Flying Lotus – Flamagra



O músico, produtor, DJ e rapper norte-americano Steve Ellison, a.k.a Flying Lotus, retornou à cena com seu aguardado sexto álbum de estúdio, batizado de Flamagra, cinco anos após o lançamento do aclamado You’re Dead!. Flamagra é um trabalho ousado de Flying Lotus que, longe de ser entretecido por um conceito ou ideia que perpassa todo o álbum, nos apresenta diversas rotas musicais e conceituais espalhadas ao longo das 27 faixas que o compõem.

O novo álbum de FlyLo pode ser visto como uma grande confluência das influências musicais e dos contemporâneos do artista, um verdadeiro Panteão do atual cenário musical do jazz, hip hop e do funk, trazendo colaborações tão icônicas quanto diversas como Anderson .Paak, George Clinton, Herbie Hancock, Solange, Tierra Whack, Denzel Curry, Toro y Moi, Thundercat e até um trecho de uma fala do aclamado diretor David Lynch.

Isso explica a multiplicidade de caminhos musicais trilhados ao redor do álbum, que comunga faixas mais funkeadas e cantadas como “Burning Down The House”, com feat de George Clinton, com faixas essencialmente instrumentais como “Fire Is Coming”, que conta com o snippet icônico de David Lynch, “Inside Your Home”e “Heroes”, a excelente faixa de abertura. Mas não para por aí. O álbum também traz esforços mais ligados ao rap, como a faixa “Black Balloons Reprise” com Denzel Curry, que serve como uma continuação mais sombria do tema explorado por Curry em sua própria faixa “BLACK BALOONS” do álbum TA13OO (2018), além de explorar os temas sonoros mais caros ao R&B alternativo na faixa “Land Of Honey”, com participação de Solange Knowles, entre tantas outras influências espalhadas pelas 27 faixas do álbum.

O único ponto negativo de Flamagra é que seu tamanho pode desencorajar uma boa parcela dos ouvintes, uma vez que o álbum não tem uma célula de sentido única, nem um fio condutor evidente que prenda a atenção do ouvinte ao longo das faixas. Talvez o único elemento que liga todas as faixas é a ideia de fogo e chamas (daí o nome Flamagra), mas até isso não é tão evidente durante a audição do álbum.

Ainda que peque pela falta de coesão em alguns momentos, Flamagra é um álbum que merece ser ouvido do início ao fim, já que testemunha o imenso poder criativo de Lotus e nos brinda com participações de uns dos grandes artistas de nossa época, tanto os consolidados quanto aqueles em ascensão.

OUÇA: “The Climb”, “Fire Is Coming” e “Black Balloons Reprise”

Anderson .Paak – Ventura



Nostálgico, Anderson .Paak continua sua viagem pelos arredores de Los Angeles em seu quarto álbum de estúdio, Ventura. Com sua voz rasgada e boa energia, o disco traz um ar mais nostálgico que sua produção anterior, Oxnard, e vem mais como uma evolução de seu reconhecido segundo álbum, Malibu, de 2016. No entanto, dessa vez o música entrega ao público muito mais R&B, funk, soul e disco que seus trabalhos anteriores, em uma boa união entre os ritmos marcados dos anos 70 e 80, sem perder a atualidade. O hip hop ainda é presente, mas funciona mais como elemento no meio das canções do que como gênero em si.

O álbum, com suas 11 faixas, destaca-se principalmente pela instrumentação, com destaque às linhas de baixo e bateria, sem deixar de lado sintetizadores, riffs de guitarra e um beat bem marcado. A construção do álbum é consistente nas primeiras quatro faixas, com uma quebra considerável em “Good Heels” – um dos pontos fracos do álbum – e tenta retomar o ritmo com “King James”, um dos singles do disco, que no entanto não consegue manter a sequência alcançada nas primeiras faixas. Essa quebra de ritmo causada no meio do álbum afeta fortemente a consistência do álbum, que após a segunda metade torna-se mais um amontoado de músicas do que algo sólido e bem estruturado, como espera-se de um bom álbum.

As primeiras quatro faixas do disco trazem uma força muito positiva para os fãs de .Paak, com belas parcerias, como o rapper André 3000, lenda do Outkast, ou como o experiente Smokey Robinson, que faz de “Make It Better” uma das melhores canções do álbum. O groove presente nessas faixas, com destaque especial para “Winners Circle”, com uma bela instrumentação, fariam do álbum completo por si só.

