Greta Van Fleet – Anthem Of The Peaceful Army


Desde que surgiu para o grande público com seu EP de 2017 – From The Fires– a banda Greta Van Fleet tem causado alvoroço: seja por seu estilo cru de fazer Rock ‘n’Roll ou sua promessa como salvador do Rock atual, mas principalmente por ser comparado constantemente com uma das maiores bandas de todos os tempos: o Led Zeppelin. É clara a influência da banda inglesa nos jovens de Frankenmuth, Michigan – embora o guitarrista Jake Kiszka tenha declarado que as semelhanças são inconscientes e que o Led Zeppelin não é uma influência tão grande nas composições. “From The Fires” traz músicas como “Safari Song” que trazem claramente o estilo de compor de Jimmy Page e a maneira de cantar de Robert Plant. Entretanto, em seu disco de estreia – Anthem Of The Peaceful Army – a banda tenta se distanciar dessas semelhanças para começar a encontrar seu próprio som.

A primeira música do disco, “Age Of Man” já mostra esse distanciamento, trazendo influências de bandas como Rush e Yes, mas principalmente mostrando a capacidade de composição da banda, que já começa aqui a mostrar sua criatividade e originalidade. “When The Curtain Falls”, primeiro single do disco, que tem um lindo videoclipe e rendeu uma apresentação no programa The Tonight Show com Jimmy Fallon, traz elementos setentistas muito fortes marcados por riffs de guitarra e linhas pesadas de baixo. A voz de Josh Kiszka domina o disco, ora extremamente agressiva com drives e tons altos, ora mais tranquila e limpa.

“You’re The One” traz essa voz limpa e bela combinada com corais, violões e teclados e, junto com “Anthem”, são as baladas do disco. “Brave New World” é uma das melhores faixas do álbum, trazendo de volta os riffs de guitarra e uma pegada um pouco mais pesada, embora seja uma canção relativamente calma. A faixa “Lover, Leaver (Taker, Believer)” finaliza o disco e é uma versão estendida de outra música do meio do disco e a banda faz uma versão ao vivo dela de cerca de 23 minutos de improvisos, trazendo de novo a influência clara do Led Zeppelin.

Anthem Of The Peaceful Army é um excelente disco de estreia, principalmente para uma banda tão jovem e com influências tão marcantes. O Greta Van Fleet tem o potencial para mostrar o rock clássico para jovens que não são familiarizados com bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, entre outras. Entretanto, tem principalmente o potencial de fazer seu próprio nome no rock’n’roll, desenvolvendo mais o estilo original que mostra em faixas do disco de estreia e talvez influenciar minimamente bandas jovens a apostar num estilo mais clássico de fazer rock, o que faz muita falta hoje em dia.

OUÇA: “Age Of Man”, “When The Curtain Falls”, “You’re The One”, “Brave New World” e “Lover, Leaver (Taker, Believer)” (principalmente a versão ao vivo).

Jack White – Boarding House Reach


Jack White sempre foi conhecido por inovação. Desde ser frontman de uma banda sem baixo e ainda assim criar o riff de baixo mais famoso de todos os tempos, ser baterista de outra, criar um selo que trabalha de maneiras completamente analógicas, até sua carreira solo – com diversos integrantes tocando diversos instrumentos. Carreira solo que, segundo o próprio Jack White, é o como o White Stripes soaria se voltasse a tocar hoje. Mas é muito maior que isso, pois mostra como a mente de White trabalha, mostrando – a cada disco – influências diferentes em sua peculiar visão. Seguindo essa linha, em 2018, lançou seu terceiro disco da carreira solo – Boarding House Reach. 

O disco se inicia com a excelente “Connected By Love”, bem similar ao estilo dos álbuns anteriores e quase completamente analógicos de White, mas já trazendo alguns efeitos digitais – o grande diferencial desse disco. A partir de “Corporation”, terceira faixa do disco, trazendo mais de três minutos de instrumental, o lado experimental começa a aflorar. “Hypermisophoniac” é a que mais abraça a proposta do álbum, tendo sido feita para com a ajuda de instrumentos de brinquedo para soar propositalmente estranha. “Over And Over” traz de volta o estilo clássico de Jack White, com os característicos riffs e solos de guitarra e os corais femininos. Entretanto, “Respect Commander” traz de volta o ar experimental, fazendo o disco parecer uma montanha russa de maneira proposital.

