BROCKHAMPTON – Ginger



Quando eu tinha alguma dor de garganta ou inflamação boba, minha avó indicava chá de gengibre. A plantinha com aspecto estranho tem ação bactericida, é desintoxicante e contribui de maneira positiva para vários sistemas do nosso corpo. Desintoxicante. O quinto álbum de estúdio do BROCKHAMPTON é um registro após a saída do rapper Ameer Vann – afastado em 2018 após denúncias de abuso sexual por diversas mulheres. Vann foi co-fundador do grupo, ao lado de Kevin Abstract, era considerado um dos rappers de maior qualidade do grupo.

BROCKHAMPTON é formado, atualmente, por Kevin Abstract, Matt Champion, Dom McLennon, Merlyn Wood, Joba, Bearface, Romil Hemnani, Jabari Manwa, Kiko Merley, Robert Ontenient, Henock “HK” Sileshi, Ashlan Grey e Jon Nunes  – um time de futebol completo. 

Sem Ameer Vann, Ginger é um registro honesto, pessoal e belo, mas sem a força quase descomunal dos trabalhos anteriores. Às vezes a beleza parece estar nas pequenas ondas, nas pequenas odes. 

O registro é, de certo modo, intimista, mas pouco aprofundado. Ginger poderia ir além. Há discussões sobre saúde mental e religião, por exemplo, que poderiam ir mais a fundo, mas, ao todo, soam como honestas. Como permanecer bem? O BROCKHAMPTON apresenta seus medos com otimismo. Em “If You Pray Right”, um destaque do álbum, Dom McLennon fala justamente sobre lutas pessoais. “Dearly Departed”, sétima faixa do registro, soa como uma porrada. Com ares de canção de rock e vocal afinadíssimo de Joba no refrão, McLennon fala diretamente com o ex-integrante Ameer Vann, dizendo todas as suas angústias.

Mesclando elementos de R&B, rap e hip-hop e até rock, o BROCKHAMPTON permanece como um grupo a ser observado, mas com cuidado. Ginger se apresenta com algum frescor e certo destaque, mas não salta aos olhos como outros trabalhos  – bom, mas não o melhor.  

OUÇA: “HEAVEN BELONGS TO YOU”,”ST. PERCY”, “DEARLY DEPARTED”, “BIG BOY”

Kanye West – Jesus Is King



“A espera acabou, Kanye West acaba de lançar #JESUSISKING”, assim anunciava a conta oficial do Spotify no Twitter no dia do lançamento do nono álbum de estúdio de Kanye West, batizado de Jesus Is King, um álbum gospel que, embora retenha elementos de produções anteriores do artista, é o primeiro a se dedicar inteiramente às questões de fé e espiritualidade que rondam a trajetória artística de Kanye West.

Inicialmente anunciado pela esposa do artista para lançamento em 27.09.2019, o álbum acabou sendo lançado quase um mês após a data inicial, o que aumentou sensivelmente o clima de ansiedade ao redor do álbum e deixou algumas perguntas na cabeça de muitos: o que esperar de um álbum gospel de Kanye West? Será um álbum de rap com samples de músicas e hinos gospel afro-americanos? Será um álbum inteiramente gospel recheado de corais e releituras de músicas seculares, conforme o histórico dos Sunday Services realizados por ele há quase um ano? Será um clássico que redimirá Kanye West e o colocará acima das críticas do passado? O clima era de mistério e de espera.

Após algumas semanas, o álbum foi finalmente lançado em 25.10.2019, data prometida pelo próprio Kanye em sua conta do Twitter e, como qualquer outro álbum do artista, polarizou o cenário musical e ocupou o primeiro lugar nos assuntos mais falados nas redes sociais. Jesus Is King iniciou conversas sobre fé e espiritualidade, sobre a saúde mental do Kanye West, sobre a qualidade do álbum, sobre o que significa ser um artista gospel, entre tantas outras conversas que Kanye West parece ter o dom de iniciar.

