How to Dress Well – The Anteroom


The Anteroom é o nome da nova coletânea de Tom Krell, a pessoa por trás do projeto conhecido como How To Dress Well. No quinto disco do artista a presença de elementos experimentais está mais marcada do que nunca.

Distribuídas em mais de 60 minutos, são 16 novas canções que, em partes se assemelham ao material entregue em registros anteriores, como “Care”, o mais recente; e por outro lado apresentam uma face do artista totalmente experimental. Neste ponto, nenhuma novidade, visto que sua obra apresentava essa caminhada em direção ao experimentalismo desde os primeiros discos.

Não é novidade que, com o projeto, Krell gosta de adicionar synth frenéticos e batidas difusas aos seus vocais claros, límpidos e quase inseguros. Em The Anteroom é possível perceber a forma complexa como o cantor se relaciona com a sua própria obra por meio de elementos ainda mais cacofônicos e batidas que se perdem em meio ao ruído e à repetição.

Veja bem, não há nada de errado com isso – é a forma de apresentação de seu trabalho que, numa crescente, em relação aos discos anteriores, ruma para o experimental. Basta considerar o disco Care, de 2014, de faixas como as radiofônicas “Lost Youth/Lost You” e “Can’t You Tell” e novos registros, como “False Skull 7”, por exemplo, muito mais enigmático.

O lado synthpop do cantor não está perdido, muito embora neste novo registro ele se aproxime mais de arranjos que navegam pelo lo-fi e, inclusive, tenha produzido faixas totalmente instrumentais. Muitas vezes a voz, é uma leitura que pode ser feita, nem é o recurso principal da canção – muito embora esteja ali para nos lembrar que Krell sussurra calmamente em meio ao instrumental delicado que pode ser pesado ou não.

OUÇA: “Bodyfat”, “Hunger” e “The Anteroom”

Jerry Paper – Like A Baby


O multi-instrumentista Lucas Nathan é uma daquelas figuras que a gente não sabe se é realmente um cara esquisito ou se está constantemente tirando sarro da nossa cara. Seus primeiros trabalhos eram carregados de sarcasmo e ironia, usando elementos do synthpop e da música de videogame pra fazer piadas autodepreciativas. Like A Baby continua na pegada mais conceitual introduzida pelo artista em Toon Time Raw! de 2016 e é ao mesmo tempo estranho e cativante.

Uma coisa que se nota logo de cara se você já teve contato com algum trabalho anterior do Jerry Paper é que ele soa muito menos bizarro. Ainda tem aquela cara de coisa estranha típica do artista mas a esquisitice fica por conta do ar retrô que a maioria das músicas carrega e menos pelo experimentalismo exagerado nos arranjos. Todas as estruturas das músicas são calcadas em gêneros que tem cara de épocas muito características como a bossa nova e o jazz mais comercial dos anos 50, a música de elevador e um pouco do synthpop dos anos 80 e jingles de produtos domésticos dos primórdios da tv americana, representados de forma bem caricata através dos synths e longe da sofisticação experimental do álbum anterior.

Fiquei um bom tempo tentando pensar num bom jeito de definir esse álbum e o melhor que consegui foi imaginar alguém dando um rolê no shopping pra reclamar do capitalismo no twitter. A sonoridade das músicas como um todo é bastante familiar e agradável, quase inofensiva, e parece algo que você encontraria como música ambiente enquanto procura a praça de alimentação. Ao mesmo tempo em que os arranjos e melodias são bastante agradáveis, temos letras que criticam o capitalismo tardio de forma irônica e o melhor exemplo disso está em “Did I Buy It?” que usa um pop simples e confortável pra criticar até que ponto somos nós que decidimos o que consumimos ou se apenas seguimos o que nos é sugerido.

O momento mais ousado em termos de forma musical é “Something’s Not Right” que usa a estrutura simples de músicas que tocariam num bar de coquetéis chique e dá uma pirada com solos de órgão eletrônico típicos do jazz fusion numa faixa que não chega a ter dois minutos de duração, demonstrando toda a capacidade do artista de criar complexidade mesmo dentro de formas simples e rígidas. A letra aqui novamente usa da ironia ao comentar banalidades pra escancarar os absurdos de uma vida movida pelo dinheiro.

