The Cinematic Orchestra – To Believe



Buscar razões para acreditar olhando e ouvindo ao redor. É nessa premissa que se baseia o novo álbum do grupo de nu jazz The Cinematic Orchestra, To Believe. Era um bom tempo já: fazia 12 anos desde o entristecido Ma Fleur, último álbum completo do grupo liderado por Jason Swinscoe. O resultado da demora é um disco de sete longas faixas (a menor tem pouco mais de cinco minutos), com sonoridade ainda mais introspectiva que trabalhos anteriores, em um caminho bem seguro e fluido…

E acessível. Seja pelas participações nos vocais de nomes como o cantor de soul/folk Moses Sumney e o rapper Roots Manuva, ou mesmo pelas escolhas da produção, muito mais voltada para timbres que flertam com o ambient pop e com um clima mais nublado e morno, algo visível já na capa minimalista.

Há, claro, alguns momentos minimamente mais agitados e percussivos, como na instrumental “Lessons”, mas o predomínio aqui é realmente dos arranjos etéreos. O resultado tem lá suas repetições devido à duração das músicas, mas também traz momentos sublimes. Destaque para as linhas de teclado que dão base a todas as faixas e as cordas, especialmente em “The Workers Of Art”.

Por falar em canto, a despeito do tamanho das faixas, há uma certa urgência radiofônica aqui — e que vai além da já comentada produção. A lírica gira em torno da necessidade de convicção e do companheirismo diante de um mundo repleto de dor; e, por mais que isso pareça batido, não há pieguice em nenhuma das interpretações.

Surge aqui uma trajetória conceitual que se estende desde a faixa-título até “Zero One/This Fantasy”, onde a voz aconchegante de Grey Reverend clama ‘Lay your hands on me / Everyone needs someone to believe’”. E ao final, “A Promise”, vocalizada por Heidi Vogel, encerra pedindo pelo fim da dor. A faixa de 11 minutos (nada enfadonhos, diga-se) apresenta ainda uma das melhores progressões do álbum, da tristeza lenta inicial até um andamento mais rápido com a presença marcante da bateria no encerramento da obra.

To Believe também de certa forma é um disco que também progride positivamente a cada audição. Pode até não ser das obras mais complexas e talvez nem a mais interessante da Orchestra. Contudo, também não é simplório, e guarda detalhes minuciosos para serem percebidos numa tacada só (repare no uso do estéreo, para ficar só em um exemplo). Essas características, junto com uma coesão temática e boas composições, traz um material consistente para um retorno dos cinemáticos.

OUÇA: “The Workers Of Art”, “Zero One/This Fantasy” e “A Promise”

Toro y Moi – Outer Peace


Atrás do nome bilíngue Toro y Moi, está o músico e produtor americano Chazwick Bradley Bundick, conhecido como um dos grandes nomes do movimento chillwave . Mas, se você conhece Chaz Bear também sabe que sua música está sempre mudando de estética, de estilo e até de gênero musical.

Outer Peace é um dos álbuns mais acessíveis de Toro y Moi. Apesar da escuta fácil, a alternância de elementos de house, disco e future-funk o torna inconsistente. Não sabemos onde quer ele chegar. Soa mais com um grande álbum de música ambiente para lugares hipster-cools-techno.

A primeira metade de Outer Peace ainda possui um bom compilado de singles, mesmo que um pouco forçados. Faixas como “Freelance”, “Ordinary Pleasure” e “Laws Of The Universe” possuem uma boa mistura de funk com samples mais digitais, como se fossem grandes representações da sensação de euforia da era digital. Liricamente, a temática digital também está presente. Chaz escreve sobre a dependência tecnológica da sociedade e como ela nos leva a exaustão física e mental.

Em uma recente entrevista, Chaz comenta “Sexo ainda vende? Eu sinto que já vi de tudo, ou talvez eu esteja apenas velho ou talvez eu esteja entediado”. O álbum transparece todas essas opções juntas. Parece que eu também já ouvi essas músicas e fiquei entediada. Mas, talvez, eu também só esteja velha demais.

