Sigrid – Sucker Punch



NSigrid é promessa já faz alguns anos. A norueguesa despontou na virada de 2016 para 2017 com o single “Don’t Kill My Vibe” e desde então vem sendo apontada como o próximo grande nome da música, ganhando inclusive uma série de prêmios no quesito artista revelação. Depois de lançar uma sequência de excelentes singles, temos em mãos seu primeiro disco: Sucker Punch. O álbum não é perfeito, mas, sem dúvidas, Sigrid se torna merecedora de todo hype que a cerca ao construir uma obra coesa, honesta e recheada de refrãos bem construídos e pegajosos.

É difícil não comparar a música feita por Sigrid e a música feita por Lorde. Além de uma sonoridade bastante próxima, com Sigrid mais enérgica, as duas dividem temas (desilusões, cotidiano e não adaptação ao convencional) e até mesmo formas de compor, trazendo descrições de cenas, pessoas e lugares. Apesar das proximidades, Sucker Punch não tem um mega hit como “Royals”, mas a explosão de cada refrão, com destaque para “Sucker Punch” e “Basic”, não perdem em nada para “Team” ou “Green Light”.

E por falar em refrãos, Sucker Punch é um desfile de potenciais hits. Mais da metade das faixas poderia ser lançada como single. Apesar do impacto nas paradas não estar sendo o esperado, cada canção gruda na sua mente após uma única audição, tal é o vigor da música criada por Sigrid e seus parceiros de composição e produção. Além das músicas feitas para pista, há espaço para algumas baladas, com destaque para “In Vain”, que revela uma intérprete que sabe rasgar a voz quando precisa e deixar todo o sentimento transparecer. Ainda nesse sentido, “Dynamite”, a faixa final de Sucker Punch, é a melhor música da Adele que a Adele não escreveu e nem gravou.

Apesar das comparações, e aqui ainda caberia Chvrches, Sigrid tem voz própria, algo nem sempre comum para artistas com pegada pop em seus discos de estreia. Há uma peculiaridade em sua voz e interpretação que a torna única. Mesmo sendo comparada com artistas que estão no mercado a cinco, dez ou quinze anos, Sigrid é extremamente contemporânea, seja por suas letras ou pelas escolhas de produção. Não há espaço para saudosismo em Sucker Punch. Este é um disco do “agora”.

No entanto, nem tudo é perfeição pop em Sucker Punch. Como pequenas falhas, podemos apontar duas ou três faixas que pouco ou nada acrescentam ao trabalho. “Level Up”, com pouco mais de dois minutos, destoa completamente do restante do álbum. Com uma sonoridade que chega a lembrar Little Joy, a faixa está totalmente deslocada entre as poderosas “Don’t Feel Like Crying” e “Sight Of You”. Outra faixa que não diz a que veio é “Business Dinners”, e até por estar perto do fim do disco, soa ainda mais desnecessária.

Mesmo que comercialmente não se cumpra, Sigrid não é mais uma promessa. A artista se tornou realidade com seu robusto disco de estreia. Sucker Punch é uma sucessão de singles poderosos envoltos em uma produção totalmente contemporânea. Sigrid é ainda muito jovem e este é apenas seu disco de estreia, no entanto o poder e o talento que sobram, nos fazem ficar ansiosos por tudo que a artista ainda há de criar. Sigrid é dessas que vale a pena acompanhar de perto e Sucker Punch é seu primeiro triunfo.

