Brvnks – Morri De Raiva



Escutando Morri De Raiva, ou na verdade qualquer outra música de seu primeiro EP Lanches (2016) da Bruna Guimarães, ou Brvnks, fica muito fácil de entender o porquê de a moça ter sido chamada para abrir o show da australiana Courtney Barnett no começo desse ano. Nem precisamos falar sobre a semelhança na voz das duas (evidenciada ainda mais neste excelente cover); o estilo das duas é muito parecido. Simplista, confessional, letras em forma de fluxo de consciência sobre acontecimentos ao seu redor. Uma guitarra distorcida pra juntar tudo. E pronto.

Brvnks é a cantora que a cena indie brasileira estava desesperadamente precisando, seu tipo de música não é muito comum hoje em dia aparecendo aqui. O fato é tanto que a própria Bruna disse em uma entrevista que prefere compor em inglês por que o idioma ‘combina mais’ com a estética do som do que sua língua nativa. Mas ainda sim, a moça usa do português em alguns de seus títulos – como “Tristinha” e o próprio nome do disco.

Morri De Raiva é seu primeiro álbum completo, lançado finalmente agora em maio, e é composto por dez faixas. Que se trata de um excelente trabalho, extremamente coeso e competente não deveria ser surpresa pra ninguém. Há anos a moça já vem se provando como um nome de peso, um nome de respeito. E é exatamente por não surpreender ninguém, mesmo sendo um ótimo disco, que minha nota aqui não foi um pouco mais alta.

O maior defeito de Morri De Raiva está no fato de que, além dos singles “Tristinha”, “Yas Queen” e “Fred”, Brvnks decidiu incluir também regravações de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B. (Freedom Is Just A Name For What I Want You To Be)” de seu primeiro EP, assim como finalmente nos presentear com versões em estúdio de “I Hate All Of You”, “Grey Eyes” (aqui retitulada “Your Mom Goes To College”) e “Lanches” (aqui, “Snacks”). Das dez faixas que compõe o disco, mais da metade já eram conhecidas antes por quem acompanha o trabalho da Bruna. Isso não necessariamente seria uma coisa ruim, se não fosse o fato de que as músicas realmente novas não fossem suas melhores composições até agora.

“I Am My Own Man” e “Tired”, que nunca tinham tido nenhuma versão nem ao vivo lançada ainda, são com certeza os pontos mais altos do disco. ‘I am my own man, I got my own band, I ain’t anyone’s girlfriend‘, Bruna canta sobre guitarras rápidas no melhor estilo Dum Dum Girls. ‘I work all week to hear this fucking shit, your dick is not made of gold‘, ela completa. Uma verdadeira princesa, fada sensata ela.

As composições mais antigas ganham versões novas aqui (e, no caso de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B.” perdem um pouquinho de sua força quando comparadas com às do EP), e se tratam de músicas ótimas. Mas a sensação de que quase tudo já foi ouvido antes causa uma leve decepçãozinha. Bem de leve, pois o resultado final ainda é excelente.

Em suas letras, de forma geral, Bruna exorciza todas as suas pequenas (e às vezes nem tão pequenas assim) frustrações e momentos de raiva presentes no dia a dia, coisas que são em sua maioria comuns a todos. Isso é o que torna Morri De Raiva um disco tão memorável. Alguns versos, como ‘I know you’re mad about the Misfits guy in your refrigerator‘ parecem ser direcionados a uma pessoa ou situação específica, e isso apenas instiga o ouvinte ainda mais.

Morri De Raiva é um álbum completo, ilustrando tudo o que Bruna já fez até agora e continua fazendo com maestria. Trata-se de um excelente primeiro disco, de uma mulher que ainda tem muito o que dizer e muito barulho pra fazer.

OUÇA: “I Am My Own Man”, “Tired”, “Don’t”, “Tristinha” e “Yas Queen”

Honeyblood – In Plain Sight



In Plain Sight é o primeiro disco do Honeyblood como um projeto solo de Stina Tweeddale depois da saída da baterista Cat Myers e expande bastante o horizonte sonoro do Honeyblood em diversas direções de uma forma que gera alguns momentos isolados interessantes mas que nem sempre funcionam em conjunto. A produção de John Congleton (St. Vincent, Angel Olsen, Priests) mostra potencialidades desconhecidas e interessantes de Stina mas às vezes fica pesada demais e tira a força de algumas faixas.

