The Weeknd – Starboy

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O The Weeknd foi morto e substituído.

Pode parecer uma piada, mas pra falar desse disco e principalmente desse artista precisamos matar a idéia e a memória que existiam dele pra quem acompanhou a época dos incríveis Trilogy ou Kiss Land. E longe de mim síndrome de underground. O que vem acontecendo desde o último disco do rapper até agora tem sido incrível. Mas é inegável a gigante mudança da sonoridade do artista em Starboy.

O Abel dos primeiros discos que fazia um “R&B indie” que parecia ter sido produzido dentro de um quarto fechado e com recursos limitados agora tem um time de hitmakers e faz um som muito mais pop. E um pop incrível. Se esquecermos seus primeiros trabalhos e pensarmos que o Beauty Behind The Madness foi um debut desesperado para alavancar sua carreira, nesse novo álbum temos uma ótimo álbum de música pop.

Starboy é um disco que vale a pena se ouvir para pelo menos para reparar o estado de um artista que mirou tão longe e acabou sendo indicado a prêmios de canais infantis, o que gera um desconforto, já que a maioria do conteúdo das suas letras é sobre sexo e drogas. Aqui temos a tentativa de conciliar esses dois lados que incrivelmente parece dar certo.

Há tropeços no caminho e uma certa megalomania digna de outros rappers da atualidade que ainda não cabem direito em sua carreira relativamente curta. A tentativa de referenciar artistas como Prince e Bowie são percebidas, assim como o passeio por diferentes estilos nas dezoito faixas do disco, o que o torna um pouco cansativo, mas o esforço para entregar um trabalho de qualidade é notável.

OUÇA: “Sidewalks”, “Rockin”, “True Colors” e “Six Feet Under”

Alex Clare – Tail Of Lions

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Antes de falarmos sobre Tail Of Lions faz-se necessário apresentar um background sobre a carreira de Alex Clare…

O cantor/compositor tinha contrato assinado com a Island Records para seu primeiro álbum de estúdio, The Lateness Of The Hour, lançado em 2011. A performance do disco não foi a qual a gravadora esperava, e por isso, a mesma encerrou contrato com o artista. No ano seguinte, a faixa “Too Close” foi escolhida como soundtrack dos comerciais da Internet Explorer e fez com que o mundo descobrisse Alex Clare. A música decolou, atingiu vários charts, foi indicada ao Brit Awards e tocou massivamente nas rádios.

Com o buzz de “Too Close”, Island voltou atrás e assinou novamente com o cantor, que mais tarde veio a lançar seu segundo álbum de estúdio, Three Hearts, em 2014. Inclusive, Three Hearts entrou na minha lista de melhores álbuns do ano, mas não agradou a massa. Alex acabou caindo no limbo e novamente foi dispensado por sua gravadora.

Outro fato importante é que o Alex é judeu ortodoxo, o que se tornou um grande impasse com a gravadora. Tendo que conciliar sua agenda profissional com o período sabático e feriados religiosos, a martelada final da relação com a Islands foi um cancelamento com a Radio 1 Live Lounge devido um compromisso religioso.

Depois dessa montanha russa de bons e maus momentos, Alex se encontra hoje livre das amarras comerciais, local que tanto batalhou por fazer parte, e lançou Tail Of Lions de forma independente, produzindo aquilo que queria, quando queria, respeitando seus princípios familiares e religiosos. Mesmo assim, fazendo o que sempre desejou e mantendo-se fiel à sua essência, Alex entregou um álbum pouco marcante.

Bem parecido com os anteriores no que tange composições e estruturas musicais, Alex fez mais do mesmo. Com seu pop rock alternativo banhado à dubstep e música eletrônica, o álbum peca ao não ter nenhuma faixa impactante ou que se destaque – vocês não tem noção do quanto demorei para decidir as músicas da sessão “Ouça”.  Tail Of Lions é um álbum linear, de agradável audição, mas não passa disso.

