Empress Of – Us


O pop como conhecíamos há seis, sete anos atrás não existe mais. É correto dizer que a música atual perdeu alguns decibéis, de maneira que as batidas estridentes, o uso imoderado de sintetizadores e vozeirões épicos – enfim, tudo que contribua para aquela sensação de paredão sonoro – perderam espaço. E muito. De lá para cá, bastiãs (no feminino mesmo, afinal falamos de Lady Gaga, Beyoncé, Britney Spears, Kesha, Christina Aguilera, Rihanna e outras mais) dessa sonoridade extremamente marcada do início dos anos 2010s optaram por seguir outros caminhos musicais, algumas até se afastaram da indústria musical. A lacuna é uma tragédia para uns, mas uma oportunidade Grande (rs) para outros que anseiam tomar a liderança de um novo ciclo musical. Um ciclo que já põe em prática uma repaginação do R&B dos anos 90s, aliado ao trap e ao reggaeton – as duas tendências dominantes do mercado -. Um pouco mais de um, um pouco mais do outro, às vezes uma mistura dos três, essas são as variantes postas em prática atualmente e as quais estamos nos habituando a ouvir nas rádios e demais espaços. Nesse conjunto estão as estreantes badaladas SZA, Kelela, Kali Uchis e a já queridinha de todos,  e ponta de lança da nova safra, Ariana Grande. Se essa resenha fosse escrita há três anos atrás, o nome Empress Of (Lorely Rodriguez) estaria incluído nesse grupo promissor; hoje, temos um ponto de interrogação.

Lorely Rodriguez empaca em Us (2018), seu segundo álbum e objeto de análise dessa resenha. Empaca, pois não consegue trabalhar com a mesma inventividade que conseguira em seu debut extremamente bem conceituado, Me (2015). É interessante notar que Lorely, inclusive, tenha contribuído para armar o terreno atual a partir da sua estreia, tamanha a impressão que tal possuiu à época. O disco apresentava uma coerência interna muito bem definida (muitos o reverenciavam como um trabalho conceitual, inclusive), aliado a uma crueza lírica e sonora impossível de enjoar. É exatamente o oposto nesse segundo disco: são 10 faixas, das quais as 4 iniciais são completamente esquecíveis. Puxa esse  bloco, a segunda faixa “Just The Same” – que é, de fato, apenas o mesmo – pois se vale de um instrumental “reggaetonesco”- dance hall e com algum quê de Chainsmokers & Kygo. Pouco empolgante para dizer o mínimo. Para aqueles que possuem uma forma sinestésica de ouvir, tentem imaginar a música que toca no fundo daqueles takes de lugares paradisíacos, de gente surfando, ou de festas de gente muito rica em qualquer lugar hiper-gentrificado do mundo em um programa de rotas de viagem cara na GNT. É essa faixa. E “Love Me” é um bis para os mais aficionados nessa vibe, já que há gosto para tudo nesse mundo.

O panorama se modifica significativamente com “I Don’t Even Smoke Weed”,  o ponto forte do disco, e que abre uma segunda metade cambaleante, mas de maior qualidade. Os elementos aqui trabalhados são completamente diferentes daqueles demonstrados inicialmente: a música é dinâmica, colorida, a letra divertida e a voz de Lorely cai muito bem com os arranjos. Embora recaia com “Timberlands”, “I’ve Got Love” e “When I’m With Him” são bons destaques também dessa segunda metade, que é praticamente um novo disco, o qual gostaria de ouvir mais. Nessas músicas, a produção é bem mais arriscada e diversa. Menos formulaica. A balada “Again” termina o álbum e não causa qualquer emoção, porque também peca pelo convencional, embora seja a única música produzida em um formato mais etéreo. No geral, o álbum é inconsistente, turbulento e de impressões pouco claras. Sob o ponto de vista lírico, não há muito para ser agregado, embora a cantora tenha afirmado em entrevista que o álbum é um pedido por ajuda, por aproximação, amor e coletividade. Parece que não apenas por ela, mas pelo mundo. Um apelo à la We Are The World. Como reflexo, é como se a pessoalidade imputada com grande competência em Me tenha sofrido um grave corte orçamentário. Sob o argumento do pragmatismo, de uma mensagem positiva para unir as pessoas, Lorely peca pela falta. Há espaços vagos, incompletos e pouco significantes, que tornam a obra fraca.

