Toro y Moi – Outer Peace


Atrás do nome bilíngue Toro y Moi, está o músico e produtor americano Chazwick Bradley Bundick, conhecido como um dos grandes nomes do movimento chillwave . Mas, se você conhece Chaz Bear também sabe que sua música está sempre mudando de estética, de estilo e até de gênero musical.

Outer Peace é um dos álbuns mais acessíveis de Toro y Moi. Apesar da escuta fácil, a alternância de elementos de house, disco e future-funk o torna inconsistente. Não sabemos onde quer ele chegar. Soa mais com um grande álbum de música ambiente para lugares hipster-cools-techno.

A primeira metade de Outer Peace ainda possui um bom compilado de singles, mesmo que um pouco forçados. Faixas como “Freelance”, “Ordinary Pleasure” e “Laws Of The Universe” possuem uma boa mistura de funk com samples mais digitais, como se fossem grandes representações da sensação de euforia da era digital. Liricamente, a temática digital também está presente. Chaz escreve sobre a dependência tecnológica da sociedade e como ela nos leva a exaustão física e mental.

Em uma recente entrevista, Chaz comenta “Sexo ainda vende? Eu sinto que já vi de tudo, ou talvez eu esteja apenas velho ou talvez eu esteja entediado”. O álbum transparece todas essas opções juntas. Parece que eu também já ouvi essas músicas e fiquei entediada. Mas, talvez, eu também só esteja velha demais.

OUÇA: “Freelance”, “Ordinary Pleasure” e “Laws Of The Universe”

Panda Bear – Buoys


É difícil pensar em alguma banda cujos integrantes produzam na escala que o Animal Collective produz e que conservem qualidade e integridade com a proposta inicial. Sem precisar fazer grandes malabarismos estilísticos, o Animal Collective (em todas as suas variações de composição) fez, desde o estreante Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished, de 2000, outros 10 discos enquanto conjunto, além de 9 EPs de qualidade tão boa quanto os discos e mais 3 álbuns ao vivo.

Um dos membros mais “ativos” da banda, Noah Lennox, que atende pelo nome artístico de Panda Bear, não fica atrás em sua produção solo: são pelo menos 6 álbuns atribuídos a ele enquanto performer solo. Assim como no Animal Collective, Noah manteve, ao longo desses 20 anos de atividade, uma linha produtiva extremamente coerente. Coerentes a ponto de beirarem o autoplágio. Se não fosse a capacidade de inovação e posição de vanguarda impressionante de suas produções (tanto solo quanto coletivas), cada um dos muitos lançamentos seria um tédio.

Mas esse não é o caso. Nunca é o caso. E não é o caso para Buoys (leia “bóias”, segundo o próprio Lennox em entrevista para O Globo), novo disco a ser lançado em fevereiro. Com 9 faixas de duração moderada (a mais longa mal chega aos 5 minutos), Buoys foi composto durante o período de preparação e turnê do aclamado Sung Tongs, que passou pelo Brasil no segundo semestre de 2018.

Apostando novamente no combo voz-violão, o álbum não é marcado pela complexidade das composições e nem dos arranjos, mas pela criação de uma atmosfera: vemos muito o uso dos ecos e efeitos na voz, pontuações eletrônicas e um uso ritmado do violão como marcador de percussão, assim como no Sung Tongs, mas em menor escala, deixando espaços menos preenchidos e mais reflexivos.

Assim como no coletivo Tangerine Reef, que, embora seja o primeiro trabalho do Animal Collective sem a participação de Panda Bear, Buoys coloca, em algum grau, a temática marítima — e enfrenta o mesmo problema de similaridade entre as faixas, como se cada uma fosse uma explicação da anterior e tornando difícil a distinção entre eleas, que Tangerine Reef. Claro que pode ser um risco associar esses dois trabalhos, especialmente porque um deles sequer conta com a participação de Lennox, mas, para mim, é impossível dissociar os trabalhos solo e coletivos nos quais Noah se envolve.

Se para o Tangerine Reef a NME falou em tediosos “tons de cinza” em contraposição à “bagunça colorida” de Merriweather Post Pavillion, podemos evocar a figura das cores para garantir para Buoys um lugar ao sol: os vocais são interessantes, pronunciados e, mesmo sem a sensação de “coletividade” que marca os vocais do Animal Collective, e do próprio trabalho solo do Panda Bear em outros momentos, evoca uma espécie de solidão compartilhada, como se estivéssemos à deriva (em bóias, que seja) sabendo que existem outras pessoas naquela situação.

