Devendra Banhart — Ma



Em Ma, seu mais recente álbum, o cantor Devendra Banhart mais uma vez revisita suas influências do folk e da música latina para criar um trabalho romântico e doce. Ao longo de treze canções, o texano tece um trabalho harmonioso e singelo, com referências espalhadas pelo mapa que resultam em um produto-final interessante, por mais que não consiga sempre escapar da repetição e de uma sonoridade que pode soar muito água-com-açúcar.

Ma é mais um exemplo do talento de Banhart como escritor e performer. Suas composições pulam do inglês para o espanhol, japonês e português com graça — às vezes, na mesma canção —, e esse encontro cultural é bem representado nos arranjos, que mesclam gravações lo-fi com um som tropical. Isso dá ao disco um ar casual e agradável, como algo que poderia ser a trilha-sonora de um luau ou de uma road-trip pela América do Sul.

A referência à música brasileira fica clara na deliciosa faixa “Carolina”, na qual Banhart até canta numa entonação semelhante à de Caetano Veloso. Há uma homenagem forte à MPB, que o cantor conhece muito bem, mas essa é filtrada através o prisma da música folk norte-americana, o que amarra o que ambos os gêneros têm em comum em uma sonoridade “de raíz” dotada de uma agradável familiaridade.

Além desse entendimento do que há de universal e semelhante em suas referências, Ma também é permeado pelo tom de romantismo que está presente em todas as canções do álbum. As composições relatam singelos casos e declarações de amor, um tema salientado pela forma doce que Banhart performa as canções. A figura materna e temas relacionados à infância também surgem em diversos momentos — como adiantado pelo título do álbum —, o que também explica o clima sonhador e tranquilo de Ma.

Essa escolha por uma atmosfera uniformemente nivelada pode fazer com que o disco soe repetitivo, com canções que podem ser intercambiáveis entre si, mas é algo que dá liga e coerência a Ma. Como um todo, trata-se de um álbum maduro e interessante, propondo misturas interculturais que são mais do que um adereço ou uma fantasia, mas um elemento essencial e integral para o DNA artístico de Devendra Banhart.

OUÇA: “Carolina”, “My Boyfriend’s In The Band” e “Kantori Ongaku”

Bedouine – Bird Songs Of A Killjoy



A estética retrô provavelmente faz parte da sua vida, de alguma forma. Pode ser uma peça de roupa ou mobília, o gosto por ver filmes de época ou antigos, pode ser a dificuldade de desapegar de algo do nosso passado. E a indústria cultural se aproveita disso o tempo todo, nos vendendo aquela sensação de voltar para casa que só a nostalgia pode causar. Basta ver o cenário dos anos 80 de uma série como Stranger Things ou os anos 90 do filme Capitã Marvel. A música não é exceção, como podemos lembrar do revival do post-punk na década passada ou na importância que o final do século passado assume em gêneros como o vaporwave. Mas se existe uma relação que perdura entre uma sonoridade e um período específico, é aquela entre o folk e os anos 60.

Talvez por imaginar aquela como uma espécie de época de ouro (mesmo tendo sido, por sua vez, já um revival), a década que viu o surgimento de artistas como Bob Dylan, Joan Baez e Cat Stevens é ainda a referência primária de uma boa parte de quem faz música que se encaixa no gênero folk hoje em dia. Dentre essas pessoas, Bedouine é uma das que se apropriou dessa estética da nostalgia de forma mais completa.

A começar pela identidade visual de seus trabalhos. As capas de seus LPs parecem saídas diretamente da mesa dos designers dos anos 60. A de Bird Songs Of A Killjoy remete fortemente à dos primeiros álbuns de Cat Stevens, enquanto a de seu antecessor era praticamente idêntica à do segundo disco de Nick Drake. Já a sonoridade da cantora e compositora dialoga diretamente com a de Joni Mitchell e Vashti Bunyan, com alguns elementos de Fairport Convention e do próprio Drake. É um tanto difícil avaliar um trabalho quando nos percebemos numa rede de influências assim tão forte. Fico difícil ver o que exatamente Bedouine traz de novo para sua abordagem desse gênero musical.

