Benjamin Francis Leftwich – Gratitude



A aproximação do eletrônico com o folk sempre rende resultados encantadores. Gratitude de Benjamin Francis Leftwich é um exemplo perfeito dessa dinâmica e um álbum profundo em conteúdo, ao mesmo tempo.

Leftwich é um inglês que, com o novo álbum, conta com três discos na carreira. O primeiro, Last Smoke Before The Snowstorm é de 2011. O segundo veio em 2016, o After The Rain. Ele também tem três extended plays (EPs) na discografia: A Million Miles Out, Pictures e In The Open.

O lançamento mais recente traz a voz distintiva do cantor e compositor entoando 12 músicas inéditas que são reflexos de uma jornada pessoal. De forma geral este é um disco que acrescenta novos elementos ao trabalho de Leftwich ao mesmo tempo em que é uma evolução natural de sua música. É perfeito para quem gosta de ouvir Father John Misty, James Vincent McMorrow, Sufjan Stevens, Ben Howard ou Roo Panes – estes três últimos em especial.

As composições são reflexos de momentos tempestuosos que o artista viveu durante os três antes que antecederam o lançamento do novo registro e a divulgação do, até então, último trabalho. Gratitude vem de sua recuperação de problemas com álcool e aborda temas como introspecção e conforto.

É um álbum mais maduro e mais sério, certamente mais emocional, também, do que os registros antecessores. A musicalidade de sua voz, no entanto, é mantida e não há nenhum distanciamento daquilo que Leftwich já foi musicalmente falando – mesmo que existam rupturas entre o seu eu de hoje e o de antes.

Gratitude é um álbum contemplativo. Toda discografia de Benjamin Francis Leftwich o é. Este álbum, em particular, merece atenção pelo fato de ser pessoal e narrar de uma maneira muito bonita a forma como um homem pode se relacionar com suas próprias questões.

OUÇA: “Look Ma!”, “Tell Me You Started To Pray” e “Blue Dress”

Hand Habits — placeholder

placeholder é o nome do segundo disco do Hand Habits, projeto de Meg Duffy. O sucessor de Wildly Idle (Humble Before The Void) (2017) é muito bem resumido por sua capa: intimista, pessoal e pálido.

Gravado no April Base — estúdio do Justin Vernon —, placeholder pega o que já foi antes apresentado por Duffy e eleva. As 12 faixas do cd cantam a respeito de relacionamentos e prestação de contas, na maior vibe dor de cotovelo (mesmo!). “Oh, but I was just a placeholder / A place and nothing more / Oh, I was just a placeholder / With nothing to stand for”, diz Meg em um dos refrões da faixa de abertura, um perfeito exemplo do desalento intrínseco na obra.

A instrumentalização de placeholder se arquiteta na base do gênero folk: violão ora dedilhado, ora varrido, guitarras bases e quase nuas (salvo os reverbs), baterias em padrões simples e sem pancadaria. Tudo fabricado para que a voz, e a emoção desta, sustente boa parte da melodia. O charme do álbum, nesse quesito, fica por conta do lap steel usado em muitas das faixas, que além de agravar a melancolia, acrescenta um vestígio de sonho as canções, como em “jessica” — faixa que fala sobre coração partido e suas ilusões. No meio do cd existe “heat”: faixa estranha — e imagino que feita pra se estranhar mesmo hehe — totalmente desconexa do restante do conceito de placeholder e funciona como uma quebra curiosa e eletrônica. Na segunda metade o álbum dá uma animadinha (não se emocione muito, é uma animadinha pequena!). Ou talvez só fique menos intensa a sensação de abismo inerente. São acrescentados alguns pianos, mais lap steels (ouvir “guardrail/pwrline” para entender) e, na última canção — “the book on how to change part II” —, um belíssimo saxofone, meio parecido com “For Emma” (For Emma, Forever Ago – 2008), do Bon Iver.

