City and Colour – A Pill For Loneliness



O natural caminho que poderia ser percorrido por City and Colour após cinco álbuns de estúdio foi, após quatro anos de espera, concretizado com A Pill For Loneliness e suas 11 faixas regadas à melancolia de forma etérea, e não mais rústica como em 2005. Desde que plugou todos os instrumentos e começou a usar sintetizadores, este é o mais perto que Dallas Green chegou, até hoje, da maturidade sonora de seu projeto solo.

O sucessor de If I Should Go Before You, um álbum controverso, pop e com pouca referência a si mesmo, tem suas raízes mais fortes em trabalhos marcantes e atuais, como The Hurry And The Harm, de 2013, e Little Hell, de 2011. São detalhes que trazem à memória os dois melhores recentes trabalhos de Dallas Green: enquanto “Living In Lightning” traz a antiga base de violão com os solos de guitarra que intercalam notas no piano, “Young Lovers” tem a energia do hit de seis anos atrás, “The Lonely Life”.

Primeiro single, “Astronaut” não é a melhor tradução do que é APFL, talvez porque o próprio disco não seja uma unidade tão clara. Apesar da música de trabalho emanar uma aura celestial presente na maioria das faixas, ela ainda é uma das mais pops. “Mountain Of Madness” era, certamente, uma escolha que agradaria muito mais os fãs por remontar àquela tristeza profunda e desesperada que só ouvimos antes no indiscutível sucesso de “Two Coins”.

Outro destaque do álbum, a tímida e curta “Me And The Moonlight” tem uma harmonia tão bonita que é impossível não querer que a faixa se estenda por, pelo menos, o dobro do tempo. No entanto, é muito provável que esta seja, com sorte, só uma intro dos shows. Em contrapartida, “Lay Me Down” se torna o destoante e triste encerramento do álbum, composta quase toda apenas por piano, sintetizador e a voz desistente de Dallas Green, clamando o verso “lay me down, I’ve had enough”.

Talvez o grande erro de A Pill For Loneliness seja realmente algumas músicas com batidas muito pops e óbvias, feitas para vender hit em rádio, e algumas experimentações destoantes,  em meio a algumas das criações mais bonitas de todo o projeto City and Colour. Mesmo assim, Dallas Green conseguiu retomar um fôlego melancólico que seus fãs estavam tanto esperando.

OUÇA: “Astronaut”, “Me And The Moonlight” e “Mountain Of Madness”

Big Thief — Two Hands



Dentro da indústria musical há algumas possibilidades para que um artista lance dois álbuns no mesmo ano: o fracasso e o conceito são alguns dos cenários iminentes. E, com absoluta certeza, o flop não é a alternativa correta para o caso do Big Thief — banda do Brooklyn que lançou Two Hands, seu novo trabalho, apenas cinco meses após U.F.O.F..

A verdade é que se U.F.O.F era voltado para seres extraterrestres (sendo a explanação da sigla: “unidentified flying object friends”), Two Hands retorna a Terra para falar de nós, seres humanos. ‘I am that naked thing swimming in air / Why does that mean anything?‘ questiona a vocalista Adrianne Lenker na faixa de abertura de Two Hands. O existencialismo presente indica mais ou menos qual o tom das composições no álbum. Mais à frente da canção, Lenker abraça suas incertezas e o acaso de existir quando diz: ‘I don’t want to lock my door anymore / Hand me that cable / Plug into anything / I am unstable / Rock and sing‚ rock and sing‘, produzindo uma belíssima faixa de abertura: sensível, vulnerável e delicada.

Mas não é só sobre existencialismo que Lenker escreve. Na faixa “Forgotten Eyes” ela dialoga com questões sérias como pessoas moradoras de rua e os não ouvidos pela sociedade, segundo entrevista da própria ao Stereogum. A composição, seu refrão, ‘The wound has no direction / Everybody needs a home and deserves protection‘, juntamente aos violões, riffs e bateria mais que orgânica e energética de James Krivchenia, fazem desta canção uma das mais interessantes do trabalho. Lembra um tanto o Real Estate, pode-se dizer.