OUÇA: “Freelance”, “Ordinary Pleasure” e “Laws Of The Universe”

James Blake – Assume Form


Assume Form surge como o quarto álbum de estúdio do cantor e produtor inglês. Em seu último trabalho, Blake permeia o ambiente com seriedade e sentimento, transformando aquilo que é etéreo em som. Por meio do álbum, o cantor externa temas como o próprio ego, amor, luz e insegurança, utilizando as participações de Travis Scott, André 3000, ROSALÍA, Moses Sumney e Metro Boomin para a materialização temática do projeto.

Logo de cara, Blake mostra-se aberto, dialogando diretamente com o público, em uma espécie de divã. Há conversas francas sobre amor, confiança e entrega – e, claro, expectativa, como  em ‘I hope this is the first day, that I connect motion to feeling‘, trecho da faixa homônima. Existe aí anseio em expressar tudo de novo que permeia as sensações, sejam elas físicas ou imateriais.

O álbum possui cerca de 48 minutos de execução, divididos em 12 faixas. Assume Form é tudo aquilo que poderíamos esperar de Blake, com algo a mais. Ainda mais confessionalidade e passionalidade. As batidas transitam entre o que é quase imaterial, portanto, imperceptível, e sua voz captando a atenção do ouvinte para o que deve ser escutado. Blake dialoga graças ao seu magnetismo e identificação, afinal, quem nunca experimentou as sensações do amor?

“Into The Red”, quarta faixa do álbum, é uma grata surpresa, tanto em termos musicais quanto em sua narrativa. Em  sua entrevista para o iTunes, Blake revelou que a música foi feita para uma mulher que gastou tudo o que tinha para lhe dar algo. A ideia, para Blake, quebrou o pressuposto que atribui ao homem a questão financeira, atraindo-o para a ideia de igualdade. Enquanto o cantor narra sua história com a companheira, a melodia, com batidas leves e alegres, o acompanha como se dançasse com suas palavras. “Barefoot In The Park” possui participação da cantora espanhola de  eletro-flamenco ROSALÍA e, apesar dos belos vocais, não oferece nada de novo musicalmente, apresentando uma batida sem componentes singulares e totalmente esquecível.

Outra surpresa, um dos pontos altos do álbum, é a faixa “Where’s The Catch?, com participação de André 3000, rapper e integrante do aclamado duo OutKast, a música trabalha com jogo de palavras cantados por cima de uma batida obscura, onde as rimas de 3000 contrastam diretamente com a voz de Blake, criando uma dinâmica única e magnética, em um fluxo intenso e combinado de sons e rimas. “Lullaby For My Insomniac”, responsável por encerrar o álbum, é a síntese da doçura e expressa promessas genuínas a quem se ama.

O disco, moldado no etéreo e no diálogo, oferece ao ouvinte uma nova perspectiva de Blake, sintetizando sua entrega ao amor e, de certo modo, seu enclausuramento em uma bolha sentimental. Musicalmente, o cantor não oferece algo tão fora do esperado e, na verdade, isso não é ruim. O álbum funciona desta forma e apresenta um bom trabalho, relaxado e tranquilo. Novos ares, talvez?

OUÇA: “Assume Form”, “Where’s The Catch?”, “Into The Red” e “Power On”

Thievery Corporation – Treasures From The Temple


O duo, que ultimamente se transforma em banda, do Thievery Corporation lança seu décimo disco Treasures From The Temple cheio parcerias, como sempre.

Conhecido por suas misturas com música indiana, dub, downtempo, trip-hop, jazz, reggae e até a música brasileira – mais especificamente com aquela bossa nova bem com cara gringa – o duo volta a sua linha mais tradicional, de trabalhar com o reggae e o dub dentro do trip-hop e música eletrônica.

Nos seus álbuns anteriores, e ainda, no seu melhor álbum, o Saudade (2014), a mistura com a música brasileira ficou mais forte e dominou as composições. Uma combinação de sucesso. E que atingiu certo reconhecimento por essas bandas.

Dessa forma, o novo disco era aguardado pelos ouvintes que se formaram. E decepciona. O disco é muito inferior ao Saudade.

As músicas no geral são sempre aquela mesmice cansativa e que não nos desperta vontade alguma de comprar a mídia física, e nem o pensamento de que algum dia o disco terá outra audição. [Inclusive, foi necessária muita paciência para ouvir mais que uma vez.]

