American Football – American Football



Em seu terceiro álbum autointitulado, o American Football supera a atmosfera de nostalgia e mostra um grande amadurecimento sonoro. Deixando para trás o clima emo do final dos anos 90, a banda mostra que segue relevante em 2019, com um som mais adulto.

o American Football, que foi um dos expoentes do emo no final dos anos 90, passou nada menos que 17 anos sem lançar álbum. Quando ressurgiram em 2016, o clima de nostalgia e retorno foram o suficiente para agradar aos fãs e a crítica. A banda que ressurgia conseguia mostrar canções igualmente profundas e consistentes, mesmo depois de tanto tempo. Porém, o terceiro álbum não vem com um intervalo de 17 anos, mas com menos de 3. Um novo disco “mais do mesmo” talvez poderia soar inerte desta vez. Aí que entra o encanto deste novo disco. A banda consegue se reinventar de uma forma impressionante, mantendo suas características passadas ao mesmo tempo que atualiza e move em frente sua sonoridade.

Já na primeira canção, “Silhouettes”, surge quase que um manifesto. A canção de mais de 7 minutos abre portas para o disco, introduzindo a atmosfera intensa e envolvente. Enquanto nos trabalhos anteriores a sonoridade do American Football misturava o emo a algo mais folk, neste disco a mudança fica clara já no início. A aproximação da banda com um som mais próximo ao shoegaze é a grande marca deste trabalho. O álbum se mostra uma combinação do emo com uma atmosfera mais barulhenta, porém minimalista, mergulhada no pós-punk e shoegaze. A aproximação com estes estilos também é reforçado pela parceria com a Rachel Goswell, do Slowdive. 

As parceirias, inclusive, são outro ponto alto deste álbum. A abertura sonora proposta neste trabalho do American Football é reforçada pelos vocais femininos nas 3 parcerias do disco. Nomes grandes como Rachel Goswell (Slowdive), Hayley Williams (Paramore) e Elizabeth Powell (Land of Talk) entraram nas gravações. Os vocais femininos funcionam muito bem na proposta da banda, aumentando o a dramaticidade e envolvimento das cações através do contraste de vocais. A ótima canção “Uncomfortably Numb”, por exemplo, mostra o belo contraponto da letra ora cantada pelo vocalista Mike Kinsella, ora repetida pela inconfundível voz da Hayley Williams.

Este terceiro álbum revela o grande potencial que sempre esteve latente no American Football. Ao deslocar a sonoridade, a banda mostra que se foi um dos expoente do emo duas décadas atrás, ela está pronta para reviver o emo nestes tempos, na sua melhor forma.

OUÇA: “Silhouettes”, “Uncomfortably Numb”, “I Can’t Feel You” e “Doom In Full Bloom”

La Dispute – Panorama



O Quartzo Rosa é um cristal que tem como propriedade purificar e harmonizar as emoções. É energia intensa de amor incondicional, é o chakra do coração. Certo amante meu, uma vez, viu um quartzo rosa quebrar-se em sua mão. A metade era minha e a outra, dele. E se a conexão dessas duas partes bastasse para curar nossas dores? E se a energia da pedra bastasse para curar nossas feridas? Talvez álbuns como Panorama não nasceriam nunca mais.

Quando as penumbras eram mais difíceis, eu colocava meus cristais em baixo da travesseiro para conseguir dormir melhor. Cada dia uma cor, uma propriedade: no fim, a cura estava no MP4 que colocava de baixo do mesmo travesseiro, com as músicas que me levavam para os sonhos.

A experiência de ouvir Panorama não é a mesma sem ver e sentir toda o visual que o álbum acompanha. Pilgrimage, um ‘jogo’ lançado pela banda junto com o álbum, traz as letras de cada música acompanhadas, trilha sonora de imagens geométricas em computação gráfica. Tons de rosa, azul, lilás, magenta, todos dançando em ritmo.

