Hands Like Houses – Anon.


Após um período de dois anos desde o último álbum, os australianos do Hands Like Houses estão com um novo trabalho na praça e já adianto: você faria melhor em não criar tantas expectativas. Antes, porém, de começar a falar sobre o lançamento em questão, gostaria de retomar, brevemente, a trajetória do quinteto de Camberra. Caso você não os conheça, lá vai: a banda existe há dez anos, mas seu debut foi exposto ao mundo apenas há seis. Desde então, foram mais três álbuns – contando com o atual, Anon. O primeiro contato que tive foi com o belíssimo Unimagine – em parte pela capa, confesso – um trabalho leve, com fortes elementos de post-hardcore e alguns sutis aspectos eletrônicos. Não sei se de lá para cá mudei meu gosto por música ou os meninos tomaram outro rumo, mas o fato é que o novo álbum tem um total de uma música a qual você poderia mostrar aos seus amigos sem passar vergonha. Sério.

Para começar, o segundo single de Anon, “Monster”, foi anunciado como tema do programa WWE em sua turnê australiana e, sejamos sinceros, isso não é um bom sinal. Se sua banda faz um som que pode ser usado pela WWE, alguma coisa está errada e nesse caso não foi diferente. Ainda assim, fã é uma raça persistente. Mesmo com dois singles que não seriam capazes de servir nem no despertador, estávamos lá quando saiu o álbum. Primeiro play e… surpresa. A primeira música é genuinamente boa. Poderia facilmente estar em algum trabalho antigo. De fato, deixei no repeat por alguns minutos. Em “Kingdom Come” a harmonia instrumental resgata diversas nuances que haviam sido utilizadas anteriormente pelo grupo, embora dessa vez permeada por um vocal nebuloso, quase etéreo, próximo daquele bastante recorrente no shoegaze. Em termos líricos, bastante interessante. Quase niilista. ‘I can’t pretend that it doesn’t plague me/ I can’t pretend that it hasn’t changed me/ I can’t pretend that I’m not afraid of the end/ I wonder/ Is God getting lonely?’. Em todo caso, a canção é curta tal como a felicidade do ouvinte. Daí para frente é ladeira abaixo.

Basicamente, você poderia descrever o álbum como a trilha sonora do menu de algum jogo genérico – palavra que descreve absolutamente todos os elementos do disco, salvo a primeira faixa. Em termos líricos, novamente, o disco  todo é bastante pobre. Temas clichês como demônios interiores tentando ascender e a confusão de lidar consigo mesmo: ‘overthinking’ – essa não é de todo ruim, by the way. Compare, por exemplo, alguma faixa com qualquer sucesso da banda Skillet e note a semelhança – se essa última faz parte da sua playlist, aliás, feche esse texto. O fato é que não tenho problemas com bandas ruins, mas quando grupos como Hands Like Houses – que já mostraram seu potencial em trabalhos brilhantes – entregam algo tão sintético e vazio de significado, a coisa realmente te deixa chateado. Perante toda essa questão, não posso deixar de pensar que, no fim das contas, não há dúvidas: um fã de Jota Quest certamente adoraria Anon. Melhor seria, com o perdão do trocadilho, permanecer no anonimato.

OUÇA: “Kingdom Come”, “Monster” e “Overthinking”

Screaming Females – All At Once


É difícil escrever sobre uma de suas bandas preferidas e tentar ser imparcial, mas vamos lá; o Screaming Females é uma banda de New Jersey que já tem quase quinze anos de carreira e All At Once, seu novo registro, é seu sétimo álbum de estúdio. Trata-se de uma banda extramemente competente e que nesses anos vem lançando álbuns cada vez melhores. Seu anterior, Rose Mountain (2015), havia sido impecável e seu melhor trabalho até então pois mostrou que a banda conseguia acessibilizar seu som bastante pesado sem mudá-lo integralmente.

A primeira música nova que ouvimos foi a estonteante “Black Moon”, lançada de forma extremamente limitada – apenas 24 cópias em vinil existem e foram vendidas somente em uma loja de discos em sua cidade natal. Isso foi em setembro do ano passado, e a música em questão era a prova de que mais uma vez o Screaming Females não ia decepcionar, e não decepcionou.