Voltando ao tema conceito, a delicada faixa-título abraça de uma vez por todas a ideia dos dois álbuns lançados em 2019 serem obras complementares. Two Hands continua a história de dois seres iniciada em U.F.O.F., uma relação entre “celestial” e “terráqueo”, porém sem os clichês de ETs criados e conhecidos por nós. A atmosfera das canções é algo tão natural que encanta. Mas especialmente em Two Hands isso é ultra trabalhado, simplesmente pelo fato do novo CD ser mais orgânico e possuir menos participações de samples e sons sintetizados. Tanto é verdade que é possível ouvir os rastejos dos dedos nas cordas do baixo de Max Oleartchik.

Ainda nos mesmos 39 minutos é possível ouvir a delicadíssima “Wolf”, o primeiro single “Not” — digno de uma performance espetacular ao vivo —, e a dark “Cut My Hair”. A verdade, no entanto, é que nada do que eu fale aqui chegará a preciosidade que é Two Hands. Big Thief é hoje uma grande banda, dedicada, talentosa e curiosa  (Adrianne Lenker é um exímia compositora, sem medo de mostrar sua vulnerabilidade) e a dupla de CDs é só a confirmação disso.

OUÇA: “Forgotten Eyes”, “The Toy”, “Two Hands” e “Not”

Boy & Bear – Suck On Light



O folk é um gênero musical que tem tudo a ver com raízes. Seu nome tem a mesma etimologia da nossa palavra folclore. O que nos traz à mente histórias e canções passadas de geração para geração, que dialogam diretamente com a história e as tradições de um povo. A transposição disso para a música contemporânea não é nunca direta. Os subgêneros de metal que se relacionam com o folk, por exemplo, costumam beber na fonte de um ideal medieval de culturas europeias, usando suas figuras mitológicas como símbolos. Já no rock mainstream e no indie, o folk começou com artistas gravando músicas que, muitas vezes, já existiam décadas antes, cujas autorias não eram fáceis de definir, se é que não eram composições que foram se moldando ao longo do tempo. Uma boa parte das primeiras gravações fonográficas foram dedicadas a esses registros, mais por seu caráter histórico do que artístico.

Essas gravações, no entanto, cristalizaram uma imagem do que seria uma canção folk. A primeira relação que a maior parte de nós tem com essa palavra é a cena dos EUA nos anos 1960, na qual artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Johnny Cash regravaram alguns desses clássicos, muitas vezes dando traços autorais a esses novos registros. E foi através de uma afinidade com o ideal de como uma canção folk deveria soar, com toda sua história, que artistas desse período passaram a compor suas obras, que até hoje são populares mundo afora. Desde então, as nossas expectativas sobre o folk são praticamente as mesmas.

Mesmo na Austrália, do outro lado do mundo, essas expectativas não foram revolucionadas, graças à mesma matriz da língua inglesa. Ainda que o folk tenha diversos matizes regionais, sua identidade geral é fácil de reconhecer. Por isso, na década passada, quando o folk passou por um novo ciclo de retorno, as referências para quem produzia o som, assim como para quem ouvia, eram as do folk dos anos 1960, um folk infundido com muito rock, que trazia suas letras para questões contemporâneas, com guitarras mais energéticas que Dylan conquistou a tanto custo, mas mantendo uma identidade relativamente estável. Foi nesse cenário que a banda Boy & Bear surgiu, primeiro fazendo covers de seus ídolos do país dos cangurus, e depois com sua própria versão cantarolável e aconchegante do folk em seu debute Moonfire. A facilidade de conhecer e já sair acompanhando cada uma das faixas era um dos pontos mais altos do álbum.