Uma atmosfera tão magnética e escapista, Pilgrimage são 40 minutos em puro deslumbramento e tontura (por conta das nuances mostradas pelos movimentos do mouse), lugar onde é possível ver e ler todo o tecer que Panorama faz em suas dez músicas.

A valorização das letras é clara quando, naquele jogo, os movimentos do mouse, ainda que te levem para outro ângulo da cena, continuam te mostrando as letras em uma posição mais visível. Acompanhe. Leia. Sinta.

Mesmo que minhas tentativas com o Quartzo Rosa não tenham dado certo, entendo que o La Dispute colocou em seu novo álbum todo o trajeto de uma história de amor. Uma carta, longa, de um amor incondicional. E é preciso muita maturidade para encarar esse tipo de amor. Tão diferente da paixão, o tipo de amor descrito em Panorama, mesmo sendo universalmente inacabável, não é etéreo como os apaixonados pensam. É dor. E às vezes nós sangramos porque precisamos sangrar.

Entender como o outro se sente é um caminho largo que muitos preferem não percorrer. Optar por escolher um atalho, para não encarar nos outros nossos próprios medos é a escolha mais comum. “Fulton Street I”, a tentativa de encontrar essa porta chega a ser desesperante. Sentir a dor de alguém e, de fato, senti-la como excruciante não é o desejo mais agradável possível. A dor de querer tornar-se isso para alguém é um afogar, explícito em sua continuação, “Fulton Street II”.

Com certeza o maior atrativo de La Dispute, são as letras, a spoken word. Mas o instrumental é um degrau necessário para fazer de tudo uma ode. Não há muita inventividade em Panorama. A sonoridade ficar facilmente escondida em algum dos outros álbuns da banda (igualmente competentes). Minha expectativa era de que o La Dispute abandonasse completamente as guitarras neste novo trabalho. Elas ainda não o principal catalizador de momentos intensos, de clímax complexos e amarras em histórias contadas. “Rhodonite and Grief” consegue trazer metais mais do que esperados. Quem escutou os EPs da banda sabe que La Dispute sempre esteve a um passo de trazer mais “slam” e jazz para sua sonoridade. Deixou um gosto bom, de quero mais.

Panorama foi uma experiência difícil, dolorosa. Um trabalho lírico que é capaz de tirar os mais inertes e os que se escondem do escuro. Nada menos do que o esperado.

OUÇA: “ANXIETY PANORAMA”, “THERE YOU ARE (HIDING PLACE)” e “YOU ASCENDANT”

Copeland – Blushing


A sensação geral de Blushing é algo como aquele estado entre o sono e a vigília em que você não consegue dormir à noite sonhando com os bons momentos da vida e recapitulando o que poderia ter dito ou feito para prolongá-los mas é confrontado com a realidade da solidão na madrugada. Essa característica nostálgica se reflete tanto nas letras como nos intrumentais que, embora sejam bastante diversos, revisitam alguns dos melhores momentos do passado do Copeland, desde o sinfônico e o soul do Ixora de 2014 até algumas guitarras mais rasgadas e quebras abruptas dos primeiros trabalhos.

Uma característica que chama atenção logo nos primeiros instantes é como o álbum evoca emoções muito profundas sem apelar para extremos. A cada faixa somos transportados para estados emocionais diferentes e intensos com pequenos movimentos instrumentais. Tudo acontece de uma forma coesa com uma continuidade construída de forma a não se tornar monótona, em que cada canção explora elementos diferentes e tem seu momento de brilho com algum ponto que resume a emoção que ela deveria passar entretando ainda totalmente relacionada com o que acontece nas faixas ao seu redor. Exemplo disso é “Lay Here”, uma faixa que trabalha a estrutura do R&B noventista através da batida e do baixo pra gerar uma melancolia que tem seu ápice com um pequeno movimento de sintetizador gerando uma dissonância com as cordas, a sobreposição de todos esses elementos tem um resultado poderosíssimo combinado com a voz disparando a vibe que a letra pede.