Por fim, Lorely cai em um limbo de relevância, onde atualmente está Alessia Cara, por exemplo. Uma vez creditadas a ascender e liderar um pelotão de frente da música, o sinal amarelo é aceso. No caso de Lorely, o problema tem muito mais a ver com as escolhas de efetivo pessoal (produtores, escritores, etc.) e temáticas, por assim dizer, do que das suas próprias limitações; vale ressaltar que, nesse quesito, enquanto o primeiro álbum é autoproduzido totalmente, o segundo conta com um pelotão envolvido,  cujas pessoas envolvidas trabalharam com diferentes tipos de artistas (indo do Kanye West ao The xx). E, bem, escolhas são risco e sorte. Mas para provar essa tese aqui proposta, a artista precisa demonstrar que pretende retomar domínio sobre seus próprios caminhos, ou a percepção de que o resultado de Us tenha sido mais responsabilidade de outros do que dela pode se turvar. De todo modo, esperamos que Lorely Rodriguez tenha mais sorte na próxima vez.

OUÇA: “I Don’t Even Smoke Weed”, “When I’m With Him” e “I’ve Got Love”.

Marissa Nadler – For My Crimes


Depois de sete álbuns, a cantora-compositora que quase sempre apostou no combo clássico voz e violão (e de vez em quando uma guitarra) pra expressar seus sentimentos, chega ao seu oitavo trabalho com um som muito mais espacial,  que reforça a característica onírica de sua voz e ajuda na imersão do ouvinte. Um time feminino de peso a acompanhou no estúdio com nomes como Eva Gardner no baixo, Mary Lattimore na harpa, Janel Leppin nas cordas, Patty Schemel na percussão e backing vocals de Kristin Control, Sharon van Etten e Angel Olsen, enriquecendo o caráter atmosférico de todo o álbum e potencializando a força de cada canção.

Por 14 anos cantando sobre a dor de corações partidos e a perda de relacionamentos falidos, Marissa Nadler atingiu um ponto de sofisticação único em que não precisa mais escancarar totalmente os elementos que compõem as histórias das personagens de suas canções mas pode apenas sugerir pequenos detalhes dessas narrativas e deixar a cabo do ouvinte completar com seus próprios sentimentos o que falta. Essa abordagem impressionista aparece em todos os componentes do álbum, desde a capa pintada pela própria artista com poucas pinceladas fortes que sugerem uma paisagem obscura e continua até os arranjos com a inserção sutil das linhas de cada instrumento pra contar cada uma de suas crônicas musicadas.

Além de todas as faixas contarem um pedaço de história em sua letra, o que chama a atenção é como Marissa parte de coisas muito específicas pra fazer canções com que todos possam se identificar.  Faixas como “I Can’t Listen to Gene Clark Anymore” que conta a dor de ouvir sozinha o artista favorito do casal e “All Out Of Catastrophes” que fala sobre a raiva que é ser chamada pelo nome de outra mulher na cama, partem de detalhes muito pessoais pra falar de situações que todos podem entender com um pouco de sensibilidade.

A estética sonora do álbum como um todo é bastante melódica e sombria, utilizando dos fraseados característicos do folk e do country como forma de amarrar todo o trabalho dentro do mesmo mood. À  primeira vista pode parecer um pouco previsível o uso de dedilhados de violão por quase todo o álbum mas os arranjos compensam  ao colocar as cordas e harpas nos momentos certos, trazendo o ouvinte de volta pra perto quando ele começa a se perder na fantasmagoria da voz e do violão. Além disso, os backing vocals ajudam a passar o sentimento que cada letra pede, “For My Crimes” que abre o álbum é um exemplo perfeito disso, com uma linha de violão constante mas que ganha força com um baixo sutil, além dos backing vocals e o complemento das cordas que acentuam as frases mais dramáticas da canção. A onipresença do violão é quebrada em poucos momentos como em “Blue Vapor” que traz uma guitarra principal mais carregada e a bateria mais potente do disco inteiro mas sem perder o caráter mais melancólico e lento das faixas que a circundam.

Como cantar por mais de uma década variações sobre um mesmo tema dentro do mesmo estilo musical e ainda assim ter sempre algo de novo para mostrar? Marissa Nadler parece encontrar a resposta para esse questionamento no refinamento dos detalhes. Uma vez que a estética e a temática já estão definidas de antemão, a artista pode encontrar a excelência dando atenção aos pequenos movimentos sonoros e focando sua lente nas particularidades ao invés de buscar as grandes cenas.