All At Once começa exatamente de onde Rose Mountain tinha parado, a banda continua com seus riffs e baterias pesados ao mesmo tempo em que torna suas músicas cada vez mais acessíveis. Há momentos aqui que são quase um pop punk, como “I’ll Make You Sorry”, e outros bastante pesados e reminiscentes de álbuns como Castle Talk (“Agnes Martin”) – e isso é algo muito maravilhoso.

Aqui o Screaming Females mostra toda a gama do que conseguem fazer com perfeição, e essa versatilidade permeia o álbum do início ao fim. Os vocais e guitarras de Marissa Paternoster estão cada vez mais confiantes e poderosos, e seus colegas de banda não ficam atrás. O baixo de Mike Abbate também tem seu destaque em várias das faixas – especialmente “Glass House”.

No entanto, All At Once não é livre de falhas e marca a primeira vez desde Power Move no qual uma certa edição da tracklist teria levantado ainda mais o álbum. Faixas como “End Of My Bloodline” e “Bird In Space” não adicionam tanto e poderiam facilmente ser cortadas sem grandes detrimentos.

All At Once é um nome bastante apropriado para o álbum, pois aqui o Screaming Females realmente faz de tudo ao mesmo tempo. Do suave ao bruto, do calmo ao agitado, da leveza ao peso – e faz tudo isso com maestria. Em seu sétimo disco, a banda se confirma mais uma vez como uma das melhores bandas de rock da atualidade e que sabem como agregar elementos ao seu som sem perder sua identidade.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “I’ll Make You Sorry”, “Soft Domination”, “My Body” e “Deeply”. E todo o restante de sua discografia.

Enter Shikari – The Spark


Quem conheceu o Enter Shikari como uma das bandas mais expressivas da mistura entre post-hardcore e música eletrônica, talvez não reconheça a nova roupagem que o grupo trás em The Spark. Os vocais guturais e gritos rasgados, característicos dos álbuns anteriores do Enter Shikari, deram espaço a uma voz jovial e pop punk que não era tão conhecida assim pelos fãs.

Claro, o pop punk não era uma novidade para os fãs de post-hardcore lá em 2005, afinal, o Enter Shikari surgiu quando muitos estilos musicais derivados do emo dos anos 90 estavam em alta.  O curioso foi o retroceder que a banda fez: a escolha de ir por um caminho alternativo depois de uma década de carreira.

As influências do Enter Shikari sempre flertaram com o punk pop, mas nunca foram tão concretizadas quanto neste álbum. Nos seus trabalhos anteriores, a banda apostou muito mais no hip-hop e no hardcore, em uma mistura ao nu metal, o que destoa totalmente das faixas hiperativas do The Spark.

Os sintetizadores pesados e distorcidos deram lugar a melodias cruas e grudentas no teclado. “The Sights” pontua um ritmo parecido ao de bandas indie como o Bloc Party, mas explode como um hino do Taking Back Sunday em seu refrão.

O Enter Shikari repete alguns clichês conhecidos do público em seu novo álbum, algo um tanto inevitável no gênero. Ao invés de ousar de forma mais arriscada, a banda permaneceu em lugares comuns que, ainda que sejam repetições, não soam totalmente mal ao ouvido.

As letras por vezes são focadas em problemas gerais da atualidade, assuntos relevantes e necessários. A nova roupagem do Enter Shikari pode vai novos fãs e, com letras simples e didáticas, pode despertar o questionamento necessário em uma geração frenética por mudança.

Alguns momentos de lucidez, como em “An Ode to Lost Jigsaw Pieces” e “Rabble Rouser”, mostram que a banda não foi somente pelo caminho que parecia mais lucrativo. O Enter Shikari pode não ser o mesmo, mas o que mais se destaca neste disco é a paixão em que a banda coloca seus pulmões para fora.