Mas originalidade precisa ser o elemento a ser levado em consideração? As músicas da artista síria não deixam de ser evocativas e bem-feitas só por serem parte de um conjunto já muito bem definido. E, que seja dito, não são imitações. Por mais que a voz de Azniv Korkejian (seu nome real) nos lembre a suavidade poderosa de Mitchell, Bedouine não é uma artista cover. Ela cria melodias com harmonias que são verdadeiramente belas, aquelas coisas que tomamos gosto de admirar. Utiliza instrumentos que os puristas folk jamais ousariam, mas o faz de forma extremamente natural, sem chamar atenção para isso. E é terrivelmente fácil de se escutar. Não exige nada do público, você pode simplesmente colocar o álbum para tocar e relaxar, não existem momentos de tensão. Mas isso pode ser também um defeito. Ao apresentar uma colcha que não exige atenção de quem escuta, as faixas de Bird Songs Of A Killjoy correm o risco de se tornarem indistintas umas das outras.

Se você é uma pessoa que tem um saudosismo (mesmo talvez sem ter vivido) do lado mais bucólico dos anos 60, ou acha uma pena que as suas artistas folk preferidas não produzam mais álbuns que lembrem seus melhores momentos, Bedouine é uma ótima pedida. Ela complementa muito bem esse sentimento, ainda que faça pouco além disso.

OUÇA: “Matters Of The Heart”, “One More Time” e “Dizzy”.

Heather Woods Broderick — Invitation



Heather Woods Broderick pode não ser muito conhecida por seu trabalho solo, mas deveria. A multi-instrumentista nascida no Maine já acompanhou muitos artistas, entre eles Lisa Hannigan, Horse Fathers e, sua amiga, Sharon Van Etten. No dia 19 de abril, Broderick lançou seu 3º álbum: Invitation, pela gravadora Western Vinyl.

O trabalho recente brinca com o folk e a música ambiente. Algo que já havia sido explorado no em Glide (2013). A música de abertura — “A Stilling Wind” —, ecoa como o prelúdio do mergulho profundo no universo de Heather. Inicia-se com teclas distorcidas, quase aquáticas, e então surgem camadas e camadas de som: violão de aço dedilhado em looping, a voz serena de Broderick, guitarras e pedais que a reverberam, bumbo marcante, surdo, violoncelo, baixo, violinos etc etc. Tudo cresce e se transforma numa belíssima harmonia.

Aliás, harmonia é que não falta em Invitation, o cd soa como um sonho. Em vezes celestial, outras vezes mais obscuro. A exemplo, temos a já citada “A Stilling Wind” e “A Daydream”, preenchidas de arpejos que nos dão aquele sentimento de maré, levando e trazendo o som e suas sensações. A impressão de mar inerente não é à toa, o álbum foi produzido na costa do Oregon — onde habita a cantora —, conhecido por fazer fronteira com o Oceano Pacífico, por suas pedras e montanhas. Cenário perfeito para a feitura do disco.

Voltando às faixas, “I Try” poderia ser uma música da sua fiel escudeira Sharon Van Etten, tanto do excelente Are We There (2014) ou do atual Remind Me Tomorrow (2019) devido ao combo grand piano + sintetizador + refrão simples e pegajoso. “Quicksand” mostra o quanto Heather é talentosa no seu instrumento de origem, é quase 1 minuto de solo de piano beirando ao etéreo, sustentado por uma orquestra. “Invitation” termina a obra com som de grilos ao fundo e com a narração de um suposto sonho, refletindo a necessidade de aceitação pelo acaso, pelo que se está por vir na vida: “A dream took me last night / into the deeps of the darker satellite / I accepted the invitation”.

O ponto negativo de Invitation pode até não ser tão negativo assim, se comparado lado a lado com a proposta de música ambiente do cd. A voz da cantora é muito delicada e pode soar como insegura às vezes, ou se perder diante da grandiosidade instrumental que ela propõe. Entretanto, não chega a ser insuportável e se encaixa bem no vazio e no eco que é ofertado pelo álbum.

Se você curte Sharon Van Etten, Angel Olsen, Volcano Choir, Julian Baker, você possivelmente irá curtir Heather Woods Broderick em Invitation e nos seus demais álbuns.