“She’s A Nightmare” abre o álbum com bastante força e já aí percebemos uma faceta diferente do Honeyblood com um som bem mais polido que qualquer um de seus predecessores, a produção transforma a música num eletro-rock com toques de power pop noventista com uma letra que é ao mesmo tempo sinistra e divertida narrando cheia de auto-ironia os pesadelos de Stina com uma mulher que a estrangula  toda noite. “The Third Degree” continua na mesma pegada sonora mas acaba ficando bem repetitiva lá pela metade e uma faixa de menos de três minutos parece que dura uma eternidade.

A sequência “A Kiss From The Devil” e “Gibberish” é o momento que mais funciona no disco porque introduz bem os novos timbres de guitarra e refrões pra cantar junto com linhas de baixo com bastante reverb e baterias velozes e cruas como costumavam ser trabalhadas no primeiro registro da banda. Esse equilíbrio na produção ajuda a não alienar os fãs mais antigos e as letras trazem referências de tropes do terror noventista que aparecem em outros momentos do álbum e aqui funcionam muito bem com os arranjos.

“The Tarantella” fecha o lado A do álbum e é uma faixa bizarra no melhor sentido da coisa, tem um quê de trilha sonora de filme de terror, uma rispidez grunge, linhas de synth escondidas que fazem dobradinhas e potencializam as passagens da guitarra. A música equilibra bem as cadências mais lentas com as explosões de energia e é um dos poucos momentos em que a produção mais polida fez bem para uma faixa nesse registro.

A segunda metade do álbum é bem mais puxada pra um noise pop com toques de eletro-rock e não apresenta nada de novo, apenas truques que já vimos mais bem executados no começo do disco. “Take The Wheel” é um noise pop com mais elementos cinematográficos no som que não acrescenta muito mas coloca uma deixa pra “Touch”, que é uma música com uma letra fortíssima sobre a agonia de ser tocada por alguém que te machucou mas cujo arranjo quase dançante tira a potência que uma letra assim teria se apresentada de outra forma.

O ponto mais fora da curva nessa segunda metade do álbum é “Twisting The Aces” que trabalha bem uma produção moderna eletrônica em cima de uma base que lembra o garage rock mais sentimental com passagens orgânicas que e realçam bem pontos específicos da letra.

O que mais decepciona nesse álbum é que você sente que tanto as letras como as ideias iniciais de alguns arranjos que estão ali são muito verdadeiros mas a produção exagerada faz o resultado final parecer plástico como se tivesse sido feito apenas para empolgar a galera num show em estádio. Stina Tweeddale é uma compositora incrível e é ótimo vê-la explorando outras formas de fazer música mas seria interessante buscar um outro tipo de produção para explorar essas novas referências trazidas em In Plain Sight.

OUÇA: “She’s A Nightmare”, “Gibberish”, “The Tarantella” e “Twisting The Aces”

Mac DeMarco – Here Comes The Cowboy


É chegada a hora de dizer a verdade. Não há mais escapatória. As aparências não mais podem enganar. Fato é que eu sou fã de Mac DeMarco. Gosto muito. Eu sei, tem gente que diz que é superestimado. Que virou meme. Que é genérico. Não me importo com essas discussões. Sou uma pessoa simples: ouço Mac Demarco e me sinto feliz e satisfeito com a vida. Quando vi pela primeira vez seu A Take Away Show no canal La Blogothèque, fiquei embasbacado. Comprei um violão só para aprender os riffs do início de “Still Beating” e sair também pelas ruas cantando, fumando, conversando, intercalando os sons da canção com o ambiente barulhento, sirenes e crianças brincando. Esse show, por si só, merecia um review. Acontece que o músico acaba de nos presentear com seu novo álbum, Here Comes The Cowboy, um disco íntimo produzido por ele próprio – e é sobre esse episódio que esse texto se debruçará. Acenda seu cigarro.