O tempo todo o álbum joga com a ideia de se aproximar e alienar da realidade e “More Bad News” que fecha o trabalho brinca muito bem com isso por ser um crooning sentimental típico dos cantores do começo da era do rádio mas que te coloca no estado de apatia que a letra pede, começando com a preocupação de ver ao tempo todo novas notícias ruins que de tanto se repetirem já não causam impacto algum e isso se reflete no instrumental que vai ficando cada vez mais distante até que você deixe de se importar com o que é cantado.

A maior sacada de Like A Baby é usar de sonoridades fáceis de digerir pra falar verdades que você não quer ouvir. Jerry Paper aqui deixa um pouco de lado a sua própria excentricidade pra expor o quão bizarra é a época em que vivemos.

OUÇA: “Grey Area”, “Did I Buy It?”, “My God” e “More Bad News”

Twenty One Pilots – Trench


O grande problema do hype massivo, causado pela exposição rápida e intensa de um artista ou grupo no mainstream depois de um tempo de carreira passando despercebidos no underground, é o malabarismo que os mesmos são obrigados a fazer para agradar diversos públicos, como a legião de fãs fiéis (sejam os que acabaram de chegar ou os de longa data), os consumidores populares dessa parte mais radiofônica da indústria musical, e os mais céticos, que rejeitam ou estranham seja lá o que aconteceu na sonoridade desses artistas para ocorrer essa ascensão de popularidade. E muitas vezes essa perseguição, seja fanática ou midiática, atrás do novo fenômeno musical que vai produzir um tipo de trabalho que agrade essas porcentagens de diferentes ouvintes acaba afetando a forma como o artista olha para sua própria música, tentando encaixá-la em padrões que nem sempre mantém uma fidelidade ao fluxo natural evolutivo de suas obras.

E se hoje em dia você pedir pra qualquer um falar uma banda que caiu nessa armadilha, provavelmente a maioria te responderia Twenty One Pilots. A dupla de pop/rap/reggae/whatever virou um fenômeno depois do lançamento do álbum Blurryface em 2015, que emplacou alguns singles como “Stressed Out” e “Ride”. O engraçado é que, algumas bandas que caíram nesse buraco de grandes expectativas do público, como Oasis e Arctic Monkeys,  já usaram o mantra “Don’t Believe The Hype” para lidar de forma mais sarcástica e, ao mesmo tempo, rancorosa com esse tipo de buzz que cerca seus nomes.

Então faz todo sentido o uso dessa frase no refrão da música “The Hype”, que abre a segunda metade do novo álbum da banda, Trench. E mesmo que o tipo de mensagem que o vocalista Tyler Joseph quer passar seja bem clara e direta aqui, ela ainda é dita de forma muito mais interessante do que os chiliques anti-rádio de músicas do álbum anterior como “Fairly Local” e “Lane Boy”. Esse é um dos triunfos não só dessa música, mas do trabalho em geral, que possui composições mais complexas lírica e instrumentalmente, demonstrando um claro amadurecimento de ideias que já apareciam em pequenas faíscas antes, como as letras que mostram a luta do cantor contra seus problemas mentais de forma muito mais subjetiva e concisa.

Outro aspecto que floresce aqui é a forma como os beats e as melodias se desenvolvem em grooves mais consistentes, que não tem a instantaneidade tradicional da dupla, deixando as canções respirarem e crescerem lentamente no inconsciente de quem escuta. A forma como “My Blood”, por exemplo, cresce de forma delicada até entrar em um loop de baixo extremamente envolvente e um refrão pegajoso, sem perder tal delicadeza inicial é um dos exemplos de triunfo no que a banda conseguiu evoluir artisticamente. A variedade que essa experimentação, calcada em bases previamente cobertas pela banda, ajuda a criar é a chave pro sucesso de equilibrar esse sentido de trazer algo novo pra quem tem sede disso, e quem espera algo mais digestível e familiar dessas músicas. Momentos com detalhes interessantes como o beat esquizofrênico de “Pet Cheetah” e o baixo selvagem de “Jumpsuit” ajudam a quebrar a fórmula que havia virado ponto comum na obra do Twenty One Pilots, mostrando que são capazes de sair desse molde que a banda criou pra si mesmo anteriormente e ainda fazer algo relevante, e que instigue qualquer tipo de ouvinte.

