Kindness – Something Like A War



Desde que Adam Bainbridge apareceu na cena musical sob a alcunha de Kindness, sempre esteve claro que sua proposta de produção musical estava um pouco mais à esquerda do pop convencial. Desde sua última obra World, You Need A Change Of Mind, de 2012, ele nos apresentou produtos paralelos com Solange, Dev Hynes e Robyn, firmando ainda mais esse seu espaço no pop alternativo. Something Like A War aparece como um marco de como a percepção do britânico avançou, e aos mais desavisados, uma nota: esse álbum do Kindness está ótimo.

A primeira faixa começa em um tom grandioso, solene, mas menos de um minuto dentro da faixa uma reviravolta e seja bem-vindo a sua dose necessária de house late 80s. A produção se incrementa com vocais, coros, batidas pulsantes. Não tem outro caminho a não ser saber que esse álbum do Kindness é promissor, em especial pelo conteúdo lírico e pela produção que toma forma com a fluidez das faixas e uma ausência de tensão propriamente dita.

O álbum é montado com transições suavizadas, ora ou outra se aproximando de um set de dj e que o colocarão certamente no seu melhor astral. A produção do álbum é incrementada pelas inúmeras colaborações em peso, como Seinabo Sey, Bahamadia e Jazmine Sullivan. Os pontos altos do álbum ficam reservados para ninguém menos que Robyn, que provam aqui que a dupla funciona tão bem quanto Sofia Copolla e Kirsten Dunst juntas.

Something Like A War é um álbum feito para ser compreendido como um todo, impossível de ser dissociado. AS movimentações que Bainbridge cria entra uma faixa e outra constrói as várias camadas de estado de espírito, um atestado de sofisticação dentro da música pop que apenas Kindness poderia criar.

OUÇA: “Sibambaneni”, “The Warning” e “Cry Everything”

Jaloo – ft (pt. 1)


Ao lançar seu primeiro álbum, Jaloo botou os dois pés na porta da cena cultural do país e provou ser um artista multifacetado, criador de conceitos imagéticos, explorador de possibilidades sonoras. Mostrou também que seu som tinha lá seus hermetismos pascoais que agradou a muitos, assim como o deixou inacessível para tantos outros. Se Jaloo era pop no conceito, não o era no alcance. Agora, quase metade de uma década após o primeiro disco, o artista apresenta àquele público que se encontra na margem do mainstream um material mais palatável.

A música eletrônica dos primeiros tempos ainda dão as caras, porém sem tanta densidade. Marcam a trilha de maneira mais madura, dá até para dançar melhor. O experimental deu algum espaço a construções mais estruturadas, mais coesas. A qualidade técnica da produção chama a atenção. Assim como as letras. Em geral, falam de amor e da dor de amar. Mas falam de outro jeito: mais desinibido, mais real. Jaloo está romanticamente diferente. Eu diria que a mais poética é o samba futurista “Céu Azul”, com a MC Tha.

Neste voo, suas asas são os atuais ritmos de fácil penetração nos ouvidos da juventude momjeans-striped-balenciaga-pochete/shoulderbag. Uma espécie de brega-pop embala “Q. S. A.” cuja letra parece narrar uma dessas histórias de amor de carnaval e conta com a parceria da conterrânea Gaby Amarantos. Já os beats do trap aparecem em algumas faixas, como em “Dói d+” em que estão de mãos dadas com a sofrência e seu ritmo contemporâneo (o arrocha, claro), evidenciando que Jaloo quer preencher não só os ouvidos de seu público, mas tocar o seu coração – como bom artista que é.

Certamente, esse trabalho seria bem diferente se não contasse com parcerias como Gaby Amarantos, Dona Onete, Manoel Cordeiro, MC Tha, Céu, Karol Conká, Lia Clark, Badsista, etc. É muito interessante e agradável navegar pelas faixas do disco com as participações de tanta gente competente e talentosa.

