FKA twigs – MAGDALENE



A cantora e compositora britânica FKA twigs retorna à cena com o lançamento de seu segundo álbum de estúdio, batizado de MAGDALENE, um álbum emocionalmente denso em que twigs, apoiando-se na simbologia atrelada à figura de Maria Madalena, reflete sobre  o que significa encontrar cura e compaixão em meio aos tempos marcados por profunda decepção e tristeza. 

Em MAGDALENE, a figura de Maria Madalena é explorada enquanto uma mulher mística capaz de trazer cura a si mesma e aos outros, um arquétipo que acompanha a experiência profunda que twigs apresenta aos ouvintes. A própria cantora mencionou em uma entrevista que a figura de Maria Madalena sempre a intrigou e ela sempre viu essa personagem da história enquanto uma mulher forte, poderosa e dotada de um poder curativo imenso, em contraste com as imagens negativas atribuídas a ela na cultura popular ao longo dos séculos.

O álbum é um mergulho em águas profundas que trazem consigo a memória de decepções, caminhos tortuosos, dias sombrios e experiências traumáticas que marcaram a vida da cantora nestes últimos 5 anos desde o lançamento de seu primeiro álbum LP1. No entanto, twigs, se apresentando por meio do arquétipo de Maria Madalena, reconhece a graça e a força que traz em si e compreende de forma profunda seu poder curativo. Maria Madalena é o símbolo de força e regeneração encontrado por twigs durante os eventos mais obscuros de sua vida.

Do ponto de vista sonoro, o álbum é mais introspectivo, mais sombrio e mais “quieto” que  seu antecessor. Algumas ideias pioneiras introduzidas em LP1 voltam a aparecer nesse álbum, principalmente a atmosfera espacial proporcionada por um singelo piano, pelos os vocais aéreos e suspirados de twigs e pelas tímidas batidas de um sintetizador onipresente. twigs atualiza alguns temas sonoros presentes no álbum anterior e mostra como os aperfeiçoou nestes últimos anos.

Faixas como “home with you”, “sad day” e “mary magdalene” são exemplos perfeitos da capacidade vocal da cantora e do seu poder de mexer com as emoções do ouvinte. O fechamento do álbum com “cellophane” apenas sela uma experiência emocionante vivida ao longo das faixas anteriores. Não é possível permanecer neutro emocionalmente ao passar por essas e outras faixas. O tema do álbum é perfeitamente sentido antes mesmo de ser plenamente compreendido. A qualidade das faixas também demonstra como a cantora evoluiu desde LP1 e veio a ser um dos principais nomes do R&B alternativo (e uma das principais influências desde então).

MAGDALENE é um álbum profundo, introspectivo e belo, embora seja um pouco assustador em certos momentos. O conceito por trás do álbum e a delicadeza com que twigs trata de assuntos tão pessoais e tão tristes se entrelaçam de forma belíssima e o resultado disso é inesquecível. Certamente, MAGDALENE é um dos trabalhos mais significativos de 2019.

OUÇA: “home with you”, “mary magdalene” e “cellophane”

Ariel Pink – Oddities Sodomies Vol. 2


Faz sentido que um artista cuja carreira atinge a marca dos 20 anos, como Ariel Pink, inicie um processo de revisitar e lançar compilações e trabalhos menos lapidados feitos ao longo dessas duas décadas. Com a trinca de discos Underground, Oddities Sodomies Vol. 2 e Loverboy o artista californiano e a gravadora nova iorquina Mexican Summer abrem essa etapa e inauguram uma discussão mais reflexiva sobre a obra do músico como um todo.

Nascido e formado na Califórnia, Ariel Pink começou sua trajetória com apoio de seus pais para se tornar um artista plástico. Apesar da graduação no California Arts Institute, onde ele conheceu nomes como John Maus, que colabora na faixa-título de Loverboy, foi na música que Ariel Pink se destacou, apostando em referências vintage dos anos 70 e 80 para consolidar um gênero hoje categorizado como hypnagogic, um tipo de lofi-chillwave fortemente permeado pela nostalgia tecnológica que marcou o estilo de Ariel Pink ao longo desses 20 anos e 14 álbuns.

