Greta Van Fleet – Anthem Of The Peaceful Army


Desde que surgiu para o grande público com seu EP de 2017 – From The Fires– a banda Greta Van Fleet tem causado alvoroço: seja por seu estilo cru de fazer Rock ‘n’Roll ou sua promessa como salvador do Rock atual, mas principalmente por ser comparado constantemente com uma das maiores bandas de todos os tempos: o Led Zeppelin. É clara a influência da banda inglesa nos jovens de Frankenmuth, Michigan – embora o guitarrista Jake Kiszka tenha declarado que as semelhanças são inconscientes e que o Led Zeppelin não é uma influência tão grande nas composições. “From The Fires” traz músicas como “Safari Song” que trazem claramente o estilo de compor de Jimmy Page e a maneira de cantar de Robert Plant. Entretanto, em seu disco de estreia – Anthem Of The Peaceful Army – a banda tenta se distanciar dessas semelhanças para começar a encontrar seu próprio som.

A primeira música do disco, “Age Of Man” já mostra esse distanciamento, trazendo influências de bandas como Rush e Yes, mas principalmente mostrando a capacidade de composição da banda, que já começa aqui a mostrar sua criatividade e originalidade. “When The Curtain Falls”, primeiro single do disco, que tem um lindo videoclipe e rendeu uma apresentação no programa The Tonight Show com Jimmy Fallon, traz elementos setentistas muito fortes marcados por riffs de guitarra e linhas pesadas de baixo. A voz de Josh Kiszka domina o disco, ora extremamente agressiva com drives e tons altos, ora mais tranquila e limpa.

“You’re The One” traz essa voz limpa e bela combinada com corais, violões e teclados e, junto com “Anthem”, são as baladas do disco. “Brave New World” é uma das melhores faixas do álbum, trazendo de volta os riffs de guitarra e uma pegada um pouco mais pesada, embora seja uma canção relativamente calma. A faixa “Lover, Leaver (Taker, Believer)” finaliza o disco e é uma versão estendida de outra música do meio do disco e a banda faz uma versão ao vivo dela de cerca de 23 minutos de improvisos, trazendo de novo a influência clara do Led Zeppelin.

Anthem Of The Peaceful Army é um excelente disco de estreia, principalmente para uma banda tão jovem e com influências tão marcantes. O Greta Van Fleet tem o potencial para mostrar o rock clássico para jovens que não são familiarizados com bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, entre outras. Entretanto, tem principalmente o potencial de fazer seu próprio nome no rock’n’roll, desenvolvendo mais o estilo original que mostra em faixas do disco de estreia e talvez influenciar minimamente bandas jovens a apostar num estilo mais clássico de fazer rock, o que faz muita falta hoje em dia.

OUÇA: “Age Of Man”, “When The Curtain Falls”, “You’re The One”, “Brave New World” e “Lover, Leaver (Taker, Believer)” (principalmente a versão ao vivo).

Tom Morello – The Atlas Underground


O bem conhecido e virtuoso guitarrista estadunidense Tom Morello (Rage Against the Machine, Audioslave, Prophets of Rage) acaba de lançar seu primeiro álbum somente sob sua assinatura, The Atlas Underground, um projeto ambicioso em que o guitarrista figura como um verdadeiro curador musical e traz participações inusitadas que vão desde o rap até as luminárias da música eletrônica. The Atlas Underground é um projeto que revela a riqueza dos caminhos musicais explorados por Tom Morello ao longo de sua carreira e também mostra com clareza que ele tem acompanhado atentamente a nova geração de artistas, embora o projeto sofra da falta de coesão entre as faixas, tendo momentos muito bons seguidos por outros não tão inspiradores.

The Atlas Underground é um álbum inteiramente sombrio, mesmo em seus momentos mais esperançosos, e todas as faixas evidenciam esse aspecto, ainda que executadas por uma multiplicidade de artistas de diferentes gêneros musicais. A sonoridade dos solos, riffs e frases executados por Tom Morello contribui para dar este aspecto ao álbum e as participações de cada faixa adicionam camadas e camadas de sombras ao quadro complexo pintado por Tom Morello neste projeto.

O aspecto sombrio do álbum também é visto na temática das faixas. “We Don’t Need You”, com participação do rapper Vic Mensa, fala da guerra ao terror e à pobreza protagonizada pelo Congresso dos EUA e sobre como o mundo inteiro sofre com as más escolhas feitas pelos congressistas; “Lead Poisoning”, que conta com os lendários membros do Wu Tang Clan GZA e RZA, fala de violência policial e sobre como a juventude negra tem morrido nas mãos de policiais despreparados e violentos.

Ao lado dessas faixas, destaca-se o single “Every Step That I Take”, com participação de Portugal. The Man, uma faixa que fala de caminhar pela vida, passa após passo, muitas vezes guiado por dúvidas, hesitações e incertezas. Citam-se também boas faixas como “Find Another Way”, com participação de Marcus Mumford, que descreve uma pessoa em busca de sua redenção e livramento a partir de um novo caminho, mas que ainda não sabe muito bem por onde caminhar, e “Vigilante Nocturno”, a faixa que mais se aproxima da sonoridade pela qual Tom Morello ficou famoso no Rage Against the Machine e Audioslave, que descreve um justiceiro da noite que enfrenta seus demônios e busca restaurar a justiça em um mundo caótico. Especial menção pode ser feita às faixas “Roadrunner”, que conta com o feat da misteriosa MC Leikeli47 e fala do drama vivido por imigrantes ilegais nos EUA de Donald Trump, e à efervescente “What It’s At Ain’t What It Is”, com Gary Clark Jr. e um desconhecido Nico Stadi.

Contudo, o álbum deixa a desejar principalmente por causa da forte influência do EDM popularizado por Steve Aoki (que participa da faixa “How Long”). Quase todas as faixas do álbum são recheadas de elementos de EDM e isso apenas contribui para tornar as faixas mais sonoramente confusas. A aposta de Tom Morello no EDM, um subgênero da música eletrônica em franco declínio atualmente, não tem nenhuma explicação aparente e pode tornar o álbum menos atraente para os fãs de longa data do guitarrista e dos fãs de rap ou de indie e folk que venham a se interessar pelas participações do álbum.

The Atlas Underground não é um álbum ruim, mas poderia ser muito melhor, vindo de um veterano como Tom Morello. É um projeto relevante em sua temática, mas em muitos momentos traz uma sonoridade pouco convincente.

OUÇA: “Lead Poisoning”, “Roadrunner” e “We Don’t Need You”

Three Days Grace – Outsider


Outsider ainda carrega a bagunça mental adolescente do Three Days Grace, um melodrama que soa bem em tons duros e um pouco menos melódicas do que os fãs estão acostumados. Seguindo fórmulas pouco inventivas, a banda canadense consegue fazer músicas chicletes em um passo de mágica em seu novo álbum (que por sinal, anda vendendo muito bem, obrigado).

As bandas que começam a adicionar décadas a sua idade passam a ter o velho dilema de repetir ou não seus sucessos. Algumas acabam se perdendo ao ir pela direção contrária, outras, como o Three Days Grace, acabam encontrando pelo caminho ouvidos esquecidos que preferem repetir uma dose confortável de nostalgia.

Os anos 2000 chegaram às playlists de festas flashback e a sonoridade de Outsider não é nada mais do que um disco riscado. Funciona, mas depois de duas repetições pode cansar um pouco e talvez você queira ir para uma playlist do “Top Mundial” logo. A dificuldade de encontrar o “zeitgeist”, ou seja, traduzir o tempo atual em uma ideia, é o que falta para algumas bandas vintonas e trintonas que resolvem dar as caras de dois em dois anos.

O álbum é divertido, não posso negar. Letras fáceis de entender e grudar, como “Infra-Red” e “Nothing To Lose But You”, que traz aqueles dedilhados famosos do grupo. “I Am An Outsider” é um bom hino adolescente, talvez pudesse ser tema de um personagem rebelde de uma nova temporada de Malhação.

“The Mountain” fala sobre sobrevivência e força. Bandas como o Three Days Grace, de fato, estão lutando para sobreviver e se manter no topo. Ir pelo caminho conhecido é, de fato, mais seguro. O papel prestado pela banda é unicamente de agradar os fãs. Se esse era o pico a se alcançar, o objetivo foi cumprido.

OUÇA: “Infra-Red” e “I Am An Outsider”

Living Colour – Shade


O Living Colour sempre foi uma banda respeitada no meio da música, no entanto, muito desconhecida para o seu nível de musicalidade e letras combativas. Quando os nova iorquinos surgiram no final da década de 1980, com uma das melhores pauleiras do universo, a “Cult of Personality”, um jornalista os comparou com o Whitesnake – porque apesar de ser uma banda de negros, eles tinham um som muito pesado. E de onde tiraram que rock pesado é só coisa de branco? Quem que inventou o estilo mesmo?

Em setembro a banda lançou seu sexto álbum – Shade. O terceiro após o hiato. Mais uma peça importante para essa discografia sensacional. Sempre marcados pela mistura de rock, metal, soul, funk, jazz e hip hop, o seu novo trabalho também possui essa mistura maravilhosa, com certas pitadas pop. E com o diferencial de também conter alguns sons embalantes, basta conferir a “Always Wrong” e “Two Sides”.

“Freedom of Expression (F.O.X.)” de cara já parece uma baita crítica à emissora FOX. E é justamente essa que abre o disco. “Pattern in Time”, “Glass Teeth” e “Blak Out” são as grandes pancadas: impossível não se surpreender com esses maravilhosos músicos. O instrumental é sempre muito impressionante. Tanto em músicas mais pesadas, com mais groove ou inclusive nas mais calminhas (mas essas praticamente não existem na carreira inteira).

Há também o funk cheio de alma de “Who’s That”. Com certeza um dos pontos altos do disco. Vernon Reid detona na guitarra. Claro que o baixo funkeado e a bateria minimalista e certeira não decepcionam. E o mesmo acontece no blues pesadão “Invisible”, mas aí devemos destacar a voz potente do Corey Glover. E além disso, salutar como a sua potência não diminuiu com o tempo. Corey não deixou de cantar durante a pausa da banda, porque também mantém o Galactic – outra banda digna de pesquisa e audição – e sua voz pouco mudou em 30 anos.

Shade também conta com três versões muito bem feitas e dignas: “Preachin’ Blues” do Robert Johnson, “Who Shot Ya” do Notorious Big e “Inner City Blues” do Marvin Gaye. O destaque delas é com certeza a do Marvin Gaye, a escolha de manter o vocal suave, inspirado no notável compositor, com a guitarra pesadíssima ao fundo, dá um contraste muito bom.

A marca da banda continua: som potente, letras de protesto, a exaltação do orgulho negro tanto nas letras como nos discursos em shows, bem como nas lindas capas. O único problema desse disco – e dessa banda – é a falta de reconhecimento.

OUÇA: “Freedom Of Expression (F.O.X.)”, “Always Wrong” e “Who’s That”.

Deep Purple – inFinite

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São quase 50 anos de estrada – com mudanças na formação, mas ainda assim, o fato é que que o Deep Purple é um dos grandes nomes do rock britânico, cujos membros são lendas vivas do rock. Com inFinite, Ian Gillan, Roger Glover, Ian Paice, Steve Morse e Don Airey trazem o que pode ser o derradeiro disco da banda. O que parece sugerir um trabalho de quem já está, por assim dizer, “puxando o freio de mão”, de quem já se prepara para sair de cena e portanto não apresenta o mesmo esmero presente em outros momentos de carreira. Essa tese poderia – e às vezes é – ser verdade, quando aplicada a outras bandas. Mas não a Deep Purple.

Quem houve Ian Gillan esbravejando em “Hip Boots” e “One Night In Vegas” dificilmente diz que se trata de um senhor de 71 anos. Como um todo, o som do Deep Purple em inFinite é carregado de energia, de momentos contagiantes. Por vezes, o som do grupo pende pro heavy, em certos momentos é mais progressivo. Do início ao fim, “Infinite” nunca chega a cansar o ouvinte ou dar aquela sensação de estar ouvindo a mesma música várias vezes seguidas, o que é muito comum com bandas que estão na ativa há muito tempo.

Por fim, o grupo fecha inFinite com uma grata surpresa: a última faixa é um cover de “Roadhouse Blues”, do Doors, extremamente carregado no blues, que honra a canção original. Com “Infinite”, o Deep Purple faz o público desejar que este não seja o último álbum da banda – mas, se for, é um disco e tanto para se terminar uma carreira.

OUÇA: “Time For Bedlam”, “The Surprising”, “Birds Of Prey”.

Gone Is Gone – Echolocation

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Quando anunciado no ano passado o mais novo “supergrupo” Gone Is Gone, houve um pouco de expectativa em torno da parceria entre Troy Sanders (do Mastodon), Troy Van Leeuwen (mais conhecido pelo Queens of the Stone Age), Tony Hajjar (At the Drive-In) e Mike Zarin (multi-instrumentista que já colaborou em projetos do Van Leeuwen). Essa expectativa deve ter aumentado quando eles lançaram o single Violescent em abril do ano passado.

Mas é bem provável que tudo isso tenha ido por água abaixo em alguns quando ouviram o EP (homônimo) em julho de 2016. Após ouvir uma música tão empolgante e viciante quanto “Violescente” e se dar conta de que só ela realmente compensava no tão anunciado trabalho.

Entretanto, apesar disso e de não haver muito furor sobre o supergrupo, a banda já anunciou que no próximo ano lançaria um álbum. E este foi lançado no início de 2017, em janeiro – o Echolocation.

Echolocation foi anunciado o lançamento do single “Gift” em novembro – que também não empolgou muito. No entanto, o recente disco foi tão bem elaborado, que agora esse single faz sentido no conjunto e se tornou uma “boa música” – tem até um toque “pop”.

O novo trabalho do grupo possui doze canções bem posicionadas. É possível perceber um começo, meio e fim. Iniciado com “Sentient”, de forma leve, dando já uma ideia de como será todo o álbum: aquele som melancólico pautado por guitarras com distorções na medida certa e com ápices muito bem seguidos por toda a banda, com um toque doom metal (que fica muito bom na voz Troy Sanders, vale dizer).

“Gift”, “Resurge”, “Dublin”, “Ornament” e “Paws” configuram o barulhento do doom – todas com momentos raivosos e cheios de lamentações. Depois, “Colourfade” retoma a melancolia, que explode no cover de “Roads” do Portishead e volta ao ‘normal’ em “Slow Awakening”/“Fast Awakening”.

Sobre “Roads” vale falar algo mais sobre: ficou ótimo. É difícil imaginar as músicas do Portishead serem tocadas por outras pessoas que não eles mesmos, ainda mais sem a voz sensacionalmente sutil e performática ao mesmo tempo da Beth Gibbons. Mas eles conseguiram. Foram muito inteligentes na escolha de colocar muito mais peso à música, e o vocal sussurado e sofrido.

Outro fator que dá outro toque ao disco é a “Slow Awakening” logo seguida pela “Fast Awakening”: cantar de forma lenta e depois rápida os versos “There is always someone to drive you crazy/ In so many ways” enfatiza a mensagem, além de demonstrar que o fato de alguém te incomodar pode ser triste, porque acontece sempre e você não aguenta mais ou isso não é mais novidade, quanto dar raiva de sempre ter alguém enchendo seu saco.

A reta final do álbum é com “Resolve” – música a princípio um pouco deslocada do contexto da proposta do disco até então, mas que afinal, combina – com dedilhado digno de indie folk no início e voz contida, tem seus momentos mais lindos quando o dedilhado se vai (isso não significa que ele seja ruim), e os acordes passam a ser acompanhados pela bateria de leve. Que culmina e finaliza em “Echolocation”, uma faixa que tem muito a oferecer, até mesmo quando ouvimos atentamente ao seu refrão: “Energy/ What you give/ The echo ride/ Coming to you in return/ Energy/ Scatter in the wind and grow”. No final, após mais um refrão, se instaura um clima apoteótico, com palavras sendo cantadas (talvez) em um megafone ao longe, que não conseguimos ouvir direito que mensagem nos fala – mas será que ela não nos fala sobre o karma do refrão?

Sobre isso ainda não se sabe. O que ficou registrado mesmo é que Gone is Gone pode ter um futuro promissor.

OUÇA: “Sentient”, “Roads” e “Echolocation”.

Wolfmother – Victorious

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Ame-os, odeie-os, ou simplesmente ache que eles já tiveram dias melhores na música , o Wolfmother continua uma banda excepcional. Mais especificamente, eles continuam o tipo do grupo que sabe como explorar a larga gama musical de 1970 e  ainda consegue acrescentar algo novo à ela. Mas “o novo”, necessariamente, não significa “o original” e, tocando nesse ponto, os problemas começam a aparecer no novo álbum Victorious.

Se esse é o seu primeiro contato com a banda e a ideia de músicas que pareçam de um filho perdido do Black Sabbath com o Led Zeppelin soarem interessantes, muito provavelmente, você não terá uma experiência ruim com o álbum. Faixas como a própria “Victorious” ou a “Eye Of The Beholder”, por exemplo, deixam claras essas influências. Mas se você é fã do self-titled de 2005, a palavra “frustração” dará voltas na sua mente em muitos momentos.

O que parece ser a grande dificuldade da banda, desde 2005, é aprender a distanciar as influências um pouco, colocá-las em um “espremedor musical”, extrair seu suco e criar algo novo com ele, fazendo sua própria e única mistura, como uma espécie de coquetel. O vocalista Andrew Stockdale, por exemplo, soa tão parecido com Ozzy Osbourne nas faixas “The Love That You Give” e “The Simple Life” que chega a ser perturbador, no pior dos sentidos. Os instrumentais continuam poderosos, como de costume, mas um certo excesso de produção pecou em tornar os 35 minutos propostos em uma experiência estranha, onde as faixas após a metade do álbum não parecem nem sequer ter começo ou fim.

Fica evidente, mais uma vez, que o Wolfmother é uma banda muito talentosa que está tomando um rumo desastroso em direção a mesmice musical. O álbum, contudo, soa como algo agradável aos ouvidos, mas levando o histórico geral da banda em consideração, a ausência de uma identidade musical própria os levará, muito em breve, ao verdadeiro inferno criativo. Isso deixa, em geral, qualquer fã de música com medo, pois todos sabem exatamente como o esquecimento pode, letalmente, destruir todo o trabalho de uma boa banda, com um potencial evidente de se tornar um gigante.

OUÇA: “x”, “x”, “x” e “x”