Mas, como ocorreu com tantos artistas desse folk do novo milênio, Boy & Bear foi se debruçando cada vez mais para o rock e deixando o folk de lado. Se tornando cada vez mais hermética. Suas novas canções não convidavam quem as ouvia a aprender as letras para cantar junto. Mas o folk, como disse, é uma música de raiz. E elas sempre estão lá quando precisamos voltar. Suck On Light é um retorno às origens para a banda.

Logo de primeira audição, algumas das melodias parecem ser exatamente as mesmas que a banda toca há oito anos. Pode-se dizer, no entanto, que são versões mais maduras dos mesmos riffs. O que faz com que sintamos falta da jovialidade do primeiro álbum, mas que também tenhamos uma ideia de sua trajetória. Ainda que não sejam canções poderosas, as presentes em Suck On Light são as melhores que a banda desenvolveu desde o debute. Partindo já de como puxa o coro na faixa de abertura até como incorpora guitarras de uma forma que não faz com que percam a aparência de efeitos puramente acústicos. Ou melhor, elas são perceptíveis, mas não destoam. A equalização do álbum foi bem-feita. Fica longe do lo-fi, mas sem cair nos males da superprodução que é um dos bode-expiatórios mais comuns na crítica musical.

Mas o principal defeito do disco aparece justamente em um ponto que é essencial para qualquer obra do gênero folk: nas letras. Aquela vontade de cantar junto não surge em nenhum momento. Podemos admirar o ritmo, a execução técnica. Mas onde está a alma? Quais são as questões das quais esse álbum está tratando? O mundo pode estar precisando de um pouco do engajamento social pelo qual o folk ficou conhecido, ou, ao menos, por sua forma de colocar nossas vidas em perspectiva, cantar nossos cotidianos. Suck On Light não parece fazer nada disso. Antes ficando restrito à psicologia superficial e aos sentimentos genéricos que são tão comuns no soft rock.

OUÇA: “Work Of Art”; “Off My Head” e “Telescope”

The Lumineers – III



III é um álbum conceitual que explora como o alcoolismo e o vício em drogas impactou três gerações da ficcional família Sparks e toma como inspiração a experiência do baterista Jeremiah Fraites que perdeu o irmão, amigo de infância do vocalista Wesley Schultz, para o alcoolismo. O álbum se divide em três atos, cada um focado em um membro da família Sparks, e foi concebido junto a um curta metragem que ajuda a contar a história, mas as músicas são igualmente impactantes sem o auxílio do recurso visual.

“Gloria” é o ponto de partida para a história e é apresentada no  capítulo I. A linha de piano similar a uma caixa de música na abertura “Donna” ajuda a passar o tom de recordação que a faixa pede apresentando a mãe de Gloria Sparks e a falta de amor que a levou a abandonar a casa para uma vida na cidade. “Life In The City” conta a dificuldade de viver sozinha na cidade e o instrumental que oscila entre algo mais animado nos versos e mais introspectivo no refrão ajuda a passar a flutuação de sentimentos entre a liberdade e a saudade de casa e entre o barato do álcool e a ressaca que vem depois. O primeiro ato fecha com “Gloria” onde a matriarca é confrontada pelos seus filhos sobre seu vício e como isso os afetou. O contraste entre uma construção musical que lembra bastante o folk alegre dos primeiros trabalhos do Lumineers com a letra pesada passa bem a total alienação de Gloria que, completamente alcoolizada e perdida, não presta atenção ao conteúdo do que lhe é dito.