Esse esforço em trazer uma atmosfera mediada pela tecnologia vintage, intoxicados pelo som do gótico e new wave de nomes dos anos 1980 como The Cure, poderiam facilmente fazer com que a nostalgia da obra de Ariel Pink soasse datada: a obsessão com a cultura de fitas cassete e sintetizadores. Porém, a constante referência à fantasmagoria, por exemplo, com o nome assombrado de seu projeto solo inicial “Ariel Pink’s Haunted Graffiti”, faz com que essa nostalgia não se torne “apolítica”, como sinalizou David Keenan do the Wire, responsável por cunhar o termo hypnagogic pop, uma vez que cria uma consciência geracional.

Esse senso de assombração permeado por um bom humor presente nas letras cheias de trocadilhos são os elementos mais característicos da obra de Ariel Pink e marcas especialmente presentes em Oddities Sodomies Vol. 2.

Apesar de não ser tão cheia de uma proposta estética bem acabada como outros trabalhos de Ariel Pink, vale lembrar do frenético pom pom, de 2014, ou do adorável Mature Themes, de 2012, sinalizado pela Pitchfork como um dos 100 melhores discos da década até então em 2014, Oddities Sodomies Vol. 2 tem momentos memoráveis: “Something About Michael Landon”, “Bolivian Soldier”, “The World Is Yours” e “The Law”, com participação de John Maus, são todas ótimas faixas, com pitadas de comentário social.

Na Pitchfork, Nathan Taylor Pemberton traz a idéia de “hauntology”, cunhada por Derrida e explorada por Mark Fisher, ao relembrar uma entrevista de 2006 na qual Ariel Pink reflete sobre o tempo e espaço da música. A música de Ariel Pink traria uma energia de “tempo colapsando em si mesmo”, como sinal de que a cultura havia chegado em um ponto no qual nada podia mais morrer.

A obra de Ariel Pink e a nova trinca de compilações da Mexican Summer pairam sobre a música contemporânea como um lembrete de que, mesmo sem um corpo físico que pode ser queimado como uma fita cassete, o passado de certa forma vive no presente — mas só se algum gasparzinho com sintetizadores decidir manter ele assim.

OUÇA: “Something About Michael Landon”, “Bolivian Soldier”, “The World Is Yours” e “The Law”

Battles – Juice B Crypts



O Battles é uma banda que encolheu. Começando como um quarteto, hoje está reduzido à dupla John Stanier na bateria e Ian Williams, no teclado e guitarra – casualmente, os dois músicos com mais experiência no cenário do Math Rock, membros de projetos anteriores como Tomahawk e Don Caballero, respectivamente. Mas independente das baixas, o som que a banda apresentou sempre trouxe duas características constantes: a técnica de alto nível nos ritmos e riffs; e um teor lúdico na sua sonoridade, que faz as composições serem divertidas de se ouvir. E Juice B Crypts, lançado neste mês de outubro, mantém a regra.

O novo disco é quase inteiramente orientado pelos teclados, que guiam as principais linhas melódicas e os ritmos quebrados do disco junto à percussão. Nesse sentido, há horas mais repetitivas, como na faixa-título, mas temos momentos de evolução muito bem construídos, nos quais parece não fazer tanta falta o número reduzido de integrantes, como “Fort Greene Park”, maior faixa do álbum, e a abertura em “Ambulance”. Nada que eles já não tenham feito, mas com a consistência mantida lá dos primeiros trabalhos na década passada.

Contudo, o que chama atenção aqui, só de passar o olho pelos títulos das músicas, é a presença de vários artistas convidados. E como a capa multicolorida faz lembrar, é uma espécie de atira-pra-todo-lado de universos bem distintos, indo de medalhão do rock progressivo – Jon Anderson, em “Sugar Foot” – ao rap experimental. 

Essa falta de consistência é, indiscutivelmente, o pecado do disco. Em algumas horas, a banda acaba em alguns casos mais servindo como uma banda de apoio para o universo sonoro de seus agregados, em vez de criar uma soma real das partes. Isso fica evidente na participação de Sal Principato, do lendário grupo dance-punk Liquid Liquid, em “Titanium 2 Step”, e em “Last Supper On Shasta Pt. 1”, com o Tune-Yards. A parceria de resultado mais interessante, por incrível que pareça, é com os rappers do Shabazz Palaces em “IZM”, que embora fique muito deslocada de contexto, consegue pegar o melhor de ambos os grupos. 