A quebra do ritmo, como já dito, acontece em “Good Heels”: uma faixa de 1:38 com a parceria de Jazmine Sullivan, que abruptamente acaba como se estivesse faltando alguma coisa, como se fosse feita pela metade, em algo que poderia render mais. A canção é mais parada que as faixas anteriores, quase “morta”, dilacerando todo o groove já alcançado em uma tentativa de uma música mais soft, voltando à estaca zero. O desapontamento causado por essa quebra faz as músicas seguintes perderem todo o nexo, salvo “King James” e “Jet Black”, que facilmente poderiam vir logo na sequência das quatro primeiras faixas, com um groove e uma qualidade excepcional.

Outro detalhe do álbum – não necessariamente negativo – é uma aparente divisão em duas partes de algumas canções, com uma mudança do ritmo ou de estrutura da música, mas que – felizmente – não afeta a qualidade dela. Talvez o exemplo mais claro fique em “Reachin’ 2 Much”, que começa com uma linha de bateria forte, em um estilo mais funk, e “do nada” vira uma música disco, com violinos, um coral melódico e uma guitarra cheia de efeitos. Talvez na primeira vez que você ouça, soará estranho, mas ao mesmo tempo interessante. Outro exemplo mais sutil é na faixa de abertura, “Come Home”, que inicia-se com um ritmo mais soul e um certo sofrimento na voz de .Paak, e que ganha boa agilidade quando André 3000 entra e faz seu quase um minuto e meio de rap ininterrupto. Intrigante.

Talvez Ventura contenha algumas das melhores canções de .Paak, mas ainda é um álbum que peca em estrutura. Suas músicas mostram um avanço do artista em busca de um ar nostálgico, ao mesmo tempo que moderno, com muitas referência dos anos 70 e 80. O músico californiano aparentemente descobriu em Ventura um caminho confortável e de qualidade para sua produção musical, e muito provavelmente seus próximos álbuns continuem a evolução mostrada em seus últimos discos. Seu último álbum já é consideravelmente bom, e seus fãs têm motivos para esperar um futuro ainda melhor.

OUÇA: “Make It Better (feat. Smokey Robinson)”, “King James”, “Jet Black (feat. Brandy)”, “Winners Circle”

Khalid — Free Spirit



O mundo conheceu Khalid em 2017, quando o jovem estadunidense de então 19 anos lançou seu debut American Teen. O cantor logo conquistou seu lugar ao sol graças ao seu vozeirão embalado por um beat gostosinho. Dois anos depois, Khalid nos apresenta o seu Free Spirit.

Revelação do R&B contemporâneo, Khalid tem um jeito sutil de transitar entre o pop e o hip hop e traz isso bem nítido no novo trabalho.

A versão mais hip hop de Khalid pode ser percebida em faixas como “Bad Luck” e “Better” — esta última que estava presente no EP Suncity (2018), junto de “Saturday Nights”, que encerra o disco.

Seu lado mais pop fica por conta de músicas como “Talk”, canção que é o grande hit de Free Spirit. Feita em parceria com o Disclosure, a música é chiclete mesmo e conta com um clipe bem millennial, em uma estética pinteréstica e que lembra um pouco “Hotline Bling”, do Drake.

Apesar de ter algumas músicas que parece que a gente já ouviu antes (estou olhando para você, “Bluffin’”), temos canções muito boas, como “Free Spirit”, “Twenty One” e “Self”. “Hundred” é minha música favorita do álbum, porque além de trazer com mais intensidade o Khalid que eu já conhecia, é uma música com superpotencial de hit prontinho para estourar — e tem a letra perfeita.

São 57 minutos e 17 músicas para apreciar todo o talento de Khalid. E como 17 músicas é bastante coisa, não é sempre que o cantor acerta. As parcerias, “Don’t Pretend”, com SAFE, e “Outta My Head”, com John Mayer, por exemplo, ficam um pouco fora de lugar, eu diria. Talvez tenha faltado um pouco de edição aqui, às vezes menos é mais.  

Khalid, agora com 21 anos, tem o rosto e o espírito livre da nova geração da música pop. Free Spirit pode não ser uma obra-prima impecável (saudades, era American Teen), mas tem boas letras, boas batidas e bons hits; é um disco coeso, gostosinho e vale a ouvida.

Fun fact: Junto do lançamento do disco, Khalid lançou um curta metragem homônimo, que explora a mensagem do disco. Se você curtiu o álbum, vale assistir.