O segundo ato traz o neto de Gloria, Junior Sparks, para a cena e abre com “It Wasn’t Easy To Be Happy For You”, uma música sobre a primeira vez que um adolescente tem seu coração partido e é o único momento em que o conceito do álbum falha em função de uma música legal. É uma ótima música, muito amigável pra tocar em rádios e playlists mas não se conecta bem com o que vem antes ou depois tematicamente. Mais adiante no arco de Junior, vemos como ver a vó perdida em seu vício o afeta profundamente em “Leader Of The Landslide” que narra como ele enxerga Gloria como a causa da dificuldade de relacionamento que ele tem com as pessoas a sua volta e seu pai, Jimmy Sparks, que será apresentado no último arco. A música é construída de tal forma que as partes mais pra cima com a bateria e o violão soam como um pedido de ajuda do rapaz, como se ele estivesse reunindo as últimas forças para expressar sua raiva e a performance vocal de Schultz passa esse desespero perfeitamente. O arco fecha com “Left For The Denver” uma música voz e violão com acordes menores e uma batida descendente que dá o tom trágico de ser abandonado pela mãe que não aguenta conviver com os conflitos dos Sparks nesse ponto da história

Jimmy Sparks é o foco do capítulo III e conhecemos sua história logo depois de ser deixado pela esposa em “My Cell” que narra os conflitos de amar uma pessoa mas ser tão quebrado a ponto de não deixar que ela se aproxime. As linhas de piano e violão que se combinam com a voz expansiva e melancólica de Schultz trazem instrumentalmente esses sentimentos conflitantes de querer um lar de amor mas acabar condenado a se sentir em uma cela. “Jimmy Sparks” prepara o ouvinte para o final de uma forma épica com uma vibe de trilha sonora de faroeste que vai ficando cada vez mais tensa conforme vemos a vida de Jimmy indo mais e mais para o fundo do poço com seus problemas e vícios em drogas até o ponto de ser abandonado por seu filho Junior e ficar totalmente sem esperança. O arco e o álbum fecha com “Salt And The Sea” que narra como algumas coisas não tem solução e algumas pessoas não tem salvação. O tom soturno do instrumental combinado a uma certa calma na performance vocal passa a ideia de que todos os membros da família Sparks aceitaram conviver com a destruição e a escuridão que existe dentro deles, uma aceitação do inevitável para que possam continuar a viver.

Com III o grupo leva a característica narrativa de suas músicas a um nível mais sombrio e pessoal, explorando e amarrando os diferentes sentimentos que uma história pesada como essa envolve. É o álbum mais ambicioso e obscuro do grupo e vale a pena ser ouvido do início até o fim com bastante atenção aos detalhes que ajudam a contar essa história.

OUÇA: “Life In The City”, “Leader Of The Landslide”, “My Cell” e “Salt And The Sea”

Adam Green — Engine Of Paradise



Que Adam Green é um cara particularmente “diferente” todos sabemos, contudo o que também pode ser dito dele é que seu trabalho, seja na música, nas telas de pintura ou até mesmo nas telonas do cinema é sincero a ele mesmo. Sendo assim, desde os Moldy Peaches até Engine Of Paradise — seu décimo álbum de estúdio em carreira solo, lançado no dia 6 de setembro de 2019 —, ele pinta um retrato colorido e cartunista de si e do mundo ao seu redor.

Engine Of Paradise aborda, no geral, um tema bastante atual: a relação entre o ser humano e a tecnologia. A faixa título resume essa ideia quando diz: “This world could be a paradise / a 3D model” ou até mesmo “I need you to read the world for me”, confrontando o que as novas tecnologias têm feito em nosso lugar como seres vivos pensantes e o que elas projetam em nossas vidas. O clipe da mesma canção ainda brinca — no estilo cartunista de Green — com grandes multinacionais, redes de fast foods, destruição da natureza e colonização, agregando, portanto, outras perspectivas à composição.

Outro ponto alto do CD é a orquestração em boa parte das canções, fazendo o padrão de composição de Adam Green (violão, bateria, baixo, guitarra e seu inconfundível vocal barítono) adquirir um teor mais encorpado e maduro. Isso pode ser visto na faixa “Freeze My Love”, terceira do disco, clássica ao gênero folk. A canção possui ainda uma vibe infantil (no clipe aparece, inclusive, a filha do artista), e rememora alguns dos trabalhos de Kimya Dawson, sua ex-companheira de Moldy Peaches.