Mas o saldo, depois do encerramento com a boa “Last Supper On Shasta Pt. 2” é positivo. Juice B Crypts traz um Battles de som renovado quatro anos depois de La Di Da Di, indo mais direto ao ponto nos arranjos, e, para o bem ou para o mal, apoiado em várias parcerias.

OUÇA: “Fort Greene Park”, “IZM”, “Last Supper On Shasta Pt. 2”

Kim Gordon – No Home Record



Quais fatores definem nossa identidade? Como as coisas que fazemos ou as pessoas que temos ao redor de nós influi em quem somos? E se essas coisas estão atreladas a nós por anos, décadas, quais as marcas que deixam quando ficam para trás?

É quase inevitável pensar em questões assim quando escutamos o primeiro álbum solo de Kim Gordon. Pois não tem como a artista não ter ficado marcada por suas décadas de trabalho à frente do Sonic Youth, uma das bandas que ajudou a definir o rock alternativo desde os anos 80. O que, no entanto, não quer dizer que Gordon tenha ficado parada desde 2011. De lá para cá foram nada menos do que 3 discos lançados com projetos como Body/Head e Glitterbust, além de vários EPs, aparições na TV e no cinema e até um livro de memórias. Mas, mesmo antes do fim do Sonic Youth, Gordon já se envolvia em uma série de projetos paralelos, como a banda Free Kitten.

Talvez faça mais sentido pensar em No Home Record como uma continuação desse trabalho multifacetado de Gordon do que em buscar nele ecos do Sonic Youth. Não que não existam paralelos. Em alguns aspectos, o debute de Gordon lembra os álbuns que o Sonic Youth fez em sua era de ouro, no fim dos anos 80 e começo dos 90. Os sons angulares, com uma forte pegada industrial, os vocais distantes e cool. Mas mesmo esses fatores já haviam voltado à tona nos projetos mais recentes da musicista. No Home Record pode não ser, nem de longe, o álbum mais experimental de Gordon nos últimos anos, mas compartilha do mesmo impulso desses. Da vontade de fazer coisas diferentes, de testar suas possibilidades. De todas essas coisas que a arte experimental prima por fazer.

Talvez por isso seja um disco tão variado. Vamos desde um punk relativamente simples com “Hungry Baby” até, de forma mais surpreendente, experimentações melódicas que parecem sair da mesma estrutura do trap, como na faixa “Paprika Pony”. Vindo de uma artista tão completa como Gordon, nada deveria nos surpreender. E, de fato, quando analisamos friamente, não surpreende mesmo. Pois, ainda que variado e rico, No Home Record cai em algo que volta a aproximá-lo de alguns álbuns do Sonic Youth: é um trabalho extremamente intelectual. Suas faixas são criadas em torno de estruturas bem definidas, e, a partir disso, são bem estruturadas. Colocar juntas todas essas partes exige um esforço mental, além de grande conhecimento sobre diferentes estilos musicais e sobre o que é cool. Essas são qualidades que ninguém pode negar que Kim Gordon tenha e das quais se utiliza muito bem.

O que isso significa, no entanto, é que não estamos diante de uma obra musical leve, para ouvirmos no modo aleatório. O álbum exige certa dedicação. Quase como ler um manifesto. Pois, de certa forma, é isso que é. No Home Record é uma espécie de declaração daquilo que podemos esperar da música de Gordon daqui para a frente. Não por acaso a música que fecha o disco é chamada “Get Yr Life Back”. E, julgando por aquilo que Kim reunião nessa coleção sonora, ficamos sabendo que ela não vai ignorar sua história com a banda que a tornou famosa, mas que sua identidade certamente não se resume a sua história.

OUÇA: Air BnB”, “Hungry Baby” e “Get Yr Life Back”

Jenny Hval – The Practice Of Love



Até o lançamento do EP The Long Sleep, em 2018, eu não via a norueguesa Jenny Hval como alguém cujo trabalho criava um engajamento óbvio. Além da complexidade e excentricidade dos arranjos, Hval nunca abordou assuntos simples. De menstruação a capitalismo, ao longo de 6 álbuns e uma década de criação, Jenny Hval produziu uma série de discos herméticos, cujos assuntos abordados eram de enorme complexidade. Depois de The Long Sleep, um EP um pouco mais acessível, com alguns elementos marcados de um jazz relaxado, esperei ansiosamente pelo lançamento de The Practice Of Love.

