Chromeo – Head Over Heels


Head Over Heels, quinto disco do duo  electro-funk Chromeo, é um álbum pop competente, fazendo um compilado de doze faixas divertidas e dançantes. Infelizmente, a sonoridade atingida não consegue deixar de soar como um híbrido do Daft Punk com algum artista genérico das rádios AM/FM. O resultado pode divertir ou preencher um horário vago, mas é desprovido de qualquer tipo de personalidade, charme ou ousadia.

O disco apresenta um claro apelo radiofônico, e é fácil imaginar que, se gravadas por nomes como Bruno Mars, Adam Levine ou Pharrell Williams, várias das canções poderiam fazer algum sucesso entre o público mainstream. É até interessante ver como algumas faixas, como “Count Me Out”, soam muito semelhantes a outros hits como “Uptown Funk”, de Mark Ronson, ou “Get Lucky”, do Daft Punk. Infelizmente, essa comparação depõe contra o novo trabalho do Chromeo, já que falta ao grupo uma voz carismática ou algo que o faça se destacar. “Head Over Heels” não consegue deixar de soar derivativo.

Apesar disso trata-se de um disco agradável. A mistura da música eletrônica com o groove dos anos 70 e 80 é algo sempre simpático. A dupla de DJs Dave 1 e P-Thugg tem sensibilidade para criar sons dançantes e energéticos, com músicas alegres que duram o tempo certo para não se tornarem repetitivas. Porém, é difícil apontar algo que seja único, algo que outros artistas parecidos já não tenham feito melhor e com mais sucesso. Assim, Head Over Heels funciona como um extenso hyperlink de referências.

Além disso, o fato do conjunto da obra ser tão esquecível é sinal de que, talvez, as canções não funcionem muito bem por si só fora do contexto do disco. Repetindo os mesmos ritmos por quarenta minutos, há muito pouco que diferencie uma faixa da outra. Todas parecem ter a mesma abordagem, com refrãos e melodias iguais. Não há, por exemplo, uma música mais lenta, ou mais agressiva, ou com qualquer característica que as distinga das demais.

Então, Head Over Heels conclui-se como um trabalho apenas correto, que pouco faz para criar uma identidade. Mesmo com composições simpáticas e bem-intencionadas, a interminável sequência de sons disco alegres cansa pela exaustão.

OUÇA: “Count Me Out”, “Juice” e “Don’t Sleep”.

Aláfia – SP Não É Sopa

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A palavra “aláfia” traduz-se em “caminhos abertos”. O verbete é originário do iorubá, língua de matriz africana e indica muito sobre a carreira da banda (ou bando) que leva o mesmo nome. Aláfia – a banda – surge em São Paulo como uma agregação – de ideias, conceitos e, sobretudo, vontade de fazer música de qualidade e marcante – no começo dos anos 2010. O grupo paulista é composto, atualmente, por onze (!) membros e encabeçado por um trio-parada-dura (Jairo, Xênia e Brechó) que dá o tom de voz, de resistência periférica e de protesto afrocentrado para as músicas cheias de referências do grupo.

SP Não É Sopa já é o terceiro registro de estúdio do saudoso bando e vem numa entoada que é revelada logo no título: é uma ode às terras que se estendem da Cidade Tiradentes a Perus e do Jaçanã a Paralheiros e, ao mesmo tempo, um flagrante crítico de como a cidade se porta perante suas dificuldades sociais e estruturais, apoiando-se, sobretudo, na realidade dura e fria de como a cidade como um todo enxerga a periferia, lugar aonde o Aláfia tem suas raízes e busca suas forças para a criação de protestos interessantes.

