Richard Ashcroft – Natural Rebel


Depois do desastroso These People (2016), o ex-vocalista do The Verve volta à essência dos seus primeiros trabalhos e lança o Natural Rebel.

Assim como no início da carreira, o novo disco tem aquela pegada dos compositores das anos 90: muitas músicas puxadas pro folk, outras pra um rock com maior levada, etc. Sendo assim, Ashcroft faz direito quando aposta naquilo que sabe bem, mesmo tendo saído de uma banda que era no começo um shoegaze.

Natural Rebel é exatamente isso: um ótimo disco para acordar ouvindo, cheio de canções mais do mesmo, mas que grudam na cabeça. Como vivo dizendo, às vezes é disso que precisamos.

“All My Dreams” e “Streets Of Amsterdam” são bem a cara desse compositor, músicas lindas. As mais puxadas pro rock ficam com “Born To Be Strangers” e “That’s When I Feel It”. E o destaque vai para “A Man In Motion”: Richard sempre manda bem em músicas em que expõe o seu interior – ‘I can deal with the pain as long as we keep on driving’ – divino maravilhoso. E o disco termina com “Money Money”, que é a outra mais do rock, nos fazendo repensar tudo aquilo que ouvimos, que é o mais do mesmo do disco.

Quando não ousa, Richard Ashcroft não erra. Isso o bota em dúvida muitas coisas enquanto artista. No entanto, é um disco coeso e gostoso de ouvir.

OUÇA: “All My Dreams”, “Born To Be Strangers” e “A Man In Motion”.

Tom Odell – Jubilee Road


Jubilee Road, novo disco do britânico Tom Odell, é mais uma boa adição à nova onda do britpop. Aprimorando sua tendência ao tipo de baladas pop sentimentais que levou seu mentor Elton John à fama, o cantor marca seu espaço como uma voz distinta entre seus contemporâneos.

Porém, se lhe falta a ousadia e a presença de Elton John que tornaram baladas como “Tiny Dancer” em fenômenos românticos de escala global, Odell tenta compensar com composições honestas e, por isso, emotivas. O disco soa incrivelmente intimista e as composições se dedicam a temas da vida cotidiana, o que faz com que o trabalho de Odell pareça familiar de uma maneira positiva. Ao optar por essa abordagem simples e despida, é possível apreciar o maior trunfo do cantor: sua poderosa potência vocal.

As faixas são, em sua maioria, alegres e agradáveis de ouvir, mesmo que não seja uma alegria contagiante (como o conterrâneo George Ezra faz em “Shotgun”). Mesmo nos minutos mais tristes, Odell parece não conseguir abraçar totalmente a melancolia que algumas das canções exigem. Pode ser frustrante ver  que emoções mais intensas são evitadas a todo custo. O momento em que Tom chega mais perto da explosão sentimental que se espera de seu tipo de canção voz-e-piano é na excelente “If You Wanna Love Somebody”.

Além disso, as dez faixas são longas demais. Todas têm um pouco mais ou um pouco menos do que quatro minutos – com exceção da faixa de abertura, que aperta o relógio com injustificáveis 5 minutos. Como são composições simples que se sustentam basicamente pela voz de Odell, essa duração faz com que ouvir o disco seja cansativo.

Jubilee Road é um bom disco. Se compromete ao revival do sentimentalismo britânico e não há uma canção que possa ser classificada como entediante, chata ou ruim: há uma consistência admirável. Odell precisa, no entanto, se entregar de forma mais aberta a esse sentimento que aparenta ser a força-motriz de suas composições.

OUÇA: “If You Wanna Love Somebody”, “You’re Gonna Break My Heart” e “Queen Of Diamonds”

Paul Weller – True Meanings


Poucos compositores tem uma carreira sólida e impecável – muito por causa da vontade de inovar, adentrar em novos nichos de mercado ou simplesmente por querer ir por outros estilos e nisso tudo errar ou se desvirtuar – ainda mais depois de muito tempo estrada. Paul Weller, que está na música há mais de 40 anos, consegue isso e sem sair dos trilhos. Ele tem uma carreira impecável.

Sua sólida discografia nunca decepciona. Em alguns momentos ele tenta voltar para a sua origem, o maravilhoso The Jam, usando muito mais das guitarras e músicas urgentes. Em outros, flerta mais com seu antigo projeto – daquele balaio de gato que chamaram de New Wave – The Style Council, indo mais para uma mistura de elementos e texturas musicais, e adentrando quase num fusion. Mas nunca deixando de lado a veia certeira de todas as melodias bem casadas e com um certo toque pop. Tudo bem pensado e repleto de sentimentos verdadeiros extravasados.

