The Lumineers – III



III é um álbum conceitual que explora como o alcoolismo e o vício em drogas impactou três gerações da ficcional família Sparks e toma como inspiração a experiência do baterista Jeremiah Fraites que perdeu o irmão, amigo de infância do vocalista Wesley Schultz, para o alcoolismo. O álbum se divide em três atos, cada um focado em um membro da família Sparks, e foi concebido junto a um curta metragem que ajuda a contar a história, mas as músicas são igualmente impactantes sem o auxílio do recurso visual.

“Gloria” é o ponto de partida para a história e é apresentada no  capítulo I. A linha de piano similar a uma caixa de música na abertura “Donna” ajuda a passar o tom de recordação que a faixa pede apresentando a mãe de Gloria Sparks e a falta de amor que a levou a abandonar a casa para uma vida na cidade. “Life In The City” conta a dificuldade de viver sozinha na cidade e o instrumental que oscila entre algo mais animado nos versos e mais introspectivo no refrão ajuda a passar a flutuação de sentimentos entre a liberdade e a saudade de casa e entre o barato do álcool e a ressaca que vem depois. O primeiro ato fecha com “Gloria” onde a matriarca é confrontada pelos seus filhos sobre seu vício e como isso os afetou. O contraste entre uma construção musical que lembra bastante o folk alegre dos primeiros trabalhos do Lumineers com a letra pesada passa bem a total alienação de Gloria que, completamente alcoolizada e perdida, não presta atenção ao conteúdo do que lhe é dito.

O segundo ato traz o neto de Gloria, Junior Sparks, para a cena e abre com “It Wasn’t Easy To Be Happy For You”, uma música sobre a primeira vez que um adolescente tem seu coração partido e é o único momento em que o conceito do álbum falha em função de uma música legal. É uma ótima música, muito amigável pra tocar em rádios e playlists mas não se conecta bem com o que vem antes ou depois tematicamente. Mais adiante no arco de Junior, vemos como ver a vó perdida em seu vício o afeta profundamente em “Leader Of The Landslide” que narra como ele enxerga Gloria como a causa da dificuldade de relacionamento que ele tem com as pessoas a sua volta e seu pai, Jimmy Sparks, que será apresentado no último arco. A música é construída de tal forma que as partes mais pra cima com a bateria e o violão soam como um pedido de ajuda do rapaz, como se ele estivesse reunindo as últimas forças para expressar sua raiva e a performance vocal de Schultz passa esse desespero perfeitamente. O arco fecha com “Left For The Denver” uma música voz e violão com acordes menores e uma batida descendente que dá o tom trágico de ser abandonado pela mãe que não aguenta conviver com os conflitos dos Sparks nesse ponto da história

Jimmy Sparks é o foco do capítulo III e conhecemos sua história logo depois de ser deixado pela esposa em “My Cell” que narra os conflitos de amar uma pessoa mas ser tão quebrado a ponto de não deixar que ela se aproxime. As linhas de piano e violão que se combinam com a voz expansiva e melancólica de Schultz trazem instrumentalmente esses sentimentos conflitantes de querer um lar de amor mas acabar condenado a se sentir em uma cela. “Jimmy Sparks” prepara o ouvinte para o final de uma forma épica com uma vibe de trilha sonora de faroeste que vai ficando cada vez mais tensa conforme vemos a vida de Jimmy indo mais e mais para o fundo do poço com seus problemas e vícios em drogas até o ponto de ser abandonado por seu filho Junior e ficar totalmente sem esperança. O arco e o álbum fecha com “Salt And The Sea” que narra como algumas coisas não tem solução e algumas pessoas não tem salvação. O tom soturno do instrumental combinado a uma certa calma na performance vocal passa a ideia de que todos os membros da família Sparks aceitaram conviver com a destruição e a escuridão que existe dentro deles, uma aceitação do inevitável para que possam continuar a viver.

Com III o grupo leva a característica narrativa de suas músicas a um nível mais sombrio e pessoal, explorando e amarrando os diferentes sentimentos que uma história pesada como essa envolve. É o álbum mais ambicioso e obscuro do grupo e vale a pena ser ouvido do início até o fim com bastante atenção aos detalhes que ajudam a contar essa história.