Esse disco se encaixa muito bem nessa nova geração paulista (ou sitiada por aqui) de minorias políticas que decidiram fazer da música sua forma genuína de protesto. Aláfia se junta muito bem ao panorama de cantar contra o preconceito de uma sociedade que tem sua faceta doentia cada vez mais escancarada e busca ser ponto de referência para o encontro dessas grandes pequenas parcelas da população, marginalizadas no dia-a-dia da capital. O Aláfia, junto com As Bahias e A Cozinha Mineira, Tássia Reis, MC Linn da Quebrada, entre outros e outras, faz poesia crítica sobre as realidades de São Paulo.

Entretanto, esse terceiro disco vê uma perda significativa do contexto sonoro e muito bem orquestrado do Aláfia que vimos de maneira excelentes nos outros discos. Se no primeiro disco ou em Corpura essa era a força motriz para condução de letras quase tão ferinas quanto as vistas nesse registro, aqui a banda dá uma reduzida nas bpm, deixa o funk, o rap e o soul um pouco de lado e se fortalece na MPB, no eletrônico e na palavra cantada para dar a melodia da sua poesia. SP Não É Sopa mostra uma banda mais preocupada com suas letras de cunho político do que o que foi visto nos outros discos, mas que ao mesmo tempo peca ao deixar um pouco de lado a sua sonoridade peculiar, que tinha um tom extremamente interessante e necessário.

Dentro disto, SP Não É Sopa tem todo o contexto político bem alinhado para se fazer ouvir, com letras que atendem os negros, as mulheres, os pobres, os LGBT… mas perde um pouco sua força na maneira como entrega essa mensagem para quem está do outro lado, esquecendo o lado ‘banda’ muitas vezes e perdendo sua identidade nesse sentido mais musical mesmo.

O cunho político-poético onipresente no álbum acaba ficando um pouco perdido nessa mistureira de ritmos e sonoridades, perdendo sua forte conexão com o ouvinte no meio de tanta informação pesada, de difícil digestão e processamento, que passa pelos ouvidos. As músicas que já são longas e ainda são permeadas com tantas fontes de inspiração deixam as mensagens meio perdidas nesse fluxo locutor-ouvinte/interlocutor, deixando tudo meio caótico – se pensarmos na megalópole paulista esse caos talvez seja até proposital…

A desconexão mensagem-melodia cria muitos altos-e-baixos no álbum, deixando-nos com uma quebra rítmica dentro do próprio registro, que aqui é a principal responsável pela perda do preciosismo de toda essa literatura política. São tantas as influências, tanto em harmonia quanto em lirismo, que acaba ficando tudo meio embolado ali na 13 de Maio.

No fim das contas, SP Não É Sopa funciona muito bem nas suas letras, mas se perde na maneira como quer entregar isso. A falta de coesão rítmica no disco embebe-se em demasiadas fontes e isso diminui sua precisão e exatidão na hora de entregar o seu propósito. Acertar as pontas dessa harmonia para focalizar em uma única convenção ao trazer tanta informação seria o caminho mais coerente para o grupo. Fico sossegado porque sei que o deslize é rápido e a podridão cotidiana, infelizmente, continuará aí para o Aláfia fazer muitas mais músicas-cabeça pra gente refletir e se incomodar bastante – afinal, se não coçou, é que a ferida nem aberta foi, né?

OUÇA: “São Paulo Não É Sopa”, “Agogô De 5 Bocas” e “Liga Nas De Cem”

Blood Orange – Freetown Sound

bloodorange

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right now there are a million black girls just waiting to see someone who looks like them

Devonté Hynes talvez seja um dos nomes mais influentes do mundo da música atual. Um produtor e escritor brilhantes, ele já trabalhou com nomes excepcionais da música mundial, como Florence [and The Machine], Solange Knowles e Kylie Minogue. Blood Orange é sua terceira incursão musical, tendo passado por uma banda breve e outro projeto solo e esse é o terceiro disco do rapaz dentro desse nome. Freetown Sound remete à cidade em que seu pai nasceu na Serra Leoa e é um disco que surgiu no momento certo, sem querer e (in)felizmente.

