FKA twigs – MAGDALENE



A cantora e compositora britânica FKA twigs retorna à cena com o lançamento de seu segundo álbum de estúdio, batizado de MAGDALENE, um álbum emocionalmente denso em que twigs, apoiando-se na simbologia atrelada à figura de Maria Madalena, reflete sobre  o que significa encontrar cura e compaixão em meio aos tempos marcados por profunda decepção e tristeza. 

Em MAGDALENE, a figura de Maria Madalena é explorada enquanto uma mulher mística capaz de trazer cura a si mesma e aos outros, um arquétipo que acompanha a experiência profunda que twigs apresenta aos ouvintes. A própria cantora mencionou em uma entrevista que a figura de Maria Madalena sempre a intrigou e ela sempre viu essa personagem da história enquanto uma mulher forte, poderosa e dotada de um poder curativo imenso, em contraste com as imagens negativas atribuídas a ela na cultura popular ao longo dos séculos.

O álbum é um mergulho em águas profundas que trazem consigo a memória de decepções, caminhos tortuosos, dias sombrios e experiências traumáticas que marcaram a vida da cantora nestes últimos 5 anos desde o lançamento de seu primeiro álbum LP1. No entanto, twigs, se apresentando por meio do arquétipo de Maria Madalena, reconhece a graça e a força que traz em si e compreende de forma profunda seu poder curativo. Maria Madalena é o símbolo de força e regeneração encontrado por twigs durante os eventos mais obscuros de sua vida.

Do ponto de vista sonoro, o álbum é mais introspectivo, mais sombrio e mais “quieto” que  seu antecessor. Algumas ideias pioneiras introduzidas em LP1 voltam a aparecer nesse álbum, principalmente a atmosfera espacial proporcionada por um singelo piano, pelos os vocais aéreos e suspirados de twigs e pelas tímidas batidas de um sintetizador onipresente. twigs atualiza alguns temas sonoros presentes no álbum anterior e mostra como os aperfeiçoou nestes últimos anos.

Faixas como “home with you”, “sad day” e “mary magdalene” são exemplos perfeitos da capacidade vocal da cantora e do seu poder de mexer com as emoções do ouvinte. O fechamento do álbum com “cellophane” apenas sela uma experiência emocionante vivida ao longo das faixas anteriores. Não é possível permanecer neutro emocionalmente ao passar por essas e outras faixas. O tema do álbum é perfeitamente sentido antes mesmo de ser plenamente compreendido. A qualidade das faixas também demonstra como a cantora evoluiu desde LP1 e veio a ser um dos principais nomes do R&B alternativo (e uma das principais influências desde então).

MAGDALENE é um álbum profundo, introspectivo e belo, embora seja um pouco assustador em certos momentos. O conceito por trás do álbum e a delicadeza com que twigs trata de assuntos tão pessoais e tão tristes se entrelaçam de forma belíssima e o resultado disso é inesquecível. Certamente, MAGDALENE é um dos trabalhos mais significativos de 2019.

OUÇA: “home with you”, “mary magdalene” e “cellophane”

Anna of the North — Dream Girl


Quem gosta de soft pop deve ter se sentido abraçado pelo novo disco da Anna of the North.

A norueguesa Anna Lotterud, de 28 anos, conhecida pelo nome de palco Anna of the North, entregou para a audiência seu segundo álbum, Dream Girl no fim de outubro. São 13 faixas, muitas delas inéditas que, em 41 minutos, revelam a essência pop suave e etéreo da cantora e compositora ao mesmo tempo em que demonstram um amadurecimento da sua sonoridade.

Dream Girl sucede Lovers, de 2017. É um disco que pode ser descrito como suavemente eletrizante: o resultado quando se une a voz de Lotterud, suave e cristalina, com elementos eletrônicos em crescente ao longo das faixas. É dream pop e electropop de qualidade, num daqueles discos que servem bem para relaxar em dias ensolarados — se você me entende… O disco apresenta uma sonoridade mais animada e upbeat em relação ao debut “Lovers”, por meio do qual conhecemos o trabalho única de a norueguesa.

Atualmente cerca de 2,5 milhões de pessoas ouvem Anna of the North no Spotify mensalmente. Na plataforma as canções da garota parecem queridinhas dos algoritmo. No Youtube são aproximadamente 10 milhões de visualizações em vídeos no canal oficial.

