black midi – Schlagenheim



No contexto atual de como se consome música, sem limites territoriais e físicos pra ouvir qualquer artista, seja ele estourado nas paradas da América, ou isolado no seu quarto no interior da Bélgica, a concepção de nichos musicais começa a perder sentido. Ok ok, talvez pelo menos a sua exclusividade, que é o ponto principal que define esse conceito. E se antigamente cenas inteiras se construíam e desconstruíam fora dos holofotes, hoje em dia só basta que uma ideia interessante atinja as pessoas certas, iniciando um efeito dominó que, só por esse boca-a-boca virtual massivo, leva uma banda esquisita a um público que não só aceita seus trejeitos, como também acaba carregando em si uma parte dessa bizarrice para seus próprios projetos.

Com um show simples em uma sessão da rádio KEXP, a banda britânica black midi chamou atenção por suas estruturas temporais puxadas do post hardcore que, por sua vez, puxou as mesmas do jazz lá no início dos anos 90. Se essa era uma sonoridade que atingia a um nicho limitado na sua época, perpassando por bares e casas de shows pequenas, mas com um público fiel ao movimento, hoje em dia esse gênero possui um “crossover appeal” devido a como suas influências em bandas mais modernas acaba criando interesse em quem quer mais coisas do tipo.

Então, não é de se surpreender que uma banda como black midi assine com uma grande gravadora sem perder aquilo que a faz única. Se, de certa forma, em Schlagenheim, esteticamente a banda puxe muito da ideologia DIY (do it yourself) de seus antecessores, a produção mais detalhada dá espaço para todos os instrumentos respirarem sem atropelar uns aos outros no processo, algo complicado de se fazer mantendo meio termo entre o bagunçado e o polido. Pois mesmo que as músicas estejam organizadas de forma perfeccionista, as mutações pelas quais elas passam estão longe de ser previsíveis.

E esse equilíbrio também é exigido do ouvinte, que pode optar pelas passagens pegajosas e sublimes de “Speedway”, canção que soa mais livre das pretensões de variabilidade estrutural que o resto do álbum, ou pela imprevisibilidade de “Of Schlagenheim” e “Western”, que se utilizam de uma série de dinâmicas de gêneros diferentes, mudando de propósito ao longo de seus percursos, e mantendo sua curiosidade. E mesmo assim, em “bmbmbm”, a banda se utiliza de sua própria pressuposta flexibilidade para brincar com o público, se usando de uma nota pela maior parte da música, sempre quase ao ponto de quebrar, mantendo o interesse e a expectativa de quem já espera um descarrilhamento depois de 6 músicas totalmente voláteis.

A atmosfera criada aqui também tem parte importante na definição de uma sonoridade coesa, já que mesmo que as canções saltem entre diferentes ritmos elas todas possuem uma bateria cirúrgica que complementa qualquer ideia que se infiltra repentinamente, guitarras sincopadas e vocais histéricos que dão uma sensação de desconforto, principalmente na melhor música do álbum, “Near DT, MI”, que junta uma intro voraz com um verso calmo que constrói um suspense que prende o ouvinte até estourar de novo, com vocais e guitarras esquizofrênicas.

Tudo em Schlagenheim possui um charme artístico de coisas que já existiam antes na cena, mas mistura tudo em uma modelagem nova, dando um novo respiro pro gênero e tornando tudo mais interessante devido ao modo imprevisível, cirúrgico e dissonante que se entrega. black midi prova que é possível conciliar uma sonoridade fiel aos seus antecessores, que desconstruíam as estruturas da música em si, e uma produção moderna e palatável para um público maior. É difícil não ficar animado com uma banda dessas, sinceramente.

OUÇA:  “Speedway”, “Near DT, MI”, “bmbmbm”, “953”, “Ducter”

Flying Lotus – Flamagra



O músico, produtor, DJ e rapper norte-americano Steve Ellison, a.k.a Flying Lotus, retornou à cena com seu aguardado sexto álbum de estúdio, batizado de Flamagra, cinco anos após o lançamento do aclamado You’re Dead!. Flamagra é um trabalho ousado de Flying Lotus que, longe de ser entretecido por um conceito ou ideia que perpassa todo o álbum, nos apresenta diversas rotas musicais e conceituais espalhadas ao longo das 27 faixas que o compõem.

