Michael Kiwanuka – KIWANUKA



KIWANUKA é o terceiro disco do cantor e compositor londrino filho de ugandenses Michael Kiwanuka. Esse novo trabalho tem a difícil tarefa de suceder Love & Hate, seu disco anterior e que mostrou grande amadurecimento e força nas letras, música, interpretação e produção. No entanto, Michael não parece ter ficado inseguro com seu próximo passo em nenhum momento. KIWANUKA soa como a evolução natural do trabalho anterior, sem parecer uma simples repetição do que deu certo no passado, ao mesmo tempo que ainda divide boa parte da mesma paleta de cores. 

A impressão é que com o sucesso de Love & Hate, Michael se tornou livre para produzir a música que sempre quis, sem as amarras e padrões da indústria fonográfica. Essas amarras eram bem visíveis em seu disco de estreia, Home Again, com seu neo-soul milimetricamente vintage e polido, tão em voga nos anos após o sucesso estrondoso do Back To Black de Amy Winehouse. Em KIWANUKA, a liberdade é palpável: canções longas, variedade instrumental e de arranjos, interlúdios e introduções com coros e percussão não tão óbvias para os padrões do mercado fonográfico atual.

A guitarra setentista tão presente em Love & Hate recebe um pouco menos de atenção em KIWANUKA, mas ainda tem seus momentos. Quem rouba a cena é o piano com destaque para “Piano Joint (This Kind of Love)” e “Solid Ground”.  Arranjos pouco usados por Michael no passado incluem a forte parte percussiva e o suingue de “You Ain’t The Problem”. Há ainda um forte acento gospel em quase todas as faixas do disco. Toda essa variedade de instrumentos é bem amarrada pela produção de Danger Mouse e Inflo que também haviam feito um trabalho brilhante no álbum anterior.

KIWANUKA é um disco feito para ser ouvido por inteiro, sem interrupções. Ouvir o álbum inteiro transforma a experiência em algo muito superior, tarefa difícil nessa era de singles e playlists que vivemos. A intrincada transição entre as faixas e os interlúdios tornam a audição bastante fluida, contribuindo fortemente para o clima e aumentando a coesão do disco. Na verdade, KIWANUKA é um dos poucos exemplos recentes em que os interlúdios realmente acrescentam algo.

Se em Love & Hate, o artista olhou para dentro de si, em KIWANUKA há mais o que dizer. Obviamente Michael continua lidando com seus sentimentos, mas há mensagens claras e bastante diretas para o mundo de desigualdades que o cerca.  O breve discurso de “Another Human Being” e a letra de “Hero” são bons exemplos dessa visão. Cabe aqui ainda ressaltar a grande canção que é “Hero”, talvez o ponto mais forte do disco com seus pouco mais de três minutos recheados com o violão, a voz grave, a sensibilidade, o comentário social e os sempre presentes questionamentos de Kiwanuka.

Michael é desses raros artistas que vale a pena acompanhar a evolução ao longo dos anos e KIWANUKA o mantém no mesmo elevado patamar que Love & Hate o alçou em 2016. A qualidade das letras, dos arranjos e principalmente da interpretação de Michael continuam muito acima da média do que é feito no mainstream dos mercados americano e britânico. Mesmo sem ouvir o disco, a arte da capa já nos entregava tudo: esse é o trabalho de um homem negro, seguro de sua arte e de seu papel na sociedade e que soube mais uma vez ser o rei de si. Vida longa ao rei Kiwanuka.

OUÇA: “Hero”, “You Ain’t The Problem”, “Piano Joint (This Kind Of Love)” e “Solid Ground”

Brittany Howard – Jaime



Dona de uma das vozes mais poderosas de sua geração, Brittany Howard deixou um pouco de lado a sua aclamada banda Alabama Shakes, além de Thunderbitch e Bermuda Triangle, para dar tempo e espaço para o seu primeiro álbum solo: Jaime. E a gente não poderia ficar mais agradecido, afinal, a americana cumpriu com maestria o que se propôs a fazer, como sempre.

