Good Charlotte – Generation Rx


Dois anos após o lançamento de Youth Authority, a conhecida banda de pop punk Good Charlotte retorna com seu mais novo álbum Generation Rx, um trabalho em que a banda procura recuperar seu elo com a juventude e alertá-la quanto aos perigos atrelados ao abuso de opióides e medicamentos e a um estilo de vida destrutivo que é vendido como libertador e salvífico.

Generation Rx integra um intenso movimento na música contemporânea dedicado a denunciar o lado mais perverso da epidemia do uso de opióides e medicamentos controlados (sem descartar outras drogas) pela juventude nos dias de hoje. Ao tratar deste assunto, o álbum se coloca ao lado de importantes trabalhos como o KOD (2018) do rapper J. Cole, que também denuncia o abuso de opióides por parte dos jovens e adolescentes norte-americanos. Além disso, Generation Rx é lançado em um contexto em que artistas famosos como Lil Peep e Mac Miller, em um intervalo de menos de um ano, morreram de overdose e em que estrelas como Demi Lovato passaram a falar abertamente sobre seu vício em drogas.

Contudo, embora trate de assuntos de grande importância, a sonoridade do álbum parece perdida no abismo existente entre o pop punk dos anos 2000 que consagrou a banda e as tendências atuais no cenário do pop e do pop rock norte-americanos. Em muitos momentos, sobretudo em faixas como “Generation Rx”, “Self Help” e “Actual Pain”, é possível identificar uma tentativa da banda de mesclar sua sonoridade antiga popularizada nos álbuns The Young And The Hopeless (2002) e The Chronicles Of Life And Death (2004), recheada de overdrives, harmonias e temas mais sombrios e gritos ocasionais, com um tipo de sonoridade mais contemporânea que lembra em diversos momentos a sonoridade vista em One More Light, último álbum do Linkin Park, que se apoia grandemente em elementos eletrônicos.

Ocasionalmente, o álbum foge desse tipo de sonoridade, como em “California (The Way I Say I Love You)”, uma faixa mais melódica que poderia ser considerada a única “balada” do álbum, embora não seja incomum na discografia da banda colocar faixas desse tipo em seus álbuns. Contudo, ainda assim é uma sonoridade pouco convincente que não capta a atenção do ouvinte e mostra de forma ainda mais clara a dificuldade da banda em se adaptar aos tempos atuais.

Assim, Generation Rx, embora represente uma tentativa da banda Good Charlotte em se adaptar aos tempos atuais e a tocar em assuntos muito importantes e vitais para a nova geração, é um trabalho pouco convincente que peca por não conseguir desenvolver uma sonoridade atraente e falha em sua principal motivação, que é tentar estabelecer de forma profunda um elo com esta nova geração.

OUÇA: “Leech”, “Better Demons” e “Generation Rx”.

Panic! At the Disco – Pray For The Wicked


É fácil perceber que Brendon Urie é uma pessoa inquieta: sempre trazendo elementos inovadores para um estilo musical que possui um padrão definido, mas principalmente após 2013, quando ele passou a ser o único membro de sua banda de longa data – o Panic! At the Disco, lançando o Too Weird To Live, Too Rare To Die, álbum que redefiniu sua banda para o que ela apresenta em seu último disco, Pray For The Wicked. Entretanto, muito se passou antes de chegar a essas músicas: o excelente álbum de 2016, Death Of A Bachelor, e interpretando Charlie Price no musical da Broadway de Cindy Lauper, Kinky Boots, onde Urie expandiu ainda mais seus horizontes.