São doze canções cansativas, pouco chamativas e que pouco acrescentam. Quando o duo convida letristas do hip-hop para compor as composições o disco toma uma forma melhor, mas quando isso não acontece, o que ouvimos é entediante. “Music to Make You Stagger” é um bom exemplo disso. Logo na terceira faixa já queremos parar de ouvir, mesmo depois da ótima “History”, que justamente conta com a participação de Mr. Lif & Sitali. Mas a agonia é superada pela “Letter To The Editor” com participação da ótima Racquel Jones. E pra sorte do ouvinte, ou do Thievery, muitas são as participações especiais nesse disco. Tornando-o menos chato. “Water Under The Bridge” e “Joy Ride” são outras faixas que devem ser mencionadas.

No entanto, isso mesmo não empolga tanto. O que esse projeto tem de tão chamativo? O que traz de diferente? O lance de ligar várias culturas? Nesse sentido o Transglobal Underground é mais eficiente. Ou se alguém tem vontade de ouvir um projeto de trip-hop ou música eletrônica, projetos como os maravilhosos projetos do Mike Patton, ou quem sabe o N.A.S.A., Haelos, ou um velho Portished ou Massive Attack, até mesmo o mainstream Daft Punk são mais legais.

O que isso quer dizer? É que o Thievery Corporation não empolga praticamente nunca. Só fez isso uma única vez, e foi em 2014.

Brazilian Girls – Let’s Make Love


Eu achei que nunca fosse fazer uma resenha para o Brazilian Girls. Há quase dez anos que a banda lançava o seu terceiro e melhor álbum, o excelente New York City e embarcava numa extensa divulgação do mesmo. Anos passaram e finalmente começamos a ter sinais da banda, mais alguns anos depois e agora temos em nossos ouvidos Let’s Make Love, o quarto disco. E eu estou aqui fazendo a resenha de uma banda que parecia morta há pouco tempo.

Parece que Let’s Make Love, apesar da distância; e do tempo; e do amadurecimento do Brazilian Girls como banda, começa exatamente aonde o New York City parou. Eles ainda estão divertidos, fazendo piadas e contando historietas cheias de picardia aqui e ali, ainda estão misturando uma quantidade gigantesca de ritmos e ainda estão fazendo músicas com uma quantidade ímpar de texturas e nuances, sempre guiadas pela ótima Sabina, vocalista icônica da banda.

Fato é que o Brazilian Girls, apesar de ter seu público fiel e ter sido indicado ao Grammy com o último disco, nunca teve um apelo enorme no meio da música. Seu estilo não é tão acessível até para os fãs mais assíduos da música eletrônica e, às vezes, conseguem beirar um jazz ambient que não faz muito sentido até para quem conhece a banda há um tempo. É difícil de classificá-los numa caixinha dada a sua grande gama de nuances e estilos – e esse é exatamente o diferencial do quarteto. Let’s Make Love é exatamente isso: difícil de ser encaixado em algum rótulo, mas, felizmente e ao contrário dos primeiros álbuns do grupo, de fácil apreciação e digestão – mas eles ainda continuarão sem muito apelo no meio da música.

“Pirates” é a faixa de abertura e já dita o tom do quarto disco: muita alegria e muita celebração por conta do retorno. Conseguimos ver isso claramente em quase todas as faixas e o ritmo de festa e felicidade entoa boa parte das faixas. Até que a banda soube manter o Let’s Make Love coeso e interessante, mas ele é uma verdadeira montanha-russa: ora temos uma faixa incrível como “World Wide Web”, ora vemos uma menos cativante como “Sunny”. Entretanto, vale a pena falar aqui, o Brazilian Girls não faz nenhuma música ruim ou entediante por aqui – eles vão do morno para o excelente em questão de uma faixa ou duas e mantêm esse ritmo muito bem, não fazendo com que o interesse pelo álbum seja perdido ao longo de sua quase uma hora – duração um pouco diferente do habitual nos dias de hoje.

