Paul McCartney – Egypt Station


Egypt Station, novo disco do sir Paul McCartney (estamos em 2018, apresentações já são desnecessárias), é uma adição divertida e inofensiva ao vasto legado do britânico. Para o bem ou para o mal, trata-se de um trabalho que não se leva muito a sério e busca abraçar sons mais leves.

Essa tentativa de permanecer em dia com sua juventude traz em sua maioria resultados positivos, já que o produto final é um disco muito fácil de se ouvir, que não apresenta muitos desafios. Há até um pouco de experimentação na já famosa “Back In Brazil”, que brinca com sopros e um ritmo mais latino (pense em Carmem Miranda e na bossa-nova). Alguns resultados são um tanto quanto… esquisitos (como o single “Fuh You” e sua infame letra), mas no grande-esquema, Egypt Station traz uma experiência positiva.

Canções como “Ceasar Rock” e “Happy With You” ditam o tom descontraído e cheio de energia do disco, e devem agradar os ouvidos dos fãs mais jovens, acostumados com nomes novos do britpop como George Ezra e James Bay. Não há nada de muito ousado nessas canções, mas são animadas e agradáveis o suficiente para justificar um binge-listening.

O que pode tornar Egypt Station uma experiência cansativa para alguns é o tamanho muito grande do disco. É difícil justificar a presença de nada mais, nada menos do que 16 faixas (duas são interlúdios) quando as composições não são únicas o suficiente. As duas últimas canções (“Despite Repeated Warnings” e “Hunt You Down/Naked/C-Link”) são longas demais, e outras como “People Want Peace” e “Hand In Hand” simplesmente não causam impressão alguma.

OUÇA: “Back In Brazil”, “Ceasar Rock” e “I Don’t Know”.

U2 – Songs Of Experience


A banda procura continuar com seu superpoder de sempre conciliar sua personalidade com o som da atualidade. Em Songs Of Experience, U2 tenta dar sua opinião sobre o que acontece politicamente no mundo ao mesmo tempo que procura atingir o coração individual de cada um de seus ouvintes.

Talvez tenham tentado abraçar o mundo novamente como fizeram anos atrás com seus álbuns icônicos. As músicas de Joshua Tree pareciam tocar em loop no rádio após seu lançamento em 1986 (baseado em depoimentos de meu pai). Todos cantam “But I Still Haven’t Found What I’m Looking For” ou “Where The Streets Have No Name”. A banda foi adotada pelos EUA com esse álbum sendo o carimbo do cartório nos papéis de adoção. O problema é que o mundo de décadas pra cá se tornou um lugar enorme, talvez até maior que o abraço dessa mega-banda.

Poucos acreditam no potencial da música de mudar o mundo como U2. Em sua busca por se modernizar, às vezes a banda acaba errando o caminho e bagunçando o meio-campo (peguei essa do meu pai também). Nunca esconderam seus ideias cristãos, por muitas vezes os utilizando de inspiração para algumas de suas músicas icônicas. Não sei se os problemas de hoje em dia são grandes demais ou se a música talvez não seja mais tão poderosa quanto era antigamente. E, pra falar a verdade, não gostaria de acreditar em nenhuma das duas opções.

As críticas cantadas por Bono são todas relevantes e embaladas por melodias cheias de impacto. A faixa “American Soul” é uma clara cutucada na situação política americana. “Get Out Of Your Own Way” faz menção a superarmos barreiras que colocamos diante de nós mesmos, uma mensagem forte. “Love Is Bigger Than Anything In Its Way” é o que gostaríamos que o mundo fosse. Claramente, existem alguns flashbacks (ou tentativas de flashbacks) de hits antigos de All That You Can’t Leave Behind ou até mesmo War. Mas são só isso nesse álbum: flashbacks.

Por que não senti a tamanha vontade de mudar o mundo que esperava depois que ouvi esse álbum lindo cheio de guitarras ecoastes do The Edge ou de falsetes de Bono? Talvez porque o mundo de hoje em dia nos torne mais frios (realistas?). Talvez porque U2 não conseguiu ainda pisar fora da sombra de seus sucessos passados com um álbum tão grandioso nessa nova década. Talvez seja um álbum que esteja no meio do caminho de alguma revolução maior para a banda.