O novo álbum de FlyLo pode ser visto como uma grande confluência das influências musicais e dos contemporâneos do artista, um verdadeiro Panteão do atual cenário musical do jazz, hip hop e do funk, trazendo colaborações tão icônicas quanto diversas como Anderson .Paak, George Clinton, Herbie Hancock, Solange, Tierra Whack, Denzel Curry, Toro y Moi, Thundercat e até um trecho de uma fala do aclamado diretor David Lynch.

Isso explica a multiplicidade de caminhos musicais trilhados ao redor do álbum, que comunga faixas mais funkeadas e cantadas como “Burning Down The House”, com feat de George Clinton, com faixas essencialmente instrumentais como “Fire Is Coming”, que conta com o snippet icônico de David Lynch, “Inside Your Home”e “Heroes”, a excelente faixa de abertura. Mas não para por aí. O álbum também traz esforços mais ligados ao rap, como a faixa “Black Balloons Reprise” com Denzel Curry, que serve como uma continuação mais sombria do tema explorado por Curry em sua própria faixa “BLACK BALOONS” do álbum TA13OO (2018), além de explorar os temas sonoros mais caros ao R&B alternativo na faixa “Land Of Honey”, com participação de Solange Knowles, entre tantas outras influências espalhadas pelas 27 faixas do álbum.

O único ponto negativo de Flamagra é que seu tamanho pode desencorajar uma boa parcela dos ouvintes, uma vez que o álbum não tem uma célula de sentido única, nem um fio condutor evidente que prenda a atenção do ouvinte ao longo das faixas. Talvez o único elemento que liga todas as faixas é a ideia de fogo e chamas (daí o nome Flamagra), mas até isso não é tão evidente durante a audição do álbum.

Ainda que peque pela falta de coesão em alguns momentos, Flamagra é um álbum que merece ser ouvido do início ao fim, já que testemunha o imenso poder criativo de Lotus e nos brinda com participações de uns dos grandes artistas de nossa época, tanto os consolidados quanto aqueles em ascensão.

OUÇA: “The Climb”, “Fire Is Coming” e “Black Balloons Reprise”

Mac DeMarco – Here Comes The Cowboy


É chegada a hora de dizer a verdade. Não há mais escapatória. As aparências não mais podem enganar. Fato é que eu sou fã de Mac DeMarco. Gosto muito. Eu sei, tem gente que diz que é superestimado. Que virou meme. Que é genérico. Não me importo com essas discussões. Sou uma pessoa simples: ouço Mac Demarco e me sinto feliz e satisfeito com a vida. Quando vi pela primeira vez seu A Take Away Show no canal La Blogothèque, fiquei embasbacado. Comprei um violão só para aprender os riffs do início de “Still Beating” e sair também pelas ruas cantando, fumando, conversando, intercalando os sons da canção com o ambiente barulhento, sirenes e crianças brincando. Esse show, por si só, merecia um review. Acontece que o músico acaba de nos presentear com seu novo álbum, Here Comes The Cowboy, um disco íntimo produzido por ele próprio – e é sobre esse episódio que esse texto se debruçará. Acenda seu cigarro.

Ouvir um álbum de Mac DeMarco é como fazer terapia. Mas é ele quem está no divã, você é o terapeuta, escutando. Desde seu primeiro trabalho, o artista construiu um eu-lírico sincero, indulgente, compassivo. Lamenta-se pelos tempos que foram e não mais voltarão, pelo cansaço da vida cotidiana, pelas mulheres que amou, pelos relacionamentos que não deram certo. Tudo isso tocando uma guitarra como se fosse dormir em qualquer momento. E funciona. Em Here Comes The Cowboy, há mais do Mac Demarco de sempre. E só isso, na verdade. Eu me contento, mas se você espera ouvir algo que seja ousado, experimental e diferente do que o músico tem apresentado em sua carreira, talvez esteja decepcionado. Ainda assim, convenhamos, é sempre bom experimentar a intromissão de canções despreocupadas e odes a cigarros na dinâmica da costumeira rotina.

