Cypress Hill – Elephants On Acid


Após oito anos de sem lançar um disco, Cypress Hill volta com disco muito louco e cheio de misturas de estilos interessantíssimos. Elephants On Acid surpreende tanto no nome, como na capa e no uso de orientalismo e cítaras nos seus samplers. Nesse trabalho a parceria entre B-Real e Tom Morello (lá no Prophets of Rage) foi deixada de lado, e apostou no mix com dois musicistas egípcios: Sadat e Alaa Fifty.

A consequência é um som chapadaço e místico. Camadas e mais camadas musicais que se ouvidos separados, talvez não fizesse tanto sentido, mas sobrepostos criam atmosferas sensacionais, como a de “Falling Down”. Ou ainda o som feito por um elefante no fundo de Insane OG”. E as maravilhosas camadas de vozes de “Reefer Man”.

Além disso, Elephants On Acid surpreende por ser um disco cadenciado e com músicas instrumentais bem colocadas, dando um toque de continuidade para a obra. Isso mostra mais do que nunca que dentro do mundo musical dos EUA, a irreverência e a musicalidade mais interessante da atualidade não está no rock, pelo contrário, está evidentemente no hip-hop. Ainda mais em casos como esse, em que ouvimos trompetes e orientalismo tão bem usado em instrumentos, mas também em backing vocals.

Cypress Hill continua um dos grupos de hip-hop mais importantes do mundo, tanto por suas letras críticas e som, mas também por ser composto por membros de origem latina, nascidos em Los Angeles predominantemente. Até disco em espanhol eles já lançaram. E isso é necessário para questionar a xenofobia dos EUA, e dessa forma, criar sons tão dançantes com misturas tão poderosas características dos latinos.

OUÇA: “Band Of Gypsies”, “Falling Down” e “Reefer Man”

Neneh Cherry – Broken Politics


Broken Politics, belo novo álbum da Neneh Cherry, foi lançado em 19 de outubro, e se constitui como mais um belo trabalho na sequência de bons álbuns da carreira de Neneh. A cantora sueca, um dos grandes nomes femininos da década de 90 sempre trabalhou a partir de sonoridades menos heterodoxas. Flertando com uma estética eletrônica soturna (dependendo da faixa), bastante tributária do trip-hop, porém assimilando estruturas mais comuns nos anos 2000, como o uso de vinhetas (“Poem Daddy”), Neneh produziu um álbum cujo título parece remeter também ao atual zeitgeist da contemporaneidade: broken politics, política esfacelada, como a ausência de diálogo e o autoritarismo de governos de extrema-direita espoucando pelo mundo.

A simplicidade límpida de “Synchronised devotion”, até as texturas e o piano sorumbático de “Deep vein thrombosis”, passando pelo tri-hop repaginado de “Kong”, que bebe muito nas sonoridades de Tricky e Massive Attack. “Faster than the truth” apresenta uma construção orgânica massuda de bateria pontuada por teclados atmosféricos. “Natural skin” é interessante, apesar dos efeitos já um pouco datados, e que poderiam estar no Ray of Light da Madonna.

Broken Politics dá uns escorregões pontuais, mas com certeza absoluta pode ser considerado um dos trabalhos mais interessantes desse 2018 às portas do fim. Neneh Cherry confirma assim sua fama de uma das artistas mais interessantes dos últimos 25 anos.

OUÇA: “Kong”, “Synchronised Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”.

Twenty One Pilots – Trench


O grande problema do hype massivo, causado pela exposição rápida e intensa de um artista ou grupo no mainstream depois de um tempo de carreira passando despercebidos no underground, é o malabarismo que os mesmos são obrigados a fazer para agradar diversos públicos, como a legião de fãs fiéis (sejam os que acabaram de chegar ou os de longa data), os consumidores populares dessa parte mais radiofônica da indústria musical, e os mais céticos, que rejeitam ou estranham seja lá o que aconteceu na sonoridade desses artistas para ocorrer essa ascensão de popularidade. E muitas vezes essa perseguição, seja fanática ou midiática, atrás do novo fenômeno musical que vai produzir um tipo de trabalho que agrade essas porcentagens de diferentes ouvintes acaba afetando a forma como o artista olha para sua própria música, tentando encaixá-la em padrões que nem sempre mantém uma fidelidade ao fluxo natural evolutivo de suas obras.