Apesar da trajetória já dita impecável, não podemos dizer que tudo são orquídeas. O início de sua carreira solo é o que Weller tem de melhor. Seus primeiros quatro discos são obrigatórios para quem gosta de música. Ouça sem moderação. Vicie-se.

Mas, indo ao que interessa, True Meanings é assim: um lindo disco, com tudo conectado, timbres inspiradores, mais puxado pro folk e com letras que saem do âmago, para ajudar-nos nesse mundo de cabeça pra baixo em que os sentimentais se sentem desolados.

Todas as músicas abusam de camadas de guitarras, violões, violinos, contrabaixos, entre outros, bem colocados. Os timbres sensacionais estão em “Mayfly”, que vem junto com passarinhos cantando, deixando mais onírico. O violão e a sinceridade folk está permeando todo o disco, mas destacam-se “Wishing Well”, “Come Along”, “Moving On” e “Gravity”. Estas duas últimas são os singles lançados. Deve-se mencionar que o arranjo de cordas está incrível aqui.

Porém, o arranjo mais lindo de todos está em “Books”. Violinos, violoncelos, cítaras, violão. Duas vozes lindas, junto com a de Weller, a de Lucy Rose. A letra então… Os questionamentos desses dias estão todos aqui.

O grande destaque vai para “Aspects”. Como que esse homem consegue lançar uma música linda dessas? Depois de ter lançado tantas? Depois de 40 anos de carreira? Ele mesmo diz: nada é impossível, tudo está dentro de nós, em nosso interior estão todas as respostas, é onde conseguiremos encontrar os padrões, as conexões e tudo o de mais bonito possível que nos faz continuar tentando.

Não é o melhor disco da carreira. No entanto, é o que precisamos ouvir em um momento tão doloroso como esse que estamos vivendo, em que tudo está distorcido e revirado, dando a impressão nos piores dias de que as esperanças estão sendo jogadas no ralo.

OUÇA: “Aspects”, “Gravity” e “Wishing Well”

Suede – The Blue Hour


Em 2014, o escritor paulistano Santiago Nazarian, um dos nomes mais expressivos da literatura brasileira contemporânea, publicou Biofobia, romance que narra a história de André, um roqueiro decadente de meia-idade que, depois de todos os excessos químicos e etílicos da década de 90, e ao invés de se alinhar às pulsões conservadoras intestinais dessa segunda década de 2000 que assombram o país, volta para a casa da mãe, uma escritora que acabou de cometer suicídio. Em uma prosa modulada e ao mesmo tempo, fluída, Santiago desloca sua figura de escritor para a mãe morta e relata os acontecimentos bizarros a la Stephen King que acontecem com André durante o final de semana.

No início do romance, o narrador descreve o protagonista: “Uma viagem de sessenta minutos, de ônibus. Daí descia na estrada, quilômetro 59, e subia a pé por dois quilômetros de terra. Mochila nas costas. Tênis gastos nos pés. Camiseta do Suede. Indo para a casa da mãe. A mãe se escondia. Dificultava as coisas para quem não tinha carro, como o próprio filho.”

A referência ao Suede no livro do Santiago Nazarian (que aliás é grande fã da banda), é o mote para falarmos do oitavo álbum da banda inglesa, The Blue Hour. Como o protagonista André, o Suede retornou meio cansado à cena depois de um hiato de dez anos, interrompido com o lançamento de Bloodsports, em 2013, e posteriormente Night Thoughts (que o resenhista que vos fala ouviu e achou boring, apesar de muito bem construído).

O Suede sempre foi uma banda à margem do brit-pop que tomou conta das rádios inglesas na década de 90. Diferentemente do pop debochado e irônico da classe média inglesa feito pelo Blur, das canções épicas e majestosas do Oasis pré Brexit ou do cabeçudo Pulp, a banda sempre optou por uma sonoridade menos solar, mais subterrânea, angustiante, flertando com o industrial, um shoegaze discreto e o glam da década de 70. The Blue Hour aparece então ainda nessa perspectiva de retomada, e parece mais interessado na construção de belas melodias (“Mistress”), do que na simples instauração de uma atmosfera penumbrosa, claustrofóbica, marca da sonoridade da banda. Ela persiste, claro, mas agora parece ter várias nuances.