Com pouco mais de 20 minutos, Engine Of Paradise conta com boas participações: Jonathan Rado (do Foxygen) e Florence Welch, queridinha do mundo millennial-alternativo. O álbum, por si, é gostosinho de ouvir. Tem boas composições, letras reflexivas e exóticas, mas não traz surpresas e, por isso, não se sobrepõe a trabalhos anteriores.

OUÇA: “Engine Of Paradise”, “Freeze My Love”, “Rather Have No Thing”.

Bon Iver – i,i



Já faz mais de uma década desde o debut do Bon Iver, For Emma, Forever Ago (2007). Nestes anos, o Bon Iver se consagrou como essa entidade quase mística liderada pelo estadunidense Justin Vernon. Chegando ao seu quarto álbum da melhor forma possível, o Bon Iver se mostra uma banda madura cujos discos veem crescendo e amadurecendo com o passar dos anos.

i,i não poderia ser um álbum mais adequado para este momento de mais de uma década de banda. Ele chega neste clima de celebração do Bon Iver, expondo características da sua discografia como colagens ao longo do disco. Nos lembra dos diversos fragmento de encantamento que levou o Bon Iver a ser tão aclamado pela crítica. Aqui, nos deparamos tanto com a sonoridade folk de For Emma, Forever Ago (2007) e Bon Iver (2011), quanto com a experimentação e texturas eletrônicas de 22, A Million (2016). 

A atmosfera do álbum se encaixa exatamente após 22, A Million, onde todos os ensaios do trabalho passado mostram frutos grandiosos. Enquanto o álbum anterior surpreendia pela excentricidade e experimentação, i,i consegue transpor tudo isso para ou outro patamar. Os sintetizadores e elementos eletrônicos já soam de forma mais natural ao se misturarem com o folk e as variações de volume tão características do Bon Iver. É justamente ao dosar estas texturas eletrônicas com momentos serenos que surgem os grandes encantos de i,i. O álbum evolui de desta maneira intimista, envolvente e calorosa, criando um clima familiar e inovador ao mesmo tempo.

i,i representa um fechamento de ciclo para o Bon Iver. Faz a amarração dos três álbuns anteriores ao conseguir sintetizar anos de amadurecimento em um trabalho sólido. É uma verdadeira celebração de mais de uma década de banda. Um trabalho que ainda apresenta a mesma beleza de For Emma, Forever Ago, somada com anos de amadurecimento e experimentações. 

OUÇA: “Hey, Ma”, “U (Man Like)”, “Naeem”, “Faith” e “Marion”

5 a Seco — Pausa



“Onde eu possa descansar daquilo tudo que já sei / de todo ouro que busquei  / do vício de me reinventar” são os versos compostos por Tó Brandileone e Vinicius Caldeironi no último trabalho do grupo de compositores 5 a Seco após o anúncio da pausa. As linhas da canção sintetizam a decisão do conjunto e a laboração por trás do ser artista.

Pouco mais de um ano após o lançamento de Síntese (2018), o grupo (composto por Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni) decidiu que “cada um vai na sua estrada”, como diz “Duas Jornadas”, terceira faixa do disco. A notícia possivelmente pegou de surpresa os admiradores e fãs, e levantou novamente a discussão sobre hiatos musicais