O título remete a um antigo provérbio judeu, “É melhor ser a cauda de um leão do que a cabeça de uma raposa”, uma crítica direta ao mercado fonográfico, constatando o quanto é melhor ser uma pessoa feliz, real e fiel à sua essência do que seguir padrões e se tornar uma pessoa triste, falsa e fabricada. Essa mensagem é transmitida durante todo o álbum, e por essa coragem, aplaudo Alex Clare.

Por fim, considerando tudo aqui apresentado, provavelmente pouco importará à Alex resenhas e avaliações sobre seu álbum, muito menos quantificá-lo por uma nota, desde que ele esteja feliz consigo mesmo fazendo o que realmente importa: música.

OUÇA: “Basic”, “Gotta Get Up” e “Love Can Heal”.

Katy B – Honey

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Kaytranada. Major Lazer. Craig David. Wilkinson. Stamina MC. Sasha Keable. JD. Reid. The Heavytrackerz. J Hus. D Double E. Chris Lorenzo. Mr. Mitch. Four Tet. Floating Points. KDA. Jamie Jones. Kate Simko. Geeneus. MssingNo. Hannah Wants. Novelist. São tantos colaboradores no novo álbum da Katy B que dá até para ficar tonto. Com Honey, a britânica conseguiu ter mais participações especiais do que o Kanye West no superestimado The Life Of Pablo.

Depois de chamar a atenção e receber elogios por On A Mission e Little Red, era normal a tentativa de buscar novas parcerias para o próximo trabalho de estúdio. Afinal, quem é que não iria querer fazer parte desse trabalho, não é mesmo? Porém, essa possibilidade veio com um risco que acabou se tornando realidade: a cantora virou figurante no próprio álbum.

A sonoridade de Katy B nunca esteve tão genérica quanto em Honey, oscilando entre pop, techno, hip hop e um R&B mais suave que um suflê. O 3º álbum da artista é pouco memorável, passando pelos ouvidos como uma brisa agradável, mas sem o menor impacto. As poucas exceções ocorrem quando a cantora solta mais a voz e aposta em elementos que surpreendem, como violinos e harpas em meio ao marasmo eletrônico de canções como “Dark Delirium”.

Para não ser injusto, vale ressaltar que as músicas não são necessariamente ruins, afinal, a produção é ótima. No entanto, é difícil lembrar o que acabamos de ouvir apenas alguns minutos após checarmos o álbum. O que fica na cabeça é um emaranhado de sons repetitivos, dançantes ou apenas relaxantes.

No próximo álbum, o melhor que a Katy B tem a fazer é focar no que ela tem de melhor: sua própria voz. Dessa forma, ela poderá voltar a ser protagonista do próprio trabalho e não será mais somente um nome perdido entre tantos outros.

OUÇA: “Who Am I”, “So Far Away” e “Dark Delirium”.

The Weeknd – Beauty Behind The Madness

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Assisti ao polêmico Fifty Shades Of Grey por esses dias e uma das certezas que tenho é de que Abel Tesfaye, que responde pelo nome artístico The Weeknd, é responsável pela canção da trilha que mais se destaca no filme. A ambientação, a temática e a forma como é cantada “Earned It” são pontos de imensa precisão que te levam a procurar pelo criador dessa música assim que o filme acaba e ouvi-la uma única vez não é suficiente. O impacto e o vício foram as primeiras impressões sentidas ao conhecer o trabalho de Abel, mas infelizmente as mesmas não duraram até o fim das catorze faixas de seu recém-lançado disco Beauty Behind The Madness. Com participações de grandes nomes da música, hits e letras ousadas o disco reitera duas coisas que já estamos cansados de saber: 1) o eu-lírico é sempre bom-de-cama-inalcançável e coitada de quem o abandonou 2) faixas com coral de crianças são bregas pra caramba.

Mesmo que na capa Abel lance um olhar quase de piedade, nas canções temos um sujeito seguro de si e desinibido para tratar de sua rotina em relacionamentos e uso de drogas. ‘I love that mainstream radio will think that this is a love song!’. Engraçado encontrar esse comentário em um de seus vídeos, afinal essa temática não torna The Weeknd subversivo, mas até o aproxima do chamado mainstream. A participação em canções com Ariana Grande além de, no próprio disco, Ed Sheeran e Lana Del Rey, o afina com a produção pop atual e, consequentemente, com fatias maiores da população. Muitas das faixas do Beauty Behind The Madness possuem a potência de hit e se ele participasse de programas como o The Voice, com certeza ganharia a competição pelos refrões marcantes e recursos vocais exagerados. Onde está a loucura em ser radiofônico?