E quando digo que o novo álbum é apenas um pouco mais do que usualmente se espera de DeMarco, estou, de certa forma, glorificando o disco. O primeiro single, “Nobody”, é genuinamente bom, em todos os sentidos. Paradoxalmente, Mac faz alusão ao fato de que tornou-se uma criatura, um ícone da música – ainda que uma parte de si almejasse ser um artista reconhecido, a outra parte ainda sente saudades do anonimato, da pessoa comum, desconhecida. Uma posição que não há volta: ‘I’m the preacher / A done decision / Another criature / Who’s lost its vision.

Em ‘K’, DeMarco faz um tributo à sua namorada, Kiera McNally, e, olha, ela deve ter curtido bastante. Em entrevista para a revista Huck, diz: “Me and Kiera have known each other six years longer than we’ve dated. It took time for us to get here but she’s part of who I am, I’m part of who she is, and I wouldn’t want it any other way. I’m really lucky”. Em um riff melancólico, o eu-lírico evidencia a experiência de crescer em um relacionamento e junto com ele: “Still so much for me to learn / And as I do, my love stays with you”. Que bonitinho, gente.

E é de amargar o coração, mas nem tudo são flores. O álbum segue uma linha melódica bem sutil, com riffs calmos e um arranjo instrumental leve. E esse é o problema: em muitos momentos, parece que falta algo. Um clímax, um refrão, um entusiasmo. O álbum tem quarenta e seis minutos e às vezes a mudança de faixa não é perceptível para os ouvintes menos atentos. Isso sem falar da terrível “Choo Choo”. Péssima. Pulem essa e tudo certo.

No geral, Here Comes The Cowboy é um bom disco. Há faixas esquecíveis, sim, mas vale a pena. Nada como as obras primas anteriores (não que caiba a comparação), mas um deleite que tem seu merecimento, no fim das contas. Por fim, encerro com um trecho da canção ‘Little Dogs March’, talvez um prelúdio do fim desse estágio de quase sete anos escrito pelo próprio DeMarco: “hope you had your fun…all those days are over now”.

OUÇA: “Nobody”, “Little Dogs March”, “Heart To Heart” e “K”

Avey Tare – Cows On Hourglass Pond


Em fevereiro, pude resenhar Buoys, o sexto álbum solo de um dos membros do Animal Collective, e percebi diálogos, inevitáveis, com outros processos e com a história da banda. Agora, posso resenhar Cows On Hourglass Pond, novo álbum de outro dos Animal Collective, Avey Tare (ou David Portner). Assim como foi inevitável para mim associar e comparar muito do solo Buoys a trabalhos do Animal Collective — com os quais Noah Lennox não necessariamente estava envolvido — vejo enormes paralelos possíveis entre Cows On Hourglass Pond e álbuns antigos do Animal Collective.

Mas se para a resenha de Buoys fiz algum esforço para driblar a (indevida) relação entre esse lançamento e o recente álbum visual Tangerine Reef, do Animal Collective, do qual Noah Lennox não participou, posso tomar a liberdade de comparar — e, mais importante, de distanciar — livremente o homogêneo Tangerine Reef de Cows On Hourglass Pond, novo disco de Avey Tare.

Como se mostra constante no trabalho do Animal Collective e de seus membros individualmente, existe uma preocupação, um tipo de vínculo, criado com o que se entende por natureza e Cows On Hourglass Pond não fica atrás nesse sentido. Permeado pela figura das vacas e cavalos desde a capa, título e todo o material promocional, até faixas explícitas, como “HORS_”, sinto que, ao contrário do sufocante e sem graça Tangerine Reef, uma reflexão audiovisual sobre recifes de corais, Cows On Hourglass Pond nos coloca em perspectiva.