Diferentemente dos tímidos 60% que Tangerine Reef marcou segundo o Metacritic, com opiniões ferozmente negativas, como a da NME, vejo Buoys no espectro da maturidade de Lennox: depois de um sucesso estrondoso do solo Panda Bear Meets The Grim Reaper, de 2015, avaliado acima dos 80% no Metacritic, e de uma excelente turnê com o Sung Tongs, Panda Bear nos mostra que ele é capaz de revisitar os próprios trabalhos e criar algo especial. Não propriamente novo, mas não menos especial por isso.

OUÇA: “Dolphin”, “Cranked”, “Master” e “Home Free”

James Blake – Assume Form


Assume Form surge como o quarto álbum de estúdio do cantor e produtor inglês. Em seu último trabalho, Blake permeia o ambiente com seriedade e sentimento, transformando aquilo que é etéreo em som. Por meio do álbum, o cantor externa temas como o próprio ego, amor, luz e insegurança, utilizando as participações de Travis Scott, André 3000, ROSALÍA, Moses Sumney e Metro Boomin para a materialização temática do projeto.

Logo de cara, Blake mostra-se aberto, dialogando diretamente com o público, em uma espécie de divã. Há conversas francas sobre amor, confiança e entrega – e, claro, expectativa, como  em ‘I hope this is the first day, that I connect motion to feeling‘, trecho da faixa homônima. Existe aí anseio em expressar tudo de novo que permeia as sensações, sejam elas físicas ou imateriais.

O álbum possui cerca de 48 minutos de execução, divididos em 12 faixas. Assume Form é tudo aquilo que poderíamos esperar de Blake, com algo a mais. Ainda mais confessionalidade e passionalidade. As batidas transitam entre o que é quase imaterial, portanto, imperceptível, e sua voz captando a atenção do ouvinte para o que deve ser escutado. Blake dialoga graças ao seu magnetismo e identificação, afinal, quem nunca experimentou as sensações do amor?

“Into The Red”, quarta faixa do álbum, é uma grata surpresa, tanto em termos musicais quanto em sua narrativa. Em  sua entrevista para o iTunes, Blake revelou que a música foi feita para uma mulher que gastou tudo o que tinha para lhe dar algo. A ideia, para Blake, quebrou o pressuposto que atribui ao homem a questão financeira, atraindo-o para a ideia de igualdade. Enquanto o cantor narra sua história com a companheira, a melodia, com batidas leves e alegres, o acompanha como se dançasse com suas palavras. “Barefoot In The Park” possui participação da cantora espanhola de  eletro-flamenco ROSALÍA e, apesar dos belos vocais, não oferece nada de novo musicalmente, apresentando uma batida sem componentes singulares e totalmente esquecível.

Outra surpresa, um dos pontos altos do álbum, é a faixa “Where’s The Catch?, com participação de André 3000, rapper e integrante do aclamado duo OutKast, a música trabalha com jogo de palavras cantados por cima de uma batida obscura, onde as rimas de 3000 contrastam diretamente com a voz de Blake, criando uma dinâmica única e magnética, em um fluxo intenso e combinado de sons e rimas. “Lullaby For My Insomniac”, responsável por encerrar o álbum, é a síntese da doçura e expressa promessas genuínas a quem se ama.

O disco, moldado no etéreo e no diálogo, oferece ao ouvinte uma nova perspectiva de Blake, sintetizando sua entrega ao amor e, de certo modo, seu enclausuramento em uma bolha sentimental. Musicalmente, o cantor não oferece algo tão fora do esperado e, na verdade, isso não é ruim. O álbum funciona desta forma e apresenta um bom trabalho, relaxado e tranquilo. Novos ares, talvez?