Ouvir um álbum de Mac DeMarco é como fazer terapia. Mas é ele quem está no divã, você é o terapeuta, escutando. Desde seu primeiro trabalho, o artista construiu um eu-lírico sincero, indulgente, compassivo. Lamenta-se pelos tempos que foram e não mais voltarão, pelo cansaço da vida cotidiana, pelas mulheres que amou, pelos relacionamentos que não deram certo. Tudo isso tocando uma guitarra como se fosse dormir em qualquer momento. E funciona. Em Here Comes The Cowboy, há mais do Mac Demarco de sempre. E só isso, na verdade. Eu me contento, mas se você espera ouvir algo que seja ousado, experimental e diferente do que o músico tem apresentado em sua carreira, talvez esteja decepcionado. Ainda assim, convenhamos, é sempre bom experimentar a intromissão de canções despreocupadas e odes a cigarros na dinâmica da costumeira rotina.

E quando digo que o novo álbum é apenas um pouco mais do que usualmente se espera de DeMarco, estou, de certa forma, glorificando o disco. O primeiro single, “Nobody”, é genuinamente bom, em todos os sentidos. Paradoxalmente, Mac faz alusão ao fato de que tornou-se uma criatura, um ícone da música – ainda que uma parte de si almejasse ser um artista reconhecido, a outra parte ainda sente saudades do anonimato, da pessoa comum, desconhecida. Uma posição que não há volta: ‘I’m the preacher / A done decision / Another criature / Who’s lost its vision.

Em ‘K’, DeMarco faz um tributo à sua namorada, Kiera McNally, e, olha, ela deve ter curtido bastante. Em entrevista para a revista Huck, diz: “Me and Kiera have known each other six years longer than we’ve dated. It took time for us to get here but she’s part of who I am, I’m part of who she is, and I wouldn’t want it any other way. I’m really lucky”. Em um riff melancólico, o eu-lírico evidencia a experiência de crescer em um relacionamento e junto com ele: “Still so much for me to learn / And as I do, my love stays with you”. Que bonitinho, gente.

E é de amargar o coração, mas nem tudo são flores. O álbum segue uma linha melódica bem sutil, com riffs calmos e um arranjo instrumental leve. E esse é o problema: em muitos momentos, parece que falta algo. Um clímax, um refrão, um entusiasmo. O álbum tem quarenta e seis minutos e às vezes a mudança de faixa não é perceptível para os ouvintes menos atentos. Isso sem falar da terrível “Choo Choo”. Péssima. Pulem essa e tudo certo.

No geral, Here Comes The Cowboy é um bom disco. Há faixas esquecíveis, sim, mas vale a pena. Nada como as obras primas anteriores (não que caiba a comparação), mas um deleite que tem seu merecimento, no fim das contas. Por fim, encerro com um trecho da canção ‘Little Dogs March’, talvez um prelúdio do fim desse estágio de quase sete anos escrito pelo próprio DeMarco: “hope you had your fun…all those days are over now”.

OUÇA: “Nobody”, “Little Dogs March”, “Heart To Heart” e “K”

Alex Lahey – The Best Of Luck Club



A Alex Lahey é uma filha da Internet, mas que ganhou elevada notoriedade em seu país – a Austrália – com a ajuda de mídias bem mais tradicionais: ela ganhou dois concursos, ambos em 2016; o primeiro de uma associação para artistas sem contrato e que foi responsável por alavancar a sua carreira com uma gravadora; e o outro, da maior rádio local, a Triple J, que a levou direto para um dos maiores festivais de lá, o grandioso Splendour in the Grass.

Em The Best Of Luck Club, seu segundo álbum, Alex Lahey repete essa fórmula que conquistou toda essa gente lá em 2016 e no seu primeiro disco de 2017. Repete, mas com algumas ressalvas que fazem que esse novo registro não carregue todo seu talento, toda sua glória e toda sua sonoridade, fazendo com que ele seja quase homeopático nessas qualidades.

Apesar de estar dentro de seu lugar seguro, Lahey parece dosar de forma estranha o seu som e quase nenhuma música lembra muito fortemente o que ela fez com intensa maestria no primeiro disco. “Don’t Be So Hard On Yourself”, “Misery Guts” e “Isabella” talvez sejam as únicas faixas que a gente consiga relacionar diretamente com o I Love You Like A Brother em suas guitarras rápidas, sua cantoria eufórica e as letras irônicas, bem feitas e inteligentes.

Apesar de ainda mostrar uma inteligência incrível para compor, ela deixa de lado em muitos momentos as suas viradas harmônicas rápidas e a sua voz quase gritada, que completariam o pacote que ela entrega com louvor desde o começo de sua carreira. Alex se arrisca em melodias mais lentas e BPMs menos energéticos, como estávamos acostumados. E é um pouco estranho ver uma moça com tanta presença se apagar tanto assim.