OUÇA: “Hundred”, “Talk”, “Twenty One”, “Self”.

Cypress Hill – Elephants On Acid


Após oito anos de sem lançar um disco, Cypress Hill volta com disco muito louco e cheio de misturas de estilos interessantíssimos. Elephants On Acid surpreende tanto no nome, como na capa e no uso de orientalismo e cítaras nos seus samplers. Nesse trabalho a parceria entre B-Real e Tom Morello (lá no Prophets of Rage) foi deixada de lado, e apostou no mix com dois musicistas egípcios: Sadat e Alaa Fifty.

A consequência é um som chapadaço e místico. Camadas e mais camadas musicais que se ouvidos separados, talvez não fizesse tanto sentido, mas sobrepostos criam atmosferas sensacionais, como a de “Falling Down”. Ou ainda o som feito por um elefante no fundo de Insane OG”. E as maravilhosas camadas de vozes de “Reefer Man”.

Além disso, Elephants On Acid surpreende por ser um disco cadenciado e com músicas instrumentais bem colocadas, dando um toque de continuidade para a obra. Isso mostra mais do que nunca que dentro do mundo musical dos EUA, a irreverência e a musicalidade mais interessante da atualidade não está no rock, pelo contrário, está evidentemente no hip-hop. Ainda mais em casos como esse, em que ouvimos trompetes e orientalismo tão bem usado em instrumentos, mas também em backing vocals.

Cypress Hill continua um dos grupos de hip-hop mais importantes do mundo, tanto por suas letras críticas e som, mas também por ser composto por membros de origem latina, nascidos em Los Angeles predominantemente. Até disco em espanhol eles já lançaram. E isso é necessário para questionar a xenofobia dos EUA, e dessa forma, criar sons tão dançantes com misturas tão poderosas características dos latinos.

OUÇA: “Band Of Gypsies”, “Falling Down” e “Reefer Man”

Neneh Cherry – Broken Politics


Broken Politics, belo novo álbum da Neneh Cherry, foi lançado em 19 de outubro, e se constitui como mais um belo trabalho na sequência de bons álbuns da carreira de Neneh. A cantora sueca, um dos grandes nomes femininos da década de 90 sempre trabalhou a partir de sonoridades menos heterodoxas. Flertando com uma estética eletrônica soturna (dependendo da faixa), bastante tributária do trip-hop, porém assimilando estruturas mais comuns nos anos 2000, como o uso de vinhetas (“Poem Daddy”), Neneh produziu um álbum cujo título parece remeter também ao atual zeitgeist da contemporaneidade: broken politics, política esfacelada, como a ausência de diálogo e o autoritarismo de governos de extrema-direita espoucando pelo mundo.

A simplicidade límpida de “Synchronised devotion”, até as texturas e o piano sorumbático de “Deep vein thrombosis”, passando pelo tri-hop repaginado de “Kong”, que bebe muito nas sonoridades de Tricky e Massive Attack. “Faster than the truth” apresenta uma construção orgânica massuda de bateria pontuada por teclados atmosféricos. “Natural skin” é interessante, apesar dos efeitos já um pouco datados, e que poderiam estar no Ray of Light da Madonna.

Broken Politics dá uns escorregões pontuais, mas com certeza absoluta pode ser considerado um dos trabalhos mais interessantes desse 2018 às portas do fim. Neneh Cherry confirma assim sua fama de uma das artistas mais interessantes dos últimos 25 anos.

OUÇA: “Kong”, “Synchronised Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”.

Twenty One Pilots – Trench


O grande problema do hype massivo, causado pela exposição rápida e intensa de um artista ou grupo no mainstream depois de um tempo de carreira passando despercebidos no underground, é o malabarismo que os mesmos são obrigados a fazer para agradar diversos públicos, como a legião de fãs fiéis (sejam os que acabaram de chegar ou os de longa data), os consumidores populares dessa parte mais radiofônica da indústria musical, e os mais céticos, que rejeitam ou estranham seja lá o que aconteceu na sonoridade desses artistas para ocorrer essa ascensão de popularidade. E muitas vezes essa perseguição, seja fanática ou midiática, atrás do novo fenômeno musical que vai produzir um tipo de trabalho que agrade essas porcentagens de diferentes ouvintes acaba afetando a forma como o artista olha para sua própria música, tentando encaixá-la em padrões que nem sempre mantém uma fidelidade ao fluxo natural evolutivo de suas obras.