Pray For The Wicked começa com a excelente “(Fuck A) Silver Lining”, fazendo alusão à expressão em inglês que diz que tudo tem seu lado bom, mas que ele não quer simplesmente o lado bom, ele quer o melhor lado possível, usando a frase ‘Only gold is hot enough’, uma metáfora com ter prata (silver), mas querer o ouro (gold) – e também usando a expressão que tudo são cerejas no topo, ou seja – tudo é o complemento do melhor. A seguir, o single “Say Amen (Saturday Night)”, mostrando a criatividade melódica de Urie usando vozes e instrumentos sintetizados como complemento da banda tradicional – guitarra, baixo, etc. Vale destacar também a terceira faixa do álbum, “Hey Look Ma, I Made It”, onde ele diz que conseguiu aquilo que sempre quis, mas com um preço: na frase “sou uma prostituta vendendo canções e o cafetão é a gravadora” e também com o clipe que acompanhou o lançamento da canção, onde Urie mostra – através de um fantoche que o representa – os excessos que podem acompanhar a fama. Outro destaque vai para “High Hopes”, primeira música composta para o álbum, onde ele também fala sobre chegar ao topo e sempre ter tido grandes esperanças de chegar onde está. Roaring 20s conta um pouco da história de Urie, fala sobre a Broadway, sobre álcool e drogas, sobre gratidão e sobre vulnerabilidade.

Pray For The Wicked é o álbum mais pessoal que Brendon Urie já fez e mostra um artista mais maduro e aceitando melhor seu lugar quanto a sucesso, dinheiro, fama. Também mostra a evolução musical do artista fazendo do Panic! At The Disco basicamente seu projeto solo desde 2013. É um excelente álbum para fãs da banda, mas também serve muito bem para mostrar ao público que conhece somente as músicas antigas o quanto ele conseguiu evoluir como artista e ser humano desde então.

OUÇA: “(Fuck A) Silver Lining”, “Say Amen (Saturday Night)”, “High Hopes” e “Roaring 20s”

The Wonder Years – Sister Cities


Uma banda ou artista cativar um público jovem é sempre uma faca de dois gumes. De um lado, você consegue um público fiel e fervoroso que vai engolir cada resquício de juventude que você lançar, mas de outro, se você se distancia da sonoridade imatura que chama a atenção desse público, eles se viram contra esse progresso. Talvez o mais difícil de tudo seja manter um equilíbrio entre esses dois mundos, e aqui o The Wonder Years cumpre essa missão com maestria.

Previamente sendo uma banda basicamente de pop punk, The Wonder Years sempre se destacou de seus companheiros de cena pela criatividade de seus álbuns, e eles estariam muito bem se continuassem nesse caminho. Mas desde o álbum anterior, No Closer To Heaven, a banda vem se aventurando com mais elementos de gêneros como Emo e Rock Alternativo pra compor a imagem de uma banda mais madura, que foca em temas mais melancólicos e sérios.

Mas se o grupo flertou com essa onda alternativa antes, aqui eles mergulham de vez nessa ideia, e isso é aparente desde a primeira música (“Raining In Kyoto”), misturando uma entrega emocional forte dos vocais e uma cascata de guitarras que injetam adrenalina nos moldes sonoros já deixados pela banda nos trabalhos anteriores. Tal visceralidade é um dos pontos que vendem a ideia do álbum, mas talvez a mudança mais interessante seja a presença de sintetizadores em músicas como “Pyramids Of Salt” e “We Look Like Lightning”, que contribuem pra aumentar o suspense e a profundidade sonora do álbum.

Sister Cities é o ponto de virada definitivo da banda para uma mudança total de gênero. Se os temas e instrumentais amadureciam a cada álbum que saia, esse é o ápice da discografia do grupo. Com letras fortes e significativas e melodias pegajosas e bem trabalhadas, é difícil não reconhecer a genialidade do grupo. Mas talvez seja mais difícil ainda reclamar do álbum só por não ser mais pop punk, já que esse álbum pode apelar até pra o público desse gênero, e é assim que o The Wonder Years consegue tal equilíbrio de manter seu público antigo e evoluir. E, honestamente, quem reclama está maluco.

OUÇA: “Raining In Kyoto”, “Sister Cities”, “The Ghosts Of Right Now” e “The Orange Grove”

Chuva – Chuva


Se todos os estilos musicais fossem caminhos pelos quais as pessoas que ouvem e fazem música seguissem suas jornadas de autodescobrimento, seria numa esquina entre o emo e o folk que nós encontraríamos parado, sentado numa pedra e observando a paisagem, o disco Chuva, primeiro disco do projeto homônimo de Lucas Vasconcelos, conhecido antes por ser o vocalista da banda cult de emo Umnavio. Aqui, Lucas troca os gritos urgentes e as melodias diretas e enérgicas do emo e do hardcore por uma sonoridade mais despojada e simples, e também é o produto individual de Lucas, o que faz o projeto assumir uma personalidade mais concreta.