Fatalmente esse álbum não vai aparecer em muitas listas ou menções honrosas por aí como um álbum que revolucionou as paradas, mas é bom ter essa banda e seu preciosismo único de voltas. Eu particularmente acho que essa mescla de ritmos feita de uma maneira tão acessível e que está presente em todo Let’s Make Love fez o retorno do Brazilian Girls ser memorável e muito bom. E o clichê: não demorem para lançar mais um álbum!

OUÇA: “Pirates”, “World Wide Web”, “Let’s Make Love” e “The Critic”

Teen Daze – Themes For A New Earth


Partindo de um bom momento graças ao álbum anterior, o Teen Daze segue inquieto produzindo mais e mais coisa, mudando sua dinâmica costumeira onde o artista tende a transportar seus fãs para todo canto imaginável do planeta ou fora dele, Jamison Isaak resolveu dar continuidade ao que já tinha abordado em Themes For A Dying Earth, seja complementando ou mostrando novas nuances, continua inegável, que mesmo não estando a todo vapor, o moço continua em boa forma.

Themes For A New Earth não é nem de perto uma contraparte de Themes For A Dying Earth, e seria grosseria demais chamá-lo de “sobras” do seu antecessor, até por que há um claro zelo em todas as suas faixas, enquanto no trabalho anterior o Teeon Daze te fazia entrar em harmonia com seus arredores e abraçar seu dia, aqui já há uma quietude bem maior, ainda bem otimista, mas bem mais mansa e introspectiva, se realmente há algum contexto maior em ambas as obras, muito provavelmente devem tratar das passagens estacionais, Dying Earth representando Primavera e Verão, e New Earth Outono e Inverno.

O grande porém do álbum é que diferentemente dos trabalhos anteriores, não acontece uma imersão do ouvinte nas faixas, a experiência com ele não chega a ser rasa, mas rápida demais pra causar um impacto maior. O álbum é mais curto, as faixas são mais curtas, não há mais participações (vocais) e Themes For A New Earth acaba sendo apenas um registro fofo. Mas se tratando de um projeto mais casual e descompromissado com a vida, tudo isso se torna perdoável. Aliás, a qualidade do trabalho em comparação ao pouco tempo entre um lançamento e outro é prova mais do que necessária que Jamison está mais do que capacitado para seu trabalho.

Themes For A New Earth acaba sendo um abraço mais extenso a suas voltas, solidificando a paz de espírito do ouvinte e garantindo uma chance para Jamison recarregar suas baterias (se é que ele de fato precise disso), pra quem já conhece o artista e sentia falta da roupagem mais ambiente e nítida, sem se perder ou se ofuscar com outros componentes, New Earth é uma ótima pedida, tem toda a simplicidade e leveza do mundo a seu lado, seja procurando canções de ninar ou alguma adição para playlist durante estudos ou trabalho, o Teen Daze, como sempre, tem ótimas coisas pra te oferecer!

OUÇA: “On The Edge Of A New Age”, “Kilika” e “Echoes”.

Keep Shelly in Athens – Philokalia


Keep Shelly In Athens é uma dupla de chillwave que está na estrada desde 2010. O primeiro álbum de estúdio foi lançado em 2013. O disco novo, Philokalia, lançado recentemente busca inspiração no Filocália, obra clássica da literatura ortodoxa. A tradução do termo significa “amor à beleza”. A dupla grega de Atenas tem diversos lançamentos nestes 7 anos de trabalho, e a música dos dois cruzou o Atlântico, alcançando um boa recepção na América do Norte.

O som etéreo e espiralante do duo conduz o ouvinte às viagens sonoras que instrumentais cadenciados com os do Keep Shelly In Athens sabem bem encaminhar. Philokalia é construído com bases progressivas e instrumental eletrônico que lembram produções de Teen Daze, Memoryhouse e Work Drugs. Os ritmos de melódicos e exuberantes presentes no novo álbum, delicadas explosões sonoras, além das vozes envoltas em um eletrônico difuso e ecoante, fazem com que a produção Keep Shelly In Athens seja uma entrada acessível no mundo da eletrônica down-tempo.

O lançamento anterior era de 2016, o álbum In Love With Dusk. A dupla trabalha com shoegaze e o art rock em seus lançamentos. A música é envolta em uma atmosfera serena, com indica o lead single do novo álbum, “Leave In Silence”. É fácil se perder no tempo e nos pensamentos com o som delicadamente orquestrado e, por vezes, singelamente opressor (de músicas como “We Want More”) que a Keep Shelly In Athens nos entrega.