Pode-se dizer que Boarding House Reach é o disco mais experimental de toda a carreira de White, onde ele segue caminhos que seguira previamente, mas principalmente se aventura em caminhos opostos ao seguro, mostrando faixas que podem confundir quando ouvidas sem o contexto do álbum – mas sem faltar em qualidade e mantendo sempre a assinatura pitoresca do artista.

OUÇA: “Connected By Love”, “Corporation”, “Hypermisophoniac” e “Over And Over”

Chris Robinson Brotherhood – Barefoot In The Head


Antes mesmo do Black Crowes anunciar um hiato em 2013, Chris Robinson montou o seu projeto paralelo: Chris Robinson Brotherhood, em 2011. E nesta banda ele continua desde que sua banda antiga (ou seja, ele e Rich Robinson – seu irmão) se desentenderam e resolveram anunciar o final. Deixando, com certeza, muitos fãs desapontados.

O que muitos não sabem é que Chris Robinson sem seu irmão é igualmente incrível sonoramente. Ambas as bandas tem discos impecáveis. Sempre com um southern rock muito rico – equilibrado com a gama de estilos e ritmos que esse subgênero do rock abriga: blues, soul, folk, country, tudo junto e misturado da melhor forma. Concluindo: Chris ainda faz o que o Black Crowes vinha construindo nos últimos lançamentos.

A banda começou em 2011, e lançou em julho o seu sexto trabalho, o Barefoot In The Head – que contém o caldeirão musical citado. São dez faixas repletas de instrumentos bem casados, harmonias deliciosas e melodias sensacionais, e claro, a voz com fundinho rasgada do Chris – que é um quase-gênio das composições.

Nesse disco curto – tem um pouco mais que 40 minutos – percebe-se que há um maior flerte com o country rock do que com os outros estilos, prova disso são as faixas “She Shares My Blanket”, “High Is Not The Top”, “Blonde Light Of Morning” – com certeza um dos pontos altos do disco, principalmente aquela slide guitar bem característica no fundo. No entanto, o soul/funk já aparece logo no início com “Behold The Seer”. Assim como deve ser mencionado a presença de uma linda cítara na linda (meio folk) “Glow”.

Na faixa “Hark, The Herald Hermit Speaks”, Robinson tenta emular uma espécie de locutor que fala de forma meio ritmada, algo entre Bob Dylan e um rapper, e que com certeza é a pior faixa do disco – todavia, o instrumental não deixa de ser bom, embora esteja estragado. E há ainda uma variaçãozinha que contempla um pouco de jazz em “Blue Star Woman”.

Mostrando o quanto Chris Robinson é criativo e hiperativo, mas nunca sem perder a qualidade. Muito embora, quem acompanhe sua carreira percebe que a habilidade de criar hits e músicas que grudam na cabeça diminuiu drasticamente. Os três primeiros discos do Black Crowes comprovam isso. E deve-se ressaltar que seus álbuns anteriores dessa nova etapa do artista são muito superiores – qualquer dia ouça o primeiro, The Magic Door, e os subsequentes Big Moon Ritual e Phosphorescent Harvest. Esses sim são encantadores e provam o potencial de Robinson.

OUÇA: “Behold The Seer”, “Blonde Light Of Morning” e “Glow”.

Benjamin Booker – Witness

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Os primeiros sons de guitarra cheios de reverb no início do álbum criam uma atmosfera para entrar na nova fase de Benjamin Booker já no clima de mudanças. O bluesman da voz rouca e sussurrada que subiu rápido ao sucesso (com conselheiros/parceiros fortes como Jack White nos primeiros momentos e Mavis Staples no novo álbum) mostra que está pronto para defender o espaço do blues e do soul na atualidade.

Ao ouvir o novo projeto de Booker pela primeira vez, o fantasma de Sound And Color pairou sobre minhas opiniões. Além de serem representantes do mesmo estilo, Benjamin Booker e Alabama Shakes já gravaram álbuns com o mesmo produtor: Andrija Tokic. Eu temia que não conseguiria ter uma visão limpa e imparcial da obra, comparando Witness a um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos.

Lo and behold, eis que desde a primeira música, já me sinto envolto no clima agitado que “Right On You” proporciona; você começa tendo certeza que está ouvindo um álbum original de Benjamin Booker. Isso mostra quão forte é a identidade desse rapaz. Em seguida, ele traz o ritmo para baixo em “Motivation”. Não com um balde de água fria, que é súbito e violento, mas sim com um chuvisco em meio a uma brisa, refrescando os sentidos com calma e sutileza e limpando a alma para que você entre preparado na faixa que dá nome ao conjunto da obra e um dos destaques do álbum. Uma canção soul em que Mavis Staples brilha com sua voz transpirando emoção.