Talvez o grupo tenha se cansado dos clichês de si mesmo e tenha fugido das glórias que os fizeram conhecidos. Em nesse novo caminho, o Enter Shikari consegue ficar acima da média das bandas novas que tentam emular o sucesso do pop punk em 2005.

The Spark é agradável, dançante: contagia. Como a banda define, é uma luz no fim do túnel.

OUÇA: “The Sights”, “Take My Country Back”, “Rabble Rouser”

Gnarwolves – Outsiders

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A primeira diferença notável na nova fase do Gnarwolves é a comunicação visual. A capa de Outsiders não segue o mesmo traço dos dois primeiros álbuns da banda, que optou por uma tipografia limpa e séria, que nada lembra as ilustrações skaters e cores fosforescentes anteriores. O impacto é visível: a linguagem visual sempre foi fundamental para a construção da identidade da banda, um grupo energético, irreverente e, com certeza, cru. Ainda que ligeiramente descuidado, o Gnarwolves se consolidou como uma banda de gênero, cumprindo seu papel com excelência.

Os fãs do punk conseguem sentir o cheiro da essência nas maiores pilhas de lixo. O Gnarwolves se destacou o bastante na cena para permanecer nos olhos atentos de quem aprecia o punk, exatamente por não seguir as regras de seus subgêneros. Ainda que o segundo álbum tenha sido uma tentativa (da gravadora, quem sabe), de aproximar o Gnarwolves de seus colegas do “new emo”, a banda permaneceu consciente de suas escolhas neste terceiro trabalho.

Outsiders começa com uma clara influência do street punk e hardcore melódico da Costa Leste dos Estados Unidos. A primeira faixa, “Straitjacket”, tem um refrão emblemático, entoado por um vocal vibrante e progressão rápida; elementos de um hino. Ouvindo essa música, tive a mesma sensação de quando ouvi pela primeira vez o álbum “Jersey’s Best Dancers” do Lifetime. A mesma intensa realização de que nada poderia ser melhor do que aquilo: letras viscerais e música rápida, simples e sincera. O Gnarwolves consegue trazer a nostalgia punk sem parecer forçado, quase sem querer. No momento que ouvi Outsiders, tive vontade de vomitar em todos os meus discos edgy.

Ainda que continue soando natural e sem pretensão, a progressão musical do Gnarwolves neste disco é óbvia, desde suas influências até suas escolhas harmônicas. Há pausas de instrumentos, uma apreciação mais notável de riffs ligeiramente mais complexos, que já não se perdem em uma bagunça de barulhos (ainda que estes fossem agradáveis). As sonoridades, riffs e melodias não mais se repetem de modo cansativo como nos outros álbuns; as músicas por si só são mais bem pensadas, ainda que não tenham uma conexão significativa entre si.

Ao invés de backing vocals agora temos uma atenção especial aos vocais principais, talvez para acentuar a importância das letras, que agora são mais entendíveis, ainda que haja alguma dificuldade pelo estilo. Estilo este que, não poderia ser diferente, afinal, as letras tomam um significado especial na oral rasgada do vocalista. Mais contemplativas do que caóticas, as letras da banda tomam um rumo mais sério neste álbum. As faixas apresentam um Gnarwolves mais maduro: ao invés de peças desconexas, rápidas e letras doloridas, podemos conhecer o lado ligeiramente estoico e introspectivo da banda.

“Channeling Brian Molko” é uma bela surpresa. A faixa é uma releitura de “Nancy Boy”, música do grupo Placebo. Relembrando uma fase célebre da banda, o Gnarwolves consegue mostrar de forma bastante ilustrada como a obra de Brian Molko influenciou fortemente elementos do punk pop atual e continua relevante tanto instrumentalmente quanto tematicamente.

Outro destaque do álbum é “Wires”, faixa que promove um encontro entre as influências do hardcore dos anos 80 e as mais recentes referências do pop punk. Talvez seja o retrato de uma transição musical, o marco entre duas fases, mostrando que a primeira fase da banda não deixa de ser relevante. Mesmo que a banda tenha demonstrado sua maturidade, as raízes e personalidade da banda não pode ser apagada. Outsiders nos deixa satisfeitos, ansiosos e temerosos pelos próximos trabalhos da banda.