O novo trabalho de Duffy (que se identifica como agênero), como dito, é bastante pautado em sua intimidade e sua atuação no mundo. Anteriormente, em seu álbum de estreia, Meg mantinha o processo da gravação no estilo DIY. Após participar da banda do Kevin Morby e sair em turnê com o artista norte-americano, Duffy parece ter aprendido a gostar de trabalhar em conjunto. E é por isso que, em termos de produção e pós-produção, placeholder se torna superior a Humble Before the Void.

Por fim, o atual projeto se mostra muito maduro. Mesmo sendo um álbum demasiadamente tonal. Pra quem tá na fossa é uma boa opção.

OUÇA: “placeholder”, “yr heart”, “guardrail/pwrline” e “the book on how to change part II”

Ten Fé — Future Perfect, Present Tense



A banda inglesa Ten Fé lançou seu segundo disco intitulado Future Perfect, Present Tense. Apenas dois anos após Hit The Light, os cabeludos miraram em um som bastante ensolarado desta vez. Deixaram um pouco de lado os sintetizadores e abriram o coração pros violões

Ben Moorhouse, Leo Duncan e cia se alicerçaram num soft-rock produzido nos anos 1980 e também na cena musical dos anos 1970 — não o segmento da “disco era” rs. A exemplo, temos as faixas “Echo Park”, que facilmente tocaria nos programas de rádio da madrugada no Brasil devido aos instrumentos de corda adicionados, tornando-a bastante romântica; e “Coasting” faixa pra cima, bastante californian vibes. O álbum ainda traz referências do que se tornou o Britpop: Oasis, Supergrass, Radiohead (nos primeiros trabalhos) e até a irlandesa U2, são exemplos. A faixa de abertura, que também é o primeiro single divulgado — “Won’t Happen” — tem um violão que lembra “Wonderwall” (Oasis), só que um pouco mais animado.

Falando ainda em correspondências, difícil desassociar o timbre de voz do vocalista Ben Moorhouse da voz do Matt Berninger (The National). Principalmente nas faixas “To Lie Here Is Enough” e “Isn’t Ever a Day”. O grave, combinado com o vibrato na voz de Moorhouse harmoniza muito bem nas letras sobre términos e dificuldades nos relacionamentos, arrastando tudo para uma atmosfera melancólica, porém serena.

Como segundo álbum, Future Perfect, Present Tense está meio longe de ser perfeito. De fato, se Hit The Light (2017) fosse o trabalho posterior FPPT seria uma evolução. No entanto, a banda perdeu algumas camadas que faziam o seu som um pouco mais  interessante: os sintetizadores, os falsetes, o sex appeal. Ainda sim, vale ser ouvido e apreciado devido aos seus highlights.

OUÇA: “Echo Park”, “Coasting”, “No Light Lasts forever” e “Caught On The Inside”

Hozier – Wasteland, Baby!



É injusto limitar um artista ao seu maior sucesso, mas dificilmente dá pra descrever o novo trabalho de Hozier sem resgatar os elementos que tornaram “Take Me To Church” um sucesso mundial. Quase meia década após o debut, o irlandês retorna com seu segundo álbum, Wasteland, Baby!, carregando um compilado de partes que parecem recicladas do primeiro disco.

Hozier começa o novo álbum com “Nina Cried Power”, contando com a participação da cantora Mavis Staples. A faixa foi lançada em 2018, em formato de EP, e traz na letra nomes que se tornaram lendas da música e do ativismo como Nina Simone, John Lennon, James Brown e Billie Holiday. O tom apocalíptico do gospel/soul acompanhado de uma mensagem de esperança em pleno fim do mundo é o que guia o Wasteland, Baby! durante seus 57 minutos de duração.

O coral, o som do órgão com elementos do blues misturado com folk se juntam a voz poderosa de Hozier, lembrando a fórmula de Take Me to Church e sentida em diversos momentos. Apesar da preocupação em encontrar um sucessor à altura, o acerto de Hozier foi não deixar essa fórmula saturada. Wasteland, Baby! (e toda sua carreira) não são apenas isso.

