Say Lou Lou – Immortelle


Com 7 músicas, as irmãs Say Lou Lou lançam o segundo álbum da carreira. Se nunca ouviram, é só imaginar um voz sexy sussurrando dentre batidas pop-eletrônicas. Mas, em Immortelle eles foram muito além do estereótipo noir.

Claro que toda estética de filme noir ainda é uma grande referência para dupla. Em entrevista a NME, elas dizem se inspirar assistindo filmes e clipes antigos, a partir desse contato criaram uma vibe, um mundo particular que contextualiza o álbum. Essa narrativa e estética está explícita no curta que acompanha o álbum. Immortelle é antes de mais nada um manifesto feminista, sobre como as mulheres são vistas no mundo.

As irmãs defendem que um artista não pode ficar restrito apenas a um tipo de mídia. O importante é a audiência engajar com suas produções. O curta também parte desse ponto, que as mulheres não devem ser definidas apenas por uma coisa e que são capazes de muito mais. Em “Golden Child”, a temática de liberdade também está presente, como percebemos no trecho: ‘They’re gonna cut you to the core/ Gonna try to cool you down (down)’

Com uma melodia crescente, “Ana”, o single do álbum soa como a junção perfeita entre Portishead e Lana Del Rey. Cercada por violinos intensos por toda a composição, a música é o alterego de uma mulher no topo de tudo. Depois de ouvir as outras músicas, que apesar de parecerem meio repetitivas, são muito originais ao transitar por referências desde sci-fi, retro-futurista até disco anos 70. As sete músicas do álbum acabam por ser pouco e não conseguir suprir a necessidade do ouvinte, que apesar de novo, é ávido por mais Say Lou Lou.

OUÇA: “Ana” e “Golden Child”

The Ting Tings – The Black Light


Dez anos. Esse é, de maneira rústica, o intervalo de tempo entre o primeiro álbum e esse quarto, o The Black Light, na carreira dos britânicos do Ting Tings. “Shut Up And Let Me Go” e “That’s Not My Name” aparte, é possível traçar um panorama interessante dentro desse grande espaço de tempo: de onde a dupla partiu e até aonde a dupla está agora. E, além disso, de que o maior instrumento da carreira do duo acaba sendo o tempo e como ele molda os interesses deles.

Nesse quarto disco a dupla abusa muito mais de elementos industriais que permearam um pouco os álbuns anteriores – se observarmos o single solto “Hands” antecessor ao segundo álbum conseguimos enxergar bem essa construção – e consegue deixar esse ritmo eletrônico mais cru e emergencial de uma maneira interessante para ser trabalhado dentro de uma banda tipificada dentro do grande gênero indie. Jules e Katie ainda abusam de elementos da grande ressurgência da cena techno, criando uma amalgama eletrônica com elementos de guitarra dentro de seu novo estilo – um indie pop electro industrial bem bolado.

The Black Light demorou quatro anos para aparecer desde Super Critical, mesmo intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo álbuns, e essa pausa se pareceu muito necessária para eles. Esse quarto álbum parece servir como momento de autocrítica, de aceitar que sua identidade e criatividade do primeiro álbum foram essenciais para aquele instante, mas não estão mais alinhadas com os interesses da banda atualmente – o tempo, o grande instrumento.

Dentro desse panorama, The Black Light parece ser o primeiro álbum verdadeiramente do The Ting Tings desde o primeiro disco, aonde eles mostram de maneira muito mais fluida e fácil quais são os interesses deles atualmente. Essa falta de identidade fez a dupla sofrer muito e parecer uma reconstrução bizarra do sucesso do seu primeiro disco nos álbuns anteriores. Esse quarto álbum vem como uma construção de um novo modelo para a banda e, esperamos, que apareça como uma vontade de aprimoramentos e maior consciência nas composições dos próximos álbuns.