E se hoje em dia você pedir pra qualquer um falar uma banda que caiu nessa armadilha, provavelmente a maioria te responderia Twenty One Pilots. A dupla de pop/rap/reggae/whatever virou um fenômeno depois do lançamento do álbum Blurryface em 2015, que emplacou alguns singles como “Stressed Out” e “Ride”. O engraçado é que, algumas bandas que caíram nesse buraco de grandes expectativas do público, como Oasis e Arctic Monkeys,  já usaram o mantra “Don’t Believe The Hype” para lidar de forma mais sarcástica e, ao mesmo tempo, rancorosa com esse tipo de buzz que cerca seus nomes.

Então faz todo sentido o uso dessa frase no refrão da música “The Hype”, que abre a segunda metade do novo álbum da banda, Trench. E mesmo que o tipo de mensagem que o vocalista Tyler Joseph quer passar seja bem clara e direta aqui, ela ainda é dita de forma muito mais interessante do que os chiliques anti-rádio de músicas do álbum anterior como “Fairly Local” e “Lane Boy”. Esse é um dos triunfos não só dessa música, mas do trabalho em geral, que possui composições mais complexas lírica e instrumentalmente, demonstrando um claro amadurecimento de ideias que já apareciam em pequenas faíscas antes, como as letras que mostram a luta do cantor contra seus problemas mentais de forma muito mais subjetiva e concisa.

Outro aspecto que floresce aqui é a forma como os beats e as melodias se desenvolvem em grooves mais consistentes, que não tem a instantaneidade tradicional da dupla, deixando as canções respirarem e crescerem lentamente no inconsciente de quem escuta. A forma como “My Blood”, por exemplo, cresce de forma delicada até entrar em um loop de baixo extremamente envolvente e um refrão pegajoso, sem perder tal delicadeza inicial é um dos exemplos de triunfo no que a banda conseguiu evoluir artisticamente. A variedade que essa experimentação, calcada em bases previamente cobertas pela banda, ajuda a criar é a chave pro sucesso de equilibrar esse sentido de trazer algo novo pra quem tem sede disso, e quem espera algo mais digestível e familiar dessas músicas. Momentos com detalhes interessantes como o beat esquizofrênico de “Pet Cheetah” e o baixo selvagem de “Jumpsuit” ajudam a quebrar a fórmula que havia virado ponto comum na obra do Twenty One Pilots, mostrando que são capazes de sair desse molde que a banda criou pra si mesmo anteriormente e ainda fazer algo relevante, e que instigue qualquer tipo de ouvinte.

Porém, o problema aqui é exatamente que essa variação não se prolonga pelo álbum inteiro. Ele é inteiramente construído de “highlights” que capturam sua atenção por um tempo para tentar te jogar no clima dele, e em diversas músicas caminha por uma estrutura que consiste em beats mais calmos com fortes influências de dub, juntamente com refrões que não são lá muito memoráveis e fazem com que tais canções se percam no meio de certas partes muito mais vivas e criativas do álbum. E mesmo que todas elas façam sentido nesse conceito de um mundo ficcional que Tyler e Josh tentam criar pra satisfazer os fãs conspiracionistas, essa mesma ideia é uma das coisas que mais ferem a consistência do álbum.

Então é nesse ponto que o balanço é quebrado, pois mesmo que haja uma evolução nas narrativas concebidas, elas perduram de forma uniforme por muito tempo ao longo dos 56 minutos de “Trench”, tornando-o escravo de um “fanservice” desnecessário que, se não fosse o foco de sua criação, talvez pudesse ter sua duração reduzida, focando melhor em sua coesão e nessas progressões mais fora da curva que certas canções mostraram.

Mesmo sendo mais consistente e maduro que Blurryface, o principal pecado do álbum é a falta de variedade que destacava seu irmão de 2015, mostrando que ainda falta um pouco para o Twenty One Pilots consiga fazer um álbum que agrade a gregos e troianos. Porém, mesmo que não haja nada tão instantâneo como “Stressed Out” aqui, é no mínimo intrigante a forma como a banda construiu algo muito mais poderoso a partir de todas as suas bases anteriores, deixando um sinal de que eles talvez tenham uma carreira que possa ficar cada vez mais interessante.

