The Head and The Heart – Living Mirage



As primeiras produções de um artista ou de uma banda sempre estão em vantagem por dois motivos. Primeiro que não há base de comparação anterior, além de outros artistas. Segundo que, na maioria das vezes, existe uma autenticidade que raramente volta ao decorrer da carreira. E a perda da essência inicial do grupo norte-americano The Head And The Heart é, infelizmente, um ótimo exemplo desta teoria.

O que começou com um indie folk em 2009, com músicas contemplativas e doces, transformou-se, dez anos depois, em um som plástico, pop rock e repetitivo com o lançamento de Living Mirage. É estranho constatar que o grupo passou um tempo em um deserto da Califórnia para se concentrar apenas na produção de seu álbum mais pop e tão desconectado com o que um cenário natural e uma produção tão imersa poderia sugerir.

Para assinar definitivamente essa virada, a banda escolheu a chiclete “Missed Connection” para divulgar, pela primeira vez, o novo trabalho. No videoclipe, há cenas dos integrantes no deserto e, ao mesmo tempo, a música não conversa nem um pouco com atmosfera proposta. A medida que as imagens indicam uma intimidade dos músicos, grandes descobertas e boas nostalgias, a música super produzida está ao fundo mostrando que são apenas filtros, miragens e efeitos colocados propositalmente para vender uma fotografia do que a banda já foi.

Mas não dá pra enganar os ouvidos. Talvez para quem conheça a banda hoje em alguma loja de departamento ou no Uber, “See You Through My Eyes” e “Brenda” sejam músicas que trazem um bem-estar (que qualquer outro artista pop poderia trazer no momento). O problema é de quem já ouviu as simples, orgânicas e até imperfeitas primeiras gravações de THATH. Fica difícil acompanhar.

Uma das melhores músicas da banda, “Let’s Be Still” é incrível justamente pela dicotomia dispersão e encontro de vozes de Jonathan Russell e Charity Rose Thielen, que até murmura algumas vezes. Em Living Mirage, eles fizeram questão de criar quase uníssonos nos coros, deixando as vozes puras e perfeitas, como na faixa “People Need A Melody”, que parece uma versão masterizada do primeiro trabalho do grupo.

Fique claro que o problema não é a mudança sonora do grupo, mas sim a execução dessa virada. Na faixa “Honeybee”, por exemplo, é possível ver um caminho interessante que o restante do álbum poderia ter seguido, com uma atmosfera anos 80 e um pouco de desapego às repetitivas mensagens motivacionais, uma forte característica essencial da banda.

No entanto, é apenas neste momento que o grupo conseguiu cumprir o combinado de ter um novo começo, após três anos sem lançamentos, e agradar os ouvidos, de fato. Infelizmente, efeitos visuais nos videoclipes, capas nostálgicas e imersões no deserto não compram a autenticidade que um dia THATH já teve.

OUÇA: “People Need A Melody” e “Honeybee”

Lewis Capaldi – Divinely Uninspired To A Hellish Extent



A primeira vez que Lewis Capaldi apareceu na minha timeline não foi nada relacionado a música. Um tweet dele comemorando, em tons de ironia, o fato de que seu nome saiu errado no line-up de algum festival que ele tocaria. Na mesma semana, um vídeo com ele andando em Hollywood procurando um desentupidor de vasos foi o suficiente para eu pensar “uma pessoa capaz de zombar tanto de si mesma publicamente merece minha atenção”.

O cantor glaswegian de 22 anos tomou o carisma dos fãs com uma velocidade que eu não via desde quando a Adele surgiu lá em 2008 (e fazia cada concerto dela parecer um espetáculo de stand-up). No entanto, em contraponto com essa postura easy-to-go, britânicamente sarcástica e auto-depreciativa, Lewis projeta uma aura músical sombria e melancólica que eu particularmente gosto de definir como um neo-emocore-soul.