Amplamente influenciado por beats de early techno, o disco mistura essa base ao violão meio “percurssionado” que marca outros trabalhos do Animal Collective, como Sung Tongs sendo o exemplo mais óbvio e “The Meeting of the Waters” a referência à natureza e ao etéreo mais inevitável, em contraponto a trabalhos mais frenéticos como Merriweather Post Pavilion, Paiting With ou Strawberry Jam. Em grande medida, a tentativa de Avey de criar uma atmosfera de natureza respirável é bem sucedida, principalmente, não pelo afastamento dessa onda “frenética”, mas pelo uso cuidadoso dessa possibilidade de forma não tão agressiva: com seus vocais de altos e baixos menos gritados e com o violão.

O arranjo musical de estranheza sutil e delicada combina com muito do que se traz nas letras, em um acordo com a contemporaneidade que só Avey, sozinho ou com o Animal Collective, consegue trazer sem soar forçado. Avey estabelece diálogos com a natureza não por uma negação do contraponto a ela, mas por pequenas interferências reflexivas sobre o a complexidade do descanso, evidente em “Saturdays (Again)”, sobre máquinas, robôs em “K.C. Yours”, e muito sobre memória, amizade, nostalgia. Anseios muito subjetivos misturados a anseios muito coletivos que, por algum motivo, funcionam e se equilibram.

É fácil para mim elogiar qualquer coisa que qualquer membro do Animal Collective faça. É um som que me pega em um nível que poucos outros conseguem. São essas pequenas estranhezas, piadas equinas, referências cômicas entrelaçadas com melodias emotivas, complexas e cheias de camadas que criam um ambiente ao qual é fácil me entregar. Então, entregue de novo, escutem Cows On Hourglass Pond e aproveitem.

OUÇA: “HORS_”, “What’s The Goodside?” e “Saturdays (Again)”

Girlpool – What Caos Is Imaginary



Desde sua estreia em 2014, Girlpool tem se aprofundado na expansão da sua sonoridade. What Chaos Is Imaginary chega para provar essas mudanças, consolidando um compilado de sons muito mais expansivo e maduro do que em seus outros projetos. A adição de elementos distintos, antes não presentes nos seus discos, ajuda a captar a energia distinta que ronda a produção desse álbum.

Apesar dessa nova composição que ajuda a criar uma atmosfera coesa para o álbum, a temática não é tão distante assim daquilo que já haviam apresentado, mas talvez trabalhada de uma maneira mais polida.

O mais interessante de todo o projeto pode ser, talvez, como essa conjugação de diferentes influências torna difícil definir um único rumo para os ritmos. Em momentos, se mantém amplamente tradicionais, remetendo a projetos antigos. Em outros, vão por caminhos inexplorados.

A adição de elementos eletrônicos sutis em “Chemical Freeze” tornam esse momento um dos mais diferenciados do projeto, capturando a energia mais ousada em que a dupla se jogou para o disco. “Minute In Your Mind” altera um pouco essa tonalidade, mas ainda consolida o aspecto mais dream-pop da banda.

Ainda assim, poderíamos pensar que escutamos outro álbum completamente diferente quando iniciam-se “Hoax And The Shrine” ou “Swamp And Bay”: a primeira, tomada pelos elementos acústicos com poucas interferências, a segunda, com uma sonoridade muito mais afirmativa e incisiva, mas também mais previsível. Outros momentos, como “Hire”, voltam para a origem mais grunge e despojada.

Explorando o indie-rock em sua tradição, a dupla transita por distintos elementos sonoros que fogem da sua estrutura tradicional que, caso não ocorressem, deixariam o álbum num patamar muito mais raso e monótono.

O elemento vocal do disco também se destaca, uma vez que a combinação das vozes e divisão enquanto solos funciona bem e criam uma boa harmonização. Nos momentos individuais é possível entender a particularidade de cada um, o que também favorece na diversificação do álbum.