The point is: se você gosta das coisas antigas do U2, irá curtir esse álbum; se não conhece U2, talvez não goste; nos anos 80, conhecendo ou não, você curtiria os álbuns do U2. Eu ainda curto.

P.S.: O Kendrick Lamar diz umas coisas que são bem verdade ali no meio.

OUÇA: “Lights Of Home”, “Get Out Of Your Own Way” e “American Soul”.

Robert Plant – Carry Fire


No final de novembro, em uma entrevista para a Classic Rock Magazine, Robert Plant disse pela enésima vez que não existe a possibilidade de uma volta do Led Zeppelin, e também que as pessoas deveriam parar de somente olhar para o passado, e ver o quanto de música boa está sendo feita atualmente. Impossível não concordar com esse leonino.

Plant está em uma das suas melhores fases. Além de um som muito antenado com as atuais tendências retrô – um folk rock psicodélico – sabe melhor do que ninguém envelhecer e usar a sua voz. E, além disso, a sua contínua exploração de ritmos e culturas orientais só melhora a riqueza da sua musicalidade. Em outubro ele lançou Carry Fire. Mais um disco lindo para compor essa nova fase de sua carreira.

Desde que se reuniu com o Band of Joy – uma de suas primeiras bandas, onde inclusive tocou com John Bonham pela primeira vez – o folk voltou com tudo. Antes existiam mais experimentações eletrônicas e seus discos eram mais dinâmicos. Mas isso não diminui a potencialidade de seus novos trabalhos.

Carry Fire é marcado por composições falando sobre o colonialismo do terceiro mundo – ainda mais nessa época em que a vida nesses lugares ficam ainda mais difíceis, e os refugiados são enxotados dos países que os exploram e geram os problemas que nunca acabam. Bem como dificuldades e problemas emocionais gerados por isso, e a vontade de continuar vivendo e encontrar a felicidade em algum lugar.

Características muito presentes em “New World…”. Esta surge e uma sensação boa começa a brotar dentro de nós. Às vezes é incrível como uma canção que a princípio não tem nada demais, consegue fazer algo conosco. Uma sensação de esperança. Com uma rítmica bem gostosa de ouvir, vocais maravilhosos, e uma letra bem bonita é impossível não sentir algo. Isso sem falar no solo de guitarra sutil, mas cativante. Que escolha de timbre!

A crítica forte surge em “Carving Up The World Again…A Wall And Not A Fence”. Atacando estadunidenses, russos, britânicos e chineses, sobre a sua conduta de tentar se esconder do restante do mundo atrás de muros em meio às desgraças que vemos todos os dias nos jornais.

Das demais faixas, podemos destacar o romantismo de “A Way With Words” – essa com certeza uma das mais oníricas e belas do disco, e com direito até a uma relembrada de sua banda mais famosa, devido aos gritinhos sexy e contidos ao final da música. E a devocional faixa título é uma das que mais vale a audição. Os sussurros junto a música oriental com um arranjo de cordas hipnotizante são um dos pontos altos.

No final o disco começa a dar uma leve animada com “Keep It Hid” e “Bluebirds Over the Mountain”, que na verdade é de Ersel Hickey, e conta com a excelente participação de Chrissie Hynde – líder do Pretenders. E não é surf rock. Se torna uma mistura muito interessante com viés blueseiro e experimentações psicodélicas.

Trabalhando em conjunto com sua banda, dividindo todas as suas composições, o artista vêm construindo uma linha nova de álbuns dignos de audição. Enquanto alguns jorram xenofobia (Morrissey), outros são oportunistas até não deixarem mais (Bono Vox), Plant tenta espalhar mais humanidade no mundo através da música. Continua um hippie.

OUÇA: “New World…”, “A Way With Words” e “Carry Fire”.

Ringo Starr – Give More Love


Dizem que não se deve julgar um livro ou mesmo um álbum por sua capa. Mas como não ficar no mínimo impactado pela “criação artística” do disco do Ringo Starr. Se você é um ser humano com muita empatia, a primeira coisa que vem na sua cabeça é: “aí que brincadeirinha do Ringo”, “é zoeira”. Agora se sua fé na humanidade é pouca, provavelmente você vai soltar um palavrão espontâneo e se negar a ouvir. E não há símbolo de “paz e amor” que mude isso.

