Richard Ashcroft – Natural Rebel


Depois do desastroso These People (2016), o ex-vocalista do The Verve volta à essência dos seus primeiros trabalhos e lança o Natural Rebel.

Assim como no início da carreira, o novo disco tem aquela pegada dos compositores das anos 90: muitas músicas puxadas pro folk, outras pra um rock com maior levada, etc. Sendo assim, Ashcroft faz direito quando aposta naquilo que sabe bem, mesmo tendo saído de uma banda que era no começo um shoegaze.

Natural Rebel é exatamente isso: um ótimo disco para acordar ouvindo, cheio de canções mais do mesmo, mas que grudam na cabeça. Como vivo dizendo, às vezes é disso que precisamos.

“All My Dreams” e “Streets Of Amsterdam” são bem a cara desse compositor, músicas lindas. As mais puxadas pro rock ficam com “Born To Be Strangers” e “That’s When I Feel It”. E o destaque vai para “A Man In Motion”: Richard sempre manda bem em músicas em que expõe o seu interior – ‘I can deal with the pain as long as we keep on driving’ – divino maravilhoso. E o disco termina com “Money Money”, que é a outra mais do rock, nos fazendo repensar tudo aquilo que ouvimos, que é o mais do mesmo do disco.

Quando não ousa, Richard Ashcroft não erra. Isso o bota em dúvida muitas coisas enquanto artista. No entanto, é um disco coeso e gostoso de ouvir.

OUÇA: “All My Dreams”, “Born To Be Strangers” e “A Man In Motion”.

Peter Bjorn and John – Darker Days


Lendo a resenha do Pitchfork do Darker Days, lançado em Outubro passados dois anos do eletrônico Breakin’ Point, percebi que Peter Bjorn and John é um grupo passível do rótulo de banda de um hit só. Embora a dançante e incansável trilha sonora “Young Folks” seja o trabalho mais conhecido da banda, está longe de ser o mais profundo e complexo, estando bem atrás inclusive de faixas menos chiclete do mesmo disco, Writer’s Block.

Os três álbuns seguintes da banda foram de alguns hits e experimentações com música eletrônica (principalmente o anterior ao Darker Days, Breakin’ Point), mas seguem à sombra tanto do hit “Young Folks” quanto do disco Writer’s Block. Com um intervalo de cerca de 5 anos entre Gimme Some (2011), do qual sou muito fã, e Breakin’ Point (2016), Darker Days veio, em algum sentido, como uma surpresa pelo intervalo menor, de 2 anos. A identidade visual segue a mesma desde o Gimme Some: enquanto o disco de 2011 contou com a marcante mão azul de três polegares, Breakin’ Point trouxe a luva do Mickey e o martelo de três cabeças, Darker Days explora a temática da tríade com um triângulo feito de ossos, que remonta a identidade das mãos do Gimme Some.

Levando em conta essa relação das capas entre si, esperei escutar algo mais próximo do Gimme Some do que do Breakin’ Point e, nesse sentido, minhas expectativas foram atendidas. Como fã da banda, senti um conforto no coração nesse movimento. Depois de ouvir o álbum uma vez, pouco atenta, apenas um faixa me chamou atenção a ponto de pegar o celular e olhar o nome: “Wrapped Around The Axle”. Embora pouco impressionada, não me senti decepcionada. Insisti em ouvir mais algumas vezes e, embora o instrumental mais “de volta às raízes” não seja instigante, as letras passaram a chamar atenção.

Darker Days é uma mistura de comentário político-social com reflexões e anseios afetivos e algo de auto reflexão. Com um Bolsonaro recém-eleito, existe algum conforto em perceber que bandas da minha adolescência trazem assuntos atuais do tipo vigilância e big data (ver “Silicon Valley Blues”), embora de uma forma excessivamente explícita.

De modo geral, o retorno ao clima de Gimme Some traz algum conforto e alguma esperança de uma experimentação maior que não passe pela forçação de barra eletropop do Breakin’ Point, mas pelo reencontro com estruturas que ainda podem ser muito bem exploradas. Darker Days pode ser o prenúncio de um novo caminho bastante positivo.