Mais ousada, a dupla dá passos importantes para uma sonoridade própria e mais única, mas ainda tropeça para encontrar uma estruturação melódica que funcione sem tornar-se relativamente previsível ou maçante em alguns momentos.

OUÇA: “Chemical Freeze” e “Minute In Your Mind”

Xiu Xiu – Girl With Basket Of Fruit



Há algumas semanas escutei pela primeira vez Girl With Basket Of Fruit. Desde então tenho ensaiado como começar essa resenha, inevitavelmente passando por uma fase de “se você odeia barulhos desesperadores NÃO ESCUTE ESSE DISCO”. Acabei me impedindo de fazer isso porque, claro, seria desonesto com o trabalho do duo californiano Xiu Xiu: o trabalho experimental deles é, essencialmente, barulhos desesperadores.

Isso não é uma crítica fechada em si. Eu adoro barulhos desesperadores em muitos outros contextos — e outros álbuns do Xiu Xiu. Mas dessa vez alguma coisa desandou.

Fundada em 2002 e com 14 discos lançados, Xiu Xiu começou sua carreira musical apostando na desconstrução da formação musical tradicional de uma banda da cena alternativa: a base era feita por uma bateria eletrônica e complementada por instrumentos não convencionais, como instrumentos indígenas norte-americanos, violões mexicanos e por aí vai. Tudo isso permeado por uma dose de letras e performances tristes, desoladoras e devastadoras, que beiram uma espécie de violência não-física.

Sabendo de tudo isso, aceitando tudo isso, gostando de tudo isso, escutei a Girl With Basket Of Fruit esperando pelo Xiu Xiu altamente aclamado de Angel Guts, aquele que me fez escutar e aceitar e gostar de vivenciar esse desespero e tristeza que permeiam a trajetória da banda — e a trajetória pessoal do fundador Jamie Stewart.

Composto por 9 faixas somando tímidos 36 minutos, Girl With Basket Of Fruit é muito menos melódico e pop do que seu antecessor FORGET, trazendo os barulhos digitais frenéticos como espinha dorsal do disco, não apenas como um elemento, como em FORGET. A consistência, beirando a repetitividade, das faixas entre si faz com que o disco soe como um bloco de barulho e informação, como se por 36 minutos fossemos sugados por um vortex — e saíssemos dele intactos, só um pouco tontos.

Girl With Basket Of Fruit impressiona pela violência e intensidade musical, como Xiu Xiu já impressionou antes (os vocais da saturadíssima “I Luv the Valley OH!” ainda me impressionam depois de anos). Mas tudo que a agressividade do disco possibilita de violência quando se escuta, ela deixa de lado em termos de não se fazer esquecer. Depois de escutá-lo pela primeira vez há algumas semanas, precisei escutar mais duas vezes enquanto escrevia a resenha para ter certeza de que não deixaria detalhes de lado.

Para além da leve tontura, Girl with Basket of Fruit é um disco que não me causou muita coisa. Não causou boas impressões, não possibilitou boas reflexões e será rapidamente esquecido. O disco não traz a profundidade que marca a trajetória das letras e composições do Xiu Xiu, costumeiramente marcadas por comentários crus sobre política contemporânea e isolamento social e emocional e se perde em si mesmo.

Para uma banda como Xiu Xiu, que não tem constrangimentos ou amarras em se utilizar do que existe de mais visceral na música e composição experimental para fazer uma impressão livre da necessidade de apenas impressionar e desafiar, esse disco é perturbador. Mas vazio. É como uma pancada na cabeça: vai doer. E vai passar.

Para uma banda que já foi capaz de fazer profundas cicatrizes com sua humanidade crua e visceral, uma pancada na cabeça com uma bateria eletrônica frenética é pouco demais para se levar em consideração.

OUÇA: “Amargi ve Moo”, “Pumpkin Attack on Mommy and Daddy”, “Normal Love”, “The Worst Thing”

Panda Bear – Buoys


É difícil pensar em alguma banda cujos integrantes produzam na escala que o Animal Collective produz e que conservem qualidade e integridade com a proposta inicial. Sem precisar fazer grandes malabarismos estilísticos, o Animal Collective (em todas as suas variações de composição) fez, desde o estreante Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished, de 2000, outros 10 discos enquanto conjunto, além de 9 EPs de qualidade tão boa quanto os discos e mais 3 álbuns ao vivo.