Com faixas curtas, o debut parece mais uma única música com interlúdios que separam mensagens diferentes. Mas isso não quer dizer que se trata de uma obra monótona. Muito pelo contrário: temos sopros de paixão, raiva, gritos políticos, ternura e saltos enérgicos entrelaçados, sempre com o mesmo intuito de se conectar intensamente com o ouvinte.

Exemplo é a sequência “Georgia” e “Stay High”: do vigor poderoso de solos de guitarra distorcidos e o vocal de Howard que passa de sussurros para altas imposições, voltamos, sem perceber, para brandura em uma viagem delicada sonorizada, a princípio, pela dupla infalível na suavidade: violão e xilofone.

De falsetes a graves incríveis, Howard segura nossa mão em “Tomorrow”, mas solta sem medo de experimentar. Os descompassos minimamente calculados estão presentes em toda a obra, que traz, com sucesso, a força e identidade da cantora americana. História que está marcada inclusive no nome do álbum — Jaime é o nome de sua irmã mais nova, a primeira que a incentivou a escrever música, e que morreu aos 13 anos.

Ainda sobre sua família, Howard conta de forma literal como o seu pai sofreu um crime de ódio quando ela era apenas um bebê, em “Goat Head”. As emoções, os questionamentos e a transparência emocional da cantora continua em “Presence”, que traz a incrível frase “You make me feel so black and alive”.

O pico do álbum, no entanto, é o grito político em “13th Century Metal”, primeiro single e som visceral com frases de peso e mensagens afirmativas, como “I am dedicated to oppose those whose will is to divide us. And who are determined to keep us in the dark ages of fear”. Aqui, Howard esquece a melodia para afirmar, reafirmar, fazer valer a sua voz com força, e não com jeito.

Howard é, sem exagero, uma raridade do universo da música: ela transborda beleza não apenas de projetos maravilhosos, mas também em cada música que compõe, em cada falsete que engata, em cada grito contra a desigualdade. Quem é fã da, até então, vocalista do Alabama Shakes, tem muita sorte do ânimo e talento que a mesma tem de sobra.

OUÇA: “13th Century Metal”, “Georgia” e “Stay High”

Gary Clark Jr. – This Land



Gary Clark Jr. surgiu a cerca de 8 anos com o EP The Bright Lights e, desde então, lançou 3 discos e coleciona participações em grandes festivais de blues como o Crossroads, tocando ao lado de grandes lendas da guitarra como Eric Clapton, BB King, Buddy Guy e nomes contemporâneos da guitarra como John Mayer e Doyle Bramhall II. Em seu terceiro disco, ele procura ser despretensioso, mas extremamente ambicioso ao trazer uma gama grande de estilos musicais, de maneira experimental.

O álbum se inicia com “This Land”, um manifesto contra o racismo institucionalizado nos Estados Unidos que faz afro americanos não sentirem-se bem-vindos na própria terra. Contrário a isso, ele diz no refrão que é filho da américa e que aquela terra é dele.  A partir da terceira faixa, Gary passa a viajar por diversos estilos musicais diferentes, passando por soul em “When I’m Gone”, R&B, hip hop, pop em “The Guitar Man” e até mesmo reggae na faixa “Feeling Like A Million”. Vale destacar também “Pearl Cadillac”, excelente balada onde o artista mostra a habilidade que tem em combinar harmonicamente sua voz com a guitarra. O disco mostra a versatilidade de um artista que sempre foi visto como um guitarrista de blues, trazendo o foco para a produção e menos para os solos de guitarra. Entretanto, a guitarra blues característica do artista está presente e faixas como a instrumental “Highway 71”, onde ele experimenta solos em cima de uma base, “The Governor” e “Dirty Dishes Blues” que trazem um blues mais clássico.

This Land traz Gary Clark Jr. sem medo de arriscar novos arranjos e experimentar outros estilos. Mostra um artista mais maduro e confiante e acerta em muitos momentos com músicas que seriam excelentes singles, mas funcionam bem em conjunto. Sendo moderno, mas nunca esquecendo suas raízes, This Land é – sem dúvida – um dos melhores discos de blues do ano até o momento.