OUÇA: “Heaven And Hell”, “Wrapped Around The Axle” e “Silicon Valley Blues”

Razorlight – Olympus Sleeping


Ah, ser jovem e ouvir Razorlight no meio da década passada! Poucas bandas conseguem ter esse espírito tão aflorado. Os dois primeiros álbuns da banda são cheios de energia, com uma sonoridade simples, mas sem serem bobos. As letras eram consideravelmente rebuscadas para esse estilo de música. O conjunto da obra despertava aquela vontade de viver, de ver tudo que o mundo tem para oferecer, de exagerar, de ir para lugares novos e dançar a noite inteira. Em resumo, sintetizavam tudo aquilo que é ser jovem, e toda aquela música que queremos escutar quando o somos. Razorlight tinha um quê de britpop, mas também agradava quem preferia o lado mais dance rock dos anos 80. Uma banda de guitarras fortes, de bateria que enfeitiçam os movimentos dos nossos pés. Não era sua banda preferida. Não era a minha. Provavelmente não era a de ninguém. Mas cabia tão perfeitamente com o que eram aqueles tempos de euforia, de possibilidades do futuro, de hormônios à flor da pele e de fingir que sabemos mais do que de fato o fazemos.

Por isso, foi um choque ver a banda amadurecer tanto no seu terceiro disco. É verdade, baladas e músicas mais lentas sempre estiveram lá, mas Slipway Fires se sustentava muito mais em cima das letras, que se tornaram ainda mais reflexivas, com muito piano e ritmo mais espaçado, difícil de acompanhar com o pé. Talvez seja porque a formação mudou muito, talvez porque simplesmente amadurecemos. Mas, apesar de ser um álbum com faixas muito fortes, não conseguiu sustentar a imagem de uma banda realmente boa. E, muito menos, a de uma banda jovem. No entanto, era de se esperar que, no futuro, fossem continuar por esse caminho, amadurecendo sua sonoridade, e a tornando cada vez mais voltada para as palavras.

Por isso mesmo é uma surpresa que esse quarto álbum, Olympus Sleeping, seja, em sua maior parte, uma tentativa de voltar às origens, àquele espírito dos dois primeiros discos. Mas será que isso é possível? Será que é algo que pode ser benéfico à banda dar passos para trás de tal forma, ao invés de caminhar adiante? “Got To Let The Good Times Back Into Your Life” literalmente parece um tipo de manifesto dizendo que sim, que podem fazer isso, que esse retorno deve ser feito. E é a faixa na qual o resultado é mais convincente. Poderia ser uma faixa presente em qualquer um dos dois primeiros álbuns da banda. Talvez, se estivesse em um deles, não se tornasse uma das melhores naquela coleção, como acontece aqui, mas se encaixaria. É, provavelmente, esse o motivo de ser a primeira canção do disco de fato (antes consta apenas uma breve introdução por Adam Green, conhecido por seu trabalho com o Moldy Peaches). Essa estratégia de colocar as melhores músicas no começo do disco é recorrente, e parece o caminho mais fácil dizer que é essa a que se destaca, mas, ao longo do álbum, a qualidade se revela oscilante.

Os melhores momentos, sempre, são aqueles em que tentam retornar ao seu espírito de juventude enquanto banda. Não só trazendo o sentimento à tona, mas mesmo as origens de classe trabalhadora da banda. Aquela coisa bem britpop de falar da realidade da juventude do Reino Unido, que hoje, em tempos de brexit, é bem diferente. É curioso ver isso em um álbum que tem influências tão distintas quanto Japandroids e Elvis Costello. Mas é a prova de que a autenticidade é sempre mais valiosa.

Já os pontos baixos são aqueles que parecem ir mais na linha do álbum anterior da banda, de dez anos atrás. Faixas como “Iceman” não conseguem ter o mesmo lirismo de “Wire to wire”, em grande parte porque as letras de Olympus Sleeping, mesmo que estejam acima da média do indie, não são tão boas. Inclusive, a faixa que dá título ao disco entra nesse bolo. Contrariando a outra estratégia do mercado fonográfico, de batizar com base numa das canções mais fortes, aqui vemos uma escolha que parece ser arbitrária. Ou talvez fosse o único título de faixa que não ficasse muito ridículo estampado na capa.