Um dos membros mais “ativos” da banda, Noah Lennox, que atende pelo nome artístico de Panda Bear, não fica atrás em sua produção solo: são pelo menos 6 álbuns atribuídos a ele enquanto performer solo. Assim como no Animal Collective, Noah manteve, ao longo desses 20 anos de atividade, uma linha produtiva extremamente coerente. Coerentes a ponto de beirarem o autoplágio. Se não fosse a capacidade de inovação e posição de vanguarda impressionante de suas produções (tanto solo quanto coletivas), cada um dos muitos lançamentos seria um tédio.

Mas esse não é o caso. Nunca é o caso. E não é o caso para Buoys (leia “bóias”, segundo o próprio Lennox em entrevista para O Globo), novo disco a ser lançado em fevereiro. Com 9 faixas de duração moderada (a mais longa mal chega aos 5 minutos), Buoys foi composto durante o período de preparação e turnê do aclamado Sung Tongs, que passou pelo Brasil no segundo semestre de 2018.

Apostando novamente no combo voz-violão, o álbum não é marcado pela complexidade das composições e nem dos arranjos, mas pela criação de uma atmosfera: vemos muito o uso dos ecos e efeitos na voz, pontuações eletrônicas e um uso ritmado do violão como marcador de percussão, assim como no Sung Tongs, mas em menor escala, deixando espaços menos preenchidos e mais reflexivos.

Assim como no coletivo Tangerine Reef, que, embora seja o primeiro trabalho do Animal Collective sem a participação de Panda Bear, Buoys coloca, em algum grau, a temática marítima — e enfrenta o mesmo problema de similaridade entre as faixas, como se cada uma fosse uma explicação da anterior e tornando difícil a distinção entre eleas, que Tangerine Reef. Claro que pode ser um risco associar esses dois trabalhos, especialmente porque um deles sequer conta com a participação de Lennox, mas, para mim, é impossível dissociar os trabalhos solo e coletivos nos quais Noah se envolve.

Se para o Tangerine Reef a NME falou em tediosos “tons de cinza” em contraposição à “bagunça colorida” de Merriweather Post Pavillion, podemos evocar a figura das cores para garantir para Buoys um lugar ao sol: os vocais são interessantes, pronunciados e, mesmo sem a sensação de “coletividade” que marca os vocais do Animal Collective, e do próprio trabalho solo do Panda Bear em outros momentos, evoca uma espécie de solidão compartilhada, como se estivéssemos à deriva (em bóias, que seja) sabendo que existem outras pessoas naquela situação.

Diferentemente dos tímidos 60% que Tangerine Reef marcou segundo o Metacritic, com opiniões ferozmente negativas, como a da NME, vejo Buoys no espectro da maturidade de Lennox: depois de um sucesso estrondoso do solo Panda Bear Meets The Grim Reaper, de 2015, avaliado acima dos 80% no Metacritic, e de uma excelente turnê com o Sung Tongs, Panda Bear nos mostra que ele é capaz de revisitar os próprios trabalhos e criar algo especial. Não propriamente novo, mas não menos especial por isso.

OUÇA: “Dolphin”, “Cranked”, “Master” e “Home Free”

The Good, The Bad & The Queen – Merrie Land


Quando Damon Albarn reuniu um supergrupo (incluindo até o baixista do The Clash, Paul Simon) em 2007, o resultado foi um álbum único. Não foi à toa que se passaram mais de 10 anos sem que houvesse um sucessor para aquele primeiro trabalho. E é bom que algumas coisas sejam assim, afinal, capturar todo o conjunto de fatores que fizeram do disco algo tão belo é algo difícil de se fazer. Mas vivemos na época em que tudo que gera uma certa repercussão precisa ser mantido, para alimentar a fome por conteúdo que parece ser cada vez mais difícil de saciar. O que quer dizer que não chega a ser de se admirar que The Good, The Bad & The Queen tenha voltado.

