Girlpool – What Caos Is Imaginary



Desde sua estreia em 2014, Girlpool tem se aprofundado na expansão da sua sonoridade. What Chaos Is Imaginary chega para provar essas mudanças, consolidando um compilado de sons muito mais expansivo e maduro do que em seus outros projetos. A adição de elementos distintos, antes não presentes nos seus discos, ajuda a captar a energia distinta que ronda a produção desse álbum.

Apesar dessa nova composição que ajuda a criar uma atmosfera coesa para o álbum, a temática não é tão distante assim daquilo que já haviam apresentado, mas talvez trabalhada de uma maneira mais polida.

O mais interessante de todo o projeto pode ser, talvez, como essa conjugação de diferentes influências torna difícil definir um único rumo para os ritmos. Em momentos, se mantém amplamente tradicionais, remetendo a projetos antigos. Em outros, vão por caminhos inexplorados.

A adição de elementos eletrônicos sutis em “Chemical Freeze” tornam esse momento um dos mais diferenciados do projeto, capturando a energia mais ousada em que a dupla se jogou para o disco. “Minute In Your Mind” altera um pouco essa tonalidade, mas ainda consolida o aspecto mais dream-pop da banda.

Ainda assim, poderíamos pensar que escutamos outro álbum completamente diferente quando iniciam-se “Hoax And The Shrine” ou “Swamp And Bay”: a primeira, tomada pelos elementos acústicos com poucas interferências, a segunda, com uma sonoridade muito mais afirmativa e incisiva, mas também mais previsível. Outros momentos, como “Hire”, voltam para a origem mais grunge e despojada.

Explorando o indie-rock em sua tradição, a dupla transita por distintos elementos sonoros que fogem da sua estrutura tradicional que, caso não ocorressem, deixariam o álbum num patamar muito mais raso e monótono.

O elemento vocal do disco também se destaca, uma vez que a combinação das vozes e divisão enquanto solos funciona bem e criam uma boa harmonização. Nos momentos individuais é possível entender a particularidade de cada um, o que também favorece na diversificação do álbum.

Mais ousada, a dupla dá passos importantes para uma sonoridade própria e mais única, mas ainda tropeça para encontrar uma estruturação melódica que funcione sem tornar-se relativamente previsível ou maçante em alguns momentos.

OUÇA: “Chemical Freeze” e “Minute In Your Mind”

Xiu Xiu – Girl With Basket Of Fruit



Há algumas semanas escutei pela primeira vez Girl With Basket Of Fruit. Desde então tenho ensaiado como começar essa resenha, inevitavelmente passando por uma fase de “se você odeia barulhos desesperadores NÃO ESCUTE ESSE DISCO”. Acabei me impedindo de fazer isso porque, claro, seria desonesto com o trabalho do duo californiano Xiu Xiu: o trabalho experimental deles é, essencialmente, barulhos desesperadores.

Isso não é uma crítica fechada em si. Eu adoro barulhos desesperadores em muitos outros contextos — e outros álbuns do Xiu Xiu. Mas dessa vez alguma coisa desandou.

Fundada em 2002 e com 14 discos lançados, Xiu Xiu começou sua carreira musical apostando na desconstrução da formação musical tradicional de uma banda da cena alternativa: a base era feita por uma bateria eletrônica e complementada por instrumentos não convencionais, como instrumentos indígenas norte-americanos, violões mexicanos e por aí vai. Tudo isso permeado por uma dose de letras e performances tristes, desoladoras e devastadoras, que beiram uma espécie de violência não-física.

Sabendo de tudo isso, aceitando tudo isso, gostando de tudo isso, escutei a Girl With Basket Of Fruit esperando pelo Xiu Xiu altamente aclamado de Angel Guts, aquele que me fez escutar e aceitar e gostar de vivenciar esse desespero e tristeza que permeiam a trajetória da banda — e a trajetória pessoal do fundador Jamie Stewart.