OUÇA: “My Eyes On You (Locked & Loaded)”, “This Land”, “Pearl Cadillac” e “Dirty Dishes Blues”

Greta Van Fleet – Anthem Of The Peaceful Army


Desde que surgiu para o grande público com seu EP de 2017 – From The Fires– a banda Greta Van Fleet tem causado alvoroço: seja por seu estilo cru de fazer Rock ‘n’Roll ou sua promessa como salvador do Rock atual, mas principalmente por ser comparado constantemente com uma das maiores bandas de todos os tempos: o Led Zeppelin. É clara a influência da banda inglesa nos jovens de Frankenmuth, Michigan – embora o guitarrista Jake Kiszka tenha declarado que as semelhanças são inconscientes e que o Led Zeppelin não é uma influência tão grande nas composições. “From The Fires” traz músicas como “Safari Song” que trazem claramente o estilo de compor de Jimmy Page e a maneira de cantar de Robert Plant. Entretanto, em seu disco de estreia – Anthem Of The Peaceful Army – a banda tenta se distanciar dessas semelhanças para começar a encontrar seu próprio som.

A primeira música do disco, “Age Of Man” já mostra esse distanciamento, trazendo influências de bandas como Rush e Yes, mas principalmente mostrando a capacidade de composição da banda, que já começa aqui a mostrar sua criatividade e originalidade. “When The Curtain Falls”, primeiro single do disco, que tem um lindo videoclipe e rendeu uma apresentação no programa The Tonight Show com Jimmy Fallon, traz elementos setentistas muito fortes marcados por riffs de guitarra e linhas pesadas de baixo. A voz de Josh Kiszka domina o disco, ora extremamente agressiva com drives e tons altos, ora mais tranquila e limpa.

“You’re The One” traz essa voz limpa e bela combinada com corais, violões e teclados e, junto com “Anthem”, são as baladas do disco. “Brave New World” é uma das melhores faixas do álbum, trazendo de volta os riffs de guitarra e uma pegada um pouco mais pesada, embora seja uma canção relativamente calma. A faixa “Lover, Leaver (Taker, Believer)” finaliza o disco e é uma versão estendida de outra música do meio do disco e a banda faz uma versão ao vivo dela de cerca de 23 minutos de improvisos, trazendo de novo a influência clara do Led Zeppelin.

Anthem Of The Peaceful Army é um excelente disco de estreia, principalmente para uma banda tão jovem e com influências tão marcantes. O Greta Van Fleet tem o potencial para mostrar o rock clássico para jovens que não são familiarizados com bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, entre outras. Entretanto, tem principalmente o potencial de fazer seu próprio nome no rock’n’roll, desenvolvendo mais o estilo original que mostra em faixas do disco de estreia e talvez influenciar minimamente bandas jovens a apostar num estilo mais clássico de fazer rock, o que faz muita falta hoje em dia.

OUÇA: “Age Of Man”, “When The Curtain Falls”, “You’re The One”, “Brave New World” e “Lover, Leaver (Taker, Believer)” (principalmente a versão ao vivo).

Jack White – Boarding House Reach


Jack White sempre foi conhecido por inovação. Desde ser frontman de uma banda sem baixo e ainda assim criar o riff de baixo mais famoso de todos os tempos, ser baterista de outra, criar um selo que trabalha de maneiras completamente analógicas, até sua carreira solo – com diversos integrantes tocando diversos instrumentos. Carreira solo que, segundo o próprio Jack White, é o como o White Stripes soaria se voltasse a tocar hoje. Mas é muito maior que isso, pois mostra como a mente de White trabalha, mostrando – a cada disco – influências diferentes em sua peculiar visão. Seguindo essa linha, em 2018, lançou seu terceiro disco da carreira solo – Boarding House Reach. 