OUÇA: “Life In The City”, “Leader Of The Landslide”, “My Cell” e “Salt And The Sea”

MUNA – Saves The World


MUNA é Katie Gavin, Josette Maskin e Naomi McPherson. Fazendo música juntas desde 2013, quando iniciaram o projeto, o jovem trio se conheceu na faculdade e, dali, passaram a trabalhar juntas sob a identidade que as tornou famosas.

Depois de um relativo sucesso com os primeiros materiais e um modesto alcance de seu trabalho antes de 2015, a música de Gavin, Maskin e McPherson foi impulsionada por um remix de “Winterbreak”, uma das canções do primeiro álbum do trio, feito pelo DJ Tiësto em 2016.

Após o lançamento primeiro álbum, About U, em 2017, MUNA abriu shows para o Grouplove nos Estados Unidos (e mais recentemente para Harry Styles, também), se apresentou no Lollapalooza em Chicago e teve músicas em trilhas sonoras de audiovisuais, além de aparições na TV americana. As particularidades da música entregue pela banda, composta por três mulheres abertamente lésbicas e celebrando o poder feminino, foram combustíveis que alimentaram a espera espera por mais material inédito.

Saves The World é, assim, uma obra completa. Vai de momentos que parecem clamores, com “Who”, a canções que parecem proposta de outro grupo, como “Number One Fan”, esta última contrastando com a melancolia do restante do álbum. O segundo disco do trio de indie pop foi entregue em 6 de novembro, cerca de dois anos após o debut, About U, ser liberado.

A fórmula — uma atmosfera oitentista, guitarras elétricas, batidas enérgicas e mensagens fortes nas composições — é repetida neste novo registro. MUNA traz junto de si, em Saves The World, questões sobre política, ansiedade e depressão e sobre a sexualidade. O disco serve como um apelo à audiência que, em uníssono com as artistas, vive tempos tempestuosos. A crítica é evidente.

O segundo disco poderia ter tardado mais a chegar — mas teria sido um desperdício de tempo. Seguindo na esteira do sucesso de About U a decisão mais consciente foi se entregar ao novo material do projeto logo os compromissos com a divulgação de disco anterior abrandassem. O que resultou em segundo álbum, com outras 12 músicas inéditas. Quatro das quais trabalhadas com singles antes do lançamento em setembro.

Talvez Saves The World não nos traga hinos como About U nos trouxe, o que é caso de “I Know A Place”, “Loudspeaker” e “So Special”, canções que podem ser tornar atemporais e marcas de uma geração que desperta para sonoridades diferentes na segunda década dos anos 2000. No entanto a mensagem proposta pelas três segue na mesma linha, tão boa quanto o disco anterior.

OUÇA: “Stayaway”, “Who” e “Number One Fan”

Kindness – Something Like A War



Desde que Adam Bainbridge apareceu na cena musical sob a alcunha de Kindness, sempre esteve claro que sua proposta de produção musical estava um pouco mais à esquerda do pop convencial. Desde sua última obra World, You Need A Change Of Mind, de 2012, ele nos apresentou produtos paralelos com Solange, Dev Hynes e Robyn, firmando ainda mais esse seu espaço no pop alternativo. Something Like A War aparece como um marco de como a percepção do britânico avançou, e aos mais desavisados, uma nota: esse álbum do Kindness está ótimo.

A primeira faixa começa em um tom grandioso, solene, mas menos de um minuto dentro da faixa uma reviravolta e seja bem-vindo a sua dose necessária de house late 80s. A produção se incrementa com vocais, coros, batidas pulsantes. Não tem outro caminho a não ser saber que esse álbum do Kindness é promissor, em especial pelo conteúdo lírico e pela produção que toma forma com a fluidez das faixas e uma ausência de tensão propriamente dita.

O álbum é montado com transições suavizadas, ora ou outra se aproximando de um set de dj e que o colocarão certamente no seu melhor astral. A produção do álbum é incrementada pelas inúmeras colaborações em peso, como Seinabo Sey, Bahamadia e Jazmine Sullivan. Os pontos altos do álbum ficam reservados para ninguém menos que Robyn, que provam aqui que a dupla funciona tão bem quanto Sofia Copolla e Kirsten Dunst juntas.

Something Like A War é um álbum feito para ser compreendido como um todo, impossível de ser dissociado. AS movimentações que Bainbridge cria entra uma faixa e outra constrói as várias camadas de estado de espírito, um atestado de sofisticação dentro da música pop que apenas Kindness poderia criar.

