Carly Rae Jepsen – Dedicated



Dedicated é o tão aguardado quarto álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen, seu primeiro depois de ter mudado completamente o jogo e o cenário da música pop com Emotion em 2015. Emotion foi um trabalho que pegou muita gente de surpresa, eu incluso, com o nível de suas composições. De uma hora pra outra, aparentemente, a cantora de “Call Me Maybe” que virou meme nos entrega uma obra ambiciosa, coesa e extremamente bem escrita e produzida. Emotion, querendo ou não, é um dos melhores e mais influentes álbuns pop das últimas décadas – até seu acompanhante, Emotion Side B, ilustrava que seus b-sides e músicas rejeitadas ainda eram melhores do que álbuns completos de outras pessoas por aí.

Seguindo essa torrente de música boa e bem feita, Carly lançou em 2017 a perfeição pop que é o single “Cut To The Feeling”. E agora todos estavam de olho nela, no que viria depois. Se Emotion foi lançado quando muitos ainda a consideravam apenas ‘a moça de “Call Me Maybe”‘, um pop farofeiro que não devia ser levado a sério, as coisas agora estão dramaticamente diferentes. E é aí que Dedicated entra, chega e quebra com tudo de novo. E dessa vez não podemos mais dizer que estamos surpresos.

Desde a primeira música divulgada ano passado, “Party For One”, Carly já profetizava que seu novo trabalho seria um pouco mais sóbrio e sério do que Emotion foi, mas ainda mantendo sua essência chiclete e leve. De uma vez por todas fica claro que Carly fez aulas com a sueca Robyn sobre como construir uma narrativa e forte densa tendo como base as batidas (“Cry”, “Your Type”). Dedicated traz tudo isso e ainda completa com uma excelente influência do pop dos anos 70, como Cher e Donna Summer.

Os temas tratados liricamente no álbum continuam sendo relacionamentos, crushes correspondidos ou não, decepções amorosas e confissões. Nada exatamente inovador, seja na música pop ou no indie underground, mas que quando são bem feitos e bem escritos se tornam verdadeiras gemas. O melhor exemplo disso está em “Now That I Found You”, uma música sobre quando você tem uma conexão instantânea e quase inexplicável com o @, e o twist em seu refrão está nos versos ‘Don’t give it up, don’t say it hurts‘ – o @ não parece estar tão pronto para essa ligação quanto Carly. Mas ela está, e continua ‘I want it all‘, tanto o bom quanto o não-tão-bom. E quem nunca passou por isso?

A universalidade das letras em Dedicated é, no fim do dia, seu maior trunfo. Carly canta sobre coisas, situações e pessoas comuns a todos, criando e contando histórias fáceis de se identificar – de uma forma não tão diferente do que nomes como Courtney Barnett o fazem, em um tipo completamente diferente de som. Em “Happy Not Knowing”, Carly traz uma dinâmica inusitada (quase como quando Robyn cantou em “Call Your Girlfriend” sobre ser ‘a outra’) cantando sobre o quanto ela não quer que o @ se declare, sobre o quanto ela não quer saber sobre os reais sentimentos do @. ‘If there’s something between you and me, baby, I have no time for it‘, ela canta em seu refrão.

Em “Too Much”, provavelmente a melhor composição do disco inteiro, Carly confessa que sempre faz as coisas ‘demais’. Festas, álcool, sentimentos, pessoas; tudo é 8 ou 80. ‘Is this too much?‘, ela pergunta em um momento quase sussurrado de vulnerabilidade. Confessar que seus sentimentos são ‘demais’ não é uma coisa fácil, por que sempre existe o risco de que o @ se assuste com tal sinceridade. Essa é uma linha tênue sobre a qual Carly caminha o disco inteiro.

A sensação que Dedicated passa é que dessa vez Carly está sem medo de mostrar quem realmente é, como ela pensa e sente as coisas ao seu redor. E às vezes isso tudo realmente é too much. Carly está mais crua e vulnerável do que nunca aqui, se expondo como nunca o fez antes. Depois de ouvir Dedicated, minha vontade é sentar num boteco do centro de São Paulo e tomar um gin tônica barato com ela, enquanto conversamos sobre os @ e a vida de forma geral. Por que agora tenho certeza de que essa mulher, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, me entenderia.

OUÇA: “Too Much”, “Julien”, “Now That I Found You”, “The Sound”, “Want You In My Room” e “Real Love”

Oh Land – Family Tree



Qual é o caminho depois de se provar como uma das cantoras mais interessantes da Dinamarca? Para alguns artistas, o rumo da próximo etapa é milimetricamente calculado. Para outros, as circunstâncias da vida são mais fortes que qualquer planejamento. No caso de Oh Land, seu divórcio foi o que alterou os planos após Earth Sick (2014), em que ela manteve o estilo palatável cheio de synths e ainda deu outro passo rumo ao experimentalismo.

Devido ao fim de seu casamento, a dinamarquesa acabou se entregando a novas composições para exorcizar os demônios da separação. Como ocorre com muitos outros cantores e compositores, o trabalho logo após uma situação como essa costuma ser uma espécie de transição e é justamente o que acontece em Family Tree.

O quinto álbum solo da carreira de Oh Land, cujo nome eh Nanna Øland Fabricius, funciona como uma sessão de terapia para a cantora virar a página. Com serenidade, a artista se entrega ao conceito de árvore genealógica, que permeia o disco inteiro, como em “Coma”, “Sunlight” e na canção-título, usando folhas e galhos para fazer analogias.

Apesar de não mirar no pop desta vez, falta a Family Tree refrões mais consistentes. Piano e harpas são a base das melodias, que funcionariam bem como trilha de uma fábula medieval. Porém, poucos momentos geram algum impacto e o que começa como algo suave e calmante logo se torna enfadonho e repetitivo.

O que salva Family Tree de ser um sonífero esquecivel são as composições maduras de Oh Land. Trechos como ‘After the storm We’re starting over Even the rain knows that I am different now’ exemplificam a beleza das letras do álbum. Pena que logo que chegamos a esse ponto inspirador, ele acaba.

OUÇA: “Human Error”, “Brief Moment” e “After The Storm”

Bibio – Ribbons



Ribbons, novo disco de Bibio, é mais uma experiência prazerosa da doce melancolia que o músico britânico faz de melhor. Com uma ambientação introspectiva e fundamentada em violões e sons acústicos, o álbum deve agradar aos fãs de canções como “Jealous Of Roses” e “Haikuesque (When She Laughs)”.

O que diferiu Bibio em toda sua carreira de outros artistas similares sempre foi sua dedicação em fazer com que a atmosfera construída reflita um sentimento profundo e quase entorpecedor, seja em um formato mais acústico ou experimentando com elementos da música eletrônica. Aqui, Ribbons é um trabalho comovente, singelo, de pura e genuína emoção que dialoga intimamente com o ouvinte através de uma paisagem sonora sustentada por um formidável instrumental, já que as líricas e vocais aparecem muito pouco.

Um grande ponto forte de Ribbons é o quão fácil é ouvir o disco. Com canções tranquilas, o compilado provoca uma agradável sensação de conforto com instrumentos suaves e uma masterização levemente ruidosa e lo-fi, que confere ao álbum uma sonoridade quase caseira. O tom de melancolia atingido aqui não traz uma carga pesada, que dificulta uma experiência mais casual, mas é abordada com leveza.

Há uma coesão admirável na produção de Bibio. Todas as 16 faixas fluem perfeitamente entre si, fazendo com que os mais de 50 minutos de duração passem muito mais rápido do que o imaginado. Poucas canções de fato se destacam, mas o conjunto da obra é convidativo para que o ouvinte escute o álbum completo do início ao fim.

O ponto alto, no entanto, é “Curls”, o primeiro single. A faixa, uma balada folk movida pelo banjo com alguns flertes com o sintetizador, resume a estética intimista do álbum. A dedicação à delicadeza aparece até mesmo em canções mais animadas como “Old Graffiti”, que adapta a sonoridade do jazz e funk para a proposta de disco.

Ribbons é um álbum muito bem-elaborado, honesto em sua roupagem e imersivo. Além disso, é um trabalho incrivelmente sensível, com melodias sutis e agradável de se ouvir.

OUÇA: “Curls”, “Old Graffiti” e “Pretty Ribbons And Lovely Flowers”

The Chemical Brothers – No Geography



São três décadas desde a formação do duo britânico, e No Geography traz mais uma vez o icônico The Chemichal Brothers ao centro da relevância num mundo pós furor da EDM. Com um quê de euforia nostálgica, Tom Rowlands e Ed Simons apresentam um material contemporâneo chamando o público para se libertar na pista através da dança.

Em 10 faixas, o duo complementa o bom trabalho iniciado pelos três ótimos singles “MAH”, “Got To Keep On” e “We’ve Got To Try”, compartilhados semanas antes do lançamento.  Dentre as inéditas, a faixa título “No Geography” e “Gravity Drops” remontam uma atmosfera nostálgica e cheia de adrenalina e “Free Yourself” trazendo um adicional de energia e frenesí, “Free yourself, free me, free them, free us, dance!”.

Em sua última faixa “Catch Me I’m Flying” a dupla traz uma balada profunda e leve para abaixar a euforia de suas irmãs predecessoras, o duo conclui useu nono álbum de estúdio num ótimo disco para suceder ao Born In The Echoes, resistindo ao tempo e mostrando uma sede em renovar-se e agitar a pista de dança.

OUÇA: “No Geography”, “Gravity Drops”, “We’ve Got To Try” e “Free Yourself”.

The Japanese House – Good At Falling



Em 90% das vezes que eu menciono o nome The Japanese House mais da metade das pessoas acham que eu falei errado o nome da banda Japanese Breakfast, aquela banda que na verdade é um projeto solo da cantora e compositora americana-coreana Michelle Zauner. Já a outra metade pensa na Japan House em São Paulo. Mas não é nenhuma dessas duas coisas.

The Japanese House é o pseudônimo e, também, projeto solo de Amber Bain, cantora e compositora de Buckinghamshire, Inglaterra. Com quatro EPs na bagagem, que foram lançados pela Dirty Hit (gravadora idealizada e comandada pelo pessoal do The 1975), agora Bain resolveu sair do anonimato com seu primeiro álbum Good At Falling e mostrar que o The Japanese House não é, como muitos pensavam, um projeto paralelo do Matty Healy e George Daniel do The 1975.

As primeiras músicas lançadas sob o pseudônimo saíram em 2015 quando Bain tinha apenas 19 anos. Elas eram carregadas de auto tune, que protegiam o anonimato e brincavam com classificação de gênero, e efeitos de guitarra que soavam sim bem parecidos com algo que teria um dedinho de Healy e Daniel.

Já em Good At Falling, o auto tune ainda está presente mas são as letras e a delicadeza das palavras que entregam a vulnerabilidade que o álbum carrega. É um disco que mostra a evolução de Bain como pessoa e artista. Good at Falling é um ciclo de acontecimentos muito pessoais, como a morte de alguém próximo que você ama e o processo de luto, sobre pensar que achou salvação em um novo relacionamento e ir percebendo aos poucos que o relacionamento está se desmanchando. Bain fala muito sobre perceber que tudo passa e que, eventualmente, tudo fica bem.

Várias vezes durante o álbum são lançadas perguntas que reverberam diariamente na cabeça de quase todos os jovens Millennials. O niilismo presente em faixas como “Maybe You’re the Reason” e “Follow My Girl” com frases como “is there a point to this?”, “should I be searching for some kind of meaning?” e “nothing feels good it’s not right” refletem a realidade de uma desesperança que sonda a vida de jovens em países como os Estados Unidos, Brasil e outros.

A produção do álbum merece um destaque a parte. Produzidas por George Daniel (The 1975), BJ Burton (Bon Iver, James Blake), e pela própria Bain, as faixas com camadas de sons que parecem infinitas convidam quem escuta a cada vez que escutar uma música perceber um som novo. Os sons trazem ainda mais profundidade para um álbum tão pessoal, tão cru, mas ao mesmo tempo tão confortante. Good At Falling parece que foi encapado em um cobertor macio, pronto para se deitar em cima e enquanto escuta os vocais suaves de Bain.

São treze faixas e, de todos os quatro EPs, apenas uma música fez o corte para o álbum. A faixa “Saw You In A Dream” aparece em Good At Falling como uma versão acústica e mais pura. Sem a máscara do auto tune, Bain gravou essa versão em dois takes ao vivo e, como ela mesma disse em entrevistas, “quase dá para ouvir suas lágrimas”.

A nova versão se chama “i saw you in a dream” e fala sobre sonhar com alguém que já partiu desse mundo e a única forma de ver a pessoa de novo é sonhando. Na faixa, Bain canta “it isn’t the same but it is enough” (não é o mesmo, mas é suficiente – em tradução livre) e amarra, aparecendo como faixa final, todo o sentimento que o álbum carrega e passa. Perder um amor, seja romântico ou não, nunca é fácil, e nenhuma experiência vai ser igual a outra, mas nos resta seguir em frente e tentar aproveitar o melhor da próxima situação.

Good At Falling é muito importante, principalmente para a comunidade LGBTQ+ que quer encontrar conforto e representatividade em artistas jovens. É um disco que força uma autorreflexão sobre nossos sentimentos e relacionamentos, e a posição que eles ocupam em nossas vidas, na faixa “Worms” Bain nos mostra exatamente isso cantando “Invest yourself in something worth investing in. You keep repressing it”. Good At Falling é o melhor debut que o The Japanese House poderia ter.

OUÇA: “Worms”, “Follow My Girl” e ” Maybe You’re The Reason”

Billie Eilish – WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?

Precisamos falar sobre Billie Eilish.

Em uma simples e rápida “navegada” pelas redes, nos deparamos facilmente com o nome Billie Eilish. Vemos comentários elogiando o seu trabalho, vídeos contando um pouco mais sobre Billie e vemos alguns comentários trazendo o questionamento: quem é Billie Eilish? Essas reações podem ser justificadas pelo crescimento meteórico da jovem de 17 anos que vem atraindo a atenção musicalmente, visualmente, esteticamente, ou seja, uma coisa é fato, Billie Eilish está na boca do povo e quem ainda não conhece o seu trabalho, com toda certeza irá buscar algo sobre ela para saciar a curiosidade em torno dessa figura tão emblemática.

Assim, não é por acaso que o seu álbum WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? foi tão esperado e bastante comentado. Vale ressaltar que Billie Eilish produziu o álbum – e seus trabalhos anteriores – com o irmão Finneas O’ Connell em sua casa e a qualidade do registro – e do alcance do trabalho – mostra que essa parceria está dando muito certo. Em algumas faixas, conseguimos ouvir risadas e interações entre eles, o que mostra os momentos descontraídos da produção e a diversão, mesmo que algumas faixas possuam temáticas um pouco mais pesadas.

WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? mostra o seu potencial e reúne faixas com melodias variadas, o que aumenta a possibilidade de alcance, já que determinado público pode curtir a parte do álbum “menos estranha/pesada” e outra parte curtir o restante do álbum. Isto é, no álbum temos faixas mais sentimentais, suaves com uso do piano, violão, voz e outras faixas com sintetizadores, baixo que exploram uma faceta mais sombria, estranha do trabalho.

Apesar de existir esses “dois lados” dentro do mesmo álbum, esses lados coexistem de forma harmoniosa e não deixam de fazer sentido, já que as letras falam sobre relacionamentos, medicamentos, feridas, mágoas, depressão, pesadelos, suicídio, ou seja, WHEN WE ALL FALL ASLEEP é sobre ser vulnerável, sobre se relacionar e acabar ferido, sobre ter pesadelos, sobre não estar bem, sobre tomar remédios, sobre saúde mental, enfim, sobre vulnerabilidades. Embora Billie Eilish possa trazer estranhamentos, precisamos falar sobre Billie Eilish e do alcance que ela possui, ela é uma artista muito jovem com um alcance enorme e muitos jovens se identificam com ela, seja musicalmente/esteticamente/visualmente, se inspiram nela e sentem/vivem boa parte de suas letras.

Por fim, WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? merece ser ouvido, seja por curiosidade ou por gosto, e devemos tentar compreender o que é a Billie Eilish para a indústria da música atual e como ela anda reverberando enquanto fenômeno para ouvintes mais jovens.  Afinal, podemos considerar Billie uma artista pop, mas ela é uma artista jovem de 17 anos – que apesar de causar um pouco de estranhamento – lançou um álbum interessante e que canta sobre pesadelos, mágoas, depressão – assuntos que tocam em muitas feridas.

OUÇA: “You Should See Me In A Crown”, “All The Good Girls Go To Hell”, “When The Party’s Over”, “My Strange Addiction” e “Bury A Friend”

Helado Negro – This Is How You Smile



NSe você é familiarizado com a obra de Roberto Carlos Lange como Helado Negro, uma coisa que chama a atenção logo numa primeira passada por este álbum é que ele é muito mais “certinho” do que os anteriores. A estética aqui é muito mais melódica e bem amarrada do começo ao fim, e já nos primeiros momentos dá pra perceber que esse som mais despido das viagens de arranjo e do experimentalismo acentuado dos registros anteriores serve a um propósito narrativo muito claro que é o de evocar memórias.