A carreira, relativamente recente (um primeiro EP foi lançado ainda em 2014), é bem consistente e os números consideráveis para alguém do porte de Anna of the North são reflexo de um trabalho que conta, também, com parceiros musicais importantes, como Snakehips, Tyler, The Creator e G-Eazy, alguns dos quais com quem Lotterud tem remixes e featurings.

Quando Dream Girl foi lançado, três faixas já eram conhecidas do público, os singles: “Leaning On Myself”, “Thank Me Later” e a homônima “Dream Girl”. As três muito rapidamente caíram nas graças de serviços de streaming, servindo para, realmente, impulsionar o lançamento do disco recente. O novo material é, certamente, um disco de boa qualidade, que apresenta uma nova face do trabalho da artista — aproximá-la de uma sonoridade menos minimalista e mais opulenta.

O novo disco pode ser um achado pra quem curte Wet e Shura.

OUÇA: “Time To Get Over It”, “Dream Girl” e “Used To Be”

Electric Guest – KIN



Diante de uma situação tumultuada causada pelo atual governo do país onde vivem, artistas tendem a seguir por dois caminhos: aproveitar a revolta para fazer um álbum mais politizado ou optar pelo escapismo. Com seu terceiro trabalho de estúdio, o duo Electric Guest escolheu a segunda abordagem, lindando com os problemas dos Estados Unidos fazendo o que estão acostumados, ou seja, criando músicas leves e espirituosas.

KIN aborda assuntos bem triviais para Asa Taccone e Matthew Compton, que apostam mais uma vez em um tom descontraído, refletido até nas músicas mais românticas. Pieguice passa longe do álbum, ainda que algumas letras sejam simples demais para causar um efeito mais impactante.

Assim como nos dois álbuns anteriores, a sonoridade da dupla é repleta de efeitos inventivos e que dão um toque especial a cada uma das músicas. Além de sintetizadores, os artistas utilizam elementos comuns ao R&B em vários momentos, sempre com a pegada pop predominando.  

Um dos maiores destaques de KIN é a facilidade com que Asa vai do grave ao falsete com fluidez. A versatilidade do cantor evita a sensação de repetição e nos deixa interessados em saber como o vocalista vai continuar brincando com a própria voz antes de cada música acabar.

Quem acompanha o Electric Guest desde o excepcional Mondo (2012) vai perceber que eles seguem numa progressão coerente, mantendo a mesma aura sem grandes mudanças, mas se arriscando o suficiente para ousar em doses homeopáticas. A cada novo álbum, a dupla se aproxima mais do mainstream e KIN reforça o seu potencial para finalmente ser reconhecida de forma mais abrangente.

OUÇA: “1 4 Me”, “Freestyle”, “24-7” e “Birthday”

Miniature Tigers – Vampires In The Daylight



Vampires In The Daylight é um álbum sobre os sentimentos conflitantes que vem à tona depois do término de um relacionamento e reflete esses conflitos esteticamente com um emaranhado de construções e gêneros musicais diversos que pouco conversam entre si para além da temática.

“Caged Bird” trabalha uma construção rítmica característica do folk rock com uma guitarra fazendo um harpejo de poucas notas combinado a elementos espaciais como uma linha de cordas sintetizada para dar o ar melancólico do momento de separação cantado na letra e vai ficando mais esperançosa com a entrada de uma bateria conforme o personagem da música vai aceitando que vai ficar bem apesar da dor.

“Manic Upswings” muda a pegada instrumental pra algo mais animado, bastante influenciado pelo rock alternativo do fim dos anos 90 para passar a sensação de estar completamente se embebedando e buscando euforia como uma forma de esquecer a dor de não ter quem você ama do seu lado. É um dos melhores instrumentais do disco e o riff é daqueles contagiantes que te faz querer cantarolar depois que a música acaba. Na sequência temos “Rattlesnake ASMR”, uma vinheta esquisita e que parece meio inacabada e não acrescenta muito ao restante do álbum.