Considerando tudo isso, é engraçado ver que, mesmo não sendo um álbum ruim, Olympus Sleeping ainda fica atrás de todas as obras do Razorlight anteriores. Mas, para uma banda que volta de um hiato de 10 anos, mostra que ainda tem vestígios daquela vitalidade da juventude para, quem sabe, nos trazerem algumas coisas boas no futuro.

OUÇA: “Got To Let The Good Times Back Into Your Life”, “Brighton Pier” e “Carry Yourself”

Young the Giant – Mirror Master


A globalização e a indústria cultural podem democratizar a arte. Por outro lado, o efeito massificador cria artistas iguais, obras iguais, famas, sucessos, dinheiros iguais. Quando Jim Carrey desejou que todo mundo fosse rico e famoso, foi exatamente por esse motivo: não há nada de novo para fazer ou almejar se você não se despadroniza e sai de sua zona de conforto. Você só muda de prioridades, escolhe uma marca de tênis diferente e muda o destino das suas viagens.

É nesta fuga que Young the Giant pautou seu quarto álbum de estúdio, Mirror Master. Após um longo período obedecendo às demandas do mercado, e em busca de sua própria identidade, a banda entrou em um processo de criação puro, o mais longe possível das tendências norte-americanas do indie e, segundo o vocalista Sameer Gadhia, sobre sua história de imigrante na terra do Tio Sam.

Logo na primeira faixa, “Superposition”, os elementos indianos ficam claros. Cordas agudas, coros marcantes e leves e a letra sobre a química entre duas pessoas (ou universos?) levam ao ouvinte entender que o grupo está trabalhando para produzir novos clássicos e não pretende, necessariamente ou por obrigação, ter vínculo com o passado. Mesmo assim, aquela fórmula super manjada de “vamos viver o amor, o futuro nos espera” reencontra a banda em “Simplify”, que poderia ter sido vendida para o Coldplay.

Enquanto os elementos mais eletrônicos aparecem em “Call Me Back”, as guitarras mais abertas e harmonias mais energéticas são bem-vindas em “Heat Of The Summer”, “Brother’s Keeper” e “Oblivion”, destaque da obra. Mas as composições que mais falam sobre o álbum em si são “Glory” — que, segundo Gadhia, é uma música discreta e vulnerável que afronta tudo o que os artistas fazem há tempos para vender — e  “Tightrope” — que questiona justamente uma identidade e existência.

Mirror Master encerra com sua música homônima e que também resume a obra. Com refrão que começa com a frase “você é mestre do espelho”, Gadhia explica do que se tratam todas as 12 faixas: autoconhecimento é essencial para você também conhecer e até mudar a realidade ao seu redor. A certeza que fica, até agora, é que Mirror Master é essencial para mudar o Young The Giant e a sua realidade.

OUÇA: “Superposition”, “Heat Of The Summer” e “Oblivion”

You Me at Six – VI


Crescer é inevitável, evoluir é opcional. Mas essa opção só está disponível para quem está disposto a perder alguns nostálgicos pelo caminho, como é o caso de You Me At Six. Em seu sexto álbum, intitulado VI,  a banda britânica, que nasceu em berço pop punk, um dos gêneros preferidos do emo anos 2000, dá o outro lado de sua face à tapa com novas sonoridades e influências, como elementos eletrônicos, letras mais despretensiosas e ritmos que conversam com o funk.

As músicas que mais se distanciam da tradicional sonoridade turbulenta do grupo são aquelas que evidenciam elementos indie e pop, como “Pray For Me” e “Losing You”. É aqui o lugar que os britânicos mais experimentaram: o sintetizador, que acompanha todas as faixas, aparece como personagem principal e a atmosfera etérea como coadjuvante. Não por acaso, as duas músicas foram feitas em parceria com o produtor Dan Austin, que também trabalha com Robert Plant, Queens Of The Stone Age e Placebo.