Além de ser o primeiro disco completo, Chuva é também o primeiro registro de inéditas do trabalho autoral de Lucas. Antes do álbum, ele havia lançado uma série de cinco eps com músicas que haviam sido gravadas no período entre 2006 e 2011. Em comparação com essas compilações, Chuva apresenta variações interessantes, em particular a adição de outros instrumentos ao projeto, como bateria, escaleta e trompete. Como se depois de muito tempo numa viagem solitária, Chuva houvesse encontrado companheiros na jornada que, muito como companheiros reais, oferecem um novo leque de possibilidades para o futuro da jornada.

Se nos EPs antigos a sonoridade de Chuva se aproximava em estilo e motivos à do Flatsound de Mitch Welling, o disco revela uma variedade maior de influências na formação da identidade artística de Lucas, ao mesmo tempo que move o projeto em direção a uma sonoridade mais característica e própria. A base característica de folk e emo recebe pinceladas de som que lembram de American Football, com o trompete, a um forró, graças à escaleta. O uso dos instrumentos que fogem ao padrão do folk/emo, inclusive, é um dos pontos fortes do disco.

Boa parte das faixas segue uma mesma estrutura: o vocal agudo e levemente juvenil de Lucas – resquício do emo – e o violão começam a música e seguem sozinhos por um tempo, até que o resto dos instrumentos se junta à harmonia e a música ganha em corpo e volume. A fórmula funciona com resultados variados, se encaixando melhor a algumas composições que a outras, em particular nas duas faixas iniciais.  “Estrada” é a faixa de abertura do disco e fala sobre o movimento de partida que a vida segue após uma certa idade, o crescendo do final da música pode ser comparado à urgência desse momento transicional da vida. Já “Bentinho”, música seguinte do álbum, enquanto repete a fórmula de abertura e também o uso de pausas em certos momentos da música, expande o modelo ao acrescentar os trompetes e ao passar o protagonismo do violão para a bateria, o que dá profundidade à música e confere relevo à voz de Lucas.

O principal destaque fica por conta de “Flocos”, que vai na direção inversa à das outras faixas – talvez seja esse um dos motivos da evidência  – e resume a música apenas à voz e ao violão na maior parte da faixa. É aqui também que a escaleta aparece, distanciando mais e positivamente essa música do resto das composições do disco e dando até mesmo ares de ritmo nordestino. O tema da letra, sobre a relação de Lucas com seu cachorro de estimação também foge ao convencional (e por um instante evoca “An Idea Is A Greater Monument Than A Cathedral”, do Empire! Empire!) e além da surpresa, apresenta o verso mais bonito do disco.

Naturalmente, Chuva não é sem defeitos. O modelo de composição, que começa com o violão e a voz e depois ganha a participação dos outros instrumentos é repetido em seis das sete faixas do disco, e acaba por soar formulaico. O recurso de pausa também é repetido em muitas das faixas, e nem sempre alcança o efeito desejado de interromper o movimento da música. As letras também em alguns momentos soam restritas e poderiam explorar mais outros temas ou outras construções sintáticas, como Lucas já mostrou ser capaz de fazer com o Umnavio.

Chuva é um bom disco, e um avanço importante das experiências que os primeiros EPs representaram, a composição de faixas mais longas e a adição de outros instrumentos são indícios do que o projeto pode explorar em próximos trabalhos. Resta talvez abandonar as seguranças e correr o risco de não seguir fórmulas. Ser adulto, como o próprio disco ensina, é deixar coisas para trás.

OUÇA: “Estrada”, “Bentinho” e “Flocos”

Dashboard Confessional – Crooked Shadows


Eu fiz muita coisa em nove anos. O que parece tão pouco tempo é quase uma década, me fez esquecer da relação íntima que eu tive com o Chris Carrabba. Apesar de várias coisas terem mudado, algumas permanecem inertes, assim como para o Dashboard Confessional: por bem ou por mal.