Paralelamente, é possível traçar um panorama e várias semelhanças entre Alex Lahey e sua conterrânea, a Courtney Barnett. Alex parece seguir muito de perto os passos da outra moça, que também é LGBT, também vem de Melbourne, também tem uma habilidade impressionante com a guitarra, também tem um poder de letrista excelente; ou seja, as duas tem um pacote de habilidades e qualidades muito idêntico e um começo de carreira bem parecido.

Barnett, assim como Lahey, se manteve em seu lugar seguro no seu segundo álbum e aqui aparece mais uma semelhança: o lugar comum acabou enfraquecendo e as doses mudadas ficaram sem uma certa qualidade e categoria que era esperada da musicista. A energia abaixou, a poeira baixou e o furor do debut bem colocado acabaram se perdendo um pouco.

E tudo bem isso tudo. The Best Of Luck Club não é um álbum ruim, é apenas um disco que tem músicas que mostram que Alex Lahey tem ainda seu talento ali e outras músicas que parecem um deslize rápido que não deve ser repetido. No fim das contas, temos um álbum com músicas memoráveis, mas que não se vê como completo como obra composta.

OUÇA: “Don’t Be So Hard On Yourself” e “Isabella”

Charly Bliss – Young Enough



Charly Bliss é uma daquelas bandas que são maravilhosas e lançaram um debut incrível mas que poucas pessoas prestaram a devida atenção. Guppy, de 2017, mostrou uma banda capaz como ninguém de misturar o peso e a sujeira do grunge à la Hole com power pop e sensibilidade indie. Foi um debut realmente memorável, faixas como “Percolator”, “Glitter” e “Black Hole” com certeza estão entre as melhores músicas daquele ano.

Menos de dois anos depois, o quarteto de Nova York retorna com Young Enough e muda bastante seu som mas prova que Guppy não foi sorte. Aqui, a maior diferença na sonoridade está no fato de que há um uso muito maior e mais constante de teclados e sintetizadores do que antes, incluindo auto tune na voz de Eva Hendricks, e isso apenas eleva as composições ainda mais. Sua base continua sendo as guitarras sujas e riffs pesados, mas agora estão mais parecidos com o new wave dos anos 80 do que grunge.

Liricamente, os temas são mais pesados e sombrios do que a maior parte do seu debut, tratando por vezes de coisas como relacionamentos abusivos e violentos, morte e, de certo modo, vingança. É um álbum pesado e tenso, mas a voz quase infantil de Eva tem o dom de dar um tom completamente diferente, quase leve e divertido às composições. Quase idiossincrático. A ironia também permeia grande parte do álbum, talvez mais do que tudo no único verso ‘if you think it’s bad today, just wait‘ de “Camera” – é quase possível ouvir Eva sorrindo e dando risada enquanto o canta.

A faixa título “Young Enough” é, com certeza, a melhor produção da carreira da banda até o momento. Sua faixa mais longa, chegando quase aos cinco minutos e meio, ela é paciente e vai se construindo lentamente e aos poucos sob versos como ‘i had to outgrow it to know or destroy you‘ e ‘we are young enough to believe it should hurt this much‘ e nunca chega a explodir completamente.

O fato de não terem incluído o ótimo single “Heaven”, que faz parte da trilha sonora da segunda parte de Chilling Adventures of Sabrina, faz completamente sentido – a música não se encaixa aqui por ser reminiscente do grunge de Guppy. E o disco é tão bom que ela nem faz tanta falta. Young Enough é um álbum excelente, um passo quase arriscado para a banda mas completamente certeiro.

OUÇA: “Capacity”, “Under You”, “Chatroom”, “Young Enough” e “Hard To Believe”

An Horse – Modern Air



An Horse é uma dupla australiana formada por Kate Cooper e Damon Cox, e Modern Air lançado agora em 2019 é (finalmente) seu terceiro álbum de estúdio. Após concluirem a turnê em prol de seu maravilhoso disco Walls, a banda entrou em uma pausa e durante muitos anos não deram notícia nem sinal de vida. Nesse meio tempo, sua vocalista Kate Cooper lançou em 2015 um álbum solo sob a alcunha Cooper, e pouco depois também sumiu.