Mais à frente no registro temos “Wish”, trazendo elementos do pop rock e do R&B de boy bands para assumir suas falhas e desejar ter sido alguém melhor para a sua amada. É uma faixa bastante agradável melodicamente mas, mesmo que o conceito todo gire em algo mais deprê, seria interessante ver alguma explosão de potência vocal aqui porque o instrumental dá muitas deixas para que isso aconteça mas essa expectativa nunca se concretiza.

“Cool” vem logo depois e é uma faixa esquisita no melhor sentido da forma como só o Miniature Tigers sabe fazer. Tem elementos de pop dançante genérico, passagens eletrônicas destacando e sampleando trechos da própria música, uma guitarra cavalgada e um violão base junto com a bateria compondo o ritmo de uma forma bastante inventiva. A música acaba numa virada estranha e vira um instrumental meio desconectado do restante que reflete esse estado de desconcerto que acontece quando você está quase superando o término e alguma coisa te quebra do nada e a bad volta com força.

A faixa-título é uma das mais solares do disco, conduzida por uma bateria constante e a linha de guitarra que aparece com mais força em momentos pontuais e fala sobre querer expressar os sentimentos com clareza mesmo que isso seja desconfortável. O interlúdio com o piano, os sintetizadores e a voz suave marcam essa transição de consciência e a gente começa a acreditar que dá pra ficar bem e aceitar até mesmo os sentimentos ruins. A faixa continua com “Guilty Sunsets” que pega o tema instrumental da predecessora e transforma em uma espécie de vinheta para as últimas faixas do disco que não tem nada de muito interessante a ser destacado a não ser por algumas passagens de guitarra de “Better Than Ezra”.

No geral, Vampires In The Daylight soa bastante sincero e, talvez por isso, algumas faixas isoladamente tenham bastante impacto em quem viveu situações parecidas de descontrole e tristeza pelo fim de um relacionamento. No entanto, se escutado de ponta a ponta, causa uma estranheza que te deixa na dúvida se é proposital pelo conceito ou apenas algo feito sem muito cuidado.

OUÇA: “Manic Upswings”, “Cool” e “Vampires In The Daylight”

M83 – DSVII.



O M83 se especializou em contar histórias e, por isso, talvez seja uma das bandas que mais se utilizou do formato “álbum” para propor sua arte. Ouvir um disco do M83 é se entregar a um conto de fadas neon onde tudo é fantástico e nostálgico, pois nesse mundo de características epopeicas, o ponto de partida é a imaginação infantil e toda sua extensão. 9 anos após a sua obra-prima Hurry Up, We’re Dreaming pouco resta dúvida sobre o papel que a figura da criança tem para o artista. Poderíamos passar alguns bons parágrafos discutindo as incursões psicológicas da centralidade do papel da criança e seus efeitos na profundidade da obra acima mencionada, mas não é este o objetivo aqui. Basta que saibamos, como chave de análise, que a potência criativa do grupo reside na transformação do mundo cru, quiçá perverso, em um ambiente totalmente inexplorado e ingênuo. A hora da aventura pode ser sempre o agora. É o que assertivamente o M83 nos convida a fazer com seu novo projeto, DSVII.

As pistas do que se espera do álbum começam pela sua capa: um cavaleiro montado em um réptil depara-se com uma escada rumo ao topo de uma pirâmide. Junto a ele, parece aconselhá-lo uma outra criatura mítica. O entorno parece ser um outro planeta tingido de tons foscos de roxo, verde e azul.

A travessia começa, pois, com a epopeica “Hell Riders”, canção de quase 7 minutos de duração dá as primeiras notas e tons da narrativa. DSVII afasta-se notavelmente do maximalismo proposto no álbum de 2011, ou mesmo daquele presente em Junk (2016). Nesta faixa, há coros angelicais (muito presentes em vários outros momentos do disco) e melodias medievalistas muito bem executadas nos sintetizadores que dialogam claramente com as trilhas dos jogos de videogame. O álbum flui perfeitamente a partir daí, as composições e as variedades de som aplicadas enriquecem e conferem uma atmosfera completamente cativante, como é o caso das ótimas e emocionantes “A Bit Of Sweetness”, “Meet The Friends” e “Jeux d’enfants” (novamente, o léxico infanto-juvenil sendo apresentado). São músicas extremamente sensíveis que trabalham em baixos decibéis, mas que funcionam como fôrmas para a imaginação do ouvinte. Um presente para a nossa necessidade de se recolher, refletir e se reinventar.