Shem was a black man, in Africa. if you repeat this fact, they can’t laugh at ya

Freetown Sound funciona muito bem de certo modo e até certo ponto. Hynes aproveita o seu apelo musical crescente – como produtor de uma infinidade de artistas consagrados – para fazer um álbum político e necessário. E nisso ele acerta em cheio e de uma maneira curiosa: incursões e falas empoderadas em meio de suas músicas. São versos sobre, principalmente, feminismo, homofobia e racismo.

I’m sure she’d have to go to bed with him anyway to give him what he wans for her to get what she wants

Tendo crescido numa cidade multicultural [Londres] que não está livre do racismo diário que a comunidade enfrenta, Hynes com certeza tem a mesma propriedade que Kendrick Lamar, Beyoncé ou qualquer outro expoente negro atual para falar sobre essa insurgência homofóbica e racista que devasta o mundo. E é com essa propriedade que Hynes faz letras chocantes e intrigantes como nunca antes tinha feito. É por isso que o disco funciona muito bem até certo ponto: ele acerta muito bem em suas letras-protesto e seus devaneios políticos que acaba deixando de lado uma parte importante que sempre foi bem cuidada em seus outros discos: a musicalidade.

Dentro dessa musicalidade é interessante observar dois pontos essenciais para entender até onde o álbum é bom.

a) A voz marcante de Hynes fica apagada em boa parte das músicas. E isso é um erro imperdoável para isso tudo que ele quer fazer aqui. Se Devonté queria dar voz para seus versos de protesto, tinha que aproveitar melhor esse poder inegável que suas cordas vocais têm (isso pode ser visto claramente em músicas do Coastal Grooves, seu primeiro álbum como Blood Orange, ou em Falling Off The Lavender Bridge, o debut do seu outro projeto Lightspeed Champion) e inflamar melhor suas atitudes que demonstram claramente o cansaço com todo esse levante da direita. Talvez isso tudo aconteça porque Hynes conta com participações ilustres em suas músicas (como Samantha Urbani fez em algumas do Cupid Deluxe) e acabe deixando seu protagonismo meio de lado (como também o fez no álbum anterior).

b) As batidas, com uma inspiração clara de Michael Jackson e expoentes clássicos da música negra antiga, funciona de forma sensual e, por alguns momentos, cativante. Mas não casa muito bem aqui. Hynes fez um álbum inflamado com uma pegada musical calma e sensual. O que deveria funcionar como algo que junte essas duas coisas que nãos e misturam de jeito nenhum numa emulsão perfeita é bem instável e não funciona bem.

don’t shoot!

No fim, Freetown Sound é um disco respeitoso para as minorias por aí, um disco com excelentes letras e pensamentos de protesto e uma boa homenagem ao pai de Devonté, mas falha homericamente ao tentar juntar boa música nesse processo musical todo. A variedade instrumental parece deixar o disco bem perdido no espaço-tempo e serve apenas para Hynes resgatar influências negras que, até então, não tinha utilizado em seus projetos. Parece ter sido um crescimento enquanto artista, enquanto escritor, mas um retrocesso e confusão na sua capacidade de casar isso tudo de maneira bem amarrada. Freetown Sound tira o brilho do que há de melhor no Blood Orange: ele mesmo.

yeah, man, c’mon, all the nonsense got to cease

OUÇA: “Best To You”, “Juicy 1-4” e “Better Than Me”

Red Hot Chili Peppers – The Getaway

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Com mais de trinta anos de carreira, o Red Hot Chili Peppers é lembrado como uma das bandas mais influentes do mundo. Com uma bagagem musical composta por álbuns como Blood Sugar Sex Magik (1991), Californication (1999) e Stadium Arcadium (2006), a banda continua na ativa mesmo após perdas como a saída do guitarrista John Frusciante em 2009 e a não-colaboração do produtor Rick Rubin em seu mais recente álbum de inéditas, The Getaway.

