Sun Kil Moon – This Is My Dinner


A primeira conclusão que se tem ao ouvir This Is My Dinner, nono disco de estúdio de Sun Kil Moon, projeto solo do ex-vocalista e líder criativo do Red House Painters, Mark Kozelek, é de que é um disco frio. Não só por tratar principalmente das experiências de Kozelek em turnês no norte da Europa, mas também por ser o tipo de clima que mais parece em sintonia com o humor transmitido pelas músicas. Frio também, de certo modo, por que muitas vezes falha em alcançar alguma reação do ouvinte.

Com um tempo de execução de 89 minutos divididos em 10 faixas, This Is My Dinner apresenta o já conhecido e esperado estilo de composição que Kozelek adotou como sua marca em Sun Kil Moon: músicas longas, lentas, com narrativas detalhistas, algo melancólicas e de certo modo guiadas livremente pelo fluxo de pensamento de Kozelek que são recitadas sobre um instrumental muitas vezes reduzido e repleto de espaços abertos para a voz. O verdadeiro instrumento de Kozelek é a palavra, o resto é consequência.

Ao longo do disco, as músicas transitam por temas sempre presentes na narrativa do cantor, seja diretamente ou marginalmente, como a saudade de casa, um certo cinismo em relação à vida, a sensação de alienação das coisas ao seu redor, como se mesmo fora de seu trabalho artístico, Kozelek fosse sempre um observador do mundo em volta. Das viagens para o norte europeu, Kozelek se transporta para o passado, de viaja adiante no tempo e continua a ver e a contar.

Kozelek ainda consegue, por vezes, incluir elementos e influências novos nas músicas, mesmo que a estrutura geral continue a mesma e seja em primeiro lugar, uma plataforma onde pode sustentar todos os relatos das suas experiências cotidianas.

É nesses momentos que o álbum consegue alcançar algum brilho. Já na música de abertura, “This Is Not Possible”, temos o tradicional vocal de Kozelek temperado com um groove de jazz conduzido por um baixo limpo e pausas instrumentais na entrada dos refrões. Outra faixa que foge do estilo constante do projeto é “Linda Blair”, que tem como destaque os teclados que quebram o ritmo do resto do instrumental, numa influência que traz à mente algo math rock. Ao final, a faixa ainda acelera e o tom da música se torna mais grave, fazendo de “Linda Blair” possivelmente a melhor faixa do disco. O terceiro bom destaque no disco é “David Cassidy”. Mais curta que a média das músicas do Sun Kil Moon, a faixa traz uma interessante influência de country e um forte protagonismo do baixo, que consegue, com uma composição simples, ser envolvente sem ser repetitivo.

Infelizmente, outras faixas do disco, como “This Is My Dinner”, “Copenhagen” e “Candles”, embora boas músicas e envolventes, evidenciam o hábito de Kozelek de se deixar levar pela narrativa, e não oferecem nada de novo musicalmente para quem já está acostumado com o estilo musical de Sun Kil Moon, o que as impede de alcançar o nível de sucesso que teriam se, além da letra interessante, fossem mais inventivas musicalmente.

O estilo característico de Kozelek é um dos pontos mais divisivos em sua obra. O engajamento do ouvinte se torna diretamente depende da qualidade de Kozelek como contador de histórias, e quanto mais o vocalista se estende, maior o risco de perder a atenção do público. Kozelek é um hábil contador de histórias, e consegue subverter esse risco, mas por vezes esbarra na própria prolixidade e faz das músicas que começam interessantes, uma repetição enfadonha de ritmos enquanto a voz murmurante de Kozelek se perde em mais um detalhe das suas aventuras cotidianas.

É o que pode ser verificado principalmente ao fim do disco, principalmente nas duas faixas finais, “Soap For Joyful Hands” e “Chapter 87 Of He”. Ambas são uma demonstração escancarada do principal defeito de Kozelek: a prolixidade, que eventualmente se torna tédio, e que talvez é o principal fator o impedindo de criar uma obra incrível. É sempre um risco tentar estender ao máximo qualquer obra artística, como disse Chuck Palahniuk em Clube da Luta: “numa linha do tempo longa o suficiente, a taxa de sobrevivência de todo mundo cai para zero.”

OUÇA: “This Is Not Possible”, “Linda Blair”, “David Cassidy” e “Copenhagen”.