OUÇA: “Pet Cheetah”, “Jumpsuit”, “My Blood”, “Chlorine” e “Levitate”

Nicki Minaj – Queen


Fazia tempo que um álbum não me dava tanta dor de cabeça pra resenhar e provavelmente aterrorizava a chefia do blog com tanto atraso, mas cá estamos nós. Acho mais do que justo sempre me focar no trabalho que o artista entrega e passar longe de fandoms e notícias tendenciosas (pra melhor ou pra pior), mas com a fama de Nicki Minaj sendo do tamanho do mundo, foi impossível filtrar tudo, e rodeada de pronunciamentos e burburinhos a moça vem a tona com Queen, e enquanto a cantora aparenta se divertir e se sentir orgulhosa em seu trabalho, no mundo real, Nicki não parece tão satisfeita como soa…

Indo direto ao assunto, Queen é sim um álbum bacana, com boa parte de seus melhores momentos sendo a volta da artista as suas raízes e entregando raps fluídos e descontraídos, que claramente vão animar fãs mais antigos, apesar de pecar quando se trata de profundidade, é um álbum bem trabalhado e de boa qualidade, mas com tantos novos artistas nos holofotes desse ano, legitimamente felizes com o que estão fazendo e sem medo de soltarem a língua, Nicki Minaj fica apenas pelos cantos, presa dentro de sua própria cabeça e preocupada demais com a opinião do resto do mundo, estatísticas e afins. Fica difícil apontar com clareza os altos do álbum quando se está mais preocupado com o estado da artista.

E é esse o problema com Queen (e a própria cantora): a inconsistência da imagem que Nicki transparece. Enquanto por um lado ela se mostra uma mulher forte, dona do próprio nariz, denunciando injustiças na indústria musical e passando boas mensagens de empoderamento e conscientização para seus fãs em shows, por outro ela por vezes parece bem distante de seu público, reclusa com seu círculo de amigos famosos, num outro patamar de vida e consequentemente mais superficial e com parcerias extremamente duvidosas. Enquanto The Pinkprint (2014), compartilha alguns dos mesmos problemas que Queen, ele segue sendo mais melódico e viciante, as parcerias são mais consistentes e impactantes, e apesar de tender mais para o pop, ele não é engolido por seus participantes como o novo registro. O público tem acesso a uma Nicki mais vulnerável e decidida, mas bem alheia aos movimentos políticos (e mais do que necessários de serem mencionados) e sororidade quando realmente conta, sendo essa uma surpresa bem negativa do álbum, desperdiçando uma boa oportunidade para falar de algo além dos altos e baixos de relacionamentos amorosos, meio que deixando a entender o álbum gira mais em torno do seu ego do que qualquer outra coisa.

Mesmo com a mídia sendo constantemente bem dissimulada com a cantora e dramatizando situações que não são nada de mais, realmente fica bem incerto saber se Nicki realmente está falando em nome de outras mulheres ou apenas sendo rancorosa com outros artistas por não estar satisfeita com sua publicidade e vendas, quase sempre ficando a mercê daquele meio-termo onde não se sabe se ela está sendo mal interpretada ou apenas se expressando mal. E até os ares se acalmarem e as coisas serem acertadas, o público já perdeu o interesse na situação, ficando apenas com a primeira impressão da coisa toda.

A essa altura do campeonato é até ridículo esperar um álbum ruim de Nicki Minaj, munida com uma boa leva de músicas perfeitas para bombarem nas rádios e dando os ares da graça de seus dias de mixtape (“Barbie Dreams” e “Chun Swae” sendo ótimos exemplo disso), a cantora garante um bom alcance de satisfação para todos os seus fãs, com sonoridade e letras bem contagiantes. Queen passa bem de longe de ser um álbum ruim, mas é quase inevitável não pensar que ele poderia ser bem melhor, mas ao invés de pensar nisso de uma forma negativa, é mais prático e realista encarar isso como mais espaço pro desenvolvimento da cantora, que independente de qualquer controvérsia e contratempo, se mostra tanto uma rapper quanto uma popstar sempre em ascenção.

OUÇA: “Hard White”, “Chun-Li” e “Come See About Me”.