Lá em 2017, ainda sem gravadora, Lewis lançou o Bloom EP, e foi a junção de sua personalidade na internet com sua música, sempre baseada na sua força vocal única, que lentamente criou uma projeção internacional. Em 2018 ele lançou “Someone You Loved”, seu primeiro single oficial, e o fato de a música ter chegado ao topo da parada britânica mostra que ele já é a mais nova powerhouse escocesa dos últimos anos.

Divinely Uninspired To A Hellish Extent, seu álbum de estreia, nada tem de inovador ou progressivo, mas em nenhum momento deixa de parecer autoral. Produzido em conjunto por um batalhão de músicos de alto-escalão (dentre eles TMS e Malay), o produto final é um álbum pop em seu sentido mais puro, sustentados pela voz de Capaldi e pelas várias narrativas de decepção amorosa e vulnerabilidade.

Desde a primeira frase “I’m not ready to be just another of your mistakes”, em Grace, até a última faixa do álbum, Headscape, e o incrível one-liner “I never thought a lie could sound so sweet until you opened your mouth and you said you loved me”, o álbum está recheado de narrativas sobre frustração amorosa preparadas para o fazer se envergonhar no karaokê da firma na próxima sexta depois da terceira dose de tequila.

Sonoramente, Capaldi segue um caminho confortável, já percorrido anteriormente por James Morisson, George Ezra, Sam Smith e Tom Greenan. Canções construídas em torno de piano ballads com uma pitada de folk alternativo, como em Hollywood, que possivelmente é a faixa mais atraente do conjunto. Parece sensato para um álbum de estreia, mas no fundo deixa o público com uma vontade de vê-lo se arriscar um pouco mais.

Lewis Capaldi não falha em entregar um álbum redondo. Bem produzido, são 40 minutos de um pop formulaico, seguro, que não falha em se conectar com seu público devido. Aqui está um novo provável nome de peso para o cenário musical que certamente não esqueceremos tão rápido.

OUÇA: “Grace”, “Someone You Loved” e “Hollywood”

Local Natives – Violet Street



Há dez anos, o quinteto de Los Angeles conhecido como Local Natives lançava seu debut, Gorilla Manor, e, a partir desta data, estabelecer-se-ia como um nome importante na constituição da cena indie-pop-rock. Gosto de mesóclise da mesma forma que a banda estadunidense gosta de experimentar em seus álbuns. A priori, talvez a sonoridade de Violet Streetassemelhe-se ao que a banda vinha fazendo ao longos da última década, mas os sutis detalhes nos arranjos tornam seu som mais complexo e estruturado. Explicar-lhe-ei.

A faixa de abertura, “Vogue”, apresenta uma organização instrumental característica de músicas introdutórias: uma cacofonia melódica e sublime que quase deixa escapar um spoiler de todo o liricismo que está por vir. Segundo o guitarrista Ryan Hahn, em entrevista para a Consequence of Sound, “[…] even before the violins, we knew we wanted the song to be about the human desire to feel a connection to god or a spiritual world.”. De modo geral, o processo criativo do disco baseia-se na tentativa de organizar o caótico em busca de um certo senso estético, e Vogue faz isso com primazia ao organizar frases aleatórias com uma instrumentalização que teve influência direta de Sara Nuefield, violinista que toca na maior e melhor banda de todos os tempos, conhecida como Arcade Fire. Esse último trecho é de responsabilidade minha.

A transição da primeira para a segunda faixa merecia um parágrafo por si só. É isso que se espera de uma transição. É isso o esperado após o término da faixa introdutória. “When Am I Gonna Lose You” é uma quase obra prima – por motivos que serão retomados posteriormente. A sinfonia característica dos nativos locais faz com que o ouvinte sinta-se familiarizado com o que está ouvindo, quase como um sentimento nostálgico, ao passo que percebe o ineditismo experimental da nova faixa. De acordo com o baixista Taylor Rice: “ […] this song is me diving into murky emotions of anxiety and doubt in the middle of love and joy.”. Os dois primeiros versos sintetizam todo o sentimento de ansiedade e pânico perante os bons momentos – o que, paradoxalmente, pode estragá-los: “Wait, when am I gonna lose you? / How will I let you slip through?”