John Grant – Love Is Magic


Quase se transformando em clichê teórico no meio acadêmico, a expressão crise do masculino vem sendo utilizada para designar o mal estar vivenciado pelos homens que, situados em uma perspectiva centralizada, dominadora e hegemônica, tiveram que gradualmente se haver com as demandas do feminismo e da ascensão da mulher na economia social como um todo, na reconfiguração dos papéis de paternidade, na pluralidade de gênero, entre outros dispositivos desestabilizantes. Dessa forma, os padrões anteriores de como a subjetividade masculina deveria constituir se esboroaram, colocando em cheque ideiais preestabelecidos de masculinidade e ampliando as possibilidades de surgimento de novas maneiras de estar, pensar e sentir se como homem.

O resenhista que vos fala tem a opinião de que, na música pop atual, o cantor e compositor americano John Grant é quem melhor canaliza as angústias masculinas em um conjunto de representações (letras, sonoridade, e as transfigura em uma poética calcada no gauche, na auto-depreciação, no humor negro e ácido). Gay, ex-junkie e soropositivo, o ex-vocalista do The Czars despontou em carreira solo no ano de 2010, com o belíssimo Queen Of Denmark, um registro lo-fi dilacerado sobre suas experiências com drogas, alcool e depressão, passando pelo metálico e impassível e altamente sintetizado Pale Green Ghosts, de 2013, até o belo e mais orgânico Grey Tickles, Black Pressure, de 2015. John Grant compõe sobre a subjetividade masculina, desde sentimentos de rejeição e insegurança (“It’s Easier”, “Queen Of Denmark”, “GMF”), relacionamentos complexos entre homens (“Why don’t you love me anymore?”, “It doesn’t matter to him”); até o envelhecimento (“Grey tickles, black pressure”).

Nesse contexto, John Grant lança agora Love Is Magic, seu quarto álbum de inéditas. Mais enxuto que os anteriores, contendo apenas 10 faixas, o álbum prossegue na exploração de batidas e sons analógicos que deram a tônica de Pale Green Ghosts. Na realidade, trata-se de um Pale mais tímido, reflexivo, voltado para dentro, como um retorno a algo mais íntimo e subjetivo na paleta de sonoridades. “Metamorphosis”, “Love Is Magic” (que remete à sonoridade do Duran Duran), “Tempest”, “He’s Got His Mother’s Hips”, “Smug Cunt” e “Touch And Go” desenvolvem-se em camadas estratificadas de synths organizadas pelo barítono metalizado do cantor.

Love Is Magic é tão bom quanto Pale Green Ghosts, mas inferior a Queen Of Denmark e Grey Tickles, Black Pressure, álbuns mais densos e com melodias bem construídas. Mesmo assim, este belo trabalho de John Grant está entre os melhores de 2018, para o resenhista que vos fala, grande fã do cantor e compositor americano.

OUÇA: “Metamorphosis”, “Love Is Magic”, “Tempest”, “He’s Got His Mother’s Hips”, “Smug Cunt” e “Touch And Go”.

Phosphorescent – Ces’t La Vie


Ces’t La Vie é um trabalho impecável, resultado de mais uma entrega do Matthew Houck. É o primeiro álbum inédito em meia década, e o novo na sequência de trabalhos do artista.

A voz distantemente melódica e as batidas intimistas, somadas ao tom melancólico do artista criam um ambiente, ao qual Houck nos remete enquanto canta sobre a paternidade e mudanças neste novo registro. É preciso evocar um estado de espírito para entender Phosphorescent e realmente mergulhar na atmosfera criada em seu trabalho – com menos guitarras e elementos eletrônicos, talvez, mas muito semelhante ao que a banda Kings Of Leon fez em álbuns como WALLS e, especialmente, Mechanical Bull.

O rock alternativo que o artista propõe se mistura com o folk e composições que se tornam lamentos contemplativos muito fáceis de compreender.

Em atividade desde 2001, a carreira produtiva Houck de até então estava de molho desde o último álbum de estúdio, Muchacho, de 2013. Em 2015 houve um lançamento de um disco ao vivo, o Live at the Music Hall, com 19 canções interpretadas em shows no Music Hall of Williamsburg, no Brooklyn.

“New Birth In New England” é o registro mais upbeat do álbum. São 9 músicas, distribuídas em 46 minutos. O álbum é aberto com “Black Moon/Silver Waves” e encerra com “Black Waves/Silver Moon”.

OUÇA: “These Rocks”, “Christmas Down Under” e “There From Here”.