Longe de ser um manifesto em favor do underground e de letras que agradem a família tradicional brasileira, pontuarei um trunfo do álbum. Assim como em Fifty Shades Of Grey, somos lembrados de que os relacionamentos se constroem e se mantém por situações que vão além de romantismos. Os desejos humanos nem sempre encontram seu lugar em um buquê de rosas vermelhas. A sensualidade transmitida é encontrada no decorrer do disco todo, que também é impecável em sua produção. Os beats são realmente dançantes, o instrumental e o acabamento das faixas é primoroso, sem dúvida muitas delas entrarão no set de milhares de DJs. Fora do glamour das pistas e das apresentações ao vivo de Abel, mas na intimidade do fone de ouvido usado pelos lugares cotidianos não orna tanta arrogância, superioridade e ‘who’s gonna touch you like me?’.

O ruim é que pouco, ou nada, se acrescenta através do discurso reproduzido por aquele a quem sempre foi incentivado o exercício dessa sexualidade e de sua representação como troféu.  Se quisermos um álbum carregado de sensualidade, apelativo em seu projeto estético e que desvia de padrões é no EP M3LL155X da FKA Twigs que encontramos tais predicados e não aqui com The Weeknd. Talvez esse não seja o momento de se abster diante de Fifty Shades Of Grey ou do Beauty Behind the Madness, mas justamente contestar a perpetuação das velhas normas e papeis atribuídos aos homens e às mulheres.

OUÇA: “Often”, “Earned It” e “The Hills”

Jamie xx – In Colour

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Apesar de já haver lançado diversos singles, o álbum de remixes em parceria com Gil Scott-Heron, We’re New Here, e ter seu trabalho solo já bastante reconhecido, In Colour é considerado o disco de debut de Jamie xx. O álbum é resultado de cinco anos de uma longa instrospecção e reflexão sobre si mesmo e sua música, o que dá ao disco um ar intimista. O artista mencionou em entrevista ao The Guardian que a decisão de gravá-lo surgiu pela vontade de aproveitar materiais compostos nesse tempo que não haviam sido aproveitados em outros projetos.

Em In Colour Jamie brinca muito com as diferentes sonoridades e nuances, não se limitando apenas ao electro-house, mas utilizando ritmos exóticos para criar uma espécie de hipnose.  Faz uso de suas influências trazendo sons derivados do soul-pop dos anos 80, batidas de beatbox, tambores de aço, sintetizadores com o mesmo som em loop, usando tudo de maneira tão original que parece reinventar seus sons. Na grande maioria das faixas ouvimos sons que começam timidamente antes de dar forma nota por nota, pedaço por pedaço as batidas sonoras que formam as canções – como ocorre no caso de “Gosh” e “The Rest Is Noise”.

In Colour é um álbum muito consistente, com uma única música que destoa deste disco tão incomum. “I Know There’s Gonna Be (Good Times)” – com participação da cantora  Popcaan – é uma música bastante sem graça e não se encaixa sonoramente. Em contraste, a faixa de trabalho “Loud Places” é simples e despretensiosa, em que a cantora e companheira de The xx, Romy, se entrega de forma totalmente vulnerável transformando a simplicidade mundana da faixa em magia e tornando a faixa mais pop do disco simplesmente apaixonante.

Fechar os olhos e ouvir In Colour é como entrar em uma bolha onde as emoções e humores se alternam de acordo com a música. O álbum tem uma alma bastante etérea, despertando sentimentos que somente um disco tão sensível e intimista consegue trazer. É incrível a forma genial com que Jamie consegue alcançar uma sonoridade simultaneamente animada e melancólica, dando certa fragilidade a um disco tão forte e enérgico.