Composto por 9 faixas somando tímidos 36 minutos, Girl With Basket Of Fruit é muito menos melódico e pop do que seu antecessor FORGET, trazendo os barulhos digitais frenéticos como espinha dorsal do disco, não apenas como um elemento, como em FORGET. A consistência, beirando a repetitividade, das faixas entre si faz com que o disco soe como um bloco de barulho e informação, como se por 36 minutos fossemos sugados por um vortex — e saíssemos dele intactos, só um pouco tontos.

Girl With Basket Of Fruit impressiona pela violência e intensidade musical, como Xiu Xiu já impressionou antes (os vocais da saturadíssima “I Luv the Valley OH!” ainda me impressionam depois de anos). Mas tudo que a agressividade do disco possibilita de violência quando se escuta, ela deixa de lado em termos de não se fazer esquecer. Depois de escutá-lo pela primeira vez há algumas semanas, precisei escutar mais duas vezes enquanto escrevia a resenha para ter certeza de que não deixaria detalhes de lado.

Para além da leve tontura, Girl with Basket of Fruit é um disco que não me causou muita coisa. Não causou boas impressões, não possibilitou boas reflexões e será rapidamente esquecido. O disco não traz a profundidade que marca a trajetória das letras e composições do Xiu Xiu, costumeiramente marcadas por comentários crus sobre política contemporânea e isolamento social e emocional e se perde em si mesmo.

Para uma banda como Xiu Xiu, que não tem constrangimentos ou amarras em se utilizar do que existe de mais visceral na música e composição experimental para fazer uma impressão livre da necessidade de apenas impressionar e desafiar, esse disco é perturbador. Mas vazio. É como uma pancada na cabeça: vai doer. E vai passar.

Para uma banda que já foi capaz de fazer profundas cicatrizes com sua humanidade crua e visceral, uma pancada na cabeça com uma bateria eletrônica frenética é pouco demais para se levar em consideração.

OUÇA: “Amargi ve Moo”, “Pumpkin Attack on Mommy and Daddy”, “Normal Love”, “The Worst Thing”

Panda Bear – Buoys


É difícil pensar em alguma banda cujos integrantes produzam na escala que o Animal Collective produz e que conservem qualidade e integridade com a proposta inicial. Sem precisar fazer grandes malabarismos estilísticos, o Animal Collective (em todas as suas variações de composição) fez, desde o estreante Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished, de 2000, outros 10 discos enquanto conjunto, além de 9 EPs de qualidade tão boa quanto os discos e mais 3 álbuns ao vivo.

Um dos membros mais “ativos” da banda, Noah Lennox, que atende pelo nome artístico de Panda Bear, não fica atrás em sua produção solo: são pelo menos 6 álbuns atribuídos a ele enquanto performer solo. Assim como no Animal Collective, Noah manteve, ao longo desses 20 anos de atividade, uma linha produtiva extremamente coerente. Coerentes a ponto de beirarem o autoplágio. Se não fosse a capacidade de inovação e posição de vanguarda impressionante de suas produções (tanto solo quanto coletivas), cada um dos muitos lançamentos seria um tédio.

Mas esse não é o caso. Nunca é o caso. E não é o caso para Buoys (leia “bóias”, segundo o próprio Lennox em entrevista para O Globo), novo disco a ser lançado em fevereiro. Com 9 faixas de duração moderada (a mais longa mal chega aos 5 minutos), Buoys foi composto durante o período de preparação e turnê do aclamado Sung Tongs, que passou pelo Brasil no segundo semestre de 2018.

Apostando novamente no combo voz-violão, o álbum não é marcado pela complexidade das composições e nem dos arranjos, mas pela criação de uma atmosfera: vemos muito o uso dos ecos e efeitos na voz, pontuações eletrônicas e um uso ritmado do violão como marcador de percussão, assim como no Sung Tongs, mas em menor escala, deixando espaços menos preenchidos e mais reflexivos.

Assim como no coletivo Tangerine Reef, que, embora seja o primeiro trabalho do Animal Collective sem a participação de Panda Bear, Buoys coloca, em algum grau, a temática marítima — e enfrenta o mesmo problema de similaridade entre as faixas, como se cada uma fosse uma explicação da anterior e tornando difícil a distinção entre eleas, que Tangerine Reef. Claro que pode ser um risco associar esses dois trabalhos, especialmente porque um deles sequer conta com a participação de Lennox, mas, para mim, é impossível dissociar os trabalhos solo e coletivos nos quais Noah se envolve.