OUÇA: “Assume Form”, “Where’s The Catch?”, “Into The Red” e “Power On”

Esben and The Witch – Nowhere


Algumas bandas conseguem continuar as mesmas apesar de mudarem muito. Esben and the Witch é uma delas. Ao ouvir Nowhere, não podemos dizer que a sensação seja de algum modo muito distinta da que vinha lentamente se apossando de nossos ossos nos primeiros álbuns. A banda continua particularmente sombria. E isso em uma intensidade que é difícil encontrar hoje em dia, ao menos fora do campo do metal. E a raiz das mudanças que a banda encarnou podem se originar aí. Cada vez mais caminham para ser uma banda de metal. Se no começo eram uma vertente do dream pop particularmente obscura, com muitos elementos eletrônicos, mas que não abafavam a visceralidade, hoje os vocais estão menos etéreos e mais dramáticos, com uma ênfase nos instrumentos do power trio deixando de lado tudo que tinham de experimental, que fazia com que se distinguissem de centenas de outras bandas.

O correto seria avaliar Nowhere como um álbum de metal, pois é isso que ele é. Acredito que quem gosta desse estilo musical e ainda não conhece a banda deve escutar esse trabalho e, provavelmente, vai gostar do resultado. Embora talvez se decepcione com os outros discos, caso se proponha a ir mais a fundo. Como álbum de metal, Nowhere é um belo representante. Já como um disco de Esben and The Witch, deixa bastante a desejar.

Se ainda existem alguns, sutis, traços de post-rock, também é verdade que as melodias são bastante tradicionais, beirando o genérico.

Os vocais aqui tomam um destaque inédito na trajetória do grupo. E, de fato, não são ruins. Mas os melismas exagerados, encaixados numa produção que é muito clara, faz com que o resultado seja esquecivel. Tudo é muito limpo, com um espírito operático que torna difícil a conexão. A sensação é de extrema artificialidade. Se a versão do gótico presente nesse disco não chega a ser a mesma da de um filme do Tim Burton, ao menos é igualmente desprovida de emoção real, da aflição que sabemos que o trio sabe fazer tão bem.

Não são só os vocais que seguram notas mais do que deviam. As guitarras constantemente fazem o mesmo, causando uma verdadeira sensação de que o álbum se arrasta. E de que estamos ouvindo uma mesma canção, ainda que com seus altos e baixos. A parte boa disso é que, por não ser longo, Nowhere pode realmente ser experimentado como se fosse uma única faixa, uma espécie de sinfonia. Considerando as referências das quais o metal costuma se apropriar, não é difícil imaginar que essa foi exatamente a intenção.

Ou seja, se, depois de ouvir as duas primeiras músicas, ainda tiver vontade de continuar, estiver gostando, pode ter certeza de que o resto também o fará, caso contrário, melhor passar para a próxima.

OUÇA: “A Desire For Light” e “Dull Gret”

Imagine Dragons – Origins


Dentre as chamadas bandas de rock desta década, seja lá o que “banda de rock” ou “rockstar” venha a significar em 2018, o Imagine Dragons está no grupo das mais bem-sucedidas. Presença garantida em premiações, festivais e se consolidando como um dos atos mais vitoriosos quanto se fala em streaming, o grupo liderado pelo carismático Dan Reynolds lançou seu quarto disco, Origins, no começo de novembro. O álbum reforça o que o Imagine Dragons sabe fazer de melhor, ao mesmo tempo em que os faz cair em armadilhas bastante previsíveis. Aquele tipo de armadilha que só quem está absorto no processo não é capaz de prever, apesar do restante do mundo conseguir enxergar com clareza a direção que Origins seguiria.

O Imagine Dragons conseguiu bastante destaque já com seu disco de estreia, Night Visions, em 2012. Aquele disco contava com excelentes singles (“Demons”, “It’s Time” e “Radioactive”) e trouxe a sonoridade que a banda carrega até hoje: rock de arena com uma roupagem bastante pop. Apesar dos bons singles, o disco era bastante irregular, mas longe de ser ruim. Ruim mesmo foi o segundo disco cheio Smoke + Mirrors: longo, opulento e cansativo. No ano passado eles retornaram com Evolve e acertaram em cheio ao fazer um disco mais curto, menos superproduzido e com novos singles inegavelmente fortes (“Whatever It Takes”, “Thunder” e “Believer”).

Este é o histórico que nos traz até Origins, o segundo disco em pouco mais de um ano. Este é um álbum que mergulha de vez no pop e se perde em meio a seus lugares-comuns. Aqui há espaço para influências industriais, oitentistas, de R&B e de música africana. Essa diversidade é um ponto positivo do disco, no entanto os clichês saltam aos olhos. As batidas genéricas de “Boomerang”, “Cool Out” e “Stuck” poderiam estar em qualquer um dos trabalhos mais recentes do Maroon 5. Até a forma de dividir as palavras no refrão de “Bullet In A Gun” é totalmente previsível e já soa batida dentro da curta discografia da banda. Isso sem citar as letras que em nada evoluem em relação aos discos passados.

