The Head and The Heart – Living Mirage



As primeiras produções de um artista ou de uma banda sempre estão em vantagem por dois motivos. Primeiro que não há base de comparação anterior, além de outros artistas. Segundo que, na maioria das vezes, existe uma autenticidade que raramente volta ao decorrer da carreira. E a perda da essência inicial do grupo norte-americano The Head And The Heart é, infelizmente, um ótimo exemplo desta teoria.

O que começou com um indie folk em 2009, com músicas contemplativas e doces, transformou-se, dez anos depois, em um som plástico, pop rock e repetitivo com o lançamento de Living Mirage. É estranho constatar que o grupo passou um tempo em um deserto da Califórnia para se concentrar apenas na produção de seu álbum mais pop e tão desconectado com o que um cenário natural e uma produção tão imersa poderia sugerir.

Para assinar definitivamente essa virada, a banda escolheu a chiclete “Missed Connection” para divulgar, pela primeira vez, o novo trabalho. No videoclipe, há cenas dos integrantes no deserto e, ao mesmo tempo, a música não conversa nem um pouco com atmosfera proposta. A medida que as imagens indicam uma intimidade dos músicos, grandes descobertas e boas nostalgias, a música super produzida está ao fundo mostrando que são apenas filtros, miragens e efeitos colocados propositalmente para vender uma fotografia do que a banda já foi.

Mas não dá pra enganar os ouvidos. Talvez para quem conheça a banda hoje em alguma loja de departamento ou no Uber, “See You Through My Eyes” e “Brenda” sejam músicas que trazem um bem-estar (que qualquer outro artista pop poderia trazer no momento). O problema é de quem já ouviu as simples, orgânicas e até imperfeitas primeiras gravações de THATH. Fica difícil acompanhar.

Uma das melhores músicas da banda, “Let’s Be Still” é incrível justamente pela dicotomia dispersão e encontro de vozes de Jonathan Russell e Charity Rose Thielen, que até murmura algumas vezes. Em Living Mirage, eles fizeram questão de criar quase uníssonos nos coros, deixando as vozes puras e perfeitas, como na faixa “People Need A Melody”, que parece uma versão masterizada do primeiro trabalho do grupo.

Fique claro que o problema não é a mudança sonora do grupo, mas sim a execução dessa virada. Na faixa “Honeybee”, por exemplo, é possível ver um caminho interessante que o restante do álbum poderia ter seguido, com uma atmosfera anos 80 e um pouco de desapego às repetitivas mensagens motivacionais, uma forte característica essencial da banda.

No entanto, é apenas neste momento que o grupo conseguiu cumprir o combinado de ter um novo começo, após três anos sem lançamentos, e agradar os ouvidos, de fato. Infelizmente, efeitos visuais nos videoclipes, capas nostálgicas e imersões no deserto não compram a autenticidade que um dia THATH já teve.

OUÇA: “People Need A Melody” e “Honeybee”

Oh Land – Family Tree



Qual é o caminho depois de se provar como uma das cantoras mais interessantes da Dinamarca? Para alguns artistas, o rumo da próximo etapa é milimetricamente calculado. Para outros, as circunstâncias da vida são mais fortes que qualquer planejamento. No caso de Oh Land, seu divórcio foi o que alterou os planos após Earth Sick (2014), em que ela manteve o estilo palatável cheio de synths e ainda deu outro passo rumo ao experimentalismo.

Devido ao fim de seu casamento, a dinamarquesa acabou se entregando a novas composições para exorcizar os demônios da separação. Como ocorre com muitos outros cantores e compositores, o trabalho logo após uma situação como essa costuma ser uma espécie de transição e é justamente o que acontece em Family Tree.

O quinto álbum solo da carreira de Oh Land, cujo nome eh Nanna Øland Fabricius, funciona como uma sessão de terapia para a cantora virar a página. Com serenidade, a artista se entrega ao conceito de árvore genealógica, que permeia o disco inteiro, como em “Coma”, “Sunlight” e na canção-título, usando folhas e galhos para fazer analogias.