Para reafirmar a nova fase, a banda participou como co-produtora de todo o álbum e escolheu duas músicas de trabalho que singularizam a unidade de VI perfeitamente. Enquanto “3 AM” chega com seu pop sintético, “Back Again” traz uma linha de baixo envolvente e um videoclipe em homenagem ao filme The Big Lebowski. A dupla de singles é um veredito, um termo de responsabilidade, a prévia de uma discussão que o grupo não quer nem participar.

Destaque e boa surpresa do disco, “I O U” também aposta em um funk liderado pelo baixo, que conversa de forma energética com a guitarra, bateria e o vocal de Josh Franceschi. Aqui fica ainda mais óbvio o desvio e o insight que atingiram o grupo depois de seu último álbum, Night People, muito mais fiel às origens básicas do pop punk, e do rock numa visão mais ampla.

A mudança é drástica, mas os britânicos não perdem a alma, bem visto na faixa de abertura “Fast Foward”. Assim como já fez Paramore ou até Arctic Monkeys recentemente, o You Me At Six abandonou os anos 2000 definitivamente e perdeu o medo de soar como eles querem, do jeito que querem, com a produção que eles querem, com letras que não se preocupam com o que as pessoas querem.

Ao contrário do que muitos artistas tendem a fazer com o passar dos anos e mudanças de tendências — aqueles exageros em experimentações e arrependimentos em forma de álbum —, a banda inglesa sabe muito bem o que está fazendo. Por isso, a qualidade de VI é tão evidente, que muito provavelmente até os fãs mais conservadores gostaram desse novo, e inesperado, You Me At Six.

OUÇA: “3 AM”, “Back Again” e “Losing You”

Cloud Nothings – Last Building Burning


Em Turning On, de 2010, o Cloud Nothings flertava com um indie pós-punk bem típico da época, com guitarras fazendo referência a Strokes, Interpol e mais do mesmo daquele contexto. Em 2012, porém, com Attack On Memory, a banda de Cleveland mergulhou em um pós-hardcore com referências dos anos 80 e 90, se diferenciando pelo caráter experimental, marcante por um aspecto mais contido, menos “apressado”. Dois anos depois, Here And Nowhere Else seguiu a mesma direção de seu antecessor, porém mais tenso e entusiasmado.

O quarto disco da banda, Life Without Sound, no entanto, surpreendeu a todos quando lançado em 2016, logo após a eleição de Donald Trump. Apostando num som mais contemplativo, menos pesado, ficou o sabor de escolha errada para o momento. O que fãs e críticos esperavam do Cloud Nothings naquela situação era, mais do que nunca, a catarse que os diferencia.

Last Building Burning é evidentemente uma resposta ao álbum anterior. A banda volta a focar no peso e na fúria, o Cloud Nothings que nos acostumamos: direto, visceral, vulnerável. No universo caótico que é construído, algumas faixas parecem como um soco no estômago. “Dissolution” e seus mais de dez minutos de duração nos remetem diretamente aos seus dois maiores discos, anteriormente citados. Como bem notou o crítico Ian Cohen, da SPIN, nesse último registro a banda parece ter gravado dentro de uma garagem com um carro ligado. Dylan Baldi, vocalista e líder da banda, aposta em uma abordagem niilista, deixando-se levar por seus pensamentos mais sombrios: ‘They won’t remember my name, I’ll be alone in my shame‘.

Toda crueza de Last Building Burning, no entanto, acaba por vezes esbarrando em um punk-pop noventista um tanto datado. De qualquer forma, é ótimo encontrar uma banda capaz de reconhecer seus tropeços e buscar um caminho, dentro de sua própria discografia, para reencontrar sua identidade.

OUÇA: “In Shame”, “Dissolution” e “So Right So Clean”

Kurt Vile – Bottle It In


Bottle It In é o sétimo álbum de estúdio de Kurt Vile. Aqui, o artista continua experimentando com as sonoridades que estavam presentes nos seus dois últimos trabalhos, b’lieve I’m going down, de 2015 e o álbum colaborativo com Courtney Barnett, Lotta Sea Lice, de 2017. Para quem gostou dos últimos discos, este novo trabalho é, então, um prato cheio.