OUÇA: “Blue Vapor” e “You’re Only Harmless When You Sleep”

Still Corners – Slow Air


É estranho e até divertido reparar como os trabalhos do Still Corners seguem um padrão bem ao acaso, mas com um pouco de imaginação é mais do que fácil notar seu trajeto e perceber como tudo se conecta. Partindo das madrugadas grogues de Dead Blue (2016) a dupla agora se encontra mais desperta, mas ainda criando suas típicas atmosferas espaciais, no entanto dessa vez isso não se limita ao seu som, e criando um conceito firmado nos visuais de filmes antigos e auto-exploração, a banda projeta essa nova perspectiva de vida em Slow Air, sem se importar muito com o que era esperado deles.

Ainda se mantendo constantes no que sua roupagem habitual transmite, o duo, mesmo tentando algo novo, optou por não mudar tão drasticamente o que já fazem mais do que bem, e no lugar de seus ares sonhadores e anuviados, seu novo registro retrata cenários urbanos noturnos bem abertos, fugindo de vez em quando para a beira de uma praia ou a estrada mais próxima, e apesar de alheios aos próprios mistérios, sempre soam imersos nas possibilidades de onde sua jornada vai levá-los. O aspecto sintético da banda continua lá, mas trabalhando em perfeita harmonia com guitarras e teclados, dividindo os holofotes sem pressa ou competição, essa combinação é inclusive o ponto alto do álbum, encobrindo qualquer vestígio de tristeza de algumas partes do álbum, fazendo Slow Air até acolhedor em sua viagem solitária.

E em busca de algo ou alguém, a banda parece se perder cada vez mais, não necessariamente de uma forma negativa, há liberdade nisso, mas também deslocação de todo o resto do mundo, mesmo se mantendo aberta a conexões, ela também está disposta a seguir para onde quer que o vento sopre, sem hora pra chegar, sem hora pra partir, volátil demais para sequer termos tempo de entendê-la. Slow Air tem toda essa dualidade inquietante, não inconveniente, mas bem fora do alcance de quem tem os pés no chão. E com letras simples e paisagens rápidas, o Still Corners segue se aventurando sem rumo, apenas confiando em seus instintos mais básicos.

Apesar da dupla continuar extremamente subestimada, parece seguir feliz seu caminho, dessa vez dedicada a apenas acreditar em si mesma e se deixar levar, sem paciência para pensar demais ou muitos malabarismos visuais. Mais do que qualquer outra coisa, a banda parece querer transcender, não apenas o plano físico como também suas limitações emocionais e psíquicas, e não por motivos de querer fazer parte de algo maior, e sim se dar conta disso. Mas voltando pra nossa realidade banal, infelizmente a gente não encontra nada muito novo ou memorável em Slow Air, com a exceção talvez de “Sad Movies” (que apesar de genérica, é extremamente emocional e há um apelo de pertencimento nela), todo o álbum soa desforme demais, apesar de partir de uma ideia bem dinâmica e ter uma estética super agradável, não parece ter havido muito planejamento além de sua base, a tentativa de querer ir além é mais do que bem-vinda, mas não há nenhum convite para o ouvinte embarcar nessa jornada, esquecidos onde a banda partiu, sem promessa de voltar.

OUÇA: “Sad Movies”, Black Lagoon” e “Whisper”.

Eleanor Friedberger – Rebound


No momento de lançamento de Rebound, da greco-americana Eleanor Friedberger, já havia rumores de algo do Interpol por vir. Tinha acabado de ler sobre isso quando dei play em “My Jesus Phase”, que abre o disco de Friedberger, e achei tão “Rest My Chemistry” (que por sua vez é bem “Where Is My Mind?”) que pensei ter me confundido com datas e bandas. Se tratava de um inception aparentemente não-intencional, ou uma completa viagem da autora que vos fala (uma vez que não se acha esta referência por aí, no máximo um The Cure arriscado por outro palpiteiro de álbuns alheios). Porém, a viagem mesma e a confusão temporal já abrem o estado de espírito (viajante & em um buraco no tempo) que o “rebote” de Eleanor propõe.