Apesar de não mirar no pop desta vez, falta a Family Tree refrões mais consistentes. Piano e harpas são a base das melodias, que funcionariam bem como trilha de uma fábula medieval. Porém, poucos momentos geram algum impacto e o que começa como algo suave e calmante logo se torna enfadonho e repetitivo.

O que salva Family Tree de ser um sonífero esquecivel são as composições maduras de Oh Land. Trechos como ‘After the storm We’re starting over Even the rain knows that I am different now’ exemplificam a beleza das letras do álbum. Pena que logo que chegamos a esse ponto inspirador, ele acaba.

OUÇA: “Human Error”, “Brief Moment” e “After The Storm”

Charly Bliss – Young Enough



Charly Bliss é uma daquelas bandas que são maravilhosas e lançaram um debut incrível mas que poucas pessoas prestaram a devida atenção. Guppy, de 2017, mostrou uma banda capaz como ninguém de misturar o peso e a sujeira do grunge à la Hole com power pop e sensibilidade indie. Foi um debut realmente memorável, faixas como “Percolator”, “Glitter” e “Black Hole” com certeza estão entre as melhores músicas daquele ano.

Menos de dois anos depois, o quarteto de Nova York retorna com Young Enough e muda bastante seu som mas prova que Guppy não foi sorte. Aqui, a maior diferença na sonoridade está no fato de que há um uso muito maior e mais constante de teclados e sintetizadores do que antes, incluindo auto tune na voz de Eva Hendricks, e isso apenas eleva as composições ainda mais. Sua base continua sendo as guitarras sujas e riffs pesados, mas agora estão mais parecidos com o new wave dos anos 80 do que grunge.

Liricamente, os temas são mais pesados e sombrios do que a maior parte do seu debut, tratando por vezes de coisas como relacionamentos abusivos e violentos, morte e, de certo modo, vingança. É um álbum pesado e tenso, mas a voz quase infantil de Eva tem o dom de dar um tom completamente diferente, quase leve e divertido às composições. Quase idiossincrático. A ironia também permeia grande parte do álbum, talvez mais do que tudo no único verso ‘if you think it’s bad today, just wait‘ de “Camera” – é quase possível ouvir Eva sorrindo e dando risada enquanto o canta.

A faixa título “Young Enough” é, com certeza, a melhor produção da carreira da banda até o momento. Sua faixa mais longa, chegando quase aos cinco minutos e meio, ela é paciente e vai se construindo lentamente e aos poucos sob versos como ‘i had to outgrow it to know or destroy you‘ e ‘we are young enough to believe it should hurt this much‘ e nunca chega a explodir completamente.

O fato de não terem incluído o ótimo single “Heaven”, que faz parte da trilha sonora da segunda parte de Chilling Adventures of Sabrina, faz completamente sentido – a música não se encaixa aqui por ser reminiscente do grunge de Guppy. E o disco é tão bom que ela nem faz tanta falta. Young Enough é um álbum excelente, um passo quase arriscado para a banda mas completamente certeiro.

OUÇA: “Capacity”, “Under You”, “Chatroom”, “Young Enough” e “Hard To Believe”

Vampire Weekend – Father Of The Bride



2019. Quase vinte faixas. Quase 60 minutos de duração. Após seis anos, o grupo nova-iorquino Vampire Weekend lançou Father Of The Bride, quarto álbum de estúdio da banda. Sem Rostam Batmanglij, multi-instrumentista e produtor, o VW caminhava em busca de seu redescobrimento. O álbum é cercado de participações especiais.

Quase que caminhando de encontro ao álbum Modern Vampires Of The City, Father Of The Bride soa otimista e agradecido ao universo. Ensolarado, leve e animado. O oposto do álbum anterior, cuja melodia caminhava a passos quase tristes e contidos. Father Of The Bride é feliz e sorridente, como se Ezra Koenig vividamente abandona-se as mazelas do mundo lá fora. Um exercício mental de positividade e esperança.