Essa sensibilidade lírica se faz presente em todo o trabalho. Em “Megaton Mile”cuja melodia saltitante é de natureza oposta ao tema sobre o qual o eu-lírico discorre: a sensação de desamparado em um contexto quase apocalíptico enquanto o baixo soa como instrumento de destaque faz com que essa faixa seja uma das melhores do álbum, de fato. Em “Shy”, por outro lado, existe uma preocupação genuína em trabalhar o conceito da masculinidade tóxica. Com influências musicais de Fleetwood Mac: Shy / What would you gave me say? / God, it’s a perfect save / It took me thirty years and now I feel right / How did we get this way?

Todavia, nem tudo são flores. Em diversos momentos, mesmo nas faixas citadas anteriormente neste texto, a tentativa de experimentação acabou extrapolando alguns pressupostos básicos que acompanharam a trajetória do quinteto nesses dez anos. Um deles, por exemplo, é não parecer com o Maroon 5. Em diversos momentos, mesmo em “When Am I Gonna Lose You” o padrão de batidas característico é substituído por uma dançante balada tosca. Em “Shy”, existe uma introdução de batidas que não funciona direito e em alguns instantes “Megaton Mile” se parece com Ed Sheeran, o que não parece ser algo bom em qualquer contexto.

Ainda assim, me parecem ossos do ofício. Levando em consideração que Local Natives não é uma banda em início de carreira, é louvável a atitude de se propor aos experimentos e conjecturas em seu quarto álbum de estúdio. Não decepcionaram os fãs saudosistas ao mesmo tempo em que conseguiram manter toda a essência do trabalho que desenvolveram ao longo desses anos, ainda que de forma inovadora.

OUÇA: “When Am I Gonna Lose You”, “Megaton Mile” e “Shy”

The Mountain Goats – In League With Dragons



Em “The Wheel”, um dos melhores episódios da série Mad Men, durante uma reunião da sua equipe de propaganda com clientes que procuram uma campanha publicitária para seu projetor de slides, Don Draper começa fazendo uma comparação entre novidade e nostalgia. Segundo Don, tecnologia, novidade, é um atrativo interessante, mas existe algo que pode engajar o público em um nível mais essencial, emocional. “Nostalgia”, continua, “significa a dor de uma ferida antiga”. Enquanto Don explica, o projetor exibe fotos de seu próprio passado. “Esse nos deixa viajar ao futuro, ao passado, como uma criança viaja, e de volta para casa. Um lugar onde sabemos que somos amados”.

O mesmo pode ser dito de In League With Dragons, décimo sétimo disco de estúdio do quarteto americano The Mountain Goats. Nostalgia é o sentimento central que orienta o disco e ao redor do qual giram as histórias evocadas nas letras e arranjos que compõem seu último lançamento.

Com forte influência de art rock, art pop e folk, em especial nos pianos que iluminam faixas como “Done Bleeding” e “Possum By Night”, e no baixo e violão acolhedores e calorosos de “Younger” e “Prassiac 1975”, a banda faz coro à explicação de Draper em Mad Men. A diferença, entretanto, fica com como o Mountain Goats escolhe lidar com a nostalgia. A opção por arranjar as músicas com uma estética bucólica e solar torna a relação com a nostalgia algo prazeroso ao invés de triste. Não existe infelicidade por estes momentos mais simples terem ficados para trás, apenas a felicidade de poder olhar o passado com ternura. A temática, que busca inspirações até mesmo em jogos de tabuleiro e rpg, como Dungeons & Dragons, também reforça o sentimento, misturando-o com as fantasias de aventura de criança.  Muitas vezes a perspectiva dos anos é o meio pelo qual podemos reconhecer toda a felicidade que vivemos no passado e que não recebeu o devido valor quando era o presente, porque estávamos muito presos no momento.