Musicalmente, o álbum não representou um distanciamento das produções mais recentes de Kanye West e apresenta muitos aspectos semelhantes ao antecessor ye, sobretudo no que diz respeito à escolha dos beats e samples e à atmosfera das faixas. O álbum traz algumas faixas cujo instrumental integraria o álbum #YANDHI, anunciado para lançamento múltiplas vezes desde meados de 2018 e posteriormente abandonado pelo artista, e reflete um pouco do que Kanye tem proposto musicalmente em suas produções próprias e para outros artistas nos últimos tempos.

Por outro lado, a temática das faixas é inteiramente dedicada à vida espiritual de Kanye West e seu encontro com Deus. Mais do que conclamar os ouvintes a se renderem ao poder de Deus, Kanye parece refletir sobre suas próprias experiências com o divino e a indicar que sua vida mudou radicalmente após esse encontro. A experiência com Deus, sendo ela sincera ou não, está em todos os cantos de Jesus Is King e Kanye consegue conciliar estes temas com uma sonoridade familiar à maioria dos seus fãs. Faixas como “Follow God”, “Closed On Sundays” e “Everything We Need” são algumas das faixas que descrevem esse novo estágio na espiritualidade de Kanye e as mudanças que ele alega terem ocorrido em seu âmago. 

O grande acerto de Jesus Is King é ser um álbum acessível para todos, especialmente os fãs que não comungam da mesma fé de Kanye West. A produção do álbum é sólida e tem pontos altos em faixas como “God Is”, “Use This Gospel” (que tem participação de Kenny G e reunião do Clipse, grupo lendário composto por Pusha T e No Malice) e “Follow God”, mesmo não sendo produções especialmente complexas para o grande público.

No entanto, o álbum tem alguns pontos em que deixa a desejar. Algumas faixas, embora muito boas, parecem ter sido terminadas de forma apressada e poderiam ser mais longas, como é o caso de “Follow God”. Por outro lado, a parca presença do Sunday Service Choir deixou muitos fãs confusos, pois esperava-se que o álbum fosse explorar muito mais desse lado que Kanye tem apresentado nas turnês ao redor dos Estados Unidos. Por fim, o álbum poderia ser mais longo do que foi e dá impressão de um trabalho que foi apresentado ao mundo um pouco antes de alcançar a forma que deveria alcançar.

Jesus Is King, finalmente, é um álbum já bastante conhecido do público e que consagra Kanye West ainda mais no cenário musical. Não é um disco perfeito, mas apresenta qualidade e substância. O que fica desse álbum é a questão inevitável: quais caminhos musicais Kanye seguirá a partir de agora?

OUÇA: “Follow God”, “God Is”, “Use This Gospel”

Chance the Rapper – The Big Day



Chance the Rapper, o virtuoso e multitalentoso rapper de Chicago, Illinois, finalmente retornou à cena com o lançamento de seu aguardado debut, batizado de The Big Day, sucessor de Coloring Book, a terceira mixtape do artista que o consagrou entre os grandes nomes do rap internacional e o garantiu três Grammys. 

O rapper havia anunciado alguns meses atrás em suas redes sociais que lançaria seu primeiro álbum no mês de julho deste ano e, posteriormente, revelou a data de lançamento e nome do projeto poucas semanas antes de seu lançamento. Embora não tenha lançado singles para promover o álbum, Chance mobilizou sua presença digital para promovê-lo e para gerar grande expectativa nos fãs, que aguardavam ansiosamente o sucessor de Coloring Book.

No entanto, o tão aguardado The Big Day, longe de representar o crescimento artístico de Chance the Rapper e de ser mais um trabalho inovador do artista, provou ser um álbum decepcionante e muito inferior aos trabalhos que o consagraram no cenário musical contemporâneo. 

Se em Acid Rap, considerada uma das mixtapes mais importantes da década, testemunhamos a inovação e criatividade de um jovem Chance the Rapper (apenas um ano após o lançamento de sua primeira mixtape, 10 Day), e em Coloring Book verificamos o crescimento e versatilidade de um artista que ganhou três Grammys sem vender sequer um disco, em The Big Day somos testemunha de um projeto genérico, confuso e sem apelo aos fãs originais do rapper e a qualquer ouvinte desavisado. 