Algo que o Copeland sempre fez muito bem foi misturar elementos de gêneros diferentes de uma forma que não soe alienígena e aqui essa mistura serve pra gerar a tensão que as letras pedem, demonstrando a diferença entre o amor que você imaginou e o que aconteceu de verdade. Em “Night Figures” isso fica claro com os movimentos de soul sinfônico e hip hop envolvem os trechos que remetem à imaginação e uma agressividade controlada das guitarras e a explosão da voz mostram as partes em que o eu-lírico toma noção da sua condição na realidade no final da música.

Blushing é o sexto álbum na discografia do Copeland, o segundo álbum depois do hiato da banda e soa como uma evolução natural da estética adotada em Ixora, reforçando ainda mais o caráter onírico e melódico que começou nessa fase.

OUÇA: “Pope”, “Colorless”, “Lay Here” e “Strange Flower”

El Toro Fuerte – Nossos Amigos E Os Lugares Que Visitamos


Afeto em primeiro lugar. Amizade transbordando. Os mineiros da El Toro Fuerte entregaram, logo no fim de janeiro para o público, o segundo trabalho da banda, nomeado Nossos Amigos E Os Lugares Que Visitamos. O álbum possui 13 faixas, três a mais que o álbum de estreia da banda, Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo.

O grupo oriundo de Belo Horizonte é formado por João Carvalho (vocais, guitarra e baixo), Gabriel Martins (bateria), Fábio de Carvalho (guitarra, baixo, vocais) e Diego Soares (baixo, guitarra e vocais). O novo projeto da banda soa como algo mais experimental e ousado. O NALV é a caminhada em direção ao que a banda projeta, onde o disco é a forma material consolidada desta transição. Mesclando math rock, rock alternativo e emo, o álbum reflete a personalidade de sua capa. Colagens, montagens, ideias e resoluções poéticas e instrumentais, objetos singulares formando um conjunto diverso.

Abrindo com “Aniversários São Difíceis”, o álbum já demonstra seu viés sentimental, melancólico e analítico. Nostalgia sonora e narrada. Além dos arranjos instrumentais, a El Toro Fuerte conta com narrativas líricas dignas dos mais próximos amigos. É como se os ouvintes fossem amigos próximos e, junto com a banda, todos estivessem em um bar contando casos da vida. Histórias de amigos e lugares, aventuras contemporâneas.

Há, no álbum, várias contribuições de amigos próximos para compor e gravar o material. Fazem parte do disco Nicole Patrício (Alambradas), Laura Vilela e Raquel Batista. “Nos Seus Movimentos”, faixa com participação de Vilela nos vocais é um dos destaques do NALV. A melodia trabalha a favor da letras, falando sobre amizade, pertencimento e amadurecimento. É uma canção com momentos de calmaria e explosão muito bem utilizados. “Fim do Inverno”, lançada ainda em 2018, explora a sensibilidade e apresenta uma atmosfera que parece rememorar o disco anterior.

“Hidra”, sétima faixa, possui uma das melodias que flerta com algo psicodélico — algo meio triste, chapado, flutuando. É uma das músicas mais curtas do projeto e parece soar como uma continuação melódica da deliciosa faixa “Aquários”. A pluralidade sonora, entretanto, pode não agradar aos que esperam certa concisão.

Hidra, na mitologia grega, era uma espécie de monstro com um corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos segue uma lógica semelhante ao monstro mitológico. É um projeto com uma ideia central bem definida, mas que é amplificada em diversas figuras sonoras ao longo do álbum, um projeto coletivo e interessante.

OUÇA: “Aquários”, “Fim Do Inverno”, “Nos Seus Movimentos” e “Corações Tranquilos Dormem Cedo”

Pedro the Lion – Phoenix


Após 15 anos lançando discos em seu próprio nome, David Bazan ressurge das cinzas com Phoenix. Pedro The Lion anunciou o encerramento das atividades em 2006 e retornou em um disco melancólico e recheado de letras sobre o passado, reflexões e pedidos de desculpas por acontecimentos de muito tempo atrás.