OUÇA: “Sibambaneni”, “The Warning” e “Cry Everything”

Bat for Lashes – Lost Girls



Lost Girls, o quinto álbum que Natasha Khan lança com o nome artístico de Bat for Lashes, é, de certa forma, muito visual. Já na capa, fica claro que o que vamos encontrar tem uma grande influência dos anos 1980. Além disso, o álbum nasceu de um período criativo em que a britânica escrevia seu primeiro roteiro de cinema, após se mudar para Los Angeles.

A relação com o cinema e com as memórias oitentistas de Natasha – em especial, filmes de fantasia e ficção científica – é a espinha dorsal do álbum. Não é à toa que uma das faixas – com um som que traz muita influência de The Cure – tem o título de “Vampires”. Assim como nos outros trabalhos da cantora, a sensação é de que o que estamos ouvindo é algo etéreo. São músicas que convidam o ouvinte a sonhar e viajar, seja através das nossas próprias memórias da icônica década de oitenta, ou dos laços afetivos que criamos com a música e a cultura daquela época.

No caso de Lost Girls, essa característica nostálgica passa longe de ser apenas uma forma de surfar na onda de revivals dos anos 80, que vêm tomando conta da cultura pop nos últimos anos. Há um toque pessoal nas criações de Natasha. A sua voz singela, acompanhada dos sintetizadores característicos do synth pop que marcou a música nos anos 1980, nunca soa batida neste álbum. É, sim, um som de outra época – quase de outro mundo. Mas é um baita som.

OUÇA: “Kids In The Dark”, “Jasmine”, “Mountains”

Melanie Martinez – K-12



Criar seu álbum em torno de um conceito não chega a ser um problema, desde que a música que o envolve cative o ouvinte mesmo fora de contexto, e até ultrapassando barreiras de linguagem. Então, se você não fizer parte de uma banda de prog moderno mega conceitual, deveria levar isso em consideração, construindo uma experiência que abrigue o consumidor casual e o hardcore, sem causar conflitos entre os lados. Equilíbrio é uma coisa ótima, sabe, alguns artistas deveriam tentar mais manter pelo menos algum.

Então quando um artista entrega um álbum que, não só recicla um conceito antigo, mas ainda piora e muito a qualidade “casual” do produto, é difícil defender. E a Melanie não é a primeira pessoa a fazer isso, o primeiro exemplo que me vem a mente é o 21st Century Breakdown do Green Day. Sucede um conceito ambicioso, que acerta em alguns pontos e erra em outros, pra repetir a fórmula de forma genérica e apática.

Só que no caso do Green Day tinha, sei lá, a dupla “Viva La Gloria”, que dava uma energia ocasional pro projeto de forma diferente o suficiente pra manter o mínimo de novidade pra puxar o ouvinte ocasionalmente. O problema de K-12 é que é tudo mais do mesmo: músicas com uma temática que remete à infância, mas com um subtexto de maldade pra causar uma ambiguidade desconfortável. Se a fórmula funcionava pelo menos decentemente no Cry Baby, isso se deve às metáforas inventivas, e ao carisma com o qual Melanie acentuava essas distorções na estética infantil, ambos acompanhados de uma produção bem digna. Já aqui, tudo perde qualquer vestígio de naturalidade que poderia ter pra virar um “kkkk olha como eu sou uma menina má” em temas completamente clichés, com melodias fracas e beats insossos.

Se no álbum anterior tínhamos músicas como “Mrs. Potato Head”, que era uma crítica ao modo compulsivo como as plásticas estéticas são incentivadas na sociedade americana, nesse álbum temos algumas tentativas , como “Strawberry Shortcake”, que se você pensar bem tem até uma mensagem ok lá no fundo, mas fica ofuscada pela mesma problemática de que, em algum momento, a Melanie PRECISA ser edgy pra te lembrar que, apesar do conceito ser sobre escola, ela é não é nem um pouco inocente. E se você já fez cara feia só de ler essa frase, fique longe desse álbum.

E o pior de tudo é que tem um filme de uma hora e meia que acompanha o álbum, pra deixar bem claro que tudo aqui é parte de uma masturbação de um tema e uma estética que não dá mais tesão pra ninguém. Reenforça o argumento do “conceito”, mas em K-12, nem isso salva.