Crooked Shadows me leva até uma nostalgia que não é tão bem vinda quando eu esperava que fosse. Talvez por reconhecer em mim coisas que ainda não mudaram, por enxergar coisas que eu mudei e não deveria ter mudado. Esse é o principal poder da minha memória musical, acredito que é pra isso que ela serve, imortalizar momentos, sentimentos, por mais bobos e infantis que sejam.

O álbum novo do Dashboard é um CD velho que a gente consegue passar um pano na capa, mas é difícil tirar o pó das frestas. A abertura do álbum fica por conta de “We Fight”, um tom que sugere uma experimentação muito mais rebuscada instrumentalmente. Com uma melodia mais sofisticada, próxima de bandas como o Death Cab For Cutie, “We Fight” consegue se destacar entre as outras músicas, por trazer algo novo sem se distanciar da essência de Carrabba.

Depois das duas primeiras faixas, o álbum começa a seguir direções um pouco cansativas. “About Us” e “Crooked Shadows” e “Be Alright” deixam muito a desejar. Quase metade do álbum é for a de tom e nem mesmo a poesia de Carrabba consegue salvá-las. Contudo, músicas como “Catch You” combinam com o repeat: Dashboard não precisa de muito para agradar, afinal, sua essência de melodias fáceis e letras literais conquista qualquer um com um coração.

“Belong”, uma parceria com os quase veteranos do Cash Cash, foi totalmente acertada. Energizado, o Dashboard consegue manter sua identidade, associando-a com uma banda que, também há quase dez anos atrás, levou a essência do emo para o pop. Aliás, as parcerias ganham holofote durante todo o álbum. “Open My Eyes” é quase uma balada do falecido Yellowcard.

A faixa final de Crooked Shadows me faz lembrar do porquê insistir no Dashboard Confessional quando uma mixtape gravada suportava no máximo 12 músicas. Sentir a música como minha, ter aquela vontade incontrolável de parar tudo que estou fazendo para tentar dedilhar essas melodias no violão e pronunciar letras que parecem sair da minha própria cabeça. Não posso dizer que não valeu a pena.

OUÇA: “Just What To Say”, “Belong” e “We Fight”

Pianos Become the Teeth – Wait For Love


O Screamo sempre foi um gênero de nicho que, apesar de possuir uma fanbase fiel, não faz muito barulho fora de sua cena. Nos final dos anos 90, bandas como Saetia, Orchid e City of Catterpillar tiveram carreiras curtas, mas lançaram álbuns aclamados pela crítica e atraíram um público que precisava de mais catarse emocional em suas músicas com sua mistura da sensibilidade do Emo com o frenesi de gêneros mais extremos. O Pianos Become the Teeth vem de uma nova onda de “revival” desse gênero junto com bandas como La Dispute e Touché Amoré, se inspirando não só no Screamo tradicional, mas também na precisão melódica do post-rock.

Porém, em seu novo álbum, a banda abandona totalmente suas raízes, aderindo a uma sonoridade mais próxima do Indie Rock, com tons otimistas e leves, ao contrário de seus trabalhos anteriores. Apesar dessa tendência de músicas mais calmas ter começado no álbum anterior, aqui o grupo perde totalmente seu apelo emocional e, consequentemente, qualquer elemento que mantinha seus trabalhos cativantes. Talvez o fato do tipo de música que a banda fazia antigamente apelar somente a um público seleto tenha levado a essa mudança, já que essa atitude tem se tornado padrão de bandas do gênero nos últimos tempos.

Mudar/transitar entre gêneros não é necessariamente ruim, mas aqui temos uma coleção de 10 canções que são similares entre si, sem nada de significante que destaque certas músicas. As texturas sonoras que emulam certas características do Midwest Emo e do Post Punk passam imutáveis de música pra música e tornam a experiência esquecível, exceto em um ou dois pontos do álbum, como no single “Charisma”, que possui um certo charme mas seria uma faixa comum em álbuns de bandas que foram do emo pro indie e fizeram isso melhor, como o Turnover. O único instrumento que se destaca é a bateria, que se utiliza de diversos padrões mais complexos e passa por diversas variações ao longo dos 46 minutos de álbum, sendo mais imprevisível e interessante que o resto.

Apesar disso, a poesia das letras continua sendo uma constante aqui, evocando imagens e sensações de forma subjetiva, como na música “Fake Lightning”, que fala sobre se deixar levar pelos prazeres da vida e, consequentemente, lidar com os problemas que isso traz. E no final, esse é o elemento mais interessante aqui, e o principal fator que pode cativar seus ouvintes, mas com certeza não deve agradar fãs mais puritanos da banda. É mais um clássico caso onde a evolução de uma banda subtrai os fatores que a tornavam tão interessantes antes.

OUÇA: “Charisma” e “Fake Lightning”

Tiny Moving Parts – Swell


A probabilidade é uma ciência cruel. Estatisticamente, quanto mais estendido é um processo, maior é a chance de algo nele não sair como o planejado. Do mesmo jeito, não é raro (ou injustificado) o receio que uma parte dos fãs de um artista pode sentir quando esse artista passa a lançar muitos trabalhos num curto período de tempo. Logicamente, todos podem ser excelentes e manter a qualidade que os fãs esperam, mas a cada novo lançamento aumenta a possibilidade de que o próximo não seja tão bom quanto o desejado. Com frequência, também, essa onda de lançamentos em rápida sucessão dá a impressão que o processo criativo do álbum é corrido, pouco planejado, superficial.  São essas, a princípio, as sensações mais presentes depois de ouvir Swell, sexto disco de estúdio do trio americano de math/emo/pop punk Tiny Moving Parts.

Lançado dois anos depois do último disco da banda, Celebrate, e sendo o quarto lançamento do trio nos últimos cinco anos, Swell apresenta em pouco mais de trinta minutos de audição a estrutura básica que notabilizou o Tiny Moving Parts dentro da (agora não tão) recente onda de ressurgimento do emo e do pop punk: instrumentais técnicos, letras diretas, o vocalista Dylan Mattheisen com sua característica performance emotiva com os vocais rasgados e os gritos vulneráveis, só que apresenta tudo isso carente de dois elementos essenciais: criatividade e sentimento.

De primeira, a impressão que a banda passa é a de estar cansada. Possivelmente um problema, em parte, da mixagem, as músicas soam todas baixas, abafadas, e o próprio vocal de Dylan parece extenuado, os gritos são menos intensos e ele aparenta não alcançar as notas que alcançava em outros discos. Soma-se a isso o fato de que a maioria das músicas mostra muito pouca imaginação da banda em fugir dos atributos comuns do seu estilo de composição, ao ponto em que é difícil de diferenciar qual é qual. Até um elemento estilístico, como os trechos em que a melodia é reduzido a apenas um instrumento (geralmente a guitarra ou a bateria) mais baixo até que o vocal de Dylan surge num grito trazendo consigo o resto dos instrumentos, é repetido em todas as músicas. Liricamente, a banda também soa pouco inspirada, com letras que soam lugar-comum e até piegas, chegando a fazer duvidar que o autor delas é o mesmo artista que escreveu “Grayscale”, “Vacation Bible School”, “Dakota” e “Common Cold”. Longe de entregar o sentimento ou a variedade dos outros discos, Swell é uma obra pragmática, e não no bom sentido, como uma tarefa cumprida por ser obrigação mas pela qual não se tem prazer. Inércia pura. Uma segunda-feira de manhã.

O que talvez piora a situação de Swell é que, diante de uma fundação dessas, os poucos elementos diferentes, como corais e instrumentos de sopro, apresentados pela banda fazem pouco para melhorar o disco. A adição de vocais femininos, em dueto com Dylan principalmente nos refrões, parece fora de lugar, e também é repetida sempre dentro da mesma estrutura, ao ponto que quando aparece em “It’s Too Cold Tonight”, é outra coisa que soa cansativa, até previsível. Com essas dificuldades, o que garante algum destaque positivo no disco fica sendo a já referida qualidade técnica dos três membros, especialmente nas penúltima e antepenúltima faixas, “Malfunction” e “Wishbone”, provavelmente as melhores do disco, com a influência de math e as quebras de ritmo que fogem um pouco à estrutura formulaíca do resto das músicas.

Quando um dos pontos positivos do disco é ele ser curto (31 min), é evidente que a obra em si deixou a desejar. Também é claro que não é a incompetência dos membros da banda, dada a qualidade que os outros álbuns apresentaram no passado, mas a falta de força e interesse de Swell faz parecer um sinal de que a banda precise dar um tempo nas gravações e se concentrar em outras coisas no momento, como excursionar, talvez até buscar novas influências. Com mais tempo e um processo criativo mais cuidadoso, lapidado, as chances é de que um novo trabalho deva ter um resultado melhor. Pelo menos é isso que as probabilidades indicam.

OUÇA: “Malfunction” e “Wishbone”

Fall Out Boy – M A N I A


Nos dias de hoje o pop punk se resume a um grupo relativamente pequeno, um tanto diferente de quando estourou nos anos 2000. As bandas da época que ainda prevalecem tiveram que encontrar uma forma de se reinventar, porque, infelizmente, continuar no sofrimento do punk moderno se tornou extremamente datado e hoje em dia não faz tanto sentido quanto fazia na época. Esse foi o caso de uma das bandas que ajudou a solidificar o gênero vive uma transformação constante desde o seu retorno após um hiato de 5 anos, sempre buscando a experimentação de outros gêneros tentando se encontrar (ou não). M A N I A seu mais novo lançamento não fica fora dessa e afunda o pé no EDM. Sério.

M A N I A já se mostra complicado antes mesmo do lançamento, que era previsto para setembro do ano passado, porém os próprios membros não estavam satisfeitos com o resultado, então foi necessário um pouco mais de tempo para finalizar a produção e ter um resultado que agradasse a todos. Mas a verdade é que nem mesmo os meses a mais conseguiram esconder a dificuldade que a banda ainda possui para se encontrar: Suas letras continuam falando sobre a dificuldade de se encaixar, crescer, o ambiente familiar, mas a sonoridade mostra uma tentativa falha de misturar o som raiz do Fall Out Boy com um extremamente contemporâneo resulta um clima bastante instável.
É quase como se a banda tentasse seguir o caminho radiofônico do Maroon 5, e nesse quesito eles acertam, com singles como “Hold Me Tight Or Don’t” e “Champions”, mas com certeza afasta os fãs de longa data com batidas eletrônicas e muito pop.

No entanto a segunda parte do álbum é bastante tranquila e você pode respirar mais aliviado depois de ouvir tanta batida eletrônica e efeitos de sintetizadores, e para mim é onde o trunfo do cd se encontra: Wilson (Expensive Mistakes). Uma das músicas que fazem você se lembrar que, em algum lugar debaixo de todos esses efeitos e essa tentativa louca de se encaixar numa sonoridade atual, o Fall Out Boy que ajudou a construir aquele gênero dos anos 2000 ainda está ali, com uma das melhores frases do disco inteiro: I’ll stop wearing black when they make a darker color.

No fim das contas, M A N I A é mais uma das tentativas do Fall Out Boy de tentar se manter relevante num cenário musical em que eles não sabem muito bem aonde se encaixar. Repleto de riscos e buscando de todas as formas não viver do passado.

OUÇA: “Wilson (Expensive Mistakes)”, “Church”, “Champions” e “Hold Me Tight Or Don’t”

The Used – The Canyon


Quando Bert McCracken traduziu suas perdas para dar vida ao The Used, suas ferramentas ainda estavam intactas. A lírica, que há 16 anos atrás era jovem e visceral e a voz, que, sempre estourada ao seu limite acabaram perdendo a força durante a longa carreira da banda.