OUÇA: “A Stilling Wind”, “A Daydream”, “Quicksand”, “Invitation”


Jade Bird – Jade Bird



Jade Bird é uma jovem e excelente cantora e compositora do interior da Inglaterra que se destacou já em seu EP de estreia, Something American de 2017. Apesar de inglesa, sua música sempre teve um forte acento norte-americano: algo entre folk, country e americana. No entanto, em seu autointitulado debut, ela adiciona elementos do rock alternativo noventista, com referências dos melhores vocais femininos da época, tornando Jade Bird ainda mais interessante em relação ao que ela já havia apresentado.

Dessa leva de novas e fantásticas cantoras e compositoras (Phoebe Bridgers, Soccer Mommy, Snail Mail, Molly Rankin e por aí vai), talvez Jade Bird seja a dona da voz mais poderosa, mais forte, crua e direta. Jade Bird, o álbum, é recheado de faixas em que ela pode mostrar todo o alcance e energia vocal que possui. Canções como “I Get No Joy”, “Uh Huh” ou “Love Has All Been Done Before” estão em um nível bastante acima do que a média dos novos artistas tem entregado.

Boa comparação para quem ainda não conhece a música de Jade Bird é Alanis Morissette. Além da voz poderosa e do tom confessional de algumas canções, Jade adicionou forte dose do rock feminino dos anos 90 em sua estreia, tendo forte influência dos primeiros registros da canadense. Mais do que isso, o estilo de escrita de Alanis, com sua repetição de palavras e frases está bem representado em “Does Anybody Know” e “If I Die”, última e mais suave canção do disco.

É impressionante que, tão jovem, ela tenha composto todas as canções sozinha. Se faz palpável toda a segurança e confiança em cada nota, em cada acorde. É comum e até perdoável que ocorram pequenos deslizes em discos de estreia, mas não é o caso aqui. Salta aos ouvidos a importância que Jade dá à sua interpretação e ao sentimento que cada canção pede, característica essencial dos grandes intérpretes, e que deixa transparecer toda a verdade de cada palavra.

Jade despontou com canções enraizadas fortemente no country norte americano, mas ao adicionar pitadas de rock alternativo à sua música, ela construiu um forte debut. Nenhum segundo é desperdiçado e sobram faixas bem escritas, musicalmente bem construídas e com bom potencial radiofônico. Jade Bird está apenas começando sua carreira, mas com este disco ela provou que está no caminho certo e sabe muito bem a artista que quer ser.

OUÇA: “Lottery”, “Does Anybody Know”, “Uh Huh” e “Love Has All Been Done Before”

PS.: O foco do texto de hoje é Jade Bird, mas já que Phoebe Bridgers foi citada, não deixem de ouvir Better Oblivion Community Center, parceria dela com Conor Oberst e um dos melhores discos do ano.

Benjamin Francis Leftwich – Gratitude



A aproximação do eletrônico com o folk sempre rende resultados encantadores. Gratitude de Benjamin Francis Leftwich é um exemplo perfeito dessa dinâmica e um álbum profundo em conteúdo, ao mesmo tempo.

Leftwich é um inglês que, com o novo álbum, conta com três discos na carreira. O primeiro, Last Smoke Before The Snowstorm é de 2011. O segundo veio em 2016, o After The Rain. Ele também tem três extended plays (EPs) na discografia: A Million Miles Out, Pictures e In The Open.

O lançamento mais recente traz a voz distintiva do cantor e compositor entoando 12 músicas inéditas que são reflexos de uma jornada pessoal. De forma geral este é um disco que acrescenta novos elementos ao trabalho de Leftwich ao mesmo tempo em que é uma evolução natural de sua música. É perfeito para quem gosta de ouvir Father John Misty, James Vincent McMorrow, Sufjan Stevens, Ben Howard ou Roo Panes – estes três últimos em especial.

As composições são reflexos de momentos tempestuosos que o artista viveu durante os três antes que antecederam o lançamento do novo registro e a divulgação do, até então, último trabalho. Gratitude vem de sua recuperação de problemas com álcool e aborda temas como introspecção e conforto.

É um álbum mais maduro e mais sério, certamente mais emocional, também, do que os registros antecessores. A musicalidade de sua voz, no entanto, é mantida e não há nenhum distanciamento daquilo que Leftwich já foi musicalmente falando – mesmo que existam rupturas entre o seu eu de hoje e o de antes.