O diferencial fica por conta das faixas “No Plan” e “Be”, que destacam a guitarra e aceleram o ritmo do disco. O álbum termina com a música que o batizou e também resume toda sua história. A imagem que Wasteland, Baby! – tanto o disco quanto a faixa – traz é de um passeio pelo fim do mundo, mas um passeio que deve ser feito a dois. Tudo isso é finalizado com um sucinto e sacana “That’s it”.

Wasteland, Baby! é um tanto mais do mesmo, porém isso não significa que o mesmo deve ser desmerecido. Hozier não hesita em tentar repetir o fenômeno anterior, afinal todo seu sucesso se deve a inovação de levar o folk e o soul para um púlpito. Talvez o novo disco não tenha um hit para as rádios, mas com certeza tem toda a essência de seu criador.

OUÇA: “Nina Cried Power”, “No Plan” e “Wasteland, Baby!”

Sun Kil Moon – I Also Want To Die In New Orleans



Num universo paralelo, Mark Kozelek ganharia a vida como narrador de audiobooks.

Essa é a primeira constatação que o novo disco de Sun Kil Moon, nome com o qual Kozelek assina seu projeto solo, desperta ao fim – ou até mesmo durante – a sua primeira audição. Intitulado I Also Want To Die In New Orleans (e daqui em diante referido no texto como IAWTDINO) é o décimo trabalho de estúdio solo do ex-vocalista do Red House Painters e compreende uma hora e meia de músicas divididas em sete diferentes faixas do estilo minimalista e ao mesmo tempo verborrágico de Kozelek.

Quem é familiar com o trabalho de Sun Kil Moon sabe o que vai encontrar no corpo desse disco: canções longas, arranjos simples e muitas vezes despojados que servem mais como uma plataforma sobre a qual Kozelek expõe suas narrativas complexas e prolixas que giram ao redor de qualquer tema, desde o mais recente tiroteio em uma escola nos Estados Unidos (que agora, infelizmente, soa próximo demais) até a interação com os vizinhos e a chegada de um novo membro da vizinhança do vocalista. Não há nada muito inovador nas músicas de Sun Kil Moon, nem é trabalho delas que haja.

O problema é que esse estilo pode ser extremamente volátil em termos de resultados, e é isso que acontece em IAWTDINO. Enquanto a maioria das músicas não é objetivamente ruim, a verborragia de Kozelek em histórias que oferecem pouco e termos de payoff, reviravoltas, punchlines ou algum tipo de conclusão torna a experiência de ouvir a maior parte delas repetitiva e pouco satisfatória. As narrativas de Kozelek falham mesmo em alcançar um resultado como anticlimax, uma vez que para isso é preciso que o andamento da história gere uma expectativa que não vai ser alcançadas no final. Essa não parece ser sequer a preocupação do artista, que soa satisfeito em contar as histórias sobre um arranjo musical como se estivesse narrando as páginas do próprio diário.

Apesar disso, o disco tem bons momentos. “Day In America” é uma música de forte comentário político sobre a política de armas nos Estados Unidos bem pontuada pelo arranjo mais grave e a presença de saxofones, que dão à música o tom de uma poesia noir. As mudanças de andamento no primeiro tom da música também contribuem para não deixar o ouvinte muito confortável e oferecer alguma imprevisibilidade. “Cows” é outra música em que Kozelek passa por reflexões sobre deixar de comer carne, viagens por estradas vincinais e felicidade na Terra conduzido pelo arranjo mais grave do disco acompanhado de um saxofone que faz lembrar cool jazz antes de uma quebra em que o saxofone toma a frente da música de forma tão abrupta que parece até acidente e é o melhor momento do disco.