Se para o Tangerine Reef a NME falou em tediosos “tons de cinza” em contraposição à “bagunça colorida” de Merriweather Post Pavillion, podemos evocar a figura das cores para garantir para Buoys um lugar ao sol: os vocais são interessantes, pronunciados e, mesmo sem a sensação de “coletividade” que marca os vocais do Animal Collective, e do próprio trabalho solo do Panda Bear em outros momentos, evoca uma espécie de solidão compartilhada, como se estivéssemos à deriva (em bóias, que seja) sabendo que existem outras pessoas naquela situação.

Diferentemente dos tímidos 60% que Tangerine Reef marcou segundo o Metacritic, com opiniões ferozmente negativas, como a da NME, vejo Buoys no espectro da maturidade de Lennox: depois de um sucesso estrondoso do solo Panda Bear Meets The Grim Reaper, de 2015, avaliado acima dos 80% no Metacritic, e de uma excelente turnê com o Sung Tongs, Panda Bear nos mostra que ele é capaz de revisitar os próprios trabalhos e criar algo especial. Não propriamente novo, mas não menos especial por isso.

OUÇA: “Dolphin”, “Cranked”, “Master” e “Home Free”

The Good, The Bad & The Queen – Merrie Land


Quando Damon Albarn reuniu um supergrupo (incluindo até o baixista do The Clash, Paul Simon) em 2007, o resultado foi um álbum único. Não foi à toa que se passaram mais de 10 anos sem que houvesse um sucessor para aquele primeiro trabalho. E é bom que algumas coisas sejam assim, afinal, capturar todo o conjunto de fatores que fizeram do disco algo tão belo é algo difícil de se fazer. Mas vivemos na época em que tudo que gera uma certa repercussão precisa ser mantido, para alimentar a fome por conteúdo que parece ser cada vez mais difícil de saciar. O que quer dizer que não chega a ser de se admirar que The Good, The Bad & The Queen tenha voltado.

É impossível dizer que esse não seja o momento propício para o tipo de música que o grupo faz. O tempo atual precisa desse tipo de arte que se alimenta do conhecimento do seu passado para comentar o presente mais do que 2007 precisava. O fato de ser um conjunto de fatores tão particularmente britânico tinha um potencial muito forte de ressoar nesse momento em que o Reino Unido se encontra tão polarizado em torno da questão do Brexit e seus possíveis efeitos sociais e econômicos. E a faixa que dá título ao novo álbum, “Merrie Land”, se utiliza de um dos apelidos do país para traçar um esboço irônico dessa situação. Se não é tão mordaz quanto “Parklife” (da outra banda de Albarn, o Blur), ao menos consegue evocar um pouco da sensação de falta de chão, de desesperança. A linguagem é o que diferencia este dos outros projetos de Albarn. Se suas letras costumam ser diretas relacionadas ao mundo contemporâneo, o letrista que vemos aqui é mais afeito às metáforas, a uma forma poética de transmitir suas ideias. Esse é um elemento cuja continuidade em relação ao álbum de estréia é mais evidente.

Outras coisas, no entanto, mudaram bastante. Se no primeiro disco as imagens que a banda conjurava eram vitorianas, indo desde a capa até a instrumentação, aqui esses elementos são substituídos por referências bem mais recentes, que trocam a perspectiva histórica pela análise do presente. Também os vocais de Albarn se tornam ainda mais centrais nas canções, deixando pouco espaço para que seus colegas estrelados desenvolvam mais seus talentos. De muitas formas, Merrie Land parece um álbum solo. Mesmo que Simon, Tong (guitarrista do The Verve) e Tony Allen (baterista celebre do afrobeat) não tenham tanto espaço para demonstrar seus talentos, é inegável que sua presença continua a ser a arma secreta do supergrupo. Particularmente o baixo é uma presença que agrada sempre que presente, de forma simples mas eficiente.