The Dodos – Certainty Waves


O folk está morto. Pelo menos é essa a impressão que fica quando ouvimos aos primeiros minutos do novo álbum do The Dodos. O duo tem mais de 10 anos de carreira fazendo um som que, ainda que que subvertendo algumas das convenções do gênero, sempre foi bastante reverente e consistente. O folk que apresentaram sempre foi estranho, com experimentações sonoras e conceituais, mas Certainty Waves os distancia consideravelmente de tudo que fizeram antes, trazendo um som muito mais pesado, quase industrial.

As primeiras faixas do disco têm uma forte relação com o post-punk, misturando a isso elementos mais dançantes e mesmo ligeiras passagens puxadas ao hip hop. Já na terceira música, no entanto, essa mistura começa a dar espaço a elementos mais familiares, quase esperados para um disco da dupla. Na quarta, seu espirito folk já está totalmente de volta. Não que, a partir daí, aquela mistura que apareceu anteriormente suma completamente, mas o que poderia ser o manifesto de uma sonoridade radical é deixado de lado. Talvez seja uma vontade de não alienar quem acompanha a banda há tantos anos, ou talvez seja só que o duo tem uma atração pelo folk que é quase impossível de evitar. E não dá para negar que, quando estão no seu terreno familiar, The Dodos são bem mais competentes. O equilíbrio entre letra e melodia é algo que conseguiram aperfeiçoar bem, e que atinge as notas certas, ainda que repetidas. São músicas que poderiam achar um público bastante receptivo. Dez anos atrás.

O que Certainty Waves realmente tem de bom são justamente aqueles momentos mais inesperados. Coisas que podem nem sempre ser agradáveis ao ouvido – ao menos na primeira audição – mas que agradam o cérebro, que fazem aquele sorriso de soslaio surgir de modo quase involuntário: “eu vi o que vocês fizeram aqui”, pensamos. Para quem deixa esses momentos escaparem, ou não tem um afeto especial por esse sentimento, pode ser difícil achar algo que prenda o interesse no álbum. Ou na banda, de forma geral.

OUÇA: “IF” e “Ono Fashion”

Marissa Nadler – For My Crimes


Depois de sete álbuns, a cantora-compositora que quase sempre apostou no combo clássico voz e violão (e de vez em quando uma guitarra) pra expressar seus sentimentos, chega ao seu oitavo trabalho com um som muito mais espacial,  que reforça a característica onírica de sua voz e ajuda na imersão do ouvinte. Um time feminino de peso a acompanhou no estúdio com nomes como Eva Gardner no baixo, Mary Lattimore na harpa, Janel Leppin nas cordas, Patty Schemel na percussão e backing vocals de Kristin Control, Sharon van Etten e Angel Olsen, enriquecendo o caráter atmosférico de todo o álbum e potencializando a força de cada canção.

Por 14 anos cantando sobre a dor de corações partidos e a perda de relacionamentos falidos, Marissa Nadler atingiu um ponto de sofisticação único em que não precisa mais escancarar totalmente os elementos que compõem as histórias das personagens de suas canções mas pode apenas sugerir pequenos detalhes dessas narrativas e deixar a cabo do ouvinte completar com seus próprios sentimentos o que falta. Essa abordagem impressionista aparece em todos os componentes do álbum, desde a capa pintada pela própria artista com poucas pinceladas fortes que sugerem uma paisagem obscura e continua até os arranjos com a inserção sutil das linhas de cada instrumento pra contar cada uma de suas crônicas musicadas.

Além de todas as faixas contarem um pedaço de história em sua letra, o que chama a atenção é como Marissa parte de coisas muito específicas pra fazer canções com que todos possam se identificar.  Faixas como “I Can’t Listen to Gene Clark Anymore” que conta a dor de ouvir sozinha o artista favorito do casal e “All Out Of Catastrophes” que fala sobre a raiva que é ser chamada pelo nome de outra mulher na cama, partem de detalhes muito pessoais pra falar de situações que todos podem entender com um pouco de sensibilidade.

A estética sonora do álbum como um todo é bastante melódica e sombria, utilizando dos fraseados característicos do folk e do country como forma de amarrar todo o trabalho dentro do mesmo mood. À  primeira vista pode parecer um pouco previsível o uso de dedilhados de violão por quase todo o álbum mas os arranjos compensam  ao colocar as cordas e harpas nos momentos certos, trazendo o ouvinte de volta pra perto quando ele começa a se perder na fantasmagoria da voz e do violão. Além disso, os backing vocals ajudam a passar o sentimento que cada letra pede, “For My Crimes” que abre o álbum é um exemplo perfeito disso, com uma linha de violão constante mas que ganha força com um baixo sutil, além dos backing vocals e o complemento das cordas que acentuam as frases mais dramáticas da canção. A onipresença do violão é quebrada em poucos momentos como em “Blue Vapor” que traz uma guitarra principal mais carregada e a bateria mais potente do disco inteiro mas sem perder o caráter mais melancólico e lento das faixas que a circundam.