E a espera não foi em vão.

Não sei se pela escolha de um tema mais amplo e até bem comum, em seu sétimo álbum, Jenny Hval, cujo trabalho foi marcado pelo esforço avant gard, se mostra mais aberta. Hval, que, segundo ela mesma, sempre se ocupou de temas mais marginais aos cânones da inspiração, segue distante de qualquer abordagem comum e simplificada para o amor. Longe de abordar o amor romântico explicitamente, Hval explora, como o título do álbum já sugere, práticas possíveis para se compartilhar um sentimento. Assim, ela dá continuidade ao que vem propondo ao longo de, agora, 7 álbuns: uma exploração de temas, uma tentativa de aproximação, tentativas de proposições sobre os temas que ela escolhe abordar. 

Apesar de fortemente marcado pelo experimentalismo pelo uso de spoken word e por faixas inteiras compostas pela sobreposição de diálogos, é na fronteira do pop que Jenny Hval realiza o potencial do clímax construído por todos os outros elementos tipicamente avant gard. A artista aposta no dance e no trance para efetivamente chegar lá: “Ashes To Ashes”, com pontos de aproximação com heranças eurodance, poderia facilmente botar uma festa pra dançar, função difícil de imaginar para o resto da obra de Hval. 

Explorar o eurodance e o trance trouxe mais do que profundidade à trajetória densa de proposições teóricas arrojadas de Hval; criou uma ponte por meio da qual se torna mais fácil acessar as reflexões sobre expressões e práticas possíveis do amor.

Essas referências ficam ainda mais gritantes em “Six Red Cannas”, faixa que contou com a colaboração de Vivian Wang (ex-The Observatory), da artista visual Felícia Atksinson e da australiana Laura Jean. As três colaboram com outras faixas do álbum em diversas configurações internas, trazendo ainda mais profundidade estética para o álbum e ampliando os horizontes de possibilidades musicais.

The Practice Of Love é, antes de qualquer coisa, uma colagem etérea de possíveis abordagens para o amor. O experimentalismo munido de abertura ao acesso criam um terreno fértil de interpretações para o que é, afinal, a prática do amor.

Por meio de metáforas simples para assuntos delicados como gravidez, família, expressão de gênero, Hval materializa no cotidiano sentimentos complexos, permeados tanto pelo ato primal de sentir algo, quanto pela construção teórica de conceitos e discussões sociais. Com figos secos, cremes encontrados em banheiros de outras pessoas, passeios de carro por desertos, menções a outras artistas como Georgia O’Keefe e Joni Mitchell, Jenny Hval constrói um universo de materialização de possibilidades de reflexão.

Extremamente sensível e delicado, The Practice Of Love é a consolidação de Jenny Hval como uma artista que constrói sua obra como um todo: a abordagem pop, o questionamento presente ao longo do disco sobre os processos de escrita e de produção criativa abrem ainda outras discussões além da prática do amor. Jenny Hval questiona a própria obra, a própria trajetória, de forma que esse álbum se torna, de certa forma, um ciclo em si mesmo.

OUÇA: “High Alice”, “The Practice Of Love”, “Ashes To Ashes” e “Six Red Cannas”

Charli XCX – Charli



Charlotte Aitchison, ou Charli XCX, é uma força no mundo pop atual, mesmo que em grande parte seja por trás dos holofotes. A moça escreveu músicas como “I Love It”, para a dupla Icona Pop, assim como “Tonight” para o Blondie e “Señorita”, do Shawn Mendes com a Camila Cabello. Em paralelo a isso, a moça tem seu próprio material e inúmeras participações com outros artistas.

Seu novo trabalho solo, simplesmente chamado Charli, é tecnicamente seu terceiro álbum de estúdio e o que veio seguindo Sucker de 2014. Nesse meio tempo essa moça fez de tudo menos ficar parada. Entre Sucker e Charli, a moça lançou o EP Vroom Vroom e duas mixtapes, Number 1 Angel e a maravilhosa e subvalorizada Pop 2.