É impossível dizer que esse não seja o momento propício para o tipo de música que o grupo faz. O tempo atual precisa desse tipo de arte que se alimenta do conhecimento do seu passado para comentar o presente mais do que 2007 precisava. O fato de ser um conjunto de fatores tão particularmente britânico tinha um potencial muito forte de ressoar nesse momento em que o Reino Unido se encontra tão polarizado em torno da questão do Brexit e seus possíveis efeitos sociais e econômicos. E a faixa que dá título ao novo álbum, “Merrie Land”, se utiliza de um dos apelidos do país para traçar um esboço irônico dessa situação. Se não é tão mordaz quanto “Parklife” (da outra banda de Albarn, o Blur), ao menos consegue evocar um pouco da sensação de falta de chão, de desesperança. A linguagem é o que diferencia este dos outros projetos de Albarn. Se suas letras costumam ser diretas relacionadas ao mundo contemporâneo, o letrista que vemos aqui é mais afeito às metáforas, a uma forma poética de transmitir suas ideias. Esse é um elemento cuja continuidade em relação ao álbum de estréia é mais evidente.

Outras coisas, no entanto, mudaram bastante. Se no primeiro disco as imagens que a banda conjurava eram vitorianas, indo desde a capa até a instrumentação, aqui esses elementos são substituídos por referências bem mais recentes, que trocam a perspectiva histórica pela análise do presente. Também os vocais de Albarn se tornam ainda mais centrais nas canções, deixando pouco espaço para que seus colegas estrelados desenvolvam mais seus talentos. De muitas formas, Merrie Land parece um álbum solo. Mesmo que Simon, Tong (guitarrista do The Verve) e Tony Allen (baterista celebre do afrobeat) não tenham tanto espaço para demonstrar seus talentos, é inegável que sua presença continua a ser a arma secreta do supergrupo. Particularmente o baixo é uma presença que agrada sempre que presente, de forma simples mas eficiente.

Não dá para falar que quem gostou de The Good, The Bad & The Queen vá gostar de Merrie Land. O Segundo é bastante inferior ao primeiro. Nunca conseguindo chegar ao elevado patamar que estabeleceram na sua estréia. Os completistas da obra de Albarn definitivamente devem escutar, especialmente se gostaram de Everyday Robots, seu único álbum solo oficial, e que tem algumas similaridades com esse disco. Os anglófonos de carteirinha também devem se agradar, seja para ter uma ideia do ambiente cultural no Reino Unido atual, como pela simples natureza extremamente britânica que perpassa Merrie Land. É a versão sonora de uma xícara de earl gray. Para os demais, talvez ouvir apenas algumas das faixas já seja suficiente.

OUÇA: “Merrie Land”, “The Truce Of Twilight” e “The Poison Three”

How to Dress Well – The Anteroom


The Anteroom é o nome da nova coletânea de Tom Krell, a pessoa por trás do projeto conhecido como How To Dress Well. No quinto disco do artista a presença de elementos experimentais está mais marcada do que nunca.

Distribuídas em mais de 60 minutos, são 16 novas canções que, em partes se assemelham ao material entregue em registros anteriores, como “Care”, o mais recente; e por outro lado apresentam uma face do artista totalmente experimental. Neste ponto, nenhuma novidade, visto que sua obra apresentava essa caminhada em direção ao experimentalismo desde os primeiros discos.

Não é novidade que, com o projeto, Krell gosta de adicionar synth frenéticos e batidas difusas aos seus vocais claros, límpidos e quase inseguros. Em The Anteroom é possível perceber a forma complexa como o cantor se relaciona com a sua própria obra por meio de elementos ainda mais cacofônicos e batidas que se perdem em meio ao ruído e à repetição.