Gratitude é um álbum contemplativo. Toda discografia de Benjamin Francis Leftwich o é. Este álbum, em particular, merece atenção pelo fato de ser pessoal e narrar de uma maneira muito bonita a forma como um homem pode se relacionar com suas próprias questões.

OUÇA: “Look Ma!”, “Tell Me You Started To Pray” e “Blue Dress”

Hand Habits — placeholder

placeholder é o nome do segundo disco do Hand Habits, projeto de Meg Duffy. O sucessor de Wildly Idle (Humble Before The Void) (2017) é muito bem resumido por sua capa: intimista, pessoal e pálido.

Gravado no April Base — estúdio do Justin Vernon —, placeholder pega o que já foi antes apresentado por Duffy e eleva. As 12 faixas do cd cantam a respeito de relacionamentos e prestação de contas, na maior vibe dor de cotovelo (mesmo!). “Oh, but I was just a placeholder / A place and nothing more / Oh, I was just a placeholder / With nothing to stand for”, diz Meg em um dos refrões da faixa de abertura, um perfeito exemplo do desalento intrínseco na obra.

A instrumentalização de placeholder se arquiteta na base do gênero folk: violão ora dedilhado, ora varrido, guitarras bases e quase nuas (salvo os reverbs), baterias em padrões simples e sem pancadaria. Tudo fabricado para que a voz, e a emoção desta, sustente boa parte da melodia. O charme do álbum, nesse quesito, fica por conta do lap steel usado em muitas das faixas, que além de agravar a melancolia, acrescenta um vestígio de sonho as canções, como em “jessica” — faixa que fala sobre coração partido e suas ilusões. No meio do cd existe “heat”: faixa estranha — e imagino que feita pra se estranhar mesmo hehe — totalmente desconexa do restante do conceito de placeholder e funciona como uma quebra curiosa e eletrônica. Na segunda metade o álbum dá uma animadinha (não se emocione muito, é uma animadinha pequena!). Ou talvez só fique menos intensa a sensação de abismo inerente. São acrescentados alguns pianos, mais lap steels (ouvir “guardrail/pwrline” para entender) e, na última canção — “the book on how to change part II” —, um belíssimo saxofone, meio parecido com “For Emma” (For Emma, Forever Ago – 2008), do Bon Iver.

O novo trabalho de Duffy (que se identifica como agênero), como dito, é bastante pautado em sua intimidade e sua atuação no mundo. Anteriormente, em seu álbum de estreia, Meg mantinha o processo da gravação no estilo DIY. Após participar da banda do Kevin Morby e sair em turnê com o artista norte-americano, Duffy parece ter aprendido a gostar de trabalhar em conjunto. E é por isso que, em termos de produção e pós-produção, placeholder se torna superior a Humble Before the Void.

Por fim, o atual projeto se mostra muito maduro. Mesmo sendo um álbum demasiadamente tonal. Pra quem tá na fossa é uma boa opção.

OUÇA: “placeholder”, “yr heart”, “guardrail/pwrline” e “the book on how to change part II”

Ten Fé — Future Perfect, Present Tense



A banda inglesa Ten Fé lançou seu segundo disco intitulado Future Perfect, Present Tense. Apenas dois anos após Hit The Light, os cabeludos miraram em um som bastante ensolarado desta vez. Deixaram um pouco de lado os sintetizadores e abriram o coração pros violões

Ben Moorhouse, Leo Duncan e cia se alicerçaram num soft-rock produzido nos anos 1980 e também na cena musical dos anos 1970 — não o segmento da “disco era” rs. A exemplo, temos as faixas “Echo Park”, que facilmente tocaria nos programas de rádio da madrugada no Brasil devido aos instrumentos de corda adicionados, tornando-a bastante romântica; e “Coasting” faixa pra cima, bastante californian vibes. O álbum ainda traz referências do que se tornou o Britpop: Oasis, Supergrass, Radiohead (nos primeiros trabalhos) e até a irlandesa U2, são exemplos. A faixa de abertura, que também é o primeiro single divulgado — “Won’t Happen” — tem um violão que lembra “Wonderwall” (Oasis), só que um pouco mais animado.