O 19º álbum de carreira – Give More Love – era para ser um disco country gravado em Nashville. Mas com há apenas duas faixas que entram nesse perfil – “So Wrong For So Long” e “Don’t Pass Me By”, a ideia inicial parece não ter se concretizado. Assim, o álbum virou um grande encontro com colegas que participam das músicas.

Só que não podemos esquecer que estamos falando de Ringo Starr. Ringo Starr, ex-baterista dos Beatles, o não beatle mais amado, por isso seus colegas não são ninguém mesmo que o ex-companheiro de banda Paul McCartney no baixo em duas faixas, Jeff Lynne do ELO, Greg Leisz, Joe Walsh do Eagles e Don Was.

Todas as não expectativas esperadas desse álbum foram cumpridas: músicas melódicas, daddy rock, tentativas de reggae. Algumas nunca precisaríamos termos ouvidos como “King Of The Kingdom”, outras até que estão dentro da margem do considerável “ok.” A faixa do título, por exemplo, já está em outra margem – a do incompreensível. Parece que alguém pegou faixas B dos Beatles e colocou em looping em um gravador . Pode também ter sido chamado de “Fuck It, That’ll Do”.

Durante todo o álbum há essa certa prepotência nostálgica de produzir músicas como nos anos 80/90. Parece que estou ouvindo clássicos dessa época, só que há apenas um porém – não são clássicos, são músicas inéditas – o que faz com que tudo fique extremamente brega e sem nenhum potencial criativo.

OUÇA: “We’re On The Road Again”, “Electricity” e “Don’t Pass Me By”

Roger Waters – Is This The Life We Really Want?


Em uma época em que a internet nos proporciona a sensação de que podemos fazer tudo o que queremos, que tudo está ao nosso alcance, e ao mesmo tempo nos castra, Roger Waters lança a indagação em forma de disco.

Impossível não se surpreender com a sequência “Broken Bones”, “Is This The Life We Really Wants?” e “Bird In A Gale”. No momento em que começamos a viajar, a pensar em mandar uma mensagem para alguém, vêm algo que nos quebra e faz voltar toda a atenção para o disco novamente.

É inevitável não refletir sobre a época em que estamos a partir da audição desse álbum. E até mesmo antes de ouvi-lo, ou seja, lendo somente o título. Parece que, nós enquanto Ocidente, com tudo bem “definido” e com tudo se resolvendo sem que possamos modificar nada, não temos mais nada por vir. E ainda mais, com tudo isso se estendendo a sangue e martírio para o resto do mundo. Digo isso porque saímos da época das guerras mundiais, do impasse EUA X URSS, de quaisquer outros dualismos que antes ditavam uma inconstância diária – antes as pessoas não sabiam o que aconteceriam na outra semana, basta ver qualquer documentário sobre a Guerra Fria para entender isso.

Mas agora, parece que tudo está resolvido. O futuro já está dado. O que por si só é bem melhor do que viver na inconstância da ameaça (de verdade, e não dessa fantasiosa da Coréia do Norte) de uma bomba, de de repente ser tomado a força pela hegemonia de outro país e mudar toda a sua vida. Isso não vai acontecer. Não bruscamente. Agora é tudo gradual. Ou no caso do nosso Brasil, de ver de mãos atadas fazerem o que quiserem conosco.

E então eu repito: é essa a vida que queremos?

Talvez a resposta esteja na última frase da última música. Devo dizer: mas que final!

Talvez você não concorde com nada disso que escrevi. Talvez Roger Waters quando compôs não pensou nisso. Mas são as questões que o álbum me suscitam. Quais são as que surgem na sua cabeça quando você ouve?

(Recomenda-se ouvir o disco inteiro, em sequência, com toda a calma e atenção – mas caso você queira ouvir algumas músicas antes de entrar nessa empreitada, dê uma checada nas que estão como sugestão).