Se a mistura enriquece, que álbum abastado! Jaloo sempre foi capaz de criar com muitas referências, mas, nesta obra, encontrou o ponto certo da dosagem. Ele é latino, rapper, brega, sambista, sem ser cansativo. Existe algo familiar ao longo das faixas desse álbum que nos toca de maneira certeira. Talvez seja cedo para se falar em hitmaker, mas Jaloo conseguiu se expressar para novos públicos, mostrando que sua música não é pop só em conceito. E tem seu valor.

OUÇA: “Q.S.A.”, “Eu Te Amei (Amo!)” e “Sem V.O.C.E”

Melanie Martinez – K-12



Criar seu álbum em torno de um conceito não chega a ser um problema, desde que a música que o envolve cative o ouvinte mesmo fora de contexto, e até ultrapassando barreiras de linguagem. Então, se você não fizer parte de uma banda de prog moderno mega conceitual, deveria levar isso em consideração, construindo uma experiência que abrigue o consumidor casual e o hardcore, sem causar conflitos entre os lados. Equilíbrio é uma coisa ótima, sabe, alguns artistas deveriam tentar mais manter pelo menos algum.

Então quando um artista entrega um álbum que, não só recicla um conceito antigo, mas ainda piora e muito a qualidade “casual” do produto, é difícil defender. E a Melanie não é a primeira pessoa a fazer isso, o primeiro exemplo que me vem a mente é o 21st Century Breakdown do Green Day. Sucede um conceito ambicioso, que acerta em alguns pontos e erra em outros, pra repetir a fórmula de forma genérica e apática.

Só que no caso do Green Day tinha, sei lá, a dupla “Viva La Gloria”, que dava uma energia ocasional pro projeto de forma diferente o suficiente pra manter o mínimo de novidade pra puxar o ouvinte ocasionalmente. O problema de K-12 é que é tudo mais do mesmo: músicas com uma temática que remete à infância, mas com um subtexto de maldade pra causar uma ambiguidade desconfortável. Se a fórmula funcionava pelo menos decentemente no Cry Baby, isso se deve às metáforas inventivas, e ao carisma com o qual Melanie acentuava essas distorções na estética infantil, ambos acompanhados de uma produção bem digna. Já aqui, tudo perde qualquer vestígio de naturalidade que poderia ter pra virar um “kkkk olha como eu sou uma menina má” em temas completamente clichés, com melodias fracas e beats insossos.

Se no álbum anterior tínhamos músicas como “Mrs. Potato Head”, que era uma crítica ao modo compulsivo como as plásticas estéticas são incentivadas na sociedade americana, nesse álbum temos algumas tentativas , como “Strawberry Shortcake”, que se você pensar bem tem até uma mensagem ok lá no fundo, mas fica ofuscada pela mesma problemática de que, em algum momento, a Melanie PRECISA ser edgy pra te lembrar que, apesar do conceito ser sobre escola, ela é não é nem um pouco inocente. E se você já fez cara feia só de ler essa frase, fique longe desse álbum.

E o pior de tudo é que tem um filme de uma hora e meia que acompanha o álbum, pra deixar bem claro que tudo aqui é parte de uma masturbação de um tema e uma estética que não dá mais tesão pra ninguém. Reenforça o argumento do “conceito”, mas em K-12, nem isso salva.

OUÇA: “Strawberry Shortcake” e “Teacher’s Pet”

Pharmakon – Devour



No universo de gêneros musicais que tendem ao experimental, como o noise, o papel da música como meio costuma sofrer uma inversão. Mais do que condutora de uma narrativa eloquente, nesse estilo, a música age como um gatilho, provocando no ouvinte sensações mais primitivas do que sentimentos ou pensamentos racionais, quase reações instintivas que se originam das distorções, efeitos e rupturas que esse gênero musical explora. Entretanto, essa direção artística pode ser uma faca de dois gumes, por que se de um lado, um experimento bem sucedido causa marcas duradouras no espectador que podem transcender até sua capacidade de as explicar de maneira razoável, um experimento mal sucedido falha até mesmo em provocar uma sensação ruim, chegando perigosamente próximo de uma experiência inócua, nula. Um exemplo desse risco pode ser encontrado em Devour, disco mais recente da artista de noise Pharmakon.