Passados os 50% da audição do disco, nada resta de dúvida sobre o ótimo trabalho entregue pelo M83. “Lunar Son” é a grande joia da segunda parte do LP, ao passo que traz lindos solos de flautas ritmados por pianos.  Ao final, o álbum revela onde o nosso simpático personagem vai parar: o templo da tristeza. A faixa ata as duas pontas do disco com um desenvolvimento primoroso, valendo-se de todos os elementos explorados nas outras 14 faixas do disco. O final desta faixa não tem nada de tristeza, a parte do fato de que a aventura teve seu fim. A travessia do jovem herói foi completa e muitos passos acima do começo, mas, como em um movimento espiralado, seu fim está na mesma linha do começo.  É hora de voltar a realidade, até que a próxima audição comece e a criança dentro de cada um de nós possa brincar novamente.

OUÇA: “Hell Riders”, “Meet The Friends” e “Lunar Son”

Tegan and Sara – Hey, I’m Just Like You



Hey, I’m Just Like You é o nono álbum de estúdio da dupla canadense Tegan and Sara, lançado juntamente com High School, seu livro de memórias. O que torna Hey, I’m Just Like You diferente de tudo o que a banda já fez até agora é o fato de que as músicas aqui são gravações de coisas que as moças escreveram em sua adolescência, que resgataram enquanto faziam a pesquisa para compilar e escrever seu livro. Segundo as próprias, tratam-se de músicas que elas nunca teríam conseguido escrever hoje como adultas, com uma produção que elas nunca teríam conseguido fazer antes quando eram adolescentes.

Just Like You é uma jornada à adolescência das duas, de uma forma bastante cândida e honesta. Simples. O álbum traz de volta em muitos momentos as guitarras e violões do começo de sua carreira que haviam sido deixadas levemente de lado em seus últimos dois álbuns cuja produção foi synthpop. Aqui, elas misturam esses elementos, por vezes quase punks (nem que seja apenas em espírito), à sua atual produção pop monumental que conhecemos em Heartthrob e foi aperfeiçoada com Love You To Death.

Just Like You é um álbum como nenhum outro na discografia das meninas. É até estranho pensar que nunca ouvimos essas músicas antes, que elas não escolheram gravá-las nem para seus primeiros álbuns. Existem muitos momentos aqui, talvez “All I Have To Give The World Is Me” mais do que qualquer outro, que caberiam perfeitamente em seu This Business Of Art, se tivesse sido gravada com a produção folk do restante do álbum. Coisas e constatações como essa tornam Just Like You um álbum bastante interessante de se ouvir várias vezes e analisar esses detalhes.

Suas letras, mesmo tendo sido escritas há praticamente duas décadas, são perfeitamente balanceadas entre a quase arrogância que adolescentes têm de saberem tudo sobre absolutamente tudo e uma vulnerabilidade que só aparece com a maturidade que o tempo traz. É um álbum bastante complexo e contraditório, nem sempre as letras casam com a produção. E essa idiossincrasia da dupla é seu ponto alto, com toda a certeza.

We don’t have fun when we’re together anymore, all we get when we’re together is bored‘ é um exemplo primordial disso. Um verso extremamente simplista que foge por completo das grandiosas metáforas exploradas pela dupla em The Con e Sainthood, mas que funciona tão bem – por que não deixa de ser um sentimento verdadeiro a todos. Não interessa se você é adolescente ou está com seus 30+, é algo que qualquer pessoa pode se relacionar.

Esse é o grande trunfo e a sacada de genialidade de Just Like You: trazer sentimentos e questões ainda presentes na vida adulta sobre tudo – a vida, relacionamentos, amores novos ou em decadência – de uma forma absurdamente simples e direta. De uma forma como só uma adolescente poderia. E te obrigar a admitir que você ainda se sente da mesma forma hoje.

OUÇA: “I’ll Be Back Someday”, “Hey, I’m Just Like You”, “Don’t Believe The Things They Tell You (They Lie)”, “I Know I’m Not The Only One” e “You Go Away And I Don’t Mind”

Tove Lo – Sunshine Kitty



Com seu natural tom desbocado que tornou seu cartão de visita, Tove Lo retorna com um punhado de hinos de verão, mais ousada e experimental no quesito ritmos. Um refresh da sua série de álbuns sólidos e concisos, estabelecendo seu mais recente álbum entre os seus melhores trabalhos dos últimos anos.