Não dá para falar que quem gostou de The Good, The Bad & The Queen vá gostar de Merrie Land. O Segundo é bastante inferior ao primeiro. Nunca conseguindo chegar ao elevado patamar que estabeleceram na sua estréia. Os completistas da obra de Albarn definitivamente devem escutar, especialmente se gostaram de Everyday Robots, seu único álbum solo oficial, e que tem algumas similaridades com esse disco. Os anglófonos de carteirinha também devem se agradar, seja para ter uma ideia do ambiente cultural no Reino Unido atual, como pela simples natureza extremamente britânica que perpassa Merrie Land. É a versão sonora de uma xícara de earl gray. Para os demais, talvez ouvir apenas algumas das faixas já seja suficiente.

OUÇA: “Merrie Land”, “The Truce Of Twilight” e “The Poison Three”

How to Dress Well – The Anteroom


The Anteroom é o nome da nova coletânea de Tom Krell, a pessoa por trás do projeto conhecido como How To Dress Well. No quinto disco do artista a presença de elementos experimentais está mais marcada do que nunca.

Distribuídas em mais de 60 minutos, são 16 novas canções que, em partes se assemelham ao material entregue em registros anteriores, como “Care”, o mais recente; e por outro lado apresentam uma face do artista totalmente experimental. Neste ponto, nenhuma novidade, visto que sua obra apresentava essa caminhada em direção ao experimentalismo desde os primeiros discos.

Não é novidade que, com o projeto, Krell gosta de adicionar synth frenéticos e batidas difusas aos seus vocais claros, límpidos e quase inseguros. Em The Anteroom é possível perceber a forma complexa como o cantor se relaciona com a sua própria obra por meio de elementos ainda mais cacofônicos e batidas que se perdem em meio ao ruído e à repetição.

Veja bem, não há nada de errado com isso – é a forma de apresentação de seu trabalho que, numa crescente, em relação aos discos anteriores, ruma para o experimental. Basta considerar o disco Care, de 2014, de faixas como as radiofônicas “Lost Youth/Lost You” e “Can’t You Tell” e novos registros, como “False Skull 7”, por exemplo, muito mais enigmático.

O lado synthpop do cantor não está perdido, muito embora neste novo registro ele se aproxime mais de arranjos que navegam pelo lo-fi e, inclusive, tenha produzido faixas totalmente instrumentais. Muitas vezes a voz, é uma leitura que pode ser feita, nem é o recurso principal da canção – muito embora esteja ali para nos lembrar que Krell sussurra calmamente em meio ao instrumental delicado que pode ser pesado ou não.

OUÇA: “Bodyfat”, “Hunger” e “The Anteroom”

Jerry Paper – Like A Baby


O multi-instrumentista Lucas Nathan é uma daquelas figuras que a gente não sabe se é realmente um cara esquisito ou se está constantemente tirando sarro da nossa cara. Seus primeiros trabalhos eram carregados de sarcasmo e ironia, usando elementos do synthpop e da música de videogame pra fazer piadas autodepreciativas. Like A Baby continua na pegada mais conceitual introduzida pelo artista em Toon Time Raw! de 2016 e é ao mesmo tempo estranho e cativante.

Uma coisa que se nota logo de cara se você já teve contato com algum trabalho anterior do Jerry Paper é que ele soa muito menos bizarro. Ainda tem aquela cara de coisa estranha típica do artista mas a esquisitice fica por conta do ar retrô que a maioria das músicas carrega e menos pelo experimentalismo exagerado nos arranjos. Todas as estruturas das músicas são calcadas em gêneros que tem cara de épocas muito características como a bossa nova e o jazz mais comercial dos anos 50, a música de elevador e um pouco do synthpop dos anos 80 e jingles de produtos domésticos dos primórdios da tv americana, representados de forma bem caricata através dos synths e longe da sofisticação experimental do álbum anterior.

Fiquei um bom tempo tentando pensar num bom jeito de definir esse álbum e o melhor que consegui foi imaginar alguém dando um rolê no shopping pra reclamar do capitalismo no twitter. A sonoridade das músicas como um todo é bastante familiar e agradável, quase inofensiva, e parece algo que você encontraria como música ambiente enquanto procura a praça de alimentação. Ao mesmo tempo em que os arranjos e melodias são bastante agradáveis, temos letras que criticam o capitalismo tardio de forma irônica e o melhor exemplo disso está em “Did I Buy It?” que usa um pop simples e confortável pra criticar até que ponto somos nós que decidimos o que consumimos ou se apenas seguimos o que nos é sugerido.