Aos que esperavam algo mais quente e agitado ao estilo de sucessos que trouxeram Booker ao mainstream blues atual, talvez se decepcionem com o ritmo mais contido do novo projeto. Mas acredito que se você entrar em Witness com essa percepção, vá em casa, troque de percepção para uma que esteja desejando uma experiência mais íntima e espiritual e, só então, pegue nesse apanhado de músicas.

As cordas de violinos são muito bem adicionadas, dando ainda mais ênfase na emoção da mensagem por trás de “Believe”, uma das minhas músicas favoritas do artista até hoje. Baladas simples com poucos instrumentos até o estilo cheio do garage rock, você vai encontrar de tudo no álbum, inclusive tudo isso na mesma música; desafio você a ficar parado quando chegar à metade de “Off The Ground”.

Parabéns, Benjamin Booker. Você conquistou com esse álbum um espaço no setor do meu coração reservado para meus artistas favoritos de Soul/R&B/Blues. E acredito que também no coração de outros fãs que gostam de um bom e velho blues.

OUÇA: “Motivation”, “Witness”, “Believe” e “Off The Ground”.

Diana Krall – Turn Up The Quiet

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Mais de duas décadas após seu primeiro lançamento, Diana Krall dificilmente é um nome que passa despercebido no cenário musical, já que sua fama é conhecida pelos fãs tradicionais de jazz e também se estende ao público maior que guarda pouca ou nenhuma relação com este gênero musical. Passados dois anos sem nenhum lançamento, a cantora canadense volta à cena com Turn Up The Quiet, uma bela ode ao grande cancioneiro popular norte-americano e aos standards, talvez a forma mais intimista e apaixonada do jazz.

Em Turn Up The Quiet, Diana Krall retorna a uma sonoridade que remete aos seus primeiros anos de carreira, período em que a cantora revisitava clássicos de Frank Sinatra, Gershwin e Ella Fitzgerald e era presença marcada nos grandes festivais de jazz ao redor do mundo. Contudo, nesse novo álbum, Diana conta com a produção do celebrado e recém-falecido produtor Tommy LiPuma (Paul McCartney, Natalie Cole, Bill Evans e outros) e apresenta uma instrumentação impecável e absolutamente clássica – piano, bateria, guitarra e contrabaixo – ocasionalmente acompanhada de algumas cordas e violino.

No álbum, Diana evidencia o que de melhor há no chamado quiet jazz, aquele jazz tranquilo, intimista, sem muita exaltação e estável. Os ouvintes mais incautos poderiam considerar as faixas como sendo uma grande coleção de músicas de elevador, não fosse o caráter clássico de várias das faixas. As faixas são interpretações modernas de importantes canções do grande cancioneiro popular norte-americano, aquelas músicas mais tradicionais dos anos 20, 30 e 40 que se tornaram conhecidas do mundo pela voz de Frank Sinatra, Louis Armstrong, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Billie Holiday e outros e são conhecidos como standards. “Night And Day”, uma das músicas mais reinterpretadas no jazz e fora do jazz, recebe um pano de fundo contemporâneo, decididamente intimista e amável pela voz soprosa de Diana Krall. “Blue Skies”, canção que data de meados dos anos 20 e que já foi interpretada por Ella Fitzgerald, ganha um aspecto introspectivo e confessional na voz de Diana, como se a canção estivesse alojada no coração da cantora há tempos. Outras faixas também possuem este mesmo aspecto, como por exemplo “No Moon At All”, “Dream” e “Moonglow”.

O fator distintivo do álbum, além dos grandes clássicos revisitados, é a temática de canções de amor, puro e simples. O álbum não foge dessa temática e Diana Krall parece trazer de volta aquele lado mais apaixonado do jazz imortalizado nos standards. Com canções profundas e ao mesmo tempo despretensiosas, Turn Up The Quiet tem uma capacidade de deixar o ouvinte mais à vontade, dando a oportunidade de mergulhar na história do jazz e imaginar como o estilo era ouvido em décadas já esquecidas.

Em Turn Up The Quiet Diana Krall traz de volta a força esquecida dos standards e convida todos, por meio de canções de amor, a buscar inspiração em um estilo musical rico e profundamente influente até os dias de hoje. Até quem não costuma ouvir jazz pode se beneficiar da experiência de ouvir o álbum e, mesmo que este pareça repetitivo por vezes, certamente mostra o valor de Diana Krall como artista nos dias de hoje.