Infelizmente os momentos de mais cor e vibração do disco são poucos em uma paisagem que é majoritariamente desprovida de cor, de uma maneira que parece ser até intencional para Sun Kil Moon. Também pesa contra o disco que este é o segundo projeto de uma hora e meia lançado por Kozelek em dois anos, o que faz surgir a pergunta: você realmente precisa de dois discos de histórias sem payoff com noventa minutos cada?

Só não pergunte a Kozelek, porque a resposta pode ser longa.

OUÇA: “Day In America” e “Cows”


Beirut – Gallipoli


Com o perdão pela piada jocosa, Beirut é como bacon ou sorvete: não tem como não gostar. Mesmo quando a banda lança um álbum teoricamente mais do mesmo, cujo objetivo parece apenas o de esgotar a fórmula indie-folk bastante melódico + elementos eslavos + vocalista fofinho com vocal lindo – que engendrou álbuns como Gulag Orkestar (2006), The Rip Tide (2011) e No No No (2015).

A banda americana não decepciona. Gallipoli é um punhado de canções luminosas, transparentes, repletas de modulações oscilantes e turnings atmosféricos, como é o caso de “Varieties On Exile”, mas sem perder a genética pop. “When I Die”, a belíssima primeira faixa, traz o vocal religioso e embargado de Zach Condon como uma das ferramentas-chave no teor emocional dessa abertura. Os arranjos de metais operam como bolsas marsupiais que envolvem as canções em um lugar aquecido, materno, poético. “Family curse” tem uma bateria eletrônica marcada com fraseados de metais evoluindo em um crescendo incandescente de elementos que substancializam a faixa.

Não há nenhuma música ruim no álbum, apenas depois de “Landslide” o trabalho dá uma desacelerada, porém isso não compromete a fatura sonora final. A cinematográfica (e linda) “Light in the atoll”, com seu compasso lento e meio quebrado é a antecipação de “Fin”, a faixa mais experimental de Gallipoli, cuja introdução repleta de texturas transporta o ouvinte para uma bateria marcada e cercada de uma parede de teclados exatos, bem cortados.

Gallipoli é um álbum vespertino, como um dente-de-leão flutuando pelos campos aquecidos de fim de tarde. Beirut poderia ser trilha de Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino. Não à toa, essa atmosfera mediterrânea permeia o álbum, e inspira o título, nome da cidade italiana em que o álbum foi gestado. É singelo e sensível, como tudo o que a banda produz.

OUÇA: “When I Die”, “Gallipoli”, “Varieties Of Exile”, “Gauze Für Zah” e “Family Curse”.

Better Oblivion Community Center – Better Oblivion Community Center


Better Oblivion Community Center é uma dupla de folk rock formada por ninguém menos do que Phoebe Bridgers e Conor Oberst. Ele, queridinho do indie com seu Bright Eyes e inúmeros trabalhos solo, um dos mais interessantes e prolíficos compositores de sua geração. Ela, um dos melhores nomes do so-called ‘indie folk rock’ atual, lançou seu ótimo debut Stranger In The Alps em 2017 e ano passado foi responsável, ao lado de Lucy Dacus e Julien Baker, pelo melhor EP de 2018: boygenius. Uma combinação que não tinha como dar errado, e realmente não deu.

Better Oblivion Community Center também é o nome do primeiro (talvez único?) álbum da dupla, uma das melhores surpesas desse ano de 2019 que mal começou. O disco foi gravado e produzido completamente em segredo ano passado, e é bem de leve um concept album sobre o fictício Better Oblivion Community Center, uma espécie de spa distópico. Não há exatamente uma grande narrativa que engloba todas as músicas, por isso dá até pra se ignorar essa pequena premissa e simplesmente apreciar o álbum.

O som apresentado pela dupla é um folk rock bastante básico, na verdade, sem grandes experimentações ou novidades para o gênero, mas é extremamente bem feito e produzido. Suas vozes combinam perfeitamente, algo que já sabíamos com “Would You Rather”, de Stranger In The Alps, cujos vocais de apoio de Oberst já previam tal colaboração. E agora aqui dividem completamente o holofote, já que nenhum se sobressai mais do que o outro.

