante com os seus amigos e familiares é você ter acesso a um ponto de Wi-Fi (ou talvez você só não consiga sair do grupo do “Zap”, mas nesse momento considere o Wi-Fi).

Quando pensamos em relacionamentos online a primeira coisa que nos vem à cabeça são aplicativos de relacionamentos, como o Tinder por exemplo. Mas o buraco, expressão aqui que não tem nenhuma intenção de malícia, é mais embaixo. Estamos todos conectados, o tempo todo, e é sobre isso que o terceiro álbum de estúdio do quarteto britânico The 1975 fala.

A Brief Inquiry Into Online Relationships é literalmente o que o nome diz, é um questionamento sobre como lidamos com relacionamentos online no mundo atual, com todo o acesso a informações e conteúdo que temos, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Durante a uma hora de álbum, que é quase imperceptível, quem escuta é convidado a embarcar em uma jornada que transita entre críticas à auto cobrança (“Give Yourself A Try”),  várias análises sobre comportamentos em relacionamentos amorosos atuais (“TOOTIMETOOTIMETOOTIME”, “Sincerity Is Scary”, “Inside Your Mind”) e até um texto narrado pela Siri (“The Man Who Married A Robot / Love Theme”) com um quê de influência do filme Her.

O mais interessante talvez seja a diferença musical entre todas as faixas, a banda permeia por vários gêneros diferentes que vão desde o jazz tradicional (“Mine”) até uma mistura de Radiohead anos 90 com um britpop estilo Oasis (“I Always Wanna Die (Sometimes)”). Apesar dessa mistura de gêneros, A Brief Inquiry… ainda é um disco que tem 100% a identidade do The 1975. A produção feita pelo vocalista Matty Healy e pelo baterista George Daniel fazem com que pequenos samples de músicas de outros álbuns da banda estejam presentes em alguma camada das novas músicas. E falando em produção, vale a pena ressaltar também os efeitos eletrônicos sutis espalhados pelo álbum. Esses efeitos complementam o conceito Digital Era e dão um toque a mais em músicas que poderiam ser cruas e sem graça, como na balada voz e violão “Be My Mistake”, que mescla um pouco de Flatsound e Ed Sheeran e lembra trabalhos antigos da banda, como a acústica “102”.

A banda também flertou com alguns clichês do Pop/Hip Hop atual como o autotune e low/high pitch (“The 1975” e “How To Draw / Petrichor”). Já a faixa “I Like America & America Likes Me” é a tentativa, falha, do The 1975 de se aproximar de figuras como Kanye West e Frank Ocean.

O ponto alto do álbum fica por conta de duas músicas. A primeira é uma das músicas mais citadas como top 10, 50, 100 músicas mais influentes e importantes de 2018: o single “Love It If We Made It” (e que tem um clipe tão influente e importante quanto). As frases gritadas por Healy, em quase desespero, parecem ser tudo o que queremos dizer sobre a situação atual do mundo inteiro, mas que fica entalado na garganta. Com crítica clara à manipulação de informações em massa, citações diretas de frases absurdas ditas pelo atual presidente dos Estados Unidos e um apelo de que, no final, a modernidade falhou a todos e só nos resta pedir por ajuda divina, a música ainda soa como uma tentativa de se manter otimista apesar de todas as barbáries que estão acontecendo pelo mundo.

A segunda música é talvez um dos grandes feitos de Healy com a ironia. Em “It’s Not Living (If It’s Not With You)” o som alegre e dançante, com guitarras cheias e um refrão que gruda na cabeça por dias, disfarça a dura realidade da música que é a luta do vocalista contra o vício em heroína. Quando você esquece o refrão grudento e começa a pensar na letra é um pouco estranho se sentir feliz cantando “collapse my veins wearing beautiful shoes”, mas o impacto passa em alguns segundos e você volta a cantar. Healy disse várias vezes em entrevistas que falar do seu vício em opioides sempre foi difícil já que era mais um clichê rockstar que ele não queria ser. Então, ao decidir ir para a reabilitação e falar disso em uma música, ele usou e abusou da ironia e se escondeu atrás de uma música em terceira pessoa porque pareceria mais “fácil”. Com o aumento alarmante do abuso de opioides nos Estados Unidos é importante que pessoas influentes como Healy falem abertamente sobre o assunto e a realidade de se tornar um viciado, e sobre superar o vício.