O momento mais ousado em termos de forma musical é “Something’s Not Right” que usa a estrutura simples de músicas que tocariam num bar de coquetéis chique e dá uma pirada com solos de órgão eletrônico típicos do jazz fusion numa faixa que não chega a ter dois minutos de duração, demonstrando toda a capacidade do artista de criar complexidade mesmo dentro de formas simples e rígidas. A letra aqui novamente usa da ironia ao comentar banalidades pra escancarar os absurdos de uma vida movida pelo dinheiro.

O tempo todo o álbum joga com a ideia de se aproximar e alienar da realidade e “More Bad News” que fecha o trabalho brinca muito bem com isso por ser um crooning sentimental típico dos cantores do começo da era do rádio mas que te coloca no estado de apatia que a letra pede, começando com a preocupação de ver ao tempo todo novas notícias ruins que de tanto se repetirem já não causam impacto algum e isso se reflete no instrumental que vai ficando cada vez mais distante até que você deixe de se importar com o que é cantado.

A maior sacada de Like A Baby é usar de sonoridades fáceis de digerir pra falar verdades que você não quer ouvir. Jerry Paper aqui deixa um pouco de lado a sua própria excentricidade pra expor o quão bizarra é a época em que vivemos.

OUÇA: “Grey Area”, “Did I Buy It?”, “My God” e “More Bad News”

Twenty One Pilots – Trench


O grande problema do hype massivo, causado pela exposição rápida e intensa de um artista ou grupo no mainstream depois de um tempo de carreira passando despercebidos no underground, é o malabarismo que os mesmos são obrigados a fazer para agradar diversos públicos, como a legião de fãs fiéis (sejam os que acabaram de chegar ou os de longa data), os consumidores populares dessa parte mais radiofônica da indústria musical, e os mais céticos, que rejeitam ou estranham seja lá o que aconteceu na sonoridade desses artistas para ocorrer essa ascensão de popularidade. E muitas vezes essa perseguição, seja fanática ou midiática, atrás do novo fenômeno musical que vai produzir um tipo de trabalho que agrade essas porcentagens de diferentes ouvintes acaba afetando a forma como o artista olha para sua própria música, tentando encaixá-la em padrões que nem sempre mantém uma fidelidade ao fluxo natural evolutivo de suas obras.

E se hoje em dia você pedir pra qualquer um falar uma banda que caiu nessa armadilha, provavelmente a maioria te responderia Twenty One Pilots. A dupla de pop/rap/reggae/whatever virou um fenômeno depois do lançamento do álbum Blurryface em 2015, que emplacou alguns singles como “Stressed Out” e “Ride”. O engraçado é que, algumas bandas que caíram nesse buraco de grandes expectativas do público, como Oasis e Arctic Monkeys,  já usaram o mantra “Don’t Believe The Hype” para lidar de forma mais sarcástica e, ao mesmo tempo, rancorosa com esse tipo de buzz que cerca seus nomes.

Então faz todo sentido o uso dessa frase no refrão da música “The Hype”, que abre a segunda metade do novo álbum da banda, Trench. E mesmo que o tipo de mensagem que o vocalista Tyler Joseph quer passar seja bem clara e direta aqui, ela ainda é dita de forma muito mais interessante do que os chiliques anti-rádio de músicas do álbum anterior como “Fairly Local” e “Lane Boy”. Esse é um dos triunfos não só dessa música, mas do trabalho em geral, que possui composições mais complexas lírica e instrumentalmente, demonstrando um claro amadurecimento de ideias que já apareciam em pequenas faíscas antes, como as letras que mostram a luta do cantor contra seus problemas mentais de forma muito mais subjetiva e concisa.