O disco se inicia com a excelente “Connected By Love”, bem similar ao estilo dos álbuns anteriores e quase completamente analógicos de White, mas já trazendo alguns efeitos digitais – o grande diferencial desse disco. A partir de “Corporation”, terceira faixa do disco, trazendo mais de três minutos de instrumental, o lado experimental começa a aflorar. “Hypermisophoniac” é a que mais abraça a proposta do álbum, tendo sido feita para com a ajuda de instrumentos de brinquedo para soar propositalmente estranha. “Over And Over” traz de volta o estilo clássico de Jack White, com os característicos riffs e solos de guitarra e os corais femininos. Entretanto, “Respect Commander” traz de volta o ar experimental, fazendo o disco parecer uma montanha russa de maneira proposital.

Pode-se dizer que Boarding House Reach é o disco mais experimental de toda a carreira de White, onde ele segue caminhos que seguira previamente, mas principalmente se aventura em caminhos opostos ao seguro, mostrando faixas que podem confundir quando ouvidas sem o contexto do álbum – mas sem faltar em qualidade e mantendo sempre a assinatura pitoresca do artista.

OUÇA: “Connected By Love”, “Corporation”, “Hypermisophoniac” e “Over And Over”

Chris Robinson Brotherhood – Barefoot In The Head


Antes mesmo do Black Crowes anunciar um hiato em 2013, Chris Robinson montou o seu projeto paralelo: Chris Robinson Brotherhood, em 2011. E nesta banda ele continua desde que sua banda antiga (ou seja, ele e Rich Robinson – seu irmão) se desentenderam e resolveram anunciar o final. Deixando, com certeza, muitos fãs desapontados.

O que muitos não sabem é que Chris Robinson sem seu irmão é igualmente incrível sonoramente. Ambas as bandas tem discos impecáveis. Sempre com um southern rock muito rico – equilibrado com a gama de estilos e ritmos que esse subgênero do rock abriga: blues, soul, folk, country, tudo junto e misturado da melhor forma. Concluindo: Chris ainda faz o que o Black Crowes vinha construindo nos últimos lançamentos.

A banda começou em 2011, e lançou em julho o seu sexto trabalho, o Barefoot In The Head – que contém o caldeirão musical citado. São dez faixas repletas de instrumentos bem casados, harmonias deliciosas e melodias sensacionais, e claro, a voz com fundinho rasgada do Chris – que é um quase-gênio das composições.

Nesse disco curto – tem um pouco mais que 40 minutos – percebe-se que há um maior flerte com o country rock do que com os outros estilos, prova disso são as faixas “She Shares My Blanket”, “High Is Not The Top”, “Blonde Light Of Morning” – com certeza um dos pontos altos do disco, principalmente aquela slide guitar bem característica no fundo. No entanto, o soul/funk já aparece logo no início com “Behold The Seer”. Assim como deve ser mencionado a presença de uma linda cítara na linda (meio folk) “Glow”.

Na faixa “Hark, The Herald Hermit Speaks”, Robinson tenta emular uma espécie de locutor que fala de forma meio ritmada, algo entre Bob Dylan e um rapper, e que com certeza é a pior faixa do disco – todavia, o instrumental não deixa de ser bom, embora esteja estragado. E há ainda uma variaçãozinha que contempla um pouco de jazz em “Blue Star Woman”.

Mostrando o quanto Chris Robinson é criativo e hiperativo, mas nunca sem perder a qualidade. Muito embora, quem acompanhe sua carreira percebe que a habilidade de criar hits e músicas que grudam na cabeça diminuiu drasticamente. Os três primeiros discos do Black Crowes comprovam isso. E deve-se ressaltar que seus álbuns anteriores dessa nova etapa do artista são muito superiores – qualquer dia ouça o primeiro, The Magic Door, e os subsequentes Big Moon Ritual e Phosphorescent Harvest. Esses sim são encantadores e provam o potencial de Robinson.

OUÇA: “Behold The Seer”, “Blonde Light Of Morning” e “Glow”.

Benjamin Booker – Witness

_______________________________________

Os primeiros sons de guitarra cheios de reverb no início do álbum criam uma atmosfera para entrar na nova fase de Benjamin Booker já no clima de mudanças. O bluesman da voz rouca e sussurrada que subiu rápido ao sucesso (com conselheiros/parceiros fortes como Jack White nos primeiros momentos e Mavis Staples no novo álbum) mostra que está pronto para defender o espaço do blues e do soul na atualidade.