Trata-se de uma banda muito especial para mim, pessoalmente, que devorei seus primeiros discos uma década atrás. Rearrange Beds e Walls ainda se encontram no rol de meus discos favoritos da vida e mesmo nesses anos em que não tínhamos sinais de vida da banda, eu sempre revisitava a pequena discografia do An Horse com certa frequência. Foi, então, um prazer imensurável quando ano passado os dois voltaram a fazer shows e lançaram o ótimo single “Get Out Somehow”.

Logo no começo de 2019 Modern Air foi anunciado, juntamente com as músicas “This Is A Song” e “Ship Of Fools” e tudo parecia lindo. As músicas estavam boas, a dinâmica dos dois estava ainda mais cheia de energia do que antes, tudo se encaminhava para que seu terceiro disco fosse ainda mais maravilhoso e o melhor de sua carreira. Aí Modern Air chegou.

Não quero usar a palavra ‘decepção’, pois Modern Air se tornou também um álbum bastante querido pra mim e escutá-lo traz uma nostalgia maravilhosa. Mas Modern Air, infelizmente, é um disco fraco. Fora as músicas divulgadas antes do seu lançamento, poucas outras se destacam. Toda a energia, fogo e revitalidade dos singles não estão presentes na maior parte do álbum.

Seu som, que sempre foi bastante simples guitarra/bateria em sua maior parte do tempo e com influências shoegaze e emo bem pronunciadas, aqui em algumas partes vai quase para um lado mais punk e isso é incrível, mas esses momentos são raros. É realmente uma pena que na maior parte do disco nada disso aparece e o que nos restam são baladas calmas, tristes e pouco impressionantes.

Modern Air é um álbum bonito, bem pensado e produzido – mesmo que não seja sonicamente tão coeso quanto os outros dois. Depois de tantos anos em silêncio, Modern Air vale pelo seu ar nostálgico e para se ouvir sem grandes pretensões.

OUÇA: “This Is A Song”, “Ship Of Fools” e “Breakfast”.

Vampire Weekend – Father Of The Bride



2019. Quase vinte faixas. Quase 60 minutos de duração. Após seis anos, o grupo nova-iorquino Vampire Weekend lançou Father Of The Bride, quarto álbum de estúdio da banda. Sem Rostam Batmanglij, multi-instrumentista e produtor, o VW caminhava em busca de seu redescobrimento. O álbum é cercado de participações especiais.

Quase que caminhando de encontro ao álbum Modern Vampires Of The City, Father Of The Bride soa otimista e agradecido ao universo. Ensolarado, leve e animado. O oposto do álbum anterior, cuja melodia caminhava a passos quase tristes e contidos. Father Of The Bride é feliz e sorridente, como se Ezra Koenig vividamente abandona-se as mazelas do mundo lá fora. Um exercício mental de positividade e esperança.

O Vampire Weekend rememora e ressurge com ritmos multiculturais – uma presença que já fazia parte do repertório da banda. Revisitando a explosão globalizante da música que aconteceu nos anos 90  – o próprio título do projeto é inspirado em uma comédia homônima protagonizada por Steve Martin nessa década. Há algo meio lounge, jazz e até folclórico caminhando para algo mais natural. Teclado, violão, guitarra, baixo e bateria estão presentes delineando a voz de Koenig. Há instrumentais recortados de outros trabalhos. O VW apostou, desta vez, em levar o ouvinte a um universo muito próprio e particular. As composições atravessam camadas mais melancólicas à la The Smiths – melodias dançantes enquanto o vocal sussurra uma questão existencial difícil de compreender.  Relações humanas? Maturidade? Abandono? Desistência?

Ainda no universo noventista, há a aparição da composição de Hans Zimmer para a trilha sonora do filme Além Da Linha Vermelha, lançado em 1998, e dirigido por Terrence Malick, na música “Hold You Now”, primeira faixa do álbum, que conta também com os vocais de Danielle Haim. Referências e colagens. Auto referências também. Em “Harmony Hall”, o vocalista cita versos presentes em “Finger Back”, composição do álbum anterior. Em termos de produção, o álbum conta com  o multi-instrumentista Ariel Rechtshaid, Mark Ronson, Dave Macklovitch, Steve Lacy, guitarrista da banda The Internet, e Danielle Haim, guitarrista da banda californiana HAIM.