OUÇA: “Strangers”, “Don’t Feel Like Crying”, “Sucker Punch”, “Don’t Kill My Vibe”, “In Vain” e “Basic”

Ten Fé — Future Perfect, Present Tense



A banda inglesa Ten Fé lançou seu segundo disco intitulado Future Perfect, Present Tense. Apenas dois anos após Hit The Light, os cabeludos miraram em um som bastante ensolarado desta vez. Deixaram um pouco de lado os sintetizadores e abriram o coração pros violões

Ben Moorhouse, Leo Duncan e cia se alicerçaram num soft-rock produzido nos anos 1980 e também na cena musical dos anos 1970 — não o segmento da “disco era” rs. A exemplo, temos as faixas “Echo Park”, que facilmente tocaria nos programas de rádio da madrugada no Brasil devido aos instrumentos de corda adicionados, tornando-a bastante romântica; e “Coasting” faixa pra cima, bastante californian vibes. O álbum ainda traz referências do que se tornou o Britpop: Oasis, Supergrass, Radiohead (nos primeiros trabalhos) e até a irlandesa U2, são exemplos. A faixa de abertura, que também é o primeiro single divulgado — “Won’t Happen” — tem um violão que lembra “Wonderwall” (Oasis), só que um pouco mais animado.

Falando ainda em correspondências, difícil desassociar o timbre de voz do vocalista Ben Moorhouse da voz do Matt Berninger (The National). Principalmente nas faixas “To Lie Here Is Enough” e “Isn’t Ever a Day”. O grave, combinado com o vibrato na voz de Moorhouse harmoniza muito bem nas letras sobre términos e dificuldades nos relacionamentos, arrastando tudo para uma atmosfera melancólica, porém serena.

Como segundo álbum, Future Perfect, Present Tense está meio longe de ser perfeito. De fato, se Hit The Light (2017) fosse o trabalho posterior FPPT seria uma evolução. No entanto, a banda perdeu algumas camadas que faziam o seu som um pouco mais  interessante: os sintetizadores, os falsetes, o sex appeal. Ainda sim, vale ser ouvido e apreciado devido aos seus highlights.

OUÇA: “Echo Park”, “Coasting”, “No Light Lasts forever” e “Caught On The Inside”

Hozier – Wasteland, Baby!



É injusto limitar um artista ao seu maior sucesso, mas dificilmente dá pra descrever o novo trabalho de Hozier sem resgatar os elementos que tornaram “Take Me To Church” um sucesso mundial. Quase meia década após o debut, o irlandês retorna com seu segundo álbum, Wasteland, Baby!, carregando um compilado de partes que parecem recicladas do primeiro disco.

Hozier começa o novo álbum com “Nina Cried Power”, contando com a participação da cantora Mavis Staples. A faixa foi lançada em 2018, em formato de EP, e traz na letra nomes que se tornaram lendas da música e do ativismo como Nina Simone, John Lennon, James Brown e Billie Holiday. O tom apocalíptico do gospel/soul acompanhado de uma mensagem de esperança em pleno fim do mundo é o que guia o Wasteland, Baby! durante seus 57 minutos de duração.

O coral, o som do órgão com elementos do blues misturado com folk se juntam a voz poderosa de Hozier, lembrando a fórmula de Take Me to Church e sentida em diversos momentos. Apesar da preocupação em encontrar um sucessor à altura, o acerto de Hozier foi não deixar essa fórmula saturada. Wasteland, Baby! (e toda sua carreira) não são apenas isso.

O diferencial fica por conta das faixas “No Plan” e “Be”, que destacam a guitarra e aceleram o ritmo do disco. O álbum termina com a música que o batizou e também resume toda sua história. A imagem que Wasteland, Baby! – tanto o disco quanto a faixa – traz é de um passeio pelo fim do mundo, mas um passeio que deve ser feito a dois. Tudo isso é finalizado com um sucinto e sacana “That’s it”.

Wasteland, Baby! é um tanto mais do mesmo, porém isso não significa que o mesmo deve ser desmerecido. Hozier não hesita em tentar repetir o fenômeno anterior, afinal todo seu sucesso se deve a inovação de levar o folk e o soul para um púlpito. Talvez o novo disco não tenha um hit para as rádios, mas com certeza tem toda a essência de seu criador.

OUÇA: “Nina Cried Power”, “No Plan” e “Wasteland, Baby!”