The Big Day é um álbum longo que conta com 22 faixas que giram em torno do dia do casamento de Chance the Rapper, o “grande dia” – expressão que nos causa ojeriza em terras brasileiras – do artista. As faixas do álbum são alegres, festivas e animadas, adequando-se ao clima festivo de uma festa de casamento. A positividade e entusiasmo de Chance aparecem em todas as faixas e é interessante poder testemunhar um pouco do que esse momento representou a ele.

Contudo, ainda que possamos nos alegrar com as alegrias de Chance the Rapper, The Big Day não é um projeto coeso e sólido. Antes, representa uma coleção de faixas confusas com participações que vão desde Nicki Minaj até Shawn Mendes e que tentam explorar uma diversidade de sonoridades e estilos musicais como R&B dos anos 90, trap, soul, jazz, pop e dance music, mas que apresentam como resultado final um retrato cacofônico de um artista que tenta a qualquer custo se adaptar ao que está em voga no mercado musical, mesmo que isso custe a criatividade, inovação e versatilidade tão característicos de sua persona e de seus trabalhos anteriores.

Se os fãs de Chance de Rapper, nos idos de 2016, pudessem viajar para o futuro e ouvir faixas como “Hot Shower”, “Ballin Flossin”, “Roo” e “5 Year Plan”, todos teriam dificuldade em acreditar que se trataria do mesmo artista que se consagrou com faixas como “Blessings”, “Cocoa Butter Kisses”, “Favorite Song” e tantas outras. 

The Big Day é um projeto decepcionante, pois representa um ponto de regressão no catálogo de um artista que vinha apresentando projetos impecáveis e culturalmente inovadores. O álbum é um longo conjunto de faixas pouco convincentes e esquecíveis que tentam explorar, sem sucesso, as alegrias e momentos memoráveis vividos em uma festa de casamento. The Big Day nos mostra que podemos estar alegres com o momento de vida que Chance the Rapper está vivendo e ao mesmo tempo profundamente tristes pelo lançamento de um projeto tão decepcionante.

OUÇA: “All Day Long”, “Eternal” e “Let’s Go On The Run”

Flying Lotus – Flamagra



O músico, produtor, DJ e rapper norte-americano Steve Ellison, a.k.a Flying Lotus, retornou à cena com seu aguardado sexto álbum de estúdio, batizado de Flamagra, cinco anos após o lançamento do aclamado You’re Dead!. Flamagra é um trabalho ousado de Flying Lotus que, longe de ser entretecido por um conceito ou ideia que perpassa todo o álbum, nos apresenta diversas rotas musicais e conceituais espalhadas ao longo das 27 faixas que o compõem.

O novo álbum de FlyLo pode ser visto como uma grande confluência das influências musicais e dos contemporâneos do artista, um verdadeiro Panteão do atual cenário musical do jazz, hip hop e do funk, trazendo colaborações tão icônicas quanto diversas como Anderson .Paak, George Clinton, Herbie Hancock, Solange, Tierra Whack, Denzel Curry, Toro y Moi, Thundercat e até um trecho de uma fala do aclamado diretor David Lynch.

Isso explica a multiplicidade de caminhos musicais trilhados ao redor do álbum, que comunga faixas mais funkeadas e cantadas como “Burning Down The House”, com feat de George Clinton, com faixas essencialmente instrumentais como “Fire Is Coming”, que conta com o snippet icônico de David Lynch, “Inside Your Home”e “Heroes”, a excelente faixa de abertura. Mas não para por aí. O álbum também traz esforços mais ligados ao rap, como a faixa “Black Balloons Reprise” com Denzel Curry, que serve como uma continuação mais sombria do tema explorado por Curry em sua própria faixa “BLACK BALOONS” do álbum TA13OO (2018), além de explorar os temas sonoros mais caros ao R&B alternativo na faixa “Land Of Honey”, com participação de Solange Knowles, entre tantas outras influências espalhadas pelas 27 faixas do álbum.