Ao ouvir o novo projeto de Booker pela primeira vez, o fantasma de Sound And Color pairou sobre minhas opiniões. Além de serem representantes do mesmo estilo, Benjamin Booker e Alabama Shakes já gravaram álbuns com o mesmo produtor: Andrija Tokic. Eu temia que não conseguiria ter uma visão limpa e imparcial da obra, comparando Witness a um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos.

Lo and behold, eis que desde a primeira música, já me sinto envolto no clima agitado que “Right On You” proporciona; você começa tendo certeza que está ouvindo um álbum original de Benjamin Booker. Isso mostra quão forte é a identidade desse rapaz. Em seguida, ele traz o ritmo para baixo em “Motivation”. Não com um balde de água fria, que é súbito e violento, mas sim com um chuvisco em meio a uma brisa, refrescando os sentidos com calma e sutileza e limpando a alma para que você entre preparado na faixa que dá nome ao conjunto da obra e um dos destaques do álbum. Uma canção soul em que Mavis Staples brilha com sua voz transpirando emoção.

Aos que esperavam algo mais quente e agitado ao estilo de sucessos que trouxeram Booker ao mainstream blues atual, talvez se decepcionem com o ritmo mais contido do novo projeto. Mas acredito que se você entrar em Witness com essa percepção, vá em casa, troque de percepção para uma que esteja desejando uma experiência mais íntima e espiritual e, só então, pegue nesse apanhado de músicas.

As cordas de violinos são muito bem adicionadas, dando ainda mais ênfase na emoção da mensagem por trás de “Believe”, uma das minhas músicas favoritas do artista até hoje. Baladas simples com poucos instrumentos até o estilo cheio do garage rock, você vai encontrar de tudo no álbum, inclusive tudo isso na mesma música; desafio você a ficar parado quando chegar à metade de “Off The Ground”.

Parabéns, Benjamin Booker. Você conquistou com esse álbum um espaço no setor do meu coração reservado para meus artistas favoritos de Soul/R&B/Blues. E acredito que também no coração de outros fãs que gostam de um bom e velho blues.

OUÇA: “Motivation”, “Witness”, “Believe” e “Off The Ground”.

Diana Krall – Turn Up The Quiet

_______________________________________

Mais de duas décadas após seu primeiro lançamento, Diana Krall dificilmente é um nome que passa despercebido no cenário musical, já que sua fama é conhecida pelos fãs tradicionais de jazz e também se estende ao público maior que guarda pouca ou nenhuma relação com este gênero musical. Passados dois anos sem nenhum lançamento, a cantora canadense volta à cena com Turn Up The Quiet, uma bela ode ao grande cancioneiro popular norte-americano e aos standards, talvez a forma mais intimista e apaixonada do jazz.

Em Turn Up The Quiet, Diana Krall retorna a uma sonoridade que remete aos seus primeiros anos de carreira, período em que a cantora revisitava clássicos de Frank Sinatra, Gershwin e Ella Fitzgerald e era presença marcada nos grandes festivais de jazz ao redor do mundo. Contudo, nesse novo álbum, Diana conta com a produção do celebrado e recém-falecido produtor Tommy LiPuma (Paul McCartney, Natalie Cole, Bill Evans e outros) e apresenta uma instrumentação impecável e absolutamente clássica – piano, bateria, guitarra e contrabaixo – ocasionalmente acompanhada de algumas cordas e violino.