Girlpool – What Caos Is Imaginary



Desde sua estreia em 2014, Girlpool tem se aprofundado na expansão da sua sonoridade. What Chaos Is Imaginary chega para provar essas mudanças, consolidando um compilado de sons muito mais expansivo e maduro do que em seus outros projetos. A adição de elementos distintos, antes não presentes nos seus discos, ajuda a captar a energia distinta que ronda a produção desse álbum.

Apesar dessa nova composição que ajuda a criar uma atmosfera coesa para o álbum, a temática não é tão distante assim daquilo que já haviam apresentado, mas talvez trabalhada de uma maneira mais polida.

O mais interessante de todo o projeto pode ser, talvez, como essa conjugação de diferentes influências torna difícil definir um único rumo para os ritmos. Em momentos, se mantém amplamente tradicionais, remetendo a projetos antigos. Em outros, vão por caminhos inexplorados.

A adição de elementos eletrônicos sutis em “Chemical Freeze” tornam esse momento um dos mais diferenciados do projeto, capturando a energia mais ousada em que a dupla se jogou para o disco. “Minute In Your Mind” altera um pouco essa tonalidade, mas ainda consolida o aspecto mais dream-pop da banda.

Ainda assim, poderíamos pensar que escutamos outro álbum completamente diferente quando iniciam-se “Hoax And The Shrine” ou “Swamp And Bay”: a primeira, tomada pelos elementos acústicos com poucas interferências, a segunda, com uma sonoridade muito mais afirmativa e incisiva, mas também mais previsível. Outros momentos, como “Hire”, voltam para a origem mais grunge e despojada.

Explorando o indie-rock em sua tradição, a dupla transita por distintos elementos sonoros que fogem da sua estrutura tradicional que, caso não ocorressem, deixariam o álbum num patamar muito mais raso e monótono.

O elemento vocal do disco também se destaca, uma vez que a combinação das vozes e divisão enquanto solos funciona bem e criam uma boa harmonização. Nos momentos individuais é possível entender a particularidade de cada um, o que também favorece na diversificação do álbum.

Mais ousada, a dupla dá passos importantes para uma sonoridade própria e mais única, mas ainda tropeça para encontrar uma estruturação melódica que funcione sem tornar-se relativamente previsível ou maçante em alguns momentos.

OUÇA: “Chemical Freeze” e “Minute In Your Mind”

Telekinesis — Effluxion


“Back-to-basics”. É assim que Michael Benjamin Lerner descreve o novo trabalho com o Telekinesis. Effluxion, seu 5º álbum, saiu pela Merge Records no dia 22 de fevereiro. O cd tem 10 faixas e passeia um pouco mais pelo indie rock e rock propriamente dito do que seu antecessor Ad Infinitum (2015).

Para compreender um pouco mais Effluxion é preciso voltar para o debut de Lerner: Telekinesis! (2009). O músico foi descoberto por Chris Walla, ex-integrante da Death Cab for Cutie, que o ajudou a produzir o primeiro disco. Todos os instrumentos do álbum de estreia foram tocados por Michael, o que torna o trabalho bastante pessoal. Os demais álbuns tiveram participações do próprio Chris Walla, dos músicos de apoio de Lerner e também do Jim Eno (Spoon). Na obra atual, Michael resolveu voltar às raízes e fazer tudo por si próprio, desde os instrumentos tocados, até a mixagem. E é daí que surge uma das coisas positivas de Effluxion: uma boa mixagem. Limpa, sem medo de jogar os baixos e as baterias para cima, sem medo de ser quieto quando necessário.  A faixa título, por exemplo, assusta o ouvinte nos seus primeiros segundos por sua quietude e por seu som seco. Por pouco mais de 1 minuto até parece uma música perdida dos Beatles, algo ali do Yellow Submarine ou do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club.