No fim das contas, o Ting Tings parece ter se reinventado dentro do seu mesmo jogo mais uma vez. Eu particularmente acho que a discografia da dupla tem seus momentos de luz e que possuí músicas geniais dentro das singularidades de seus álbuns – “Day To Day” e “Wrong Club”, por exemplo – mas The Black Light é, talvez, o álbum mais interessante desde o seu primeiro e grande sucesso. Apesar dos pesares, é bonito ver que a dupla continua na ativa e continua entregando música bem pensada para nos alimentar, mesmo que ainda vivam, em 2018, sob a sombra do seu sucesso de primeira viagem lá em 2008.

OUÇA: “A & E” e “Blacklight”

Tokyo Police Club – TPC


Após um quase possível término nos últimos anos, os canadenses do Tokyo Police Club estão de volta com TPC, seu quinto álbum. O resultado é um trabalho que não parece ter nada novo para dizer, mas diverte com algumas canções enérgicas.

TPC é um disco extremamente familiar para aqueles que ouviram qualquer disco do indie rock do início dos anos 2000. Ver o quão não-contemporâneo o álbum soa é um surpreendente lembrete de que quase 15 anos já se passaram desde 2005 – ano no qual a banda parece ter produzido seu novo trabalho.

Essa qualidade de “cápsula do tempo” funciona em determinados momentos, porque o Tokyo Police Club é muito feliz em recriar o momento de ironia juvenil que tornou esse gênero um fenômeno. A canção “Ready To Win”, por exemplo, consegue ilustrar como uma melodia e arranjos simples do rock de garagem eram frequentemente elevados por uma letra que parecia saída de um diário.

Em seus melhores minutos, TPC é um revival de uma época em que essa geração de bandas ainda era pequena. Com poucas pretensões, canções como “Can’t Stay Here” e “New Blues” são cativantes em sua simplicidade e muito lembram a finada trilha-sonora de The OC.

Em seus piores momentos – que infelizmente são a maioria -, o disco soa incrivelmente datado e muito pouco justificado. É difícil pensar o que este apanhado de 12 faixas têm para dizer que já não foi dito à exaustão. As canções são repetitivas, o que faz o álbum parecer muito mais longo do que de fato é.

OUÇA: “Ready To Win”, “Can’t Stay Here” e “New Blues”

Hippo Campus – Bambi


O que acontece quando você se desprende de qualquer obrigação com o passado e se concentra nas suas vontades do presente? O novo álbum do Hippo Campus, Bambi, é, de certa forma, a resposta certa em todos os níveis e nuances. Das letras que encaram a excessiva preocupação com tempos incontroláveis – passado e futuro – até o processo de composição melódica, dramática e atual.

Essa foi justamente a proposta do produtor BJ Burton, que também assina discos de Bon Iver, Low e Francis and the Lights: no início do processo, ele fez a banda escolher entre compor mais um “disco do Hippo Campus” ou se abrir enquanto músicos para novas tendências e influências. A escolha por viver o presente foi em unânime empolgação.

Antes do lançamento, enquanto o vocalista Jake Luppen publicava alguns spoilers em seu Twitter com as novas letras e possíveis mudanças na sonoridade, o grupo testou o público com a primeira música de trabalho, “Bambi”, e um videoclipe cheio de conceito. Segundo a própria banda, o single foi a última composição escrita para o álbum, feita para resumir sua temática: a luta pela saúde mental e o quanto isso, muitas vezes, cansa e altera seu humor, amizades e relacionamentos.

Estamos no presente, com traumas do passado e medo do futuro. Esse papo é familiar para você? Sim, o disco é um abraço a todos ansiosos, aquele que mostra que você não está sozinho nessa. A introdutória “Mistakes” já prepara os ouvidos e a emoção com um sintetizador e coro bem etéreo. A faixa, que inicialmente não encaixava em nenhuma parte e acabou como a perfeita introdução, carrega uma letra que não deixa por menos ao citar uma possível culpa cristã em não conseguir ser bom o tempo todo para todo mundo.