Mesmo uma faixa de clima mais sombrio, como “Clemency For The Wizard King”, com sua bateria pesada acompanhando o baixo e dando solenidade e imponência ao arranjo, não torna a música intimidadora. Ao invés disso, a sensação é a de ouvir uma história grandiosa e reconhecer sua própria pequenez. Existe algo no disco sobre as fantasias de criança e olhar o mundo com olhos mais inocentes, sempre fascinados com tudo que existe por descobrir.

In League With Dragons é uma obra triunfante. As belas progressões de acordes, que evocam imagens claras e luminosas, o sentimento acolhedor de encontrar memórias felizes quando se pensa no passado, tudo isso combinado por uma produção limpa e, embora minimalista, refinada. A beleza dos arranjos compostos pelo Mountain Goats é, por fim, coroada com as letras e as construções líricas escolhidas pela banda. Mesmo em versos em que se fala em cadáveres, o cuidado na escolha das palavras faz da narrativa algo a ser admirado.

Os únicos destaques negativos ficam nas faixas “Waylon Jennings Live!” e “Going Invisible 2”, que, enquanto são faixas boas por si, ficam aquém do nível de produção e cuidado que o resto das composições do disco exibe. Não chega sequer a ser um decréscimo que justifique não tê-las no disco, apenas uma nota mais baixa no catálogo.

Ao final da apresentação de Don no episódio, Harry Crane, um de seus colegas, levanta-se correndo e deixa a sala, tentando segurar o choro. Essa também é a potência da nostalgia: ela age como um espelho. Confrontados com as reminiscências de outros, nós nos conectamos com as nossas. Encontramos ressonância nas emoções alheias e nas experiências do nosso passado e o vínculo entre o nosso eu de agora e o eu de antigamente. Esse é poder de In League With Dragons: nos levar de volta a um lugar que ansiamos voltar.

Esse disco é uma máquina do tempo.

OUÇA: “Younger”, “Passaic 1975”, “Clemency For The Wizard King”, “Possum By Night”, “In League With Dragons” e “Cadaver Sniffing Dog”

Bibio – Ribbons



Ribbons, novo disco de Bibio, é mais uma experiência prazerosa da doce melancolia que o músico britânico faz de melhor. Com uma ambientação introspectiva e fundamentada em violões e sons acústicos, o álbum deve agradar aos fãs de canções como “Jealous Of Roses” e “Haikuesque (When She Laughs)”.

O que diferiu Bibio em toda sua carreira de outros artistas similares sempre foi sua dedicação em fazer com que a atmosfera construída reflita um sentimento profundo e quase entorpecedor, seja em um formato mais acústico ou experimentando com elementos da música eletrônica. Aqui, Ribbons é um trabalho comovente, singelo, de pura e genuína emoção que dialoga intimamente com o ouvinte através de uma paisagem sonora sustentada por um formidável instrumental, já que as líricas e vocais aparecem muito pouco.

Um grande ponto forte de Ribbons é o quão fácil é ouvir o disco. Com canções tranquilas, o compilado provoca uma agradável sensação de conforto com instrumentos suaves e uma masterização levemente ruidosa e lo-fi, que confere ao álbum uma sonoridade quase caseira. O tom de melancolia atingido aqui não traz uma carga pesada, que dificulta uma experiência mais casual, mas é abordada com leveza.

Há uma coesão admirável na produção de Bibio. Todas as 16 faixas fluem perfeitamente entre si, fazendo com que os mais de 50 minutos de duração passem muito mais rápido do que o imaginado. Poucas canções de fato se destacam, mas o conjunto da obra é convidativo para que o ouvinte escute o álbum completo do início ao fim.

O ponto alto, no entanto, é “Curls”, o primeiro single. A faixa, uma balada folk movida pelo banjo com alguns flertes com o sintetizador, resume a estética intimista do álbum. A dedicação à delicadeza aparece até mesmo em canções mais animadas como “Old Graffiti”, que adapta a sonoridade do jazz e funk para a proposta de disco.

Ribbons é um álbum muito bem-elaborado, honesto em sua roupagem e imersivo. Além disso, é um trabalho incrivelmente sensível, com melodias sutis e agradável de se ouvir.

