Hatchie – Keepsake



Harriette Pilbeam, conhecida musicalmente como Hatchie, é uma cantora australiana que lançou seu primeiro álbum completo, Keepsake, agora no primeiro semestre de 2019. Keepsake seguiu o excelente EP Sugar & Spice ano passado e agora veio consolidar o nome de Hatchie de vez.

Seu som aqui continua com a mesma mistura de shoegaze e dream pop que ela havia apresentado em Sugar & Spice e dessa vez eleva os elementos ainda mais. Keepsake caminha livremente entre as baterias eletrônicas, refrões grudentos e as várias camadas de guitarras distorcidas. Não se trata de algo absolutamente novo de forma nenhuma. Essa combinação de shoegaze com eletrônico e pitadas de pc music já foi feita antes por inúmeros nomes, mas Keepsake é um álbum tão gostoso de se ouvir que a falta de originalidade não importa e nem atrapalha em nada.

Suas letras tratam de temas sobre relacionamentos e amores, de forma sempre doce e genuína. Hatchie também faz questão, ao longo dos 45 minutos e dez faixas do álbum, de mostrar toda a sua versatilidade indo das músicas lentas e tristes até as animadas e dançantes. Tudo isso sempre de forma bastante confiante e orgânica.

Hatchie é alguém que cita tanto My Bloody Valentine e Cocteau Twins quanto Carly Rae Jepsen e Kylie Minogue como influências e isso pode ser percebido ao longo do trabalho. Se Sugar & Spice já dava indícios do talento da moça e todo o seu potencial, aqui isso tudo é comprovado e seu som está em sua melhor forma até o momento.

Keepsake, mesmo sem incluir o excelente single ao vivo “Adored”, é um ótimo debut e o começo de uma carreira bastante promissora para a jovem artista australiana.

OUÇA: “Obsessed”, “Without A Blush”, “Keep” e “Stay With Me”

Hot Chip – A Bath Full Of Ecstasy



Um ambiente escuro com vozes ressoando. Neste mesmo ambiente há batidas pop e cada uma estimula que o ouvinte visualize uma cor. A descrição serve para explicar uma espécie de fenômeno sinestésico ou o clipe de “Melody Of Love”, faixa de abertura do novo álbum do Hot Chip. A sinestesia compreende a junção de diferentes planos sensoriais, está relacionado a forma como sentimos o mundo ao nosso redor. 

A Bath Full Of Ecstasy,  sétimo disco da banda britânica, flerta com a sensorialidade e a sensibilidade. Trata-se de uma brincadeira: seja com os efeitos alucinógenos, seja com a exaltação.  “Echo”, quarta faixa, poderia tocar em qualquer rádio ou em qualquer filme meio retrô. Uma música com batidas oitentistas e genuínas, afinal, o que é o pop sem sua essência? Um mergulho profundo em uma banheira de melodias eletrônicas. “Bath Full Of Ecstasy” e “Clear Blue Skies” destacam-se pela regularidade positiva: cativantes, seja na animação ou na batida calma e techno que navega e guia o ouvinte: entramos em um universo paralelo.

Philippe Zdar, produtor francês, relacionado ao Cassius e ao Phoenix trabalhou neste álbum. É um dos seus últimos, já que o produtor acidentou-se e acabou falecendo. Um triste pesar ao trabalho. 

Quando pensamos em pares opostos, a filosofia grega apresenta um clássico: apolíneo e dionisíaco, uma dicotomia – espécie de problematização –, que trata dos filhos de Zeus, o pai dos deuses. Temos uma equação que coloca em oposição o racional e o emocional. A Bath Full Of Ecstasy trata de batidas eletrônicas racionais e, até certo ponto, matemáticas em coexistência com sentimentos e divagações  – caóticas e instintivas. 

“Hungry Child” mescla house e eletro pop dançante e melódica. Uma canção para entoar baladas de verão e festas, soando como um possível sucesso  do verão no hemisfério norte. Definitivamente o ponto alto do disco.

“No God”, última faixa, é um pouco mais niilista que as anteriores, ainda em um viés retrô fala sobre dançar em círculos. Seria o eterno retorno ou a rejeição a importância de qualquer outra coisa? A faixa brinca com o questionamento: o que é, de fato, existir? Despretensioso e, ao primeiro olhar, um pouco estranho. Este é o novo álbum do Hot Chip. 