Para deixar ainda mais claro o assunto aqui tratado, Anxious dá continuação com um piano clássico de background, guitarra desplugada e sintetizadores animados. A dinâmica se mistura entre a entrada explosiva da bateria e versos sobre ansiedade social. Ela foi escrita pelo baixista Zach Sutton, que estreou nas letras do grupo com rascunhos do passado para mostrar como ainda se sente no presente. Esse sentimento é natural e faz parte de um crescimento ou tem mais coisa escondida aí?

Mais enérgica, “Doubt” é o paradoxo entre o que era o Hippo Campus e o que agora é com as suas novas influências, já que se contrapõe sozinha com versos mais felizes e mornos, até um refrão mais dramático, que remonta à sua essência. Ela questiona o que sempre queremos saber antes da hora: como saber se é amor ou não é? Segundo a banda, foi a primeira música de sua história feita baseada em um solo de teclado.

Já a “Why Even Try” não apenas volta, mas mergulha de cabeça às raízes com leveza e vocal baixinho. Escrita pelo guitarrista Nathan Stocker, ela narra uma amizade fracassada e o ciclo natural dos sentimentos. A mesma relação serviu de inspiração para a faixa “Bubbles”, com som mais moderno e estouro de guitarra no refrão, que lembra, vagamente, os nova iorquinos do Dirty Projectors.

Enquanto o álbum propõe que está tudo bem sentir o que for, desde que você se permita sentir, “Think It Over” vem tranquila para avisar que não é preciso, necessariamente, fazer algo a partir dos mesmos sentimentos. Sente-se, pense, use seu tempo a seu favor, assim como fez Luppen ao criar esta música inteiramente em um DAW, também pela primeira vez.

A sequência das últimas três faixas é um bom momento para lembrar as pessoas que ainda há humanos por trás da música. Enquanto “Honestly”, mais uma volta ao velho Hippo Campus, é a “mais metalinguística impossível” ao deixar o erro de gravação no começo, “Golden” – densa, cheia de elementos, pop e leve – tem uma série de perguntas dentro do longo relacionamento de Luppen e sua namorada. O contraponto chega dramático com a última música, Passenger, lenta, groove e com acordes complexos.

Muitos elementos são constantes em Bambi. Apesar de falar de um velho problema, o álbum se mantém atual por conta de todas as “primeiras vezes” da banda. A primeira vez de se desprender do passado, a primeira vez de compor inicialmente em sintetizadores e, principalmente, a primeira vez de falar sobre aceitar a ansiedade tal como ela é e aparece.

E já que o principal problema é não saber lidar com os tempos incontroláveis, nada melhor que fazer um ode ao presente, aos problemas contemporâneos, às novas sonoridades. Nada mais atual do que aceitar o inevitável. Nada mais inevitável, pelo menos para o grupo de Minnesota, de se propor a ser atual. Nada melhor do que ser o novo, e não o velho, Hippo Campus.

OUÇA: “Bambi”, “Bubbles”, “Golden” e “Passenger”

St. Lucia – Hyperion


A onda de nostalgia oitentista tem dominado o cinema, a televisão e a música. Diante da demanda por entretenimento que remete a essa época, o St. Lucia tem todos os ingredientes para emplacar. Aliás, sempre teve, desde a ótima estreia. Depois de When The Night (2013), a banda entregou o primoroso Matter (2016), lançando nossa expectativa nas alturas para o próximo trabalho.

Hyperion possui tudo o que o grupo já tinha feito, mantendo a promessa de ser a nova encarnação de artistas como Duran Duran e Tears For Fears. Os vocais empolgados de Jean-Philip Grobler, corais em refrões para encher estádios, letras otimistas e muitos sintetizadores continuam a dar o tom, mas há uma leve estagnação no material novo.