Instrumentalmente, temos alguns poucos relapsos do Helado Negro de sempre pesando a mão nos sintetizadores e baterias eletrônicas como na abertura “Please Won’t Go” mas o piano em reverb acaba suavizando a faixa. Essa é uma dinâmica interessante que aparece em todo o álbum, quando ele chega muito perto do experimentalismo eletrônico dos trabalhos anteriores, algum instrumento tradicional vem e compensa isso, fazendo a música soar mais amigável. A produção de Roberto Carlos Lange é impecável e dosa bem os momentos em que um trabalho mais acústico e tradicional é o melhor caminho ou quando o som eletrônico ajuda a passar a mensagem de uma forma mais precisa.

Um ponto interessante é que o trabalho como um todo grita latinidade sem apelar pra clichês que poderiam passar essa mensagem de forma equivocada. Essa expressão da cultura latina é colocada algumas vezes de forma bem sutil como no fraseado de violão de “Imagining What To Do”  ou bem mais explícita como na belíssima “Pais Nublado” que com um ritmo dançante relata a conversa um pai e um filho latinos que tentam ganhar a vida nos os Estados Unidos e conversam com o pai falando em espanhol e o filho respondendo nos versos em inglês relatando a dualidade de sentimentos e cultura que uma vivência dentro da névoa que é a situação dos latinos nos EUA atual.

A forma como as faixas são colocadas equilibram bem esse aspecto mais social com algo mais íntimo e pessoal que evoca uma nostalgia agridoce por diversos momentos da vida como a memória do amor em “Running” ou as memórias de infância como em “My Name Is For Friends”. Seja através dos arranjos ou das letras, cada faixa deixa uma sensação de saudade e distância depois que acaba mesmo nas faixas mais upbeat como “Seen My Aura”, as frases de guitarra e até mesmo os vazios da batida te levam pra um lugar nostálgico.

This Is How You Smile toma seu título emprestado de uma passagem do pequeno conto “Girl” da autora antiguana Jamaica Kincaid que narra conselhos de uma mãe imigrante para sua filha sobre a melhor forma de se comportar para poder viver em paz em solo estadunidense. Além do título, o que Roberto Carlos Lange pega do conto é o conflito de sentimentos que ele, como descendente de imigrantes, conhece bem que é crescer como latino na América do Norte, tentando conservar tradições ao mesmo tempo em que tenta se encaixar num outro meio e trabalha isso de uma forma que une poesia e confissão, falando de algo ultrapessoal e específico para atingir sentimentos universais como a solidão, a saudade e o não-pertencimento.

OUÇA: “Please Won’t Please”, “Pais Nublado”, “Todo Lo Que Me Falta” e “My Name Is For Friends”

OUÇA:

Betty Who – Betty




A carreira de Jéssica Anne Newmann, conhecida como Betty Who artisticamente, inicia em 2012, por meio de um single liberado para download independentemente. Era “Somebody Loves You”, que muito rápido alcançou sucesso na internet, em especial em Youtube.

Certamente você já ouviu alguma coisa da Betty Who, já que a artista é figurinha carimbada em playlists em serviços de streaming. Com um estilo inconfundível, que mescla fortes referências aos anos 1980 com synth e dance pop, Betty canta, muitas vezes, sobre sentimentos agridoces com upbeats.

Em 2013 foi lançado o primeiro extended play (EP) de sua carreira, The Movement. Em 2014 surge o primeiro álbum, Take Me When You Go, depois do lançamento de um segundo EP, Slow Dancing. Ambos foram muito bem recebidos pela crítica e audiência.

Neste meio tempo, a partir dos primeiros lançamentos, a aclamação pelo estilo retrô de suas canções, com forte apelo oitentista, rendeu convites para participações na TV, em turnês – de Katy Perry e de Kylie Minogue – na Austrália e estreias significativas nas paradas internacionais.

The Valley, o segundo disco, foi lançado em 2017. Apresenta canções com mais elementos eletrônicos, letras mais maduras e não abandona as referências aos anos 1980.

O fato que é Betty Who nunca abandonou a fonte oitentista onde embebe suas canções. E isso é presente no lançamento mais recente, o Betty, de 2019. Este é um registro que, dentre todos, é o que mais de distância de Take Me When You Go – o debut. Por isso é necessário fazer um breve retrospecto da carreira pra entender o que disco mais recente propõe.