Não há meio-termo para In Colour, você está propenso a considerá-lo o álbum da sua vida ou detestar oitenta por cento dele. Jamie traz um trabalho maduro, não deixando nada a desejar a quem inevitavelmente compara seu trabalho solo ao realizado no projeto The xx e o consolida em carreira solo como um artista único e original.

OUÇA: “The Rest Is Noise” e “Loud Places”

Chet Faker – Built On Glass

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Nicholas James Murphy, vulgo Chet Faker, chega com um recado em seu primeiro álbum: quero te conquistar. E podemos adiantar que o prometido é feito. O músico australiano, experiente com produções, mostrou em 2012 com seu primeiro e único EP (Thinking in Textures) tudo o que era capaz. Com apenas 22 anos na época e uma voz marcante, a banda de um único homem mostrou que era muito mais do que o hype de sua barba avantajada, e com seu primeiro trabalho já foi notado. Em 2014, com Built On Glass, ele concretizou seu nome na música e provou que R&B, Soul, Jazz e a mesa de mixagem podem sim existir juntos.

O álbum, claramente construído de forma simétrica, tem em sua ordem musical o perfeccionismo de uma noite agradável. Uma boa bebida, uma boa conversa, uma boa companhia. Release Your Problems, faixa que abre o álbum, começa com um doce piano, que não só é uma introdução para a música, mas sim um pedido de licença para invadir seus pensamentos. Cortando abruptamente com sua voz cerrada, o australiano inicia colocando a postos não só a qualidade sonora, mas também a capacidade de compor belas letras, cheias de melancolia, sensualidade e sofrimento, tendo ele mesmo sempre como protagonista.

Nesse ritmo gradativo, o disco vai ganhando pouco a pouco o ouvinte, instigado por diferentes referências musicais, misturados a um leve toque eletrônico. E quase como em uma conversa, um mundo de possibilidades é aberto ao ouvinte em Talk Is Cheap, que mesmo sendo apenas a segunda música do álbum, ganha a qualquer um. Nicholas usa de algumas pontes no decorrer do álbum, sendo elas pequenas produções musicais ou trechos de sua voz, como em No Advice. Música que antecede Melt, e tem participação de Kilo Kish, que com muita sutileza beira o hip hop. Toda qualidade da rapper americana é colocada em dosagem certa na música, que mesmo com a força da voz de Nicholas, não teve a delicadeza de sua voz perdida na canção.

As canções seguem com deliciosas batidas, que mesmo sendo tão únicas e peculiares, não abandonam a identidade de Chet Faker. Na sétima faixa, entitulada /, se encerra o lado A do disco, com Nicholas pedindo pra você relaxar ainda mais para a segunda parte. Segunda parte essa, que por pouco não se perdeu do resto do disco. Blush, primeira música desse lado B carrega toda atmosfera musical que é possível apreciar de início. Porém, as que se seguiram tomaram diferentes rumos, que apesar de não serem ao todo ruins, desfocaram do R&B/Soul/Jazz/Eletrônica que estávamos apaixonados, tomando cada uma sua própria identidade e não tendo uma forma homogênea ao ouvi-las seguidas umas das outras.

Encerrando de forma não tão incrível quanto sua introdução, Chet Faker mostra um primeiro trabalho repleto de paixão, qualidade musical, e boa produção. Pode agradar dos ouvidos mais críticos até as pessoas que só querem um bom álbum para ouvir em suas atividades. Mesmo com suas falhas de identidade em seu lado B, o disco tem seu merecido lugar na música. Falhas essas que são quase esquecidas quando se lembra que o australiano é um novato no mercado, com apenas 24 anos. Com certeza, Built On Glass será bastante memorado no futuro brilhante que acompanharemos do rapaz. Mas lembre-se: se quiser embalar uma noite romântica, é melhor parar de ouvir o álbum em Blush. Ou você e sua(seu) parceira(o) correm sérios riscos de terminarem a noite brochados.

OUÇA: “Release Your Problems”, “Talk is Cheap”, “Melt” e “Gold”.