OUÇA: “Wires”, “Straitjacket”, “Channeling Brian Molko”, “English Kids”, “Shut Up”

JAWS – Simplicity

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Em 2012 eu estava no primeiro ano da faculdade, a cena indie no Brasil – e no mundo – estava explodindo em popularidade: bandas e mais bandas aparecendo nas sugestões do quase falecido Last.Fm, listas do YouTube e playlists do 8tracks. Quanto mais desconhecida era a banda, melhor. Esse era o jogo e foi assim que eu acabei assistindo a um vídeo da música “Donut” do JAWS. Nenhum amigo meu conhecia a banda na época, e continuam não conhecendo até hoje, mas espero que com essa resenha e com o novo álbum isso mude.

Como uma das faixas do segundo álbum deles diz, “What We Haven’t Got Yet”, Simplicity é tudo que o debut da banda, Be Slowly, não foi. O primeiro álbum e os EPs são ótimos, cheios de músicas sobre primeiro amor, juventude, tumultos, tudo o que eu vivia e achava relacionável no auge dos meus 17-18 anos. Mas o JAWS mudou, assim como eu mudei, e chegou a hora de amadurecer. O Simplicity é isso: é simples, é bonito, bem trabalhado, certo e maduro. O som continua muito parecido com os singles lançados no começo da carreira, mas muito mais bem pensado e refinado, com letras bem escritas e com mensagens que te fazem refletir. “17” talvez seja a música mais sincera que eu ouvi nos últimos tempos e “Work It Out” passa uma energia tão boa que a única vontade que você vai ter é de pegar um skate e sair pela cidade sem hora para voltar.

JAWS é uma banda jovem, tanto de “nascimento” quanto de alma. E nos faz muito bem ouvir música assim. Em uma época em que ser jovem virou sinônimo de correria e resolver tudo da sua vida antes de entrar na casa dos 30 eu só tenho um pedido a fazer para você: coloque seu fone, escute esse álbum, seja deitado na cama ou no metrô. Escute cada palavra, cada acorde, e deixe a energia de ser jovem te contaminar. Está na hora de relaxar um pouco e aproveitar. O Simplicity pode ser o próximo álbum que vai mudar sua vida, quem sabe?

OUÇA: “17”, “Work It Out” e “A Brief Escape From Life”.

Touché Amoré – Stage Four

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O quarto álbum dos californianos do Touché Amoré chega como más notícias, e não por acaso. Inspirado e vivenciado em nada mais do que a morte de um ente querido e a constante luta de se ver conciliado com os efeitos disso ao longo da vida, o ápice da banda veio na hora errada e as consequências disso são penosas demais para se lidar sozinho, e o Touché Amoré conta com o apoio de seu público para se manter são e firme até que dias melhores cheguem.

Stage Four desabrocha em pura conturbação e tristeza, uma narrativa extensa, sofrida e sem conclusão da morte da mãe do vocalista. Não estar lá, não saber o que fazer e com o passar do tempo, quando menos se espera, ainda se ver assombrado por isso. Não há indício de melhora em nenhum canto aqui, apenas um desabafo necessário, uma espera ansiosa pelo dia em que as coisas vão voltar a seu lugar e não precisar seguir em frente com essa fachada pesada que a morte de alguém querido põe em nossas costas.

Por mais bem-vinda que seja, a simpatia fica a sola da porta em Stage Four, é um álbum especialmente difícil e amargo para os fãs antigos da banda, que já sabiam do ocorrido e o que esperar, o álbum retrata fielmente o luto com seu devido respeito e sofrimento, da forma mais crua e banal possível, algo bem íntimo e doloroso, o ouvinte realmente se torna um mero espectador, impotente diante da situação. A mensagem da mãe de Jeremy no final de “Skyscrapper” remói toda a agonia do álbum mais uma vez, e a luz no fim do túnel parece não ter sido alcançada.