Afinal, uma das musas de seu álbum foi uma boate gótica em Atenas que costuma tocar os sons da “década perdida”. Seu nome? Rebound. “My Jesus Phase” levaria o nome de um bar da capital grega, Galaxy Bar (fechando, junto ao disco, um roteiro turístico para quem não quer ser turista na Grécia). O título, contudo, foi vetado por um complexo arranjo envolvendo 10 amigos usado pela cantora para dar nome às suas músicas.

~Deprimida, mas dançando~ parece uma boa descrição para a atmosfera que envolve o quarto álbum solo da ex-integrante do duo The Fiery Furnaces. A impressão de ter um pé nos anos 90 já passa em “The Letter”, segunda faixa do disco, a partir da qual os anos 80 começam a tomar conta. Isto é fato que Friedberger confirma em entrevista ao Consequence of Sound na qual fala de seu Rebound música a música.

Para um álbum feito na estrada, a resposta encontrada na jornada parece ser algo como: por mais que se mova, o lugar em que se está é sempre o lugar errado. Desde querer ‘a man in Greece, a girlfriend in Italy‘ (em “Everything”) até aspirar falar todas as línguas mas achar que, mesmo assim, ‘you’re not even guessing in the right language’ (de “Are We Good?”). Não deixar este espírito do tempo – de que se está sempre perdendo algo, deixando de fazer parte de algo – se perder na tradução é uma das coisas que torna Rebound tão grande.

O significado de “rebote” é algo como quicar (não o lacrador aqui) depois de dar com a cara contra o muro. Entra-se em uma mini-Odisséia em que se é tanto Ulisses quanto Penélope. Tanto o que se move quanto aquele que espera. Depois de (re)descobrir que não existe um lugar para se chegar, Eleanor não se abate, ela sempre achou que a jornada era interna. E, a partir daí, é apenas ‘nice to be nowhere with you‘.

OUÇA: “My Jesus Phase”, “In Between Stars” e “Nice To Be Nowhere”

Beach House – 7


O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”.

Diferentemente dos álbuns anteriores, nos quais as faixas iniciais já constroem a atmosfera de sonho pela suavidade, “Dark Spring” abre o sétimo disco com baterias (de verdade!) e distorções que me remeteram ao Loveless, do My Bloody Valentine. Essa referência segue ao longo do álbum na lenta “Pay No Mind” e “Dive”, cujos vocais duplicados constroem uma atmosfera deliciosa.  Já em faixas como os singles “Lemon Glow” e “Black Car”, o álbum retorna para os elementos mais dream pop característicos da banda, deixando de lado o rock/shoegaze das outras faixas.

Essa aproximação com um instrumental mais pesado que o usual do Beach House — acompanhados pelas letras, que abordam pontos obscuros da fama e do glamour, primaveras geladas e sem cores, estrelas e morte — tornam 7 o álbum mais pesado do duo (até agora). Talvez isso demarque um novo momento da banda, evocado pela simbologia do número 7, pontuando a mudança do produtor: depois de 6 discos com Chris Coady, Victoria e Alex apostaram em Peter Kember (MGMT, Panda Bear). A mudança trouxe novas nuances para um repertório de sonoridades que, apesar de estar entre meus preferidos, estava um pouco gasto desde o Bloom, de 2012.

Com guitarras mais pesadas, vocais mais claros e letras ricas em imagens poéticas, 7 me faz pensar em amadurecimento. Um amadurecimento enquanto processo, não enquanto ponto de chegada — se aprendi alguma coisa escutando Beach House é a sonhar com a lua sem encostar nela. E, mesmo não estando visível a olho nu, a lua escura continua no céu, e depois de 7 dias a veremos clara de novo.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”.

Twin Shadow – Caer


Twin Shadow (aka George Lewis Jr.) tem se mostrado uns dos artistas mais consistentes do cenário alternativo desde o início de sua carreira, consequentemente não foi nenhuma surpresa ele estourar nas paradas com seu terceiro álbum e emplacar um hit em um filme famoso (Cidades de Papel), a notoriedade poderia ter feito o artista vacilar, mas George seguia extremamente estável e não havia muitas dúvidas a respeito de sua carreira. O futuro parecia extremamente promissor… Até o destino dar uma sacudida nas coisas por outros meios, no mesmo ano do auge de seu estrelado o ônibus de sua turnê sofreu um acidente deixando alguns feridos, o cantor incluso, a vida seguiu, algumas cicatrizes ficaram mas tudo ficou bem. Até certo ponto. A necessidade de seguir em frente e abrir os olhos para as pequenas lições de vida do dia-a-dia dão rumo para a nova jornada do artista, mas mesmo sem perceber, a incerteza ainda parece estar pesando em suas costas e interferindo no novo registro.