Pela primeira vez, algumas músicas do St. Lucia pecam pelo excesso de cacofonia, o que atrapalha tanto a melodia quanto os vocais. No entanto, trata-se de um erro que não está presente em todo o álbum. O restante das canções tem uma profusão de sons em harmonia com o estilo imponente do vocalista.

A mensagem que o grupo tenta passar é de esperança, como em “Paradise Is Waiting”, uma espécie de repaginação da clássica “Freedom”, de George Michael. Esse otimismo faz o ritmo energético soar ainda mais agradável. Os refrões fáceis de lembrar permeiam o trabalho inteiro e apenas nas duas últimas músicas a banda coloca o pé no freio. A última música tem uma atmosfera épica, apesar da calmaria. Fechar em grande estilo é algo que eles sabem fazer muito bem.

O St. Lucia flerta bastante com o saudosismo pela década de 80, mas isso não significa que o som da banda seja restrito a quem gosta de olhar para o passado. Basta uma chance para se encantar pelo som contagiante do grupo, com seus refrões que grudam na mente rapidamente.

OUÇA: “China Shop”, “Walking Away” e “A Brighter Love”

Christine and The Queens – Chris


Christine é Heloïse Letissier. The Queens são as performers drag queens que a acompanharam no início da carreira, como vocal, prestando apoio nos primeiros shows. É, em parte, nesta vida e universo que a artista desenvolveu o seu trabalho e construiu alter ego Christine.

Christine, quando canta, transita entre o freakpop – como ela mesmo descreve seu gênero -, o synthpop e o art pop.

E é neste pop reinventado que nos detemos quando falamos da música da francesa. Desenhado de forma elegante, ele é apresentado por Christine and the Queens em álbum novo, fresco, com 23 músicas – algumas das quais já eram conhecidas do público por meio de singles lançados previamente. É o caso de “Girlfriend (feat. Dâm-Funk)” e “Doesn’t Matter”.

Chris, o segundo disco da carreira, tem 1h32min de duração. Neste aspecto é um álbum opulento, e oferece espaço para que Letissier cante sobre diversos aspectos da sua. E para que dance também. Por trás do projeto Christine and the Queens, Heloïse estudou ballet por dez anos e já declarou que, se gosta de uma música, precisa dançar. É no movimento que ela parece encontrar razão para existir. O que a jovem propõe é som refinado, que mistura uma voz firme e segura, com versos cantados em francês e em inglês, acompanhados do instrumental tipicamente eletronizado de hoje em dia.

Tudo em Chris e na linha estética proposta por Christine – fotografia, videografia e coreografias -, é alinhado a um forte senso estético minimalista que se reflete nas próprias canções. É possível considerar o novo álbum como complementar ao trabalho desenvolvido no debut, Chaleur Humaine (2014). Foram quatro anos de amadurecimento e bons frutos, colhidos após o sucesso internacional do disco de apresentação de seu trabalho ao mundo.

Neste novo registro a artista dá passos ainda mais fortes do que aqueles do primeiro álbum, e sem hesitação. Christine é uma artista que consegue ser, ao mesmo tempo que coerente em todos os elementos de sua obra, segura, vivaz e suave.

OUÇA: “Doesn’t matter”, “5 Dollars” e “What’s-Her-Face”.

Pale Waves – My Mind Makes Noises


A arte nos permite viajar em diferentes gêneros na hora de compor e expressar ideais. Mas não apenas transpassar, como também nos dá a possibilidade de mesclar suas formas criando identidades únicas e buscar o lúdico. O debut da banda britânica Pale Waves nos faz pensar nas possibilidades que diferentes rotas artísticas proporcionam. My Mind Makes Noises foi capaz de trazer elementos de décadas atrás e transformá-los em algo fresco, moderno e revigorado.

Heather Baron-Gracie, vocalista da banda, criou formatos estéticos tão fortes, que apesar de ter referências bastante explícitas do passado, acaba por se tornar uma autorreferência musical de seu próprio trabalho. O álbum de estreia do Pale Waves bebe bastante na fonte do new wave e do gótico dos anos 80, ao mesmo passo que concilia tudo isso com o indie pop atual. As composições de Heather focam em problemáticos dramas amorosos, mas, assim como os Smiths, ela consegue amenizar o teor depressivo das letras com arranjos musicais alegres e dançantes.