P.S.:  não tem jeito, toda vez que Waters resolver gravar um disco, ele automaticamente concorre como melhor do ano. Justamente porque estamos falando de alguém que leva o conceito de álbum, de obra, a sério – até quando fez escolhas um pouco erradas (caso do Radio K.A.O.S.).

OUÇA: “Broken Bones”, e “Is This The Life We Really Want?” e “Part Of Me Died”

Neil Young – Hitchhiker


Existem artistas que são tão icônicos, tão necessários, tão marcantes no mundo da música que dispensam maiores apresentações. Neil Young é um deles. E neste ano o cantor e compositor canadense retorna ao cenário da música com o lançamento de Hitchhiker, um álbum extremamente íntimo que, embora tenha sido lançado recentemente, foi originalmente gravado no longínquo ano de 1976.

Hitchhiker é um belo registro acústico em que Neil Young – aquele Neil Young de 40 anos atrás – nos leva a um mundo que não mais existe, um mundo em que Richard Nixon, Marlon Brando, Kennedy ainda pairavam na consciência coletiva dos cidadãos norte-americanos, um mundo em que a Guerra do Vietnã havia terminado há pouco mais de um ano, enfim, um mundo bem diferente do que vivemos hoje.

A antiguidade do registro, contudo, não o torna menos luminoso, pois em <Hitchhiker Neil Young nos apresenta belíssimas canções, notáveis pela sua simplicidade e intimidade, as quais em sua maioria foram lançadas em outros álbuns da carreira do cantor. Mas aqui todas as faixas se resumem à voz e o violão de Neil Young, ora acompanhadas por uma agradável gaita, ora substituídas por um piano. E só. A intimidade presente nas faixas é notável também em razão das faixas serem todas cantadas em primeira pessoa e indicarem um eu-lírico que se move de forma errática, muitas vezes sem rumo definido, sem um norte a seguir. Um “hitchhiker” na melhor acepção do termo.

Hitchhiker possui duas faixas previamente não lançadas, “Give Me Strength” e “Hawaii”. “Give Me Strength” é um registro formidável sobre o término de um relacionamento, sobre as dores causadas pelo fim, sobre a solidão e a aparente falta de propósito após anos de relacionamento. A gaita tocada por Young adiciona ao espírito melancólico da faixa e, por algum motivo, é possível sentir a dor daquele Neil Young de 40 anos atrás. Outras faixas do álbum – as já conhecidas – trazem todas uma narrativa desconexa, um amálgama de lembranças, canções de travessia, de partidas, de chegadas, de caminhos percorridos sob a influência de drogas e também de caminhos mais lúcidos. “Hitchhiker”, a faixa que dá nome ao álbum, é a que mais representa esse espírito itinerante do álbum, indicando uma sonoridade típica de músico que se encontra sozinho com seu violão no meio do deserto.

Hitchhiker é uma grande reflexão pessoal de Neil Young, mas também pode servir de trilha sonora para nossas próprias travessias, pois nesse álbum Young é a personagem que está em constante reflexão sobre seu passado (como em “Give Me Strength”), mas que também reflete sobre seu presente e sobre os desafios do futuro – um registro delicado e profundamente humano sobre o que é caminhar em um mundo incerto – que é aplicável a cada um de nós nesse ano de 2017.

OUÇA: “Give Me Strength”, “Hitchhiker” e “Pocahontas”

Danzig – Black Laden Crown


Glenn Danzig, o filho machão do capiroto, voltou. Em maio lançou Black Laden Crown, com sua banda de mesmo nome, Danzig. O eterno líder dos Misfits (para alguns) tem uma carreira desde o final da década de 1980.

O homem que nunca parou quieto no palco, nunca também deixou de criar. No entanto, é difícil não notar como o som mudou e deixou um pouco sua identidade inicial de lado. As composições que antes eram pesadas, não somente nas guitarras, e sim com a sua personalidade forte e seu lado obscuro, hoje soam datadas, pasteurizadas e aquela relação que, dá a entender, superficial com as forças ocultas. Começar o show fazendo “chifrinhos” com as duas mãos é um bom exemplo disso.