Ambos cantam em suas carreiras sobre sentimentos de alienação, depressão, melancolia e solidão de forma leve, empatética e sincera, honesta. Essa honestidade é o que dá o tom predominante de Better Oblivion Community Center, cantando sobre personagens que na maioria do tempo são levados a um extremo ou outro, de forma sutil e calma. ‘All this freedom just freaks me out‘, canta Oberst em “My City”, continuando o tema de ‘nem-sempre-as-coisas-boas-são-realmente-tão-boas-assim’ que ele já fazia com o Bright Eyes desde sempre. O mais impressionante é que Bridgers não parece ofuscada, ela sempre responde à altura e completa as ideias de Oberst com uma confiança que nem sempre é comum a artistas que literalmente estão apenas começando.

Bridgers eleva Oberst da mesma forma como ele a ajuda a sair de sua zona de conforto e escrever canções-narrativa. Better Oblivion Community Center é um casamento com divisão total de bens; dois grandes artistas empurrando um ao outro a coisas novas ao mesmo tempo em que um sempre está lá para apoiar o outro. Apesar do tom calmo e confiante, a dinâmica entre os dois é de tirar o fôlego. Sem contar que Better Oblivion é o melhor trabalho de Oberst desde, talvez, The People’s Key em 2011. E Bridgers, apesar de seu pouco tempo de carreira, já sabe muito bem quem é como artista e que tem um longo e ótimo futuro pela frente.

OUÇA: “Dylan Thomas”, “Exception To The Rule”, “Sleepwakin’” e “My City”.

Mumford & Sons – Delta


A banda britânica que passou por uma verdadeira montanha-russa ao longo dos seus primeiros três álbuns, neste momento apresenta um trabalho que busca uma reconciliação com seu passado. Delta surge como uma tentativa de reinvenção, misturando elementos clássicos da banda com batidas eletrônicas e novos ingredientes. O que poderia ser um movimento interessante, na prática se tornou um grande desastre. 

O Mumford & Sons é daquelas bandas que surgiu gigante. O debut lá em 2009 levou a banda, não apenas a ser headliner dos maiores festivais do mundo, mas também a abrir as portas para o indie folk, alçando várias bandas do estilo de lá para cá. Nos seus dois primeiros álbuns, Sigh No More (2009) e Babel (2012), a banda conseguiu este feito de mostrar que é possível criar canções cativantes e acessíveis dentre de um gênero pouco explorado no mainstream de então. Porém, o grande sucesso também mostrou pontos fracos da banda que no último trabalho, Wilder Mind (2015), apresentou um álbum fraquíssimo, apostando em hits grudentos e pouco interessantes. Delta surge justamente neste contexto de cobrança de um material mais denso da banda. O álbum até aponta para uma tentativa de resgate da essência do Mumford & Sons e tenta readapta-la a 2018. É uma intenção louvável, porém o resultado é desastroso.

A banda afundou o pé nos efeitos eletrônicos sem muitos critérios. O conjunto parece uma coleção de experimentações e tentativas não refinadas. Ao mesmo tempo que o álbum se mostra ambicioso na proposta, ele se apresenta de forma pouco elaborada. Os elementos trazidos são tão diversos e aleatórios que fica difícil sustentar uma unidade para o álbum. Ora vemos elementos de jazz, ora batidas eletrônicas estilo Alt-J, ora um retorno a arranjos puxados para o folk. Tudo compondo melodias que abusam de variações de ritmo para causar dramaticidade de forma forçada e repetitiva. Aparentemente todas as idéias novas que a banda teve foram usadas ao mesmo tempo, sem uma proposta amarrada para o disco. Em mais de uma hora de canções, temos um álbum cansativo e pouco memorável. No meio de tantas misturas, talvez a única música realmente boa do disco, o lead single Guiding Light, mostra a dosagem adequada do que seria cabível na mistura entre texturas eletrônicas e a sonoridade clássica da banda.