O Vampire Weekend rememora e ressurge com ritmos multiculturais – uma presença que já fazia parte do repertório da banda. Revisitando a explosão globalizante da música que aconteceu nos anos 90  – o próprio título do projeto é inspirado em uma comédia homônima protagonizada por Steve Martin nessa década. Há algo meio lounge, jazz e até folclórico caminhando para algo mais natural. Teclado, violão, guitarra, baixo e bateria estão presentes delineando a voz de Koenig. Há instrumentais recortados de outros trabalhos. O VW apostou, desta vez, em levar o ouvinte a um universo muito próprio e particular. As composições atravessam camadas mais melancólicas à la The Smiths – melodias dançantes enquanto o vocal sussurra uma questão existencial difícil de compreender.  Relações humanas? Maturidade? Abandono? Desistência?

Ainda no universo noventista, há a aparição da composição de Hans Zimmer para a trilha sonora do filme Além Da Linha Vermelha, lançado em 1998, e dirigido por Terrence Malick, na música “Hold You Now”, primeira faixa do álbum, que conta também com os vocais de Danielle Haim. Referências e colagens. Auto referências também. Em “Harmony Hall”, o vocalista cita versos presentes em “Finger Back”, composição do álbum anterior. Em termos de produção, o álbum conta com  o multi-instrumentista Ariel Rechtshaid, Mark Ronson, Dave Macklovitch, Steve Lacy, guitarrista da banda The Internet, e Danielle Haim, guitarrista da banda californiana HAIM.

Alegria, apesar das nuvens lá fora. O novo álbum do VW é um retrato positivo, mas realista do mundo. Há inquietação, mas também existe algo a ser comemorado. Ventos novos e tranquilos.

OUÇA: “This Life”, “How Long?”, “Unbearably White” e “Sunflower”

Gus Dapperton – Where Polly People Go To Read



Após alguns singles, feats e dois EPs super bem-sucedidos e aclamados pela crítica, Yellow And Such (2017) e You Think You’re Comic (2018), o produtor e músico nova iorquino Gus Dapperton finalmente se rendeu ao clássico formato que chamamos de álbum, em 2019. O garoto de apenas 22 anos, completados recentemente, lançou Where Polly People Go To Read e três videoclipes para entrar de vez no universo auto suficiente que criou para si, que vai da produção à mixagem de suas próprias músicas.

Neste universo, o estético é tão importante quanto à sonoridade: ouvir Gus Dapperton não é a mesma coisa que assistir Gus Dapperton. O músico sabe como transferir a emoção de seu dream pop indie não apenas em seus videoclipes e shows, em que tem o seu jeito único de dançar, mas também em seu estilo, moda e feições. Não à toa, o (também) designer já deu entrevista para a Vogue sobre o que o inspira para se vestir. E se você pensou “bora pra Void”, é isto mesmo: Gus tenta remeter à sua infância, ou seja, à moda do final dos anos 90.

Na tríade de vídeos que lançou para promover seu debut, o americano experimentou duas estéticas principais que permeiam a sua obra: o lo-fi e a super produção. O que, basicamente, resume também suas músicas: enquanto você percebe que é apenas uma pessoa produzindo tudo, cantando em todas as vozes e coros e até mesmo o esforço da mixagem para soar lo-fi, as faixas são muito bem feitas, a vontade de sair dançando como num super musical é gritante e ainda sobra criatividade nas letras e instrumentos.

Falando em instrumentos, Gus prefere a produção analógica e menos artificial, apesar de, no final de tudo, o seu som soar bem sintético. “Coax and Botany” e “My Favorite Fish” são os melhores exemplos do seu álbum de estreia, principalmente pela base de guitarra e violão mais evidentes. No segundo caso, também, a voz do músico está muito mais limpa com o experimento de melodias mais graves e diversas.