As letras falam por si só, não há nenhum mistério, está tudo estampado nas nossas caras e fica impossível não sentir nada diante disso, basta fechar os olhos e tudo vai facilmente se materializar em sua frente, e nesse mesmo instante querer abrir eles novamente se manifesta com urgência, o peso que o álbum cria é enorme, o sufoco é constante. As guitarras se sobressaem de forma gritante, o baixo chega a passar quase que despercebido, a bateria, uma marca registrada da banda, também deu uma acalmada visível, tudo abre espaço pro vocal ser o mais polido e nítido possível… e a agonia cresce cada vez mais, tanto no ouvinte quanto no Touché Amoré.

Para ouvidos desatentos muita coisa pode passar despercebida e vão simplesmente concluir terem encontrado uma boa adição pra sua biblioteca, a ignorância aqui chega a ser uma benção. É difícil ver o Touché Amoré num momento tão vulnerável, os mesmos caras que em meio mundo de festivais são facilmente encontrados no meio de seus fãs, também esperando pelos seus artistas favoritos, expostos e sem rendição.

“O tempo cura todas as feridas” soa como a mentira mais brutal em Stage Four, apesar do triunfo em criar um álbum altamente palpável, coeso e sonoramente contagiante, uma atmosfera agourenta fica no ar, e fica a dúvida se você vai querer ouvir esse álbum mais um milhão de vezes ou nunca mais. A sinceridade talvez seja demais para o ouvinte, se expressar da forma mais clara possível para que a empatia entre banda e público flua é conquistada a duras penas. No fim das contas, apesar de extremamente pessoal e de todas as dores, o álbum é um acerto enorme na carreira da banda, que eu espero com todo meu afeto, possa enfim superar essa tragédia em suas vidas.

OUÇA: “Flowers And You”, “New Halloween” e “Skyscrapper”.

Peace – Happy People

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Where did all the happy people go?

De alguma maneira, eu sempre tive a impressão de que, ultimamente, bandas que a NME acaba apostando sempre encontram pedras em seus caminhos e não perduram tanto quanto deveriam depois de, geralmente, lançarem debuts incríveis e bastante aclamados pela crítica. O segundo álbum vem para muitas dessas bandas de sucesso, mas nem sempre acabam recebendo tantas boas impressões. Foi assim com o Tribes, que inclusive acabou; foi assim com o Vaccines, que teve que dar um passo atrás e rever seus conceitos; com o Esben and The Witch, com o The Naked and Famous e a lista não para tão cedo. Felizmente, o Peace deu um revertério nisso tudo e lança para gente um segundo álbum que mostra o quão consolidada a banda está.

Os caras do Peace – principalmente o vocalista Harrison Koisser – nunca bateram bem da cabeça. Os clipes retardadões, as capas do primeiro EP e disco, as letras nonsense, o comportamento em palco, as vestimentas: tudo embalado numa ambientação psicodélica de deixar o Flaming Lips com orgulho. Com a divulgação desse segundo disco, a capa perturbadora e o nome de algumas músicas, além do primeiro single, a confirmação veio facilmente: eles precisam ser internados rapidamente no manicômio mais próximo.

Mas isso não é nem um pouco ruim. O debut In Love tem uma ambientação instrumental parecida em partes com Happy People, mas o Peace pareceu trabalhar melhor na composição desse segundo álbum, tanto em material lírico, quanto em material melódico. O Peace mostra-se versátil, embarcando em diversas ondas e experimentando aqui e ali em pequenas doses, como nos começos de algumas músicas e nas pegadas diferentes de guitarra combinada com a bateria (“Gen Strange”) e uns violinos aqui e ali (“O You”). Um dos exemplos mais claros dessa diferencialidade reside na mudança repentina no ritmo e estrutura de “Money” – lá pelo segundo minuto de música – até a explosão retornando ao refrão fazem dela uma das melhores músicas dos garotos e, facilmente, uma das mais interessantes que eu já ouvi nessa esfera indie-NME-esque.