Assim, o dramático prólogo “As one” abre o álbum, com seus riffs, vocais e corais soturnos carmina buranescos crescendo em intensidade, sendo seguido pela linda e assoviável “Wastelands”, a faixa mais palatável do álbum. “Chalk circles” (“círculos de giz”, na tradução, mas nenhuma referência aparente ao Círculo de giz caucasiano de Brecht), com sua parede de teclados, se transforma em um canto gótico sobre uma batida marcial que se quebra repentinamente (lembra o que eu já ouvi de Einstürzende Neubauten). A balada “Life is golden” é a mais brit-pop e noventista de todas, e de alguma forma suaviza o o vocal sorumbático de Brett Anderson. O álbum melhora a partir da segunda metade, e vai ficando mais melódico e palatável, com orquestrações panorâmicas que trazem densidade às faixas, como “The invisibles”, cuja introdução e arranjos remete ao trabalho de Craig Armstrong. O álbum termina com a bela “Flytipping”.

The Blue Hour é um bom álbum, denso, emocional, que talvez peque pelo excesso de material (são 14 faixas). Talvez não agrade os fãs crackudos do Suede (olá, Santiago), mas a banda continua relevante e fazendo bons discos.

OUÇA: “Wastelands”, “Mistress”, “Life Is Golden”, “Tides”, “Flytipping”.

Miles Kane – Coup De Grace


O doce menino inglês, que já não é tão mais menino assim, chega ao auge de seus 32 anos lançando o seu terceiro disco em carreira solo. Coup De Grace mostra um retorno necessário ao britpop e ao começo da carreira solo do cantor quando ele tinha só 25 anos. A energia do álbum, que se apoia em guitarras certeiras, solos impressionantes e uma inteligência para compor músicas de fácil digestão, é surpreendentemente contagiante e mostra que a juventude pode começar a não aparecer mais nos números, mas, sim, volta a aparecer com todo o gás em sua música.

Miles Kane retorna depois de cinco longos anos com Coup De Grace, que aparece depois de dois álbuns bastante sem-graça: o seu próprio segundo registro solo, lá de 2013; e o último do The Last Shadow Puppets, lançado em 2016. Felizmente, esse disco consegue resgatar muito bem e com bastante sucesso o Kane que conseguiu segurar uma boa parcela de seu público fiel depois de fazer uma dobradinha de lançamentos no final da década passada. Logo após o estrondoso sucesso da sua parceria com Alex Turner, Miles não foi bobo e aproveitou para lançar o seu primeiro registro de estúdio, chamando bastante atenção para seu rock clássico, pitoresco e sua voz interessante, que agora era a única protagonista.

Aqui em Coup De Grace, ao contrário do álbum anterior, Kane mantém uma pose mais séria, mais bem acertada e mostra para o que veio; consegue não fugir muito do clássico do seu estilo (mostrado com gosto em Colour Of The Trap, 2011) e do clássico do rock inglês: dá um toque de memória àquelas músicas antigas do The Who, do Beatles, do The Animals e até mesmo dos Stones, fazendo poucas firulas e tocando muita guitarra em cima de tudo isso. O rapaz aposta também em solos de guitarra, que são muito raros hoje em dia, e repetições de palavras-chave, para fazer valer sua quase-gritaria, em músicas como a própria faixa-título e a acelerada “Silverscreen”.

É bonito ver que o Miles Kane está trilhando sua carreira de maneira a ser o herdeiro do trono da Inglaterra quando se fala de música, no futuro. Sua carreira solo depois do The Rascals e acompanhada de perto pelo The Last Shadow Puppets, seu projeto mais conhecido e em parceria com o Alex Turner, guina de uma maneira interessante nesse terceiro álbum, marcando o rapaz como um dos nomes mais interessantes da cena local que ainda sobrevive do britpop e do clássico indie rock.

Coup De Grace faz justiça ao seu nome, é uma ótima adição à discografia do britânico e mostra uma recarga interessante das baterias da carreira do músico, que volta de um poço que parecia quase sem fundo. A rapidez das guitarras nas horas certas, momentos para palminha e batidinhas do pé no ritmo, além de uma calmaria em horas necessárias, mostram a inteligência e a maestria de Miles Kane em fazer música. Agora boa e de qualidade.