Quarto disco de estúdio da artista nova-iorquina, Devour vem dois anos depois do último projeto, Contact, e compreende 36 minutos de noise divididos em cinco faixas. Explorando relevos sonoros que passam por distorções, modulações vocais e sintetizadores, Pharmakon procura construir uma atmosfera opressiva e sufocante no disco, alcançando com isso resultados variados, mas que em sua maioria caem no campo da repetição e da monotonia.

Uma vez que a orientação artística de artistas de noise com essa abordagem tende a procurar causar desconforto e incômodo (e obras como Virgins, de Tim Hecker, Excavation, de Haxan Cloak, Black Vase, de Prurient, Replica, de Oneohtrix Point Never e Puce Mary surgem como excelentes exemplos de obras que exploram esse estilo), muito do sucesso do projeto vai depender ou da capacidade do artista de surpreender seu público ou de construir ambientes que provoquem a sensação de inquietação desejada, e Devour falha nas duas frentes, não sendo agressivo o suficiente para atacar a audiência e muitas vezes retornando a composições seguras que se resolvem muito próximas da monotonia.

Seja nas influências de industrial e a percussão em longos intervalos de “homeostasis”, os graves pulsantes e a sirene estridente e ondulante de “spit it out”, os guinchos e os efeitos distorcidos da voz de Pharmakon em “deprivation”, pouco na composição da obra parece ir além da exploração rasa de efeitos sonoros que tem a intenção de tirar o ouvinte da zona de conforto. Mais do que isso, a duração excessiva das faixas (a maioria passando de seis minutos) para composições de tão pouca duração e com uma agressividade tão controlada torna o resultado final especialmente cansativo e monotônico. Como uma ideia morna que apesar disso foi repetida à exaustão.

Obras de noise carregam um potencial grande de serem marcantes, justamente por sua motivação artística de propor algo desconfortável, que foge às referências seguras do ouvinte. Para isso, é essencial que as composições sejam provocadoras, de preferência dirigindo seus golpes de posições inesperadas. Devour não é um bom exemplo de nenhuma das duas coisas, mas com otimismo, quem sabe a segurança da obra leve o ouvinte a procurar outras, que o ameacem realmente.

OUÇA: “spit it out”.

Caravan Palace – Chronologic



Sem lançar material novo desde 2015, os franceses do Caravan Palace retornam com a produção impecável de sempre e com uma abordagem mais pop pro seu som sem deixar de lado a aura do eletro swing com toques de jazz burlesco que consagrou o grupo.

“Miracle” abre o disco e ainda carrega bastante dos trabalhos anteriores com as linhas de metais proeminentes e a levada rítmica dançante  bastante influenciada pelo ragtime. O baixo mais carregado e a batida mostram levemente a direção que o álbum vai tomar em seguida mas ainda é uma faixa que vai agradar os fãs mais antigos. “About You” que vem na sequência traz a participação de Charles X fazendo uma linha vocal bem soul e funciona bem com o baixo sintetizado que conduz um beat numa levada hip hop. Os breaks melódicos ajudam a dar um respiro numa faixa que é bem carregada de batidas.

Uma diferença bastante notável desse trabalho para os anteriores além das construções das músicas está nas letras. Enquanto nos álbuns anteriores as letras eram mais divertidas e brincavam com o nonsense, aqui temos uma vibe bem mais nostálgica e reflexiva que se reflete mesmo em músicas animadas como “Moonshine” que é bem dançante mas carrega nas cordas e linhas de sopro uma certa tristeza que é acentuada pela textura de gravação antiga que permeia a faixa. “Melancolia” que vem na sequência continua na mesma pegada com uma construção baseada num rap lento e a linha de piano de cabaré e os backing vocals ajudam a trazer essa melancolia do título.

A produção mais pop aparece com força em “Plume” um EDM bem padrão que, se não fosse pelas linhas de sopro características do Caravan Palace e um toque de reggaetown, não teria muita identidade mas funciona bem fechando a primeira parte do registro.

A segunda metade do álbum é introduzida por “Fargo”, uma brincadeira instrumental de pouco mais de um minuto que emula uma vinheta de jazz dos anos 20 e dá a deixa para “Waterguns” que é um dos pontos altos do disco com a participação de Tom Bailey encaixando um crooning dentro de um EDM mais lento que funciona bem com o coro formado pelos integrantes do Caravan Palace e a batida que é levada com hi-hats e clap hands.