E é isso o que percebemos no disco novo do artista. Black Laden Crown, além da capa horrível, é mais um disco de metal com guitarras pasteurizadas. Apesar de ter abandonado de vez aquela tentativa de ingressar no industrial metal (que foi uma das suas piores ações na carreira) após perder sua banda inicial – melhor fase do Danzig – no Danzig 5: Blackaciddevil, o álbum novo não empolga. E ainda, em certas músicas percebemos a mixagem mal feita, como em “Devil On Hwy 9”.

No entanto, o álbum não é completamente uma perda de tempo. Apesar de ser mais um disco entre tantos outros de metal, dos últimos lançados, é um dos poucos que se assemelham à boa fase da banda. “Last Ride” é uma boa música, porque justamente nos lembramos do Glenn com viés blueseiro. E o mesmo podemos dizer de “The Witching Hour”, “But a Nightmare” e “Pull the Sun” (melhor faixa).

O que na época “de ouro” tinha um quê de único, atualmente se enquadra às várias bandas de metal que existem por aí. A voz (menos) potente e o ego ainda inflado de Danzig deveriam ser melhor aplicados, como nos quatro primeiros trabalhos, senão não adianta ser muito arrogante quando se é como qualquer um.

OUÇA:

Todd Rundgren – White Knight

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Muitos com certeza já ouviram falar de Todd Rundgren, seja porque ele é um dos guitarristas da banda de Ringo Star; ou quem sabe viu That 70’s Show, e deve ter notado que no primeiro episódio Donna e companhia vão a um show de Todd Rundgren; ou então caso tenha visto Almost Famous (Quase Famosos, de Cameron Crowe, 2001) e percebeu que “It Woudn’t Have Make Any Difference” faz parte da trilha sonora do filme, assim como “A Dream Goes On Forever” em The Virgin Suicides; ou ainda, sabe quem é o cara que poucas vezes foi visto com uma só cor de cabelo.

Todd Rundgren é um daqueles incríveis músicos e compositores deixados de lado pelo seu experimentalismo incessante. Mas como ele realiza experimentos sempre no âmbito do pop – sendo então o denominado art-rock – é difícil de compreender como ele é tão esquecido, ainda mais com algumas canções tão perfeitas. E além de sua carreira solo, participação em algumas bandas, ele também produziu vários discos.

Em White Knight lançado no início de maio Rundgren faz tudo isso. Além do artista tocando (como sempre) todos os vários instrumentos utilizados no disco, o trabalho conta com algumas participações especiais: seu parceiro de longa data Daryl Hall, Trent Reznor do Nine Inch Nails, e outros.

O que predomina no disco é a atmosfera do fusion. Quando se chega no nível de Rundgren tocar um só estilo ou alguns poucos é insuficiente. A vontade de misturar tudo em uma só música é inevitável. Mas podemos dizer que a atmosfera do fusion puxado pro jazz é o que está mais presente, basta prestar atenção às guitarras, teclados e baixo. O timbre do estilo é ouvido logo no primeiro compasso do disco. Nos faz até pensar que está faltando um Jaco Pastorius ou Allan Holdworth nas gravações.

Repleto de canções (no fundo) díspares, algumas com elementos eletrônicos bem interessantes – “Deaf Ears”, com participação de Trent Reznor –, é um álbum completo e muito interessante de ouvir. E com isso chega-se à conclusão de que Rundgren continua ativo em sua criatividade ainda. Mesmo com quase 70 anos o artista não cansa de nos presentear toda a sua musicalidade, ainda que poucos o apreciem, e mesmo que ele esteja fora dos holofotes há certo tempo. O que é hype é passageiro, e os grandes gênios ficam escondidos, infelizmente. Entretanto, são esses que servem de melhor inspiração para os grandes artistas.

OUÇA: “Let’s Do This”, “Deaf Ears” e “Wouldn’t You Like to Know”.

Deep Purple – inFinite

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São quase 50 anos de estrada – com mudanças na formação, mas ainda assim, o fato é que que o Deep Purple é um dos grandes nomes do rock britânico, cujos membros são lendas vivas do rock. Com inFinite, Ian Gillan, Roger Glover, Ian Paice, Steve Morse e Don Airey trazem o que pode ser o derradeiro disco da banda. O que parece sugerir um trabalho de quem já está, por assim dizer, “puxando o freio de mão”, de quem já se prepara para sair de cena e portanto não apresenta o mesmo esmero presente em outros momentos de carreira. Essa tese poderia – e às vezes é – ser verdade, quando aplicada a outras bandas. Mas não a Deep Purple.