OUÇA: “Too Little Too Late”, “Cold Light Of The Day” e “Something To Rely On”

Manic Street Preachers – Resistance Is Futile


Sendo um ponto fora da curva no movimento de onde surgiram, Manic Street Preachers se diferenciava de outras bandas do Britpop pelas suas letras catárticas, ácidas e carregadas politicamente, e pela forte influência do hard rock dos anos 80 na sua atitude e sonoridade. Porém, com o desaparecimento de seu principal compositor Richey Edwards em 1995, a banda começou a flertar lentamente com elementos mais grandiosos, até chegar de vez ao mainstream com o This Is My Truth Tell Me Yours. Desde então, a banda passa por altos (Journal For Plague Lovers, Futurology) e baixos (Know Your Enemy, Lifeblood) e, infelizmente, Resistance Is Futile faz parte do segundo grupo.

Enquanto no último álbum (Futurology) a banda experimentou com elementos de new wave que casaram bem com o som mais pop que eles propuseram nos últimos 15 anos e rejuvenesceu sua sonoridade, aqui ao invés de progredir com novas propostas e ir mais fundo nessas novas dinâmicas o grupo sofre uma regressão tremenda na forma de entregar essa acessibilidade com uma base instrumental presa ao hard rock radiofônico, pitadas de orquestra e melodias clichés que, juntos, acabam tornando o trabalho intragável.  Esse retrocesso se manifesta em músicas como “International Blue” e “Vivian”, que trazem refrões e guitarras tão cafonas que ninguém ficaria surpreso se na verdade fossem covers de baladas não lançadas de bandas de glam metal dos anos 80.

Além disso, os comentários políticos que eram marca registrada das canções do trio anteriormente, aqui são dispersos, fracos e ultrapassados, provenientes de um discurso exaustivamente repetido não só pela própria banda, como também por qualquer banda punk de garagem que tenta ser “revolucionária” e “rebelde”.  O problema é que essa atitude não encaixa com outros momentos mais pessoais ou cotidianos que o álbum tenta passar, e muito menos com a sonoridade ultrapassada e a composição preguiçosa que torna diversas partes desse álbum enfadonhas.

Todo o apelo do Manic Street Preachers consistia em seu mix balanceado de sensibilidade pop e revolta, seja lá de qual tipo fosse. E mesmo que faça alguns bons anos que não há destaque para essa visceralidade, pelo menos a banda vinha andando por caminhos onde a evolução das suas concepções musicais era algo interessante de se acompanhar. Mas agora, basicamente jogaram tudo que afirmava essa justificativa pro alto.

OUÇA: “Broken Algorithms”

The Wombats – Beautiful People Will Ruin Your Life


Quando você está acostumado com álbuns excelentes vindos de uma banda, com um trabalho bastante dedicado para sair algo incrível para ser apreciado por você, as suas expectativas acabam indo para o alto, automaticamente e sem você querer. Basta apenas ler que determinada banda lançará um álbum em breve (ou até mesmo se preparando para), que seu cérebro já sabe: vai ser bom. Independente de você ter ouvido singles, ter lido notícias, visto fotos ou clipes; ou consumido qualquer outro material relacionado ao lançamento do futuro disco Pois é, esse sentimento pode acabar se provando, às vezes, um grande tiro no pé.

O The Wombats acaba sendo um ótimo exemplo do que eu explicitei no páragrafo anterior. Acompanhando a carreira dos Wombats desde o comecinho lá em 2007, sempre estive acostumado com discos simples, mas excelentes em sua humildade. Um material muito bem trabalhado, com músicas que se conversavam muito bem entre si e ritmos excelentes. Álbuns simples, mas tão cheios de significado e conteúdo, que acabavam ficando ricos em sua beleza. Beautiful People Will Ruin Your Life, quarto álbum dos ingleses, acaba por quebrar um pouco esse encanto.

Esse álbum é mais calmo e acústico do que os anteriores – isso não é ruim. Os sintetizadores foram aposentados e aqui predominam a percussão mais calma e o violão (como em “Lethal Combination” e o primeiro single, “Lemon To A Knife Fight”), além de algumas guitarras reverberando aqui e acolá (como o solo de “Dip You In Honey”) que são todos elementos bastante novos para as músicas mais conhecidas deles. Eles arriscaram dar uma mudada bem de leve em seu som e isso acaba deixando uma impressão meio estranha – algo de errado não está certo aqui!. O Wombats acabou de mexer bem pouquinho em sua fórmula de sucesso, fugir bem pouquinho de sua zona de conforto e acabou entregando um disco que é agradável, mas também, bem pouquinho.