Porém, o problema aqui é exatamente que essa variação não se prolonga pelo álbum inteiro. Ele é inteiramente construído de “highlights” que capturam sua atenção por um tempo para tentar te jogar no clima dele, e em diversas músicas caminha por uma estrutura que consiste em beats mais calmos com fortes influências de dub, juntamente com refrões que não são lá muito memoráveis e fazem com que tais canções se percam no meio de certas partes muito mais vivas e criativas do álbum. E mesmo que todas elas façam sentido nesse conceito de um mundo ficcional que Tyler e Josh tentam criar pra satisfazer os fãs conspiracionistas, essa mesma ideia é uma das coisas que mais ferem a consistência do álbum.

Então é nesse ponto que o balanço é quebrado, pois mesmo que haja uma evolução nas narrativas concebidas, elas perduram de forma uniforme por muito tempo ao longo dos 56 minutos de “Trench”, tornando-o escravo de um “fanservice” desnecessário que, se não fosse o foco de sua criação, talvez pudesse ter sua duração reduzida, focando melhor em sua coesão e nessas progressões mais fora da curva que certas canções mostraram.

Mesmo sendo mais consistente e maduro que Blurryface, o principal pecado do álbum é a falta de variedade que destacava seu irmão de 2015, mostrando que ainda falta um pouco para o Twenty One Pilots consiga fazer um álbum que agrade a gregos e troianos. Porém, mesmo que não haja nada tão instantâneo como “Stressed Out” aqui, é no mínimo intrigante a forma como a banda construiu algo muito mais poderoso a partir de todas as suas bases anteriores, deixando um sinal de que eles talvez tenham uma carreira que possa ficar cada vez mais interessante.

OUÇA: “Pet Cheetah”, “Jumpsuit”, “My Blood”, “Chlorine” e “Levitate”

SOPHIE – OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES


Começando essa resenha num tom mais pessoal, eu não acho estar desapontado com os lançamentos de 2018, mas eu andava sentindo um… Mal-estar? Inquietação? Não sei ao certo, apenas sentia que alguma coisa estava faltando na leva de álbuns desse ano. Não necessariamente algo que botasse todos os outros artistas no chinelo ou ofuscasse seus trabalhos, apenas algo único, novo… Algo fresco. Algo com uma sonoridade extraterritorial, com uma paleta bem específica de cores em tons frios, com talvez um vermelho se destacando para gerar algum foco, teria que soar familiar, mas ao contrário? De cabeça pra baixo quem sabe… E totalmente destroçado, mas apenas o suficiente pra poder ser reconstruído. E não, eu não fumei, cheirei ou injetei nada, isso é realmente uma necessidade que eu andava sentindo em relação a música ultimamente, e foi exatamente com esses exatos aspectos que SOPHIE me atingiu com uma voadora de dois pés, arregaçando tudo em mim da melhor maneira possível (???). Enfim, a vida sorriu pra mim, e vai sorrir pra você também depois dessa resenha e download. Insira emojis sorrindo e surtando aqui.

O grande barato de OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES é que o quanto mais se analisa ele, mais ideias vão brotando sobre seu desenvolvimento, inspirações e afins. Desde movimentos artísticos que estudamos no ensino médio e aulas de química que a gente faz questão de esquecer, até vida em outros planetas e zoom em supernovas, SOPHIE literalmente parece dissecar o pop e reconstruí-lo usando bases eletrônicas pra trazê-lo de volta á vida de uma maneira nova e inventiva.

Enquanto o compilado PRODUCT (2015) continha fortes singles previamente já conhecidos e dava indício de uma artista totalmente visionária, o mesmo parecia apressado demais para estampar o nome da cantora no mundo, as novas canções, apesar de boas, não faziam juz ao potencial total de SOPHIE. Por sorte, o pouco material foi mais do que o suficiente pra chamar a atenção de outros artistas, e a cantora se manteve mais do que ativa no mercado. Bom, vamos ser sinceros, se tu consegue uma participação em uma música pra Madonna… As coisas andam bem. Não bastando isso, SOPHIE esteve tão envolvida com tantos artistas e gêneros musicais diferentes, que era simplesmente uma questão de tempo ela ter seu lugar embaixo do sol. E foi dito e feito.