OUÇA: “Curls”, “Old Graffiti” e “Pretty Ribbons And Lovely Flowers”

Weyes Blood – Titanic Rising



Esta foi a primeira vez que entrei em contato com a produção do Weyes Blood, projeto prolífico da americana Natalie Mering, que lançou seu debut em 2011, com The Outside Room. E o primeiro play que dei em Titanic Rising, quarto álbum da cantora, eu já pensei “ora ora temos aqui uma discípula de Joni Mitchell.”

Se você se encanta por essa estética folk anos 1970, de The Carpenters, Carole King e Cass Elliot, seja bem-vindo. Titanic Rising é um refinamento dessa estética com um ar atualizado, as prenúncias de um novo retro-futurismo já cantado anteriormente por artistas como First-Aid Kit e Julia Holter.

Sendo assim, tudo iria de vento em popa para essa resenha: sonoridade familiar, melodias aconchegantes, até a própria capa do álbum um deleite visual por si só. Mas assim que “A Lot’s Gonna Change” terminou, e deixou uma atmosfera soturna e melancólica no ar eu perdi o rumo. ‘Let me change my words, show me where it hurts’. E tudo dói, acredite em mim.

Mering se aventura liricamente por um universo profundo e delicado, cantando com honestidade sobre melancolias que podem ser até disparos para uma tristeza reprimida. É um olhar calmo para o caos que encanta e desconcerta. A jornada onírica do álbum lentamente ganha contornos de esperança conforme o registro avança, até culminar em “Nearer To Thee”. A faixa instrumental combina com a faixa de abertura e dá uma noção cíclica para o produto.

O álbum é uma sequência de pontos altos, e não há partes que pareçam deslocadas. Tudo se encaixa. A radiofônica “Everyday” é genial eu sua letra jocosa. ‘True love is making a comeback for only half of us, the rest just feel bad‘. Em “Mirror Forever”, o ritmo fúnebre é embalado por uma letra tão concisa que mostra que Mering é de um esmero no estúdio invejável.

Todo esse liricismo apoiado em arranjos de orquestra e synths muito atualizados, como é o caso de “Movies” ou “Andromeda”, tão ricas em instrumental que poderiam se sustentar sem vocal algum. Eu poderia fazer citações de cada uma das canções, esmiuçar cada um dos violinos, apenas para mostrar que aqui está um dos melhores trabalhos do ano.

Depois de duas semanas escutando o álbum, finalmente consegui me tornar um pouco imune à melancolia que as canções emanam Fica então um veredito menos desesperador : Titanic Rising é sobre tristeza, mas é sobre esperança mais que tudo. Um feixe de luz reverso, que sai do fundo sombrio do oceano e vai de encontro a superfície, à procura de mais luz. O Weyes Blood fez um produto impecável e que certamente será lembrado no futuro.

OUÇA: “Everyday”, “Andromeda” e “Movies”.

Andrew Bird – My Finest Work Yet



Referências mitológicas e históricas, violinos e muitos assobios. Com um título que soa prepotente, o décimo quinto álbum de Andrew Bird (sendo o décimo segundo solo), intitulado My Finest Work Yet, mostra um trabalho musical sólido, com questionamentos políticos, sociais e existenciais cheios de referências, sem deixar de lado as marcas registradas do músico, consolidadas em mais de 20 anos de carreira. A qualidade musical da obra é incontestável, mesmo que soe como uma fórmula já repetitiva do multi-instrumentista de produzir canções, sem muitas inovações em relação a seus trabalhos anteriores, musicalmente falando. O destaque desse álbum é, de fato, a profundidade do que é cantado.

Bird é irônico e sombrio na completude do álbum, desde o título e a capa – uma releitura da obra “A Morte de Marat” -, até suas letras, pizzicatos e longas linhas de assobios. Com um folk já conhecido – soturno, mas suave ao mesmo tempo -, ele traz em seu novo álbum reflexões sobre guerras e conflitos, questões morais e ambientais, morte e amor, sempre de forma muito erudita, muito por conta de sua trajetória musical, mas sem deixar de lado alguns breves trechos de ironia e humor fino.