Alegria, apesar das nuvens lá fora. O novo álbum do VW é um retrato positivo, mas realista do mundo. Há inquietação, mas também existe algo a ser comemorado. Ventos novos e tranquilos.

OUÇA: “This Life”, “How Long?”, “Unbearably White” e “Sunflower”

Foxygen – Seeing Other People


Não é justo tentar comparar minha relação com bandas e a minha relação com pessoas, mas a tentativa de forjar uma trajetória propositalmente “falida” e tornar isso uma piada praticamente não me deixam opção: talvez o Foxygen esteja Seeing Other People para fazer esse disco e tenha, dessa forma, encerrado uma relação consigo mesmo nesse processo de ampliação de referências.

Foxygen, como outras bandas tipo The Lemon Twigs, faz do rock anos 60-70 sua principal referência. Como aconteceu quando fiz a resenha do Go To School, tenho alguma preocupação pelo futuro de uma banda cujas referências estão majoritariamente em um passo que é bem exaustivamente visitado no indie rock. Não porque isso seja um problema, na verdade, é impossível fugir disso, de fato, mas porque isso coloca um limite nos trabalhos. Em alguma medida, e correndo o risco de soar especulativa, Seeing Other People parece a ida inevitável em direção ao glam rock que seria capaz de ao mesmo tempo manter uma trajetória coerente para o Foxygen (e impedir a total exaustão dos fãs caso a banda insistisse ainda mais no referencial “Velvet Undergroundesco”) e indicar o fim de uma era que define o estilo da banda como um todo.

Porém, em Seeing Other People, essa trajetória não soa natural, soa apenas inevitável e, em alguma medida, melancólica e cômica. Em alguns momentos (como na faixa-título “Seeing Other People”) isso parece extremamente caricato de si mesmo, como se o Foxygen estivesse fazendo um cover de Foxygen com um baixo forte e bem cheio de swag. Não soa nada mal quando coloco nesses termos, mas soa surpreendentemente cômico quando se escuta de fato.

Apesar de tudo isso, as músicas não são ruins e é um disco divertido. “Work” e “Face The Facts” trazem alguns elementos cômicos em suas letras e, junto da presença forte de um piano otimista e que tem sons de auto superação, montam uma imagem irônica de rockqueiros em fim de carreira para Seeing Other People.

O problema é: fica impossível saber até que ponto essa performance de fim de carreira é algo que pode ser uma piada engraçada que vai ser seguida por um próximo álbum a nível We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic ou se vai indicar, de fato, o esgotamento total do Foxygen. Vamos aguardar.

OUÇA: “Work”, “Seeing Other People” e “Face The Facts”

Local Natives – Violet Street



Há dez anos, o quinteto de Los Angeles conhecido como Local Natives lançava seu debut, Gorilla Manor, e, a partir desta data, estabelecer-se-ia como um nome importante na constituição da cena indie-pop-rock. Gosto de mesóclise da mesma forma que a banda estadunidense gosta de experimentar em seus álbuns. A priori, talvez a sonoridade de Violet Streetassemelhe-se ao que a banda vinha fazendo ao longos da última década, mas os sutis detalhes nos arranjos tornam seu som mais complexo e estruturado. Explicar-lhe-ei.

A faixa de abertura, “Vogue”, apresenta uma organização instrumental característica de músicas introdutórias: uma cacofonia melódica e sublime que quase deixa escapar um spoiler de todo o liricismo que está por vir. Segundo o guitarrista Ryan Hahn, em entrevista para a Consequence of Sound, “[…] even before the violins, we knew we wanted the song to be about the human desire to feel a connection to god or a spiritual world.”. De modo geral, o processo criativo do disco baseia-se na tentativa de organizar o caótico em busca de um certo senso estético, e Vogue faz isso com primazia ao organizar frases aleatórias com uma instrumentalização que teve influência direta de Sara Nuefield, violinista que toca na maior e melhor banda de todos os tempos, conhecida como Arcade Fire. Esse último trecho é de responsabilidade minha.