Phoenix é um álbum conceitual sobre a casa de infância em Phoenix, Arizona, de Bazan, bem como alguns dos problemas e memórias que a cidade o traz. Recentemente, essas memórias vieram a tona após a primeira visita como adulto. O  álbum é um mergulho gentil e generoso no passado, que se traduz no futuro. É ao mesmo tempo nostálgico e progressivo, proporcionando o melhor dos dois mundos.

As canções, frequentemente cantadas na primeira pessoa, abrigam narrativas altamente pessoais, mas profundamente ressonantes. David Bazan mergulha em sua infância no deserto para fazer as pazes com as pessoas que ele machucou – especialmente a si mesmo.

Depois de duas décadas culpando família, amigos, Deus, capitalismo e a própria vida por seus problemas, Bazan agora se confronta com seus próprios problemas, e o álbum se desenrola como um convite para o ouvinte fazer o mesmo.

Ano novo, nova perspectiva – hora de acertar o botão de reinicialização. Phoenix é a perfeita re-introdução a Pedro, The Lion, e prova que a espera de 15 anos valeu a pena. Poderoso e emotivo, é altamente compreensível e se destaca como um álbum de doações, apoiado por algumas das melhores produções de Pedro The Lion até hoje. Repleto de guitarras distorcidas e pratos estrondosos por toda parte, junto com suas letras satíricas.

OUÇA: “Yellow Bike”, “My Phoenix” e “Quietest Friend”

Good Charlotte – Generation Rx


Dois anos após o lançamento de Youth Authority, a conhecida banda de pop punk Good Charlotte retorna com seu mais novo álbum Generation Rx, um trabalho em que a banda procura recuperar seu elo com a juventude e alertá-la quanto aos perigos atrelados ao abuso de opióides e medicamentos e a um estilo de vida destrutivo que é vendido como libertador e salvífico.

Generation Rx integra um intenso movimento na música contemporânea dedicado a denunciar o lado mais perverso da epidemia do uso de opióides e medicamentos controlados (sem descartar outras drogas) pela juventude nos dias de hoje. Ao tratar deste assunto, o álbum se coloca ao lado de importantes trabalhos como o KOD (2018) do rapper J. Cole, que também denuncia o abuso de opióides por parte dos jovens e adolescentes norte-americanos. Além disso, Generation Rx é lançado em um contexto em que artistas famosos como Lil Peep e Mac Miller, em um intervalo de menos de um ano, morreram de overdose e em que estrelas como Demi Lovato passaram a falar abertamente sobre seu vício em drogas.

Contudo, embora trate de assuntos de grande importância, a sonoridade do álbum parece perdida no abismo existente entre o pop punk dos anos 2000 que consagrou a banda e as tendências atuais no cenário do pop e do pop rock norte-americanos. Em muitos momentos, sobretudo em faixas como “Generation Rx”, “Self Help” e “Actual Pain”, é possível identificar uma tentativa da banda de mesclar sua sonoridade antiga popularizada nos álbuns The Young And The Hopeless (2002) e The Chronicles Of Life And Death (2004), recheada de overdrives, harmonias e temas mais sombrios e gritos ocasionais, com um tipo de sonoridade mais contemporânea que lembra em diversos momentos a sonoridade vista em One More Light, último álbum do Linkin Park, que se apoia grandemente em elementos eletrônicos.

Ocasionalmente, o álbum foge desse tipo de sonoridade, como em “California (The Way I Say I Love You)”, uma faixa mais melódica que poderia ser considerada a única “balada” do álbum, embora não seja incomum na discografia da banda colocar faixas desse tipo em seus álbuns. Contudo, ainda assim é uma sonoridade pouco convincente que não capta a atenção do ouvinte e mostra de forma ainda mais clara a dificuldade da banda em se adaptar aos tempos atuais.

Assim, Generation Rx, embora represente uma tentativa da banda Good Charlotte em se adaptar aos tempos atuais e a tocar em assuntos muito importantes e vitais para a nova geração, é um trabalho pouco convincente que peca por não conseguir desenvolver uma sonoridade atraente e falha em sua principal motivação, que é tentar estabelecer de forma profunda um elo com esta nova geração.