Fica claro que a banda quer ser a nova referência quando se fala em “banda de arena” e os números mostram que eles estão perto disso. Há referências aos grandes bastiões que lotaram, e lotam, estádios ao longo das últimas décadas. “Machine”, um dos bons momentos do disco, tem a parte percussiva muito próxima de “We Will Rock You” do Queen. “Love” poderia ser a faixa de encerramento de qualquer disco do U2 pós Pop. E não seria surpresa se “Bad Liar” fosse uma sobra de estúdio do Coldplay em algum de seus últimos discos.

O que chama atenção no Imagine Dragons é que, apesar dos tropeços, não há crise de identidade, algo bastante comum em bandas por volta do quarto ou quinto disco. A banda sabe exatamente quem é, do que é capaz e no que seu público está interessado. A música criada pela banda é pegajosa, feita para ser cantada a pleno pulmões e recheada de mensagens óbvias, mas que fazem todo sentido nos momentos de catarse coletiva que permeiam as apresentações ao vivo. Nesse sentido, pode se dizer que Origins é um novo acerto, mesmo errando o alvo na maior parte das faixas.

É impossível negar que o Imagine Dragons sabe compor singles fortes e tem inegável talento em construir refrãos. É inegável também reconhecer que a banda sabe o que seu público quer ouvir. No entanto, do ponto de vista de evolução artística, Origins revela uma banda que tropeçou ao enveredar por um caminho mais pop e ainda está à sombra de suas principais referências. Talvez uma parada para respirar e lapidar mais as canções faça mais sentido para o futuro da banda do que continuar lançando novas músicas criadas no piloto automático apenas para alimentar os algoritmos das plataformas de streaming.

OUÇA: “Natural”, “Machine” e “Only”

The Prodigy – No Tourists


Se a imagem que se forma na sua cabeça quando perguntam sobre uma festa do final dos anos 90 é de raves de música agressiva e de gente com uma um visual de gosto duvidoso, em parte a culpa desse estereótipo é do gênero Big Beat, que pega elementos do Drum and Bass e do Industrial, e joga num liquidificador na potência máxima. Grupos como The Chemical Brothers, Fatboy Slim e The Crystal Method ajudaram a impulsionar esse movimento na cena mais alternativa das baladas, mas a banda que mais marcou a época, não só pela atitude e agressividade, mas também por ter popularizado a estética do gênero, foi o The Prodigy.

Mas, assim como milhares de outros gêneros, parece que o Big Beat não passou no teste do tempo, ficando ultrapassado perante às tendências atuais da EDM em geral. Tanto que o Chemical Brothers, por exemplo, mudou muito desde seu auge para se adaptar a uma nova audiência, mas sem perder certos elementos das suas raízes. E o problema do novo álbum do The Prodigy, é que parece que ele foi feito em 1999.

E se for levar pro lado de que “não se mexe em time que está ganhando”, a desvantagem aqui é que, apesar de seguir a fórmula dos trabalhos anteriores, nada é tão memorável quanto o auge de álbuns como The Fat Of The Land e Music For The Jilted Generation. A agressividade continua, a repetição também, mas é tudo de forma plástica e reciclada, deixando algumas músicas chegarem ao nível de serem irritantes, coisa que não acontecia nesses álbuns mais antigos. As duas primeiras músicas do álbum, por exemplo, seguem essa fórmula de forma mais aceitável. Mas quando chegamos em “Fight Fire With Fire”, a coisa começa a desandar de verdade e parece que é tudo parte de uma coleção de b-sides de alguma outra era da banda. Não é possível que alguém consiga ouvir “Boom Boom Tap” e achar legitimamente que é uma canção aceitável.