Mais do que qualquer coisa, Caer soa como se George Lewis estivesse preso num devaneio, andando pela rua, ponderando vários pontos pertinentes em sua vida como quando traumas ou um coração partido eventualmente o tornaram uma pessoa mais forte, mas distraído demais para notar que um carro está prestes a atingi-lo. Caer tem todos os elementos para ser um grande álbum, mas na hora do preparo as coisas não foram adicionadas na devida ordem. A voz do cantor está no ponto, as letras totalmente coerentes e o som está num novo nível de qualidade, mas de alguma forma tudo parece desconexo.

O indício de mudança e experimentação são bem evidentes em Caer, a vibe oitentista do cantor ainda permanece pelas esquinas de seu trabalho, as coisas seguem agitadas e divertidas mas com os pés no chão, há bastante reflexão e descobertas pessoais nas letras, talvez esse seja o grande ponto forte de Caer aliás. O álbum tem vários pontos altos e bons momentos, mas mesmo com uma tracklist bem extensa pro padrão de álbuns atuais, muita coisa passa despercebida ou é simplesmente esquecível, meio que inconscientemente, George Lewis parece não ter tomado muitos riscos. Mesmo com bastante conteúdo e diversidade na parte lírica, ainda fica uma sensação inquietante de que algo está faltando.

Elas por elas: Caer é um álbum coeso mas bem estranho. Twin Shadow está claramente tomando o rumo certo em seu trabalho, mas parece ter sido analítico e técnico demais em muitos pontos do álbum ao invés de simplesmente deixar as coisas fluírem. A falta de charme, sensualidade e energia típicas do artista tornam as coisas meio robóticas, e apesar de ser um álbum bem executado, não transparece o artista que a gente conhece. Um leque bem vasto de sentimentos e pensamentos estão presentes e são totalmente relativos com o público, mas tudo parece ter sido pensado demais, o artista chega nas suas conclusões mas não segue em frente, continua debatendo a coisa toda consigo mesmo à um ponto desnecessário, mas apesar dos pesares, o potencial e espaço para crescimento são bem claros, acalmando os fãs e até validando o álbum pra indicações casuais.

OUÇA: “Saturdays”, “Littlest Things” e “Obvious People”

Geowulf – Great Big Blue


Os milhares de players nas músicas e videoclipes da então misteriosa dupla Geowulf indicavam um público curioso para saber mais sobre esses australianos que possuíam apenas um EP, chamado Relapse. Demorou, mas Stark Kendrick e Toma Banjanin conseguiram lançar seu primeiro álbum de estúdio, mesmo com as dificuldades que implicavam as mudanças geográficas da vocalista. Kendrick conseguiu algum tempo entre suas viagens de Londres para Austrália, Berlim e Suécia para finalizar o tão esperado Great Big Blue com Banjanin.

O resultado não fugiu muito da proposta que já se ouvia nos antigos singles, como “Saltwater” e “Get You”, os grandes hits entre as novas faixas. Enquanto os antigos sucessos são mais adocicados e energéticos, as novas composições trazem um pouco mais de peso e melancolia, mas sem perder a fórmula pop sintética original. No caso do duo, a receita consiste em explorar refrões repetitivos e abusar de reverbe nos vocais, o que confunde os coros com o instrumental.

As faixas mais criativas, que dão um respiro em toda essa repetição, ficam por conta de “Drink Too Much”, comandada por uma linha de baixo, e a de encerramento “Work In Progress”, que traz melodias em xilofone e vocais mais elaborados. Mas, em suma, é muito difícil ouvir o álbum todo sem enjoar das músicas que parecem apenas variação da primeira faixa, “Sunday”, elementar para praticamente todas as composições seguintes.

Talvez o que faltou para nascer um trabalho mais criativo tenha sido realmente a falta de sinergia resultante da distância geográfica da dupla, que mais pareceu se preocupar para lançar logo um álbum antes que seus singles caíssem no esquecimento. No fim, fica a impressão que todo o charme que Great Big Blue possui com sua aura sintética, praiana e nostálgica é apenas um ponto esticado entre 11 faixas, de forma insistente e insuficiente.