OUÇA: “Night And Day”, “Moonglow” e “L-O-V-E”

Hurray for the Riff Raff – The Navigator

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Cheio de significados, Hurray for the Riff Raff reservou para março o seu novo trabalho, The Navigator. Lançado pela ATO Records, o 6º disco de estúdio dos nova-iorquinos explora mares intensos, com canções profundas e letras fortes, bem como águas mais calmas e melodias leves. O álbum faz uma mistura entre folk e country, combinando com elementos de ritmo porto-riquenhos. Mesmo trabalhando em gêneros tão clássicos, o grupo consegue inovar e produzir um disco atual, com composições marcantes e contemporâneas.

The Navigator começa calmo. Ao estilo coral-gospel, a escolha de “Entrance” para abrir o álbum nos mostra a atmosfera diversificada que encontraremos ao decorrer do disco. Na sequência, o tom muda e o country passa a protagonizar. O baile continua dançante até “Life To Save”, e a partir dali, um ar mais melancólico e denso começa a transparecer.

O ponto alto do disco começa com a faixa-título, “The Navigator”. Aqui, Alynda Segarra sai de campos verdejantes e começa a dançar à beira de um abismo. O ritmo do disco cai mais uma vez com “Halfway There”, mas volta a explodir em “Rican Beach”, que vocifera em protesto contra o roubo de identidade de uma nação.

Alynda Segarra, além de demonstrar sua notável habilidade vocal, novamente se mostrou uma compositora excepcional.  Assim como em seus trabalhos anteriores, em The Navigator ela faz o papel de ativista, trazendo letras fortes e temas como imigração, a dizimação cultural de Porto Rico e questões de identidade.

Em uma dança que começa no country, esgueira-se para o folk, depois percorre uma trilha perigosa em uma salsa melancólica, The Navigator é uma história sendo contada. Há uma evolução natural no disco, como se ele crescesse dentro de si. Com um início leve, o álbum vai ganhando peso ao decorrer das canções e termina com um grito de guerra. Segarra é uma filha-de-ninguém, um fantasma faminto que quer saber para onde seu povo vai.

OUÇA: “Hungry Ghost”, “The Navigator”, “Rican Beach” e “Pa’lante”.

Michael Kiwanuka – Love & Hate

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‘Calling for my demons now to let me go. I need something, give me something wonderful’

Na primeira vez que ouvi “Black Man In A White World”, primeiro single de Love & Hate, fui transportado para o meio de uma marcha pela igualdade de direitos entre brancos e negros americanos nos anos 60, tal foi a força da letra que ouvi e do ritmo presente que possui a combinação exata entre Motown e África. A primeira vez que ouvi a música foi também a primeira vez que vi seu vídeo. Talvez o melhor vídeo que vi em muitos anos (e que não levará prêmio algum, uma vez que Beyoncé ou Taylor Swift não estão nele). A soma dos dois fatores, som e imagem, foi arrebatadora. Duvido que você, independentemente da sua cor, não se sinta tocado, questionado e incomodado com o que vê e ouve neste primor que resulta da música de Kiwanuka e do vídeo de Hiro Murai.

Michael Kiwanuka é o vencedor do Sound of… da BBC de 2012. Filho de ugandenses fugidos do regime de Idi Amin Dada, o rapaz nascido em Londres lançou seu debut, Home Again, naquele mesmo ano. O disco foi extremamente bem produzido, uma perfeição neo-soul que destacou o grave de sua voz. Talvez pela pressão em ser “the next big thing” ou pela produção milimetricamente vintage, o disco acabou ficando redondo demais e, apesar de todo talento envolvido, beirou perigosamente o genérico. Isso fez com que, injustamente, os olhares em sua direção se dispersassem rapidamente.

Quatro anos depois, Kiwanuka retorna com seu segundo álbum, Love & Hate. Esse longo período longe dos holofotes e a falta de pressão sobre seu novo trabalho deram a liberdade que o artista precisava para olhar para dentro de si, revisitar suas dores e suas influências e transformar tudo isso em música. O resultado não poderia ser outro. Temos em mãos um disco extremamente acima da média se comparado com o que é feito hoje nos batidos mercados americano e britânico. Por vezes arriscado, sempre bem arranjado e produzido, com boas letras e ótima interpretação, Love & Hate é um desses discos que não aparecem todo dia.