OUÇA: “Strawberry Shortcake” e “Teacher’s Pet”

Caravan Palace – Chronologic



Sem lançar material novo desde 2015, os franceses do Caravan Palace retornam com a produção impecável de sempre e com uma abordagem mais pop pro seu som sem deixar de lado a aura do eletro swing com toques de jazz burlesco que consagrou o grupo.

“Miracle” abre o disco e ainda carrega bastante dos trabalhos anteriores com as linhas de metais proeminentes e a levada rítmica dançante  bastante influenciada pelo ragtime. O baixo mais carregado e a batida mostram levemente a direção que o álbum vai tomar em seguida mas ainda é uma faixa que vai agradar os fãs mais antigos. “About You” que vem na sequência traz a participação de Charles X fazendo uma linha vocal bem soul e funciona bem com o baixo sintetizado que conduz um beat numa levada hip hop. Os breaks melódicos ajudam a dar um respiro numa faixa que é bem carregada de batidas.

Uma diferença bastante notável desse trabalho para os anteriores além das construções das músicas está nas letras. Enquanto nos álbuns anteriores as letras eram mais divertidas e brincavam com o nonsense, aqui temos uma vibe bem mais nostálgica e reflexiva que se reflete mesmo em músicas animadas como “Moonshine” que é bem dançante mas carrega nas cordas e linhas de sopro uma certa tristeza que é acentuada pela textura de gravação antiga que permeia a faixa. “Melancolia” que vem na sequência continua na mesma pegada com uma construção baseada num rap lento e a linha de piano de cabaré e os backing vocals ajudam a trazer essa melancolia do título.

A produção mais pop aparece com força em “Plume” um EDM bem padrão que, se não fosse pelas linhas de sopro características do Caravan Palace e um toque de reggaetown, não teria muita identidade mas funciona bem fechando a primeira parte do registro.

A segunda metade do álbum é introduzida por “Fargo”, uma brincadeira instrumental de pouco mais de um minuto que emula uma vinheta de jazz dos anos 20 e dá a deixa para “Waterguns” que é um dos pontos altos do disco com a participação de Tom Bailey encaixando um crooning dentro de um EDM mais lento que funciona bem com o coro formado pelos integrantes do Caravan Palace e a batida que é levada com hi-hats e clap hands.

“Leena” e “Supersonics” são boas faixas mas a produção deixa o instrumental alto demais ofuscando duas das melhores performances vocais de Zoé Colotis tanto numa faixa mais lenta como a primeira quanto numa que seria ótima para cantar ao vivo em estádio como a última.

O disco fecha lindamente com “April” numa faixa que carrega tanto tristeza quanto esperança com seus versos lentos e seu refrão instrumental conduzido por metais e seu fim que desaparece aos poucos deixando saudade em quem ouve. 

Depois de se consagrarem como uma das bandas mais relevantes do eletro swing nos registros anteriores, Chronologic expande os horizontes do Caravan Palace trazendo outras influências ao seu som característico e pecando pelo excesso em alguns momentos. No entanto, o resultado final é bem coeso e mostra que o grupo consegue se sair bem explorando elementos diversos e abrindo seu som para um público mais amplo.

OUÇA: “About You”, “Moonshine”, “Waterguns” e “April”

Lana Del Rey – Norman Fucking Rockwell!



Desde 2017, com um quarto álbum composto por poucas músicas memoráveis, Lana Del Rey nos deixara querendo mais. Por onde andavam as músicas com instrumental denso e bem trabalhado, que falavam sobre amores que não deram certo, que usavam de metáforas mil para abordar os cantos mais sombrios do indivíduo?

Eis que, finalmente, Norman Fucking Rockwell! chegou. O título, uma alusão ao famoso ilustrador dos anos 40, conhecido pela estética que moldou o imaginário da população estadunidense sobre o famigerado american way of life, de cara nos apresenta uma contradição. Como poderia justamente Lana, uma personalidade que publicamente critica o atual governo dos Estados Unidos, exaltar logo alguém que tanto colaborou (dentro do ambiente artístico, e com o seu trabalho) a criar e promover um status quo que muitos almejavam (e ainda almejam), mas poucos efetivamente conseguiriam? Mas afinal, não somos todos isso: contradições?

Em seu quinto álbum, Lana nos apresenta uma face mais íntima. Aquela que víamos de relance em Born To Die, que Ultraviolence escondeu, que Honeymoon sequer mencionava e que Lust For Life maquiara. A estética sonora tão marcante se mantém, mas algo nos dá a impressão de ser algo que ainda não tínhamos visto.