OUÇA: “Saltwater”, “Drink Too Much” e “Work In Progress”

First Aid Kit – Ruins


O novo ano nos trouxe Ruins, o quarto disco cheio das irmãs Klara e Johanna Söderberg do First Aid Kit. Os singles que saíram antes do lançamento foram suficientes para alimentar expectativas quanto ao que elas viriam a lançar. “Postcard”, “Fireworks” e “It’s A Shame” são canções que carregam a forte assinatura do duo, mas ao mesclar novas referências, refinam e elevam muito a qualidade da música criada por elas. Com o lançamento do disco completo, temos a chance de contemplar o restante das faixas e avaliar se este é o grande álbum que elas sinalizaram setembro passado com “It’s A Shame”.

Ruins foi feito sobre as dores que persistem depois do fim de um relacionamento, como ruínas que, apesar de ainda existirem fisicamente, não tem mais função alguma, a não ser nos lembrar da história que um dia existiu. A temática aparece e é reforçada em diversas faixas, mas tem maior impacto nos momentos mais introspectivos como “Fireworks”. É nesses momentos que a dor do coração partido parece ainda mais real. No entanto, além da beleza de boa parte das letras, há espaço também para alguns clichês que pouco adicionam à temática do disco. As citações a “too much whiskey, too much honey and too much wine” são os momentos menos inspirados e mais previsíveis dentro de “Hem Of Her Dress”, a canção mais fraca de Ruins.

Musicalmente, Ruins é o disco mais rico e bem produzido dentro da discografia do First Aid Kit. A divisão em duas partes da faixa de abertura, “Rebel Heart”, já demonstra o capricho envolvido na produção do trabalho. Dessa vez Klara e Johanna fizeram novas parcerias que deram muito certo. Entre os nomes envolvidos na criação do álbum estão Peter Buck (R.E.M.), Glenn Kotche (Wilco) e Tucker Martine (produtor de vários artistas, incluindo My Morning Jacket e The Decemberists). O folk característico da banda ainda é o principal componente do disco, mas o que era um flerte com a americana e com a música country no passado se transformou em um casamento perfeito agora. As irmãs mergulham nesses estilos e o resultado é primoroso. “Postcard” é um número country excelente e figura entre as melhores canções que o First Aid Kit já criou.

Uma característica que permanece intacta é a riqueza das harmonias vocais criadas por Klara e Johanna. As vozes se costuram e se entrelaçam com tal firmeza e beleza que só nos cabe admirar os resultados dessa combinação. Outro fato a se apontar sobre Ruins é que o disco tem a duração exata. São apenas dez músicas, mas como não há tanta variação nos elementos e temas de uma faixa para outra, o álbum poderia se tornar cansativo ao final de uma audição completa. Por ter curta duração, felizmente não é este o caso.

Chama muita atenção a beleza da letra e o significado da instrumentação da última faixa, “Nothing Has To Be True”. Trechos como “You get lost countin’ the years / Since you last felt like you were home / Oh, I thought you were home” são cantados de maneira tão sincera e sofrida que é impossível não se compadecer. Quanto à música, os minutos finais são imersos em um barulho quase ensurdecedor. Um barulho que tenta te sufocar e que tenta te forçar a esquecer. Essas são características não tão comumente associadas ao som do First Aid Kit. O disco foi criado em torno do término de um longo relacionamento de Klara, e com este encerramento, o término parece não ter sido superado. Todo caos da parte final da faixa parece ser uma tentativa de encobrir e esquecer um sentimento que dói e que ainda está vivo.

As novas parcerias refinaram em muito a qualidade, que já era de alto nível, da música do First Aid Kit. Ruins é um grande disco, mas ainda não é O GRANDE DISCO que as irmãs prometem desde o debut. Claramente não falta talento para criar este disco, no entanto alguns tropeços e clichês as impediram de tal feito nessa empreitada. Apesar disso, com o passar dos anos, Ruins será certamente um álbum de destaque dentro da discografia do First Aid Kit. No fim das contas, sobrarão muito mais que ruínas das estruturas criada pela música do duo. Restarão obras firmes e completas, entre elas uma estrutura chamada Ruins.