O trio nunca teve letras e harmonias elaboradas demais (apesar de suas metáforas ótimas), jogos de instrumento mirabolantes e sacadas geniais não é com eles; e sempre foi nessa simplicidade que eles acabavam conquistando os nossos ouvidos – não é a toa que os três álbuns anteriores sempre apareceram por aí nas listas de melhores álbuns do ano. Muito melhor um arroz e feijão bem feito do que um prato de cozinha gourmet super enfeitado que não supre o que você precisa, certo? Pois é. A fórmula deu certo muito bem até então, mas aqui parece que faltou tempero e aquecimento na entrega desse prato e o Wombats, ao esquecer o sal e um pouco de sua animação, deixa suas músicas um pouco sem graças, bastante cansativas e repetitivas.

No fim das contas, Beautiful People Will Ruin Your Life é uma bela surpresa, mas de maneira não tão boa quanto a gente esperava – e de maneira automática, aquela que o cérebro faz por associação: álbuns bons, continuarão bons. É mais um lembrete e choque de realidade que até mesmo essas bandas mais redondinhas e com carreiras impecáveis conseguem escorregar e lançar deslizes de vez em quando, normal, faz parte do jogo. Esse quarto álbum não é tão ruim quanto eu possa estar fazendo parecer ao escrever tudo isso, mas é morno e insosso, como eu mesmo disse anteriormente e é esse o ponto: não crie expectativas, mesmo que elas sejam automáticas.

OUÇA: “Lemon To A Knife Fight”, “Black Flamingo” e “White Eyes”

Noel Gallagher’s High Flying Birds – Who Built The Moon?


“Não, isso soa muito como Oasis. Faça diferente.” disse, durante as gravações, David Holmes, produtor do terceiro álbum de estúdio de Noel Gallagher’s High Flying Birds. O pedido foi atendido. Em seu novo trabalho, Noel vai em direção oposta à de seu irmão e busca por estradas distantes e inexploradas com Who Built The Moon?, fazendo uma mistura de música psicodélica com diversos arranjos eletrônicos. Mas, por mais diferente que seja o rumo que sua carreira está tomando, Noel ainda compõe como Noel, e ele está no auge.

O álbum é aberto com a impetuosa “Fort Knox”. Inspirada em Kanye West, a canção apresenta um instrumental rápido com batidas envolventes e percussão pesada. Esses são os alicerces que irão assentar a audição, indiciando a atmosfera do disco. Logo no início podemos perceber que Who Built The Moon? é diferente de tudo que o Gallagher mais velho já fez. Há diversos elementos do dance dos anos 80, em uma fusão com a psicodelia caótica dos anos 70. O disco pode ser considerado uma amostra completamente futurista daquela época, assim como da época atual em que ele está inserido.

Noel assegurou em algumas entrevistas que este não é um disco de rock. A intenção dele era criar algo diferente e que fugisse de tudo que já criou em sua carreira. Who Built The Moon? não foi feito para agradar seus fãs, e sim para representar seu momento atual de evolução musical. Ao declarar isso, Noel se desvencilhou de amarras profundas, atingindo o ápice de sua liberdade criativa para tentar fazer qualquer coisa. E, meio sem querer, sem distorções ou solos de guitarra, acabou criando o álbum mais rock & roll deste ano.

O disco, em geral, é pulsante e animado. Mas, na reta final, a primeira parte de “Interlude” muda o tom da audição e nos insere em uma viagem caleidoscópica com uma sonoridade etérea e densa. A canção cria o terreno ideal para a faixa título do disco, “The Man Who Built The Moon”. Riffs pesados, vocais arrogantes e forte carga dramática na produção fazem dessa uma das canções mais marcantes do trabalho. Em seguida, a segunda parte do interlúdio – “End Credits” – começa a tocar, prenunciando o fim do álbum.

No entanto, após o suposto encerramento, uma nova faixa se inicia. Ela convenientemente começa com a frase: “Gonna do it once more. Have we got time? Ok”. Voz, violão e um piano improvisado começam a se fazer ouvir e mais uma vez somos transportados através do tempo, só que dessa vez, para os anos 90. Extremamente intimista, “Dead In The Water”, faixa bônus do disco, foi gravada sem que o próprio Noel soubesse, enquanto tocava pela primeira vez em um estúdio, em Dublin. Ironicamente, ela vai contra todo o propósito do álbum, pelo fato de não ter uma produção grandiosa como o restante das canções e, também, por possuir a simplicidade melódica do Oasis de 20 anos atrás.