Como cantar por mais de uma década variações sobre um mesmo tema dentro do mesmo estilo musical e ainda assim ter sempre algo de novo para mostrar? Marissa Nadler parece encontrar a resposta para esse questionamento no refinamento dos detalhes. Uma vez que a estética e a temática já estão definidas de antemão, a artista pode encontrar a excelência dando atenção aos pequenos movimentos sonoros e focando sua lente nas particularidades ao invés de buscar as grandes cenas.

OUÇA: “Blue Vapor” e “You’re Only Harmless When You Sleep”

Villagers – The Art Of Pretending To Swim


Escrevo sobre esse álbum pelo viés de quem recentemente perdeu um ente querido. Assim, vai ser de coração que confesso – essas músicas me atravessaram de uma maneira diferente. Me atingiram como nunca fui. Fica até difícil ser crítico sobre algo que a emoção toma conta. Contudo, é um álbum acima da média e inesperado, tendo em vista o último álbum de estúdio melódico, parado e monótono Darling Arithmetic.

A maturidade do grupo irlandês está mais presente neste, The Art Of Pretending To Swim. Mascarado pelo instrumental quase experimental, as narrativas e ambientes escritos por Conor O’Brein são fortes, com uma poética característica de seu trabalho desde os tempos de The Immediate. Versos que são como pauladas na cabeça, esteticamente feios, mas emocionalmente bonitos. Versos que parecem ser escritos por alguém apaixonado ou iludido com o amor, a mim atravessaram de outra maneira.

Meu pai não está mais na cozinha pela manhã, nem no sofá pela noite, mas se eu enxergar um sinal no céu à noite, ninguém poderá me dizer que é um truque de luz. O amor veio como tudo que carrega, inclusive com o fato de que arde como uma desgraça. O que se faz quando a merda pegar no ventilador? As coisas do cotidiano ganham significados diferentes, tudo muda e nos vemos obrigados a largar das coisas que não temos controle. Todos os dias. De novo, e de novo, e de novo. Ninguém disse que seria fácil.

Brinquei acima com esses versos, misturando com o mar que tem no meu corpo e os rios da minha alma, misturando com a minha experiência, com as emoções que senti ouvindo esse álbum, com a minha vida. Ao final das contas, música é um pouco disso, não é? São feitas por pessoas, com experiências, com propósitos, que ora vão de encontro as nossas, ora se divergem.

Em 2013, com {Awayland}, Villagers deu indícios da vontade de brincar com o eletrônico e experimentar uma fusão com o folk. Agora concretizou com êxito em The Art Of Pretending To Swim, puxando por vezes para o lado do pop, como nas faixas “Trick Of The Light” e “Fool”. Conor sussurra suavemente uma enxurrada de palavras que não carecem de agressividade por conta de suas potências.

O baixo do álbum está impecável, com uma melodia presente e completamente envolvente, liderando boa parte do instrumental. Piano, percussão muito inteligente,  sopro, violão de cordas de aço dedilhadas completam o grosso das composições. Com uma proposta singular, diferente e mais encorpado do que os trabalhos anteriores da banda. Um presente para quem está passando por um período de reconstrução.

OUÇA: “Again”, “Love Came With All That It Brings” e “Real Go-Getter”

Roo Panes – Quiet Man


O folk é um gênero musical de fácil consumo. Por ser fácil, é comum encontrar uma gama ampla de gente fazendo música que se qualifica como folk – alguns nomes consolidados, milhares deles iniciantes. Neste contexto rico, ganha espaço quem apresenta algo novo: um trabalho diferente, riqueza melódica ou um timbre muito particular.

Reunindo os atributos que o qualificam como uma voz potente – que transita com facilidade entre os tons altos e os baixos – o inglês (Andrew) “Roo” Panes, recentemente, entregou à audiência mais álbum de inéditas.