O único ponto negativo de Flamagra é que seu tamanho pode desencorajar uma boa parcela dos ouvintes, uma vez que o álbum não tem uma célula de sentido única, nem um fio condutor evidente que prenda a atenção do ouvinte ao longo das faixas. Talvez o único elemento que liga todas as faixas é a ideia de fogo e chamas (daí o nome Flamagra), mas até isso não é tão evidente durante a audição do álbum.

Ainda que peque pela falta de coesão em alguns momentos, Flamagra é um álbum que merece ser ouvido do início ao fim, já que testemunha o imenso poder criativo de Lotus e nos brinda com participações de uns dos grandes artistas de nossa época, tanto os consolidados quanto aqueles em ascensão.

OUÇA: “The Climb”, “Fire Is Coming” e “Black Balloons Reprise”

Anderson .Paak – Ventura



Nostálgico, Anderson .Paak continua sua viagem pelos arredores de Los Angeles em seu quarto álbum de estúdio, Ventura. Com sua voz rasgada e boa energia, o disco traz um ar mais nostálgico que sua produção anterior, Oxnard, e vem mais como uma evolução de seu reconhecido segundo álbum, Malibu, de 2016. No entanto, dessa vez o música entrega ao público muito mais R&B, funk, soul e disco que seus trabalhos anteriores, em uma boa união entre os ritmos marcados dos anos 70 e 80, sem perder a atualidade. O hip hop ainda é presente, mas funciona mais como elemento no meio das canções do que como gênero em si.

O álbum, com suas 11 faixas, destaca-se principalmente pela instrumentação, com destaque às linhas de baixo e bateria, sem deixar de lado sintetizadores, riffs de guitarra e um beat bem marcado. A construção do álbum é consistente nas primeiras quatro faixas, com uma quebra considerável em “Good Heels” – um dos pontos fracos do álbum – e tenta retomar o ritmo com “King James”, um dos singles do disco, que no entanto não consegue manter a sequência alcançada nas primeiras faixas. Essa quebra de ritmo causada no meio do álbum afeta fortemente a consistência do álbum, que após a segunda metade torna-se mais um amontoado de músicas do que algo sólido e bem estruturado, como espera-se de um bom álbum.

As primeiras quatro faixas do disco trazem uma força muito positiva para os fãs de .Paak, com belas parcerias, como o rapper André 3000, lenda do Outkast, ou como o experiente Smokey Robinson, que faz de “Make It Better” uma das melhores canções do álbum. O groove presente nessas faixas, com destaque especial para “Winners Circle”, com uma bela instrumentação, fariam do álbum completo por si só.

A quebra do ritmo, como já dito, acontece em “Good Heels”: uma faixa de 1:38 com a parceria de Jazmine Sullivan, que abruptamente acaba como se estivesse faltando alguma coisa, como se fosse feita pela metade, em algo que poderia render mais. A canção é mais parada que as faixas anteriores, quase “morta”, dilacerando todo o groove já alcançado em uma tentativa de uma música mais soft, voltando à estaca zero. O desapontamento causado por essa quebra faz as músicas seguintes perderem todo o nexo, salvo “King James” e “Jet Black”, que facilmente poderiam vir logo na sequência das quatro primeiras faixas, com um groove e uma qualidade excepcional.

Outro detalhe do álbum – não necessariamente negativo – é uma aparente divisão em duas partes de algumas canções, com uma mudança do ritmo ou de estrutura da música, mas que – felizmente – não afeta a qualidade dela. Talvez o exemplo mais claro fique em “Reachin’ 2 Much”, que começa com uma linha de bateria forte, em um estilo mais funk, e “do nada” vira uma música disco, com violinos, um coral melódico e uma guitarra cheia de efeitos. Talvez na primeira vez que você ouça, soará estranho, mas ao mesmo tempo interessante. Outro exemplo mais sutil é na faixa de abertura, “Come Home”, que inicia-se com um ritmo mais soul e um certo sofrimento na voz de .Paak, e que ganha boa agilidade quando André 3000 entra e faz seu quase um minuto e meio de rap ininterrupto. Intrigante.