Sua atmosfera sem papas na língua para falar sobre relacionamentos, decepções amorosas e sexo foi remodelada com um mix de ritmos e sonoridades diferente dos seus três álbuns predecessores. Uma ótima combinação entre suas composições mais vulneráveis em seu álbum mais dinâmico e dançante.

Destaque também para os feats potentes e certeiros com o ótimo mix de pop e funk com MC Zaac em “Are U Gonna Tell Her?” e o house afinado com Jax Jones em Jones em “Jacques”, duas apostas a hit das pistas e do verão. O highlight fica com a parceria com Kilye Minogue em “Really Don’t Like You” que já elogiou a sueca por seu pop moderno como um dos seus nomes preferidos na nova geração.

Apesar de seus feats, Tove se garante solo em ótimas faixas como em “Sweettalk My Heart”, “Stay Over” e “Shifted”.

Com Sunshine Kitty Tove entrega mais um trabalho consistente com um pop no ponto para salvar o seu verão.

OUÇA: “Stay Over”, “Really Don’t Like You” e “Sweettalk My Heart”

Keane – Cause And Effect



Reencontros tendem a ser estranhos, ao menos no primeiro contato depois do afastamento. No caso da banda Keane, é com a delicadeza de sempre que os quatro britânicos nos cumprimentam depois de um hiato de mais de cinco anos.

A ausência e seus impactos são justamente o tema de “You’re Not Home”, música que abre Cause and Effect (2019), 6º album do grupo. A canção é o retrato perfeito desse retorno, pois começa preparando o terreno delicadamente até atingir um ápice apoteótico.

Durante o novo trabalho, Keane mantém a consistência da sua discografia com músicas que vão do intimismo até a explosão épica ressaltada pelo vocal característico de Tom Chaplin. A sonoridade da banda continua mesclando rock alternativo com o que há de mais acessível e motivador no pop atual.  

A maturidade da banda se revela nas letras profundas e reflexivas, que abordam perdas, recomeços, a dificuldade de se entregar, planos que não deram certo e sonhos. A vulnerabilidade dos integrantes fica visível do começo ao fim, em momentos como “Strange Room”, em que o vocalista admite ser apenas um homem rico cantando sobre seus problemas.

As experiências dos membros nos últimos anos ajudaram a construir quem são, incluindo a dependência química de Chaplin e a depressão e o divórcio do tecladista e compositor Tim Rice-Oxley. Essas cicatrizes são expostas com maestria, servindo como terapia para os artistas e como motivação para o público. Por mais que as incertezas e os arrependimentos continuem assombrando a banda, seus integrantes aprenderam que a vida é composta por fases e cabe a cada um absorver as partes boas para seguir com um plano melhor.

OUÇA: “Phases”, “You’re Not Home”, “I’m Not Leaving” e “The Way I Feel”

Fitz and the Tantrums — All The Feels



O Fitz and The Tantrums é uma banda que me conquistou ao vivo, no palco do Lollapalooza 2015. Mesmo conhecendo umas duas músicas que ouvi previamente para decidir os shows que assistiria no festival, cheguei crua e fui completamente arrebatada pela simpatia e gingado da banda californiana. 

More Than Just a Dream, o segundo lançamento da banda de 2013, é um álbum precioso e muito caro para mim, trazendo não somente grandes hits e grandes músicas pop, como também um trabalho maduro e superoriginal.

O mesmo não pode ser dito do seu quarto álbum de estúdio, o All The Feels. É um disco fraquinho, que não lembra em nada o Fitz que eu amei há quatros anos. Parafraseando Gotye: “what happened to the Fitz and The Tantrums that I used to know?”.

De dezessete canções, só três me chamaram a atenção durante a audição. “OCD”, “Hands Up” e “Maybe Yes” foram as únicas que saltaram aos ouvidos e trouxeram um cadinho daquela sensação de Fitz and The Tantrums que eu conhecia — embora essa última seja a mais distante delas. Tem uma pegada mais dançante, que não chega a ser revolucionária, mas para mim foram as coisas mais autênticas de todo o disco.