É o terceiro disco da carreira, que iniciou em 2012. São 11 músicas neste álbum. O material novo foi precedido por Paperweights (2016) e Little Giants (2014). Antes dos álbuns, no entanto, três extendend plays, dois de 2012, e um de 2013 foram os responsáveis por introduzir o trabalho do cantor: Land Of The Living, Weight Of Your World e Once. A partir de 2012, quando começou a ganhar projeção em Reino Unido, surgiram convites, inclusive, para trabalhos fora da música – como modelo. Roo Panes tem 30 anos e uma família que ligação com a música, sua mãe era pianista.

O novo álbum, Quiet Man, ao contrário do que o nome indica, é um disco que vem de uma voz com potencial estrondoso e, mesmo tempo, um conjunto de faixas muito singelas.

Roo Panes é responsável por entregar uma álbum doce e prazeroso de se ouvir. É um trabalho que pode ser comparado ao melhor de Matt Corby e Ben Howard e, certamente enquadrado, também, no melhor do gênero. A audição é fácil e a melodia leve do trabalho do artista torna a escuta do registro uma jornada lírica pacífica e reflexiva.

Panes declara que a vida é a sua inspiração para escrever músicas. Todas as suas canções são autorais. Conforme entrevistas concedidas, ao longo da carreira, é notável a delicadeza das composições e a pessoalidade dos seus pensamentos e composições, todos elementos tangíveis em Quiet Man.

OUÇA: “A Message To Myself”, “My Sweet Refugee” e “A Year In A Garden”.

Cœur de Pirate – en cas de tempête, ce jardin sera fermé.


Béatrice Martin, cantora canadense que se tornou conhecida como Cœur de Pirate, volta às paradas com En cas de tempête ce jardin era fermé. Repetindo parte do que fez sua fama, a cantora investiu em canções leves e doces, que chegam a fazer sua voz já naturalmente delicada soar quase infantil em alguns momentos. O disco, apesar de não trazer nada de extraordinariamente novo, mostra como a cada lançamento, Béatrice soa como um artista mais madura, com letras cada vez mais intensas, e sem medo de experimentar sonoridades distintas.

No geral, En cas de tempête ce jardin sera fermé soa mais dançante e como sonoridades um pouco mais voltadas para o pop, e, por isso mesmo, um pouco mais comerciais. Mas isso não chega a ser um defeito, e, dada a coesão do álbum, acaba se tornando um grande trunfo. O disco soa bem acabado e bem produzido, cheio de harmonizações agradáveis e canções que sugerem uma atmosfera quase onírica. É difícil traçar paralelo ou buscar imagens que transmitam o que é o som da cantora, tão polifônico quanto um caleidoscópio musical, cujas referências talvez só possam ser encontradas em sua própria obra.

Há, claro, momentos, em que a cantora explora sua versatilidade, como a colaboração na faixa “Dans la nuit” e “Amour d’un soir” e “Malade”, essa última um pouco mais soturna que o restante, e por isso mesmo interessante. Definitivamente, Béatrice Martin prova com esse álbum seu papel de destaque na música, e não apenas no pop francófono.

OUÇA: “Dans la nuit” e “Malade”

James Bay – Electric Light


Três anos após o vitorioso debut Chaos And The Calm, James Bay retorna com um novo disco. Dessa vez o pop rock acústico tão característico do artista abre espaço às mais diversas sonoridades, chegando a flertar com R&B e música eletrônica. O James Bay de 2018 parece mesmo fazer todo o possível, inclusive mudar de visual, para se afastar do James Bay de 2015. Certamente se afastar de algo que deu tão certo não é uma decisão fácil, mas teria sido mesmo uma boa aposta?

O choque com a nova sonoridade veio em fevereiro, quando Bay disponibilizou o primeiro single de Electric Light, “Wild Love”. A faixa parece estar no extremo oposto do espectro musical de Chaos And The Calm ao apresentar uma produção eletrônica bastante afinada com a música de Jack Garrat. Passado o susto, a verdade é que “Wild Love” apontou para uma direção muito interessante para a música de Bay. Sua voz e interpretação casaram muito bem com o tom sensual que a música e a produção pedem.

Com a segunda faixa divulgada antes do disco, “Pink Lemonade”, veio novo choque. Nada de violões dedilhados e nada de bases eletrônicas também. “Pink Lemonade” tem a mesma sonoridade das bandas que queriam soar como os Strokes na metade dos anos 2000 mas não tinham o mesmo frescor. Se “Wild Love” aumentou as expectativas para o que viria, “Pink Lemonade” foi um balde de água fria. Como essas músicas coexistiriam no mesmo disco e manteriam a coesão do trabalho? Essa realmente seria uma missão difícil.