Nas – Nasir


“I feel like I’m 18 years old again when I’m making beats for Nas”, tuitou Kanye West cerca de dois meses antes do lançamento oficial de Nasir, décimo segundo álbum de estúdio daquele que demonstrou potencial para ser um dos melhores rappers de todos os tempos ao entregar seu debut, Illmatic – que, deixando de lado critérios subjetivos inerentes a discussões como essa, é possivelmente o melhor álbum de rap já feito (e não sou eu quem afirma, google it). Essa perspectiva, porém, mostrou-se não factível com o passar dos anos. Nas, entretanto, não tinha responsabilidade nenhuma quanto a isso: talvez a expectativa dos fãs tenha sido a principal responsável por álbuns como Nastradamus ou Hip Hop Is Dead serem não tão bem vistos em relação a seus trabalhos mais aclamados.

Após quatro anos desde seu último lançamento, Nas nos entrega seu novo disco, Nasir, produzido por Kanye West e contendo apenas sete faixas, totalizando modestos vinte e seis minutos de audição. Resgatando algumas tendências líricas de Illmatic e Stillmatic ao deixar de lado temas concernentes ao gangsta rap, Nas conduz o ouvinte por reflexões sociais conscientes a respeito do racismo estrutural e genocídio da população negra, além de contemplações filosóficas sobre a natureza da humanidade e suas interpretações religiosas.

Em “Cop Shot The Kid”, por exemplo, Nas pauta duras criticas à violência policial contra a juventude negra, como nos trechos ‘Yeah, it’s hotter than July / It’s the summer when niggas die‘ ou, em outro momento, com ‘Get scared, you panic, you’re goin’ down / The disadvantages of the brown‘, só para citar algumas das muitas passagens permeadas de significado durante a faixa. Irônico, entretanto, é perceber a paradoxal performance de Kanye West como produtor e featuring do álbum – e especialmente dessa canção -, ao passo que apoia abertamente o presidente estadunidense Donald Trump.

E, por falar em ironia, Nas deixa completamente de lado as acusações de violência doméstica que recebeu de sua ex-esposa Kelis. Na verdade, fez pior que isso, como é possível constatar no trecho ‘When the media slings mud / we use it to build huts‘ presente na faixa “Everything”. Como se não bastasse, ainda na mesma música, o rapper dedica quase um verso inteiro divagando acerca de paranoias conspiracionistas antivacina, tema que já apareceu na faixa “What Goes Around”: ‘Doctors injectin’ our infants with poison‘.

A despeito de conter criticas e reflexões pertinentes, Nasir é um trabalho confuso. Ainda que se leve em consideração a separação do artista de sua obra – o que por si só já é discutível –, é importante pautar que essa é uma linha tênue quando falamos em rap e em todo o movimento hip hop. De pouco adianta a melhor produção e batidas quando a negligência em trabalhar temas importantes como violência doméstica e políticas de imigração, por exemplo, são latentes no background de Nas e Kanye West. Isso, de certa forma, tira todo o brilhantismo técnico do disco, tal como quando um filme não consegue estabelecer a suspensão de descrença necessária para a imersão do telespectador na história.

OUÇA: “Cop Shot The Kid”, “Everything” e “Adam And Eve”.

Drake – Scorpion


Ok, eu sou um pouco suspeito para falar sobre Drake.

Conheci o trabalho do rapper meio que sem querer, quando vi uma legenda no instagram, procurei e acabei me deparando com um dos melhores álbuns de 2017: More Life. Com “apenas” 22 músicas, Drake ganhou ali um fã.

Eis que chega 2018 e, com ele, “God’s Plan”. A famigerada música de Drake que permaneceu por bastante tempo no topo de várias paradas (para ser mais específico, 11 semanas no topo da Billboard). Com um clipe que emocionou milhares de pessoas – contrastando com uma letra algo dúbia – “God’s Plan” nos deu esperanças sobre o que estava por vir nesse novo álbum.

Mas eis que o dia chegou e… blé. Okay, são 25 músicas que trabalham bem em conjunto. Mas nada que me segurasse e fizesse ouvir milhares de vezes como foi com “Teenage Fever”, “Glow” e “Since Way Back”, em More Life. Eram músicas boas, mas não excelentes, como já vimos com “Redemption” (a personal favorite <3).

A sensação era de que havia uma confusão de sentimentos naquele álbum, algo não se encaixava. Até que, pesquisando para escrever aqui, surgiu algo.