OUÇA: “Postcard”, “Fireworks”, “Rebel Heart”, “It’s A Shame” e “Nothing Has To Be True”

Teen Daze – Themes For A New Earth


Partindo de um bom momento graças ao álbum anterior, o Teen Daze segue inquieto produzindo mais e mais coisa, mudando sua dinâmica costumeira onde o artista tende a transportar seus fãs para todo canto imaginável do planeta ou fora dele, Jamison Isaak resolveu dar continuidade ao que já tinha abordado em Themes For A Dying Earth, seja complementando ou mostrando novas nuances, continua inegável, que mesmo não estando a todo vapor, o moço continua em boa forma.

Themes For A New Earth não é nem de perto uma contraparte de Themes For A Dying Earth, e seria grosseria demais chamá-lo de “sobras” do seu antecessor, até por que há um claro zelo em todas as suas faixas, enquanto no trabalho anterior o Teeon Daze te fazia entrar em harmonia com seus arredores e abraçar seu dia, aqui já há uma quietude bem maior, ainda bem otimista, mas bem mais mansa e introspectiva, se realmente há algum contexto maior em ambas as obras, muito provavelmente devem tratar das passagens estacionais, Dying Earth representando Primavera e Verão, e New Earth Outono e Inverno.

O grande porém do álbum é que diferentemente dos trabalhos anteriores, não acontece uma imersão do ouvinte nas faixas, a experiência com ele não chega a ser rasa, mas rápida demais pra causar um impacto maior. O álbum é mais curto, as faixas são mais curtas, não há mais participações (vocais) e Themes For A New Earth acaba sendo apenas um registro fofo. Mas se tratando de um projeto mais casual e descompromissado com a vida, tudo isso se torna perdoável. Aliás, a qualidade do trabalho em comparação ao pouco tempo entre um lançamento e outro é prova mais do que necessária que Jamison está mais do que capacitado para seu trabalho.

Themes For A New Earth acaba sendo um abraço mais extenso a suas voltas, solidificando a paz de espírito do ouvinte e garantindo uma chance para Jamison recarregar suas baterias (se é que ele de fato precise disso), pra quem já conhece o artista e sentia falta da roupagem mais ambiente e nítida, sem se perder ou se ofuscar com outros componentes, New Earth é uma ótima pedida, tem toda a simplicidade e leveza do mundo a seu lado, seja procurando canções de ninar ou alguma adição para playlist durante estudos ou trabalho, o Teen Daze, como sempre, tem ótimas coisas pra te oferecer!

OUÇA: “On The Edge Of A New Age”, “Kilika” e “Echoes”.

Stars – There Is No Love In Fluorescent Light


Veteranos do indie pop, o Stars volta depois de três anos de pausa com seu oitavo disco, There Is No Love In Fluorescent Light. A clara e vasta experiência no gênero deixou a banda canadense confortável, talvez acomodada demais em seus trejeitos. Apesar da qualidade de suas faixas, sempre contundentes, redondas e imersivas, o Stars não inventa muito em seu novo álbum.

A maior novidade trazida pela banda são os vocais de Amy Millan, que voltam ainda mais altos, principalmente na música “Hope Avenue”. O tom ajuda a trazer uma atmosfera oitentista, o que já havia sido explorado no álbum anterior. Ainda que algumas faixas sejam ligeiramente dançantes, o Stars volta ao pop orquestral imersivo do passado, sem no entanto renovar muita coisa. Mantendo fórmulas anteriores, o Stars trás “mais do mesmo”, mesmo sem perder o nível musical.

Conheci a banda no auge de The Five Ghosts, quando os versos de “Wasted Daylight” me tocaram e permaneceram nas minhas playlists reflexivas por quase dez anos. Em “The Maze” e “We Call It Love”, consegui sentir os mesmos arrepios que o meu eu adolescente sentiu tempos atrás.

Ainda que soe meio plástico em algumas frases ou sons, alguns toques conseguem me puxar de volta para o álbum, curiosa para saber onde a viagem vai me levar.

Transformando refrãos, toques simples synch e conversas cantadas em obras grandiosas, o Stars continua fazendo o fluxo do meu sangue correr mais lento ou acelerado em poucos segundos. Ouvir There Is No Love In Fluorescent Light foi como voltar a uma casa antiga, que carrega lembranças em cada lasquinha de tinta descascada.

OUÇA: “The Maze”, “Privilege” e “We Call It Love”.