Falando ainda em correspondências, difícil desassociar o timbre de voz do vocalista Ben Moorhouse da voz do Matt Berninger (The National). Principalmente nas faixas “To Lie Here Is Enough” e “Isn’t Ever a Day”. O grave, combinado com o vibrato na voz de Moorhouse harmoniza muito bem nas letras sobre términos e dificuldades nos relacionamentos, arrastando tudo para uma atmosfera melancólica, porém serena.

Como segundo álbum, Future Perfect, Present Tense está meio longe de ser perfeito. De fato, se Hit The Light (2017) fosse o trabalho posterior FPPT seria uma evolução. No entanto, a banda perdeu algumas camadas que faziam o seu som um pouco mais  interessante: os sintetizadores, os falsetes, o sex appeal. Ainda sim, vale ser ouvido e apreciado devido aos seus highlights.

OUÇA: “Echo Park”, “Coasting”, “No Light Lasts forever” e “Caught On The Inside”

Hozier – Wasteland, Baby!



É injusto limitar um artista ao seu maior sucesso, mas dificilmente dá pra descrever o novo trabalho de Hozier sem resgatar os elementos que tornaram “Take Me To Church” um sucesso mundial. Quase meia década após o debut, o irlandês retorna com seu segundo álbum, Wasteland, Baby!, carregando um compilado de partes que parecem recicladas do primeiro disco.

Hozier começa o novo álbum com “Nina Cried Power”, contando com a participação da cantora Mavis Staples. A faixa foi lançada em 2018, em formato de EP, e traz na letra nomes que se tornaram lendas da música e do ativismo como Nina Simone, John Lennon, James Brown e Billie Holiday. O tom apocalíptico do gospel/soul acompanhado de uma mensagem de esperança em pleno fim do mundo é o que guia o Wasteland, Baby! durante seus 57 minutos de duração.

O coral, o som do órgão com elementos do blues misturado com folk se juntam a voz poderosa de Hozier, lembrando a fórmula de Take Me to Church e sentida em diversos momentos. Apesar da preocupação em encontrar um sucessor à altura, o acerto de Hozier foi não deixar essa fórmula saturada. Wasteland, Baby! (e toda sua carreira) não são apenas isso.

O diferencial fica por conta das faixas “No Plan” e “Be”, que destacam a guitarra e aceleram o ritmo do disco. O álbum termina com a música que o batizou e também resume toda sua história. A imagem que Wasteland, Baby! – tanto o disco quanto a faixa – traz é de um passeio pelo fim do mundo, mas um passeio que deve ser feito a dois. Tudo isso é finalizado com um sucinto e sacana “That’s it”.

Wasteland, Baby! é um tanto mais do mesmo, porém isso não significa que o mesmo deve ser desmerecido. Hozier não hesita em tentar repetir o fenômeno anterior, afinal todo seu sucesso se deve a inovação de levar o folk e o soul para um púlpito. Talvez o novo disco não tenha um hit para as rádios, mas com certeza tem toda a essência de seu criador.

OUÇA: “Nina Cried Power”, “No Plan” e “Wasteland, Baby!”

Sun Kil Moon – I Also Want To Die In New Orleans



Num universo paralelo, Mark Kozelek ganharia a vida como narrador de audiobooks.

Essa é a primeira constatação que o novo disco de Sun Kil Moon, nome com o qual Kozelek assina seu projeto solo, desperta ao fim – ou até mesmo durante – a sua primeira audição. Intitulado I Also Want To Die In New Orleans (e daqui em diante referido no texto como IAWTDINO) é o décimo trabalho de estúdio solo do ex-vocalista do Red House Painters e compreende uma hora e meia de músicas divididas em sete diferentes faixas do estilo minimalista e ao mesmo tempo verborrágico de Kozelek.

Quem é familiar com o trabalho de Sun Kil Moon sabe o que vai encontrar no corpo desse disco: canções longas, arranjos simples e muitas vezes despojados que servem mais como uma plataforma sobre a qual Kozelek expõe suas narrativas complexas e prolixas que giram ao redor de qualquer tema, desde o mais recente tiroteio em uma escola nos Estados Unidos (que agora, infelizmente, soa próximo demais) até a interação com os vizinhos e a chegada de um novo membro da vizinhança do vocalista. Não há nada muito inovador nas músicas de Sun Kil Moon, nem é trabalho delas que haja.