De todas suas colaborações, as com Charli XCX (que parece ter tomado SOPHIE como sua queridinha, já com ela há um bom tempo em seus álbuns) e Let’s Eat Grandma talvez sejam as que mais representem o rumo que a cantora resolveu tomar, seja pelo pop envolvido, a desconstrução e remodelagem sensorial que suas batidas causam ou as explosões de ânimo envolvidas em seu trabalho. Mas isso tudo era um aperitivo bem pequeno em comparação com o que estava por vir. OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES trouxe a tona não apenas o já conhecido talento da cantora, como também várias camadas novas dela própria, seja em corpo, sem medo de entregar sua nudez, voz, já que previamente eram segundos e terceiros no vocal e por fim, mais e mais facetas de sua capacidade como musicista, não falhando em abocanhar novos fãs e colocar os já de carteirinha em êxtase!

Eu adoraria achar que é apenas exagero meu, mas o que SOPHIE faz realmente vai bem além do que apenas criar música, se há uma forma mais exata de definir isso, seria alquimia sonora. Seja frenética ou extremamente suave, artificial ou crua, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES automaticamente vai além de ser apenas um álbum maravilhoso e se torna uma grande promessa do que esta por vir, e isso pode ser absolutamente tudo o que SOPHIE imaginar ou quiser, pois poder para criar qualquer coisa,  já está claro que ela tem. Mesmo trabalhando com aspectos mais experimentais e industriais, a aliança com o pop permite que o trabalho da cantora seja mais do que bem-vindo aonde quer que ele seja levado. Se eu tiver que citar algum contra do álbum, talvez seja esse pequeno problema se manifestando nessa resenha, e vamos a ele: QUAL A NECESSIDADE DE UM TÍTULO TÃO GRANDE, PESTE? TENHA PENA DE MEUS DEDOS MULHER! Mas fora isso, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES é sem sombra de dúvidas um dos melhores lançamentos do ano e mais do que recomendado para toda e qualquer pessoa… Evangélicos nem tanto, eles provavelmente vão achar que o diabo está envolvido, mas veja bem… Sem o pacto nós nada somos, e o da SOPHIE é um exemplo a ser seguido.

OUÇA: “It’s Okay To Cry”, “Is It Cold In The Water?” e “Immaterial”

Liars – Titles With The Word Fountain


O lançamento de TFCF em 2017 marcou a transformação do grupo nova-iorquino de rock alternativo em um projeto solo conceitual e experimental de Angus Andrew, tendo como resultado um dos álbuns mais diferentes até então, trazendo com muito mais força a expressão calcada na excentricidade de Angus. Titles With The Word Fountain foi gravado nas mesmas sessões de estúdio que originaram seu predecessor e traz faixas um pouco mais soltas e alguns experimentos lúdicos ainda que envoltos na mesma atmosfera de sentimentos pesados de TFCF.

As sensações gerais que ficam depois de algumas passadas pelo álbum são de incompletude e pressa. Com poucas faixas passando dos dois minutos de duração, é difícil desenvolver algum raciocínio musical mais complexo e completo e, mesmo que  boas ideias estejam ali, parece que uma pressa de fazer a próxima música impediu ótimas ideias de serem mais trabalhadas. Temos um exemplo disso logo na segunda faixa “Face In Ski Mask Bodies To The Wind” que traz uma ideia interessantíssima de percussão num compasso pouco usual fazendo um ritmo constante, combinado com uma mistura de sintetizador e vocoder mas que é logo interrompida pra dar lugar a um synth carregado, anunciando uma boa ideia que nunca se completa. A pressa em testar uma ideia fica ainda mais evidente porque na faixa seguinte, “Murdrum”, o mesmo conceito de arranjo é feito de uma forma muito melhor, aproveitando essa ideia pra construir momentos de tensão que realmente são recompensados dentro da faixa e essa é uma constante em todo o álbum, revelando que com um pouco mais de tempo, o resultado final poderia ter sido muito mais impactante.