Se você, assim como eu, não se liga muito em ficar procurando notícias sobre os artistas que costuma ouvir, pode não saber que Pusha-T, em “The Story Of Adidon”, disse que Drake escondia um filho com a ex-estrela pornô Sophie Brussaux. Como bom escorpiano (aliás, o nome do álbum vem daí, o signo solar do cantor), Drake não deixou isso quieto. Em “Emotionless”, há um trecho em que ele fala como “não escondeu seu filho do mundo, mas o mundo do seu filho”, pois ele “só percebeu as almas vazias” que aqui existem quando ele “encarou sua própria semente”.

Quando descobri esse fato, foi como se tudo ficasse claro: o álbum já estava quase todo pronto, quando ele enxertou (um jeito bonitinho de falar que ele martelou) os assuntos “ok, eu tenho um filho” e “meu deus, o que eu faço agora” nas músicas.

Vamos parar um pouco e deixar bem claro que isso não diminui o esforço colocado nesse álbum e muito menos sua qualidade musical (que justificam a nota que estou dando aqui). Apenas explica o porquê de algumas músicas (como a já citada “Emotionless”) parecerem confusas.

Para seus fãs antigos, Scorpion é um bom álbum para se ouvir no trânsito ou na academia, mas nada que vá marcar tanto quanto seus trabalhos mais antigos. Para quem quer conhecer Drake, vai por mim, ouça More Life e Views.

OUÇA: “Nonstop”, “God’s Plan” e “Emotionless”

KIDS SEE GHOSTS – KIDS SEE GHOSTS


De certa forma, a junção das mentes de Kanye West e Kid Cudi em um álbum até faz sentido. Os dois saíram de uma fase aclamada por público e crítica para experimentar com elementos que fogem do padrão mainstream do hip hop e obtiveram respostas mistas devido a toda loucura envolvida no processo de criação de seus trabalhos, tornando-os mais difíceis de digerir para quem já estava acostumado com a acessibilidade de álbuns como My Beautiful Dark Twisted Fantasy e Man On The Moon I/II. De outro lado, parece que um collab entre os dois é uma forma deles se ajudarem a sair de posições complicadas, sendo que enquanto um deles luta contra a reação negativa da mídia sobre sua personalidade volátil e suas falas polêmicas, o outro tenta atrair a confiança do seu público de volta depois de desastres como a mudança brusca pro grunge no álbum Speedin’ Bullet 2 Heaven.

Então, nesse ponto, KIDS SEE GHOSTS é quase terapêutico. É um esforço em conjunto para exorcizar certos demônios que cercam a vida dos dois e, ao mesmo tempo, humanizar essa figura intocável de rappers de sucesso que acham que não existem consequências pros seus atos. Se o Cudi já tinha esse teor confessional em suas músicas anteriormente, aqui ele incentiva o Kanye a mostrar esse lado mais frágil em faixas como “Reborn” e na faixa título, que tocam em temas como depressão e essa luta contra seus problemas com um teor espiritual, demonstrando melhor a relação dele com sua fé. É uma forma de tentarem se libertar de suas próprias limitações (o que fica bem na cara na música “Freeee (Ghost Town Pt.2)”)

Mas não é só líricamente que os dois combinam bem. O álbum dá certo pois a mistura do ego inflável e produção majestosa do Kanye e a melancolia influenciada por rock do Kid Cudi resulta em uma sonoridade psicodélica, suja e, principalmente, injeta novos ares necessários em um gênero saturado pelas suas últimas tendências. O sample de uma demo do Kurt Cobain em “Cudi Montage”, por exemplo, é tudo que as tentativas do Cudi de misturar rock e rap deveriam ser. E o melhor de tudo isso é que apesar da carga emocional desse trabalho, também parece que eles estão se divertindo ao fazer essas músicas. Momentos como os ad-libs insanos do Ye em “Feel The Love”, o refrão cômico de “Freeee” e o uso genial de um sample de uma música de natal pra construir todo o beat de “4th Dimension” mostram que é possível misturar insanidade, experimentação e acessibilidade pop sem perder o fator diversão no meio do processo.