Quanto a melodia, o ritmo deu uma desacelerada em boa parte das músicas, o violão começou a tomar papel principal em alguns bons pedaços e protagonizar músicas incríveis, como “Someday”. E pelo menos para mim foi uma surpresa ver como Koisser tem uma voz incrível, dando toques sensacionais em músicas mais lentas como “Under The Moon”, “Happy People” e “World Pleasure”, dando um toque perfeito para finalizar o disco de maneira memorável. Eu não lembrava de todo esse poder do vocalista e aplaudo de pé o destaque que eles deram em limpar o som e deixar a sonoridade um pouco mais limpa para notarmos toda essa versatilidade.

Se em Delicious/In Love o Peace apelou para uma lisergia florestal; em Happy People eles foram para o manicômio e voltaram com letras e melodias dignas de alguém numa overdose de açúcar e felicidade, loucura pura e esquizofrenia que já deixam a marca da banda nesse ano que mal começou com um selo de qualidade excelente. Happy People é um disco interessante, versátil, nada inovador, mas bonito de se ouvir e apreciar. Um segundo disco desse para uma banda que tinha tudo para ruir? Nada mal. E parabéns.

OUÇA: “Happy People”, “Someday” e “Money”

La Dispute – Rooms Of The House

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Rooms Of The House é a promessa para ser, de fato, o destaque do cenário emo post-hardcore do ano, e sobre isso, ninguém se atreve a dizer o contrário. Mais do que apenas o terceiro álbum dos garotos de Michigan, trata-se de possivelmente a sua obra-prima: em apenas nove anos desde o lançamento de seu primeiro EP Vancouver, La Dispute alcança com maestria um álbum que define não só os seus padrões e estabelece relações com um novo público, mas também marca um amadurecimento notório da banda. E é justamente sobre relações que Rooms Of The House é inteiramente concretizado. Construído sobre a história de um casal, encontramos onze faixas que fogem do habitual tempo-espaço dos relacionamentos pessoais, porém que tratam do cotidiano de uma forma real e intimista. A questão da relação ainda vai além, não se limitando apenas ao dia-a-dia dos seus personagens, e sim, transformando as memórias e lembranças com o próprio local da história, indispensáveis para a harmonia em cada minuto.

Não se trata apenas de contar a superficialidade dos relacionamentos: uma dor sobre um abandono qualquer, ou a briga que acontece na madrugada; os temas apresentados vão além e criam justamente essa proximidade de cada faixa com o público, por ser tão habitual para qualquer um que tenha o deleite de escutar. E se há algo que os garotos liderados por Jordan Dreyer conseguem fazer com destreza, é escrever sobre o corrente, e através disso, cativar tão profundamente, que por instantes você consegue realmente imaginar e porque não, viver, o que se passa ao longo de seus quarenta minutos. O desejo de criar algo tão tangente é nítido desde o primeiro instante, com a introdução de ‘There is history in the rooms of the house’. Ali, já se sabe o que esperar de toda essa narrativa.

Toda essa aura criada, em acompanhar um relacionamento falecendo em cada canção, só é mais nitidamente reforçada pela forma como Dreyer consegue retratar tão bem o sofrimento que é criado, austero e voraz. São compilados de características únicas do quinteto que fazem com que o álbum mereça todo o destaque e elogios que recebeu da crítica desde seu lançamento. E não foi preciso muito, continua tendo a marca de sua sonoridade do post-hardcore, de melodias mais cruas e rasgadas, wordspeak que revelam a vontade de apelar para uma real narrativa, e a experiência que Dreyer deixa de toda essa paridade.

Não se sabe ao certo como poderão superar um álbum que em tudo é coeso e impecável. Rooms Of The House é convincente em cada segundo, na sua singeleza e ao mesmo tempo potência, criando essa dualidade que funciona e arraiga tudo tão bem, tornando-o este destaque não só para a banda e os novos fãs que conquistaram, contudo deixando para o próprio mercado do hardcore, um álbum que contêm tudo o que é necessário para mostrar como se alcança o auge da sublimidade.

OUÇA: “Woman (reading)”, “For Mayor In Splitsville” e “Objects In Space”.