A ordem das faixas também é algo estranho e que parece não ter sido muito bem pensado, além da já citada repetição de arranjos em faixas subsequentes, o mood geral nunca fica muito bem definido, mesclando de forma aleatória faixas muito sombrias com outras muito lúdicas. O melhor exemplo disso é o instrumental sinistro “P/A\M” que é seguido pela quase divertida “Fantail Creeps” que brinca com um fraseado instrumental da típica música de estádios de beisebol. Mesmo com faixas curtíssimas, é absurdamente cansativo chegar até o final do álbum porque quando você está quase imerso em alguma vibe, ela é logo cortada e você é transportado pra outro estado mental nada a ver, dificultando o engajamento de prosseguir com a audição e fazendo ser mais difícil ainda querer voltar pro começo e passar por tudo isso de novo.

É difícil descartar a ideia de que Titles With The Word Fountain é apenas um compilado das sobras do processo criativo que originou TFCF, ainda mais sabendo que ambos os álbuns foram feitos na mesma época. Quase todas as faixas de Titles With The World Fountain tem um paralelo muito mais bem feito em seu predecessor e, embora a performance e arranjos de Angus Andrew sejam interessantes o suficiente pra prender a atenção por alguns instantes, a impressão que fica é de que todas as faixas desse trabalho mais recente são na verdade os rascunhos do anterior. Na melhor das hipóteses, esse álbum serve como uma “ versão do diretor” do primeiro trabalho totalmente solo de Angus Andrew à frente do Liars, apresentando pros fãs mais engajados um pequeno vislumbre se seu processo criativo.

OUÇA: “Murdrum”, “Past Future Split”, “Fantail Creeps” e “Perky Cut”.

Animal Collective – Tangerine Reef


Não é só por ser seu álbum mais palatável que Merriweather Post Pavilion é a obra mais reconhecida do Animal Collective, no entanto, desde seu lançamento em 2009, a banda passou a dar passos largos em direção ao experimentalismo. Tangerine Reef parece ser uma linha de chegada desse processo. A ausência de Noah Lennox, mais conhecido como Panda Bear, na produção do álbum também ajuda a explicar um som menos energético, acelerado.

No entanto, ao investigarmos o contexto atrelado a esse novo lançamento, a comparação com os álbuns anteriores parece um tanto injusta. Tangerine Reef faz parte de uma obra audiovisual feita em colaboração com o Coral Morphologic, dupla que mistura arte e ciência, formada por um música e um biólogo. Tal reunião ocorreu na esteira da comemoração do Ano Internacional dos Corais, a fim de gerar conscientização a respeito de como essas espécies são ameaçadas.

Típico objeto de arte contemporânea, Tangerine Reef propõe uma experiência sensorial, buscando capturar a essência da vida marinha, representando sua solidão e mistérios de uma forma um tanto abstrata e distópica. Não funciona muito bem como “áudio” apenas, porém. Sem uma clara divisão de faixas, ao longo do álbum a experiência vai se tornando repetitiva e maçante. Os vários ruídos e camadas parecem sentir falta de uma descarga energética que nunca vem. No fim das contas, porém, é louvável que uma banda fuja de sua zona de conforto para criar algo tão inventivo, mesmo que isso frustre as expectativas dos fãs.

OUÇA: Nada a destacar, é meio que uma única enorme faixa.

Laurel Halo – Raw Silk Uncut Wood


Pra quem já ouviu algum dos trabalhos anteriores de Laurel Halo, Raw Silk Uncut Wood pode parecer algo totalmente diferente e uma quebra com a linguagem diversificada recheada de componentes melódicos e rítmicos que ela tinha adotado até então. No entanto, uma audição cuidadosa revela que muitos dos elementos deste álbum já estavam presentes em menor proporção em registros anteriores e Raw Silk Uncut Wood é apenas a explicitação desse processo.

A primeira coisa que chama atenção numa primeira passada pelo álbum é a ausência da voz de Laurel ou qualquer outra ali. Num movimento conceitual, a artista retira a fala para favorecer as sensações causadas pelo instrumental e por ele somente. Outro elemento que some nesse trabalho é o eletrônico mais carregado que marcava presença nos álbuns anteriores. As baterias eletrônicas desaparecem e sintetizadores ainda são usados mas de uma forma muito mais contida, passando uma aura mais orgânica para o trabalho como um todo.