O perfil do álbum é intimista, fraternal e saudoso. Instrumentalmente enxuto, Pausa é composto de, basicamente, voz e violão — salvo algumas aparições de banjos, ukuleles percussões e um belo violoncelo em “Vai Vendo”, composição de Vinicius Calderoni. Iniciado por sua homônima reflexiva, ora misteriosa e dramática, ora envolta em tranquilidade, “Pausa”, como já mencionado, evoca a figura do médico e do monstro, do artista e da canção. “Como Quero Demonstrar”, por sua vez, como boa parte das composições de Leo Bianchini, anima após a ponderação primeira, e traz consigo a carga dos tambores e ritmos estudados por Leo. A atmosfera de despedida volta, na também já citada, “Duas Jornadas”. Seguida da doce dupla “Vai Vendo” e “Vem Ver”. A última, de Pedro Altério, tem sua melodia composta em cima do riff do violão e tem uma aura tão pueril que parece música infantil, influência também da letra — e, por favor, não leve isso como algo negativo, leitor. A metade do CD é marcada por uma canção conjunta: “Coisas Dentro das Coisas” é, possivelmente, uma das melhores do atual trabalho. A música é uma brincadeira com finais, rimas perfeitas e imperfeitas, que, sob alternadas vozes, se transforma de um quebra-cabeças da língua portuguesa a voz uníssona de seus poetas-cantores. Em “Interior”, Tô Brandileone, compositor da faixa e produtor do disco, dialoga com a dualidade dos interiores (o geográfico e o humano), como também aborda mais uma vez no CD o ato da escritura, do transformar causos, sentimentos, ideias, em canção e sobre como esse processo-resultado pode gerar em si e em outros uma espécie de catarse. Ao final do disco, tem-se, ainda, “Outro Big Bang” que representa de maneira caótica a nossa modernidade, sob a base da figura sonora da aliteração; a bossa de Pedro Viáfora, “Centro”; “Invenção”, que por influência da sua pós produção imagino, lembra coisas produzidas por Erasmo Carlos, somadas à boleros radiofônicos; e, por fim, a levíssima, porém poderosa, “O Fio E A Teia”, com sentimentos de comunidade e comunhão.

A metalinguagem, como citado anteriormente, permeia boa parte do derradeiro trabalho. E é, acredito, a perspectiva do fim (ou pausa, por se dizer) que sustenta esse crivo: a análise de cada indivíduo de si e dos outros, bem como o crescimento das composições e a edificação da banda em dez anos de carreira, com certeza, surtiram efeito na construção do disco, construindo possibilidades e temáticas dentro das canções. Com isso, o fim, ou mais corretamente, o hiato — adotado há décadas por diversas bandas nacionais e internacionais como Beach Boys, Novos Baianos e Los Hermanos — permite a grupos musicais a anestesia de novas produções por tempo indeterminado, sejam elas CDs ou turnês. Ultimamente esse recurso tem sido usado comumente para produzir capital na indústria musical, a exemplo: a já mencionada Los Hermanos que se reúne de quatro em quatro anos, mais ou menos, para novas turnês nacionais (e internacionais). Não há como prever, no entanto, se esse será o perfil da 5 a Seco, mas há de se acreditar no desenvolvimento individual desses que a compõe. E, sinceramente, é o que importa.

Por fim, é primoroso avaliar o tamanho amor pela palavra. No mais, fico feliz pelo disco, fico feliz pelo Brasil ter compositores tão bem estruturados e apaixonados nessa seção da música popular. Fiquemos curiosos pelo futuro e continuemos a acreditar no poder da canção e do amor.

OUÇA: “Pausa”, “Vem Ver”, “Coisas Dentro das Coisas” e “Interior”

Palace – Life After


Palace sempre soou grande em minha mente. As músicas parecem sempre ter um ar de grandiosidade, seja pelos instrumentais, seja pelos vocais ecoantes. Suas músicas de ritmo sereno e impactantes marcaram tanto meu ano de 2016 (quando descobri seu primeiro álbum) que até hoje tenho escrito na parede branca do meu quarto So Long Forever. Então, 3 anos depois, lançaram Life After.