Talvez Ventura contenha algumas das melhores canções de .Paak, mas ainda é um álbum que peca em estrutura. Suas músicas mostram um avanço do artista em busca de um ar nostálgico, ao mesmo tempo que moderno, com muitas referência dos anos 70 e 80. O músico californiano aparentemente descobriu em Ventura um caminho confortável e de qualidade para sua produção musical, e muito provavelmente seus próximos álbuns continuem a evolução mostrada em seus últimos discos. Seu último álbum já é consideravelmente bom, e seus fãs têm motivos para esperar um futuro ainda melhor.

OUÇA: “Make It Better (feat. Smokey Robinson)”, “King James”, “Jet Black (feat. Brandy)”, “Winners Circle”

Khalid — Free Spirit



O mundo conheceu Khalid em 2017, quando o jovem estadunidense de então 19 anos lançou seu debut American Teen. O cantor logo conquistou seu lugar ao sol graças ao seu vozeirão embalado por um beat gostosinho. Dois anos depois, Khalid nos apresenta o seu Free Spirit.

Revelação do R&B contemporâneo, Khalid tem um jeito sutil de transitar entre o pop e o hip hop e traz isso bem nítido no novo trabalho.

A versão mais hip hop de Khalid pode ser percebida em faixas como “Bad Luck” e “Better” — esta última que estava presente no EP Suncity (2018), junto de “Saturday Nights”, que encerra o disco.

Seu lado mais pop fica por conta de músicas como “Talk”, canção que é o grande hit de Free Spirit. Feita em parceria com o Disclosure, a música é chiclete mesmo e conta com um clipe bem millennial, em uma estética pinteréstica e que lembra um pouco “Hotline Bling”, do Drake.

Apesar de ter algumas músicas que parece que a gente já ouviu antes (estou olhando para você, “Bluffin’”), temos canções muito boas, como “Free Spirit”, “Twenty One” e “Self”. “Hundred” é minha música favorita do álbum, porque além de trazer com mais intensidade o Khalid que eu já conhecia, é uma música com superpotencial de hit prontinho para estourar — e tem a letra perfeita.

São 57 minutos e 17 músicas para apreciar todo o talento de Khalid. E como 17 músicas é bastante coisa, não é sempre que o cantor acerta. As parcerias, “Don’t Pretend”, com SAFE, e “Outta My Head”, com John Mayer, por exemplo, ficam um pouco fora de lugar, eu diria. Talvez tenha faltado um pouco de edição aqui, às vezes menos é mais.  

Khalid, agora com 21 anos, tem o rosto e o espírito livre da nova geração da música pop. Free Spirit pode não ser uma obra-prima impecável (saudades, era American Teen), mas tem boas letras, boas batidas e bons hits; é um disco coeso, gostosinho e vale a ouvida.

Fun fact: Junto do lançamento do disco, Khalid lançou um curta metragem homônimo, que explora a mensagem do disco. Se você curtiu o álbum, vale assistir.

OUÇA: “Hundred”, “Talk”, “Twenty One”, “Self”.

Cypress Hill – Elephants On Acid


Após oito anos de sem lançar um disco, Cypress Hill volta com disco muito louco e cheio de misturas de estilos interessantíssimos. Elephants On Acid surpreende tanto no nome, como na capa e no uso de orientalismo e cítaras nos seus samplers. Nesse trabalho a parceria entre B-Real e Tom Morello (lá no Prophets of Rage) foi deixada de lado, e apostou no mix com dois musicistas egípcios: Sadat e Alaa Fifty.

A consequência é um som chapadaço e místico. Camadas e mais camadas musicais que se ouvidos separados, talvez não fizesse tanto sentido, mas sobrepostos criam atmosferas sensacionais, como a de “Falling Down”. Ou ainda o som feito por um elefante no fundo de Insane OG”. E as maravilhosas camadas de vozes de “Reefer Man”.