Fucked Up – Glass Boys

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Fucked Up é uma banda canadense que ao longos de sua jornada – que vem desde 2001 – trouxe muita polêmica, bons álbuns e muitas dúvidas na cabeça das pessoas. A primeira dúvida é como classificar a banda? Muitos dizem que é rock alternativo, outros dizem que é indie e outros falam que é hardcore punk e todos estão certos e errados, pois o trabalho deles é tão incomum misturando tantos elementos de estilos diferentes que não há uma classificação exata para que estilo a banda se encaixa.

A banda é famosa por seus vocais berrados, instrumental bem trabalhado e letras poéticas sobre diversos temas como religião, espiritualidade, amor e outras coisas. Fucked Up não é o tipo de banda que chama atenção de muita gente por diversos moivos, o primeiro é o nome: todos já pensam que a banda é pesada pra caramba, depois de dar uma chance para o nome você joga no Google e a primeira foto é do vocalista grandão, barbudo com a testa sangrando, pelado e sendo segurado como Jesus na cruz, ou seja, essa banda entraria na lista 2deep4me, onde quem não gosta é por que ~não entende a arte~, porém esse preconceito caiu quando escutei pela primeira vez a música “The Other Shoe” que mudou totalmente minha visão.

Glass Boys é o quarto álbum da banda que teve seu reconhecimento na mídia com seu segundo trabalho o Chemstry Of Common Life, ganhando o prêmio Polaris em 2009. Na bagagem do sexteto ainda há Hidden World, um álbum bem cru que é por muitos o melhor album deles e David Comes To Life uma dita Opera Rock de muita qualidade.

O álbum de 2014 é basicamente um compilado de tudo que a banda já fez, porém mais produzido e consegue agradar a gregos e troianos, desde a galera do hardcore punk até a galera indie, esse é um dos trunfos da banda que traz com Glass Boys seu álbum mais acessível. Eu considero Fucked Up como o Foo Fighters do hardcore punk, por que sempre fazem trabalhos com qualidade e conseguem agradar uma grande maioria de pessoas dentro e fora do seu estilo designado, assim Fucked Up (principalmente com Glass Boys) pode ser a porta de entrada de ouvintes para o estilo.

Damian Abraham (A.k.a. Pink Eyes) tem uma voz poderosa que combina com o instrumental e com as letras da banda discutindo a fé, direitos humanos e politica tudo de uma forma poética, mas sem deixar a voz berrada de lado. Nos outros álbuns, a banda trazia guitarras bem trabalhadas, rapidas e interludes longos, aqui as guitarras continuam com a mesma qualidade porém esses interludes foram deixados de lado, assim  as musicas ficaram mais curtas e menos cansativas.

Se eu pudesse escolher uma coisa para destacar nesse álbum seria o trabalho de Jonah Falco (a.k.a. Mr Joh) na bateria, com muita qualidade e habilidade a bateria se sobressai dos demais instrumentos e até mesmo dos vocais. Jonah ainda gravou simultaneamente quatro partes de diferentes músicas, que não dá para perceber em Glass Boys, entretanto uma versão deluxe do album vai contar com as faixas só com a bateria.

O primeira música que realmente chama atenção no álbum é “The Art Of Patrons”, que traz guitarras oitentistas que por um momento fazem o ouvinte a pensar que está escutando uma música do Van Halen. A simplicidade da guitarra junto com o poder da voz de Abraham fazem uma boa combinação, esse é um dos pontos fortes do álbum tudo que eles fazem encaixam com o estilo da banda.

“Warm Change” traz de volta as longas jornadas que banda costumava fazer, mas aqui deixando a guitarra um pouco de lado e colocando órgãos, uma boa modificação e inserção dando mais valor a música ao invés de guitarras e bateria incessantes por três minutos seguidos. Entre outros destaques do álbum temos “Led By Hand”, que faz uma releitura do estilo rápido do primeiro album: bateria frenética, riff de guitarra que lembra Title Fight e ainda conta com a presença de ninguém mais ninguém menos que J. Mascis do Dinosaur Jr. Já “The Great Divide” trás um pouco de David Comes To Life, aqui a bateria parece um nível acima do resto ela dá o tom da música e ela muda o ritmo da música, começando calmo depois acelerando, voltando para a calmaria. A música que leva o nome do álbum fecha os trabalhos do Fucked Up, com uma mistura do emo dos anos 90 com um pouco do pop punk do inicio dos anos 00.