OUÇA: “Leech”, “Better Demons” e “Generation Rx”.

Panic! At the Disco – Pray For The Wicked


É fácil perceber que Brendon Urie é uma pessoa inquieta: sempre trazendo elementos inovadores para um estilo musical que possui um padrão definido, mas principalmente após 2013, quando ele passou a ser o único membro de sua banda de longa data – o Panic! At the Disco, lançando o Too Weird To Live, Too Rare To Die, álbum que redefiniu sua banda para o que ela apresenta em seu último disco, Pray For The Wicked. Entretanto, muito se passou antes de chegar a essas músicas: o excelente álbum de 2016, Death Of A Bachelor, e interpretando Charlie Price no musical da Broadway de Cindy Lauper, Kinky Boots, onde Urie expandiu ainda mais seus horizontes.

Pray For The Wicked começa com a excelente “(Fuck A) Silver Lining”, fazendo alusão à expressão em inglês que diz que tudo tem seu lado bom, mas que ele não quer simplesmente o lado bom, ele quer o melhor lado possível, usando a frase ‘Only gold is hot enough’, uma metáfora com ter prata (silver), mas querer o ouro (gold) – e também usando a expressão que tudo são cerejas no topo, ou seja – tudo é o complemento do melhor. A seguir, o single “Say Amen (Saturday Night)”, mostrando a criatividade melódica de Urie usando vozes e instrumentos sintetizados como complemento da banda tradicional – guitarra, baixo, etc. Vale destacar também a terceira faixa do álbum, “Hey Look Ma, I Made It”, onde ele diz que conseguiu aquilo que sempre quis, mas com um preço: na frase “sou uma prostituta vendendo canções e o cafetão é a gravadora” e também com o clipe que acompanhou o lançamento da canção, onde Urie mostra – através de um fantoche que o representa – os excessos que podem acompanhar a fama. Outro destaque vai para “High Hopes”, primeira música composta para o álbum, onde ele também fala sobre chegar ao topo e sempre ter tido grandes esperanças de chegar onde está. Roaring 20s conta um pouco da história de Urie, fala sobre a Broadway, sobre álcool e drogas, sobre gratidão e sobre vulnerabilidade.

Pray For The Wicked é o álbum mais pessoal que Brendon Urie já fez e mostra um artista mais maduro e aceitando melhor seu lugar quanto a sucesso, dinheiro, fama. Também mostra a evolução musical do artista fazendo do Panic! At The Disco basicamente seu projeto solo desde 2013. É um excelente álbum para fãs da banda, mas também serve muito bem para mostrar ao público que conhece somente as músicas antigas o quanto ele conseguiu evoluir como artista e ser humano desde então.

OUÇA: “(Fuck A) Silver Lining”, “Say Amen (Saturday Night)”, “High Hopes” e “Roaring 20s”

The Wonder Years – Sister Cities


Uma banda ou artista cativar um público jovem é sempre uma faca de dois gumes. De um lado, você consegue um público fiel e fervoroso que vai engolir cada resquício de juventude que você lançar, mas de outro, se você se distancia da sonoridade imatura que chama a atenção desse público, eles se viram contra esse progresso. Talvez o mais difícil de tudo seja manter um equilíbrio entre esses dois mundos, e aqui o The Wonder Years cumpre essa missão com maestria.

Previamente sendo uma banda basicamente de pop punk, The Wonder Years sempre se destacou de seus companheiros de cena pela criatividade de seus álbuns, e eles estariam muito bem se continuassem nesse caminho. Mas desde o álbum anterior, No Closer To Heaven, a banda vem se aventurando com mais elementos de gêneros como Emo e Rock Alternativo pra compor a imagem de uma banda mais madura, que foca em temas mais melancólicos e sérios.