Sem dúvida, Where Polly People Go To Read é uma reafirmação de autenticidade de um ex-aluno de música que abandonou os estudos por não querer ficar preso às teorias. Um dos destaques, “World Class Cinema” consegue ser o perfeito resumo desta espontaneidade com seus versos sem base e a voz duplicada em oitava de Gus. Sua contraposição é a seguinte, “Nomadicon”, que é tranquila e etérea, apesar de evidente uma vontade de crescer. Mas ela só atinge mesmo a ansiedade com a frase cruel do refrão ‘I hate it that I hurt you just for fun, It tasted like the perfect medicine’.

O que sabemos, até agora, é que Gus Dapperton é aquele artista que não quer ser definido por um estilo – nem de música, nem de roupa, nem de dança. E, mesmo que consigamos classificá-lo dentro do indie e dream pop, é justo que ele mesmo não se limite e traga para a cena muito mais obras artisticamente ricas.

OUÇA: “World Class Cinema”, “Coax and Botany” e “My Favorite Fish”

MARINA – LOVE + FEAR



Para um álbum de uma artista pop, pode se dizer que Love + Fear, da galesa MARINA (agora sem The Diamonds), foi aguardado de modo especial. Isso porque ao fim da divulgação de Froot (2015), a artista tinha dado uma pausa na carreira musical para se dedicar a estudos por algum tempo. Voltando pouco a pouco às atividades a partir do final do ano passado, ela começou mudando o nome artístico e lançando “Baby”, parceria dela junto a Luis Fonsi em música de Clean Bandit. Desde então, outros singles foram divulgados com clipes; e em fevereiro, veio anúncio de um álbum duplo. No início do mês passado, saiu a primeira parte, Love, mas só no último dia 26 que a obra total foi revelada.

O resultado é decepcionante. Exceto pela voz marcante de MARINA, sempre competente, tudo aqui soa muito genérico. E olha que se trata de um disco com alguma variação, que vai de beats e efeitos vocais inspirados pela ascensão do reggaeton (“Orange Trees”, “Superstar”, “You”) e passa por levadas de electropop tradicional (“Enjoy Your Life”, “Believe In Love”), com alguns trechos de baladas ao piano (“To Be Human”, “Soft To Be Strong”) e com efeitos orquestrados (“Life Is Strange”) nas 16 faixas. Acontece que nada disso traz uma marca maior de diferenciação da artista de outros de mesmo estilo  – algo que ela fez razoavelmente bem no quase kitsch The Family Jewels (2010) e no coeso synthpop de Froot.

As composições também estão longe de serem as melhores da artista. Num geral, não são marcantes, havendo um ou outro refrão de maior destaque, menos pela beleza do que pela irritação. O-Oo-Oo-Orange… E por falar em letras, ao ser guiado por um conceito das duas emoções primitivas, o álbum também traz uma lírica baseada na superação e positividade. Em tese, soa bacana; mas, pela extensão do disco e pela forma da mensagem quase autoajuda martelando nas duas partes – “you have to be soft to be strong”, “no more suckers in my life”, “so enjoy your life” -, o que se obtém mais facilmente é o cansaço.

Dito isso, há sim momentos positivos no disco. A já citada voz da artista é muito bem utilizada em algumas faixas, como nas linhas sintetizadas de “End Of The Earth” e “Life Is Strange”, com os melhores arranjos do disco. O single principal, “Handmade Heaven”, se não empolga tanto quanto os de álbuns anteriores, não compromete ao mostrar a nova fase otimista da galesa. Da mesma forma, se não fosse tão longo e repetitivo na mensagem lírica, o álbum poderia ser muito mais aproveitado, de preferência com escolhas de produção melhores. Mas o resultado final não inspira amor nem amedronta; no máximo, gera esquecimento.

OUÇA: “End Of The Earth” e “Life Is Strange”

CHAI – Punk



Punk é o segundo álbum completo da banda japonesa CHAI, seguindo seu debut Pink em 2017. Apenas o fato de que seu debut se chama Pink e o segundo álbum, Punk, já dá pra ter uma ideia que o senso de humor é algo bastante importante para as moças de Nagoya. O quarteto faz uma mistura interessante e inusitada de pop punk com elementos dance, eletrônicos e de girl band anos 60.