A faixa-título que abre o álbum é uma das melhores manifestações dessa característica orgânica e sensorial. Ao longo de seus dez minutos de duração somos transportados para um outro estado mental, uma espécie de transe através de suas longas sequências de cordas que constroem a cama para pequenas variações que nos trazem de volta pra realidade por alguns momentos e então nos levam de volta para outro plano. Toques graves de um baixo quase escondido e um órgão sintetizado nas notas mais agudas ressoam ao fundo, flutuando dentro da estrutura e fazendo o ouvinte flutuar junto.

O fim em reverb da primeira faixa faz uma boa transição para “Mercury”, que traz elementos de jazz através de uma cadência simples de piano e uma percussão acelerada e indefnida. Assim como no jazz, somos surpreendidos mas não atavés do virtuosismo de algum dos instrumentistas e sim pela quebra do compasso e a inserção de dissonâncias e flutuações às vezes escondidas atrás da percussão e em outras mais evidentes, silenciando o piano.

A vibe mais dedilhada continua nas duas canções seguintes “Quietude” e “The Sick Mind”, a primeira com uma cadência de xilofone contínua que ao mesmo tempo que marca a melodia, também gera um caráter percursivo e a última com um piano também repetindo uma cadência constante, acentuado por uma textura de sintetizador e baixo acústico que constroem uma atmosfera quase subaquática em alguns momentos.

“Supine” é um rápido lampejo do eletrônico mais carregado de trabalhos anteriores com pouco mais de um minuto e parece totalmente deslocada do restante do trabalho, um corpo estranho que não condiz com a atmosfera criada até aqui.

O álbum encerra com uma “Nahbarkeit” que resgata o caráter orgânico do início do álbum com uma belíssima linha de violoncelo e uma percussão com um toque tribal bem ao fundo. A faixa cresce em alguns momentos tanto em volume quanto em complexidade através da inclusão de pratos e algumas linhas espaciais de synth. A faixa traz uma complexidade difícil de apreender ouvindo apenas uma vez embora tenha pouquíssimos elementos que a constituem. É o momento mais melódico do disco, com quase nenhuma dissonância e um trajeto que evoca nascimento, ascenção, dispersão e luto que continuam ecoando mesmo depois que o álbum acaba.

Utilizando poucos recursos nos momentos certos, Laurel Halo potencializa o caráter sensorial de sua obra. Raw Silk Uncut Wood marca um momento de simplificação na sua linguagem experimental. Despindo o seu som de tudo que poderia ser supérfluo, a artista chega a um estágio de sofisticação elevado construído ao longo de anos de investigação musical.

OUÇA: “Raw Silk Uncut Wood”, “Mercury” e “Nahbarkeit”.

Body/Head – The Switch


Qual é o próximo passo depois de alcançar sucesso de público e de crítica quando ainda existe o ímpeto criativo? Existe mais de uma resposta: Tom Waits atuou em alguns filmes, Dylan e Bowie pintavam, outros artistas começaram novos projetos em que pouco do projeto original pode ser encontrado. Existe assim um ponto positivo e um negativo nessa nova exploração: por um lado, a relação do artista com aqueles que têm contato com o seu trabalho fica mais livremente em segundo plano. Por outro, a segurança de em não precisar mais se colocar a prova para ninguém que não seja seu próprio impulso pode levar o artista ao encontro de obras que soem menos interessantes para alguém que não seja ele mesmo vivendo o processo, o trabalho fica mais particular. É no meio desses dois extremos que caminha The Switch, terceiro disco do duo experimental Body/Head, formado pelo guitarrista Bill Nace e pela ex-baixista do Sonic Youth (que neste projeto toca guitarra), Kim Gordon.

Composto por cinco faixas que se estendem num período de trinta minutos, The Switch mantém a linha estética já explorada pelo Body/Head nos trabalhos anteriores da dupla. Com o uso de microfonia, modulação de volumes, o uso repetido de delays e echos para preencher o som das guitarras, dando à sonoridade do projeto mais volume e relevo ao aproveitar a criação de camadas. Mesmo os vocais de Kim aparecem apenas pontualmente ao longo do disco e cumprem mais o papel de construir texturas do que de apresentar uma narrativa. O experimentalismo de Nace e Gordon passeia pelo noise e até (discutivelmente) pelo ambient com razoável segurança durante a jornada, cadenciando a audição quase hipnoticamente em repetições e ecos.