Inclusive, Lerner não nega ser grande fã da banda e que sua música é abundantemente influenciada pelo quarteto. É até curioso, pelo fato dele ter estudado no Liverpool Institute of Performing Arts, do Paul McCartney. Durante a primeira metade do álbum, essa predileção se mostra evidente: na levada padrão das baterias, nas linhas de baixo, nos violões melódicos e nos pianos pulsantes. No finalzinho, o som fica mais preto no branco, mais direto. Exemplo disso é a faixa “A Place in The Sun”, já lançada como single anteriormente, que surgiu depois de uma ida fracassada ao cardiologista: “My heart’s a ping pong ball skipping in a sea of goo”, diz Lerner em uma das metáforas divertidas dentre várias nas suas composições.

Falando um pouco mais sobre as faixas, “Effluxion”, que abre o cd, dá as caras para essa aventura de Lerner, sobre o ato de compor e de deixar a composição fluir. “Like Nothing”, 3ª faixa, se comporta como um iêiêiê tanto pela vibe da música, quanto por sua letra que parece ambientada nos anos 1960: ‘Minivans moms and dancehall dads / Find a little slice of the happy and sad’. “Set a Course” é parecida com faixas dos primeiros cds: folk, voz e violão no maior estilo Sufjan Stevens, S. Carey e cresce para uma batida constante e de balançar a cabeça, ao mesmo tempo em que o eu-lírico recorda sua trilha pela vida e aconselha os demais: ‘I was lost / I was found / Now just look at me / Set a course / And take it easy’. “Out of Blood” fecha o álbum como um sonho-pesadelo — um pouco mais parecido com o Ad Infinitum — com sintetizadores, programações e hi-hats.

Quanto ao título do novo trabalho do Telekinesis, ele se deriva de uma palavra latina “effluere”, que em português significa mais ou menos fluir para fora, deixar sair. Em inglês — entrando no contexto da produção, já que é de natureza norte-americana —, a palavra “effluxion” tem duas possíveis interpretações: o ato de escorrer e a passagem do tempo. Como aquela velha história do rio blá blá blá. O conceito do título é muito bem atrelado as canções: a já citada “Effluxion” e “Running Like a River”.

No geral, Effluxion tem um quê de homenagem aos clássicos. Gostoso de ouvir, dançante, tem composições divertidas e reflexivas (mas não tanto), é romântico quando tem que ser, é pop quando tem que ser, é pessoal e esperançoso, por fim. Depois dos 30 anos, Michael Benjamin Lerner, aprendeu muito e resolveu que seria bom voltar ao básico, que seria bom confiar em si e no que a vida tem a nos trazer.

OUÇA: “Effluxion”, “Cut The Quick”, “A Place In The Sun” e “Set A Course”

Ladytron – Ladytron



Ladytron traz novas cores ao seu trabalho inovador iniciado nos anos 2000. Para antigos e novos ouvintes, o grupo de Liverpool carrega seus tripulantes por um roteiro energético, inconformado e revigorante do seu electro-pop e shoegaze que os consolidou e inspirou diversas bandas.

Oito anos desde seu último projeto de estúdio, o álbum homônimo chega com um grito ritmado, “Until The Fire” anuncia com sua bateria emoldurada pela icônica combinação dos vocais de Helen Marnie e Mira Aroyo ah que veio ‘Oh we hang on the wire, and the walls get higher / Just until the fire catches them’. Um prelúdio para um álbum distópico.

Na segunda e ótima faixa “The Island”,  a banda invoca suas raízes do sinthypop dos anos 80 com um toque de Chvrches – que Helen já afrimou ser uma grande fã – um eco energético e revigorado do trabalho que consolidou a banda, “We are sirens of, of the apocalypse / Poisoned paradigma / We are savages, give them your poison lips”.

Ao decorrer do álbum com boas faixas como “Far From Home” e “Paper Highways”, o grupo como um dos precursores do ressurgimento do sinthypop nos anos 2000, mostra que continua afiado, atual e incisivo na construção de um álbum – marca já registrada em seus últimos trabalhos.