E se hoje em dia você pedir pra qualquer um falar uma banda que caiu nessa armadilha, provavelmente a maioria te responderia Twenty One Pilots. A dupla de pop/rap/reggae/whatever virou um fenômeno depois do lançamento do álbum Blurryface em 2015, que emplacou alguns singles como “Stressed Out” e “Ride”. O engraçado é que, algumas bandas que caíram nesse buraco de grandes expectativas do público, como Oasis e Arctic Monkeys,  já usaram o mantra “Don’t Believe The Hype” para lidar de forma mais sarcástica e, ao mesmo tempo, rancorosa com esse tipo de buzz que cerca seus nomes.

Então faz todo sentido o uso dessa frase no refrão da música “The Hype”, que abre a segunda metade do novo álbum da banda, Trench. E mesmo que o tipo de mensagem que o vocalista Tyler Joseph quer passar seja bem clara e direta aqui, ela ainda é dita de forma muito mais interessante do que os chiliques anti-rádio de músicas do álbum anterior como “Fairly Local” e “Lane Boy”. Esse é um dos triunfos não só dessa música, mas do trabalho em geral, que possui composições mais complexas lírica e instrumentalmente, demonstrando um claro amadurecimento de ideias que já apareciam em pequenas faíscas antes, como as letras que mostram a luta do cantor contra seus problemas mentais de forma muito mais subjetiva e concisa.

Outro aspecto que floresce aqui é a forma como os beats e as melodias se desenvolvem em grooves mais consistentes, que não tem a instantaneidade tradicional da dupla, deixando as canções respirarem e crescerem lentamente no inconsciente de quem escuta. A forma como “My Blood”, por exemplo, cresce de forma delicada até entrar em um loop de baixo extremamente envolvente e um refrão pegajoso, sem perder tal delicadeza inicial é um dos exemplos de triunfo no que a banda conseguiu evoluir artisticamente. A variedade que essa experimentação, calcada em bases previamente cobertas pela banda, ajuda a criar é a chave pro sucesso de equilibrar esse sentido de trazer algo novo pra quem tem sede disso, e quem espera algo mais digestível e familiar dessas músicas. Momentos com detalhes interessantes como o beat esquizofrênico de “Pet Cheetah” e o baixo selvagem de “Jumpsuit” ajudam a quebrar a fórmula que havia virado ponto comum na obra do Twenty One Pilots, mostrando que são capazes de sair desse molde que a banda criou pra si mesmo anteriormente e ainda fazer algo relevante, e que instigue qualquer tipo de ouvinte.

Porém, o problema aqui é exatamente que essa variação não se prolonga pelo álbum inteiro. Ele é inteiramente construído de “highlights” que capturam sua atenção por um tempo para tentar te jogar no clima dele, e em diversas músicas caminha por uma estrutura que consiste em beats mais calmos com fortes influências de dub, juntamente com refrões que não são lá muito memoráveis e fazem com que tais canções se percam no meio de certas partes muito mais vivas e criativas do álbum. E mesmo que todas elas façam sentido nesse conceito de um mundo ficcional que Tyler e Josh tentam criar pra satisfazer os fãs conspiracionistas, essa mesma ideia é uma das coisas que mais ferem a consistência do álbum.

Então é nesse ponto que o balanço é quebrado, pois mesmo que haja uma evolução nas narrativas concebidas, elas perduram de forma uniforme por muito tempo ao longo dos 56 minutos de “Trench”, tornando-o escravo de um “fanservice” desnecessário que, se não fosse o foco de sua criação, talvez pudesse ter sua duração reduzida, focando melhor em sua coesão e nessas progressões mais fora da curva que certas canções mostraram.

Mesmo sendo mais consistente e maduro que Blurryface, o principal pecado do álbum é a falta de variedade que destacava seu irmão de 2015, mostrando que ainda falta um pouco para o Twenty One Pilots consiga fazer um álbum que agrade a gregos e troianos. Porém, mesmo que não haja nada tão instantâneo como “Stressed Out” aqui, é no mínimo intrigante a forma como a banda construiu algo muito mais poderoso a partir de todas as suas bases anteriores, deixando um sinal de que eles talvez tenham uma carreira que possa ficar cada vez mais interessante.