O problema é que esse estilo pode ser extremamente volátil em termos de resultados, e é isso que acontece em IAWTDINO. Enquanto a maioria das músicas não é objetivamente ruim, a verborragia de Kozelek em histórias que oferecem pouco e termos de payoff, reviravoltas, punchlines ou algum tipo de conclusão torna a experiência de ouvir a maior parte delas repetitiva e pouco satisfatória. As narrativas de Kozelek falham mesmo em alcançar um resultado como anticlimax, uma vez que para isso é preciso que o andamento da história gere uma expectativa que não vai ser alcançadas no final. Essa não parece ser sequer a preocupação do artista, que soa satisfeito em contar as histórias sobre um arranjo musical como se estivesse narrando as páginas do próprio diário.

Apesar disso, o disco tem bons momentos. “Day In America” é uma música de forte comentário político sobre a política de armas nos Estados Unidos bem pontuada pelo arranjo mais grave e a presença de saxofones, que dão à música o tom de uma poesia noir. As mudanças de andamento no primeiro tom da música também contribuem para não deixar o ouvinte muito confortável e oferecer alguma imprevisibilidade. “Cows” é outra música em que Kozelek passa por reflexões sobre deixar de comer carne, viagens por estradas vincinais e felicidade na Terra conduzido pelo arranjo mais grave do disco acompanhado de um saxofone que faz lembrar cool jazz antes de uma quebra em que o saxofone toma a frente da música de forma tão abrupta que parece até acidente e é o melhor momento do disco.

Infelizmente os momentos de mais cor e vibração do disco são poucos em uma paisagem que é majoritariamente desprovida de cor, de uma maneira que parece ser até intencional para Sun Kil Moon. Também pesa contra o disco que este é o segundo projeto de uma hora e meia lançado por Kozelek em dois anos, o que faz surgir a pergunta: você realmente precisa de dois discos de histórias sem payoff com noventa minutos cada?

Só não pergunte a Kozelek, porque a resposta pode ser longa.

OUÇA: “Day In America” e “Cows”


Beirut – Gallipoli


Com o perdão pela piada jocosa, Beirut é como bacon ou sorvete: não tem como não gostar. Mesmo quando a banda lança um álbum teoricamente mais do mesmo, cujo objetivo parece apenas o de esgotar a fórmula indie-folk bastante melódico + elementos eslavos + vocalista fofinho com vocal lindo – que engendrou álbuns como Gulag Orkestar (2006), The Rip Tide (2011) e No No No (2015).

A banda americana não decepciona. Gallipoli é um punhado de canções luminosas, transparentes, repletas de modulações oscilantes e turnings atmosféricos, como é o caso de “Varieties On Exile”, mas sem perder a genética pop. “When I Die”, a belíssima primeira faixa, traz o vocal religioso e embargado de Zach Condon como uma das ferramentas-chave no teor emocional dessa abertura. Os arranjos de metais operam como bolsas marsupiais que envolvem as canções em um lugar aquecido, materno, poético. “Family curse” tem uma bateria eletrônica marcada com fraseados de metais evoluindo em um crescendo incandescente de elementos que substancializam a faixa.

Não há nenhuma música ruim no álbum, apenas depois de “Landslide” o trabalho dá uma desacelerada, porém isso não compromete a fatura sonora final. A cinematográfica (e linda) “Light in the atoll”, com seu compasso lento e meio quebrado é a antecipação de “Fin”, a faixa mais experimental de Gallipoli, cuja introdução repleta de texturas transporta o ouvinte para uma bateria marcada e cercada de uma parede de teclados exatos, bem cortados.

Gallipoli é um álbum vespertino, como um dente-de-leão flutuando pelos campos aquecidos de fim de tarde. Beirut poderia ser trilha de Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino. Não à toa, essa atmosfera mediterrânea permeia o álbum, e inspira o título, nome da cidade italiana em que o álbum foi gestado. É singelo e sensível, como tudo o que a banda produz.

OUÇA: “When I Die”, “Gallipoli”, “Varieties Of Exile”, “Gauze Für Zah” e “Family Curse”.