Além disso, se há algo que Andrew Bird saber fazer bem, além de assobiar, é encher suas músicas de referências: o mito grego de Sísifo, que é punido a carregar uma pedra até o topo de uma montanha por toda a eternidade, dá nome à primeira canção do álbum, que abre o disco de forma assertiva, já com seu conhecido assovio acompanhando os instrumentos. Além disso, o cantor também faz referência à Bíblia, à Guerra Civil Espanhola, ao Destino Manifesto norte-americano e à Pedra de Roseta, entre outras citações da história e da mitologia.

Dentre as músicas que merecem destaque, está “Manifest”, um dos pontos altos do álbum. A canção faz uma reflexão sobre a existência humana, a morte e o planeta Terra, em que morremos e viramos “vapor” de combustíveis fósseis. O cantor lançou um clipe recentemente da música, com muitas cores e um pouco de psicodelia.

Além de “Manifest”, a suave balada “Cracking Codes” e a assertiva “Bloodless” também merecem atenção, mostrando o lado lírico e político do álbum, respectivamente. Entre os pontos fracos, “Fallorun” e “Olympians” destoam do restante do álbum, seja pelo ritmo, com um ar mais “pop” do que as outras músicas, seja pela letra, que não traz tanta profundidade temática quanto as demais faixas. No entanto, essas músicas não comprometem o álbum, e provavelmente você simplesmente pulará as faixas após um certo tempo.

Em suma, Andrew Bird auto-intitula seu último álbum como o melhor trabalho que já fez, trazendo um ar mais político e existencial em suas letras, sem deixar de lado seu estilo único – e já um pouco gasto – de fazer música. Não é um álbum para sorrir ou para sofrer, mas para se contemplar e entender. Pode até ser um dos melhores álbuns dos trabalhos recentes do artista, mas ainda há um caminho para o músico seguir para alcançar algo que possa ser considerado, de fato, seu melhor trabalho.

OUÇA: “Manifest”, “Cracking Codes” e “Bloodless”

Hand Habits — placeholder

placeholder é o nome do segundo disco do Hand Habits, projeto de Meg Duffy. O sucessor de Wildly Idle (Humble Before The Void) (2017) é muito bem resumido por sua capa: intimista, pessoal e pálido.

Gravado no April Base — estúdio do Justin Vernon —, placeholder pega o que já foi antes apresentado por Duffy e eleva. As 12 faixas do cd cantam a respeito de relacionamentos e prestação de contas, na maior vibe dor de cotovelo (mesmo!). “Oh, but I was just a placeholder / A place and nothing more / Oh, I was just a placeholder / With nothing to stand for”, diz Meg em um dos refrões da faixa de abertura, um perfeito exemplo do desalento intrínseco na obra.

A instrumentalização de placeholder se arquiteta na base do gênero folk: violão ora dedilhado, ora varrido, guitarras bases e quase nuas (salvo os reverbs), baterias em padrões simples e sem pancadaria. Tudo fabricado para que a voz, e a emoção desta, sustente boa parte da melodia. O charme do álbum, nesse quesito, fica por conta do lap steel usado em muitas das faixas, que além de agravar a melancolia, acrescenta um vestígio de sonho as canções, como em “jessica” — faixa que fala sobre coração partido e suas ilusões. No meio do cd existe “heat”: faixa estranha — e imagino que feita pra se estranhar mesmo hehe — totalmente desconexa do restante do conceito de placeholder e funciona como uma quebra curiosa e eletrônica. Na segunda metade o álbum dá uma animadinha (não se emocione muito, é uma animadinha pequena!). Ou talvez só fique menos intensa a sensação de abismo inerente. São acrescentados alguns pianos, mais lap steels (ouvir “guardrail/pwrline” para entender) e, na última canção — “the book on how to change part II” —, um belíssimo saxofone, meio parecido com “For Emma” (For Emma, Forever Ago – 2008), do Bon Iver.