OUÇA: “Melody Of Love”, “Echo” “Hungry Child” e “No God”

Two Door Cinema Club – False Alarm



False Alarm é o quarto disco dos queridos Two Door Cinema Club. Quem ouviu apenas o debut, quase dez anos atrás, e se deparou com alguma faixa deste novo trabalho em algum serviço de streaming deve estar se perguntando: afinal, o que houve com o Two Door Cinema Club? A verdade é que False Alarm traz uma nova banda. As guitarras espertas ficaram de lado e agora sobram teclados, sintetizadores, bases eletrônicas e até participações de rappers. Para os saudosistas, talvez essa mudança não agrade tanto, mas não dá para negar que essa mudança caiu muito bem.

A mudança apontada no disco anterior, Gameshow, é bastante aprofundada aqui. Gameshow soou como o trabalho de uma banda perdida, à procura de identidade, mesclando a sonoridade já conhecida com experimentações pouco inspiradas. Já False Alarm se mostra bem mais coeso que seu predecessor e está com os dois pés firmemente fincados na música eletrônica. Há um forte senso de álbum e não mais uma coleção de singles desconexos. Canções que isoladas poderiam soar mais fracas passam a fazer todo sentido quando ouvidas no contexto do disco.

Bandas com origem no indie com guitarras bastante presentes não costumam criar obras sólidas quando entram de cabeça na música eletrônica, vide o desastre que foi Stay Together, o último disco do Kaiser Chiefs. Mas o Two Door Cinema Club soube explorar essa sonoridade muito bem. Para os padrões da banda, pode-se até dizer que False Alarm é um disco experimental. No entanto, tudo é filtrado pela forma com que eles sempre criaram música, tornando as faixas bastante acessíveis. E isso é um grande elogio para quem tem a clara intenção de criar música pop.

Dessa vez, a influência oitentista vem bem forte, mais especificamente do Devo, um dos criativos e talentosos patinhos feios daquela década. E aqui é possível citar diversos paralelos entre as bandas: indo do peso dos teclados e sintetizadores, dos efeitos nos vocais, da estrutura das canções até à ironia das letras e à marcada identidade visual. O Two Door Cinema Club nunca se esforçou tanto para criar uma marca visual como faz em False Alarm. A capa do disco, os pôsteres da turnê, os lyric vídeos, os videoclipes oficiais, as apresentações ao vivo… De forma louvável, tudo isso divide a mesma estética, reforçando ainda mais a coesão do disco.

“Satellite”, segundo single e penúltima faixa do disco, resume bem a essência de False Alarm. A faixa contém os elementos que caracterizam essa segunda fase do Two Door Cinema Club. Os efeitos na voz estão lá. Os sintetizadores a la Devo também. As guitarras ainda existem, mas estão em segundo, terceiro ou quarto plano. O que se mantém intacto é o talento em criar músicas para as pessoas dançarem, seja lá com qual instrumento for.

É fato que todo aquele indie pop perfeito com guitarras espertas dos dois primeiros discos ficou para trás. No entanto, essas palavras são escritas sem nenhum pesar. False Alarm é um disco muito bem resolvido. A obra é coesa e conta ainda com singles capazes de integrar os setlists sem fazer feio quando comparados aos clássicos indies da discografia da banda. False Alarm é a prova de que o Two Door Cinema Club está em constante mutação. E essa mutação lhes caiu muito bem, uma vez que está mantida a qualidade das canções que os rapazes entregam.

OUÇA: “Once”, “Satellite”, “Talk”, “Dirty Air” e “Break”

AURORA – A Different Kind Of Human



A Different Kind Of Human (Step 2) é a sequência de Infections Of A Different Kind (Step 1), pequeno álbum de oito músicas lançado em 2018 por AURORA. Neste trabalho de 2019, a cantora de 23 anos dá continuidade ao empoderamento e sensação de desajuste presente no seu predecessor.

Os títulos e capas dos dois discos são bastante similares. No entanto, na capa de Step 1 Aurora está com as mãos fechadas e na de Step 2 as mãos se abrem. A diferença na arte dos álbuns dá pistas sobre o que muda de um trabalho para outro.

No disco de 2018, AURORA explora mais seus sentimentos interiores e o álbum deste ano é sobre a o extravasamento desses sentimentos, como a cantora tenta pôr para fora toda sua euforia, raiva, alegria  e esperança.

“Dance On The Moon” é um dos pontos altos do álbum. Esta faixa é uma das que mais realça a voz doce e que dá qualidade ao pop etéreo de Aurora. “I dance as I’m falling, but I never touch the ground [Eu danço enquanto despenco, mas nunca vou tocar no chão”, canta a artista norueguesa.

Em “Apple Tree”, a artista aposta em uma batida de hip hop misturada com seu habitual eletropop. O resultado é parecido com as músicas de Lorde, sobretudo as do álbum  Pure Heroine.

A faixa é uma das mais agitadas e divertidas de Step 2. Também representa o espírito geral do álbum de empoderamento, com a letra convocando as pessoas a se arriscarem para salvar o mundo.

Na canção que dá título ao disco, “Different Kind Of Human”, o sentimento de desajuste perante ao mundo é o tema predominante. A letra trata de uma humana ou humano considerado outsider sendo levado por alienígenas.

“Nós viemos aqui por você

E nós viemos em paz

A nave mãe levará você mais alto, mais alto

Este mundo em que você vive não é um lugar para alguém como você”

O pop etéreo de AURORA é algo prazeroso de ouvir e pode nos dar a sensação de estarmos em contato com algo místico. Ela soa como um Alt J menos experimental ou como uma Lorde menos pop, ficando no meio termo e em um certo equilíbrio na escala dos extremos do indie pop.

No entanto, esse álbum tem o defeito de dar uniformidade excessiva a suas canções. O ritmo e até a temática das letras das músicas soam repetitivos. O que não tira o mérito da artista conseguir nos transportar para outra dimensão e fazer as músicas parecerem terem sido tiradas de contos de fada medievais.

OUÇA: “Animal”, “Apple Tree”, “Dance On The Moon” e “River”

The Head and The Heart – Living Mirage



As primeiras produções de um artista ou de uma banda sempre estão em vantagem por dois motivos. Primeiro que não há base de comparação anterior, além de outros artistas. Segundo que, na maioria das vezes, existe uma autenticidade que raramente volta ao decorrer da carreira. E a perda da essência inicial do grupo norte-americano The Head And The Heart é, infelizmente, um ótimo exemplo desta teoria.

O que começou com um indie folk em 2009, com músicas contemplativas e doces, transformou-se, dez anos depois, em um som plástico, pop rock e repetitivo com o lançamento de Living Mirage. É estranho constatar que o grupo passou um tempo em um deserto da Califórnia para se concentrar apenas na produção de seu álbum mais pop e tão desconectado com o que um cenário natural e uma produção tão imersa poderia sugerir.

Para assinar definitivamente essa virada, a banda escolheu a chiclete “Missed Connection” para divulgar, pela primeira vez, o novo trabalho. No videoclipe, há cenas dos integrantes no deserto e, ao mesmo tempo, a música não conversa nem um pouco com atmosfera proposta. A medida que as imagens indicam uma intimidade dos músicos, grandes descobertas e boas nostalgias, a música super produzida está ao fundo mostrando que são apenas filtros, miragens e efeitos colocados propositalmente para vender uma fotografia do que a banda já foi.

Mas não dá pra enganar os ouvidos. Talvez para quem conheça a banda hoje em alguma loja de departamento ou no Uber, “See You Through My Eyes” e “Brenda” sejam músicas que trazem um bem-estar (que qualquer outro artista pop poderia trazer no momento). O problema é de quem já ouviu as simples, orgânicas e até imperfeitas primeiras gravações de THATH. Fica difícil acompanhar.

Uma das melhores músicas da banda, “Let’s Be Still” é incrível justamente pela dicotomia dispersão e encontro de vozes de Jonathan Russell e Charity Rose Thielen, que até murmura algumas vezes. Em Living Mirage, eles fizeram questão de criar quase uníssonos nos coros, deixando as vozes puras e perfeitas, como na faixa “People Need A Melody”, que parece uma versão masterizada do primeiro trabalho do grupo.

Fique claro que o problema não é a mudança sonora do grupo, mas sim a execução dessa virada. Na faixa “Honeybee”, por exemplo, é possível ver um caminho interessante que o restante do álbum poderia ter seguido, com uma atmosfera anos 80 e um pouco de desapego às repetitivas mensagens motivacionais, uma forte característica essencial da banda.

No entanto, é apenas neste momento que o grupo conseguiu cumprir o combinado de ter um novo começo, após três anos sem lançamentos, e agradar os ouvidos, de fato. Infelizmente, efeitos visuais nos videoclipes, capas nostálgicas e imersões no deserto não compram a autenticidade que um dia THATH já teve.

OUÇA: “People Need A Melody” e “Honeybee”

Oh Land – Family Tree



Qual é o caminho depois de se provar como uma das cantoras mais interessantes da Dinamarca? Para alguns artistas, o rumo da próximo etapa é milimetricamente calculado. Para outros, as circunstâncias da vida são mais fortes que qualquer planejamento. No caso de Oh Land, seu divórcio foi o que alterou os planos após Earth Sick (2014), em que ela manteve o estilo palatável cheio de synths e ainda deu outro passo rumo ao experimentalismo.

Devido ao fim de seu casamento, a dinamarquesa acabou se entregando a novas composições para exorcizar os demônios da separação. Como ocorre com muitos outros cantores e compositores, o trabalho logo após uma situação como essa costuma ser uma espécie de transição e é justamente o que acontece em Family Tree.

O quinto álbum solo da carreira de Oh Land, cujo nome eh Nanna Øland Fabricius, funciona como uma sessão de terapia para a cantora virar a página. Com serenidade, a artista se entrega ao conceito de árvore genealógica, que permeia o disco inteiro, como em “Coma”, “Sunlight” e na canção-título, usando folhas e galhos para fazer analogias.

Apesar de não mirar no pop desta vez, falta a Family Tree refrões mais consistentes. Piano e harpas são a base das melodias, que funcionariam bem como trilha de uma fábula medieval. Porém, poucos momentos geram algum impacto e o que começa como algo suave e calmante logo se torna enfadonho e repetitivo.

O que salva Family Tree de ser um sonífero esquecivel são as composições maduras de Oh Land. Trechos como ‘After the storm We’re starting over Even the rain knows that I am different now’ exemplificam a beleza das letras do álbum. Pena que logo que chegamos a esse ponto inspirador, ele acaba.

OUÇA: “Human Error”, “Brief Moment” e “After The Storm”

Charly Bliss – Young Enough



Charly Bliss é uma daquelas bandas que são maravilhosas e lançaram um debut incrível mas que poucas pessoas prestaram a devida atenção. Guppy, de 2017, mostrou uma banda capaz como ninguém de misturar o peso e a sujeira do grunge à la Hole com power pop e sensibilidade indie. Foi um debut realmente memorável, faixas como “Percolator”, “Glitter” e “Black Hole” com certeza estão entre as melhores músicas daquele ano.

Menos de dois anos depois, o quarteto de Nova York retorna com Young Enough e muda bastante seu som mas prova que Guppy não foi sorte. Aqui, a maior diferença na sonoridade está no fato de que há um uso muito maior e mais constante de teclados e sintetizadores do que antes, incluindo auto tune na voz de Eva Hendricks, e isso apenas eleva as composições ainda mais. Sua base continua sendo as guitarras sujas e riffs pesados, mas agora estão mais parecidos com o new wave dos anos 80 do que grunge.

Liricamente, os temas são mais pesados e sombrios do que a maior parte do seu debut, tratando por vezes de coisas como relacionamentos abusivos e violentos, morte e, de certo modo, vingança. É um álbum pesado e tenso, mas a voz quase infantil de Eva tem o dom de dar um tom completamente diferente, quase leve e divertido às composições. Quase idiossincrático. A ironia também permeia grande parte do álbum, talvez mais do que tudo no único verso ‘if you think it’s bad today, just wait‘ de “Camera” – é quase possível ouvir Eva sorrindo e dando risada enquanto o canta.

A faixa título “Young Enough” é, com certeza, a melhor produção da carreira da banda até o momento. Sua faixa mais longa, chegando quase aos cinco minutos e meio, ela é paciente e vai se construindo lentamente e aos poucos sob versos como ‘i had to outgrow it to know or destroy you‘ e ‘we are young enough to believe it should hurt this much‘ e nunca chega a explodir completamente.

O fato de não terem incluído o ótimo single “Heaven”, que faz parte da trilha sonora da segunda parte de Chilling Adventures of Sabrina, faz completamente sentido – a música não se encaixa aqui por ser reminiscente do grunge de Guppy. E o disco é tão bom que ela nem faz tanta falta. Young Enough é um álbum excelente, um passo quase arriscado para a banda mas completamente certeiro.