E o resultado final é que Kanye e Cudi são duas personas que se complementam e que tiram o melhor um do outro. KIDS SEE GHOSTS é um aperto de mão, um gesto para tirar um ao outro do buraco onde ambos se encontravam, mostrando ao mundo que esses dois ainda são capazes de fazer algo relevante, diferente e palatável para todos os públicos. E se as coisas ruins que aconteceram nos últimos anos nas carreiras desses dois eram necessárias pra esse álbum ser criado, podemos resumir tudo isso em um provérbio popular: “Há males que vem para o bem”.

OUÇA: “Cudi Montage”, “4th Dimension” e “Feel The Love”

The Carters – EVERYTHING IS LOVE


Beyoncé e Jay-Z lançaram um álbum juntos. São tantos plot twists vindos desses dois que eu os considero o M. Night Shyamalan do mundo da música. Um show melhor que o outro, álbuns fascinantes e projetos audiovisuais que nem sei por onde começar a descrever – o que foi o clipe no Louvre?! Após Lemonade e 4:44, o lançamento de EVERYTHING IS LOVE consagra o casal como o mais poderoso do mundo da música.

Só temos a chance de entender o que se passa na cabeça e no coração dos Carters quando eles lançam trabalhos de estúdio ou outros projetos. Algo na linha de “Você quer saber mais sobre nós? Assine o Tidal e vá aos nossos shows”. Nesse disco, somos voyeurs por 38 minutos de um furacão familiar de drama, amor, dinheiro e luxo. É um misto de A Ursupadora, Casos de Família e Domingo Legal. Só que muito chique.

O título não mente. A vida a dois é explorada nos seus altos e baixos, desde quando e como eles se conheceram até renovar os votos após a traição que quase acabou com seu casamento. Pode parecer simples e uma ideia batida, mas isso é feito com Beyoncé entrando de cabeça no hip hop, com homenagens a artistas como Dr. Dre e diss para Kanye West e até 6ix9ine. Não faço ideia de como funciona o processo criativo de Beyoncé e Jay-Z, mas as escolhas de compositores foram muito assertivas. Recentemente, vi uma polêmica sobre se a Beyoncé realmente compõe. Isso é completamente irrelevante. Deus perdoe essas pessoas ruins.

Me despindo um pouco do frenesi em torno dos Carters, confesso que me decepcionei um pouco com algumas músicas. Com tantos lançamentos incríveis do hip hop recentemente – como o KIDS SEE GHOSTS – as faixas “FRIENDS” e “HEARD ABOUT US” tem flow genérico e poderiam ter sido  cantadas por qualquer outro rapper. Isso não quer dizer que são ruins, mas ficaram aquém de músicas como “BLACK EFFECT” e “LOVEHAPPY”, que encerram a narrativa do disco como a pincelada final de uma obra de arte.

Uma das melhores características de EVERYTHING IS LOVE são as pontes feitas com discos anteriores de Bey e Jay-Z. A vulnerabilidade de Beyoncé em “Sandcastles” (do disco Lemonade) e sua força em “Drunk In Love” (do disco Beyoncé) se conectam com “SUMMER”, primeira música desse disco. Isso se repete diversas vezes, o que enriquece a experiência, nos faz ouvir com mais atenção e abre espaço para diversas interpretações do que os artistas estão querendo dizer.

Eles fizeram de novo. Mais um discão, mais um trabalho muito bem produzido e mais ansiedade ao pensarmos no que eles vão fazem em seguida. Gostaria de ver Jay-Z saindo da zona de conforto tanto quanto a Beyoncé saiu, mas um passo de cada vez. Quem sabe no próximo anúncio surpresa? Agora, vestindo novamente o frenesi envolta dos Carters, devo dizer: AAAAA QUE ÁLBUM MARAVILHOSO LACROU TUDO MELHOR CASAL AMO MUITO JÁ VI “APESH*T” 50 VEZES PRECISO IR NA ON THE RUN II SENÃO EU VOU MORRER MEU DEUS MEU DEUS MEU DEEEEEEUS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

OUÇA: “LOVEHAPPY”, “BLACK EFFECT”, “SUMMER”, “NICE”.