Alguns (ousados, estes) falariam que é apenas “mais do mesmo”, porém (mais ousado ainda) me atrevo a dizer que é uma amostra mais crua e profunda de quem é a pessoa por trás da persona. A Elizabeth Grant que vive dentro da Lana Del Rey.

Se você (de alguma maneira inexplicável) nunca ouviu alguma música de Lana, este é um bom álbum para entender como ela era antes de Born To Die, quando ainda era Del Ray, além de ser possível entender a sonoridade tão ímpar desta cantora.

Mas se você já conhecia (e já a amava), Norman Fucking Rockwell! é um carinho em forma de 14 músicas. É aquela Lana que todos conhecemos com coroa de flores, mas mais madura e mais exposta.

OUÇA: “hapiness is a butterfly”, “venice bitch” e “cinnamon girl”

Friendly Fires – Inflorescent



Todo o tempo do mundo, há uma medida própria de tempo, lentidão e auto regulagem.  O álbum Inflorescent, lançado em agosto pela Polydor Records, levou cerca de oito anos até ser finalizado.  

O trio composto por Ed Macfarlane, Jack Savidge e Edd Gibson possui um público fiel agarrado em suas batidas, base do trabalhos do grupo desde a estreia com o homônimo álbum de 2008. Com cerca de 44 minutos de duração e onze faixas, Inflorescent convida o público a uma dança animada e colorida.

“Can’t Wait Forever”, responsável por abrir o álbum transporta os ouvintes para uma balada colorida e alternativa que emoldura os sons futuros. Sintetizadores, linha de baixo, batidas, algumas vozes sobrepostas. Para a confecção do álbum, um time de peso de produtores da música eletrônica inglesa foi escalado. Há nomes como Mark Ralph, Alex Metric, que já produziu Daft Punk, Charli XCX, Hal Ritson e James Ford.

 “Heaven Let Me In”, segunda faixa do Inflorescent, é uma balada de quase cinco minutos que evoca um pop meio noventista e tropical. A canção é uma parceria com o duo Disclosure. “Sleeptalking”, sexta faixa, segue essa vibe pop – retrô – moderno. Há uma preocupação clara em transformar o álbum em um produto estético bem definido.

 Em termos de inovação, o álbum não apresenta nenhuma ruptura brutal com o que já foi produzido  pelo grupo, mas um rearranjo de expectativas e repertório em busca de um equilíbrio. É hora de colocar Inflorescent para animar a festa!

OUÇA: “Heaven Let Me In”, “Kiss and Rewind”, “Love Like Waves” e “Run The Wild Flowers”.

Shura – forevher



Um grito contra a intolerância e a falta de empatia. Assim é forevher: um enredo otimista sobre a sorte e o revés de amar e ser livre.

Depois de chamar atenção com seu debut Nothing Is Real, Shura retorna sem medo de ser vulnerável, sem amarras para viver a euforia de estar ao lado de uma paixão por uma garota, sem importer-se com a distância ou nenhuma outra barreira imposta pela homofobia.

Revivendo suas batidas de retro-pop de seu primeiro trabalho com arranjos mais refinados, forevher é levado por baladas mais sóbrias em ritmo mas não menos intensas em suas composições. Já na intro crua e sem grandes edições, “that´s me, just sweet melody” Shura declara sua entrega incondicional, como  também na faixa seguinte “side effects”: “I got out, I got free, you don´t got no hold on me” ou em “flyin´” –  “Scared of flying, but I´ll fly for you. Scared of dying, but I´m dying to see you”.

Além dos bos singles forevher trás boas surpresas nas inéditas “skyline, be mine”, “pricess leia” e “control”.

Com uma vibe de fim de tarde no parque na companhia de alguém especial numa tarde de verão, Shura firma mais um bom trabalho, colocando sua referência como artista pop atual tanto pelo refresh no gênero, como por sua visibilidade LGBTQ+ em primeira pessoa com um álbum forte sobre um amor puro.

OUÇA: “side effects”, “flin’”, “skyline”, “be mine”, “BRKYLNDN” e “control”

Clairo – Immunity



Nessa mesma época em 2017, se você procurasse por Clairo ou ouvisse alguém falando sobre, era bem provável que a primeira informação que chegaria até você seria algo sobre “bedroom pop” ou que ela, Clairo, era a responsável pelas músicas chiclete (“Pretty Girl” e “Flaming Hot Cheetos”) que volta e meia o Spotify insistia em colocar na sua lista de músicas recomendadas.