Love & Hate é um álbum que traz referências de várias vertentes da música negra. Há soul, pitadas de gospel e blues. A forte canção de abertura “Cold Little Heart” com seus 10 minutos recheados de coros e solos de guitarra indica que este será um álbum bem diferente de Home Again. Na verdade, é uma grande evolução de seu debut. É um disco muito mais cru e com muito mais sentimento. Com canções mais longas, fugindo do padrão radiofônico, Kiwanuka dá destaque à sua guitarra, claramente influenciada por bandas da virada dos anos 60 para os 70. A soma da guitarra com as cordas, corais e a voz grave do artista transformam várias canções em experiências quase espirituais, vide a faixa “Rule The World”.

As letras permitem diferentes interpretações e, com uma visão mais ampla, são muito mais do que canções de amor, pesar ou reconciliação. São canções sobre a inquietude do ser, sobre alienação, sobre não ser aceito e ter ou não perdão. É sobre ser, nas palavras do artista, um homem negro em um mundo branco. O auge do disco é a canção “Love & Hate”. São sete minutos de um arranjo que casa perfeitamente cordas, coros, piano e guitarra e, acima de tudo, sete minutos de Kiwanuka expondo seus demônios, forças, fraquezas e implorando por catarse, por aquela maravilha da frase que abre o texto.

Love & Hate é o mais próximo de um clássico que um disco soul chegou nestes anos pós-Winehouse. Pena que o introspectivo Kiwanuka não recebe a mesma exposição que a explosiva Amy (merecidamente) recebeu. A torcida é para que o Mercury Prize o ponha mais uma vez em evidência. Em um mundo justo, este álbum não passaria despercebido de maneira alguma. Mas, parafraseando o próprio Kiwanuka, ele é um homem negro em um mundo branco. E todos nós só perdemos com isso.

PS.: Em mais de trinta resenhas para o You! Me! Dancing! essa é apenas a segunda vez que dou uma nota superior a nove. Vos peço: me ouçam e ouçam Love & Hate. E vejam o vídeo de “Black Man In A White World”. De nada.

OUÇA: “Black Man In A White World”, “Love & Hate”, “Cold Little Heart” e “The Final Frame”

The Dead Weather – Dodge And Burn

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Ah, Dead Weather… Sentimos sua falta. Depois de nos provocar com vários singles desde 2013, o supergrupo formado por Alison Mosshart, Jack White, Jack Lawrence e Dean Fertita está de volta com Dodge And Burn, seu terceiro álbum, que tem a missão de superar os incríveis Sea Of Cowards e Horehound (e digo que a missão não é nada simples).

E eles resolveram experimentar muito mais nesse novo álbum. Desde o Horehound nós já sabemos qual é a estética sonora do Dead Weather, e talvez isso tenha incomodado um pouco a banda que resolveu trazer novidades interessantes representadas em músicas como “Three Dollar Hat”, que soa como uma fusão bizarra de rap old school com White Stripes e um toque de noise music, e “The Impossible Winner”, que tem muito mais de The Kills (banda de Alison Mosshart) do que qualquer outra música já composta pelo Dead Weather.

Mas é claro que o bom e velho DW que já conhecemos ainda está aqui em faixas como “Open Up” e “Rough Detective”. Os riffs imediatistas e simples ainda estão aqui e fazem jus ao nome que a banda fez para si mesma nos últimos anos. A produção está impecável, os vocais de Alison (e, ocasionalmente, do Jack White) estão muito bons, como de praxe. É difícil encontrar um momento fraco no meio deste álbum fora a já citada “Three Dollar Hat”, que requer um tanto de adaptação por ser extremamente diferente de qualquer coisa já feita pelo supergrupo.

Em suma: é Dead Weather. Se você gosta do trabalho solo do Jack White, ou de The Kills, ou até mesmo de Queens Of The Stone Age (banda do Dean Fertita), você provavelmente já conhece e também gosta de DW. Então ouça esse álbum. Não é o melhor trabalho deles, esse título é do Sea Of Cowards, mas ainda assim vai entrar para a lista de melhores álbuns de 2015, com certeza.

OUÇA: “Open Up (That’s Enough)”, “The Impossible Winner”, “Mile Markers”.

The Fratellis – Eyes Wide, Tongue Tied

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Ao ouvir os primeiros segundos de Eyes Wide, Tongue Tied, o quarto disco dos escoceses do Fratellis, é possível perceber uma mudança. Quase dez anos se passaram desde que o trio apareceu com o explosivo Costello Music, um disco cheio de riffs, metais, pa-ra-ra-ras; cheio de despretensão e descontração. Em 2006 o Fratellis estava lá para se divertir e te fazer dançar com músicas rápidas.