Além disso, Elephants On Acid surpreende por ser um disco cadenciado e com músicas instrumentais bem colocadas, dando um toque de continuidade para a obra. Isso mostra mais do que nunca que dentro do mundo musical dos EUA, a irreverência e a musicalidade mais interessante da atualidade não está no rock, pelo contrário, está evidentemente no hip-hop. Ainda mais em casos como esse, em que ouvimos trompetes e orientalismo tão bem usado em instrumentos, mas também em backing vocals.

Cypress Hill continua um dos grupos de hip-hop mais importantes do mundo, tanto por suas letras críticas e som, mas também por ser composto por membros de origem latina, nascidos em Los Angeles predominantemente. Até disco em espanhol eles já lançaram. E isso é necessário para questionar a xenofobia dos EUA, e dessa forma, criar sons tão dançantes com misturas tão poderosas características dos latinos.

OUÇA: “Band Of Gypsies”, “Falling Down” e “Reefer Man”

Neneh Cherry – Broken Politics


Broken Politics, belo novo álbum da Neneh Cherry, foi lançado em 19 de outubro, e se constitui como mais um belo trabalho na sequência de bons álbuns da carreira de Neneh. A cantora sueca, um dos grandes nomes femininos da década de 90 sempre trabalhou a partir de sonoridades menos heterodoxas. Flertando com uma estética eletrônica soturna (dependendo da faixa), bastante tributária do trip-hop, porém assimilando estruturas mais comuns nos anos 2000, como o uso de vinhetas (“Poem Daddy”), Neneh produziu um álbum cujo título parece remeter também ao atual zeitgeist da contemporaneidade: broken politics, política esfacelada, como a ausência de diálogo e o autoritarismo de governos de extrema-direita espoucando pelo mundo.

A simplicidade límpida de “Synchronised devotion”, até as texturas e o piano sorumbático de “Deep vein thrombosis”, passando pelo tri-hop repaginado de “Kong”, que bebe muito nas sonoridades de Tricky e Massive Attack. “Faster than the truth” apresenta uma construção orgânica massuda de bateria pontuada por teclados atmosféricos. “Natural skin” é interessante, apesar dos efeitos já um pouco datados, e que poderiam estar no Ray of Light da Madonna.

Broken Politics dá uns escorregões pontuais, mas com certeza absoluta pode ser considerado um dos trabalhos mais interessantes desse 2018 às portas do fim. Neneh Cherry confirma assim sua fama de uma das artistas mais interessantes dos últimos 25 anos.

OUÇA: “Kong”, “Synchronised Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”.

Twenty One Pilots – Trench


O grande problema do hype massivo, causado pela exposição rápida e intensa de um artista ou grupo no mainstream depois de um tempo de carreira passando despercebidos no underground, é o malabarismo que os mesmos são obrigados a fazer para agradar diversos públicos, como a legião de fãs fiéis (sejam os que acabaram de chegar ou os de longa data), os consumidores populares dessa parte mais radiofônica da indústria musical, e os mais céticos, que rejeitam ou estranham seja lá o que aconteceu na sonoridade desses artistas para ocorrer essa ascensão de popularidade. E muitas vezes essa perseguição, seja fanática ou midiática, atrás do novo fenômeno musical que vai produzir um tipo de trabalho que agrade essas porcentagens de diferentes ouvintes acaba afetando a forma como o artista olha para sua própria música, tentando encaixá-la em padrões que nem sempre mantém uma fidelidade ao fluxo natural evolutivo de suas obras.

E se hoje em dia você pedir pra qualquer um falar uma banda que caiu nessa armadilha, provavelmente a maioria te responderia Twenty One Pilots. A dupla de pop/rap/reggae/whatever virou um fenômeno depois do lançamento do álbum Blurryface em 2015, que emplacou alguns singles como “Stressed Out” e “Ride”. O engraçado é que, algumas bandas que caíram nesse buraco de grandes expectativas do público, como Oasis e Arctic Monkeys,  já usaram o mantra “Don’t Believe The Hype” para lidar de forma mais sarcástica e, ao mesmo tempo, rancorosa com esse tipo de buzz que cerca seus nomes.