Outro aspecto que floresce aqui é a forma como os beats e as melodias se desenvolvem em grooves mais consistentes, que não tem a instantaneidade tradicional da dupla, deixando as canções respirarem e crescerem lentamente no inconsciente de quem escuta. A forma como “My Blood”, por exemplo, cresce de forma delicada até entrar em um loop de baixo extremamente envolvente e um refrão pegajoso, sem perder tal delicadeza inicial é um dos exemplos de triunfo no que a banda conseguiu evoluir artisticamente. A variedade que essa experimentação, calcada em bases previamente cobertas pela banda, ajuda a criar é a chave pro sucesso de equilibrar esse sentido de trazer algo novo pra quem tem sede disso, e quem espera algo mais digestível e familiar dessas músicas. Momentos com detalhes interessantes como o beat esquizofrênico de “Pet Cheetah” e o baixo selvagem de “Jumpsuit” ajudam a quebrar a fórmula que havia virado ponto comum na obra do Twenty One Pilots, mostrando que são capazes de sair desse molde que a banda criou pra si mesmo anteriormente e ainda fazer algo relevante, e que instigue qualquer tipo de ouvinte.

Porém, o problema aqui é exatamente que essa variação não se prolonga pelo álbum inteiro. Ele é inteiramente construído de “highlights” que capturam sua atenção por um tempo para tentar te jogar no clima dele, e em diversas músicas caminha por uma estrutura que consiste em beats mais calmos com fortes influências de dub, juntamente com refrões que não são lá muito memoráveis e fazem com que tais canções se percam no meio de certas partes muito mais vivas e criativas do álbum. E mesmo que todas elas façam sentido nesse conceito de um mundo ficcional que Tyler e Josh tentam criar pra satisfazer os fãs conspiracionistas, essa mesma ideia é uma das coisas que mais ferem a consistência do álbum.

Então é nesse ponto que o balanço é quebrado, pois mesmo que haja uma evolução nas narrativas concebidas, elas perduram de forma uniforme por muito tempo ao longo dos 56 minutos de “Trench”, tornando-o escravo de um “fanservice” desnecessário que, se não fosse o foco de sua criação, talvez pudesse ter sua duração reduzida, focando melhor em sua coesão e nessas progressões mais fora da curva que certas canções mostraram.

Mesmo sendo mais consistente e maduro que Blurryface, o principal pecado do álbum é a falta de variedade que destacava seu irmão de 2015, mostrando que ainda falta um pouco para o Twenty One Pilots consiga fazer um álbum que agrade a gregos e troianos. Porém, mesmo que não haja nada tão instantâneo como “Stressed Out” aqui, é no mínimo intrigante a forma como a banda construiu algo muito mais poderoso a partir de todas as suas bases anteriores, deixando um sinal de que eles talvez tenham uma carreira que possa ficar cada vez mais interessante.

OUÇA: “Pet Cheetah”, “Jumpsuit”, “My Blood”, “Chlorine” e “Levitate”

SOPHIE – OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES


Começando essa resenha num tom mais pessoal, eu não acho estar desapontado com os lançamentos de 2018, mas eu andava sentindo um… Mal-estar? Inquietação? Não sei ao certo, apenas sentia que alguma coisa estava faltando na leva de álbuns desse ano. Não necessariamente algo que botasse todos os outros artistas no chinelo ou ofuscasse seus trabalhos, apenas algo único, novo… Algo fresco. Algo com uma sonoridade extraterritorial, com uma paleta bem específica de cores em tons frios, com talvez um vermelho se destacando para gerar algum foco, teria que soar familiar, mas ao contrário? De cabeça pra baixo quem sabe… E totalmente destroçado, mas apenas o suficiente pra poder ser reconstruído. E não, eu não fumei, cheirei ou injetei nada, isso é realmente uma necessidade que eu andava sentindo em relação a música ultimamente, e foi exatamente com esses exatos aspectos que SOPHIE me atingiu com uma voadora de dois pés, arregaçando tudo em mim da melhor maneira possível (???). Enfim, a vida sorriu pra mim, e vai sorrir pra você também depois dessa resenha e download. Insira emojis sorrindo e surtando aqui.