Kanye West – ye


SPOILER ALERT: Se você ainda não assistiu e pretende assistir a série Mad Men, pule o primeiro parágrafo

Na última cena do derradeiro episódio da aclamada série Mad Men, o protagonista Don Draper, responsável pela criação de peças publicitárias de uma agência nova-iorquina nos 60, medita em um retiro espiritual. Corta-se então para um comercial verídico da Coca-Cola, de 1971, chamado “Hilltop”, o qual tornou-se icônico por mostrar pessoas de diferentes etnias no topo de uma montanha, em “perfeita harmonia”, compartilhando o refrigerante. A montagem sugere, portanto, não só que Draper foi o autor do comercial, mas também que sua aparente busca por uma paz interna, por uma resolução de seus conflitos existenciais, não passava de uma estratégia de processo criativo.

Assim como Draper, Kanye West iria até o inferno por uma ideia. E nos dias de hoje, nada parece mais materializar o inferno do que declaração-polêmica-em-redes-sociais. Com direito a uma enxurrada de posts sem sentido, apoio a Trump e comentários lamentáveis sobre escravidão, Kanye utilizou o twitter para chamar atenção para si e para seu álbum vindouro. Em uma estratégia de marketing que vai de besta a bestial, acabou fazendo com que estivéssemos preparados para um registro tão pessoal, inclusive se utilizando das reações raivosas que recebeu para criar as letras – o álbum foi feito em um mês e algumas faixas foram finalizadas horas antes do lançamento, após um retiro em Wyoming (abraço, Don!).

O tribunal das redes, porém, parece ter esquecido que este é um velho truque do artista. No auge de sua impopularidade, lançou seu principal álbum até hoje, o single sendo uma nota repetida de piano e um “toast for the douchebags”. Ou seja, Kanye sempre foi um idiota. Menos por suas atitudes e declarações do que por não possuir qualquer vínculo com elas – e aqueles que esperavam o primeiro álbum de rap alt-right da história demonstraram um flagrante desconhecimento disso. Utilizar-se de sua música para eclipsar as besteiras que faz e diz já é um padrão do rapper de Chicago, inclusive porque ele tende a apoiar seu processo criativo no buzz que é criado em volta delas. E isso fica evidente nas faixas em que cita as recentes polêmicas em que se envolveu.

Ladeado apenas por murmuros, Kanye abre o álbum recitando sua vontade de matar alguém. Com todo o pano de fundo exposto aqui, a reação é automática: “é, ele está louco”. Mas aí vem a primeira batida, e uma voz que parece carregar culpa e vulnerabilidade. E a seguir entra outra batida que transforma o andamento melódico anterior, agora com um vocal assertivo e agressivo. Kanye West in a nutshell. Não há nada de louco, o álbum segue e reconhecemos sua capacidade de criar batidas e rimas que ninguém fez, nem faz, assim como reencontramos composições infantilizadas e ofensivas. ye se apoia nesse movimento contínuo de aproximação e afastamento, tão caro ao seu autor – manifesto na sua capacidade de fazer uma rima como “cause now I see women as something to nurture not something to conquer, I hope she like Nicki I’ll make her a monster” em uma letra que basicamente expõe sua preocupação caso sua filha torne-se tão desejada quanto a mãe.

Muito se falou sobre o álbum ser caótico e tratar de instabilidade emocional como uma manifestação do recém descoberto transtorno bipolar do rapper. Mas Kanye expõe tanto essa questão – está na capa do álbum e em “Yikes” quando chama o transtorno de “my superpower” – que fica difícil enxergar esses momentos como a expressão de uma condição. Se há uma uma chave para a apreciação de Kanye West, esta passa longe de ser a busca pela “autenticidade autoral”. Kanye faz da bipolaridade algo cool, algo rimável, e é por essa capacidade construtora de narrativas que devemos admirá-lo – e beira o ridículo as leituras que enxergam o álbum como o símbolo de “um artista em confronto com uma doença mental”.

Como fica claro logo no título, em The Life of Pablo o rapper estava às voltas com a vida de um outro, exposta em 20 faixas esteticamente bem diferentes uma das outras e sem qualquer coesão de estilo rítmico entre elas; neste lançamento, o título é seu apelido, só em minúsculas, com apenas 7 faixas. Kanye não só decide olhar para sim mesmo como abrandar os sentimentos megalomaníacos anteriores, e com isso voltam os samples de uma base mais soul, os quais ele consegue encontrar e utilizar como ninguém. Abre espaço também para um certo “emo rap” com a novata 070 Shake, cujas repetidas aparições logo trazem à mente os featurings de Bon Iver em My Beautiful Dark Twisted Fantasy. É com ela que aparece um dos versos que soa essencial para entender o caminho que o autor traça nesse seu oitavo disco, presente na ótima “Ghost Town”:

I put my hand on a stove to see if I still bleed
And nothing hurts anymore, I feel kinda free

Ao voltarmos à faixa de abertura “I Thought About Killing You”, encontramos Kanye convocando às pessoas a dizerem seus pensamentos em alto e bom som só para ver como se sentem, reforçando a sua falta de filiação a qualquer ideologia ou linha de pensamento específica. Sempre que esses casos de escracho social-virtual ocorrem, é curioso como as pessoas dificilmente percebem como projetamos nossas opiniões e esperanças em celebridades milionárias. Pior, as faz pessoalizarem uma obra, já previamente rejeitando e, como no caso, perdendo a chance de entrar em contato com a capacidade de criação de um dos maiores músicos do nosso tempo.

OUÇA: “I Thought About Killing You”, “Wouldn’t Leave” e “Ghost Town”.

Plan B – Heaven Before All Hell Breaks Loose


Sem lançar um álbum desde 2012, Ben Drew volta com um álbum que parece um momento de transição pra algo que ainda está por vir. O cantor que se lançou como um rapper de rimas ácidas e agressivas e passou pelo soul sem perder a fúria, reaparece mais calmo e ainda bastante calcado nas vertentes da black music com uma nova estética um tanto quanto indefinida, experimentando com elementos de R&B, EDM e até uns toques de reggae em algumas músicas. Liricamente ele também parece realizar experimentos pra sair da sua zona de conforto ao cantar sobre temas além dos relatos autobiográficos que permearam os álbuns anteriores e inclusive cantando letras de outros compositores, algo inédito até então.

A voz de Ben Drew é cativante e se encaixa muito bem na proposta mais pop desse trabalho, com um bom alcance e melismas bem executados. Tecnicamente, o álbum é muito bem feito com boas linhas instrumentais e bons arranjos, ainda que genéricos em alguns momentos. “Grateful” que abre o disco mostra muito bem a mudança de direção que o cantor busca, a música reflete muito bem o momento da vida dele com toda a alegria e amor de ser pai pela primeira vez e o arranjo e a letra refletem muito bem esse estado de espírito de gratidão. “Stranger” que vem na sequência é um R&B noventista com uma das melhores performances vocais do álbum e com um trabalho de teclado e baixo interessante mas sem muita identidade, soando mais como um cover de Michael Jackson.

Ao longo do álbum, algumas faixas parecem tentativas de emular outros artistas como “Pursuit Of Happiness” que parece algo que o Justin Timberlake faria ou “Queue Jumping” que tem um arranjo muito parecido com as coisas que o Major Lazer faz. “Wait So Long” é uma música dançante com uma guitarra reggae e um quê de soul estruturado de forma parecida com o que o Avicii fazia mas os diversos elementos acabam não funcionando muito bem juntos nessa faixa, sendo uma das mais fracas do trabalho.

“Guess Again” relembra os tempos de rap do cantor com uma boa letra que resgata um pouquinho da agressividade dos trabalhos anteriores ao criticar os esforços dos poderosos em dividir o povo em facções distintas com o intuito de enfraquecê-la. No entanto, o arranjo é bem fraco e traz elementos bem datados do rap do começo dos anos 2000.

Os melhores momentos deste trabalho são a faixa-título e “Flesh & Bone” que estão de certa forma na zona de conforto do artista por trazerem o soul e o rap com os quais ele já está habituado mas que ainda assim parecem bem mais originais e com arranjos bem mais criativos do que o restante do álbum.

Por estar vivendo um momento de transição artística, creio que seja normal não saber pra onde direcionar seus esforços e experimentar em vertentes tão diversas como acontece aqui. O álbum vale ser ouvido pra conhecer como funciona o processo de evolução artística e entender essa transformação na estética sonora do Plan B. Encaro como bastante positivo o fato de Ben Drew estar revendo suas influências e experimentando outras formas de se expressar e, dado o histórico do artista, acredito que ele venha com algo mais coeso no futuro.

OUÇA: “Grateful”, “Heaven Before All Hell Breaks Loose”, “Flesh & Bone” e “Sepia”.