Pop 2 é a obra prima das mixtapes, um trabalho extremamente variado e com participações de nomes que vão desde Carly Rae Jepsen e CupcakKe até Tove Lo, Pabllo Vittar, Kim Petras e Caroline Polachek. Desde Vroom Vroom, Charli tem apostado em produções inusitadas, que vão mais pro lado estranho do pop e pc music. Completamente diferente do que havia apresentado nos seus primeiros discos, True Romance e Sucker.

E agora Charli segue a mesma linha de pop do futuro que ela havia nos apresentado em Pop 2, com um time estonteante de colaboradores: Lizzo, Sky Ferreira, Troye Sivan, Pabllo Vittar, HAIM, Christine and the Queens e até Clairo e Yaeji. O resultado é um trabalho bastante diverso, mas que tem a voz de Charli XCX – tanto literal quanto metaforicamente – no centro o tempo todo.

De uma certa forma, esse é seu primeiro álbum pop com produção real pop desde que o mundo começou a prestar atenção nela. E o resultado não é muito o que o mundo pop estava esperando. Mas, vindo da Charli XCX, não ser o pop que se estavam esperando já era o esperado (?). Tem tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo nesse álbum que a coisa mais fácil de ocorrer é você se perder ou se distrair enquanto o escuta. A faixa “Click”, com Kim Petras e Tommy Cash, é talvez o maior exemplo disso. Sua produção muda de direção tantas vezes em seus quatro minutos que quando acaba parece que um trem passou por cima de você.

Um momento quase desnecessário do álbum, e me dói muito escrever isso, fica com a participação da maravilhosa Lizzo em “Blame It On Your Love”. Trata-se de uma música que já apareceu antes em Pop 2, na época chamada apenas de “Track 10”, que foi regravada, reescrita e resultou em uma versão bem menos interessante do que a original, cujo verso da Lizzo é quase desperdiçado por que não faz muito sentido e não casa com o resto.

Charli peca pelo excesso. Tudo aqui é demais, e nem sempre isso serve pra elevar as músicas. É um álbum com 15 faixas no total e muitas delas estão longe de ser o melhor que a Charli é capaz de fazer. Há momentos em que ela e seus colaboradores brilham e chega quase a ser mágico, como “Gone” (com Christine and the Queens), “Cross You Out” (com Sky Ferreira) e “Shake It” (com Big Freedia, Brooke Candy, Pabllo Vittar e CupcakKe). Mas no geral, o álbum faz com que o ouvinte perca um pouco o interesse no meio das faixas.

Charli XCX já é um nome gigantesco no mundo pop, mesmo que não esteja nunca em níveis Beyoncé de reconhecimento. Mas tudo bem. Ela faz parte de uma geração de cantoras pop que se importam e muito com a música em si, assim como Carly Rae Jepsen e Robyn. Charli é um álbum desafiador, Charli tem do começo ao fim o ponto de vista da própria Charli. Nem sempre funciona, mas é inegável que ela sabe muito bem o que está fazendo e, principalmente, o porquê de fazer o que faz da forma que faz.

OUÇA: “Gone”, “Cross You Out”, “Next Level Charli”, “Shake It”, “February 2017”, “White Mercedes” e “1999”

Pharmakon – Devour



No universo de gêneros musicais que tendem ao experimental, como o noise, o papel da música como meio costuma sofrer uma inversão. Mais do que condutora de uma narrativa eloquente, nesse estilo, a música age como um gatilho, provocando no ouvinte sensações mais primitivas do que sentimentos ou pensamentos racionais, quase reações instintivas que se originam das distorções, efeitos e rupturas que esse gênero musical explora. Entretanto, essa direção artística pode ser uma faca de dois gumes, por que se de um lado, um experimento bem sucedido causa marcas duradouras no espectador que podem transcender até sua capacidade de as explicar de maneira razoável, um experimento mal sucedido falha até mesmo em provocar uma sensação ruim, chegando perigosamente próximo de uma experiência inócua, nula. Um exemplo desse risco pode ser encontrado em Devour, disco mais recente da artista de noise Pharmakon.

