David Bowie – Blackstar

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Na madrugada do dia 10 de janeiro de 2016 David Bowie faleceu e deixou um enorme vazio em milhões de fãs pelo mundo todo. Dois dias antes de seu falecimento – no dia de seu aniversário de 69 anos -, o Starman presenteou a todos nós com seu vigésimo sexto álbum de estúdio, denominado Blackstar.

À primeira ouvida – antes de tomar conhecimento da morte de Bowie -, eu e muitos autores de diversas resenhas que li viram Blackstar como um novo recomeço do “Camaleão do Rock” – mostrando o artista completo que é ao se reinventar, mesmo depois de 50 anos de carreira, incorporando desde elementos do jazz experimental, até influências como Kendrick Lamar e Death Grips -, mas agora ele pode ser visto como a despedida perfeita de um dos maiores ícones de todos os tempos.

Composto por apenas 7 faixas, Blackstar começa com a música que dá nome ao álbum, com a voz de Bowie repleta de efeitos e ecos, mas ainda completamente característica e reconhecível – menos cantada e mais falada – com um tom sombrio, quase fúnebre e envolta por uma base eletrônica extremamente experimental, com toques de jazz dados pelos instrumentos de sopro.

Grande destaque do disco, “Lazarus”, com o melhor instrumental do álbum e um videoclipe que transformou a morte e a despedida em obra de arte de uma maneira que somente David Bowie poderia conseguir, é uma das melhores canções da carreira do artista. A balada do disco é “Dollar Days”, onde os vocais são acompanhados por violão, piano e um extremamente bem trabalhado saxofone e, ao final, se conecta melodicamente à última canção, “I Can’t Give Everything Away”, as últimas palavras de um dos maiores e mais enigmáticos compositores da história da música contemporânea, onde ele repete que não pode dar tudo, embora tenha dado muito, talvez muito mais do que possamos entender agora, tornando-o um artista completo, eterno e sempre à frente de seu tempo.

David Bowie sabia de seu destino e sabia que Blackstar era a maneira perfeita de finalizar uma obra grandiosa e mostrar que se foi cedo demais, que tinha muito mais a nos mostrar e ensinar. Infelizmente, a hora dele chegou; portanto, celebremos o maravilhoso legado que ele nos deixou e nunca nos esqueçamos de quem ele foi. Rest in peace, David Bowie.

OUÇA: Tudo o que puder do grande Starman.

The Darkness – Last Of Our Kind

ASH

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Com músicas como “I Believe In A Thing Called Love” e “Every Inch Of You” na discografia, The Darkness é o tipo de banda que você não sabe dizer se o que eles fazem é sério ou se é pra levar na brincadeira. Last Of Our Kind, seu último trabalho pode soar tanto como uma homenagem à história do rock and roll, quanto como uma grande piada com os clichês do gênero.

O disco abre com uma narração contando um evento da história da Inglaterra, que logo dá lugar a um riff cadenciado numa faixa que traz elementos do Viking metal oitentista e uma letra que justificam essa narração inicial de “Barbarian”. A faixa que vem na sequência traz uma das características mais importantes do som da banda que, embora não seja nem um pouco original com suas origens lá no hard rock dos anos 70, ainda empolga e são os riffs poderosos que cativam mais do que as letras e, durante o resto do álbum, ainda temos uma série de outros tão memoráveis quanto o de “Open Fire”.

As baladas também tem lugar nessa grande miscelânea de referências, mas de forma mais fraca. “Wheels Of The Machine” é um momento de descanso da distorção, mas não dos falsetes de Justin Hawkins que, por serem colocados em todas as faixas, tendem a deixar o ouvinte saturado nessa altura do disco. “Conquerors”, a faixa que encerra o disco, também é uma dessas baladas enjoativas com o falsete mal colocado e que parece que não acaba nunca. Já “Sarah O’Sarah” quase seria uma grande balada com um instrumental consistente mas se perde em meio a um refrão com bateria cavalgada que se repete até você não aguentar mais e quase agradecer quando a faixa acaba.

“Hammer & Tongs” é o último grande momento do disco, um hard rock com uma cadência puxada pro country, trazendo mais um riff marcante, a voz de Justin Hawkins muito bem colocada como mais um instrumento preenchendo o vazio entre as partes instrumentais e um refrão que ficaria muito bem ao vivo com toda a platéia cantando junto.

Como eu disse no início, não dá pra saber até que ponto podemos levar The Darkness a sério ou não. Nada é muito original mas, com certeza, ainda é muito divertido. A faixa-título é (aqui sim, sem ambiguidade) uma homenagem ao rock que formou o som da banda. Uma introdução dedilhada de violão como o Led Zeppelin fazia, a linha de teclado destacada como nas músicas do Queen, a guitarra que entra aos poucos com um baixo cavalgado como o Kiss, um solo que esbanja técnica como nos hits do AC/DC e os falsetes inconfundíveis de Justin Hawkins fortemente inspirados nos agudos de Rob Halford do Judas Priest fazem “Last Of Our Kind” soar como um hino exaltando um rock extravagante que aos poucos desaparece do mainstream atual. Na letra e durante todo o disco, The Darkness se coloca, um pouco como fãs, um pouco exaltando a si mesmos, como defensores desse legado, os últimos dessa espécie de roqueiros. Mas talvez isso tudo seja apenas uma piada.

OUÇA: “Open Fire”, “Roaring Waters”, “Last Of Our Kind” e “Hammer & Tongs”

David Bowie – The Next Day

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Depois de dez anos de espera, finalmente os fãs de David Bowie receberam um sinal de vida. O músico não se pronunciava desde o último disco, Reality, de 2003, e durante todo esse tempo nada a seu respeito foi divulgado, exceto o caso de uma cirurgia no coração em 2004. “Em uma era onde podemos ver a fotografia do café-da-manhã de Rihanna ou saber o que Lady Gaga pensa de Die Antwoord em 140 caracteres, manter o mais completo silêncio por uma década imediatamente coloca você acima do resto, além de criar uma fome, um desejo, uma necessidade por informação”, afirmou o radialista e apresentador de televisão, Jonathan Ross. Definitivamente, a espera foi grande, e quando o disco novo foi anunciado, surgiu uma curiosidade enorme. The Next Day, lançado no dia 8 de março, precisamente três meses após o aniversário de 66 anos do cantor, acrescentou ao legado de Bowie, o vigésimo quinto e excelente álbum de estúdio, produzido pelo Tony Visconti, que já esteve com o multiartista em pelo menos metade de sua carreira.

O compositor é conhecido popularmente como o “camaleão do rock” em jus às diversas mudanças de sonoridade e de personagem que já passou. Querer entender David é compreender esse processo de mutação. E agora, mais do que nunca, a análise do novo disco necessita desse entendimento, pois é inevitável ouvir o The Next Day sem querer comparar ao passado do cantor. Por conseguinte, David trabalhou com essa idéia e desenvolveu um disco inovador e auto-reflexivo. “Ele é um mestre de sua própria vida. Eu acho que é uma jogada bastante esperta essa de ligar o passado ao futuro” disse o produtor Visconti. Já na capa é apresentada uma alusão; A foto do disco Heroes (1977) remete à trilogia de Berlim composta pelos outros dois discos, Lodger (1979) e Low (1977), entretanto, na edição foi colocada uma tarja branca junto ao nome, The Next Day – o dia seguinte. Dessa forma, Bowie trabalhou com uma perspectiva do que será o seu futuro, partindo do seu passado.

Outras referências existentes são mais específicas, cada uma encontrada em diferentes faixas, como o caso de “You Feel So Lonely You Could Die”, que se relaciona ao personagem alienígena Ziggy Stardust. “Dirty Boys”, por sua vez, faz referência à época do disco Young Americans de 1975, que apresenta um teor de soul music. “How Does The Grass Grow” é outra faixa que remete a época de Diamond Dogs, disco de 1974. Em relação às letras, Bowie continua complexo, porém, dessa vez os temas estão mais sombrios. Como na canção “Love Is Lost”, que retrata um comportamento pessimista sobre o medo e o amor, o medo de perder o amor e a percepção de que o amor está perdido. “Where Are We Now?” é uma balada nostálgica, uma das mais bonitas do disco, mas que retrata especificamente Berlim e seu espaço geográfico com um grande saudosismo. “The Stars Are Out Tonight” descreve a perspectiva de vida das celebridades, de como elas são frágeis e sobre sua influência na sociedade.

Claramente há alusões aos trabalhos antigos de Bowie, portanto aqueles que procuravam no lançamento algum sinal de seus clássicos, encontrarão facilmente. Por outro lado, aqueles que procuram uma faceta inovadora, também descobrirão. O disco é uma combinação perfeita do passado e do futuro, do clássico e do novo. Bowie encontra-se em sua forma mais ativa e viva, assim como diz um trecho da música “The Next Day”, a faixa-título: ‘Here I am not quite dying’. Em vista disso, David novamente nos entrega um disco excelente, cheio de singles, referências ao passado, mas sem muita nostalgia ou apelação; e grandes letras para tentar compreender, além de emplacar como compositor de ouro para aqueles que já o acompanhavam, ele recolhe novos admiradores do seu trabalho e, consecutivamente, seu legado permanece preservado na memória cultural de várias gerações.

OUÇA: “The Next Day”, “How Does The Grass Grow” e “(You Will) Set The World On Fire”

Foxygen – We Are The 21st Century Ambassadors Of Peace & Magic

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Foxygen é um duo de Los Angeles formado pelos multi-instrumentistas Jonathan Rado e Sam France. A estreia em 2012 com o EP Take The Kids Off Broadway, já havia recebido boas críticas da mídia, deixando o território preparado para o primeiro disco da banda, We Are The 21st Century Ambassadors Of Peace & Magic. Este álbum não é nada mais do que uma viagem no tempo, de volta para os anos 60, junto de bandas como o Beatles e o Rolling Stones. Diante de tais influências, é de se esperar algo muito bom desses músicos, e o disco não desaponta, muito pelo contrário.

Em resultado dessa influência, o disco é totalmente psicodélico, com vocais introspectivos e solos de guitarra cheios de fuzz e distorções. Apesar do álbum ser regido principalmente pelo psicodelismo, há faixas que destoam desse gênero e buscam outras influências da década de 60, como o folk do Bob Dylan e o rock dos Rolling Stones, presentes respectivamente nas faixas “No Destruction” e “We Are The 21st Century Ambassadors Of Peace & Magic”.

É fácil associar as referências de cada faixa com diferentes bandas da década de 60. “In The Darkness”, música que abre o disco, poderia facilmente se encaixar no Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles. “San Francisco” possui certa influência da banda Velvet Underground misturado com algo mais atual, como o Belle and Sebastian, dos anos 90. Já “Oh No 2”, faixa que finaliza o álbum, possui semelhanças com as músicas do Pink Floyd, pelos altos níveis de psicodelia.

Toda essa nostalgia, se não bem planejada, poderia ser classificada como cópia do passado, ou apenas mais uma banda com influências das décadas passadas. Mas não é isso que ocorre com o novo e primeiro disco do Foxygen. “We Are The 21st Century Ambassadors Of Peace & Magic”, possui um título longo e difícil, mas também é auto explicativo. Jonathan e Sam se denominam os embaixadores da paz e da magia do século XXI, e não podemos negar esse título para eles. O disco é, sim, nostálgico, mas não perde no quesito atual. Pode até ser classificado como reciclagem, mas o que é esse processo se não a reutilização do antigo, que não possui nenhum uso no presente, para fazer algo novo e útil, sem perder a essência que fez sucesso no passado?

OUÇA:No Destruction”, “On Blue Montain” e “Oh No 2”