The Canyon é um pedido de desculpas. Um verdadeiro arranque de máscara. O The Used pode ter perdido um de seus elementos principais, o guitarrista Quinn Allman, mas conseguiu novamente traduzir seu conteúdo com total visceralidade. Ainda que cru, o grupo consegue reinventar sua carne em riffs de guitarra muito mais elaborados e experimentações que chegam até ao rap. Bert McCracken utiliza sua potência vocal quebrada sem se preocupar com reportes médicos.

A cada palavra que o frontman poderoso pronuncia, cantada ou falada, o The Used toma a forma e personalidade que havia perdido nos álbuns anteriores. Já em sua abertura, Bert com sua voz que, sempre marcaram uma persona misteriosa e machucada, conta como foi perder um amigo próximo, em um tipo de entrevista. O diálogo, por si só, é música. Acompanhar os diários de Bert e sua banda sempre foi um processo de imersão pesado, doloroso. Mas em The Canyon, podemos ver um retrato de uma vida que, apesar de conturbada, teve seu ciclo fechado.

A reflexão sobre assuntos universais, a consciência de saber o seu papel e lugar no mundo estão presentes em músicas como “Selfies In Aleppo”. Em “Vertigo Cage”, a banda se refere a teoria da caverna, de Platão. Com referências instrumentais e na letra, “Upper Falls” consegue dar as caras de Sunny Day Real Estate no disco. Uma música familiar, que deixa o ouvinte à vontade, mais próximo ao refletir do ato em si de escutar músicas e pensar sobre elas.

No início do disco, Bert se desculpa por parecer clichê ao falar sobre seus sentimentos. Não há nada do que se desculpar: as letras que entoa em The Canyon continuam com a mesma inventividade do passado. Talvez tenha sido um processo doloroso voltar às origens, porque a zona de conforto é sempre mais bem vinda do que encaram seus demônios para criar. A recompensa é clara: o The Used conseguiu evoluir instrumentalmente, retomou seu DNA e pintou meus ouvidos de vermelho novamente.

OUÇA: “Funeral Post”, “Moon-Dream”, “Broken Windows”, “The Quiet War” e “The Mouth Of The Canyon”

The World Is a Beautiful Place & I Am No Longer Afraid to Die – Always Foreign


The World Is a Beautiful Place & I Am No Longer Afraid to Die além de ser uma banda com o maior nome do cenário emo atual, é também uma banda que nunca apresentou uma certa linearidade em sua sonoridade. Sempre divagando entre elementos musicais e líricos, porém sempre mantendo sua ligação com o emo e o indie rock.

Em Always Foreign, podemos perceber um aprofundamento em uma escrita narrativa que já tinha aparecido em seu antecessor, Harmlessness, vide January 10th 2014 que conta uma história de uma mulher do México que matou dois motoristas de ônibus que assediaram, estupraram mais de cem mulheres em 20 anos. Então podemos notar essa busca por temas que, de alguma forma, dialogassem com mais pessoas.

A partir disso surgem os temas como política, capitalismo e até mesmo racismo que são explorados ao longo do disco. Inclusive, a eleição de Donald Trump parece ter um importante papel nisso, como pode-se ouvir no single “Marine Tigers” onde o vocalista David Bello expande os questionamentos sobre esses temas. No entanto, temas pessoais também possuem espaço em Always Foreign. A saída da guitarrista Nicole Shanholtzer claramente deixou marcas bem doloridas e que acarretaram na ótima “Hilltopper”, e que curiosamente apresentam versos extremamente raivosos, o que é um tanto incomum para o grupo.

Musicalmente falando, há uma urgência e simplicidade no novo registro da banda e até mesmo uma certa agressividade em algumas músicas. Mais “Pop Punk” do que “Post Rock”. Mas, por mais que o disco soe simples em seu instrumental é possível enxergar mais cores nele, um certo dinamismo, dando ainda mais evidência para as suas letras. Reunindo todos os pontos fortes do TWIABP, Always Foreign é um álbum bastante acessível para o ouvinte, no entanto ele nos leva para um lugar menos otimista. Talvez seja a forma da banda nos mostrar que o mundo, infelizmente, já não é mais bonito como outrora.

OUÇA: “Dillan And Her Son”, “Hilltopper” e “Marine Tigers”