As moças do CHAI têm como propósito redefinir o que é ser ‘kawaii’ em japonês, ou seja, o que significa ser ‘cute’ em inglês; ou ‘bonitinho’/’fofo’ em português. Elas fazem isso com uma mensagem bastante simples e inclusiva de que todos podem ser kawaii, cada pessoa de sua forma, mesmo quando isso vai contra os padrões de beleza (principalmente) japoneses. Algo bastante simples mesmo e universal, mas não pouco importante e bastante feminista.

O som e mensagem das moças já atraiu atenção desde seus primeiros lançamentos, os EPs Hottakara Series e Homegoro Series, principalmente na Europa. Seu single “Gyaranboo” se encontrou no Top 50 das músicas mais ouvidas no Spotify no Reino Unido sem nenhum esforço por parte da banda. Talvez por esse motivo elas tenham sido convidadas pelos queridinhos do hype Superorganism para ser sua banda de abertura.

O CHAI realmente faz uma música bastante diferente, até mesmo para os padrões da música japonesa atual, o que as torna bem interessantes. Elas definem seu som como influenciado por Cansei de Ser Sexy, Gorillaz e Jamiroquai, assim como Chvrches e Justice. Punk traz todas essas influências e também adiciona elementos mais tradicionais pop punk resultando em um álbum divertidíssimo do começo ao fim.

Diversão, mas com um propósito, parece ser o objetivo final das moças do CHAI o tempo todo e isso é bastante perceptível. As letras oscilam o tempo todo entre o japonês e o inglês, e o sotaque da vocalista principal Mana é tão carregado que nem sempre é possível distinguir entre os dois idiomas. E isso, nem de longe, é um problema ao longo da audição do disco.

Sempre houveram alguns nomes orientais que conseguiram se manter no mundo musical ocidental, como o X-Japan e o Shonen Knife, e agora com a explosão de k-pop acontecendo no mundo pop, o preconceito ocidental com músicas e línguas orientais parece estar um pouco mais leve. E isso é tudo o que as meninas do CHAI precisam para poderem se firmar como um nome relevante dentro da esfera alternativa. Talento e qualidade musical para isso elas já mostraram que têm.

OUÇA: “Choose Go!”, “Fashionista”, “I’m Me”, “Feel The Beat” e “This Is Chai”

Sara Bareilles – Amidst The Chaos



Em 2013, Sara Bareilles lançou The Blessed Unrest, que rendeu a ela uma merecida indicação ao Grammy de melhor álbum. Desde então, a norte-americana se manteve ocupada com projetos como a trilha sonora da peça Waitress, indicada ao Tony, prêmio máximo da Broadway. Nesses seis anos, os Estados Unidos e o mundo mergulharam em uma situação estarrecedora, devido à ascensão de políticos como Donald Trump. Isso inspirou Sara a criar Amidst The Chaos, sua forma de lidar com a bagunça que temos vivido.

O lançamento começa muito bem, explorando a inquietação da cantora por meio de músicas pulsantes como “Armor”, uma espécie de grito de autodefesa e fortalecimento. Na primeira metade do álbum, a artista explora guitarras e harpas, elementos atípicos para a sonoridade dela.

O problema começa na segunda parte do álbum, pois Sara não apresenta absolutamente nada novo, tanto nas melodias quanto nas letras. Músicas como “Poetry by Dead  Man” e até “A Safe Placeto Land”, dueto com John Legend, transformam a festa num enterro, graças a um ritmo sonolento, sendo esquecidas assim que terminam.

Apesar de não estar à altura dos álbuns anteriores, Amidst The Chaos está longe de ser fraco. Até nas canções menos inspiradas, Sara Bareilles nos lembra do motivo de ser uma das compositoras mais respeitadas da indústria. E não há um momento sequer em que a cantora não consiga nos encantar com seu domínio vocal e a suavidade com que canta, o que já serve para nos acalmar durante tempos caóticos e desoladores.