O novo trabalho de Duffy (que se identifica como agênero), como dito, é bastante pautado em sua intimidade e sua atuação no mundo. Anteriormente, em seu álbum de estreia, Meg mantinha o processo da gravação no estilo DIY. Após participar da banda do Kevin Morby e sair em turnê com o artista norte-americano, Duffy parece ter aprendido a gostar de trabalhar em conjunto. E é por isso que, em termos de produção e pós-produção, placeholder se torna superior a Humble Before the Void.

Por fim, o atual projeto se mostra muito maduro. Mesmo sendo um álbum demasiadamente tonal. Pra quem tá na fossa é uma boa opção.

OUÇA: “placeholder”, “yr heart”, “guardrail/pwrline” e “the book on how to change part II”

Helado Negro – This Is How You Smile



NSe você é familiarizado com a obra de Roberto Carlos Lange como Helado Negro, uma coisa que chama a atenção logo numa primeira passada por este álbum é que ele é muito mais “certinho” do que os anteriores. A estética aqui é muito mais melódica e bem amarrada do começo ao fim, e já nos primeiros momentos dá pra perceber que esse som mais despido das viagens de arranjo e do experimentalismo acentuado dos registros anteriores serve a um propósito narrativo muito claro que é o de evocar memórias.

Instrumentalmente, temos alguns poucos relapsos do Helado Negro de sempre pesando a mão nos sintetizadores e baterias eletrônicas como na abertura “Please Won’t Go” mas o piano em reverb acaba suavizando a faixa. Essa é uma dinâmica interessante que aparece em todo o álbum, quando ele chega muito perto do experimentalismo eletrônico dos trabalhos anteriores, algum instrumento tradicional vem e compensa isso, fazendo a música soar mais amigável. A produção de Roberto Carlos Lange é impecável e dosa bem os momentos em que um trabalho mais acústico e tradicional é o melhor caminho ou quando o som eletrônico ajuda a passar a mensagem de uma forma mais precisa.

Um ponto interessante é que o trabalho como um todo grita latinidade sem apelar pra clichês que poderiam passar essa mensagem de forma equivocada. Essa expressão da cultura latina é colocada algumas vezes de forma bem sutil como no fraseado de violão de “Imagining What To Do”  ou bem mais explícita como na belíssima “Pais Nublado” que com um ritmo dançante relata a conversa um pai e um filho latinos que tentam ganhar a vida nos os Estados Unidos e conversam com o pai falando em espanhol e o filho respondendo nos versos em inglês relatando a dualidade de sentimentos e cultura que uma vivência dentro da névoa que é a situação dos latinos nos EUA atual.

A forma como as faixas são colocadas equilibram bem esse aspecto mais social com algo mais íntimo e pessoal que evoca uma nostalgia agridoce por diversos momentos da vida como a memória do amor em “Running” ou as memórias de infância como em “My Name Is For Friends”. Seja através dos arranjos ou das letras, cada faixa deixa uma sensação de saudade e distância depois que acaba mesmo nas faixas mais upbeat como “Seen My Aura”, as frases de guitarra e até mesmo os vazios da batida te levam pra um lugar nostálgico.

This Is How You Smile toma seu título emprestado de uma passagem do pequeno conto “Girl” da autora antiguana Jamaica Kincaid que narra conselhos de uma mãe imigrante para sua filha sobre a melhor forma de se comportar para poder viver em paz em solo estadunidense. Além do título, o que Roberto Carlos Lange pega do conto é o conflito de sentimentos que ele, como descendente de imigrantes, conhece bem que é crescer como latino na América do Norte, tentando conservar tradições ao mesmo tempo em que tenta se encaixar num outro meio e trabalha isso de uma forma que une poesia e confissão, falando de algo ultrapessoal e específico para atingir sentimentos universais como a solidão, a saudade e o não-pertencimento.

OUÇA: “Please Won’t Please”, “Pais Nublado”, “Todo Lo Que Me Falta” e “My Name Is For Friends”

OUÇA: