Speedy Ortiz – Twerp Verse


Os anos 90 acabaram, voltaram e já se transformaram em vintage. Muitas tendências ainda estão dando a cara por aí em revistas de moda ou álbuns de bandas de músicos de vinte e tantos anos. Nem todas as modas que fizeram seu retorno são tão boas quanto a pochete e as referências do Speedy Ortiz.

A clássica camiseta de Kim Gordon dizia que as garotas haviam inventado o punk rock, e não os homens. O Riotgrrl com certeza foi a maior prova dessa afirmação. Em tempos de internet e empoderamento feminino, nada consegue chegar perto da força que as feministas punk dos anos 90 tiveram.

Em uma era de infestação de divas pop que tem pouco a dizer e bandas  de pop punk que choram sobre garotas que supostamente arruinaram suas vidas, o Speedy Ortiz se faz extremamente necessário. Apesar de não ser totalmente formado por garotas, a temática e genética da banda são extremamente femininas. Twerp Verse é a prova de que ainda é relevante falar sobre coisas que dizem respeito a nós mesmas.

Buck Me Off” inicia  álbum com uma rebeldia do britpop e distorções do grunge. A sonoridade do trabalho como um todo não foge disso, uma zona de conforto que deixa um pouco a desejar. De qualquer forma, as letras de cada música conseguem se destacar mais do que seu som, o que pode atrapalhar alguns ouvidos que não querem somente palavras para refletir. “Lucky 88” é a música mais pop, mostrando boa parte do potencial vocal da banda e seu carisma orgânico.

Can I Kiss You?” é um filho da fase In Utero do Nirvana, uma reprodução que não é nem um pouco incômoda. Um lugar seguro, talvez uma lembrança que pudesse ir até um pouco mais fundo, buscado mais elementos que encaixariam-se bem no restante do álbum. Sinto um pouco de falta do peso de Major Arcana, uma vontade de mais pulmões e punhos. “You Hate The Title” é uma adição interessante, mas um pouco na contramão do que o álbum apresenta.

Apesar de ter a voz de uma garota vestida de kinder whore [moda típica das riotgirls lá pros anos 90], Sadie Dupuis não soa como uma adolescente. Suas reflexões em “Twerp Verse” não ficam apenas em reclamações sobre homens imaturos ou militância explícita. A sensibilidade ao tratar de assuntos como assédio sexual de uma forma não demagógica e real, como em “Villain”, é impressionante. A quebra da “quarta parede” em I’m Blessed [I’m blessed with perfect pitch/ I waste it on songs that you never even heard of“] com certeza desafia o ouvinte a apertar o botão de repeat.

OUÇA: “Can I Kiss You?”, “Villian”, “Lucky 88”

Ty Segall – Freedom’s Goblin


Quando pensamos em um garage-rocker bem sucedido, a primeira pessoa a vir em mente costuma ser Ty Segall. Consequentemente, com o álbum Freedom’s Goblin, essa sensação de sucesso não é apenas transmitida em suas 19 músicas, mas também mostra como a banda segue evoluindo ainda mais. O interessante é que Segall, justamente pelo alto volume de músicas no álbum, não parece ser muito seletivo em relação ao que escolhe lançar, o que não limita sua capacidade criativa, mas de modo algum isso parece comprometer a qualidade da entrega. Fanny Dog abre o álbum, já  demonstrando a evolução do lo-fi clássico de Segall, mas muito dramático, triunfante, apesar da proposta engraçada de ser uma letra, literalmente, para celebrar o quanto ele gosta de seu cachorro.

De uma certa forma, a leveza trash digna de um álbum de garage, com letras leves, só demonstra o interesse no bom e velho rock n roll da banda. Solos longos também estão por toda parte, como na And Goodnight e She And Alta,  que superam em nível técnico outras músicas mais experimentais do álbum, como Despoiler of Cadaver. É um tanto arriscado para um músico soltar um álbum com tantas músicas, mas Freedom’s Goblin acaba sendo mais uma demonstração do quão workaholic Ty Segall consegue ser e, sem dúvida, podemos esperar outro álbum com até mais músicas que este num futuro não muito distante. O segredo do álbum é encara-lo como uma viagem, sem medo de onde vai parar, e deixar que o som instintivo do garage guie seu pensamento.

OUÇA: “You Say All The Nice Things” e “5 Ft. Tall”

Black Rebel Motorcycle Club – Wrong Creatures


O BRMC parece ter desistido. Na contramão da maioria das bandas da atualidade, que não têm hesitado em se aventurar em novas sonoridades, novas composições e letras, o grupo parece ter parado no tempo, na pior acepção possível.

Soando como se fosse um pastiche de si próprio, Wrong Creatures, lançado no último dia 18, não apenas não empolga como, por vezes, consegue soar como um apanhado de diversos momentos da banda amarrados – talvez esse um dos poucos méritos – por um mínimo de coesão. Há também, claro, os riffs tão característicos e uma certa ambiência que já fazem parte da personalidade da banda.

O álbum é aberto com uma faixa etérea e psicodélica chamada “DFF”, que cria antecipação e ansiedade sobre o que vem a seguir, momentaneamente supridas por “Spook”, que lembra de longe “Spread Your Love”, uma das melhores e mais conhecidas da banda. Desse ponto em diante, o álbum vai numa espiral descendente na qual cada faixa consegue empolgar menos que a anterior. “King Of Bones” é o exemplo perfeito disso, com sua sonoridade levemente soturna em relação ao restante do conjunto, riffs interessantes e um produto final que passaria batido em qualquer pista de dança alternativa. Já “Haunt”, uma tentativa de balada com uma sonoridade que lembra – lembra, muito de longe, um certo Lou Reed – é um dos pontos mais baixos do conjunto, misto estranho de psicodelia e tentativa de balada, que diz pouco a que veio.

Quase tudo em Wrong Creatures soa genérico e pouco específico, como se o contraponto obrigatório ao som psicodélico e ligeiramente etéreo da banda fosse um certo conservadorismo das letras. Apesar de tudo, há uma série de elementos interessantes no álbum, que conta com a produção de Nick Launay (também conhecido por produzir tanto Nick Cave quanto Arcade Fire).

É claro que, apesar de Wrong Creatures não vai deixar de agradar aos fãs mais entusiasmados da banda, uma vez que seu maior mérito é apenas repetir todos os elementos que fizeram a fama e a popularidade do grupo. Datado e a aparente capacidade de acompanhar as tendências, resta saber qual será o próximo passo do BRMC depois de um álbum tão pouco interessante.

Jake Bugg – Hearts That Strain


Após o lançamento do terceiro álbum On My One, que não teve uma boa recepção por parte da crítica (a nossa você pode conferir aqui), Jake Bugg volta após um ano de seu último disco, com o novo, melancólico e apaixonante Hearts That Strain.

Passaram-se cinco anos desde o suprassumo que foi (e continua sendo) o primeiro álbum de Bugg, e perceber as mudanças sonoras que acontece desde sua estreia é surpreendente. Depois de dois discos completos e bem recepcionados, Bugg ainda se encontra na transição musical que podemos dizer ser normal para artistas que ascendem tão jovens na indústria. A necessidade de experimentar coisas novas e de arriscar, às vezes pode não dar tão certo como em On My One, que, manter-se na zona de conforto, acaba sendo uma boa estratégia para continuar relevante musicalmente.

Hearts That Strain tem 11 músicas no total, onde Jake canta da forma mais simples e sucinta suas melódicas canções. A música que abre o álbum “How Soon The Dawn” e também lead single, ganhou um clipe amorzinho de Bugg e sua namorada, com direito a bagunçada na franja linda e sedosa do cantor inglês. “How Soon the Dawn” é a delicia de fim de tarde, nos faz sentir vivos e apaixonados. Conforme fui ouvindo as faixas, pude perceber que Jake está totalmente em seu espaço nesse novo disco, resgatando a essência folk pop melodramática que nos fez gostar tanto de seu trabalho logo no inicio da carreira. “Southern Rain” traz a melancolia da voz de Bugg novamente para nossos corações, transfere aquele sentimento de sofrência por um amor perdido que um dia voltará, como a letra da faixa diz:

“Southern rain is here to stay
And you know I’m thinking of
A cloud of judgment day
Southern rain”

“In The Event Of My Demise” é a música mais forte do álbum, com sonoridade bem similar a “Two Fingers” e “Trouble Town”, porém numa vibe dançante setentista alá Beatles “Here Comes the Sun”. O álbum segue incrível com o dueto de Bugg e Noah Cyrus em “Waiting”, onde as vozes se complementam numa baladinha completa para dançar no baile de formatura ou  primavera. “Burn Alone” retorna o Jake Bugg de 2012 de forma envolvente, caloroso e bem menos apático (pra quem já viu ao vivo), e de certa forma, é gratificante para os ouvintes de Bugg desde o primeiro álbum, ver o cantor resgatando influências originais e oferecendo um trabalho significativo para sua carreira e seus fãs.

Ao todo, Hearts That Strain é sonoramente agradável e calmo de ouvir, cumpre os objetivos, supre as expectativas e nos deixa prontos para a turnê acústica que Jake irá iniciar, por enquanto apenas no Reino Unido, mas nada impede que seja mundial, né não?!. Jake Bugg está em seu quarto álbum de estúdio com apenas 23 anos, o quê esperar para os próximos anos? É algo instigador!

OUÇA: “In The Event Of My Demise”, “Burn Alone” e “Waiting”

The Duke Spirit – Sky Is Mine


The Duke Spirit é uma daquelas bandas que, apesar de sempre lançar álbuns irregulares, guarda umas pequenas preciosidades (geralmente nos lados B) que nos fazem manter as esperanças sobre aquilo que podem fazer no futuro. E parece que, ao menos em grande parte, o futuro chegou. Mais consistente do que qualquer um dos anteriores, Sky Is Mine é um disco homogêneo, ou melhor, coeso. A banda deixa de lado as tendências do garage rock que marcaram seu início de carreira e agora se dedicam a uma sonoridade mais complexa, com vocais etéreos, chegando a beirar o dream pop em muitos momentos, mas ao mesmo tempo se mantendo acessível, visceral e pé-no-chão.

Muito do que Sky Is Mine nos mostrava já estava indicado no predecessor, KIN, mas ali ainda estavam em formação. Pela primeira vez The Duke Spirit parece ter uma identidade própria. A banda não está nem tentando fazer o mesmo que The Subways e tantas outras bandas que surgiram na mesma época faziam (e que, raras exceções, não fazem mais) e nem é aquela que você não vai conseguir reconhecer se aparecer numa playlist que surgir pelo seu caminho. É claro que essa nova cara não vai agradar a todos, é possível que muita gente que curtia álbuns como Cuts Across the Land e Neptune provavelmente não vá gostar de Sky is Mine. Mas o próprio fato de estarem dispostos a arriscar é um ponto positivo da banda. Talvez só façam isso porque não tem uma base de fãs muito grandes, então o risco marginal é muito baixo.

Nem tudo, no entanto, são flores, como não podia deixar de ser. Apesar da coerência, o álbum não inova em nada, apenas elabora aquilo que já vinha sendo construído pela banda já há algum tempo. E isso não é nada de revolucionário, nada que várias outras bandas já não tenham feito antes, e até de forma mais bem sucedida. Também pode desagradar o próprio fato de ser um disco consistente. A falta de altos e baixos pode parecer monótona, e não deve ser bem recebida pela massa de consumidores musicais que está acostumada a ouvir singles. Ficamos imaginando se não teria sido uma boa ideia experimentar um pouco mais em estilos diferentes, ou mesmo apenas manter algumas faixas acústicas, que costumavam ser pontos altos dos álbuns anteriores da banda.

Sky Is Mine merece ser ouvido do começo ao fim, sem pressa e mais de uma vez. Se possível, no escuro, sem outros sons que atrapalhem a sua apreciação. Ao entrarem nos seus ouvidos, as notas vão invariavelmente te lembrar daquelas coisas que você imaginava que The Duke Spirit iria um dia fazer. E é algo raro uma banda nos dar esse tipo de satisfação. E, no meio desse barroco sonoro, impossível não imaginarmos também o que vem por aí. O mais provável é que, agora que encontraram uma identidade, se mantenham presos a ela. Mas essa é uma expectativa que eu adoraria ver ser quebrada.

OUÇA: “Magenta”, “Bones of Proof” e “The Contaminant”

Oh Sees – Orc


Eu gosto de ouvir muitas coisas diferentes. Minha lista de artistas mais tocados no Spotify tem Taylor Swift, XXXTENTACION, MC Cabelinho, Lauv, Frank Ocean e Elton John. Quando comecei a escrever para o blog, uma colega me disse que não tinha problema nenhum eu escrever sobre bandas que eu gostasse ao invés de me arriscar com artistas que eu não conhecia. Dessa vez resolvi sair da minha zona de conforto e falar sobre uma banda que ainda não tinha ouvido: OCS. Thee Oh Sees. The OC.

Oh Sees.

Eu não entendo nada de Psych Rock – também vi classificado como Garage Rock. Se eu ouço de É o Tchan até St. Vincent, esse estilo passou despercebido pelo meu radar. Dei uma pesquisada, tentei ouvir algumas músicas que a banda lançou anteriormente – estranhei quase todas – e escrevi minha resenha do jeitinho de sempre. Enviei no sábado. Na segunda-feira – aka meu aniversário – percebi que perdi tudo. Foi o golpe final do meu inferno astral. Tinha que reescrever uma resenha de uma banda que tem DEZENOVE álbuns lançados e que toca um estilo que eu desconheço quase completamente. O que fazer? Uma lista.

15 coisas que pensei enquanto ouvia Orc. Aperte o play e me acompanhe.

  1. É uma guitarra distorcida nesse comecinho?
  2. Que animada! As músicas que eu tinha ouvido não eram tão boas assim.
  3. Eu não sei vocês, mas ADORO quando aparece um UuUuh ou LA LA LA no meio da música. Fico cantarolando junto.
  4. O álbum chama Orc porque o vocalista parece um bicho cantando? A voz dele é muito estranha, quase caricata.
  5. “Animated Violence” é a música perfeita para momentos clichês de filmes de ação em que o mocinho persegue um personagem de caráter duvidoso.
  6. O instrumental é o forte do Oh Sees. Muito bem estruturado e te contagia em todas as faixas. A bateria rouba a cena.
  7. DE ONDE SAIU ESSE VIOLINO EM “KEYS TO THE CASTLE”?
  8. Deve ser muito doido ouvir essa música chapado.
  9. “Cadaver Dog” faz sentido no disco, mas é tão sem sal…
  10. “Paranoise” é a prova de que uma música bem feita não precisa de letra pra ser foda.
  11. E ESSE FINAL? AMEI!!
  12. Infelizmente ela é seguida pela monótona “Cooling Tower”. ZZZzzzZZZzzz
  13. Orc tá me deixando um pouco apreensiva. Parece que alguma coisa vai aparecer e me levar pras profundezas do inferno.
  14. Eles devem ter usado muita droga escrevendo esse disco.
  15. Acabou. Não sei o que dizer, só sentir.

OPINIÃO FINAL:

O instrumental é incrível. Fui surpreendida com instrumentos que eu não estou tão acostumada a ouvir com e isso me manteve interessada durante o projeto. Com certeza vou ouvir Oh Sees com mais calma, mesmo que a voz do vocalista tenha me irritado algumas vezes durante os 50 minutos de duração desse álbum. Se você curte esse estilo de música e já conhece a banda, provavelmente vai adorar esse trabalho. Orc é um tour que você faz pelo seu inconsciente enquanto tira um cochilo despretensioso num sábado a tarde. Ao caminhar pelos trechos sombrios, tome cuidado com os monstros que pode encontrar pelo caminho.

OUÇA: “The Static God”, “Animated Violence”, “Paranoise”

Rat Boy — SCUM


Young, dumb, living off mum”, Jordan Cardy tinha acabado de perder seu emprego na rede de pubs britânica Wetherspoon quando uma de suas demos chamou a atenção de Drew McConnell, baixista do Babyshambles. A partir desse interesse, uma porta ou duas foram abertas para o jovem inglês de 21 anos: ele assinou contrato com a gravadora Parlophone, o que resultou em seu despretensioso e cheio de energia disco de estreia, Scum.

Rat Boy nome adotado pelo inglês a partir de um apelido que recebeu na escola porque os colegas o achavam parecido com um rato claramente não se leva muito a sério, o que torna sua música surpreendente de uma maneira muito positiva. Scum é o tipo de álbum que você começa a ouvir sem muitas expectativas (afinal, o que se esperar de um artista tão novo que se chama de garoto rato e parece orgulhoso disso?) e termina adicionando a maior parte dele às suas playlists. Cardy parece ter feito exatamente o que gostaria de fazer com o disco e ainda conseguiu se divertir no processo, e isso transparece já no primeiro contato com as canções.

O trabalho de 25 (!) faixas tem uma estrutura bastante particular: são 17 músicas entre interlúdios que funcionam como um programa de rádio chamado S.C.U.M. Um locutor americano decadente introduz o programa e volta, depois de uma música ou duas, com mais comentários, propagandas e até mesmo com um pronunciamento falso de Donald Trump. Dessa forma, é como se você estivesse ouvindo a um programa de rádio que reproduz o álbum completo, o que é bastante inteligente e traz um elemento nostálgico, lembrando-nos de uma época em que o rádio ainda era muito relevante. Essa nostalgia também está presente nas músicas, que têm muito influência do brit pop, ska e dub reggae dos anos 90. A estrutura de programa de rádio com todos os interlúdios, no entanto, pode ser um pouco cansativa lá pela sua quarta aparição, mas nada que comprometa demais a experiência com o disco.

No que diz respeito a temática, Scum é movido à revolta millennial. Quase todas as músicas falam da vivência de jovens que enfrentam problemas diante de medidas de austeridade por parte do governo inglês, não concordam com as políticas como o Brexit e têm que lidar com o desemprego e dificuldade financeira. Em “Boiling Point”, por exemplo, ele critica Theresa May, aponta a gentrificação e pede: “If you voted Brexit, please find the nearest exit”. Isso tudo é tratado de maneira descomplicada e honesta, e ainda assim bastante inteligente. Cardy soa tão honesto porque de fato viveu o que está falando em “Everyday”, por exemplo, ele canta sobre ter um contrato com uma gravadora e mesmo assim não receber nenhum dinheiro.

As letras bastante sinceras e politizadas, são acompanhadas de picos muito altos de energia nas músicas. Rat Boy tem muitas coisas a dizer e o faz rápido. Quase todas as faixas começam e terminam tão agitadas quanto possível, o que pode te fazer pensar que isso é tudo que Cardy consegue fazer. Em meio a tanto caos caos positivo , contudo, encontramos as mais lentas “Laidback” e “I’ll Be Waiting”, uma das melhores do disco, que mostram que o cantor também é incrível quando se permite um tempo maior para respirar.

Scum é como um todo muito jovem e isso funciona bem porque Jordan Cardy é muito jovem. A pressa e pouca maturidade que contribuem para o sucesso do disco ficam particularmente evidentes em alguns momentos e podem se tornar um problema daqui a alguns anos em trabalhos futuros. Mas, pelo menos por agora, Rat Boy pode aproveitar toda essa energia para mostrar que millennials não são necessariamente tão alienados quanto todo mundo acredita.

OUÇA: “Revolution”, “Laidback”, “I’ll Be Waiting” e “Sign On”

Black Lips – Satan’s graffiti or God’s art?

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Se você está esperando algo leve e de fácil deglutição, pegou o disco errado. Em seu oitavo álbum, Satan’s graffiti or God’s art?, os Black Lips não miraram no grande público. Porém, engana-se quem pensa que a banda fez uma obra conceitual, destinada para apreciação de especialistas. Não sendo um disco para muitos nem para poucos, o mais provável é pensar que é um disco que tem como propósito maior a própria banda e seu objetivo de brincar com os ouvintes.

Desde o começo da década de 2010, os Lips vinham fazendo um esforço para se aproximar do mainstream. Emplacaram a música “O Katrina!” na trilha sonora do filme Scott Pilgrim e fizeram parceria com fortes produtores do pop e indie como Mark Ronson e Patrick Carney (baterista do Black Keys) nos seus dois últimos discos. Porém, em 2017, a banda tacou o foda-se pra tudo e deu meia-volta nessa trajetória. O resultado é um disco caótico, sombrio, provocativo e que faz questão de não ser gostado. Ouvintes que não estão acostumados com o estilo não foram a preocupação dos Lips. Até a faixa-isca, a cover de “It Won’t Be Long”, dos Beatles, tem um tom sombrio, quase ameaçador.

Falando em Beatles, vale lembrar que Satan’s graffiti… é produzido por ninguém menos que Sean Lennon. Ele pode ter um nome famoso, mas está longe de ser um nome convencional ou popular no mercado musical. Seus trabalhos musicais (que incluem, além da carreira solo, parcerias com Albert Hammond Jr., the Ghost of a Saber Tooth Tiger e a Plastic Ono Band) têm um característico traço de freaky e vanguardista, mas sem ser excessivamente esnobe. Não foi à toa sua escolha para coordenar os Lips em Satan’s graffiti….

E assim como o melhor do Brasil é o brasileiro, o melhor de Satan’s graffiti… é a brincadeira que ele propõe. Mas afinal, esse disco está mais para um pixo do capiroto ou para uma obra-prima celestial? A resposta é: os dois, mas também nenhum. Explico. O álbum, em suas 18 faixas, entre introdução, três interlúdios e encerramento, parece passar uma imagem de obra conceitual. E seu conteúdo até parece condizer com esse tema ao embaralhar jazz, soul, blues, letras intelectualizadas e um saxofone metido à beat avant-garde. Mas quando se presta atenção, o álbum se mostra completamente despretensioso. Por debaixo da carapaça de jazz metido, o que se ouve é um garage rock bem lo-fi, um punk de pós-modernos. O álbum não é nem um pouco brilhante e as músicas são, em geral, totalmente esquecíveis, mas isso não importa em nada para o que se pretente. De que adianta um interlúdio se ele não faz uma transição entre faixas? Essa é a ironia dos Lips, que certamente estão rindo de quem tenta enxergar um significado profundo. E assim, no melhor estilo dadaísta, é da falta de significado que vem o real significado da obra. Nem no céu, nem no inferno; não há nada mais terreno que Satan’s graffiti or God’s art?.

OUÇA: “Wayne”, “Crystal Night”, “The Last Cul de Sac”.

Splashh – Waiting A Lifetime

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Depois de uma espera relativamente longa, finalmente temos um sucessor para o debut do Splashh. A demora para o segundo álbum mostra certa cautela da banda, o que para o Splashh se traduziu em idas e vindas: troca de baterista, descarte de material e mudanças de direção. De 2013 para cá, tivemos poucas informações sólidas do que seria o novo trabalho dos anglo-australianos, dando motivos para diversas especulações. Frustrando quem esperava algo extremamente inovador e também quem já havia desistido da banda, eis que Waiting A Lifetime se apresenta de forma simples e modesta, como uma ótima continuação do trabalho anterior.