Muitas comparações foram feitas sobre A Brief Inquiry… e o OK Computer do Radiohead, e é possível sim em algum nível comparar os dois, talvez o álbum do The 1975 seja a versão millennial que mora com os pais e posta torrada com abacate no Instagram, mas acredito que seja mais do que isso.

 A Brief Inquiry Into Online Relationships nos convida a abraçar o nosso lado mais sincero, vulnerável e emocional, que contrasta completamente com o mundo digital, as personas que criamos online e como isso afeta os nossos relacionamentos reais. É um álbum cheio de emoções e que nos mostra que muitas vezes não sabemos lidar com elas, e está tudo bem isso, mas é importante tentar (“I Couldn’t Be More In Love”). Não é um álbum perfeito, mas talvez seja exatamente o que muitas pessoas precisem ouvir.

OUÇA: “Love It If We Made It”, “Sincerity Is Scary”, “I Couldn’t Be More In Love” e “It’s Not Living (If It’s Not With You)”

The Smashing Pumpkins – Shiny And Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.


Essa é a história de um nome uma vez irretocável, mas que se erode e vai aos poucos se transformando em poeira.

Há muito tempo ninguém sabe ao certo reconhecer o que é e como aquele Smashing Pumpkins virou este Smashing Pumpkins. Categoricamente, não há nenhum exagero em afirmar que já faz 20 anos desde a última vez que a banda lançou algum material poderoso. Adore (1998) é onde o Smashing Pumpkins encontra seu limite de sanidade, após ciclos de controvérsia interna, ataques de pânico, disputas (unilaterais) de ego e overdoses; a maquinaria geniosa de William Patrick Corgan (como ele demanda ser chamado atualmente) precisou arrefecer, ou um cataclisma de consequências irreparáveis poderia ter sido o destino da banda. Com três integrantes a menos, o nome Smashing Pumpkins vira sinônimo de  William Patrick ‘Billy’ Corgan. Nesse sentido, é como se a banda fosse uma van, conduzida por um gênio, ou um lunático, que vai de nenhum lugar a lugar nenhum; esporadicamente essa van fez paradas, mudou de passageiros, mas ao final, se perdeu em rotas circulares. E acredito que o condutor também se sinta assim, ou seria uma coincidência este disco ter em seu nome “No Past. No Future”?

O anúncio da volta da “escalação” original do SP soou como a volta de Atlantis para todos, para usar uma figura oceânica – mundo sobre o qual William parece ser bastante aficionado. Era, enfim, o retorno. A ideia da reformulação do quarteto fantástico, no entanto, se despedaçou em mil fragmentos quando Corgan comunicou ao mundo que D’arcy não voltaria a banda. Tragicamente, o único elemento que o Smashing Pumpkins conseguiu reviver de seus anos dourados foi a polêmica, revelando feridas profundas, nunca de fato curadas. E claro. Mais se ouviu falar do disse-me-disse de Corgan, do que se festejou a volta de Iha e de Chamberlin como grandes músicos que são, sugerindo que a história se repetiria como farsa.

É o que acabou acontecendo. Shiny Oh So Bright, Vol.1 / LP: No Past. No Future. No Sun é uma volta frustrada, atrapalhada e pouco inspirada. Assim sendo, vale mais a pena recapitularmos a trajetória da banda e entender como chega este projeto em 2018, do que focar no dia presente. O décimo primeiro álbum da discografia do nome Smashing Pumpkins (mais um nome, do que uma banda) continua a ser o reflexo de uma casca vazia, cada dia mais fraturada, e que, se não salva da inércia, pode se despedaçar por completo ao fim dessa coletânea. O disco contém menos de 35 minutos de duração, dedicados a exposição de oito canções completamente esquecíveis. Músicas que tentam ser grandiosas, condizentes com versos do tipo “We’re gonna ride that rainbow”, mas que não produzem nenhuma impressão ao ouvinte. É apático no melhor dos cenários; a surpresa só surge mesmo no exercício da comparação: como esses são os mesmos criadores de Mellon Collie (1995) e Siamese Dream (1993)? Mesmo que seja apenas 75% da figura original, essa versão do Smashing Pumpkins é, enfim, um zumbi. E por assim o ser, não possui memória, ou passado, e tampouco aparenta ter futuro.

OUÇA: Nenhuma.