OUÇA: “We Want Love”, “Believe” e “Game Over (Daniel’s Scene)”

Washed Out – Mister Mellow

_______________________________________

Mister Mellow difere essencialmente das produções anteriores de Ernest Greene, o nome por trás do projeto Washed Out. Greene iniciou o desenvolvimento de seu trabalho – que hoje chega ao lançamento do terceiro disco -, em 2009.

O artista, que também produz faixas e já associou a grupos como Small Black, decidiu trabalhar com música após a obtenção do grau de mestre em Biblioteconomia e Ciências da Informação pela Universidade de Geórgia (nos Estados Unidos). Os primeiros anos de carreira na indústria foram dedicados à exploração de sua sonoridade e resultaram em três extended plays finalizados entre 2009 e 2010.

Within And Without, o primeiro disco, data de 2011, e nele Washed Out explora bem os sintetizadores. Em 2013 foi quando Washed Out divulgou Paracosm, seu material com maior destaque em termos de mídia e alcance comercial. O disco novo, no entanto, se distancia da sonoridade proposta em Paracosm e Within And Wihtout.

Mister Mellow carrega boas doses de experimentação musical em suas canções, expressas por meio da confusão sonora de músicas como “Burn Out Blues” e “Tittle Card”. O registro mais recente também entrega ao público instrumentais acompanhados de narração e músicas curtas, que funcionam como passagens entre uma canção e outra.

Enquanto Paracosm poderia ser descrito como um álbum eletrônico de faixas apropriadas pra deixar tocando num dia ensolarado e melancolicamente agridoce, Mister Mellow flerta o experimentalismo obscuro e cacofônico, dando outro contorno ao dream pop de Ernest Greene.

Ao mesmo tempo em que são evidentes influências progressivas neste novo material, é possível perceber, também, que o músico se apossou de elementos que fazem referência à disco music e outras vertentes eletrônicas para algumas faixas. Essa mistura de elementos muito contribui para que a sonoridade do álbum possa ser descrita como um tanto angustiante, opressiva em certos termos e carregadas de psicodelia.

OUÇA: “Hard To Say Goodbye”, “Million Miles Away” e “Get Lost”.

Com Truise – Iteration

_______________________________________

Jogo rápido: para quem não sabe, Com Truise é o nome artístico do nova iorquino Seth Haley que está ai fazendo música há dez anos. E sim, o nome é uma brincadeira com o ator Tom Cruise. Com o seu estilo predominantemente synthwave/retrowave, fortemente influenciado por jogos e trilhas sonoras dos anos 80, ele chegou em 2017 com o seu terceiro álbum, o Interation.

Interation é um disco, acima de tudo, tenso. Há um clima bem sombrio em suas construções, que vão te remeter a algo como a trilha sonora de Tron. A variação dos pitches e suas distorções em altissíma resolução criam a trilha perfeita para uma ficção retrofuturista e é aqui que Seth mostra o seu melhor. Em uma tradução literal do release do disco, ele é descrito como o “período em que Seth e sua amante alien passam no planeta Wave 1 antes de fugirem”. E, talvez mesmo sem aceitar essa narrativa, o ouvinte pode se identificar com algo muito próximo a isso.

“…Of Your Fake Dimension” introduz o trabalho com a presença predominante do looping de teclado que se desenvolve em agudos e cria a ambientação geral. “Isostasy”, minha favorita, se mantém com ganchos que elevam os graves predominantes e traz um vocal extremamente distorcido que te faz buscar por alguma explicação semântica para a faixa.

A faixa título, “Interation”, que fecha o disco é a mais agitada do disco: uma balada futurista para aqueles que acreditam que o futuro está um pouco mais longe da Terra. Com uma virada surpreendente em seus últimos minutos, ela fecha o disco em seu ápice sintético.

O trabalho de Seth foi feito para ser escutado linearmente, há uma sequência bem orgânica entre as composições. Irá agradar fãs de ficção cientifica, trilhas sonoras e, é claro, de sintetizadores. A ausência de vocais pode causar um estranhamento, mas não se torna um problema em nenhum momento e se passa despercebida.