Assim como muitos nomes do bedroom pop, Clairo construiu sua carreira musical em meio ao Soundcloud e Tumblr, com videoclipes gravados na webcam do computador e melodias de 3 ou 4 acordes feitas no Garageband. Agora, dois anos depois, ao lado de nomes como Cuco e Rex Orange County (que também vieram do bedroom pop) e com algumas parcerias de peso (SG Lewis, Mura Masa, Wallows), a nova realidade é que Clairo, Claire Cottrill, é o que melhor representa a mistura do pop e soft rock jovem em grandes festivais de música mundo afora.

Em seu primeiro álbum de estúdio, Immunity, Cottrill reforça o que a faixa “4EVER” do EP diary 001 (2018) já anunciava: uma nova era de produção, com vocais mais claros e arranjos mais elaborados, mas sem perder a essência lo-fi e chill beats que marcavam as músicas anteriores.

Não é à toa que a excelente produção do álbum ficou por conta de Rostam Batmanglij, ex-Vampire Weekend e que já produziu para nomes fortes do pop, indie e R&B como Carly Rae Jepsen, HAIM, Charli XCX e Frank Ocean. E por falar em HAIM, algumas faixas do disco contam com a ajuda de Danielle Haim na bateria.

Assim como o nome indica, Immunity trata de alguns assuntos delicados, como descobrir e lidar com a sexualidade (“Bags”, “Sofia”, “Softly”); a relação de Cottrill com artrite reumatoide juvenil e como a doença afeta o seu dia-a-dia (“Sinking”, “I Wouldn’t Ask You”); depressão (“Alewife”) e relacionamentos passados com corações partidos (“White Flag”, “Feel Something”).

O disco é recheado de músicas sinceras e emocionais, com influência clara de álbuns como o Blue (1971) de Joni Mitchell, mas o ponto alto do fica por conta de faixas como “Bags” e “I Wouldn’t Ask You”.

Em “Bags”, é impossível não compartilhar da ansiedade de Clairo sobre gostar de alguma amiga/amigo próximo (em entrevista ao site Genius, Cottrill afirmou que a música é sobre uma de suas primeiras experiências gostando de meninas). A faixa fala sobre não saber lidar com o novo sentimento, e que no final, ter qualquer interação com a pessoa, mesmo que sejam apenas pequenos momentos descontraídos como sentar no sofá e assistir TV, seria melhor do que declarar seus sentimentos e a pessoa eventualmente ir embora (“I guess this could be worse / Walking out the door with your bags”).

Já “I Wouldn’t Ask You”, a faixa de quase 7 minutos que fecha o álbum, é uma emocionante carta de agradecimento que Cottrill dedica à um antigo namorado que a ajudou e a acompanhou no hospital durante períodos de crise de sua artrite reumatoide. A faixa tem dois grandes momentos, com o primeiro sendo uma produção simples, que consiste basicamente em um piano e o vocal, acompanhada por um coral de crianças cantando em loop o verso “I wouldn’t ask you to take care of me”, que por sua vez reforça o sentimento de invalidez de Cottrill perante a situação. O segundo momento é mais upbeat e retrata o momento em que Clairo se da conta do amor e gratidão que sentia pelo parceiro.

Considerando todas as faixas, Immunity mostra o desejo de Clairo e Rostam de pavimentarem um novo caminho, experimentando novos sons e estilos musicais, flertando com o indie rock anos 2000 à lá Strokes em “Sofia” e até uma pegada mais R&B com lo-fi beats em “Softly”.

Com esse álbum de estreia, Clairo mostra para todos que apostavam que ela seria apenas uma One Hit Wonder, ou que ela nunca sairia do seu quarto e continuaria criando melodias no Garageband, que ela na verdade tem potencial e repertório de sobra, e vem ganhando espaço na cena atual junto à outras artistas LGBTQ+ como Snail Mail, girl in red e King Princess.

Músicas como as de Cottrill se fazem cada vez mais necessárias e especiais, principalmente pela naturalidade, sinceridade e delicadeza com que os assuntos são retratados em suas letras. No final, Immunity é como a própria foto da arte de capa: acolhedor, tímido, simples e cativante, mas sem tentar demais.

OUÇA: “North”, “Bags”, “Impossible” e “I Wouldn’t Ask You”