Quarto disco de estúdio da artista nova-iorquina, Devour vem dois anos depois do último projeto, Contact, e compreende 36 minutos de noise divididos em cinco faixas. Explorando relevos sonoros que passam por distorções, modulações vocais e sintetizadores, Pharmakon procura construir uma atmosfera opressiva e sufocante no disco, alcançando com isso resultados variados, mas que em sua maioria caem no campo da repetição e da monotonia.

Uma vez que a orientação artística de artistas de noise com essa abordagem tende a procurar causar desconforto e incômodo (e obras como Virgins, de Tim Hecker, Excavation, de Haxan Cloak, Black Vase, de Prurient, Replica, de Oneohtrix Point Never e Puce Mary surgem como excelentes exemplos de obras que exploram esse estilo), muito do sucesso do projeto vai depender ou da capacidade do artista de surpreender seu público ou de construir ambientes que provoquem a sensação de inquietação desejada, e Devour falha nas duas frentes, não sendo agressivo o suficiente para atacar a audiência e muitas vezes retornando a composições seguras que se resolvem muito próximas da monotonia.

Seja nas influências de industrial e a percussão em longos intervalos de “homeostasis”, os graves pulsantes e a sirene estridente e ondulante de “spit it out”, os guinchos e os efeitos distorcidos da voz de Pharmakon em “deprivation”, pouco na composição da obra parece ir além da exploração rasa de efeitos sonoros que tem a intenção de tirar o ouvinte da zona de conforto. Mais do que isso, a duração excessiva das faixas (a maioria passando de seis minutos) para composições de tão pouca duração e com uma agressividade tão controlada torna o resultado final especialmente cansativo e monotônico. Como uma ideia morna que apesar disso foi repetida à exaustão.

Obras de noise carregam um potencial grande de serem marcantes, justamente por sua motivação artística de propor algo desconfortável, que foge às referências seguras do ouvinte. Para isso, é essencial que as composições sejam provocadoras, de preferência dirigindo seus golpes de posições inesperadas. Devour não é um bom exemplo de nenhuma das duas coisas, mas com otimismo, quem sabe a segurança da obra leve o ouvinte a procurar outras, que o ameacem realmente.

OUÇA: “spit it out”.

black midi – Schlagenheim



No contexto atual de como se consome música, sem limites territoriais e físicos pra ouvir qualquer artista, seja ele estourado nas paradas da América, ou isolado no seu quarto no interior da Bélgica, a concepção de nichos musicais começa a perder sentido. Ok ok, talvez pelo menos a sua exclusividade, que é o ponto principal que define esse conceito. E se antigamente cenas inteiras se construíam e desconstruíam fora dos holofotes, hoje em dia só basta que uma ideia interessante atinja as pessoas certas, iniciando um efeito dominó que, só por esse boca-a-boca virtual massivo, leva uma banda esquisita a um público que não só aceita seus trejeitos, como também acaba carregando em si uma parte dessa bizarrice para seus próprios projetos.

Com um show simples em uma sessão da rádio KEXP, a banda britânica black midi chamou atenção por suas estruturas temporais puxadas do post hardcore que, por sua vez, puxou as mesmas do jazz lá no início dos anos 90. Se essa era uma sonoridade que atingia a um nicho limitado na sua época, perpassando por bares e casas de shows pequenas, mas com um público fiel ao movimento, hoje em dia esse gênero possui um “crossover appeal” devido a como suas influências em bandas mais modernas acaba criando interesse em quem quer mais coisas do tipo.

Então, não é de se surpreender que uma banda como black midi assine com uma grande gravadora sem perder aquilo que a faz única. Se, de certa forma, em Schlagenheim, esteticamente a banda puxe muito da ideologia DIY (do it yourself) de seus antecessores, a produção mais detalhada dá espaço para todos os instrumentos respirarem sem atropelar uns aos outros no processo, algo complicado de se fazer mantendo meio termo entre o bagunçado e o polido. Pois mesmo que as músicas estejam organizadas de forma perfeccionista, as mutações pelas quais elas passam estão longe de ser previsíveis.