Em Betty Jessica Anne canta, mais uma vez, sobre situações que vive, como em “Marry Me”, e aproxima sua música de um contexto mais comercial e radiofônico. Não soa mal. Na verdade, o resgate em que ela aposta soa muito bem em faz sentido ouvir sua música alinhada com as características daquilo que faz sucesso atualmente, sem deixar de lado a personalidade musical de Betty. Mesmo as músicas mais diferentes do álbum, o caso de “Taste”, por exemplo, conservam elementos particulares de suas canções – como os agudos, refrão fácil e eletro.

OUÇA: “Just Thought You Should Know”, “Between You & Me” e “Ignore Me”

Ladytron – Ladytron



Ladytron traz novas cores ao seu trabalho inovador iniciado nos anos 2000. Para antigos e novos ouvintes, o grupo de Liverpool carrega seus tripulantes por um roteiro energético, inconformado e revigorante do seu electro-pop e shoegaze que os consolidou e inspirou diversas bandas.

Oito anos desde seu último projeto de estúdio, o álbum homônimo chega com um grito ritmado, “Until The Fire” anuncia com sua bateria emoldurada pela icônica combinação dos vocais de Helen Marnie e Mira Aroyo ah que veio ‘Oh we hang on the wire, and the walls get higher / Just until the fire catches them’. Um prelúdio para um álbum distópico.

Na segunda e ótima faixa “The Island”,  a banda invoca suas raízes do sinthypop dos anos 80 com um toque de Chvrches – que Helen já afrimou ser uma grande fã – um eco energético e revigorado do trabalho que consolidou a banda, “We are sirens of, of the apocalypse / Poisoned paradigma / We are savages, give them your poison lips”.

Ao decorrer do álbum com boas faixas como “Far From Home” e “Paper Highways”, o grupo como um dos precursores do ressurgimento do sinthypop nos anos 2000, mostra que continua afiado, atual e incisivo na construção de um álbum – marca já registrada em seus últimos trabalhos.

A segunda parte do álbum reserva boas faixas com um mix de uma banda consolidada mas inconformada em olhar apenas para o passado, “Deadzone” com sua energia ritmada numa vibe e enredo cyber-punk, ‘Don’t come knocking with your night moves / My resistance is your weakness’ transparecendo à faixa Manequin com um quê de pista ao mesmo tempo saudosista e futurista. Bons exemplos de como Ladytron se mantém fiel à qualidade, com uma sonoridade familiar, mas nunca obsoleta.

O retorno de Ladytron oito anos depois foi certeiro, atual e essencial.

OUÇA: “The Island”, “Deadzone”, “Figurine” e “Far From Home”

Broods – Don’t Feed The Pop Monster


Poucas coisas são mais irônicas do que começar um trabalho chamado Don’t Feed The Pop Monster com uma música pop até a medula. Ao longo de seu terceiro álbum, Broods mostra que a intenção da dupla não era fugir de sons grudentos. O foco era proporcionar canções pop que não fossem esquecíveis e sem personalidade.

Os irmãos Georgia e Caleb Nott continuam apostando no mesmo tom melodramático e até exagerado dos álbuns anteriores. Porém, isso ficou mais latente nas letras dessa vez, já que a sonoridade do novo lançamento está mais leve e próxima de artistas cheios de energia, como HAIM.

Mesmo não abandonando os sintetizadores pelos quais são conhecidos, o duo se arrisca um pouco mais, como em “Dust”, em que guitarras remetem a “Wicked Love”, de Chris Isaac. Outro risco foi colocar Caleb para cantar em “Too Proud”, o que acabou destoando do resto do álbum, em que a suavidade da voz de Georgie garante um clima de delicadeza, mesmo quando a euforia se sobressai.

O grande destaque fica por conta da proximidade com o dream-pop. Além disso, várias músicas dos irmãos nascidos na Nova Zelândia lembram bastante os vocais sussurrados e etéreos de Imogen Heap, assim como as melodias intimistas e inventivas da cantora, como em “Falling Apart”.

Broods também se joga em referências pop dos anos 90 e 2000 em alguns momentos, desde B-52s até Gwen Stefani.  Portanto, trata-se de mais um trabalho em que o duo tenta desafiar expectativas, mostrando como o pop ainda tem muita flexibilidade para ser divertido sem cair na obviedade.

OUÇA: “To Belong”, “Everyting Goes (Wow)”, “Peach” e “Hospitalized”