Pra ser sincero, não tem nem muito o que dissertar aqui. Não tem grande análise sobre sonoridades, dinâmicas, e significados de letras, já que o álbum em si não oferece nada de muito significativo nesses aspectos que mostrem uma evolução ou regressão do que a banda já mostrou anteriormente. Exceto por umas 3 músicas que são até um pouco pegajosas e interessantes, tudo parece uma colagem mal feita de coisas que qualquer ouvinte mais ou menos introduzido à discografia do The Prodigy já cansou de ouvir. Mas, se você não se cansou, talvez ache graça em mais músicas e consiga apreciar melhor. E se cansou mesmo mas ainda tem um leve interesse no Big Beat, talvez seja mais interessante acompanhar o The Chemical Brothers.

OUÇA: “Need Some1”, “Light Up The Sky”, “No Tourists”

Say Lou Lou – Immortelle


Com 7 músicas, as irmãs Say Lou Lou lançam o segundo álbum da carreira. Se nunca ouviram, é só imaginar um voz sexy sussurrando dentre batidas pop-eletrônicas. Mas, em Immortelle eles foram muito além do estereótipo noir.

Claro que toda estética de filme noir ainda é uma grande referência para dupla. Em entrevista a NME, elas dizem se inspirar assistindo filmes e clipes antigos, a partir desse contato criaram uma vibe, um mundo particular que contextualiza o álbum. Essa narrativa e estética está explícita no curta que acompanha o álbum. Immortelle é antes de mais nada um manifesto feminista, sobre como as mulheres são vistas no mundo.

As irmãs defendem que um artista não pode ficar restrito apenas a um tipo de mídia. O importante é a audiência engajar com suas produções. O curta também parte desse ponto, que as mulheres não devem ser definidas apenas por uma coisa e que são capazes de muito mais. Em “Golden Child”, a temática de liberdade também está presente, como percebemos no trecho: ‘They’re gonna cut you to the core/ Gonna try to cool you down (down)’

Com uma melodia crescente, “Ana”, o single do álbum soa como a junção perfeita entre Portishead e Lana Del Rey. Cercada por violinos intensos por toda a composição, a música é o alterego de uma mulher no topo de tudo. Depois de ouvir as outras músicas, que apesar de parecerem meio repetitivas, são muito originais ao transitar por referências desde sci-fi, retro-futurista até disco anos 70. As sete músicas do álbum acabam por ser pouco e não conseguir suprir a necessidade do ouvinte, que apesar de novo, é ávido por mais Say Lou Lou.

OUÇA: “Ana” e “Golden Child”

Robyn – Honey


O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda.

Oito anos se passaram desde que a sueca lançou o magnífico Body Talk, álbum que mudou e revolucionou o pop eletrônico. Com suas batidas bastante características e letras extremamente profunndas, Robyn (me) mostrou que pop não precisa ser algo raso e sem nenhum real sentimento, que pode e deve trazer algo a mais e não ser apenas música pra encher pistas de dança. Essa Robyn continua presente em Honey, obviamente. Mas parece que dessa vez tem algo faltando em grande parte do disco.

Honey é bastante curto, tratam-se apenas de nove músicas e pouco mais de trinta minutos, e nele Robyn aposta em algo completamente diferente de tudo o que já havia feito – mesmo quando consideramos o começo de sua carreira como cantora adolescente. O pop de Body Talk é urgente, visceral, com batidas  emocionantes que se encalacravam em tudo ao seu redor. Aqueles primeiros sete segundos de “Dancing On My Own” antes da bateria começar já ilustram tudo isso. E Honey… não.

Sei que comparar os dois álbums é algo bem burro e estúpido de se fazer, muito tempo se passou entre eles e muita coisa mudou  – como era a sua vida oito anos atrás? Com certeza bastante diferente do que é agora. Robyn também merece ter mudado e evoluído nesse tempo. Mas não comparar os dois álbuns é quase impossível.

Honey é um álbum bastante delicado e suave, talvez exatamente para se contrapor à explosão incessante que foi Body Talk (lembrando que, originalmente, Body Talk foi um projeto de 3 EPs que permeou o ano de 2010 inteiro, sendo compilado apenas posteriormente). É natural que as coisas se acalmem um pouco, mas Honey acaba sendo parado e introspectivo demais até para Robyn – alguém que faz música pop introspectiva de excelente qualidade.