Lançado no início de junho, The Getaway é o décimo primeiro álbum da banda californiana e chega ao público como mais um desafio em forma de renascimento para a continuação do trabalho dos Chili Peppers Anthony Kiedis, Flea, Chad Smith e Josh Klinghoffer.

Simbolicamente esperado como mais um retrato de rompimento da banda, o álbum carrega o sentimento de reconstrução que o grupo está trilhando nesses últimos anos, desde a saída de Frusciante e agora a de Rubin – produtor do grupo desde o álbum Mothers’ Milk (1989). A percepção da proposta se destaca não apenas pela tendência musical, com as atribuições do novo produtor Danger Mouse – produtor de bandas como Radiohead, Gorillaz e Black Keys – como também pelo visual proposto ao novo disco.

Com treze canções, os quatro integrantes trazem sua clássica fórmula repleta de funk, entre baladas orgânicas, pitadas de hard rock e letras sobre relacionamentos, sentimento de liberdade e autorreflexões. O álbum é constante, majoritariamente pop – fácil de escutar – e essa percepção é imposta já em suas faixas iniciais como a faixa-título, “The Getaway” e “Dark Necessities” – propensos hits desse novo material.

Com uma proposta leve, os Chili Peppers entregam um trabalho que flerta com a essência presente nos anteriores álbuns de sucesso. Um tanto óbvio, mas que agrada, como sempre agradou. Afinal sua base está ali. Rubin ajudou a trazer os hits perdidos há uns anos, que por vezes podem ser associados como uma espécie de material antigo reaproveitado por tamanha familiaridade com o que fez o grupo ser o que é hoje.

Em sua abertura é destacada a frase ‘We will do our thing tonight, alright. Take me through the future. It’s time, you’re fine.’ O que traz uma impressão otimista de uma reabertura para o futuro que o grupo deseja seguir, uma tentativa de revitalização da fórmula construída durante três décadas. E acaba sendo também, uma afirmação de desejo à longa vida do grupo; a mais uma história do grupo.

Com uma sonoridade mais aceitável comercialmente que o seu álbum anterior, I’m With You (2011). The Getaway também expressa os desejos de novos incrementos em sua história na segunda faixa do disco, “Dark Necessities”. Em seu refrão são cantados os versos ‘Yeah, you don’t know my mind. You don’t know my kind. Dark necessities are part of my design.’ O que contribui para a uma reafirmação sobre a capacidade do grupo, e/ou retomada de espaço que já possuiu. Com um tom de desafio para reencontrar o equilíbrio aparentemente perdido com o hiato de 2009 e a saída de antigos colaboradores.

As seguidas faixas mantêm o ritmo com canções leves, com a base conhecida da banda, porém mais suingadas. “Goodbye Angels”, uma das faixas mais nostálgicas, nos presenteiam em um trecho com um solo de Flea. “Go Robot” mistura o clássico funk do grupo com elementos que brincam ao final com o indie. Em “Detroit” e “This Ticonderoga” o rock da banda está mais presente. Já em “Encore” e “The Hunter”, o grupo optou por expor ainda mais suas autorreflexões. Com os versos ‘Woke up this morning like I always do. I still like to think that I’m new. Time just gets its way’, transparecem ainda mais o desejo em permanecerem com vigor e relevância.

Se a intenção da banda era retomar seu posto e ser presença garantida nas rádios, ela foi bem-sucedida. Suas novas músicas agradam facilmente, remetem ao que sempre fizeram. Porém, o caminho fácil seria o melhor para manter o frescor que tanto os Chili Peppers anseiam? A grosso modo, seu novo disco contém canções semelhante à outros tempos.

A ideia de se manter relevante sem perder a essência que agradou a tantos admiradores não deixa de ser um desafio; mais um desafio nesse caso. De qualquer forma, The Getaway é um bom disco, entrega músicas agradáveis, sem surpresas, como uma grande reciclagem. Seria uma tentativa de recomeço a se considerar e como o próprio Anthony Kiedis canta em “Encore”: ‘Carry on and write a song that says it all and shows it off ‘fore you die’. Sendo assim, acredito que o caminho escolhido seja o mais confortável para que o grupo continue a atingir a proporção que sempre desejaram.