Por outro lado, é um outro tipo de repetição um dos principais defeitos do disco: para um projeto experimental, existe pouca variação de sonoridade dentro de The Switch, que acaba, ao fim dos trinta minutos, soando quase como uma faixa única. Mais do que isso, a sonoridade apresentada em The Switch pouco difere dos trabalhos anteriores. Enquanto não é necessariamente ruim, não deixa de ser um pouco abaixo do esperado, tanto pelo histórico de Kim quanto pela proposta experimental do duo. Além disso, particularmente em The Switch, a produção, que deixa o som do disco todo com um efeito abafado, apesar de ser uma escolha consciente de Gordon e Nace, nem sempre alcança o melhor efeito possível, deixando a impressão de que o ouvinte poderia explorar mais a fundo os relevos apresentados pelas músicas sem esse efeito. Soa um pouco contraditório fazer um trabalho que propõe a exploração das camadas sonoras da música e depois abafá-las.

Assim, o efeito alcançado por Switch acaba sendo variado. Enquanto a faixa de abertura, “Last Time”, é boa, mas sem causar grande impressão, as duas faixas de encerramento, “Change My Brain” e “Reverse Head”, são cansativas e até excessivamente longas (com 10 minutos cada), em outro contexto, talvez ambas não parecessem tão repetidas, mas depois de outras três faixas em que a variação sonora consiste principalmente de modulações de volume e efeitos de microfonia, duas faixas com essa duração soam como um exagero. “Change My Brain” ainda tem a seu favor a presença maior dos vocais de Kim, no que é mais próximo de um elemento narrativo no disco todo, mas  “Reverse Head” não tem essa vantagem, e acaba sendo um fim morno para o disco da banda.

O ponto de destaque do disco acabam sendo as duas faixas intermediárias do disco: “You Don’t Need” e “In The Dark Room”, a primeira transita mais no campo do noise, aproveitando mais efeitos e as modulações de volume das guitarras para criar uma topografia acidentada, a voz de Kim também aparece como elemento sonoro na faixa. Já a “In The Dark Room” é a melhor faixa do disco, usando os efeitos de delay e echo para envolver o ouvinte em uma sensação como se estivesse flutuando sem gravidade, o uso de microfonia na faixa traz à lembrança o uso do efeito no Sonic Youth e faz pensar que, enquanto Kim se propõe a buscar outras sonoridades, ela não tem interesse em abdicar das suas origens.

No geral, The Switch é um disco interessante. Poderia ser mais com uma variação maior de elementos ou com um experimentalismo mais perigoso, mas a sonoridade, enquanto não é ruim, permanece transitando pelos campos que a banda já havia explorado antes, o que faz com que ele soe seguro, o que é uma péssima característica de um trabalho experimental.

OUÇA: “You Don’t Need” e “In The Dark Room”

Gorillaz – The Now Now


Em The Now Now, sexto disco do projeto de Damon Albarn, o Gorillaz prova mais uma vez que o universo surreal criado pelo casamento da música com o visual possibilita que o grupo transmidiático a criar não apenas um álbum, mas uma paisagem sonora. Quase quinze anos após o debut da banda, sua contribuição para a música continua sendo igualmente inusitada e interessante.

Misturando funk e new wave em um ritmo bastante tranquilo, The Now Now consegue ser um trabalho inventivo porém despretensioso e até mais convencional do que obras passadas do Gorillaz, com canções tranquilas e divertidas que se encaixam numa escuta com fluidez. A faixa-inicial “Humility” já dita o tom groovy e eletrônico que o disco desenvolve ao longo de suas onze faixas.

Além disso, a pouca quantidade de participações especiais (George Benson, Snoop Dogg e Jamie Principle são as exceções) se mostra uma escolha acertada e uma mudança bem-vinda na dinâmica das canções, pois dá mais espaço para a personalidade da banda respirar. Isso possibilita também que Albarn tome frente em seu trabalho, já que é possível perceber mais a identidade do músico.