A segunda parte do álbum reserva boas faixas com um mix de uma banda consolidada mas inconformada em olhar apenas para o passado, “Deadzone” com sua energia ritmada numa vibe e enredo cyber-punk, ‘Don’t come knocking with your night moves / My resistance is your weakness’ transparecendo à faixa Manequin com um quê de pista ao mesmo tempo saudosista e futurista. Bons exemplos de como Ladytron se mantém fiel à qualidade, com uma sonoridade familiar, mas nunca obsoleta.

O retorno de Ladytron oito anos depois foi certeiro, atual e essencial.

OUÇA: “The Island”, “Deadzone”, “Figurine” e “Far From Home”

Broods – Don’t Feed The Pop Monster


Poucas coisas são mais irônicas do que começar um trabalho chamado Don’t Feed The Pop Monster com uma música pop até a medula. Ao longo de seu terceiro álbum, Broods mostra que a intenção da dupla não era fugir de sons grudentos. O foco era proporcionar canções pop que não fossem esquecíveis e sem personalidade.

Os irmãos Georgia e Caleb Nott continuam apostando no mesmo tom melodramático e até exagerado dos álbuns anteriores. Porém, isso ficou mais latente nas letras dessa vez, já que a sonoridade do novo lançamento está mais leve e próxima de artistas cheios de energia, como HAIM.

Mesmo não abandonando os sintetizadores pelos quais são conhecidos, o duo se arrisca um pouco mais, como em “Dust”, em que guitarras remetem a “Wicked Love”, de Chris Isaac. Outro risco foi colocar Caleb para cantar em “Too Proud”, o que acabou destoando do resto do álbum, em que a suavidade da voz de Georgie garante um clima de delicadeza, mesmo quando a euforia se sobressai.

O grande destaque fica por conta da proximidade com o dream-pop. Além disso, várias músicas dos irmãos nascidos na Nova Zelândia lembram bastante os vocais sussurrados e etéreos de Imogen Heap, assim como as melodias intimistas e inventivas da cantora, como em “Falling Apart”.

Broods também se joga em referências pop dos anos 90 e 2000 em alguns momentos, desde B-52s até Gwen Stefani.  Portanto, trata-se de mais um trabalho em que o duo tenta desafiar expectativas, mostrando como o pop ainda tem muita flexibilidade para ser divertido sem cair na obviedade.

OUÇA: “To Belong”, “Everyting Goes (Wow)”, “Peach” e “Hospitalized”

HOMESHAKE – Helium


Do início da década pra cá, tem muito artista por aí usando e abusando da estética do chamado Bedroom Pop: uma sonoridade lo-fi, com vocais e instrumentos afogados em distorção de má qualidade que pode ser proposital ou só falta de grana pra fazer algo melhor mesmo, identidade visual remetendo aos momentos mais pessoais da intimidade do artista, e letras simplistas que tocam em tópicos de desilusão amorosa e momentos rotineiros retratados de forma mais melodramática e com linguagem mais acessível, mas com a intenção de trazer o ouvinte pra perto a partir de toda uma atmosfera intimista e pessoal, fazendo o mesmo se sentir confortável com tudo que o artista quer passar e tornando a distância entre os dois menor.

O uso desses padrões pra aproximar ouvintes a partir de uma dinâmica lo-fi já vem de décadas atrás, com artistas famosos como Daniel Johnston e Elliott Smith, por exemplo, até o garoto que realmente faz suas músicas pesarosas dentro do seu quartinho pra uns gatos pingados na internet ouvirem, como foi o caso do Vinícius (Yoñlu). Porém, a diferença entre o que já tinham feito nesse gênero e o que podemos chamar de Bedroom Pop é a infusão de gêneros como o Jangle Pop e o Psych Pop, usando de sintetizadores e guitarras agudas para criar algo mais relaxante e com uma certa impressão de desleixo.