Katy B – Little Red

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Incorporando as batidas do dubstep ao gênero house, Katy B volta com o sucessor de seu ótimo debut On A Mission. Intitulado como Little Red, Katy se mostra madura e distinta dos demais ao criar um ambiente agradável para as demais pistas de dança ao redor do mundo. Trazendo um frescor novo e sutil, a britânica parece querer por fim a um cenário eletrônico que se mantém em cima de batidas invariáveis e constantes seguindo um destino tedioso.

Usando mais uma vez referências da época onde a house music se mostrava em constante crescimento, Katy propõe ao ouvinte um passeio a um repaginado e atualizado passado não muito distante. Como todo artista, a britânica teve que passar pelo difícil trabalho de desempenhar um papel tão bom em seu segundo álbum como assim foi em seu primeiro registro. O que encontramos aqui é um verdadeiro exercício de criatividade feito pela mesma. Com letras que abrangem momentos dolorosos e tão desgastantes de um relacionamento, sem receio, a ruiva estende o pop melódico por todo seu álbum.

Apesar de ser um disco de inegável qualidade e produção, o que encontramos aqui é talvez a mesma fórmula eventualmente usada em On A Mission mas é claro que com algumas modificações. Se apropriando do mesmo cenário usado anteriormente, ela sintetiza algo que por acaso se perdeu em seu primeiro álbum e o coloca como objetivo assentar isto. O erro está aí. Para conquistar um público maior e calibrar de vez o mundo do pop, Katy precisa se reinventar.

Não me entenda mal, todo álbum tem seus altos e baixos, não seria diferente neste. Independente disto ela conseguiu atingir um público que se sente cada vez mais atraído por uma sedutora experiência que seu disco pode proporcionar. Sem expectativa o ouvinte pode sim se deliciar com a delicadeza explorada pelas batidas energéticas que ilustram um ambiente improvável e único.

Mas vamos falar dos pontos altos? Pois então, o disco tem consigo uma fluidez conquistada sem muito esforço. Em faixas como “5 AM” e “Crying For No Reason” a britânica parece achar o seu eu e dentro disto expressa e conduz devidamente canções cheias de bons arranjos e melodias bem trabalhadas. A mistura aqui alcança um nível além de só técnica e produção, estabelecendo uma conexão entre o artista e o ouvinte.

No entanto a impressão que fica é a de uma obra superficial. Música boa, mas música descartável. Bem, o aprendizado continua e como todo artista, para chegar ao seu auge é preciso ser lapidado. Em suma Katy B ainda sim promete marcar em algum momento a indústria da música. Aguardamos ansiosamente por este momento.

OUÇA: “Everything”, “Crying For No Reason” e “5 AM”

Actress – Ghettoville

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O DJ britânico Actress lança seu quarto álbum, o ruidoso Ghettoville. Mais conceitual e experimental que seus trabalhos anteriores, o disco pode desagradar seus ouvintes e até desencorajá-los logo na faixa de abertura. Ainda assim merece atenção e, por que não, elogios?

Dentre os vários estilos e denominações da música eletrônica, o som que Actress apresenta é um techno-ambiente. Não há explosões de ânimo, grandes viradas e o momento ponham suas mãos para o ar: o som é essencialmente regular e morno. Se nos álbuns anteriores encontrávamos um flerte com linhas futurísticas, em Ghettoville o DJ abusa do noise, o recurso que faz de diversos ruídos algo musical.

As primeiras faixas do novo disco são extremamente difíceis de acompanhar, pois Actress preenche o espaço vazio com ruídos que remetem a atritos entre dois objetos, trovões e interferências de equipamentos eletrônicos. Por isso, o disco se mostra a princípio como uma experiência auditiva que visa o novo: a desmistificação do ruído como um incômodo a ser negado. Tais faixas são longas, vão se arrastando com dificuldade enquanto você se pergunta “por que raios tô ouvindo isso?”. Entretanto, a partir da faixa “Gaze”, o que era quase um tormento, passa a ganhar certo ritmo e forma; e flui. A fluidez ruma para o seu momento mais glorioso que acontece durante as três últimas canções. Em tais faixas redentoras temos até alguns samples e vocais!