OUÇA: “The Getaway”, “Dark Necessities”, “Go Robot” e “Encore”

Mark Ronson – Uptown Special

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Pra início de conversa, eu sempre achei estranho considerar o Mark Ronson como uma entidade artistíca, dar o seu nome à um coletivo de colaborações sempre foi meio egocêntrico da parte do PRODUTOR Mark Ronson. Porque, desculpe-me, mas ele não passa nem perto de ser um artista por mais excelente que os discos que levam sua figurinha na capa possam ser. Ele é a alma crua por trás de tudo, mas peca e deixa para os outros fazer uma das partes essenciais do que ele quer mostrar: as letras criadas por ele e as batidas são carregadas pela identidade [a voz] de grandes nomes da música, ou seja, toda a carreira de Mark Ronson são sob os olhos de outros pessoas. E foi assim desde o começo e foi estranho desde o começo. Quem é a figura tímida de Mark Ronson e porque a polaridade da sua figura artística sempre mira para lados totalmente diferentes e destoantes nos seus quatro lançamentos até agora? Esfacelar o espetáculo Mark Ronson da pessoa Mark Ronson é algo fácil, mas destrinchar e, mais importante ainda, entender o espetáculo em quatro atos (até agora, que fique claro) diferentes entre si não é algo tão simples assim.

O espetáculo musical do Mark Ronson – esqueçamos que ele já produziu discos excelentes e aqui foquemos que ele se considera, sim, um artista – chega ao seu quarto ato. Para entender as terminologias: considero a carreira de Mark Ronson como um espetáculo pelo nítido fato de ele tentar produzir álbuns conceito dentro de um tema (cada um sendo um ato diferente) – Here Comes The Fuzz com seu rap exacerbado, Version com os covers de grandes hits do indie moderno, Record Collection como uma remessa de faixas que vieram dos anos 80 e, agora, Uptown Special com sua vibe Motown e soul, com foco à vozes poderosas de Bruno Mars, Stevie Wonder, Mystikal, entre outros.

A genialidade de Mark Ronson em sua carreira – mesmo que eu ainda não o considere o protagonista da causa – é nítida: ele distorce metais, assimila guitarras e cria letras grudentas e honestas que caem como uma luva, na grande maioria das vezes, para os intérpretes que ele escolhe a dedo. Mark Ronson vai atrás das combinações áureas como ninguém, caçando suas múltiplas identidades em diferentes lugares, foi assim que ele fez em todos os outros álbuns e não fica diferente em Uptown Special, mas, mesmo que seja um crime comparar que tem propósitos totalmente diferentes um do outro, é inevitável quando se fala de músicas e, infelizmente, Uptown Special chega depois do melhor disco do Ronson e não surpreende quase em nenhum momento.

A vibe soul, cheia de riqueza e sensualidade que era pra ser o carro-chefe do álbum desde o começo e toda a identidade criada parece se perder em algum momento ali – muito talvez quando ele decide chamar o Kevin Parker [Tame Impala] e o Andrew Wyatt [Miike Snow] para colaborar num álbum que tem claramente uma alma que não é a cara deles. Para citar um breve exemplo, já que estamos considerando um álbum conceito, mesmo que “Daffodils” seja uma das melhores músicas desse álbum, ela fica ali deslocada, num abismo etéreo e desnecessário para o andamento do álbum, parece uma quebra no impacto alegre que as músicas anteriores tinham criado – que emenda em uma salada musical infindável que desvia do propósito do álbum de uma maneira estupeficante. O que aconteceu com o soul, o jazz, o funk e o blues, Mark Ronson?