Quem houve Ian Gillan esbravejando em “Hip Boots” e “One Night In Vegas” dificilmente diz que se trata de um senhor de 71 anos. Como um todo, o som do Deep Purple em inFinite é carregado de energia, de momentos contagiantes. Por vezes, o som do grupo pende pro heavy, em certos momentos é mais progressivo. Do início ao fim, “Infinite” nunca chega a cansar o ouvinte ou dar aquela sensação de estar ouvindo a mesma música várias vezes seguidas, o que é muito comum com bandas que estão na ativa há muito tempo.

Por fim, o grupo fecha inFinite com uma grata surpresa: a última faixa é um cover de “Roadhouse Blues”, do Doors, extremamente carregado no blues, que honra a canção original. Com “Infinite”, o Deep Purple faz o público desejar que este não seja o último álbum da banda – mas, se for, é um disco e tanto para se terminar uma carreira.

OUÇA: “Time For Bedlam”, “The Surprising”, “Birds Of Prey”.

Iggy Pop – Post Pop Depression

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Inquieto que é esse tal de Iggy Pop, não é mesmo? O cara tá na ativa da música desde os anos 60 e já trabalhou com gente grande, tipo Tom Waits e David Bowie. Sua carreira ficou conhecido por músicas que se tornaram clássicas, como “Candy” e “Passenger”. Ao longo de sua carreira de 17 álbuns solo e 5 com The Stooges, Pop já adquiriu experiência musical o suficiente pra entrar na cabeça de quem o ouve. Em 2009 ele lançou Préliminares, um álbum redondinho, com pouca distorção na guitarra, bastante sopro e trazia um quê de música latina. Esse era seu último trabalho solo. Já em 2012 ele se mantém nessa de dois pra cá, dois pra lá com seus covers em Après. A pegada de Iggy & The Stooges tinha ficado pra trás até agora. Post Pop Depression é um álbum contemporâneo e com uma pegada mais pesada em comparação aos seus últimos álbuns solo.

Pop contou com a participação de Josh Homme e Dean Fertita do Queens Of The Stone Age e do baterista do Arctic Monkeys Matt Helders para gravar Post Pop Depression. O que incomoda é que Josh Homme simplesmente não consegue colaborar sem deixar o som com cara de Queens Of The Stone Age, alguém explica? Apesar disso, o tema central do álbum é nítidamente sobre Pop e sua carreira, deixando a entender que esse é seu útimo trabalho solo.

Aquele personagem clássico do Iggy Pop no palco – um estadunidense frenético sem camisa com calças apertadas e cabelos longos e loiros – nem sempre é o que imaginamos quando ouvimos um trabalho dele. O cara inquieto do palco é o mesmo cara que tem um trabalho sensato, sarcástico, irônico e coerente no estúdio. Contudo, o personagem do palco é o reflexo do lado rebelde e punk dele. Nesse álbum, as faixas finais “Chocolate Drops” e “Paraguay” sintetizam essa rebeldia.

O dedo de Homme, apesar de egoista e metido, funcionou com Iggy Pop. O disco ficou denso o suficiente pra ser chamado de rock, com solos, peso, distorção e discurso. Tem faixas, como “American Valhalla” e “In The Lobby”, que parecem um QOTSA com participação de Iggy Pop por conta da voz e guitarra de Homme. Apesar disso, como um todo, o disco não perdeu a identidade e qualidade de Pop. Não é monótono, varia de velocidade, tem músicas grudentas que não são chatas, traz a tona um rock novo pro trabalho do Iggy e foi um bom jeito de, possivelmente, terminar sua carreira de estúdio.

Post Pop Depression é um bom álbum de rock pra ouvir durante esse ano de 2016. Acima da média, mas poderia ter tido menos Homme.

OUÇA: “Break Into Your Heart”, “German Days” e “Paraguay”