Em adição ao fator técnico da sonoridade, é possível perceber também nas composições líricas uma ambição de explorar as possibilidades que existem para o Gorillaz abordar temas como solidão e necessidade de união. Canções como “Idaho” podem lembrar os fãs de momentos mais introspectivos do Blur.

OUÇA: “Kansas”, “Idaho” e “Hollywood”.

Oneohtrix Point Never – Age Of


Os meandros da arte são inconstantes, desconhecidos, ora acalentadores, ora agressivos. Esses adjetivos parecem muito bem colocados quando nos referimos ao mundo lúdico das narrativas fantásticas, isto é, quando deparamos com aventuras de príncipes prometidos entremeio reinos de escuridão. Mas o que música e a fantasia literária tem a ver? Tudo. E ouse convencer Daniel Lopatin, o nome por detrás do projeto eletrônico-experimental Oneohtrix Point Never, do contrário. Sua extensa discografia, já composta de dez assinaturas, comprova que Daniel é um obstinado mago em busca de uma chamada música abstrata, o seu reino procurado. Age Of (2018) é o novo capítulo dessa saga. E dessa vez Daniel parece trilhar veredas mais ensolaradas, uma assunção bastante óbvia dado o denso, apocalíptico, mas genial antecessor Garden Delete (2015).

Age Of aparenta ser um disco de cisões. Há a incorporação de colaboradores mais pop-friendly e uma presença mais contundente da voz humana como um instrumento de incursão, agora tão importante quanto o clavecino (é de coisas como essas que estamos falando quando nos referimos ao portfólio do OPN) e dos incontáveis sintetizadores. Mas ainda assim, de algum modo, a opção de trazer estruturas mais assimiláveis em suas músicas não propõe previsibilidade alguma. E nesse sentido, também é possível falar em quebras. Se há uma linearidade na obra toda, essa certamente é o caos. Os pedaços do álbum são dotados de rebeldias particulares, inconciliáveis ao todo, traduzidas por sons dissonantes, reverberações de objetos no espaço e demais sensações que atuam no limite de escape da compreensão. Um bom exemplo disto é faixa We´ll Take It. Como experiência, o disco parece em nenhum momento permitir que o ouvinte se anteponha, ou presuma com alguma assertividade o que vai acontecer; desta forma, paradoxalmente a escolha de uma estética mais “concreta”, ONP promove confusão generalizada. Esse é o mundo mágico abstrato arquitetado e imaginado por Lopatin.

ONP vaga, porém simultaneamente não vaga sem rumo. A faixa myriad.industries, a mais curta do álbum, é um acrônimo de My Record = Internet Addiction Disorder, o que aliado a declarações do próprio artista sobre o tema (mesmo satiricamente) indica que a abstração em Age Of tem cores de uma distopia, uma possível crítica a forma como a música é consumida nos dias de hoje, ou de uma maneira mais genérica, critica a forma como se vive. Se tomarmos esse enfoque, a ansiedade projetada pelo disco para o ouvinte é parelha, talvez, aquela suscitada por esse modo de vida “aprisionador”.  Se é de fato essa a intenção, poucos são os elementos visíveis dentro da obra que levam a alguma conclusão. Daí o fascínio e desagrado da abstração procurada pelo Oneohtrix em Age Of.

De todo modo, Daniel Lopatin traz uma obra desafiadora, mas menos densa e um pouco menos completa que aquela representada pelo disco anterior. A fragmentação entre treze faixas e falta de coerência entre as mesmas frente a um conceito não muito bem estipulado acaba tornando alguns dos estímulos criados pelo álbum pouco significativos. É difícil entender o que se pode assimilar pessoalmente a partir de Age Of, mas o seu grande mérito passa pela sua capacidade de, a partir de seu escutar, dissolução do real. Completada a travessia para os domínios do disco, o que nos deparamos lá talvez seja a o arquétipo do processo criativo de Daniel, ou uma releitura sobre o problema do vício da internet. Tudo parece muito mais impressão, como encerra a faixa Last Known Picture Of A Song (o ponto alto do disco). Ao final, dado o jeito fantasioso, Age Of não se trata do que é, mas sim o que pode ser.

OUÇA: “Last Known Picture Of A Song” e “We’ll Take It”