E foi nessa onda que surgiu o projeto HOMESHAKE, do canadense Peter Sagar, onde absolutamente tudo que descrevi lá em cima sobre o Bedroom Pop foi usado, complementado por loops de bateria eletrônica (nos álbuns mais recentes) e uma voz suave que destaca de forma balanceada os grooves com forte influência de R&B de cada música. Álbuns como Midnignt Snack e Fresh Air conseguiam atingir um equilíbrio interessante pela constante entrega de boas melodias e uma variedade de variações instrumentais que mantinham a atenção do ouvinte sem se tornar pedante ou repetitivo, apesar do último ter quase chegado nessa marca em certos pontos.

Só que o problema de Helium, novo álbum do artista, é que ele é assim quase o tempo inteiro. A produção mais limpa e formal deixa um certo vazio na sonoridade do HOMESHAKE exatamente onde morava o apelo do projeto, deixando mais a atmosfera da coisa pela atmosfera e não pelas gambiarras musicais que distinguiam cada canção em trabalhos anteriores. Se canções como “Like Mariah” e “Just Like My” tinham até certo potencial de serem destaques no álbum por possuírem elementos que se sobressaem, os mesmos foram enterrados por uma mixagem homogênea que acaba cortando qualquer êxtase possível, tornando o que era pra ser “chill music” em música de elevador mesmo.

Mas não se engane, apesar dos exemplos citados, a grande maioria das músicas aqui não tem nada de realmente atrativo pra te fazer voltar a elas. Qualquer elemento engraçadinho como sons de telefone emulados por uma guitarra ou vozes conversando no fundo que tentavam evocar momentos mais rotineiros pra diferenciar a banda de outras do gênero, humanizando essa arte e aconchegando o ouvinte de forma mais incisiva do que o Bedroom Pop tradicional tenta fazer, foi exterminado de vez aqui a favor de sintetizadores sem inspiração e produção lavada que aproximam mais o projeto de algo que você escuta em qualquer rádio genérica de música dos anos 80 de madrugada.

Apesar de não chegar a ser uma ética sonora que realmente desagrade, peca terrívelmente em qualquer chance de longevidade que as músicas poderiam ter, tornando Helium descartável e medíocre, não causando nenhuma impressão realmente digna de qualquer destaque a quem procura uma sonoridade confortável e familiar como quem se sentiu atraído pelos primeiros álbuns do Peter. Partindo da criatividade sonora dele em diversos momentos na discografia, o projeto poderia ter tomado diversos rumos que destacam essas forças, mas aparentemente escolheram seguir o caminho mais enfadonho.

OUÇA: “Like Mariah”, “All Night Long” e “Just Like My”

Maggie Rogers – Heard It In A Past Life


Quase três anos após o encontro com Pharrell Willians em um seminário da New York University que a lançou para o mundo, Maggie finalmente apresenta seu álbum de estreia envolto de grandes expectativas.

Já nas primeiras três faixas Maggie apresenta uma evolução musical com produções mais lapidadas, com um toque de elementos da natureza que acabam tornando seu primeiro single “Alaska” solto na primeira parte do álbum. O ótimo resultado do flerte entre electro e folk embalam uma jornada vibrante de autoconhecimento através dos seus versos. No geral, Maggie parece estar disposta a mostrar sua forma de criar música sem medo de se expressar, reinventar ou cometer erros.

Com Heard It In A Past Life, Maggie deixa claro que o sucesso de seus singles não foram mero acaso e que tem material para consolidar sua carreira. Com um debut consistente, Maggie traz uma explosão de emoções, desde as suas expectativas sobre um crush em “Say It” onde nada rolou, a sua vulnerabilidade em aceitar suas falhas em um relacionamento em “Fallingwater” ou o ótimo enredo de uma noite conturbada em “Overnight”; ‘Cause people change overnight, things get strange, but I’m alright‘.