Então faz todo sentido o uso dessa frase no refrão da música “The Hype”, que abre a segunda metade do novo álbum da banda, Trench. E mesmo que o tipo de mensagem que o vocalista Tyler Joseph quer passar seja bem clara e direta aqui, ela ainda é dita de forma muito mais interessante do que os chiliques anti-rádio de músicas do álbum anterior como “Fairly Local” e “Lane Boy”. Esse é um dos triunfos não só dessa música, mas do trabalho em geral, que possui composições mais complexas lírica e instrumentalmente, demonstrando um claro amadurecimento de ideias que já apareciam em pequenas faíscas antes, como as letras que mostram a luta do cantor contra seus problemas mentais de forma muito mais subjetiva e concisa.

Outro aspecto que floresce aqui é a forma como os beats e as melodias se desenvolvem em grooves mais consistentes, que não tem a instantaneidade tradicional da dupla, deixando as canções respirarem e crescerem lentamente no inconsciente de quem escuta. A forma como “My Blood”, por exemplo, cresce de forma delicada até entrar em um loop de baixo extremamente envolvente e um refrão pegajoso, sem perder tal delicadeza inicial é um dos exemplos de triunfo no que a banda conseguiu evoluir artisticamente. A variedade que essa experimentação, calcada em bases previamente cobertas pela banda, ajuda a criar é a chave pro sucesso de equilibrar esse sentido de trazer algo novo pra quem tem sede disso, e quem espera algo mais digestível e familiar dessas músicas. Momentos com detalhes interessantes como o beat esquizofrênico de “Pet Cheetah” e o baixo selvagem de “Jumpsuit” ajudam a quebrar a fórmula que havia virado ponto comum na obra do Twenty One Pilots, mostrando que são capazes de sair desse molde que a banda criou pra si mesmo anteriormente e ainda fazer algo relevante, e que instigue qualquer tipo de ouvinte.

Porém, o problema aqui é exatamente que essa variação não se prolonga pelo álbum inteiro. Ele é inteiramente construído de “highlights” que capturam sua atenção por um tempo para tentar te jogar no clima dele, e em diversas músicas caminha por uma estrutura que consiste em beats mais calmos com fortes influências de dub, juntamente com refrões que não são lá muito memoráveis e fazem com que tais canções se percam no meio de certas partes muito mais vivas e criativas do álbum. E mesmo que todas elas façam sentido nesse conceito de um mundo ficcional que Tyler e Josh tentam criar pra satisfazer os fãs conspiracionistas, essa mesma ideia é uma das coisas que mais ferem a consistência do álbum.

Então é nesse ponto que o balanço é quebrado, pois mesmo que haja uma evolução nas narrativas concebidas, elas perduram de forma uniforme por muito tempo ao longo dos 56 minutos de “Trench”, tornando-o escravo de um “fanservice” desnecessário que, se não fosse o foco de sua criação, talvez pudesse ter sua duração reduzida, focando melhor em sua coesão e nessas progressões mais fora da curva que certas canções mostraram.

Mesmo sendo mais consistente e maduro que Blurryface, o principal pecado do álbum é a falta de variedade que destacava seu irmão de 2015, mostrando que ainda falta um pouco para o Twenty One Pilots consiga fazer um álbum que agrade a gregos e troianos. Porém, mesmo que não haja nada tão instantâneo como “Stressed Out” aqui, é no mínimo intrigante a forma como a banda construiu algo muito mais poderoso a partir de todas as suas bases anteriores, deixando um sinal de que eles talvez tenham uma carreira que possa ficar cada vez mais interessante.