OUÇA: “Interation” e “Isostasy”

Blood Orange – Freetown Sound

bloodorange

_______________________________________

right now there are a million black girls just waiting to see someone who looks like them

Devonté Hynes talvez seja um dos nomes mais influentes do mundo da música atual. Um produtor e escritor brilhantes, ele já trabalhou com nomes excepcionais da música mundial, como Florence [and The Machine], Solange Knowles e Kylie Minogue. Blood Orange é sua terceira incursão musical, tendo passado por uma banda breve e outro projeto solo e esse é o terceiro disco do rapaz dentro desse nome. Freetown Sound remete à cidade em que seu pai nasceu na Serra Leoa e é um disco que surgiu no momento certo, sem querer e (in)felizmente.

Shem was a black man, in Africa. if you repeat this fact, they can’t laugh at ya

Freetown Sound funciona muito bem de certo modo e até certo ponto. Hynes aproveita o seu apelo musical crescente – como produtor de uma infinidade de artistas consagrados – para fazer um álbum político e necessário. E nisso ele acerta em cheio e de uma maneira curiosa: incursões e falas empoderadas em meio de suas músicas. São versos sobre, principalmente, feminismo, homofobia e racismo.

I’m sure she’d have to go to bed with him anyway to give him what he wans for her to get what she wants

Tendo crescido numa cidade multicultural [Londres] que não está livre do racismo diário que a comunidade enfrenta, Hynes com certeza tem a mesma propriedade que Kendrick Lamar, Beyoncé ou qualquer outro expoente negro atual para falar sobre essa insurgência homofóbica e racista que devasta o mundo. E é com essa propriedade que Hynes faz letras chocantes e intrigantes como nunca antes tinha feito. É por isso que o disco funciona muito bem até certo ponto: ele acerta muito bem em suas letras-protesto e seus devaneios políticos que acaba deixando de lado uma parte importante que sempre foi bem cuidada em seus outros discos: a musicalidade.

Dentro dessa musicalidade é interessante observar dois pontos essenciais para entender até onde o álbum é bom.

a) A voz marcante de Hynes fica apagada em boa parte das músicas. E isso é um erro imperdoável para isso tudo que ele quer fazer aqui. Se Devonté queria dar voz para seus versos de protesto, tinha que aproveitar melhor esse poder inegável que suas cordas vocais têm (isso pode ser visto claramente em músicas do Coastal Grooves, seu primeiro álbum como Blood Orange, ou em Falling Off The Lavender Bridge, o debut do seu outro projeto Lightspeed Champion) e inflamar melhor suas atitudes que demonstram claramente o cansaço com todo esse levante da direita. Talvez isso tudo aconteça porque Hynes conta com participações ilustres em suas músicas (como Samantha Urbani fez em algumas do Cupid Deluxe) e acabe deixando seu protagonismo meio de lado (como também o fez no álbum anterior).

b) As batidas, com uma inspiração clara de Michael Jackson e expoentes clássicos da música negra antiga, funciona de forma sensual e, por alguns momentos, cativante. Mas não casa muito bem aqui. Hynes fez um álbum inflamado com uma pegada musical calma e sensual. O que deveria funcionar como algo que junte essas duas coisas que nãos e misturam de jeito nenhum numa emulsão perfeita é bem instável e não funciona bem.

don’t shoot!

No fim, Freetown Sound é um disco respeitoso para as minorias por aí, um disco com excelentes letras e pensamentos de protesto e uma boa homenagem ao pai de Devonté, mas falha homericamente ao tentar juntar boa música nesse processo musical todo. A variedade instrumental parece deixar o disco bem perdido no espaço-tempo e serve apenas para Hynes resgatar influências negras que, até então, não tinha utilizado em seus projetos. Parece ter sido um crescimento enquanto artista, enquanto escritor, mas um retrocesso e confusão na sua capacidade de casar isso tudo de maneira bem amarrada. Freetown Sound tira o brilho do que há de melhor no Blood Orange: ele mesmo.

yeah, man, c’mon, all the nonsense got to cease

OUÇA: “Best To You”, “Juicy 1-4” e “Better Than Me”