Mesmo que as guitarras, as baterias e os metais combinem com os synths em sua maioria, o Mark Ronson se perde muito feio em seu propósito inicial. Sabe quando você tá fazendo alguma coisa muito interessante e no procrastinar da vida se perde em miúdos desconexos e totalmente diferentes? Uptown Special soa como uma colagem mal feita de músicas que podem até soar interessantes quando vistas separadas, mas quando colocadas sob um tema universal, estão em dois pólos totalmente diferentes. Ronson tem ao mesmo tempo as melhores músicas da sua carreira e o álbum mais desconexo e desinteressante dela. Uma pena que o quebra-cabeça não tenha sido montado direito com as peças excelentes que ele tinha em mãos.

OUÇA: “Uptown Funk” e “I Can’t Lose”

Flight Facilities – Down To Earth

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Down To Earth é o disco de house mais pop do ano. O duo Flight Facilities não ousa, mas traz boas parcerias e a intenção de fazer parte do set das baladinhas ao redor do mundo. Os ouvidos sedentos por novidade podem passar longe desse disco, mas os que, porventura, quiserem dar uma chance aos australianos sintam-se a vontade também.

Ao longo das catorze faixas do disco são inseridas algumas narrações, em tom preventivo assim como é feito pelos pilotos de avião aos seus passageiros, criando uma atmosfera que acrescenta ao todo. Entretanto, ao ser pouco explorada, torna-se um trunfo perdido. Dessa forma, fica à cargo das participações darem o tom ao disco, em “Sunshine” temos um flerte com o soul e em “Crave You” um quase-disco enjoativo. Nesse cenário, o Down To Earth é totalmente disperso, sem coesão ao desencadear as canções e ao final temos um debut que funciona como vitrine: oferece os serviços da dupla para eventuais cantores procurando por beats.

Diante de um disco de parcerias, tratemos então da melhor delas. Bishop Nehru, do auge dos seus dezoito anos, versa seu rap de forma romântica em uma base de hip-hop instrumental bastante consistente e de viés relaxante. Assim como Flight Facilities trama sua rede de contatos musicais, Nehru é associado aos grandes nomes do rap norte americano atual, o que nos põe diante do caráter colaborativo do momento vivido por nós. As uniões às vezes não são pensadas apenas de forma unilateral, onde um artista já consolidado faz uma participação na música de um iniciante para ajudá-lo a ter notoriedade. Essas tramas podem se mostrar mais complexas, amizade, admiração e até algo como “toque guitarra no meu disco que eu faço uma letra pra você” são fatores que permeiam as trocas na música. Até os sites de streaming nos sugerem artistas parecidos com aqueles que ouvimos no momento, mostrando mais uma vez que o artista não se faz sozinho uma vez que está inserido numa teia de relações.

No caso do Down To Earth, talvez tenha faltado um fio identitário da própria dupla, que percorresse o disco a fim dele não se perder diante das diversas participações especiais. Contudo, é possível notar algum talento e outros possíveis trabalhos interessantes podem emergir deles no futuro, quem sabe.

OUÇA: “Two Bodies”, “Walking Bliss” e “Why Do You Feel?”

Sharon Jones and The Dap Kings – Give The People What They Want

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Impossível ouvir o Give The People What They Want pela primeira vez e não se lembrar de Amy Winehouse. Os Dap Kings foram responsáveis por grande parte dos arranjos do já icônico Back To Black e a conexão entre os dois discos é inegável, tanto pelas composições criadas pela banda quanto pela voz e interpretação de Sharon Jones. No entanto, torna-se impossível também não reconhecer os méritos de Sharon & Co.

Engana-se quem pensa que a vocalista é uma imitadora. Ela é dona de uma voz poderosa com mais groove e soul do que toda a discografia de uma Joss Stone ou uma Solange Knowles da vida. Sharon, que por vezes também lembra Brittany Howard do Alabama Shakes (ou seria o contrário?), já tem seis discos no currículo apenas com os Dap Kings e muitos anos de estrada. Toda essa experiência transborda em cada música em forma de sentimento e alma nesse novo lançamento. E no fim das contas, não é sobre isso de que se trata a soul music?