No álbum, Diana evidencia o que de melhor há no chamado quiet jazz, aquele jazz tranquilo, intimista, sem muita exaltação e estável. Os ouvintes mais incautos poderiam considerar as faixas como sendo uma grande coleção de músicas de elevador, não fosse o caráter clássico de várias das faixas. As faixas são interpretações modernas de importantes canções do grande cancioneiro popular norte-americano, aquelas músicas mais tradicionais dos anos 20, 30 e 40 que se tornaram conhecidas do mundo pela voz de Frank Sinatra, Louis Armstrong, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Billie Holiday e outros e são conhecidos como standards. “Night And Day”, uma das músicas mais reinterpretadas no jazz e fora do jazz, recebe um pano de fundo contemporâneo, decididamente intimista e amável pela voz soprosa de Diana Krall. “Blue Skies”, canção que data de meados dos anos 20 e que já foi interpretada por Ella Fitzgerald, ganha um aspecto introspectivo e confessional na voz de Diana, como se a canção estivesse alojada no coração da cantora há tempos. Outras faixas também possuem este mesmo aspecto, como por exemplo “No Moon At All”, “Dream” e “Moonglow”.

O fator distintivo do álbum, além dos grandes clássicos revisitados, é a temática de canções de amor, puro e simples. O álbum não foge dessa temática e Diana Krall parece trazer de volta aquele lado mais apaixonado do jazz imortalizado nos standards. Com canções profundas e ao mesmo tempo despretensiosas, Turn Up The Quiet tem uma capacidade de deixar o ouvinte mais à vontade, dando a oportunidade de mergulhar na história do jazz e imaginar como o estilo era ouvido em décadas já esquecidas.

Em Turn Up The Quiet Diana Krall traz de volta a força esquecida dos standards e convida todos, por meio de canções de amor, a buscar inspiração em um estilo musical rico e profundamente influente até os dias de hoje. Até quem não costuma ouvir jazz pode se beneficiar da experiência de ouvir o álbum e, mesmo que este pareça repetitivo por vezes, certamente mostra o valor de Diana Krall como artista nos dias de hoje.

OUÇA: “Night And Day”, “Moonglow” e “L-O-V-E”

Hurray for the Riff Raff – The Navigator

_______________________________________

Cheio de significados, Hurray for the Riff Raff reservou para março o seu novo trabalho, The Navigator. Lançado pela ATO Records, o 6º disco de estúdio dos nova-iorquinos explora mares intensos, com canções profundas e letras fortes, bem como águas mais calmas e melodias leves. O álbum faz uma mistura entre folk e country, combinando com elementos de ritmo porto-riquenhos. Mesmo trabalhando em gêneros tão clássicos, o grupo consegue inovar e produzir um disco atual, com composições marcantes e contemporâneas.

The Navigator começa calmo. Ao estilo coral-gospel, a escolha de “Entrance” para abrir o álbum nos mostra a atmosfera diversificada que encontraremos ao decorrer do disco. Na sequência, o tom muda e o country passa a protagonizar. O baile continua dançante até “Life To Save”, e a partir dali, um ar mais melancólico e denso começa a transparecer.

O ponto alto do disco começa com a faixa-título, “The Navigator”. Aqui, Alynda Segarra sai de campos verdejantes e começa a dançar à beira de um abismo. O ritmo do disco cai mais uma vez com “Halfway There”, mas volta a explodir em “Rican Beach”, que vocifera em protesto contra o roubo de identidade de uma nação.

Alynda Segarra, além de demonstrar sua notável habilidade vocal, novamente se mostrou uma compositora excepcional.  Assim como em seus trabalhos anteriores, em The Navigator ela faz o papel de ativista, trazendo letras fortes e temas como imigração, a dizimação cultural de Porto Rico e questões de identidade.

Em uma dança que começa no country, esgueira-se para o folk, depois percorre uma trilha perigosa em uma salsa melancólica, The Navigator é uma história sendo contada. Há uma evolução natural no disco, como se ele crescesse dentro de si. Com um início leve, o álbum vai ganhando peso ao decorrer das canções e termina com um grito de guerra. Segarra é uma filha-de-ninguém, um fantasma faminto que quer saber para onde seu povo vai.

OUÇA: “Hungry Ghost”, “The Navigator”, “Rican Beach” e “Pa’lante”.