Já na primeira audição, Waiting A Lifetime parece ser uma evolução natural de Comfort (2013). As semelhanças com o álbum anterior são tão facilmente notáveis quando as diferenças. A banda mantém sua essência ao mesmo tempo que experimenta novos rumos. Waiting A Lifetime tem uma atmosfera mais alegre e mais limpa. A produção também é visivelmente mais apurada, reflexo da nova conjuntura da banda: enquanto o disco anterior foi gravado no apartamento do guitarrista, o atual contou com uma gravadora. A aura lo-fi do trabalho anterior dá lugar a sons mais claros e nítidos, o que abriu caminho para experimentações de novas sonoridades sem que houvesse uma overdose de texturas. As canções continuam com a fórmula de vocais abafados intercalados por guitarras marcantes. Porém, cada faixa traz algo de singular, pendendo às vezes para o eletrônico, às vezes para o dream pop, criando canções ora enérgicas, ora melancólicas.

O tempo de espera para o lançamento do disco se refletiu em um visível aprimoramento da banda. Fica claro que o grupo esteve mais preocupado em produzir um material em que realmente acreditasse, do que em realizar um lançamento às pressas. Waiting A Lifetime é uma ótima continuação para o debut do Splashh, abrindo caminho para uma banda que ainda promete muito pela frente.

OUÇA: “Rings”, “Waiting A Lifetime” e “Closer”.

The Black Angels – Death Song

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Com uma psicodelia caótica mergulhada em um mar sombrio, o 5º álbum de estúdio dos texanos do The Black Angels, Death Song, vem como um dos mais complexos e autênticos trabalhos da banda desde seu disco de estreia, Passover, lançado em 2006. Em uma exploração ao passado, a banda reutiliza fórmulas que já funcionaram e lança uma versão mais madura de seu debut.

Conduzido por ritmos extremamente sujos e agressivos, Death Song – como o nome insinua – trata principalmente sobre a morte em suas composições. O novo álbum do The Black Angels traz uma penetrante carga dramática nas canções. Isso pode ser percebido tanto em suas melodias, capazes de traduzir o caos em riffs pesados e vorazes, quanto em suas letras, que abusam do fatalismo e fazem disso sua principal fonte de expressão artística.

O disco é aberto em compasso acelerado com “Currency”, primeiro single lançado, que dita o tom da maior parte das canções. Guitarras excessivamente distorcidas permeiam a parte inicial do trabalho dos norte-americanos, riffs agudos destoam dos graves e criam a atmosfera ideal para a característica voz de Alex Maas, que soa quase fantasmagórica. Após o agito da primeira metade do álbum, o ritmo cai e o peso sufocante de “Estimate” toma parte na audição. A canção marca um dos pontos altos do disco e, com uma melodia suplicante, ela inicia uma virada energética nas faixas. Apesar de manter um pouco da sujeira distorcida das músicas iniciais, a marcha definitivamente fica mais lenta a partir de “Estimate”. “Death March” e “Life Song” encerram o trabalho de forma marcante, criando um eco deixado no silêncio do fim do disco.

Podemos ver Death Song uma continuação espiritual de Passover, 11 anos após seu lançamento. Isso tem seus prós e contras. Por muitos, Passover é considerado o melhor álbum da banda, e Death Song consegue repetir a atmosfera psicodélica e pesada que os consagrou no primeiro disco. Retornar às origens de algo que funcionou geralmente é visto com bons olhos, porém, falha no quesito inovação musical.

As canções do último lançamento do The Black Angels podem ser facilmente confundidas com as do primeiro álbum da banda, desagradando os que anseiam por novidades e a evolução de um grupo. No entanto, a obra não é, de forma alguma, descartável. Mesmo com a repetição da fórmula inicial de suas composições, Death Song definitivamente diverge dos últimos lançamentos dos americanos, então podemos sentir o contraste nessa mudança de estilo – mesmo que para um já explorado –, quebrando um pouco do estigma de “mais do mesmo”.

Pesado, conturbado, caótico e, por vezes, sufocante. Podemos definir assim Death Song, que crava uma bandeira em suas raízes e nos agracia com o que pode ser o melhor disco lançado pelo The Black Angels desde Passover.

OUÇA: “Currency”, “Half Believing” e “Estimate”.