“Leena” e “Supersonics” são boas faixas mas a produção deixa o instrumental alto demais ofuscando duas das melhores performances vocais de Zoé Colotis tanto numa faixa mais lenta como a primeira quanto numa que seria ótima para cantar ao vivo em estádio como a última.

O disco fecha lindamente com “April” numa faixa que carrega tanto tristeza quanto esperança com seus versos lentos e seu refrão instrumental conduzido por metais e seu fim que desaparece aos poucos deixando saudade em quem ouve. 

Depois de se consagrarem como uma das bandas mais relevantes do eletro swing nos registros anteriores, Chronologic expande os horizontes do Caravan Palace trazendo outras influências ao seu som característico e pecando pelo excesso em alguns momentos. No entanto, o resultado final é bem coeso e mostra que o grupo consegue se sair bem explorando elementos diversos e abrindo seu som para um público mais amplo.

OUÇA: “About You”, “Moonshine”, “Waterguns” e “April”

Friendly Fires – Inflorescent



Todo o tempo do mundo, há uma medida própria de tempo, lentidão e auto regulagem.  O álbum Inflorescent, lançado em agosto pela Polydor Records, levou cerca de oito anos até ser finalizado.  

O trio composto por Ed Macfarlane, Jack Savidge e Edd Gibson possui um público fiel agarrado em suas batidas, base do trabalhos do grupo desde a estreia com o homônimo álbum de 2008. Com cerca de 44 minutos de duração e onze faixas, Inflorescent convida o público a uma dança animada e colorida.

“Can’t Wait Forever”, responsável por abrir o álbum transporta os ouvintes para uma balada colorida e alternativa que emoldura os sons futuros. Sintetizadores, linha de baixo, batidas, algumas vozes sobrepostas. Para a confecção do álbum, um time de peso de produtores da música eletrônica inglesa foi escalado. Há nomes como Mark Ralph, Alex Metric, que já produziu Daft Punk, Charli XCX, Hal Ritson e James Ford.

 “Heaven Let Me In”, segunda faixa do Inflorescent, é uma balada de quase cinco minutos que evoca um pop meio noventista e tropical. A canção é uma parceria com o duo Disclosure. “Sleeptalking”, sexta faixa, segue essa vibe pop – retrô – moderno. Há uma preocupação clara em transformar o álbum em um produto estético bem definido.

 Em termos de inovação, o álbum não apresenta nenhuma ruptura brutal com o que já foi produzido  pelo grupo, mas um rearranjo de expectativas e repertório em busca de um equilíbrio. É hora de colocar Inflorescent para animar a festa!

OUÇA: “Heaven Let Me In”, “Kiss and Rewind”, “Love Like Waves” e “Run The Wild Flowers”.

Shura – forevher



Um grito contra a intolerância e a falta de empatia. Assim é forevher: um enredo otimista sobre a sorte e o revés de amar e ser livre.

Depois de chamar atenção com seu debut Nothing Is Real, Shura retorna sem medo de ser vulnerável, sem amarras para viver a euforia de estar ao lado de uma paixão por uma garota, sem importer-se com a distância ou nenhuma outra barreira imposta pela homofobia.

Revivendo suas batidas de retro-pop de seu primeiro trabalho com arranjos mais refinados, forevher é levado por baladas mais sóbrias em ritmo mas não menos intensas em suas composições. Já na intro crua e sem grandes edições, “that´s me, just sweet melody” Shura declara sua entrega incondicional, como  também na faixa seguinte “side effects”: “I got out, I got free, you don´t got no hold on me” ou em “flyin´” –  “Scared of flying, but I´ll fly for you. Scared of dying, but I´m dying to see you”.

Além dos bos singles forevher trás boas surpresas nas inéditas “skyline, be mine”, “pricess leia” e “control”.