Do começo ao fim do álbum temos a sensação de estarmos numa balada oitentista completa com músicas explosivas como “Eighteen” e “One More Time”, e momentos de lentidão melancólica com “When Did I Lose It All” e “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”. Guitarras e riffs sintetizados criam o pano de fundo de todas as composições. A ode ao vintage e retrô é levada ao extremo, porém com uma energia renovada para a segunda década século XXI. Apesar da sensação de já termos ouvido todos esses elementos antes, o disco é extremamente atual.

My Mind Makes Noises é uma produção coesa. Por vezes, até em excesso. A banda encontrou sua fórmula e resolveu sugar dela até o limite, criando uma atmosfera um tanto quanto previsível. Isso também é perceptível nas letras de Heather, que apresentam, em sua maioria, histórias melodramáticas de romance adolescente. No entanto, as faixas foram bem distribuídas, mantendo a audição agradável conforme avançamos, com canções marcantes que acabam se destoando umas das outras.

O apelo visual é algo muito importante ao tratarmos de Pale Waves. Seus principais singles ganharam videoclipes que reforçam a estética como um dos pontos primordiais da banda. Os trejeitos de Heather e sua maquiagem pesada têm os mesmos impactos que o cabelo de laranja e a postura revoltada de Hayley Williams tiveram com o Paramore em 2005. A identidade musical única e o visual dos ingleses garantiram uma rápida ascensão no cenário alternativo de Manchester.

O trabalho de estreia do Pale Waves é honesto. Os britânicos conseguiram se lançar ao mundo com um disco cheio de bons momentos e alguns contrapontos. My Mind Makes Noises não é genial, mas com certeza debutou iluminando a cena com novos ares, mesmo que ele faça isso reaproveitando elementos característicos do passado.

OUÇA: “Eighteen”, “One More Time”, “Television Romance” e “Kiss”

Teleman – Family Of Aliens


Quando escutei Teleman pela primeira vez, lá pelo fim de 2013 ou começo de 2014, a banda me conquistou já de primeira. E acredito que, caso ainda não conheça a banda, pode acontecer o mesmo com você. Porque a sonoridade tem uma personalidade muito característica, é uma mistura de elementos que parecem muito familiares com outros completamente idiossincráticos.

É fácil imaginar que Teleman vem de um outro tempo, àquela virada do milênio que causou tantas convulsões no mundo da música que continuam a reverberar até hoje. Parte disso se deve ao fato de que a banda é, na verdade, uma espécie de ressureição da cultuada Pete and the Pirates. Mas mesmo essa encarnação anterior não era tão antiga assim. E, se os vocais com uma enunciação peculiar, ao mesmo tempo tão britânica e tão indefinível, são um dos elementos que herdaram, outros elementos estão menos proeminentes. As guitarras, que antes eram o que moviam a música, de uma forma bastante afinada com os hits da década passada, agora dão espaço a uma maior harmonia entre os instrumentos, com uma gama e utilização que está mais próxima do indie escandinavo.

É difícil encontrar uma banda que possa ser comparada a Teleman atualmente. Não porque sejam melhores do que os outros, mas simplesmente porque estão tentando fazer algo diferente. Se você gosta de elementos tão distintos quanto os vocais do último disco do Wolf Parade, ou as melodias dos primeiros álbuns de Peter, Bjorn and John, pode valer a pena conhecer o trabalho desses britânicos. No entanto, as comparações não fazem justiça. A mistura dessas coisas que citei acima não deveria ser, necessariamente, algo que funcionasse. Ainda menos se considerarmos uma inesperada aura de britpop que surge nas entrelinhas, conforme vamos nos acostumando à audição.