A transição da primeira para a segunda faixa merecia um parágrafo por si só. É isso que se espera de uma transição. É isso o esperado após o término da faixa introdutória. “When Am I Gonna Lose You” é uma quase obra prima – por motivos que serão retomados posteriormente. A sinfonia característica dos nativos locais faz com que o ouvinte sinta-se familiarizado com o que está ouvindo, quase como um sentimento nostálgico, ao passo que percebe o ineditismo experimental da nova faixa. De acordo com o baixista Taylor Rice: “ […] this song is me diving into murky emotions of anxiety and doubt in the middle of love and joy.”. Os dois primeiros versos sintetizam todo o sentimento de ansiedade e pânico perante os bons momentos – o que, paradoxalmente, pode estragá-los: “Wait, when am I gonna lose you? / How will I let you slip through?”

Essa sensibilidade lírica se faz presente em todo o trabalho. Em “Megaton Mile”cuja melodia saltitante é de natureza oposta ao tema sobre o qual o eu-lírico discorre: a sensação de desamparado em um contexto quase apocalíptico enquanto o baixo soa como instrumento de destaque faz com que essa faixa seja uma das melhores do álbum, de fato. Em “Shy”, por outro lado, existe uma preocupação genuína em trabalhar o conceito da masculinidade tóxica. Com influências musicais de Fleetwood Mac: Shy / What would you gave me say? / God, it’s a perfect save / It took me thirty years and now I feel right / How did we get this way?

Todavia, nem tudo são flores. Em diversos momentos, mesmo nas faixas citadas anteriormente neste texto, a tentativa de experimentação acabou extrapolando alguns pressupostos básicos que acompanharam a trajetória do quinteto nesses dez anos. Um deles, por exemplo, é não parecer com o Maroon 5. Em diversos momentos, mesmo em “When Am I Gonna Lose You” o padrão de batidas característico é substituído por uma dançante balada tosca. Em “Shy”, existe uma introdução de batidas que não funciona direito e em alguns instantes “Megaton Mile” se parece com Ed Sheeran, o que não parece ser algo bom em qualquer contexto.

Ainda assim, me parecem ossos do ofício. Levando em consideração que Local Natives não é uma banda em início de carreira, é louvável a atitude de se propor aos experimentos e conjecturas em seu quarto álbum de estúdio. Não decepcionaram os fãs saudosistas ao mesmo tempo em que conseguiram manter toda a essência do trabalho que desenvolveram ao longo desses anos, ainda que de forma inovadora.

OUÇA: “When Am I Gonna Lose You”, “Megaton Mile” e “Shy”

Catfish and The Bottlemen – The Balance



Muitas bandas evoluem e muitas bandas crescem, mas nada disso é o caso do Catfish and the Bottlemen. Dois anos desde o lançamento do último álbum, o quarteto de Llandudno retorna com seu novo trabalho: The Balance. Este é o terceiro disco da banda, mas seria fácil acreditar se dissessem que é o primeiro ou o segundo. A fórmula que mistura confiança e um tanto de arrogância funciona muito bem para o Catfish e consegue disfarçar muito bem a sua falta de ambição.

O Catfish and the Bottlemen foi formado em 2007, mas foi apenas em 2014 que a banda lançou seu álbum de estreia, The Balcony. Atraso talvez seja um bom jeito de defini-los. Van McCann e companhia surgiram para o mundo apresentando um som um tanto juvenil, totalmente batido para o ano em que estavam. O segundo álbum, The Ride, não foge muito dos moldes de seu antecessor. As faixas são até mais corajosas e confiantes, porém despretensiosas.

“Nothing’s really changed between then and now”, diz McCann em “Basically” – uma das 11 faixas do The Balance, que parece a última parte dessa trilogia. E esse trecho resume bem o resultado do álbum. O novo trabalho mantém o mesmo ritmo de 2014, até com um um aperfeiçoamento dos versos e melodia – parte disso graças ao produtor Jacknife Lee que já trabalhou com R.E.M., U2, and The Killers. The Balance não tem um potencial hino memorável para o indie rock, mas apresenta músicas como “Longshot” e “2all” que são boas candidatas a levantar um público.

Provando mais uma vez que não liga para as críticas sobre a falta de criatividade, o Catfish and the Bottlemen se encontra bem confortável para quem deseja ser grande. Mas The Balance mostra que isso não vai acontecer agora. O passar dos anos pode até dar mais confiança para a banda, mas ela precisa tentar sobreviver à própria teimosia para que isso seja possível.

OUÇA: “Longshot”, “2all”, “Conversation” e “Coincide”