Em 2018 Robyn mostra continua sendo a força pop maestral que sempre foi, mas ela não se supera. Nem se esforça para tal. Honey é um álbum muito bom, por que não tinha como ser diferente. Mas depois de tanto tempo de espera, apenas ‘bom’ parece quase um passo atrás para a cantora.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”

Allie X – Super Sunset


Allie X vem voando mais alto nos últimos anos. Especialmente depois do hit “Paper Love”, sua fanbase teve um crescimento considerável e ela entrou na categoria de cantoras Pop adotadas pelos fãs como uma grande promessa do gênero, daquelas que quando se estouram ouvimos aos quatro ventos “EU SOU FÃ DESDE PRIMEIRO EP” etc.

Super Sunset tem oito músicas com duas intros. É praticamente um EP. Acho que nem cabe uma super resenha descrevendo cada aspecto desse trabalho. A equipe de produtores acertou a mão e Allie X manteve os mesmos aspectos que fizeram CollXtion II interessante. Tecnicamente, esse é um disco perfeito. Pena que falta profundidade.

Allie X tem 33 anos e sinto como se estivesse ouvindo composições de uma mulher de 20. O erro não é da cantora, veja bem. O álbum é comercial o suficiente para ir bem nos charts de música pop e tocar em qualquer balada do gênero, mas não traz assuntos relevantes o suficiente para me prenderem a atenção. É um disco que me lembrou bastante The Fame, da Lady Gaga. Só que já se passaram 10 anos desde que ele foi lançado.

Se você está a procura de um synthpop/indie pop bem produzidos, pode ouvir Super Sunset sem medo. É uma audição gostosa e divertida. Se está procurando por algo que saia do lugar comum, é melhor procurar outras artistas.

OUÇA: Tudo. Pelo amor de Deus, são só 21 minutos.

The Ting Tings – The Black Light


Dez anos. Esse é, de maneira rústica, o intervalo de tempo entre o primeiro álbum e esse quarto, o The Black Light, na carreira dos britânicos do Ting Tings. “Shut Up And Let Me Go” e “That’s Not My Name” aparte, é possível traçar um panorama interessante dentro desse grande espaço de tempo: de onde a dupla partiu e até aonde a dupla está agora. E, além disso, de que o maior instrumento da carreira do duo acaba sendo o tempo e como ele molda os interesses deles.

Nesse quarto disco a dupla abusa muito mais de elementos industriais que permearam um pouco os álbuns anteriores – se observarmos o single solto “Hands” antecessor ao segundo álbum conseguimos enxergar bem essa construção – e consegue deixar esse ritmo eletrônico mais cru e emergencial de uma maneira interessante para ser trabalhado dentro de uma banda tipificada dentro do grande gênero indie. Jules e Katie ainda abusam de elementos da grande ressurgência da cena techno, criando uma amalgama eletrônica com elementos de guitarra dentro de seu novo estilo – um indie pop electro industrial bem bolado.

The Black Light demorou quatro anos para aparecer desde Super Critical, mesmo intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo álbuns, e essa pausa se pareceu muito necessária para eles. Esse quarto álbum parece servir como momento de autocrítica, de aceitar que sua identidade e criatividade do primeiro álbum foram essenciais para aquele instante, mas não estão mais alinhadas com os interesses da banda atualmente – o tempo, o grande instrumento.

Dentro desse panorama, The Black Light parece ser o primeiro álbum verdadeiramente do The Ting Tings desde o primeiro disco, aonde eles mostram de maneira muito mais fluida e fácil quais são os interesses deles atualmente. Essa falta de identidade fez a dupla sofrer muito e parecer uma reconstrução bizarra do sucesso do seu primeiro disco nos álbuns anteriores. Esse quarto álbum vem como uma construção de um novo modelo para a banda e, esperamos, que apareça como uma vontade de aprimoramentos e maior consciência nas composições dos próximos álbuns.

No fim das contas, o Ting Tings parece ter se reinventado dentro do seu mesmo jogo mais uma vez. Eu particularmente acho que a discografia da dupla tem seus momentos de luz e que possuí músicas geniais dentro das singularidades de seus álbuns – “Day To Day” e “Wrong Club”, por exemplo – mas The Black Light é, talvez, o álbum mais interessante desde o seu primeiro e grande sucesso. Apesar dos pesares, é bonito ver que a dupla continua na ativa e continua entregando música bem pensada para nos alimentar, mesmo que ainda vivam, em 2018, sob a sombra do seu sucesso de primeira viagem lá em 2008.

OUÇA: “A & E” e “Blacklight”