Veja bem, não há nada de errado com isso – é a forma de apresentação de seu trabalho que, numa crescente, em relação aos discos anteriores, ruma para o experimental. Basta considerar o disco Care, de 2014, de faixas como as radiofônicas “Lost Youth/Lost You” e “Can’t You Tell” e novos registros, como “False Skull 7”, por exemplo, muito mais enigmático.

O lado synthpop do cantor não está perdido, muito embora neste novo registro ele se aproxime mais de arranjos que navegam pelo lo-fi e, inclusive, tenha produzido faixas totalmente instrumentais. Muitas vezes a voz, é uma leitura que pode ser feita, nem é o recurso principal da canção – muito embora esteja ali para nos lembrar que Krell sussurra calmamente em meio ao instrumental delicado que pode ser pesado ou não.

OUÇA: “Bodyfat”, “Hunger” e “The Anteroom”

Jerry Paper – Like A Baby


O multi-instrumentista Lucas Nathan é uma daquelas figuras que a gente não sabe se é realmente um cara esquisito ou se está constantemente tirando sarro da nossa cara. Seus primeiros trabalhos eram carregados de sarcasmo e ironia, usando elementos do synthpop e da música de videogame pra fazer piadas autodepreciativas. Like A Baby continua na pegada mais conceitual introduzida pelo artista em Toon Time Raw! de 2016 e é ao mesmo tempo estranho e cativante.

Uma coisa que se nota logo de cara se você já teve contato com algum trabalho anterior do Jerry Paper é que ele soa muito menos bizarro. Ainda tem aquela cara de coisa estranha típica do artista mas a esquisitice fica por conta do ar retrô que a maioria das músicas carrega e menos pelo experimentalismo exagerado nos arranjos. Todas as estruturas das músicas são calcadas em gêneros que tem cara de épocas muito características como a bossa nova e o jazz mais comercial dos anos 50, a música de elevador e um pouco do synthpop dos anos 80 e jingles de produtos domésticos dos primórdios da tv americana, representados de forma bem caricata através dos synths e longe da sofisticação experimental do álbum anterior.

Fiquei um bom tempo tentando pensar num bom jeito de definir esse álbum e o melhor que consegui foi imaginar alguém dando um rolê no shopping pra reclamar do capitalismo no twitter. A sonoridade das músicas como um todo é bastante familiar e agradável, quase inofensiva, e parece algo que você encontraria como música ambiente enquanto procura a praça de alimentação. Ao mesmo tempo em que os arranjos e melodias são bastante agradáveis, temos letras que criticam o capitalismo tardio de forma irônica e o melhor exemplo disso está em “Did I Buy It?” que usa um pop simples e confortável pra criticar até que ponto somos nós que decidimos o que consumimos ou se apenas seguimos o que nos é sugerido.

O momento mais ousado em termos de forma musical é “Something’s Not Right” que usa a estrutura simples de músicas que tocariam num bar de coquetéis chique e dá uma pirada com solos de órgão eletrônico típicos do jazz fusion numa faixa que não chega a ter dois minutos de duração, demonstrando toda a capacidade do artista de criar complexidade mesmo dentro de formas simples e rígidas. A letra aqui novamente usa da ironia ao comentar banalidades pra escancarar os absurdos de uma vida movida pelo dinheiro.

O tempo todo o álbum joga com a ideia de se aproximar e alienar da realidade e “More Bad News” que fecha o trabalho brinca muito bem com isso por ser um crooning sentimental típico dos cantores do começo da era do rádio mas que te coloca no estado de apatia que a letra pede, começando com a preocupação de ver ao tempo todo novas notícias ruins que de tanto se repetirem já não causam impacto algum e isso se reflete no instrumental que vai ficando cada vez mais distante até que você deixe de se importar com o que é cantado.

A maior sacada de Like A Baby é usar de sonoridades fáceis de digerir pra falar verdades que você não quer ouvir. Jerry Paper aqui deixa um pouco de lado a sua própria excentricidade pra expor o quão bizarra é a época em que vivemos.

OUÇA: “Grey Area”, “Did I Buy It?”, “My God” e “More Bad News”