OUÇA: “Pet Cheetah”, “Jumpsuit”, “My Blood”, “Chlorine” e “Levitate”

Nicki Minaj – Queen


Fazia tempo que um álbum não me dava tanta dor de cabeça pra resenhar e provavelmente aterrorizava a chefia do blog com tanto atraso, mas cá estamos nós. Acho mais do que justo sempre me focar no trabalho que o artista entrega e passar longe de fandoms e notícias tendenciosas (pra melhor ou pra pior), mas com a fama de Nicki Minaj sendo do tamanho do mundo, foi impossível filtrar tudo, e rodeada de pronunciamentos e burburinhos a moça vem a tona com Queen, e enquanto a cantora aparenta se divertir e se sentir orgulhosa em seu trabalho, no mundo real, Nicki não parece tão satisfeita como soa…

Indo direto ao assunto, Queen é sim um álbum bacana, com boa parte de seus melhores momentos sendo a volta da artista as suas raízes e entregando raps fluídos e descontraídos, que claramente vão animar fãs mais antigos, apesar de pecar quando se trata de profundidade, é um álbum bem trabalhado e de boa qualidade, mas com tantos novos artistas nos holofotes desse ano, legitimamente felizes com o que estão fazendo e sem medo de soltarem a língua, Nicki Minaj fica apenas pelos cantos, presa dentro de sua própria cabeça e preocupada demais com a opinião do resto do mundo, estatísticas e afins. Fica difícil apontar com clareza os altos do álbum quando se está mais preocupado com o estado da artista.

E é esse o problema com Queen (e a própria cantora): a inconsistência da imagem que Nicki transparece. Enquanto por um lado ela se mostra uma mulher forte, dona do próprio nariz, denunciando injustiças na indústria musical e passando boas mensagens de empoderamento e conscientização para seus fãs em shows, por outro ela por vezes parece bem distante de seu público, reclusa com seu círculo de amigos famosos, num outro patamar de vida e consequentemente mais superficial e com parcerias extremamente duvidosas. Enquanto The Pinkprint (2014), compartilha alguns dos mesmos problemas que Queen, ele segue sendo mais melódico e viciante, as parcerias são mais consistentes e impactantes, e apesar de tender mais para o pop, ele não é engolido por seus participantes como o novo registro. O público tem acesso a uma Nicki mais vulnerável e decidida, mas bem alheia aos movimentos políticos (e mais do que necessários de serem mencionados) e sororidade quando realmente conta, sendo essa uma surpresa bem negativa do álbum, desperdiçando uma boa oportunidade para falar de algo além dos altos e baixos de relacionamentos amorosos, meio que deixando a entender o álbum gira mais em torno do seu ego do que qualquer outra coisa.

Mesmo com a mídia sendo constantemente bem dissimulada com a cantora e dramatizando situações que não são nada de mais, realmente fica bem incerto saber se Nicki realmente está falando em nome de outras mulheres ou apenas sendo rancorosa com outros artistas por não estar satisfeita com sua publicidade e vendas, quase sempre ficando a mercê daquele meio-termo onde não se sabe se ela está sendo mal interpretada ou apenas se expressando mal. E até os ares se acalmarem e as coisas serem acertadas, o público já perdeu o interesse na situação, ficando apenas com a primeira impressão da coisa toda.

A essa altura do campeonato é até ridículo esperar um álbum ruim de Nicki Minaj, munida com uma boa leva de músicas perfeitas para bombarem nas rádios e dando os ares da graça de seus dias de mixtape (“Barbie Dreams” e “Chun Swae” sendo ótimos exemplo disso), a cantora garante um bom alcance de satisfação para todos os seus fãs, com sonoridade e letras bem contagiantes. Queen passa bem de longe de ser um álbum ruim, mas é quase inevitável não pensar que ele poderia ser bem melhor, mas ao invés de pensar nisso de uma forma negativa, é mais prático e realista encarar isso como mais espaço pro desenvolvimento da cantora, que independente de qualquer controvérsia e contratempo, se mostra tanto uma rapper quanto uma popstar sempre em ascenção.

OUÇA: “Hard White”, “Chun-Li” e “Come See About Me”.