Com uma vibe de fim de tarde no parque na companhia de alguém especial numa tarde de verão, Shura firma mais um bom trabalho, colocando sua referência como artista pop atual tanto pelo refresh no gênero, como por sua visibilidade LGBTQ+ em primeira pessoa com um álbum forte sobre um amor puro.

OUÇA: “side effects”, “flin’”, “skyline”, “be mine”, “BRKYLNDN” e “control”

Hot Chip – A Bath Full Of Ecstasy



Um ambiente escuro com vozes ressoando. Neste mesmo ambiente há batidas pop e cada uma estimula que o ouvinte visualize uma cor. A descrição serve para explicar uma espécie de fenômeno sinestésico ou o clipe de “Melody Of Love”, faixa de abertura do novo álbum do Hot Chip. A sinestesia compreende a junção de diferentes planos sensoriais, está relacionado a forma como sentimos o mundo ao nosso redor. 

A Bath Full Of Ecstasy,  sétimo disco da banda britânica, flerta com a sensorialidade e a sensibilidade. Trata-se de uma brincadeira: seja com os efeitos alucinógenos, seja com a exaltação.  “Echo”, quarta faixa, poderia tocar em qualquer rádio ou em qualquer filme meio retrô. Uma música com batidas oitentistas e genuínas, afinal, o que é o pop sem sua essência? Um mergulho profundo em uma banheira de melodias eletrônicas. “Bath Full Of Ecstasy” e “Clear Blue Skies” destacam-se pela regularidade positiva: cativantes, seja na animação ou na batida calma e techno que navega e guia o ouvinte: entramos em um universo paralelo.

Philippe Zdar, produtor francês, relacionado ao Cassius e ao Phoenix trabalhou neste álbum. É um dos seus últimos, já que o produtor acidentou-se e acabou falecendo. Um triste pesar ao trabalho. 

Quando pensamos em pares opostos, a filosofia grega apresenta um clássico: apolíneo e dionisíaco, uma dicotomia – espécie de problematização –, que trata dos filhos de Zeus, o pai dos deuses. Temos uma equação que coloca em oposição o racional e o emocional. A Bath Full Of Ecstasy trata de batidas eletrônicas racionais e, até certo ponto, matemáticas em coexistência com sentimentos e divagações  – caóticas e instintivas. 

“Hungry Child” mescla house e eletro pop dançante e melódica. Uma canção para entoar baladas de verão e festas, soando como um possível sucesso  do verão no hemisfério norte. Definitivamente o ponto alto do disco.

“No God”, última faixa, é um pouco mais niilista que as anteriores, ainda em um viés retrô fala sobre dançar em círculos. Seria o eterno retorno ou a rejeição a importância de qualquer outra coisa? A faixa brinca com o questionamento: o que é, de fato, existir? Despretensioso e, ao primeiro olhar, um pouco estranho. Este é o novo álbum do Hot Chip. 

OUÇA: “Melody Of Love”, “Echo” “Hungry Child” e “No God”

Madonna – Madame X



O que faz um álbum ser bom? A artista por si só basta? São os hits? Os charts? Tem que ter uma farofa? São os produtores, os feats, a presença ou não de um conceito? Boas letras? Acho que isso é muito individual. Tudo isso pode ou não ser importante, mas o principal é o que ele desperta dentro de você.

Julgar o trabalho de um artista é completamente subjetivo. É claro que temos pessoas preparadas para fazer isso, mas quanta coisa ruim, ruim mesmo faz um sucesso danado? Esse texto ficaria gigantesco se eu citasse alguns e tenho certeza que seria super criticada por ter mencionado certas bandas. Arte é isso. Cada um tem uma percepção.

A Madonna sempre foi e sempre será uma pessoa polêmica. Nem sempre por ter um trabalho interessante, mas é inegável que ela é uma das cantoras mais fascinantes do mundo. Quando ela anunciou Madame X eu fiquei muito ansiosa, até ela lançar “Medellín”. Aí, Madonna… Jura?

Então vieram os feats com o Swae Lee e o Quavo. Minha Nossa Senhora… “Crave” até tem um refrão que gruda na cabeça, mas “Future” é um horror. Madonna, você não precisa lançar uma música WOKE pra fazer sucesso. Puta que pariu, Madonna. Me ajuda.