A tentativa de manter um pouco dessa irreverência e ainda evoluir se levando mais a sério do segundo disco, Here We Stand, foi meio falha e eles perceberam isso. A banda embarcou em um hiato recheado de outros projetos, incluindo um álbum solo do vocalista (que não deve ser lembrado pelo bem de todos), até retornar em 2013 com We Need Medicine, um disco maduro e bem feito. Em 2015, a história não é diferente.

Com uma influência cada vez mais presente de folk, country e blues, o Fratellis cresceu e amadureceu como ninguém imaginou que poderiam. O motivo principal dessa quase-surpresa na evolução de uma banda como o Fratellis é o fato de que ela parece ter acontecido de forma bastante orgânica e natural, como aconteceu com o Los Campesinos!, por exemplo.

Ainda mais do que seu anterior direto, Eyes Wide, Tongue Tied mostra que a banda soube amadurecer no tempo certo. Essa sobriedade funciona tão bem para o Fratellis de hoje quanto os tais pa-ra-ra-ras funcionavam em 2006. É muito bom ver que o trio conseguiu se manter fiel a si mesmo enquanto adicionavam elementos, como piano e calma, em suas músicas. Um parabéns ao Fratellis por ter chegado até aqui como chegou.

OUÇA: “Me And The Devil”, “Baby Don’t You Lie To Me”, “Thief” e “Too Much Wine”

The Strypes – Little Victories

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The Strypes apareceu lá em 2012, um grupo de guris entre 14 e 16 anos com um EP de covers que chamou muita atenção, desde gravadora e crítica, até famosos, como Noel Gallagher, Dave Grohl, Jeff Beck e Elton John. A expectativa em cima de seu debut era grande; a muitos convenceu, mas a mim não. Hoje, com Little Victories, o cenário muda e começo a enxergar The Strypes com outros olhos.

Snapshot, de 2013, não me agradou. Mesmo com a presença de “You Can’t Judge A Book By The Cover”, brilhante cover de Bo Diddley já mostrado no EP Young Gifted & Blue. No quesito novidades, as composições e melodias autorais não passaram de um revival do rock dos anos 60. Por mais que seja interessante e muitas vezes inevitável essa influência de certos movimentos artísticos, fazer exatamente igual, sem tirar nem pôr, em minha opinião, é falta de criatividade. Não digo falta de talento porque é visível que os moleques têm de sobra.

E esse talento foi elevado a outro patamar com Little Victories. Músicas atuais, interessantes, ricas instrumentalmente e bem compostas, com personalidade mantendo a cara da banda. São tantas faixas boas que penei para selecionar as melhores e destacar no “ouça”. Erraram apenas ao colocar todas essas melhores faixas na primeira metade do álbum. São 12 músicas no total em sua versão normal e 16 na versão deluxe, que acaba se tornando um pouco cansativa.

Gostaria de destacar “Eighty-Four”. É Arctic Monkeys. Ponto final. Impossível não notar influência tanto na melodia quanto na composição. Pelo visto a turnê como abertura para os macacos trouxeram novas influências. Rock britânico nato que não dá para negar; pior que nem do Reino Unido para serem chamados de britânicos os Strypes são, uma vez que vieram de Cavan, Irlanda.

Visualmente ainda não sei como será essa nova fase do Strypes, mas a imagem que meu subconsciente criou automaticamente foi ternos sendo deixados de lado e em seus lugares entrarem jaquetas de couro. E isso me instiga muito! Gosto de renovação, de coisas novas. A banda veio recentemente para o Brasil e já lamento por não ter ido assisti-los ao vivo.

Sai o revival sessentista, entra o indie rock atual. Sai música plastificada e espelhada, entram faixas bem constituídas e originais. Saem os terninhos, entram as jaquetas de couro. Pode até não agradar antigos fãs, mas com certeza chamará atenção de muitos novos ouvintes. Após quebrarem o tabu do segundo álbum, resta uma única dúvida: Little Victories foi um desvio no percurso e o próximo trabalho retornará aos anos 60?! Quem for vivo dirá. Ou melhor… Escutará.

OUÇA: “I Need To Be Your Only”, “A Good Night’s Sleep And A Cab Fare Home”, “Eighty-Four” e “Queen Of The Half Crown”