Com uma estreia cheia de visitas e reflexões do passado, Maggie mostra que tem potencial para muita evolução bons materiais para o futuro. Uma boa estreia para uma nova artista cercada por expectativas.

OUÇA: “Alaska”, “Say It”, “The Knife”, “Overnight” e “Fallingwater”

Panda Bear – Buoys


É difícil pensar em alguma banda cujos integrantes produzam na escala que o Animal Collective produz e que conservem qualidade e integridade com a proposta inicial. Sem precisar fazer grandes malabarismos estilísticos, o Animal Collective (em todas as suas variações de composição) fez, desde o estreante Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished, de 2000, outros 10 discos enquanto conjunto, além de 9 EPs de qualidade tão boa quanto os discos e mais 3 álbuns ao vivo.

Um dos membros mais “ativos” da banda, Noah Lennox, que atende pelo nome artístico de Panda Bear, não fica atrás em sua produção solo: são pelo menos 6 álbuns atribuídos a ele enquanto performer solo. Assim como no Animal Collective, Noah manteve, ao longo desses 20 anos de atividade, uma linha produtiva extremamente coerente. Coerentes a ponto de beirarem o autoplágio. Se não fosse a capacidade de inovação e posição de vanguarda impressionante de suas produções (tanto solo quanto coletivas), cada um dos muitos lançamentos seria um tédio.

Mas esse não é o caso. Nunca é o caso. E não é o caso para Buoys (leia “bóias”, segundo o próprio Lennox em entrevista para O Globo), novo disco a ser lançado em fevereiro. Com 9 faixas de duração moderada (a mais longa mal chega aos 5 minutos), Buoys foi composto durante o período de preparação e turnê do aclamado Sung Tongs, que passou pelo Brasil no segundo semestre de 2018.

Apostando novamente no combo voz-violão, o álbum não é marcado pela complexidade das composições e nem dos arranjos, mas pela criação de uma atmosfera: vemos muito o uso dos ecos e efeitos na voz, pontuações eletrônicas e um uso ritmado do violão como marcador de percussão, assim como no Sung Tongs, mas em menor escala, deixando espaços menos preenchidos e mais reflexivos.

Assim como no coletivo Tangerine Reef, que, embora seja o primeiro trabalho do Animal Collective sem a participação de Panda Bear, Buoys coloca, em algum grau, a temática marítima — e enfrenta o mesmo problema de similaridade entre as faixas, como se cada uma fosse uma explicação da anterior e tornando difícil a distinção entre eleas, que Tangerine Reef. Claro que pode ser um risco associar esses dois trabalhos, especialmente porque um deles sequer conta com a participação de Lennox, mas, para mim, é impossível dissociar os trabalhos solo e coletivos nos quais Noah se envolve.

Se para o Tangerine Reef a NME falou em tediosos “tons de cinza” em contraposição à “bagunça colorida” de Merriweather Post Pavillion, podemos evocar a figura das cores para garantir para Buoys um lugar ao sol: os vocais são interessantes, pronunciados e, mesmo sem a sensação de “coletividade” que marca os vocais do Animal Collective, e do próprio trabalho solo do Panda Bear em outros momentos, evoca uma espécie de solidão compartilhada, como se estivéssemos à deriva (em bóias, que seja) sabendo que existem outras pessoas naquela situação.

Diferentemente dos tímidos 60% que Tangerine Reef marcou segundo o Metacritic, com opiniões ferozmente negativas, como a da NME, vejo Buoys no espectro da maturidade de Lennox: depois de um sucesso estrondoso do solo Panda Bear Meets The Grim Reaper, de 2015, avaliado acima dos 80% no Metacritic, e de uma excelente turnê com o Sung Tongs, Panda Bear nos mostra que ele é capaz de revisitar os próprios trabalhos e criar algo especial. Não propriamente novo, mas não menos especial por isso.

OUÇA: “Dolphin”, “Cranked”, “Master” e “Home Free”