O grande barato de OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES é que o quanto mais se analisa ele, mais ideias vão brotando sobre seu desenvolvimento, inspirações e afins. Desde movimentos artísticos que estudamos no ensino médio e aulas de química que a gente faz questão de esquecer, até vida em outros planetas e zoom em supernovas, SOPHIE literalmente parece dissecar o pop e reconstruí-lo usando bases eletrônicas pra trazê-lo de volta á vida de uma maneira nova e inventiva.

Enquanto o compilado PRODUCT (2015) continha fortes singles previamente já conhecidos e dava indício de uma artista totalmente visionária, o mesmo parecia apressado demais para estampar o nome da cantora no mundo, as novas canções, apesar de boas, não faziam juz ao potencial total de SOPHIE. Por sorte, o pouco material foi mais do que o suficiente pra chamar a atenção de outros artistas, e a cantora se manteve mais do que ativa no mercado. Bom, vamos ser sinceros, se tu consegue uma participação em uma música pra Madonna… As coisas andam bem. Não bastando isso, SOPHIE esteve tão envolvida com tantos artistas e gêneros musicais diferentes, que era simplesmente uma questão de tempo ela ter seu lugar embaixo do sol. E foi dito e feito.

De todas suas colaborações, as com Charli XCX (que parece ter tomado SOPHIE como sua queridinha, já com ela há um bom tempo em seus álbuns) e Let’s Eat Grandma talvez sejam as que mais representem o rumo que a cantora resolveu tomar, seja pelo pop envolvido, a desconstrução e remodelagem sensorial que suas batidas causam ou as explosões de ânimo envolvidas em seu trabalho. Mas isso tudo era um aperitivo bem pequeno em comparação com o que estava por vir. OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES trouxe a tona não apenas o já conhecido talento da cantora, como também várias camadas novas dela própria, seja em corpo, sem medo de entregar sua nudez, voz, já que previamente eram segundos e terceiros no vocal e por fim, mais e mais facetas de sua capacidade como musicista, não falhando em abocanhar novos fãs e colocar os já de carteirinha em êxtase!

Eu adoraria achar que é apenas exagero meu, mas o que SOPHIE faz realmente vai bem além do que apenas criar música, se há uma forma mais exata de definir isso, seria alquimia sonora. Seja frenética ou extremamente suave, artificial ou crua, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES automaticamente vai além de ser apenas um álbum maravilhoso e se torna uma grande promessa do que esta por vir, e isso pode ser absolutamente tudo o que SOPHIE imaginar ou quiser, pois poder para criar qualquer coisa,  já está claro que ela tem. Mesmo trabalhando com aspectos mais experimentais e industriais, a aliança com o pop permite que o trabalho da cantora seja mais do que bem-vindo aonde quer que ele seja levado. Se eu tiver que citar algum contra do álbum, talvez seja esse pequeno problema se manifestando nessa resenha, e vamos a ele: QUAL A NECESSIDADE DE UM TÍTULO TÃO GRANDE, PESTE? TENHA PENA DE MEUS DEDOS MULHER! Mas fora isso, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES é sem sombra de dúvidas um dos melhores lançamentos do ano e mais do que recomendado para toda e qualquer pessoa… Evangélicos nem tanto, eles provavelmente vão achar que o diabo está envolvido, mas veja bem… Sem o pacto nós nada somos, e o da SOPHIE é um exemplo a ser seguido.

OUÇA: “It’s Okay To Cry”, “Is It Cold In The Water?” e “Immaterial”

Liars – Titles With The Word Fountain


O lançamento de TFCF em 2017 marcou a transformação do grupo nova-iorquino de rock alternativo em um projeto solo conceitual e experimental de Angus Andrew, tendo como resultado um dos álbuns mais diferentes até então, trazendo com muito mais força a expressão calcada na excentricidade de Angus. Titles With The Word Fountain foi gravado nas mesmas sessões de estúdio que originaram seu predecessor e traz faixas um pouco mais soltas e alguns experimentos lúdicos ainda que envoltos na mesma atmosfera de sentimentos pesados de TFCF.