Nas – Nasir


“I feel like I’m 18 years old again when I’m making beats for Nas”, tuitou Kanye West cerca de dois meses antes do lançamento oficial de Nasir, décimo segundo álbum de estúdio daquele que demonstrou potencial para ser um dos melhores rappers de todos os tempos ao entregar seu debut, Illmatic – que, deixando de lado critérios subjetivos inerentes a discussões como essa, é possivelmente o melhor álbum de rap já feito (e não sou eu quem afirma, google it). Essa perspectiva, porém, mostrou-se não factível com o passar dos anos. Nas, entretanto, não tinha responsabilidade nenhuma quanto a isso: talvez a expectativa dos fãs tenha sido a principal responsável por álbuns como Nastradamus ou Hip Hop Is Dead serem não tão bem vistos em relação a seus trabalhos mais aclamados.

Após quatro anos desde seu último lançamento, Nas nos entrega seu novo disco, Nasir, produzido por Kanye West e contendo apenas sete faixas, totalizando modestos vinte e seis minutos de audição. Resgatando algumas tendências líricas de Illmatic e Stillmatic ao deixar de lado temas concernentes ao gangsta rap, Nas conduz o ouvinte por reflexões sociais conscientes a respeito do racismo estrutural e genocídio da população negra, além de contemplações filosóficas sobre a natureza da humanidade e suas interpretações religiosas.

Em “Cop Shot The Kid”, por exemplo, Nas pauta duras criticas à violência policial contra a juventude negra, como nos trechos ‘Yeah, it’s hotter than July / It’s the summer when niggas die‘ ou, em outro momento, com ‘Get scared, you panic, you’re goin’ down / The disadvantages of the brown‘, só para citar algumas das muitas passagens permeadas de significado durante a faixa. Irônico, entretanto, é perceber a paradoxal performance de Kanye West como produtor e featuring do álbum – e especialmente dessa canção -, ao passo que apoia abertamente o presidente estadunidense Donald Trump.

E, por falar em ironia, Nas deixa completamente de lado as acusações de violência doméstica que recebeu de sua ex-esposa Kelis. Na verdade, fez pior que isso, como é possível constatar no trecho ‘When the media slings mud / we use it to build huts‘ presente na faixa “Everything”. Como se não bastasse, ainda na mesma música, o rapper dedica quase um verso inteiro divagando acerca de paranoias conspiracionistas antivacina, tema que já apareceu na faixa “What Goes Around”: ‘Doctors injectin’ our infants with poison‘.

A despeito de conter criticas e reflexões pertinentes, Nasir é um trabalho confuso. Ainda que se leve em consideração a separação do artista de sua obra – o que por si só já é discutível –, é importante pautar que essa é uma linha tênue quando falamos em rap e em todo o movimento hip hop. De pouco adianta a melhor produção e batidas quando a negligência em trabalhar temas importantes como violência doméstica e políticas de imigração, por exemplo, são latentes no background de Nas e Kanye West. Isso, de certa forma, tira todo o brilhantismo técnico do disco, tal como quando um filme não consegue estabelecer a suspensão de descrença necessária para a imersão do telespectador na história.

OUÇA: “Cop Shot The Kid”, “Everything” e “Adam And Eve”.

Drake – Scorpion


Ok, eu sou um pouco suspeito para falar sobre Drake.

Conheci o trabalho do rapper meio que sem querer, quando vi uma legenda no instagram, procurei e acabei me deparando com um dos melhores álbuns de 2017: More Life. Com “apenas” 22 músicas, Drake ganhou ali um fã.

Eis que chega 2018 e, com ele, “God’s Plan”. A famigerada música de Drake que permaneceu por bastante tempo no topo de várias paradas (para ser mais específico, 11 semanas no topo da Billboard). Com um clipe que emocionou milhares de pessoas – contrastando com uma letra algo dúbia – “God’s Plan” nos deu esperanças sobre o que estava por vir nesse novo álbum.

Mas eis que o dia chegou e… blé. Okay, são 25 músicas que trabalham bem em conjunto. Mas nada que me segurasse e fizesse ouvir milhares de vezes como foi com “Teenage Fever”, “Glow” e “Since Way Back”, em More Life. Eram músicas boas, mas não excelentes, como já vimos com “Redemption” (a personal favorite <3).

A sensação era de que havia uma confusão de sentimentos naquele álbum, algo não se encaixava. Até que, pesquisando para escrever aqui, surgiu algo.

Se você, assim como eu, não se liga muito em ficar procurando notícias sobre os artistas que costuma ouvir, pode não saber que Pusha-T, em “The Story Of Adidon”, disse que Drake escondia um filho com a ex-estrela pornô Sophie Brussaux. Como bom escorpiano (aliás, o nome do álbum vem daí, o signo solar do cantor), Drake não deixou isso quieto. Em “Emotionless”, há um trecho em que ele fala como “não escondeu seu filho do mundo, mas o mundo do seu filho”, pois ele “só percebeu as almas vazias” que aqui existem quando ele “encarou sua própria semente”.