“Stop” e “Livin’ For The Weekend” não são totalmente descartáveis, mas refletem exatamente esse “novo momento” da banda: embalam e são divertidinhas. Mas, novamente, não trazem nada de novo.

Há muitos momentos em que tu pensas “agora vai”, porque há uma batidinha que lembra os hits antigos, mas logo em seguida vem aquele monte de efeito que tu chuta uma moita e saem dez “sons do momento”.

Embora eu só conheça os singles do Imagine Dragons, me lembrou muito a fórmula que a banda usa e faz sucesso — sem querer desmerecer, de qualquer forma, o seu trabalho. 

Infelizmente, All The Feels é um álbum que não faz diferença. O Fitz and The Tantrums costumava ser uma banda trabalhada nos vocais e instrumentais incríveis, mas aqui ficou presa no limbo do “mais do mesmo”, sem qualquer tipo de inovação. São 52 minutos sem muito aproveitamento, que só vale ouvir se você for fã da banda… E olhe lá. Se quer arriscar, ouça as músicas que destaquei abaixo. No mais, ouça o More Than Just A Dream e assista aos clipes dessa era.

OUÇA: “OCD”, “Hands Up” e “Maybe Yes”

Metronomy – Metronomy Forever



O sexto álbum dos ingleses não poderia fazer melhor jus ao título: Metronomy Forever. Com uma cara de coletânea de singles, o novo álbum do Metronomy surge com uma atmosfera de nostalgia para celebrar os pontos altos da banda. Durante a carreira, o Metronomy consolidou o padrão de apostar em variações de gênero musical em cada álbum. Para uma banda de pop eletrônico, eles conseguiram explorar várias vertentes do estilo, tornando-se, de alguma forma, ecléticos. Metronomy Forever é um álbum eclético. É possível perceber uma variação marcante de estilos, não mais entre álbuns, mas entre as canções do presente disco. A versatilidade com que a banda chega até aqui também se destaca pelas parcerias recentes do frontman Joe Mount, que trabalhou junto com a Robyn no seu último disco, Honey de 2018. 

2018 também marca o aniversário de 10 anos de Nights Out, o álbum que fez o Metronomy estourar tanto para o público quanto para a crítica. Este momento de ouro do Metronomy, que inclui os álbuns Night Out (2008) e The English Riviera (2011) é justamente o período que o disco atual busca revisitar. Metronomy Forever cria uma atmosfera de nostalgia ao apresentar uma banda madura indo de encontro ao melhor material que já lançaram em outras épocas. 

O resultado é um material diverso com ótimas canções. Os singles do álbum são possivelmente as melhores músicas que a banda lançou em anos. Metronomy Forever nos presenteia com a versão de 2019 de canções como “The Bay” e “The Look”, que aqui se chamam “Wedding Bells” e “Salted Caramel Ice Cream”. Os ótimos singles transcendem o clima de nostalgia e põe o Metronomy como banda ainda muito relevante em 2019.

Apesar dos ótimos momentos do disco marcados pelos singles, nem tudo é perfeito. O álbum tem 17 faixas. Entre os singles, há um vasto material menos acessível, incluindo várias faixas instrumentais. Uma delas, aliás, se chama “Forever Is A Long Time”. E Metronomy Forever é um longo álbum. A falta de unidade entre as faixas enfraquece o trabalho e por vezes trás o sentimento de que o álbum se arrasta. Entre um hit e o próximo há momentos difíceis com faixas servindo simplesmente de plano de fundo que poderiam ter sido suprimidas, visando um trabalho mais amarrado. 

De toda forma, Metronomy Forever entra para a lista de grandes álbuns da banda. É uma ótima oxigenada na carreira dos ingleses que voltam a ganhar visibilidade com um material tão relevante quanto Night Out (2008) e English Riviera (2011). Se o título do álbum indica uma celebração da trajetória da banda até aqui ao mesmo tempo em que aponta para o seu futuro, cabe a nós apreciar esta jornada.

OUÇA: “Salted Caramel Ice Icream”, “Wedding Bells”, “Insecurity”, “Whitsand Bay” e “Sex Emoji”