OUÇA: “Pet Cheetah”, “Jumpsuit”, “My Blood”, “Chlorine” e “Levitate”

Nicki Minaj – Queen


Fazia tempo que um álbum não me dava tanta dor de cabeça pra resenhar e provavelmente aterrorizava a chefia do blog com tanto atraso, mas cá estamos nós. Acho mais do que justo sempre me focar no trabalho que o artista entrega e passar longe de fandoms e notícias tendenciosas (pra melhor ou pra pior), mas com a fama de Nicki Minaj sendo do tamanho do mundo, foi impossível filtrar tudo, e rodeada de pronunciamentos e burburinhos a moça vem a tona com Queen, e enquanto a cantora aparenta se divertir e se sentir orgulhosa em seu trabalho, no mundo real, Nicki não parece tão satisfeita como soa…

Indo direto ao assunto, Queen é sim um álbum bacana, com boa parte de seus melhores momentos sendo a volta da artista as suas raízes e entregando raps fluídos e descontraídos, que claramente vão animar fãs mais antigos, apesar de pecar quando se trata de profundidade, é um álbum bem trabalhado e de boa qualidade, mas com tantos novos artistas nos holofotes desse ano, legitimamente felizes com o que estão fazendo e sem medo de soltarem a língua, Nicki Minaj fica apenas pelos cantos, presa dentro de sua própria cabeça e preocupada demais com a opinião do resto do mundo, estatísticas e afins. Fica difícil apontar com clareza os altos do álbum quando se está mais preocupado com o estado da artista.

E é esse o problema com Queen (e a própria cantora): a inconsistência da imagem que Nicki transparece. Enquanto por um lado ela se mostra uma mulher forte, dona do próprio nariz, denunciando injustiças na indústria musical e passando boas mensagens de empoderamento e conscientização para seus fãs em shows, por outro ela por vezes parece bem distante de seu público, reclusa com seu círculo de amigos famosos, num outro patamar de vida e consequentemente mais superficial e com parcerias extremamente duvidosas. Enquanto The Pinkprint (2014), compartilha alguns dos mesmos problemas que Queen, ele segue sendo mais melódico e viciante, as parcerias são mais consistentes e impactantes, e apesar de tender mais para o pop, ele não é engolido por seus participantes como o novo registro. O público tem acesso a uma Nicki mais vulnerável e decidida, mas bem alheia aos movimentos políticos (e mais do que necessários de serem mencionados) e sororidade quando realmente conta, sendo essa uma surpresa bem negativa do álbum, desperdiçando uma boa oportunidade para falar de algo além dos altos e baixos de relacionamentos amorosos, meio que deixando a entender o álbum gira mais em torno do seu ego do que qualquer outra coisa.

Mesmo com a mídia sendo constantemente bem dissimulada com a cantora e dramatizando situações que não são nada de mais, realmente fica bem incerto saber se Nicki realmente está falando em nome de outras mulheres ou apenas sendo rancorosa com outros artistas por não estar satisfeita com sua publicidade e vendas, quase sempre ficando a mercê daquele meio-termo onde não se sabe se ela está sendo mal interpretada ou apenas se expressando mal. E até os ares se acalmarem e as coisas serem acertadas, o público já perdeu o interesse na situação, ficando apenas com a primeira impressão da coisa toda.

A essa altura do campeonato é até ridículo esperar um álbum ruim de Nicki Minaj, munida com uma boa leva de músicas perfeitas para bombarem nas rádios e dando os ares da graça de seus dias de mixtape (“Barbie Dreams” e “Chun Swae” sendo ótimos exemplo disso), a cantora garante um bom alcance de satisfação para todos os seus fãs, com sonoridade e letras bem contagiantes. Queen passa bem de longe de ser um álbum ruim, mas é quase inevitável não pensar que ele poderia ser bem melhor, mas ao invés de pensar nisso de uma forma negativa, é mais prático e realista encarar isso como mais espaço pro desenvolvimento da cantora, que independente de qualquer controvérsia e contratempo, se mostra tanto uma rapper quanto uma popstar sempre em ascenção.

OUÇA: “Hard White”, “Chun-Li” e “Come See About Me”.