Em um dos clipes lançado com Barnett, nós vemos muito do dia a dia do ex-The War on Drugs: a vida com a família, as paisagens oceânicas que os cercam. As canções desse álbum, em especial faixas como “Mutinies” e “Bassackwards”, poderiam muito bem servir de trilha sonora para esses momentos. No novo disco, assim como em produções anteriores, as influências de Vile e seu gosto pelo country ficam evidentes. A temática, por sua vez, fica evidente do título do álbum: Kurt Vile canta sobre os sentimentos que às vezes escondemos bem no fundo de nós – não de uma forma melancólica, mas sim resignada, reconhecendo essas sensações.

Além de ser um álbum com uma sonoridade homogênea, que segue o que ele já vinha produzindo, o cantor entrega este novo trabalho sem se importar muito em ser radiofônico – algumas músicas ultrapassam os dez minutos. Assim, Vile não parece muito preocupado se o ouvinte está acompanhando ele durante sua viagem musical – a faixa-título, uma das que têm mais de dez minutos de duração, é uma das melhores do álbum. É justamente por estar seguro do produto que está entregando que o disco funciona. Além disso, Vile conta com a participação de vários artistas para comporem as vozes que emprestam leveza às músicas. Entre as participações especiais, Bottle It In conta com Mary Lattimore, Cass McCombs, Stella Mozgawa (do grupo Warpaint), Holly Laessig e Jess Wolfe (da banda Lucius) e as guitarras de Kim Gordon (do Sonic Youth, em si uma das influências de Vile).

OUÇA: “Bottle It In”, “Mutinies” e “One Trick Ponies”

Cat Power – Wanderer


Após seis anos e o nascimento de seu primeiro filho, Chan Marshall volta a lançar novas canções. Segundo entrevistas recentes, durante sua gravidez e nascimento de filho, que proporcionaram à compositora novos sentimentos e uma nova vida, as letras e melodias tão importantes em sua carreira e vida voltaram.

Wanderer é um disco que lembra muito a atmosfera do seu famoso e lindíssimo The Greatest (2003), no entanto, nesse disco Cat Power é outra pessoa. Muito mais forte, calma e esperançosa – mesmo que nem tanto assim – do que nesse disco e nos seus trabalhos anteriores. Ela voltou mais no sentido de apostar em suas letras e melodias e deixar de lado um pouco os lances eletrônicos de Sun (2012).

Por enquanto foram lançados dois singles, “Stay” e “Woman” (com participação nos backing vocals de Lana Del Rey), além do teaser com a canção que abre o disco, a “Wanderer”.

“Woman” chama a atenção nesses tempos. O orgulho de ser mulher e ter engravidado é muito precioso, ainda mais em época em que misóginos tem seus recursos legitimados. Fortalecer-se é mais do que necessário. E “Stay” é uma música linda de morrer. Cat Power faz uma versão da música de mesmo nome de Rihanna e Mikky Ekko.

Os singles se destacam no disco, junto com a “You Get” – batida que gruda na cabeça, ressoando sobre as demais, inclusive; nos faz repensar atitudes e ver que recebemos tudo aqui que mandamos pro mundo. “Black” lembra muito o ritmo de “Hate”, e dá o tom tão conhecido desse disco, assim como outras músicas: “Nothing Really Matters”, por exemplo.

Essas canções nos fazem relembrar porque amamos a Cat Power desde seu trabalho mais famoso já mencionado. A compositora é e sempre foi uma punk sem ser punk: seu piano/violão tocado sutilmente, meio que de qualquer jeito, sem firulas ou qualquer outra coisa complicada, sua voz limitada e sussurante como sempre seus sentimentos mais profundos. Nos mostra que música não é necessariamente feita de quem toca e canta demais. Às vezes tudo o que precisamos é alguém criando arte do seu jeito. A contracultura punk – que, como se sabe, foi apropriada pelo mercado há muito tempo – surgiu justamente da necessidade de alguns garotos de se apropriar do rock, fazendo-o do seu jeito e expressando os seus cotidianos periféricos, uma vez que, o rock progressivo e o movimento pop nunca deram conta disso. Esse é o sentimento nas canções da compositora. Às vezes mais vale uma canção sincera do que o hit mais vendido do universo.