Temas pesados de perda, significado e superação são reabordados nesse novo álbum, embalados por um ar mais aconchegante e positivo em comparação ao primeiro projeto da banda. O indie atmosférico super bem construído nas 11 faixas faz você ser transportado para algum lugar onde tudo tem um tom de azul, ora anil e bem iluminado, ora marinho e nublado. Em “Bones”, quase dá pra sentir no rosto o vento frio evocado pelas cordas tristes de violinos e violoncelos ao fundo, enquanto os vocais de Leo Wyndham e os arranjos de guitarra de Rupert Turner abraçam os ouvidos, como um bom agasalho.

A última faixa de 7 minutos é um fim de obra lindo que ressoa na alma, combinando perfeitamente com a mensagem que a banda parece querer passar. Não sei se intencional para causar uma reflexão, mas se você ouvir o álbum em loop, “Life After” toca logo em seguida de “Heaven Up There”.

Porém, nada novo debaixo do Sol. As letras podem fazer olhar pra cima, e a positividade pode tomar conta na maior parte do álbum, mas em questão de estilo, a banda não traz nada de novo. 3 anos, mesmo para artistas que marcaram seus fãs como Palace me marcou, pode ser o tempo para as músicas caírem no esquecimento dentro das playlists menos usadas de outra época. O desafio de apetecer fãs antigos sem perder o som que os fez se apaixonar, e ao mesmo tempo procurar se inovar e se manter original sempre é um desafio. Em minha opinião, desejava mais de Life After. Mais emoção, mais impacto, mais alguma coisa. As músicas são boas, mas não se destacam muito, nem entre si, nem entre as bandas indies atuais.

Talvez os lançamentos das músicas coincidam com momentos pessoais, marcando individualmente algumas pessoas e não aparecendo no radar de outras. Billboard e outros charts de popularidade talvez sirvam para ajudar as pessoas a chegar no som das bandas ou só mesmo para que o círculo de dinheiro das gravadoras continue girando. De qualquer forma, não deixe de fazer esporadicamente a curadoria de suas músicas e playlists. Somos seres em constante transformação, e assim deveriam ser nossas músicas. Palace, tudo bem. Ainda guardo você no coração.

OUÇA: “Life After”, “No Other”, “Running WIld”, “Bones” e “Heaven Up There”

Of Monsters and Men – Fever Dream



Sempre me pareceu um fato curioso como um país tão pequeno e isolado como a Islândia consegue alçar tantas bandas relevantes. Talvez o segredo esteja justamente na cultura nórdica tão visível nas canções que de lá saem. Apesar de haver um punhado de artistas islandeses consolidados, sem dúvida a banda nórdica que mais faz barulho no mainstream nos últimos anos foi o Of Monster And Men. O single “Little Talks” (2011) tocou por toda parte, desde baladas indie até comerciais de TV. “Little Talks” abriu as portas para a banda, mas também colocou um grande peso a ser carregado: como dar continuidade a tamanho sucesso? 

Nos seus dois primeiros ótimos álbuns, a banda passou a ser mundialmente conhecida pela sua sonoridade nórdica que mistura indie com folk. Melodias muito bem articulada por letras que remetem cenários islandeses com lagos, florestas e montanhas. Seus discos anteriores mostram uma evolução e amadurecimento desta fórmula característica do of Monsters And Men. Fever Dream não segue esta mesma linha. A banda não mira nem no sucesso radiofônico do passado, nem na sonoridade pop folk que consagrou. Aqui vemos uma banda que sai da sua zona de conforto para explorar novos ares. A proposta do disco é misturar os elementos folk com com sons eletrônicos, abstraindo os elementos marcantes e conhecidos da banda em sonoridades mais leves e difusas. O que vemos em Fever Dream é um Of Monsters And Men completamente novo. E como em toda aposta, há riscos. 