E esse equilíbrio também é exigido do ouvinte, que pode optar pelas passagens pegajosas e sublimes de “Speedway”, canção que soa mais livre das pretensões de variabilidade estrutural que o resto do álbum, ou pela imprevisibilidade de “Of Schlagenheim” e “Western”, que se utilizam de uma série de dinâmicas de gêneros diferentes, mudando de propósito ao longo de seus percursos, e mantendo sua curiosidade. E mesmo assim, em “bmbmbm”, a banda se utiliza de sua própria pressuposta flexibilidade para brincar com o público, se usando de uma nota pela maior parte da música, sempre quase ao ponto de quebrar, mantendo o interesse e a expectativa de quem já espera um descarrilhamento depois de 6 músicas totalmente voláteis.

A atmosfera criada aqui também tem parte importante na definição de uma sonoridade coesa, já que mesmo que as canções saltem entre diferentes ritmos elas todas possuem uma bateria cirúrgica que complementa qualquer ideia que se infiltra repentinamente, guitarras sincopadas e vocais histéricos que dão uma sensação de desconforto, principalmente na melhor música do álbum, “Near DT, MI”, que junta uma intro voraz com um verso calmo que constrói um suspense que prende o ouvinte até estourar de novo, com vocais e guitarras esquizofrênicas.

Tudo em Schlagenheim possui um charme artístico de coisas que já existiam antes na cena, mas mistura tudo em uma modelagem nova, dando um novo respiro pro gênero e tornando tudo mais interessante devido ao modo imprevisível, cirúrgico e dissonante que se entrega. black midi prova que é possível conciliar uma sonoridade fiel aos seus antecessores, que desconstruíam as estruturas da música em si, e uma produção moderna e palatável para um público maior. É difícil não ficar animado com uma banda dessas, sinceramente.

OUÇA:  “Speedway”, “Near DT, MI”, “bmbmbm”, “953”, “Ducter”

Flying Lotus – Flamagra



O músico, produtor, DJ e rapper norte-americano Steve Ellison, a.k.a Flying Lotus, retornou à cena com seu aguardado sexto álbum de estúdio, batizado de Flamagra, cinco anos após o lançamento do aclamado You’re Dead!. Flamagra é um trabalho ousado de Flying Lotus que, longe de ser entretecido por um conceito ou ideia que perpassa todo o álbum, nos apresenta diversas rotas musicais e conceituais espalhadas ao longo das 27 faixas que o compõem.

O novo álbum de FlyLo pode ser visto como uma grande confluência das influências musicais e dos contemporâneos do artista, um verdadeiro Panteão do atual cenário musical do jazz, hip hop e do funk, trazendo colaborações tão icônicas quanto diversas como Anderson .Paak, George Clinton, Herbie Hancock, Solange, Tierra Whack, Denzel Curry, Toro y Moi, Thundercat e até um trecho de uma fala do aclamado diretor David Lynch.

Isso explica a multiplicidade de caminhos musicais trilhados ao redor do álbum, que comunga faixas mais funkeadas e cantadas como “Burning Down The House”, com feat de George Clinton, com faixas essencialmente instrumentais como “Fire Is Coming”, que conta com o snippet icônico de David Lynch, “Inside Your Home”e “Heroes”, a excelente faixa de abertura. Mas não para por aí. O álbum também traz esforços mais ligados ao rap, como a faixa “Black Balloons Reprise” com Denzel Curry, que serve como uma continuação mais sombria do tema explorado por Curry em sua própria faixa “BLACK BALOONS” do álbum TA13OO (2018), além de explorar os temas sonoros mais caros ao R&B alternativo na faixa “Land Of Honey”, com participação de Solange Knowles, entre tantas outras influências espalhadas pelas 27 faixas do álbum.

O único ponto negativo de Flamagra é que seu tamanho pode desencorajar uma boa parcela dos ouvintes, uma vez que o álbum não tem uma célula de sentido única, nem um fio condutor evidente que prenda a atenção do ouvinte ao longo das faixas. Talvez o único elemento que liga todas as faixas é a ideia de fogo e chamas (daí o nome Flamagra), mas até isso não é tão evidente durante a audição do álbum.

Ainda que peque pela falta de coesão em alguns momentos, Flamagra é um álbum que merece ser ouvido do início ao fim, já que testemunha o imenso poder criativo de Lotus e nos brinda com participações de uns dos grandes artistas de nossa época, tanto os consolidados quanto aqueles em ascensão.