OUÇA: “No Such Thing”, “Eyes On You”, “Armor” e “Wicked Love”

The Japanese House – Good At Falling



Em 90% das vezes que eu menciono o nome The Japanese House mais da metade das pessoas acham que eu falei errado o nome da banda Japanese Breakfast, aquela banda que na verdade é um projeto solo da cantora e compositora americana-coreana Michelle Zauner. Já a outra metade pensa na Japan House em São Paulo. Mas não é nenhuma dessas duas coisas.

The Japanese House é o pseudônimo e, também, projeto solo de Amber Bain, cantora e compositora de Buckinghamshire, Inglaterra. Com quatro EPs na bagagem, que foram lançados pela Dirty Hit (gravadora idealizada e comandada pelo pessoal do The 1975), agora Bain resolveu sair do anonimato com seu primeiro álbum Good At Falling e mostrar que o The Japanese House não é, como muitos pensavam, um projeto paralelo do Matty Healy e George Daniel do The 1975.

As primeiras músicas lançadas sob o pseudônimo saíram em 2015 quando Bain tinha apenas 19 anos. Elas eram carregadas de auto tune, que protegiam o anonimato e brincavam com classificação de gênero, e efeitos de guitarra que soavam sim bem parecidos com algo que teria um dedinho de Healy e Daniel.

Já em Good At Falling, o auto tune ainda está presente mas são as letras e a delicadeza das palavras que entregam a vulnerabilidade que o álbum carrega. É um disco que mostra a evolução de Bain como pessoa e artista. Good at Falling é um ciclo de acontecimentos muito pessoais, como a morte de alguém próximo que você ama e o processo de luto, sobre pensar que achou salvação em um novo relacionamento e ir percebendo aos poucos que o relacionamento está se desmanchando. Bain fala muito sobre perceber que tudo passa e que, eventualmente, tudo fica bem.

Várias vezes durante o álbum são lançadas perguntas que reverberam diariamente na cabeça de quase todos os jovens Millennials. O niilismo presente em faixas como “Maybe You’re the Reason” e “Follow My Girl” com frases como “is there a point to this?”, “should I be searching for some kind of meaning?” e “nothing feels good it’s not right” refletem a realidade de uma desesperança que sonda a vida de jovens em países como os Estados Unidos, Brasil e outros.

A produção do álbum merece um destaque a parte. Produzidas por George Daniel (The 1975), BJ Burton (Bon Iver, James Blake), e pela própria Bain, as faixas com camadas de sons que parecem infinitas convidam quem escuta a cada vez que escutar uma música perceber um som novo. Os sons trazem ainda mais profundidade para um álbum tão pessoal, tão cru, mas ao mesmo tempo tão confortante. Good At Falling parece que foi encapado em um cobertor macio, pronto para se deitar em cima e enquanto escuta os vocais suaves de Bain.

São treze faixas e, de todos os quatro EPs, apenas uma música fez o corte para o álbum. A faixa “Saw You In A Dream” aparece em Good At Falling como uma versão acústica e mais pura. Sem a máscara do auto tune, Bain gravou essa versão em dois takes ao vivo e, como ela mesma disse em entrevistas, “quase dá para ouvir suas lágrimas”.

A nova versão se chama “i saw you in a dream” e fala sobre sonhar com alguém que já partiu desse mundo e a única forma de ver a pessoa de novo é sonhando. Na faixa, Bain canta “it isn’t the same but it is enough” (não é o mesmo, mas é suficiente – em tradução livre) e amarra, aparecendo como faixa final, todo o sentimento que o álbum carrega e passa. Perder um amor, seja romântico ou não, nunca é fácil, e nenhuma experiência vai ser igual a outra, mas nos resta seguir em frente e tentar aproveitar o melhor da próxima situação.