De forma alguma Fever Dream chega a ser um álbum ruim. Porém, ao deixar de lado suas características mais marcantes, a banda se perde num generalismo. O disco é um conjunto melodias bonitas, mas genéricas. Todo intimismo e personalidade dos álbuns passadas se perde em um disco que poderia ser de muitas outras bandas além do Of Monsters And Men. Sem nenhum single muito forte, nem nada que se sobressaia, Fever Dream marca o ponto mais fraco da carreira dos islandeses.

Sem o mesmo encanto do passado, a banda se afasta cada vez mais do seu momento de glória de 2011. Ao tentar se modernizar, o Of Monsters And Men esquece o que os fez ser o que são. Não foi desta vez que tivemos um substituto para “Little Talks”.

OUÇA: “Róróró” e “Wars”

Bedouine – Bird Songs Of A Killjoy



A estética retrô provavelmente faz parte da sua vida, de alguma forma. Pode ser uma peça de roupa ou mobília, o gosto por ver filmes de época ou antigos, pode ser a dificuldade de desapegar de algo do nosso passado. E a indústria cultural se aproveita disso o tempo todo, nos vendendo aquela sensação de voltar para casa que só a nostalgia pode causar. Basta ver o cenário dos anos 80 de uma série como Stranger Things ou os anos 90 do filme Capitã Marvel. A música não é exceção, como podemos lembrar do revival do post-punk na década passada ou na importância que o final do século passado assume em gêneros como o vaporwave. Mas se existe uma relação que perdura entre uma sonoridade e um período específico, é aquela entre o folk e os anos 60.

Talvez por imaginar aquela como uma espécie de época de ouro (mesmo tendo sido, por sua vez, já um revival), a década que viu o surgimento de artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Cat Stevens é ainda a referência primária de uma boa parte de quem faz música que se encaixa no gênero folk hoje em dia. Dentre essas pessoas, Bedouine é uma das que se apropriou dessa estética da nostalgia de forma mais completa.

A começar pela identidade visual de seus trabalhos. As capas de seus LPs parecem saídas diretamente da mesa dos designers dos anos 60. A de Bird Songs Of A Killjoy remete fortemente à dos primeiros álbuns de Cat Stevens, enquanto a de seu antecessor era praticamente idêntica à do segundo disco de Nick Drake. Já a sonoridade da cantora e compositora dialoga diretamente com a de Joni Mitchell e Vashti Bunyan, com alguns elementos de Fairport Convention e do próprio Drake. É um tanto difícil avaliar um trabalho quando nos percebemos numa rede de influências assim tão forte. Fico difícil ver o que exatamente Bedouine traz de novo para sua abordagem desse gênero musical.

Mas originalidade precisa ser o elemento a ser levado em consideração? As músicas da artista síria não deixam de ser evocativas e bem-feitas só por serem parte de um conjunto já muito bem definido. E, que seja dito, não são imitações. Por mais que a voz de Azniv Korkejian (seu nome real) nos lembre a suavidade poderosa de Mitchell, Bedouine não é uma artista cover. Ela cria melodias com harmonias que são verdadeiramente belas, aquelas coisas que tomamos gosto de admirar. Utiliza instrumentos que os puristas folk jamais ousariam, mas o faz de forma extremamente natural, sem chamar atenção para isso. E é terrivelmente fácil de se escutar. Não exige nada do público, você pode simplesmente colocar o álbum para tocar e relaxar, não existem momentos de tensão. Mas isso pode ser também um defeito. Ao apresentar uma colcha que não exige atenção de quem escuta, as faixas de Bird Songs Of A Killjoy correm o risco de se tornarem indistintas umas das outras.

Se você é uma pessoa que tem um saudosismo (mesmo talvez sem ter vivido) do lado mais bucólico dos anos 60, ou acha uma pena que as suas artistas folk preferidas não produzam mais álbuns que lembrem seus melhores momentos, Bedouine é uma ótima pedida. Ela complementa muito bem esse sentimento, ainda que faça pouco além disso.

OUÇA: “Matters Of The Heart”, “One More Time” e “Dizzy”.