As sensações gerais que ficam depois de algumas passadas pelo álbum são de incompletude e pressa. Com poucas faixas passando dos dois minutos de duração, é difícil desenvolver algum raciocínio musical mais complexo e completo e, mesmo que  boas ideias estejam ali, parece que uma pressa de fazer a próxima música impediu ótimas ideias de serem mais trabalhadas. Temos um exemplo disso logo na segunda faixa “Face In Ski Mask Bodies To The Wind” que traz uma ideia interessantíssima de percussão num compasso pouco usual fazendo um ritmo constante, combinado com uma mistura de sintetizador e vocoder mas que é logo interrompida pra dar lugar a um synth carregado, anunciando uma boa ideia que nunca se completa. A pressa em testar uma ideia fica ainda mais evidente porque na faixa seguinte, “Murdrum”, o mesmo conceito de arranjo é feito de uma forma muito melhor, aproveitando essa ideia pra construir momentos de tensão que realmente são recompensados dentro da faixa e essa é uma constante em todo o álbum, revelando que com um pouco mais de tempo, o resultado final poderia ter sido muito mais impactante.

A ordem das faixas também é algo estranho e que parece não ter sido muito bem pensado, além da já citada repetição de arranjos em faixas subsequentes, o mood geral nunca fica muito bem definido, mesclando de forma aleatória faixas muito sombrias com outras muito lúdicas. O melhor exemplo disso é o instrumental sinistro “P/A\M” que é seguido pela quase divertida “Fantail Creeps” que brinca com um fraseado instrumental da típica música de estádios de beisebol. Mesmo com faixas curtíssimas, é absurdamente cansativo chegar até o final do álbum porque quando você está quase imerso em alguma vibe, ela é logo cortada e você é transportado pra outro estado mental nada a ver, dificultando o engajamento de prosseguir com a audição e fazendo ser mais difícil ainda querer voltar pro começo e passar por tudo isso de novo.

É difícil descartar a ideia de que Titles With The Word Fountain é apenas um compilado das sobras do processo criativo que originou TFCF, ainda mais sabendo que ambos os álbuns foram feitos na mesma época. Quase todas as faixas de Titles With The World Fountain tem um paralelo muito mais bem feito em seu predecessor e, embora a performance e arranjos de Angus Andrew sejam interessantes o suficiente pra prender a atenção por alguns instantes, a impressão que fica é de que todas as faixas desse trabalho mais recente são na verdade os rascunhos do anterior. Na melhor das hipóteses, esse álbum serve como uma “ versão do diretor” do primeiro trabalho totalmente solo de Angus Andrew à frente do Liars, apresentando pros fãs mais engajados um pequeno vislumbre se seu processo criativo.

OUÇA: “Murdrum”, “Past Future Split”, “Fantail Creeps” e “Perky Cut”.

Animal Collective – Tangerine Reef


Não é só por ser seu álbum mais palatável que Merriweather Post Pavilion é a obra mais reconhecida do Animal Collective, no entanto, desde seu lançamento em 2009, a banda passou a dar passos largos em direção ao experimentalismo. Tangerine Reef parece ser uma linha de chegada desse processo. A ausência de Noah Lennox, mais conhecido como Panda Bear, na produção do álbum também ajuda a explicar um som menos energético, acelerado.

No entanto, ao investigarmos o contexto atrelado a esse novo lançamento, a comparação com os álbuns anteriores parece um tanto injusta. Tangerine Reef faz parte de uma obra audiovisual feita em colaboração com o Coral Morphologic, dupla que mistura arte e ciência, formada por um música e um biólogo. Tal reunião ocorreu na esteira da comemoração do Ano Internacional dos Corais, a fim de gerar conscientização a respeito de como essas espécies são ameaçadas.

Típico objeto de arte contemporânea, Tangerine Reef propõe uma experiência sensorial, buscando capturar a essência da vida marinha, representando sua solidão e mistérios de uma forma um tanto abstrata e distópica. Não funciona muito bem como “áudio” apenas, porém. Sem uma clara divisão de faixas, ao longo do álbum a experiência vai se tornando repetitiva e maçante. Os vários ruídos e camadas parecem sentir falta de uma descarga energética que nunca vem. No fim das contas, porém, é louvável que uma banda fuja de sua zona de conforto para criar algo tão inventivo, mesmo que isso frustre as expectativas dos fãs.

OUÇA: Nada a destacar, é meio que uma única enorme faixa.