Ghettoville não é um disco pra se ouvir nos fones enquanto você anda pela rua, definitivamente. Mas quem sabe uma das faixas não figure alguma trilha sonora de um filme de suspense. Como a experiência musical é ousada, é válido dar uma ouvida sem compromisso. Sempre bom sair da linha do comum.

OUÇA: “Rap” e “Frontline”

Disclosure – Settle

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Os imberbes Guy e Howard Lawrence lançaram em maio desse ano seu disco debut Settle, aclamadíssimo pela mídia e com razão. O resultado é completo: cativante, bem trabalhado, criativo e feito pra agradar. Bem balanceado, as músicas te levam de sensação a sensação com maestria; ora dançante e alegre, ora sensual e envolvente. O primeiro single lançado ainda no ano passado, “Latch” é a descrição exata destes últimos sentimentos. A faixa ainda conta com a participação de Sam Smith, que não é o único (nem melhor) featuring do álbum, este título vai à AlunaGeorge na excelente “White Noise”, seguida por Eliza Doolittle em “You & Me”.

O som minimalista dos irmãos ingleses conta com uma explosão de influência dos anos 90, que acende algo que vinha meio apagado pelo pop atual: a aposta em faixas mais longas sem medo de desenvolver, de uma maneira espontânea e suave, aquele sentimento groovy que fica a desejar hoje em qualquer baladinha eletrônica.

Outro ponto alto são os bons clipes que acompanham os singles, em especial do fervoroso “When A Fire Starts To Burn”, que está fácil fácil entre as melhores faixas eletrônicas do ano e possivelmente um dos próximos hits a serem tocados até enjoar em baladas.

Essa resenha, no final das contas, poderia muito bem ser resumida nas seguintes palavras: duo europeu com melhor CD eletrônico de 2013. E não, Daft Punk, me desculpe, mas não são vocês.

OUÇA: “When A Fire Starts To Burn”, “F For You” e “White Noise (feat. AlunaGeorge)”

Emika – DVA

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Emika possui um histórico que a precede: formação em tecnologia musical e experiência profissional na gravadora Ninja Tune e na Native Instruments, enquanto sound designer. A compositora atua principalmente na área da música eletrônica, techno e com um “sotaque de dubstep. Além de ter apresentado um álbum de estréia promissor, bem produzido, gravado e com críticas positivas.

Considerando estes fatos, a faixa inicial de DVA (último álbum de Emika), “Hush (Interlude)”é intrigante. A música em questão apresenta a soprano Michaela Šrůmová e uma orquestra de cordas, não possui elementos eletrônicos e pode deixar o ouvinte interessado. No entanto, se trata de apenas uma impressão inicial, e, a partir da segunda faixa, o álbum cai em uma monótona tentativa de um pop sombrio. DVA traz linhas de sub-bass, percussão metálica, sintetizadores plastificados e uma bateria rotineira, o que sugeriu que Emika abandonou a sua experimentação sonora do seu álbum de estréia, atribuindo características pop às suas canções. De qualquer forma, as ideias musicais limitadas e a persistência em utilizar principalmente tonalidades menores logo começam a comprometer a qualidade do álbum.

As linhas vocais de Emika não são bem executadas e se encontram distantes de atingir um potencial vocal. Há uma tentativa clara de não estabelecer estruturas formais e harmônicas previsíveis, para não expor um pop standardno entanto, essa característica deixa o disco falho e se torna difícil fazer relações positivas. Em canções como “Dem Worlds”, que possui o apoio de uma orquestra, a voz não é bem colocada, a harmonia é repetitiva, além de que os instrumentos orquestrais são utilizados sempre a se formar acordes, deixando a impressão de que a música foi harmonicamente construída em blocos, sem um ápice.

Considero que a interpretação de “Wicked Game” tenha sido interessante, foram incorporados elementos mais característicos da compositora. A faixa não trouxe grandes novidades, no entanto, dentro de seu contexto de intérprete, foi bem realizada. O álbum foi claramente bem produzido e gravado, se tratando de um trabalho musical bem elaborado, contudo, pode decepcionar o ouvinte quando comparado ao seu precursor.

OUÇA: “Hush (Interlude)”, “Dem Worlds” e “Wicked Game”