OUÇA: “Capacity”, “Under You”, “Chatroom”, “Young Enough” e “Hard To Believe”

Vampire Weekend – Father Of The Bride



2019. Quase vinte faixas. Quase 60 minutos de duração. Após seis anos, o grupo nova-iorquino Vampire Weekend lançou Father Of The Bride, quarto álbum de estúdio da banda. Sem Rostam Batmanglij, multi-instrumentista e produtor, o VW caminhava em busca de seu redescobrimento. O álbum é cercado de participações especiais.

Quase que caminhando de encontro ao álbum Modern Vampires Of The City, Father Of The Bride soa otimista e agradecido ao universo. Ensolarado, leve e animado. O oposto do álbum anterior, cuja melodia caminhava a passos quase tristes e contidos. Father Of The Bride é feliz e sorridente, como se Ezra Koenig vividamente abandona-se as mazelas do mundo lá fora. Um exercício mental de positividade e esperança.

O Vampire Weekend rememora e ressurge com ritmos multiculturais – uma presença que já fazia parte do repertório da banda. Revisitando a explosão globalizante da música que aconteceu nos anos 90  – o próprio título do projeto é inspirado em uma comédia homônima protagonizada por Steve Martin nessa década. Há algo meio lounge, jazz e até folclórico caminhando para algo mais natural. Teclado, violão, guitarra, baixo e bateria estão presentes delineando a voz de Koenig. Há instrumentais recortados de outros trabalhos. O VW apostou, desta vez, em levar o ouvinte a um universo muito próprio e particular. As composições atravessam camadas mais melancólicas à la The Smiths – melodias dançantes enquanto o vocal sussurra uma questão existencial difícil de compreender.  Relações humanas? Maturidade? Abandono? Desistência?

Ainda no universo noventista, há a aparição da composição de Hans Zimmer para a trilha sonora do filme Além Da Linha Vermelha, lançado em 1998, e dirigido por Terrence Malick, na música “Hold You Now”, primeira faixa do álbum, que conta também com os vocais de Danielle Haim. Referências e colagens. Auto referências também. Em “Harmony Hall”, o vocalista cita versos presentes em “Finger Back”, composição do álbum anterior. Em termos de produção, o álbum conta com  o multi-instrumentista Ariel Rechtshaid, Mark Ronson, Dave Macklovitch, Steve Lacy, guitarrista da banda The Internet, e Danielle Haim, guitarrista da banda californiana HAIM.

Alegria, apesar das nuvens lá fora. O novo álbum do VW é um retrato positivo, mas realista do mundo. Há inquietação, mas também existe algo a ser comemorado. Ventos novos e tranquilos.

OUÇA: “This Life”, “How Long?”, “Unbearably White” e “Sunflower”

Gus Dapperton – Where Polly People Go To Read



Após alguns singles, feats e dois EPs super bem-sucedidos e aclamados pela crítica, Yellow And Such (2017) e You Think You’re Comic (2018), o produtor e músico nova iorquino Gus Dapperton finalmente se rendeu ao clássico formato que chamamos de álbum, em 2019. O garoto de apenas 22 anos, completados recentemente, lançou Where Polly People Go To Read e três videoclipes para entrar de vez no universo auto suficiente que criou para si, que vai da produção à mixagem de suas próprias músicas.

Neste universo, o estético é tão importante quanto à sonoridade: ouvir Gus Dapperton não é a mesma coisa que assistir Gus Dapperton. O músico sabe como transferir a emoção de seu dream pop indie não apenas em seus videoclipes e shows, em que tem o seu jeito único de dançar, mas também em seu estilo, moda e feições. Não à toa, o (também) designer já deu entrevista para a Vogue sobre o que o inspira para se vestir. E se você pensou “bora pra Void”, é isto mesmo: Gus tenta remeter à sua infância, ou seja, à moda do final dos anos 90.

Na tríade de vídeos que lançou para promover seu debut, o americano experimentou duas estéticas principais que permeiam a sua obra: o lo-fi e a super produção. O que, basicamente, resume também suas músicas: enquanto você percebe que é apenas uma pessoa produzindo tudo, cantando em todas as vozes e coros e até mesmo o esforço da mixagem para soar lo-fi, as faixas são muito bem feitas, a vontade de sair dançando como num super musical é gritante e ainda sobra criatividade nas letras e instrumentos.