Com o lançamento do disco completo, fica claro que a tarefa de manter a coesão ficou mesmo longe de ser cumprida. É normal a busca por uma nova sonoridade. Mais até do que normal, é louvável! No entanto, em Electric Light, Bay atirou para todos os lados e acabou errando mais o alvo do que acertando. Parece ter faltado foco na hora de juntar esse grupo de canções: há outras faixas que podem ser comparadas a Jack Garrat; “In My Head” lembra algo que Mika poderia ter feito; Há espaço para gospel em “I Found You”, mais R&B e por aí vai. Electric Light é mesmo um caldeirão de vertentes que parecem não se encaixar tão naturalmente quanto o esperado. Existem ainda uma introdução e um interlúdio desnecessários: não destoam, mas pouco ou nada acrescentam à narrativa do disco.

Sem dúvidas, a característica mais forte do disco é a interpretação de Bay. Dessa vez ele está muito mais seguro de si. O carisma tão intensamente mostrado no debut foi fortalecido com uma boa dose de sensualidade. Há um tom sensual na sua voz que se faz principalmente presente quando o cantor se utiliza de falsetes, como em “Wasted On Each Other” e “Fade Out”. Nesses momentos é possível ver todo o potencial que Bay nos mostrou três anos atrás.

Nessa necessidade de buscar o novo, Bay acabou se perdendo no caminho e entregou um trabalho pouco coeso. O artista que parecia ter nascido pronto em Chaos and the Calm, parece estar à procura de identidade em Electric Light. Isoladamente, as faixas funcionam muito melhor, mas colocadas lado a lado, não são capazes de formar um disco robusto. Bay tem voz, carisma e consegue interpretar canções como poucos de seus contemporâneos do mainstream o fazem. Com foco e uma sonoridade mais bem definida, o rapaz será capaz de nos entregar um disco forte de verdade. Infelizmente, não foi dessa vez.

OUÇA: “Wild Love”, “Us”, “Slide” e “Wasted On Each Other”

Okkervil River – In The Rainbow Rain


O Okkervil River nunca foi de seguir tendências. Seu som abrange diferentes gêneros, mas tem sempre como farol um indie-folk de alma texana. Os raros usos de algo mais próximo a sons eletrônicos neste lançamento é, portanto, menos uma intenção de se encaixar numa cena do que expandir o som da banda nesta nova fase. Nova fase porque, com exceção do líder Will Sheff, todos os outros integrantes são novos.

É portanto com a capacidade criativa de Sheff – suas angústias e elocubrações – que temos contato imediato. Mas este é um álbum de renascimento, no qual o vocalista parece querer expurgar velhas complicações que constantemente apareciam nos álbuns anteriores. O que temos diante de nós é, então, o Okkervil River mais positivo já visto. Isso não fica claro logo de cara, porém. “Famous Tracheotomies” abre o disco contando sobre a intervenção cirúrgica – traqueotomia – que salvou a vida de Sheff quando ele ainda era criança. O autor ainda cita várias outras personalidades que passaram pelo mesmo procedimento. Pode parecer obscuro, mas termina com uma certa celebração da fragilidade humana e da importância de se aproveitar a vida. Algo que parece ser um padrão em In The Rainbow Rain é como constantemente se equilibra no estreito limiar entre o tocante e o brega.

Após o estranhamento da faixa anterior, “The Dream And The Light” traz paz aos corações dos fãs mais ardorosos com uma canção típica da banda: um começo melancólico que aos poucos vai se transformando em algo grandioso e épico, muitas vezes trazendo uma supresa. Aqui, Sheff aponta desde terroristas-suicídas até parasitas da mídia, em uma letra repleta de desespero que irá terminar com a mensagem de que todos nós “somos feitos de amor”.

Ao longo do álbum, algumas canções parecem melosas demais para quem se acostomou com a banda. Mas isso me parece normal para quem está buscando novas direções. Fica clara a vontade de Sheff em se aproximar e se comunicar mais com seu público, o que pode ser visto nas mensagens positivas que se espalham pelo disco e na dica deixada por seu título. Se não teve sucesso em construir uma obra com faixas tão marcantes como no resto de sua discografia, o Okkervil River continua tendo a (louvável) capacidade de, ao mesmo tempo, evocar as emoções mais catárticas e reflexões um tanto intelectualizadas.

OUÇA: “Famous Tracheotomies”, “The Dream And The Light”, “How It Is”