Com viagens temporais através de várias décadas, chegando a atingir até mesmo o futuro, Noel Gallagher se reinventou. Invés de seguir a fórmula que o colocou no topo do mundo uma vez, resolveu arriscar coisas novas. Com Who Built The Moon?, o músico mostrou que sua capacidade criativa vai além de seus antigos sucessos, sendo capaz de lançar novos hits em estilos totalmente diferentes.

OUÇA: “Keep On Reaching”, “Be Careful What You Wish For”, “The Man Who Built The Moon” e “Dead In The Water”

Viva Brother – II


Lembro que escutei o som do Viva Brother pela primeira vez 2012, sem criar grandes vínculos com a banda. Por um tempão fiquei com “Darling Buds Of May” na cabeça, mas nunca fui muito além disso. Naquela época eu não me ligava muito em acompanhar bandas por álbuns, muito menos em ler resenhas de álbuns escritas em NME, Spin e Pitchforks da vida.

Em 2017, votei pra resenhar o Viva Brother numa proposta de ouvir o primeiro álbum direito e entender melhor qual era a da banda pra além do hit de 2011. Embora o II, lançado depois de um período de separação da banda, demonstre avanços consideráveis em relação ao Famous First Words, segue a fórmula de ser uma releitura sem grandes novidades do que foi o britpop do Pulp e Blur.

II não recebeu atenção de praticamente nenhum veículo de música. Depois de Famous First Words conseguir ser classificado abaixo de 3 de 10 pontos no Pitchfork, II sequer ganhou resenhas. A NME também escolheu ignorar a tentativa de reunião dos ingleses de Slough.

Com 11 músicas em sua maioria curtas em uma pegada ainda bem firme de britpop, II não traz novidades, nem grandes hits: a mais tocada do Spotify, “Bastardo”, mal passa os 75 mil streams. As outras mais ouvidas mal batem os 10 mil streams. Não que a popularidade necessariamente indique que uma banda é boa ou ruim, mas, para a proposta de um rock acessível, faz sentido que ele seja minimamente acessado. Nesse sentido, II deixa a desejar: não tem a inovação musical que justificaria a impopularidade e não faz o sucesso que justificaria a fórmula cansada do rock britânico do fim do século passado.

Com uma fórmula batida e uma composição geral bem genérica, o melhor é fingir que a reunião do Viva Brother não aconteceu e focar nas outras (muitas) coisas legais lançadas em 2017.

OUÇA: “Womankind”. É divertidinha.

Stereophonics – Scream Above The Sounds


Com Scream Above The Sounds, os britânicos do Stereophonics chegam a seu décimo álbum de estúdio. São 25 anos de carreira, e boa parte do álbum soa como o grupo revisitando notas e arranjos que fizeram parte da história da banda. Na maior parte desses momentos, o bom e velho “feijão com arroz” funciona, como nas duas canções iniciais do disco. Como é usual, a voz de Kelly Jones nunca falha em atrair a atenção do ouvinte; é um voz, assim como “Caught By The Wind”, a música que abre o álbum, extremamente radiofônica, que faz o ouvinte cantar junto sem muito esforço.

Mas não é só de receitas já testadas e aprovadas que Scream Above The Sounds é feito. Há canções que trazem a banda tentando coisas novas, que fogem do stadium rock normalmente apresentado pelo Stereophonics. Essas tentativas, embora não resultem em obras-primas, mostram que mesmo com um quarto de século de estrada, a banda tem capacidade de inovar e fazer essas mudanças funcionarem.

Em termos de letras, o décimo disco do grupo britânico, de forma geral, não demonstra as sacadas legais de obras mais antigas. Porém, o álbum é mais inventivo – e realmente emociona – quando Kelly Jones canta para Stuart Cable, o baterista original da banda, que morreu em 2010. Em “Before Anyone Knew Our Name”, que acaba sendo o ponto alto do álbum, Jones canta “I miss you, man”, e é evidente a sinceridade por trás do verso.

OUÇA: “What’s All The Fuss About”, “Before Anyone Knew Our Name” e “All In One Night”.