Falando em instrumentos, Gus prefere a produção analógica e menos artificial, apesar de, no final de tudo, o seu som soar bem sintético. “Coax and Botany” e “My Favorite Fish” são os melhores exemplos do seu álbum de estreia, principalmente pela base de guitarra e violão mais evidentes. No segundo caso, também, a voz do músico está muito mais limpa com o experimento de melodias mais graves e diversas.

Sem dúvida, Where Polly People Go To Read é uma reafirmação de autenticidade de um ex-aluno de música que abandonou os estudos por não querer ficar preso às teorias. Um dos destaques, “World Class Cinema” consegue ser o perfeito resumo desta espontaneidade com seus versos sem base e a voz duplicada em oitava de Gus. Sua contraposição é a seguinte, “Nomadicon”, que é tranquila e etérea, apesar de evidente uma vontade de crescer. Mas ela só atinge mesmo a ansiedade com a frase cruel do refrão ‘I hate it that I hurt you just for fun, It tasted like the perfect medicine’.

O que sabemos, até agora, é que Gus Dapperton é aquele artista que não quer ser definido por um estilo – nem de música, nem de roupa, nem de dança. E, mesmo que consigamos classificá-lo dentro do indie e dream pop, é justo que ele mesmo não se limite e traga para a cena muito mais obras artisticamente ricas.

OUÇA: “World Class Cinema”, “Coax and Botany” e “My Favorite Fish”

MARINA – LOVE + FEAR



Para um álbum de uma artista pop, pode se dizer que Love + Fear, da galesa MARINA (agora sem The Diamonds), foi aguardado de modo especial. Isso porque ao fim da divulgação de Froot (2015), a artista tinha dado uma pausa na carreira musical para se dedicar a estudos por algum tempo. Voltando pouco a pouco às atividades a partir do final do ano passado, ela começou mudando o nome artístico e lançando “Baby”, parceria dela junto a Luis Fonsi em música de Clean Bandit. Desde então, outros singles foram divulgados com clipes; e em fevereiro, veio anúncio de um álbum duplo. No início do mês passado, saiu a primeira parte, Love, mas só no último dia 26 que a obra total foi revelada.

O resultado é decepcionante. Exceto pela voz marcante de MARINA, sempre competente, tudo aqui soa muito genérico. E olha que se trata de um disco com alguma variação, que vai de beats e efeitos vocais inspirados pela ascensão do reggaeton (“Orange Trees”, “Superstar”, “You”) e passa por levadas de electropop tradicional (“Enjoy Your Life”, “Believe In Love”), com alguns trechos de baladas ao piano (“To Be Human”, “Soft To Be Strong”) e com efeitos orquestrados (“Life Is Strange”) nas 16 faixas. Acontece que nada disso traz uma marca maior de diferenciação da artista de outros de mesmo estilo  – algo que ela fez razoavelmente bem no quase kitsch The Family Jewels (2010) e no coeso synthpop de Froot.

As composições também estão longe de serem as melhores da artista. Num geral, não são marcantes, havendo um ou outro refrão de maior destaque, menos pela beleza do que pela irritação. O-Oo-Oo-Orange… E por falar em letras, ao ser guiado por um conceito das duas emoções primitivas, o álbum também traz uma lírica baseada na superação e positividade. Em tese, soa bacana; mas, pela extensão do disco e pela forma da mensagem quase autoajuda martelando nas duas partes – “you have to be soft to be strong”, “no more suckers in my life”, “so enjoy your life” -, o que se obtém mais facilmente é o cansaço.

Dito isso, há sim momentos positivos no disco. A já citada voz da artista é muito bem utilizada em algumas faixas, como nas linhas sintetizadas de “End Of The Earth” e “Life Is Strange”, com os melhores arranjos do disco. O single principal, “Handmade Heaven”, se não empolga tanto quanto os de álbuns anteriores, não compromete ao mostrar a nova fase otimista da galesa. Da mesma forma, se não fosse tão longo e repetitivo na mensagem lírica, o álbum poderia ser muito mais aproveitado, de preferência com escolhas de produção melhores. Mas o resultado final não inspira amor nem amedronta; no máximo, gera esquecimento.

OUÇA: “End Of The Earth” e “Life Is Strange”