Ouvir o disco é como voltar ao passado. E não estou me referindo a 2006. As melhores influências da Motown se fazem bastante nítidas. Momentos como em “You’ll Be Lonely” ou “People Don’t Get What They Deserve” poderiam estar nas melhores coletâneas da gravadora de Detroit. Sharon Jones and The Dap Kings provaram ser capazes de dominar a difícil tarefa de mirar no passado e se fazerem soar modernos como poucas bandas e artistas conseguem fazer hoje.

Com arranjos mais poderosos do que os de Back To Black, talvez pela falta da mão pesada do produtor Mark Ronson, a banda e Sharon conseguem dar brilho e vida própria a um excelente álbum. Exatamente por causa desse som mais cru é possível se conectar de imediato e a vontade de deixar o disco num repeat constante por horas é incontrolável. E depois de algumas audições, torna-se impossível ouvi-lo e não se lembrar de… Sharon Jones and The Dap Kings!

PS: Não se preocupe, Amy, o seu lugar já está garantido!

OUÇA: “Stranger To My Happiness”, “You’ll Be Lonely”, “We Get Along” e “Long Time, Wrong Time”

Mayer Hawthorne – Where Does This Door Go

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O multi-instrumentista e DJ Mayer Hawthorne retornou após dois anos com um álbum mais pop do que nunca, embora ainda íntimo do soul – influência sempre bem presente em todo o seu trabalho. Em Where Does This Door Go, seu terceiro trabalho, a aposta foi em parcerias – as quais se mostraram bem-sucedidas – fazendo-o abandonar o estereótipo indie carregado até então e entrar definitivamente para o hall de artistas pop americanos, podendo ser comparado a Justin Timberlake e Bruno Mars.

Definido por Mayer como uma jornada ao desconhecido – embora não se perceba uma mudança brusca em seu estilo -, e contando com a ajuda de diversos produtores como o rapper Pharrel Williams, também Jack Splash, Greg Wells, Kid Harpoon, Warren “Oak” Felde e Da Internz – inovando nesse quesito – uma vez que os outros dois discos foram produzidos pelo próprio Hawthorne, Where Does This Door Go lembra muito os anos 80 e a música negra americana, elemento bastante explorado ultimamente por diversos artistas pop.

A bela voz de Hawthorne se destaca em todas as faixas, e seu carisma é elemento presente no disco com composições criativas e letras bem elaboradas em faixas leves como “Back Seat Lover”, a qual mostra claramente que a influência do soul não se perdeu nessa transição para o pop.

Percebe-se uma muito bem planejada diversidade de estilos, tendo como exemplo claro a faixa “The Only One”, que mistura coral de vozes – tal qual em diversas outras faixas -, sets de metais e elementos do hip-hop com um muito bem tocado piano. Estes diversos instrumentos ficam muito bem encaixados com o belo trabalho das guitarras que tem uma pegada levemente puxada para o blues. Somente um mestre no que faz poderia misturar tanto num disco e não deixa-lo confuso e Hawthorne o fez muito bem.

Where Does This Door Go sem dúvida é um dos melhores discos de 2013 porque mostra a grande evolução de Mayer Hawthorne, trazendo o melhor de muitos mundos para um só trabalho e definindo-o como um grande nome no cenário musical pop mundial e, ainda assim, sem fugir das influências de seus dois outros trabalhos. É raro encontrar um artista que pode se redefinir com tanta facilidade e fazê-lo bem. Pode-se esperar de Mayer cada vez mais projetos inovadores e ecléticos em todos os meios que esse grande artista usa para expressar sua bela arte.

OUÇA: “Her Favorite Song”, “Allie Jones” e “Where Does This Door Go”