Com muita qualidade na produção instrumental, o álbum não tem um destaque grande, ou uma música supere os trabalhos anteriores mas isso não faz de Glass Boys um album ruim, ele é completo e acessível, conseguindo agradar os fãs da banda, novos ouvintes e os fãs de hardcore punk. Se assim como eu antigamente você tenha um certo preconceito com a banda, dê uma chance para o álbum, ele pode não só surpreender como se tornar sua banda favorita, caso contrário ele não é tão longo a ponto de querer um reembolso de tempo.

OUÇA: “The Art Of Patrons”, “Led By Hand” e “The Great Divide”.

Pure Love – Anthems

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Em 2011, quando Frank Carter, pouco depois de anunciar a volta aos estúdios para a gravação do terceiro disco do Gallows, confirmou sua saída da banda, não foram poucos os que não entenderam. Para surpreender um pouco mais, já de pronto uniu-se ao americano Jim Carroll (The Hope Conspiracy e The Suicide File) para formar o Pure Love. Em meio a toda essa confusão, as esperanças aos fãs de hardcore ressurgiam aos poucos. Wade MacNeil (Alexisonfire) se uniu ao Gallows, substituindo o antigo vocalista e o novo projeto de Carter & Carroll, Pure Love, parecia cada vez mais promissor. Todavia, para aqueles que esperavam uma continuação de tudo que já tinha sido feito anteriormente, o lançamento em 2012 do single “Bury My Bones” foi um choque considerável. Nos versos mais autoexplicativos de todo o disco, Carter canta: ‘I’m so sick to sing about hate/It’s never gonna make a change (…) I’m so sick to sing about hate/It’s time that I made a change’. Os dizeres, apesar de não afirmarem claramente por qual vertente a banda seguiria, deixavam bem claro que as gritarias e palavras de escárnio ficariam para trás.

Após alguns atrasos no lançamento, o primeiro álbum, Anthems, finalmente saiu em fevereiro desse ano, surpreendendo com as boas críticas não só da mídia especializada como do público. A primeira e mais clara a todos é que Frank Carter provou saber cantar. Com uma voz embalada e um sotaque suave, as faixas satisfazem em harmonia e arranjo. Sem claro se esquecer da influência do guitarrista que também é responsável pela composição, aplicando com exatidão suas próprias palavras à união dos dois, em entrevista ao site GigWise: “The UK invented the rock; The US made it better”.

Sem embargo, apesar do disco representar, principalmente, inovação aos integrantes da banda, não é o mesmo para o cenário musical como um todo. Com uma ou outra faixa dispensável (leia-se principalmente “Heavy Kind Of Chain”), todas as demais (que são, por sinal, ótimas músicas) recordam a algo já lançado no passado pelos mais diversos artistas, que vão desde Manic Streets Peachers, passando por Oasis até chegar no Green Day. Por sinal, a banda, ao meu ver completamente amadora no que tange ao hardcore, é exatamente isso: um Green Day, só que bom. A terceira música do disco, “The Hits” é a principal prova disso.

Mas aparte a todas as similaridades com outros artistas (que não são de tudo negativo), o que mais vale ressaltar de Anthems é o histórico no mínimo complexo envolvido na criação da banda, e que, apesar disso, lançou um primeiro disco surpreendente, capaz de criar novos fãs e manter os antigos. O que resta agora é sentar e esperar pra ver se o Pure Love vai ser capaz de continuar a surpreender com os próximos discos. Mas até lá, é só colocar o Anthems pra tocar e deixar confortavelmente no repeat.

OUÇA: “Anthem”, “Handsome Devils Club” e “March Of The Pilgrim”