Quando descobri esse fato, foi como se tudo ficasse claro: o álbum já estava quase todo pronto, quando ele enxertou (um jeito bonitinho de falar que ele martelou) os assuntos “ok, eu tenho um filho” e “meu deus, o que eu faço agora” nas músicas.

Vamos parar um pouco e deixar bem claro que isso não diminui o esforço colocado nesse álbum e muito menos sua qualidade musical (que justificam a nota que estou dando aqui). Apenas explica o porquê de algumas músicas (como a já citada “Emotionless”) parecerem confusas.

Para seus fãs antigos, Scorpion é um bom álbum para se ouvir no trânsito ou na academia, mas nada que vá marcar tanto quanto seus trabalhos mais antigos. Para quem quer conhecer Drake, vai por mim, ouça More Life e Views.

OUÇA: “Nonstop”, “God’s Plan” e “Emotionless”

KIDS SEE GHOSTS – KIDS SEE GHOSTS


De certa forma, a junção das mentes de Kanye West e Kid Cudi em um álbum até faz sentido. Os dois saíram de uma fase aclamada por público e crítica para experimentar com elementos que fogem do padrão mainstream do hip hop e obtiveram respostas mistas devido a toda loucura envolvida no processo de criação de seus trabalhos, tornando-os mais difíceis de digerir para quem já estava acostumado com a acessibilidade de álbuns como My Beautiful Dark Twisted Fantasy e Man On The Moon I/II. De outro lado, parece que um collab entre os dois é uma forma deles se ajudarem a sair de posições complicadas, sendo que enquanto um deles luta contra a reação negativa da mídia sobre sua personalidade volátil e suas falas polêmicas, o outro tenta atrair a confiança do seu público de volta depois de desastres como a mudança brusca pro grunge no álbum Speedin’ Bullet 2 Heaven.

Então, nesse ponto, KIDS SEE GHOSTS é quase terapêutico. É um esforço em conjunto para exorcizar certos demônios que cercam a vida dos dois e, ao mesmo tempo, humanizar essa figura intocável de rappers de sucesso que acham que não existem consequências pros seus atos. Se o Cudi já tinha esse teor confessional em suas músicas anteriormente, aqui ele incentiva o Kanye a mostrar esse lado mais frágil em faixas como “Reborn” e na faixa título, que tocam em temas como depressão e essa luta contra seus problemas com um teor espiritual, demonstrando melhor a relação dele com sua fé. É uma forma de tentarem se libertar de suas próprias limitações (o que fica bem na cara na música “Freeee (Ghost Town Pt.2)”)

Mas não é só líricamente que os dois combinam bem. O álbum dá certo pois a mistura do ego inflável e produção majestosa do Kanye e a melancolia influenciada por rock do Kid Cudi resulta em uma sonoridade psicodélica, suja e, principalmente, injeta novos ares necessários em um gênero saturado pelas suas últimas tendências. O sample de uma demo do Kurt Cobain em “Cudi Montage”, por exemplo, é tudo que as tentativas do Cudi de misturar rock e rap deveriam ser. E o melhor de tudo isso é que apesar da carga emocional desse trabalho, também parece que eles estão se divertindo ao fazer essas músicas. Momentos como os ad-libs insanos do Ye em “Feel The Love”, o refrão cômico de “Freeee” e o uso genial de um sample de uma música de natal pra construir todo o beat de “4th Dimension” mostram que é possível misturar insanidade, experimentação e acessibilidade pop sem perder o fator diversão no meio do processo.

E o resultado final é que Kanye e Cudi são duas personas que se complementam e que tiram o melhor um do outro. KIDS SEE GHOSTS é um aperto de mão, um gesto para tirar um ao outro do buraco onde ambos se encontravam, mostrando ao mundo que esses dois ainda são capazes de fazer algo relevante, diferente e palatável para todos os públicos. E se as coisas ruins que aconteceram nos últimos anos nas carreiras desses dois eram necessárias pra esse álbum ser criado, podemos resumir tudo isso em um provérbio popular: “Há males que vem para o bem”.

OUÇA: “Cudi Montage”, “4th Dimension” e “Feel The Love”