Talvez Family Of Aliens não seja a melhor das introduções a Teleman.  É verdade que esse é, provavelmente, o álbum no qual flertam de forma mais descarada com o pop, mas, ainda que algumas faixas resultem muito boas (o destaque sendo “Twisted Heart”), o conjunto não se revela tão atraente quanto seu debute, Breakfast. A personalidade não está presente de forma tão forte, impedindo que as peculiaridades que fazem dessa uma banda que vale a pena ser ouvida fiquem submersas em composições mais ordinárias. Os sintetizadores parecem estar ligeiramente exagerados, as letras (com algumas exceções) não são tão memoráveis. Os ritmos ainda são bem estruturados, e as canções têm coração, mas esses elementos não serão suficientes para conquistar um público abrangente. Embora Teleman provavelmente vá ser (se já não é) mais conhecida do que a banda que lhe deu origem, as chances de que vá agradar um espectro muito grande de pessoas são poucas. É uma típica banda cult.

OUÇA: “Twisted Heart”, “Family of Aliens” e “Fun Destruction”.

Say Hi – Caterpillar Centipede


Após nove álbums, Eric Elbogen, único nome por trás do Say Hi, resolveu aposentar a banda. No começo do ano passado, como forma de dizer adeus, criou uma campanha de financiamento coletivo para relançar todos os discos em vinil e um novo projeto musical, o quase esquizofrênico, meio rap e meio synthpop, Werewolf Diskdrive. Com o sucesso do relançamento dos vinis e a fria recepção do Werewolf Diskdrive, Elbogen resolveu dar mais uma chance ao Say Hi ao lançar o décimo disco cheio, Caterpillar Centipede. Há quase dez anos não ouvíamos um disco realmente bom do prolífico Say Hi, e é exatamente isso que Caterpillar Centipede é: um disco verdadeiramente bom.

Com o término e recomeço, podemos dizer que o Say Hi é uma nova banda. Caterpillar Centipede é o disco mais orgânico que Elbogen já criou. Os sintetizadores e pequenos efeitos eletrônicos, abrem espaço para a sonoridade de uma banda convencional com guitarra, baixo e bateria. É justamente na presença em primeiro plano das guitarras que mora a força da música de Caterpillar Centipede. Há momentos quase punks (“Mathematicians”), quase shoegaze (“Sweaters”) e alguns solos, com destaque para o solo da parte final de “Every Gauge Is On Empty”. Essa é a forma final da sonoridade que já se anunciava nos últimos três discos da banda.

As músicas do Say Hi sempre trouxeram personagens dos mais diversos, como robôs, vampiros e fantasmas. No entanto, Caterpillar Centipede não traz personagens e é possível enxergar os sentimentos do homem por trás do nome. Letras e melodias transparecem mais fragilidade e menos ironia dessa vez. Isso fica claro já na faixa de abertura, “Don’t Go Like That, No”. Neste quesito, outro destaque é “Sweaters” com uma das letras sobre amar mais inspiradas que Elbogen já escreveu (I want you to be my stay-inside winter / I want you to be my freeze-dried goods / I want you to be my layers of sweaters / I want us to get lost in the woods / I hope I’ve opened my eyes in the nick of time).

Claro que traços do passado ainda se fazem presentes, tanto na sonoridade quanto nas letras. Por exemplo, o sintetizador de “Green With Envy” nos faz lembrar as melhores faixas do pequeno clássico Numbers & Mumbles de 2004. Já “Makin’ Faces Like (You Ate A Lemon)” e “Neon Signs” são exemplos perfeitos de como Elbogen é mestre no uso de metáforas e ironia para discutir sentimentos e cenas do cotidiano.

Caterpillar Centipede é o tipo de volta que Elbogen precisava. Um disco coeso, direto, com letras espertas como sempre e um instrumental preciso. O lado mais humano presente nas letras e na música desse disco vestiu muito bem nessa nova fase do Say Hi. Se for para manter a qualidade de Caterpillar Centipede, vamos esperar que essa volta seja definitiva e que o futuro nos reserve ainda muitos outros discos pequenos e bons do pequeno e bom Say Hi.