Não foi dessa vez que o Mumford & Sons apresentou um trabalho digno do reconhecimento dos seus primeiros discos. Apesar da tentativa de se reconectar com seus trabalhos anteriores, infelizmente, desta vez a proposta morreu na praia.

OUÇA: “Guiding Light”

Sun Kil Moon – This Is My Dinner


A primeira conclusão que se tem ao ouvir This Is My Dinner, nono disco de estúdio de Sun Kil Moon, projeto solo do ex-vocalista e líder criativo do Red House Painters, Mark Kozelek, é de que é um disco frio. Não só por tratar principalmente das experiências de Kozelek em turnês no norte da Europa, mas também por ser o tipo de clima que mais parece em sintonia com o humor transmitido pelas músicas. Frio também, de certo modo, por que muitas vezes falha em alcançar alguma reação do ouvinte.

Com um tempo de execução de 89 minutos divididos em 10 faixas, This Is My Dinner apresenta o já conhecido e esperado estilo de composição que Kozelek adotou como sua marca em Sun Kil Moon: músicas longas, lentas, com narrativas detalhistas, algo melancólicas e de certo modo guiadas livremente pelo fluxo de pensamento de Kozelek que são recitadas sobre um instrumental muitas vezes reduzido e repleto de espaços abertos para a voz. O verdadeiro instrumento de Kozelek é a palavra, o resto é consequência.

Ao longo do disco, as músicas transitam por temas sempre presentes na narrativa do cantor, seja diretamente ou marginalmente, como a saudade de casa, um certo cinismo em relação à vida, a sensação de alienação das coisas ao seu redor, como se mesmo fora de seu trabalho artístico, Kozelek fosse sempre um observador do mundo em volta. Das viagens para o norte europeu, Kozelek se transporta para o passado, de viaja adiante no tempo e continua a ver e a contar.

Kozelek ainda consegue, por vezes, incluir elementos e influências novos nas músicas, mesmo que a estrutura geral continue a mesma e seja em primeiro lugar, uma plataforma onde pode sustentar todos os relatos das suas experiências cotidianas.

É nesses momentos que o álbum consegue alcançar algum brilho. Já na música de abertura, “This Is Not Possible”, temos o tradicional vocal de Kozelek temperado com um groove de jazz conduzido por um baixo limpo e pausas instrumentais na entrada dos refrões. Outra faixa que foge do estilo constante do projeto é “Linda Blair”, que tem como destaque os teclados que quebram o ritmo do resto do instrumental, numa influência que traz à mente algo math rock. Ao final, a faixa ainda acelera e o tom da música se torna mais grave, fazendo de “Linda Blair” possivelmente a melhor faixa do disco. O terceiro bom destaque no disco é “David Cassidy”. Mais curta que a média das músicas do Sun Kil Moon, a faixa traz uma interessante influência de country e um forte protagonismo do baixo, que consegue, com uma composição simples, ser envolvente sem ser repetitivo.

Infelizmente, outras faixas do disco, como “This Is My Dinner”, “Copenhagen” e “Candles”, embora boas músicas e envolventes, evidenciam o hábito de Kozelek de se deixar levar pela narrativa, e não oferecem nada de novo musicalmente para quem já está acostumado com o estilo musical de Sun Kil Moon, o que as impede de alcançar o nível de sucesso que teriam se, além da letra interessante, fossem mais inventivas musicalmente.

O estilo característico de Kozelek é um dos pontos mais divisivos em sua obra. O engajamento do ouvinte se torna diretamente depende da qualidade de Kozelek como contador de histórias, e quanto mais o vocalista se estende, maior o risco de perder a atenção do público. Kozelek é um hábil contador de histórias, e consegue subverter esse risco, mas por vezes esbarra na própria prolixidade e faz das músicas que começam interessantes, uma repetição enfadonha de ritmos enquanto a voz murmurante de Kozelek se perde em mais um detalhe das suas aventuras cotidianas.