OUÇA: “The Climb”, “Fire Is Coming” e “Black Balloons Reprise”

Mac DeMarco – Here Comes The Cowboy


É chegada a hora de dizer a verdade. Não há mais escapatória. As aparências não mais podem enganar. Fato é que eu sou fã de Mac DeMarco. Gosto muito. Eu sei, tem gente que diz que é superestimado. Que virou meme. Que é genérico. Não me importo com essas discussões. Sou uma pessoa simples: ouço Mac Demarco e me sinto feliz e satisfeito com a vida. Quando vi pela primeira vez seu A Take Away Show no canal La Blogothèque, fiquei embasbacado. Comprei um violão só para aprender os riffs do início de “Still Beating” e sair também pelas ruas cantando, fumando, conversando, intercalando os sons da canção com o ambiente barulhento, sirenes e crianças brincando. Esse show, por si só, merecia um review. Acontece que o músico acaba de nos presentear com seu novo álbum, Here Comes The Cowboy, um disco íntimo produzido por ele próprio – e é sobre esse episódio que esse texto se debruçará. Acenda seu cigarro.

Ouvir um álbum de Mac DeMarco é como fazer terapia. Mas é ele quem está no divã, você é o terapeuta, escutando. Desde seu primeiro trabalho, o artista construiu um eu-lírico sincero, indulgente, compassivo. Lamenta-se pelos tempos que foram e não mais voltarão, pelo cansaço da vida cotidiana, pelas mulheres que amou, pelos relacionamentos que não deram certo. Tudo isso tocando uma guitarra como se fosse dormir em qualquer momento. E funciona. Em Here Comes The Cowboy, há mais do Mac Demarco de sempre. E só isso, na verdade. Eu me contento, mas se você espera ouvir algo que seja ousado, experimental e diferente do que o músico tem apresentado em sua carreira, talvez esteja decepcionado. Ainda assim, convenhamos, é sempre bom experimentar a intromissão de canções despreocupadas e odes a cigarros na dinâmica da costumeira rotina.

E quando digo que o novo álbum é apenas um pouco mais do que usualmente se espera de DeMarco, estou, de certa forma, glorificando o disco. O primeiro single, “Nobody”, é genuinamente bom, em todos os sentidos. Paradoxalmente, Mac faz alusão ao fato de que tornou-se uma criatura, um ícone da música – ainda que uma parte de si almejasse ser um artista reconhecido, a outra parte ainda sente saudades do anonimato, da pessoa comum, desconhecida. Uma posição que não há volta: ‘I’m the preacher / A done decision / Another criature / Who’s lost its vision.

Em ‘K’, DeMarco faz um tributo à sua namorada, Kiera McNally, e, olha, ela deve ter curtido bastante. Em entrevista para a revista Huck, diz: “Me and Kiera have known each other six years longer than we’ve dated. It took time for us to get here but she’s part of who I am, I’m part of who she is, and I wouldn’t want it any other way. I’m really lucky”. Em um riff melancólico, o eu-lírico evidencia a experiência de crescer em um relacionamento e junto com ele: “Still so much for me to learn / And as I do, my love stays with you”. Que bonitinho, gente.

E é de amargar o coração, mas nem tudo são flores. O álbum segue uma linha melódica bem sutil, com riffs calmos e um arranjo instrumental leve. E esse é o problema: em muitos momentos, parece que falta algo. Um clímax, um refrão, um entusiasmo. O álbum tem quarenta e seis minutos e às vezes a mudança de faixa não é perceptível para os ouvintes menos atentos. Isso sem falar da terrível “Choo Choo”. Péssima. Pulem essa e tudo certo.

No geral, Here Comes The Cowboy é um bom disco. Há faixas esquecíveis, sim, mas vale a pena. Nada como as obras primas anteriores (não que caiba a comparação), mas um deleite que tem seu merecimento, no fim das contas. Por fim, encerro com um trecho da canção ‘Little Dogs March’, talvez um prelúdio do fim desse estágio de quase sete anos escrito pelo próprio DeMarco: “hope you had your fun…all those days are over now”.

OUÇA: “Nobody”, “Little Dogs March”, “Heart To Heart” e “K”