Mas se o grupo flertou com essa onda alternativa antes, aqui eles mergulham de vez nessa ideia, e isso é aparente desde a primeira música (“Raining In Kyoto”), misturando uma entrega emocional forte dos vocais e uma cascata de guitarras que injetam adrenalina nos moldes sonoros já deixados pela banda nos trabalhos anteriores. Tal visceralidade é um dos pontos que vendem a ideia do álbum, mas talvez a mudança mais interessante seja a presença de sintetizadores em músicas como “Pyramids Of Salt” e “We Look Like Lightning”, que contribuem pra aumentar o suspense e a profundidade sonora do álbum.

Sister Cities é o ponto de virada definitivo da banda para uma mudança total de gênero. Se os temas e instrumentais amadureciam a cada álbum que saia, esse é o ápice da discografia do grupo. Com letras fortes e significativas e melodias pegajosas e bem trabalhadas, é difícil não reconhecer a genialidade do grupo. Mas talvez seja mais difícil ainda reclamar do álbum só por não ser mais pop punk, já que esse álbum pode apelar até pra o público desse gênero, e é assim que o The Wonder Years consegue tal equilíbrio de manter seu público antigo e evoluir. E, honestamente, quem reclama está maluco.

OUÇA: “Raining In Kyoto”, “Sister Cities”, “The Ghosts Of Right Now” e “The Orange Grove”

Chuva – Chuva


Se todos os estilos musicais fossem caminhos pelos quais as pessoas que ouvem e fazem música seguissem suas jornadas de autodescobrimento, seria numa esquina entre o emo e o folk que nós encontraríamos parado, sentado numa pedra e observando a paisagem, o disco Chuva, primeiro disco do projeto homônimo de Lucas Vasconcelos, conhecido antes por ser o vocalista da banda cult de emo Umnavio. Aqui, Lucas troca os gritos urgentes e as melodias diretas e enérgicas do emo e do hardcore por uma sonoridade mais despojada e simples, e também é o produto individual de Lucas, o que faz o projeto assumir uma personalidade mais concreta.

Além de ser o primeiro disco completo, Chuva é também o primeiro registro de inéditas do trabalho autoral de Lucas. Antes do álbum, ele havia lançado uma série de cinco eps com músicas que haviam sido gravadas no período entre 2006 e 2011. Em comparação com essas compilações, Chuva apresenta variações interessantes, em particular a adição de outros instrumentos ao projeto, como bateria, escaleta e trompete. Como se depois de muito tempo numa viagem solitária, Chuva houvesse encontrado companheiros na jornada que, muito como companheiros reais, oferecem um novo leque de possibilidades para o futuro da jornada.

Se nos EPs antigos a sonoridade de Chuva se aproximava em estilo e motivos à do Flatsound de Mitch Welling, o disco revela uma variedade maior de influências na formação da identidade artística de Lucas, ao mesmo tempo que move o projeto em direção a uma sonoridade mais característica e própria. A base característica de folk e emo recebe pinceladas de som que lembram de American Football, com o trompete, a um forró, graças à escaleta. O uso dos instrumentos que fogem ao padrão do folk/emo, inclusive, é um dos pontos fortes do disco.

Boa parte das faixas segue uma mesma estrutura: o vocal agudo e levemente juvenil de Lucas – resquício do emo – e o violão começam a música e seguem sozinhos por um tempo, até que o resto dos instrumentos se junta à harmonia e a música ganha em corpo e volume. A fórmula funciona com resultados variados, se encaixando melhor a algumas composições que a outras, em particular nas duas faixas iniciais.  “Estrada” é a faixa de abertura do disco e fala sobre o movimento de partida que a vida segue após uma certa idade, o crescendo do final da música pode ser comparado à urgência desse momento transicional da vida. Já “Bentinho”, música seguinte do álbum, enquanto repete a fórmula de abertura e também o uso de pausas em certos momentos da música, expande o modelo ao acrescentar os trompetes e ao passar o protagonismo do violão para a bateria, o que dá profundidade à música e confere relevo à voz de Lucas.