Michael Kiwanuka – Love & Hate

michael

_______________________________________

‘Calling for my demons now to let me go. I need something, give me something wonderful’

Na primeira vez que ouvi “Black Man In A White World”, primeiro single de Love & Hate, fui transportado para o meio de uma marcha pela igualdade de direitos entre brancos e negros americanos nos anos 60, tal foi a força da letra que ouvi e do ritmo presente que possui a combinação exata entre Motown e África. A primeira vez que ouvi a música foi também a primeira vez que vi seu vídeo. Talvez o melhor vídeo que vi em muitos anos (e que não levará prêmio algum, uma vez que Beyoncé ou Taylor Swift não estão nele). A soma dos dois fatores, som e imagem, foi arrebatadora. Duvido que você, independentemente da sua cor, não se sinta tocado, questionado e incomodado com o que vê e ouve neste primor que resulta da música de Kiwanuka e do vídeo de Hiro Murai.

Michael Kiwanuka é o vencedor do Sound of… da BBC de 2012. Filho de ugandenses fugidos do regime de Idi Amin Dada, o rapaz nascido em Londres lançou seu debut, Home Again, naquele mesmo ano. O disco foi extremamente bem produzido, uma perfeição neo-soul que destacou o grave de sua voz. Talvez pela pressão em ser “the next big thing” ou pela produção milimetricamente vintage, o disco acabou ficando redondo demais e, apesar de todo talento envolvido, beirou perigosamente o genérico. Isso fez com que, injustamente, os olhares em sua direção se dispersassem rapidamente.

Quatro anos depois, Kiwanuka retorna com seu segundo álbum, Love & Hate. Esse longo período longe dos holofotes e a falta de pressão sobre seu novo trabalho deram a liberdade que o artista precisava para olhar para dentro de si, revisitar suas dores e suas influências e transformar tudo isso em música. O resultado não poderia ser outro. Temos em mãos um disco extremamente acima da média se comparado com o que é feito hoje nos batidos mercados americano e britânico. Por vezes arriscado, sempre bem arranjado e produzido, com boas letras e ótima interpretação, Love & Hate é um desses discos que não aparecem todo dia.

Love & Hate é um álbum que traz referências de várias vertentes da música negra. Há soul, pitadas de gospel e blues. A forte canção de abertura “Cold Little Heart” com seus 10 minutos recheados de coros e solos de guitarra indica que este será um álbum bem diferente de Home Again. Na verdade, é uma grande evolução de seu debut. É um disco muito mais cru e com muito mais sentimento. Com canções mais longas, fugindo do padrão radiofônico, Kiwanuka dá destaque à sua guitarra, claramente influenciada por bandas da virada dos anos 60 para os 70. A soma da guitarra com as cordas, corais e a voz grave do artista transformam várias canções em experiências quase espirituais, vide a faixa “Rule The World”.

As letras permitem diferentes interpretações e, com uma visão mais ampla, são muito mais do que canções de amor, pesar ou reconciliação. São canções sobre a inquietude do ser, sobre alienação, sobre não ser aceito e ter ou não perdão. É sobre ser, nas palavras do artista, um homem negro em um mundo branco. O auge do disco é a canção “Love & Hate”. São sete minutos de um arranjo que casa perfeitamente cordas, coros, piano e guitarra e, acima de tudo, sete minutos de Kiwanuka expondo seus demônios, forças, fraquezas e implorando por catarse, por aquela maravilha da frase que abre o texto.

Love & Hate é o mais próximo de um clássico que um disco soul chegou nestes anos pós-Winehouse. Pena que o introspectivo Kiwanuka não recebe a mesma exposição que a explosiva Amy (merecidamente) recebeu. A torcida é para que o Mercury Prize o ponha mais uma vez em evidência. Em um mundo justo, este álbum não passaria despercebido de maneira alguma. Mas, parafraseando o próprio Kiwanuka, ele é um homem negro em um mundo branco. E todos nós só perdemos com isso.

PS.: Em mais de trinta resenhas para o You! Me! Dancing! essa é apenas a segunda vez que dou uma nota superior a nove. Vos peço: me ouçam e ouçam Love & Hate. E vejam o vídeo de “Black Man In A White World”. De nada.

OUÇA: “Black Man In A White World”, “Love & Hate”, “Cold Little Heart” e “The Final Frame”