A volta à calma – como já escreveram por aí – de Cat Power trouxe um disco interessante. No entanto, não será um álbum que se destacará em sua carreira. As composições mencionadas ressoarão em nossas mentes por algum tempo, mas a obra como um todo não chama tanta a atenção.

Todavia, talvez isso não importe tanto no final das contas. A tristeza sempre proporciona a criação de lindas canções, mas é reconfortante ver que ela não dura muito, e que as artistas continuam tendo suas inspirações no cotidiano e criando. Cat Power está feliz, tendo uma nova vida, e compondo. Nada melhor do que ver suas compositoras favoritas bem.

OUÇA: “Stay”, “Woman” e “You Get”

KT Tunstall – WAX


A carreira de KT Tunstall sempre foi marcada pela dualidade. São músicas e até álbuns inteiros oscilando entre a explosão e a calmaria. WAX exemplifica essa característica, intercalando momentos vigorosos com serenos, em alguns casos na mesma canção. O bom é que a escocesa faz isso de olhos fechados.

Seu sexto álbum faz parte de uma trilogia, iniciada com KIN (2016), em que a artista apostou na alegria para se recuperar de um divórcio e da morte do pai. Com o objetivo de abordar alma, corpo e mente em cada novo trabalho, a trilogia deu o primeiro passo fortalecendo a alma após o desgaste emocional de Invisible Empire/Crescent Moon (2013). Por sua vez, WAX aposta na ausência da negatividade e no foco em seu corpo, como as composições revelam.

Produzido com Nick McCarthy, que contribuía com o Franz Ferdinand, o retorno da cantora passa longe da ousadia. A abertura tem a presença de synths eletrizantes e guitarras em tom agressivo, com o timbre agridoce evitando que a sonoridade fique pesada. A cada nova música, o ritmo parece ficar mais reflexivo e suave.

Em “The Night That Bowie Died”, Tunstall relembra um dos maiores ícones da música, com uma homenagem sóbria que poderia ter arriscado em sua construção, assim como Bowie tinha o costume de fazer. Algumas músicas são puxadas mais para o pop que o rock, como “The River” e “Poison In Your Cup”, que remetem a algumas faixas de Katy Perry e Jessie Ware, respectivamente.

Mesmo não tentando mostrar nenhuma faceta que já não conferimos antes, o álbum mais recente de KT Tunstall é bastante agradável. Como a proposta de WAX não é fazer algo inovador, o saldo é positivo. Agora nos resta esperar para ver qual será o caminho escolhido para fechar a trilogia, apostando em seu lado mais cerebral.

OUÇA: “The Healer (Redux)”,  “Little Red Thread” e “In This Body”

Tokyo Police Club – TPC


Após um quase possível término nos últimos anos, os canadenses do Tokyo Police Club estão de volta com TPC, seu quinto álbum. O resultado é um trabalho que não parece ter nada novo para dizer, mas diverte com algumas canções enérgicas.

TPC é um disco extremamente familiar para aqueles que ouviram qualquer disco do indie rock do início dos anos 2000. Ver o quão não-contemporâneo o álbum soa é um surpreendente lembrete de que quase 15 anos já se passaram desde 2005 – ano no qual a banda parece ter produzido seu novo trabalho.

Essa qualidade de “cápsula do tempo” funciona em determinados momentos, porque o Tokyo Police Club é muito feliz em recriar o momento de ironia juvenil que tornou esse gênero um fenômeno. A canção “Ready To Win”, por exemplo, consegue ilustrar como uma melodia e arranjos simples do rock de garagem eram frequentemente elevados por uma letra que parecia saída de um diário.

Em seus melhores minutos, TPC é um revival de uma época em que essa geração de bandas ainda era pequena. Com poucas pretensões, canções como “Can’t Stay Here” e “New Blues” são cativantes em sua simplicidade e muito lembram a finada trilha-sonora de The OC.

Em seus piores momentos – que infelizmente são a maioria -, o disco soa incrivelmente datado e muito pouco justificado. É difícil pensar o que este apanhado de 12 faixas têm para dizer que já não foi dito à exaustão. As canções são repetitivas, o que faz o álbum parecer muito mais longo do que de fato é.

OUÇA: “Ready To Win”, “Can’t Stay Here” e “New Blues”