O principal destaque fica por conta de “Flocos”, que vai na direção inversa à das outras faixas – talvez seja esse um dos motivos da evidência  – e resume a música apenas à voz e ao violão na maior parte da faixa. É aqui também que a escaleta aparece, distanciando mais e positivamente essa música do resto das composições do disco e dando até mesmo ares de ritmo nordestino. O tema da letra, sobre a relação de Lucas com seu cachorro de estimação também foge ao convencional (e por um instante evoca “An Idea Is A Greater Monument Than A Cathedral”, do Empire! Empire!) e além da surpresa, apresenta o verso mais bonito do disco.

Naturalmente, Chuva não é sem defeitos. O modelo de composição, que começa com o violão e a voz e depois ganha a participação dos outros instrumentos é repetido em seis das sete faixas do disco, e acaba por soar formulaico. O recurso de pausa também é repetido em muitas das faixas, e nem sempre alcança o efeito desejado de interromper o movimento da música. As letras também em alguns momentos soam restritas e poderiam explorar mais outros temas ou outras construções sintáticas, como Lucas já mostrou ser capaz de fazer com o Umnavio.

Chuva é um bom disco, e um avanço importante das experiências que os primeiros EPs representaram, a composição de faixas mais longas e a adição de outros instrumentos são indícios do que o projeto pode explorar em próximos trabalhos. Resta talvez abandonar as seguranças e correr o risco de não seguir fórmulas. Ser adulto, como o próprio disco ensina, é deixar coisas para trás.

OUÇA: “Estrada”, “Bentinho” e “Flocos”

Dashboard Confessional – Crooked Shadows


Eu fiz muita coisa em nove anos. O que parece tão pouco tempo é quase uma década, me fez esquecer da relação íntima que eu tive com o Chris Carrabba. Apesar de várias coisas terem mudado, algumas permanecem inertes, assim como para o Dashboard Confessional: por bem ou por mal.

Crooked Shadows me leva até uma nostalgia que não é tão bem vinda quando eu esperava que fosse. Talvez por reconhecer em mim coisas que ainda não mudaram, por enxergar coisas que eu mudei e não deveria ter mudado. Esse é o principal poder da minha memória musical, acredito que é pra isso que ela serve, imortalizar momentos, sentimentos, por mais bobos e infantis que sejam.

O álbum novo do Dashboard é um CD velho que a gente consegue passar um pano na capa, mas é difícil tirar o pó das frestas. A abertura do álbum fica por conta de “We Fight”, um tom que sugere uma experimentação muito mais rebuscada instrumentalmente. Com uma melodia mais sofisticada, próxima de bandas como o Death Cab For Cutie, “We Fight” consegue se destacar entre as outras músicas, por trazer algo novo sem se distanciar da essência de Carrabba.

Depois das duas primeiras faixas, o álbum começa a seguir direções um pouco cansativas. “About Us” e “Crooked Shadows” e “Be Alright” deixam muito a desejar. Quase metade do álbum é for a de tom e nem mesmo a poesia de Carrabba consegue salvá-las. Contudo, músicas como “Catch You” combinam com o repeat: Dashboard não precisa de muito para agradar, afinal, sua essência de melodias fáceis e letras literais conquista qualquer um com um coração.

“Belong”, uma parceria com os quase veteranos do Cash Cash, foi totalmente acertada. Energizado, o Dashboard consegue manter sua identidade, associando-a com uma banda que, também há quase dez anos atrás, levou a essência do emo para o pop. Aliás, as parcerias ganham holofote durante todo o álbum. “Open My Eyes” é quase uma balada do falecido Yellowcard.

A faixa final de Crooked Shadows me faz lembrar do porquê insistir no Dashboard Confessional quando uma mixtape gravada suportava no máximo 12 músicas. Sentir a música como minha, ter aquela vontade incontrolável de parar tudo que estou fazendo para tentar dedilhar essas melodias no violão e pronunciar letras que parecem sair da minha própria cabeça. Não posso dizer que não valeu a pena.

OUÇA: “Just What To Say”, “Belong” e “We Fight”