É o que pode ser verificado principalmente ao fim do disco, principalmente nas duas faixas finais, “Soap For Joyful Hands” e “Chapter 87 Of He”. Ambas são uma demonstração escancarada do principal defeito de Kozelek: a prolixidade, que eventualmente se torna tédio, e que talvez é o principal fator o impedindo de criar uma obra incrível. É sempre um risco tentar estender ao máximo qualquer obra artística, como disse Chuck Palahniuk em Clube da Luta: “numa linha do tempo longa o suficiente, a taxa de sobrevivência de todo mundo cai para zero.”

OUÇA: “This Is Not Possible”, “Linda Blair”, “David Cassidy” e “Copenhagen”.

John Grant – Love Is Magic


Quase se transformando em clichê teórico no meio acadêmico, a expressão crise do masculino vem sendo utilizada para designar o mal estar vivenciado pelos homens que, situados em uma perspectiva centralizada, dominadora e hegemônica, tiveram que gradualmente se haver com as demandas do feminismo e da ascensão da mulher na economia social como um todo, na reconfiguração dos papéis de paternidade, na pluralidade de gênero, entre outros dispositivos desestabilizantes. Dessa forma, os padrões anteriores de como a subjetividade masculina deveria constituir se esboroaram, colocando em cheque ideiais preestabelecidos de masculinidade e ampliando as possibilidades de surgimento de novas maneiras de estar, pensar e sentir se como homem.

O resenhista que vos fala tem a opinião de que, na música pop atual, o cantor e compositor americano John Grant é quem melhor canaliza as angústias masculinas em um conjunto de representações (letras, sonoridade, e as transfigura em uma poética calcada no gauche, na auto-depreciação, no humor negro e ácido). Gay, ex-junkie e soropositivo, o ex-vocalista do The Czars despontou em carreira solo no ano de 2010, com o belíssimo Queen Of Denmark, um registro lo-fi dilacerado sobre suas experiências com drogas, alcool e depressão, passando pelo metálico e impassível e altamente sintetizado Pale Green Ghosts, de 2013, até o belo e mais orgânico Grey Tickles, Black Pressure, de 2015. John Grant compõe sobre a subjetividade masculina, desde sentimentos de rejeição e insegurança (“It’s Easier”, “Queen Of Denmark”, “GMF”), relacionamentos complexos entre homens (“Why don’t you love me anymore?”, “It doesn’t matter to him”); até o envelhecimento (“Grey tickles, black pressure”).

Nesse contexto, John Grant lança agora Love Is Magic, seu quarto álbum de inéditas. Mais enxuto que os anteriores, contendo apenas 10 faixas, o álbum prossegue na exploração de batidas e sons analógicos que deram a tônica de Pale Green Ghosts. Na realidade, trata-se de um Pale mais tímido, reflexivo, voltado para dentro, como um retorno a algo mais íntimo e subjetivo na paleta de sonoridades. “Metamorphosis”, “Love Is Magic” (que remete à sonoridade do Duran Duran), “Tempest”, “He’s Got His Mother’s Hips”, “Smug Cunt” e “Touch And Go” desenvolvem-se em camadas estratificadas de synths organizadas pelo barítono metalizado do cantor.

Love Is Magic é tão bom quanto Pale Green Ghosts, mas inferior a Queen Of Denmark e Grey Tickles, Black Pressure, álbuns mais densos e com melodias bem construídas. Mesmo assim, este belo trabalho de John Grant está entre os melhores de 2018, para o resenhista que vos fala, grande fã do cantor e compositor americano.

OUÇA: “Metamorphosis”, “Love Is Magic”, “Tempest”, “He’s Got His Mother’s Hips”, “Smug Cunt” e “Touch And Go”.