Baseado nos singles, esperava uma bomba. Até que ela lançou “Dark Ballet”. Eu sou grande defensora de que uma música não deve se apoiar em um clipe, mas esse não é o caso. A música e o clipe são complementares, mas uma vez que visto o clipe é difícil dissociar o som da imagem. Alí estava a cantora que os fãs tanto amam. E desse momento em diante, a Madonna brilhou. 

Fazia muito, mas muito tempo que eu não ouvia um álbum dela e sentia os arrepios que senti. Acho que a última vez que isso aconteceu foi com o Confessions On A Dance Floor. Mas Madame X me pegou. Foram tantas boas surpresas que quase me esqueci dos singles que ela lançou antes do álbum sair oficialmente. A cereja no bolo foi ouvir a rainha do pop cantando um funk (!) em português (!!). Eu sei que é um cover, mas quem liga? Ficou maravilhoso. 

Madame X não precisava de dois feats com o Maluma. Não precisava de faixas WOKE. Não precisava de uma porção de outras coisas. Mesmo assim é um trabalho surpreendente, repleto de bons momentos e misturas sonoras marcantes. Vemos aqui uma Madonna revigorada, fresca e pronta pra outra. Pode ser que você acredite, como muitos, que ela precisa se aposentar. Pra mim, a arte que ela apresenta para o mundo é um presente. Que disco, meus amigos. Que disco.

OUÇA: Tudo. É a Madonna, gente. Tem que ouvir pelo menos uma vez.

Yeasayer – Erotic Reruns



Em seu quinto álbum, o Yeasayer vai fundo no repertório mais pop que apareceu timidamente ao longo dos anos e traz um álbum sem nenhuma das esquisitices e experimentações de seus antecessores com a intenção de falar de forma bem humorada sobre relacionamentos, sexo e cultura mas acaba soando infantil nas letras e repetitivo nos instrumentais.

Abraçar elementos pop não é novidade pro Yeasayer, o trio nova iorquino já havia dado pitadas de um som mais comercial em outros trabalhos mas  sempre mantendo uma pegada mais experimental e psicodélica no corpo dos registros. Em Erotic Reruns eles abandonam o experimentalismo e trazem um som mais fácil de digerir que, embora tenha algumas passagens interessantes, não cativa muito por ser repetitivo e maçante mesmo com faixas bem curtas.

“People I Loved” que abre o disco tem uma levada legal de baixo durante a música toda e alguns breaks que quase empolgam mas a dobradinha do riff com o falsete do vocal se tornam irritantes depois do primeiro break e os “na na na” que quebram uma letra que traz um questionamento sobre ser duro demais com quem se ama parecem deslocados e esvaziam uma letra e um instrumental que tinham bastante potencial.

“Ecstactic Baby” que vem na sequência sofre do mesmo problema. Conduzida por uma linha melódica de sintetizador intessante que em outro álbum do Yeasayer teria sido desenvolvida em algo mais complexo e rico musicalmente mas aqui repete os mesmos acordes até o fim com um refrão que parece ter sido pensado pra tocar em peça publicitária jovem.

A segunda metade do álbum é mais rica instrumentalmente com músicas como “Let Me Listen On You” que trabalha muito bem uma levada instrumental do pop rock setentista com um arranjo eletropop cheio de sintetizadores dissonantes e detalhes realmente instigantes que fazem o ouvinte se envolver do começo ao fim da faixa.

“Ohm Death” tem mais cara do pop atual que a banda demonstrou querer fazer no começo do disco mas trabalhada de uma forma bem mais rica com um som que preenche em várias camadas, amarrado por um baixo potente e sensual combinado a linhas de teclado que dão um ar bem urbano pra faixa.

Erotic Reruns como um todo é bem conciso e bem amarrado, o álbum tem quase trinta minutos e as faixas funcionam bem juntas mas quando você presta atenção a cada uma individualmente  parece que sempre falta algo pra elas impactarem o ouvinte mesmo com um ou outro elemento bem colocado.

OUÇA: “Let Me Listen On You”, “Ohm Death” e “Fluttering In The Floodlights”