OUÇA: “Don’t Go Like That, No”, “Sweaters”, “Every Gauge Is On Empty”, “Green With Envy”, “Neon Signs” e “Dreaming The Day Away”.

Years & Years – Palo Santo


Em 2015 foi difícil escapar de “King”, o primeiro grande sucesso do Years & Years. A música era realmente boa e tocou em todos os lugares, desde o som ambiente de lojas de departamento até os mais alternativos ambientes mundo afora. Com a chegada do disco de estreia, Communion, ainda em 2015, o sucesso foi repetido, mas não havia nada com tanto potencial quanto “King”. Assim, foi impossível esconder a sensação de que a banda marcaria apenas aquele verão, estando sempre apoiada na fama anterior de seu homem de frente, o ator Olly Alexander. Mas eis que em 2018, o Years & Years lança Palo Santo e prova que veio para ficar. O novo trabalho é imensamente mais consistente que seu predecessor e mescla conceito, boas letras e um eletropop pegajosíssimo.

Apesar de todo o conceito intencionalmente criado pela banda por trás do disco (‘Palo Santo’ seria uma sociedade em que as noções de gênero não se aplicam, com a sexualidade sendo tema recorrente nas canções), esqueça a presunção e a chatice que permeiam boa parte dos discos conceituais. Ao contrário, Palo Santo vem recheado de uma das melhores misturas de eletrônica, pop e R&B que você irá ouvir este ano. É muito forte a influência da música e até do visual dos anos 90. As batidas, a dinâmica e até o timbre de Olly podem ser comparados aos bons momentos de Michael Jackson naquela década, e isso, nem de longe, é uma comparação descabida.

A trinca de abertura do disco com “Sanctify”, “Hallelujah” e “All For You” tem um nível de energia tão alto que é até difícil encontrar outro competidor para este quesito neste ano. São músicas imediatas, daquelas que te capturam na primeira audição, mas despertam a vontade de ouvir repetidas vezes e a cada vez descobrem-se novas camadas e detalhes que haviam passado despercebidos. Outros momentos comparáveis são as ótimas “Rendezvous” e “Preacher”. Claro que há momentos em que a energia diminui e surgem faixas mais intimistas, mas que não deixam o nível do disco diminuir. Neste quesito o maior destaque é “Hypnotised”, estrategicamente posicionada no meio do tracklist.

As letras são um destaque à parte. A primeira faixa divulgada, “Sanctify”, é extremamente dançante e pegajosa, e possui uma das letras mais interessantes do disco ao misturar sexualidade e imagens religiosas. Aliás metáforas e palavras com alusão à religião não faltam. Outros exemplos ficam por conta de “Karma” e “Hallelujah”. Boa parte das letras também carregam experiências pessoais de Olly e isso enriquece por demais a temática do disco. Assim Palo Santo se apresenta um disco com muito mais representatividade e personalidade do que a maior parte das canções de Communion.

Só nos resta agradecer o fato de que a ambição de fazer um disco conceitual não destruiu a perfeição pop que é Palo Santo. O álbum mostra maturidade e crescimento enorme em relação ao disco anterior, ao mesmo tempo que soa divertido, sensual e inovador. Palo Santo pode até não ter um single tão forte quanto “King”, mas a força do conjunto de canções prova que o Years & Years veio para ficar, enterrando de vez a suspeita de que a banda duraria apenas um verão. Olly Alexander não é mais reconhecido apenas por ter atuado em Skins, sem dúvidas, o Years & Years é seu projeto de mais êxito e Palo Santo é o ponto mais alto desta trajetória.

OUÇA: “Sanctify”, “Hallelujah”, “All For You”, “If You’re Over Me”, “Hypnotised” e “Palo Santo”