Good At Falling é muito importante, principalmente para a comunidade LGBTQ+ que quer encontrar conforto e representatividade em artistas jovens. É um disco que força uma autorreflexão sobre nossos sentimentos e relacionamentos, e a posição que eles ocupam em nossas vidas, na faixa “Worms” Bain nos mostra exatamente isso cantando “Invest yourself in something worth investing in. You keep repressing it”. Good At Falling é o melhor debut que o The Japanese House poderia ter.

OUÇA: “Worms”, “Follow My Girl” e ” Maybe You’re The Reason”

Sigrid – Sucker Punch



NSigrid é promessa já faz alguns anos. A norueguesa despontou na virada de 2016 para 2017 com o single “Don’t Kill My Vibe” e desde então vem sendo apontada como o próximo grande nome da música, ganhando inclusive uma série de prêmios no quesito artista revelação. Depois de lançar uma sequência de excelentes singles, temos em mãos seu primeiro disco: Sucker Punch. O álbum não é perfeito, mas, sem dúvidas, Sigrid se torna merecedora de todo hype que a cerca ao construir uma obra coesa, honesta e recheada de refrãos bem construídos e pegajosos.

É difícil não comparar a música feita por Sigrid e a música feita por Lorde. Além de uma sonoridade bastante próxima, com Sigrid mais enérgica, as duas dividem temas (desilusões, cotidiano e não adaptação ao convencional) e até mesmo formas de compor, trazendo descrições de cenas, pessoas e lugares. Apesar das proximidades, Sucker Punch não tem um mega hit como “Royals”, mas a explosão de cada refrão, com destaque para “Sucker Punch” e “Basic”, não perdem em nada para “Team” ou “Green Light”.

E por falar em refrãos, Sucker Punch é um desfile de potenciais hits. Mais da metade das faixas poderia ser lançada como single. Apesar do impacto nas paradas não estar sendo o esperado, cada canção gruda na sua mente após uma única audição, tal é o vigor da música criada por Sigrid e seus parceiros de composição e produção. Além das músicas feitas para pista, há espaço para algumas baladas, com destaque para “In Vain”, que revela uma intérprete que sabe rasgar a voz quando precisa e deixar todo o sentimento transparecer. Ainda nesse sentido, “Dynamite”, a faixa final de Sucker Punch, é a melhor música da Adele que a Adele não escreveu e nem gravou.

Apesar das comparações, e aqui ainda caberia Chvrches, Sigrid tem voz própria, algo nem sempre comum para artistas com pegada pop em seus discos de estreia. Há uma peculiaridade em sua voz e interpretação que a torna única. Mesmo sendo comparada com artistas que estão no mercado a cinco, dez ou quinze anos, Sigrid é extremamente contemporânea, seja por suas letras ou pelas escolhas de produção. Não há espaço para saudosismo em Sucker Punch. Este é um disco do “agora”.

No entanto, nem tudo é perfeição pop em Sucker Punch. Como pequenas falhas, podemos apontar duas ou três faixas que pouco ou nada acrescentam ao trabalho. “Level Up”, com pouco mais de dois minutos, destoa completamente do restante do álbum. Com uma sonoridade que chega a lembrar Little Joy, a faixa está totalmente deslocada entre as poderosas “Don’t Feel Like Crying” e “Sight Of You”. Outra faixa que não diz a que veio é “Business Dinners”, e até por estar perto do fim do disco, soa ainda mais desnecessária.

Mesmo que comercialmente não se cumpra, Sigrid não é mais uma promessa. A artista se tornou realidade com seu robusto disco de estreia. Sucker Punch é uma sucessão de singles poderosos envoltos em uma produção totalmente contemporânea. Sigrid é ainda muito jovem e este é apenas seu disco de estreia, no entanto o poder e o talento que sobram, nos fazem ficar ansiosos por tudo que a artista ainda há de criar. Sigrid é dessas que vale a pena acompanhar de perto e Sucker Punch é seu primeiro triunfo.

OUÇA: “Strangers”, “Don’t Feel Like Crying”, “Sucker Punch”, “Don’t Kill My Vibe”, “In Vain” e “Basic”