Tycho – Weather



Se reduzidos às suas características mais essenciais, poderia-se dizer que o que difere o post-rock e o ambient é a atenção. Ambos os gêneros consistem de músicas instrumentais (normalmente) compostas com conjuntos de instrumentos semelhantes, mas enquanto o post-rock pretende ser um avanço nas características estéticas do rock, usando guitarras, baterias, baixos e etc para criar arranjos mais atmosféricos, de certa forma opressivos e envolventes, que exigem que sua presença seja percebida, o ambient vai no sentido contrário, numa quase anti-estética, guiando a composição para o objetivo de ser o menos presente possível, mesclada com o ambiente ao redor, ocupando apenas de maneira periférica a atenção do ouvinte. Dada a natureza contrastante dos dois gêneros, transitar entre ambos, para um artista, resume-se a uma questão de equilíbrio. É essa a proposta do artista de ambient e post-rock Tycho em seu quinto álbum, Weather.

Lançado três anos depois do último disco, Epoch, Weather marca uma nova perspectiva na carreira do artista. Enquanto Epoch marcou o fim de uma triologia de discos que exploravam a criatividade do artista dentro do ambient, com melodias voltadas para a criação de climas e arranjos minimalistas e usando bastante downtempo, Weather tem um Tycho que procura voltar à materialidade, aventurando-se mais no campo do post-rock e adicionando até mesmo vocais à boa parte das composições, tudo com a intenção de fazer do disco mais orgânico e presente que os seus anteriores.

Mas Tycho é um artista de ambient em primeiro lugar, e os elementos desse gênero não conseguem evitar sangrar para dentro das composições novas. Ao invés de rejeitar suas influências anteriores, Tycho as abraça e incluí no novo processo criativo, fazendo do disco um exercício de reflexão sobre quem se é e quem se almeja ser. Como todo exercício de exploração pessoal, este é um caminho de erros e acertos.

Seja com as guitarras ora líquidas, fluídas, que se mesclam com a bateria eletrônica para criar um efeito etéro, quase antigravitacional da faixa de abertura, “Easy”, que mostra, logo de cara, o ponto de intersecção entre o que seria o arranjo de um disco de post-rock, com um instrumental presente, impositivo, que apresenta materialidade no som e o ambient, com sua preferência por harmonias mais elusiva ou com a faixa seguinte, “Pink & Blue”, que firma sua posição ao incluir vocais e com isso revestir de presença tangível a composição. Existem  ainda os ocasionais arrebatamentos provocados pela guitarra, mas esses adquirem um significado diferente, que parece ser resultado da tomada de consciência do próprio corpo. 

Com a exceção de “Pink & Blue” e da faixa seguinte, “Japan”, entretanto, os melhores momentos do disco são os em que o vocal não se faz presente e os arranjos ganham mais espaço para respirar e flutuar livremente, se a presença do vocal é a tomada de consciência do corpo, a existência material não vem sem limitações.

Em “Japan”, o movimento continua, ainda mais terreno e corporificado por conta da ênfase do arranjo na bateria e nos vocais, a guitarra passa a dividir espaço também com o baixo que dá mais peso à música, tanto literal quanto figuradamente.As faixas instrumentais “Into The Woods” e “Weather”, a primeira logo depois de “Japan”, a segunda encerrando o disco, fecham o grupo de boas músicas da obra. Em “Into The Woods” as notas altas e claras de guitarras elevando-se sobre a bateria e preenchendo a composição num novo impulso em direção à fluidez extracorpórea. Já em “Weather” mesmo o baixo, que mantém a estrutura da música, ao invés de fixá-la no chão, apenas estabiliza o vôo conduzido pela combinação de guitarras e sintetizadores. Os efeitos emulando flautas adicionam mais uma camada à sensação de voo e encerram o disco com uma nota alta, literalmente.

Apesar disso, a experiência de adquirir corpo não vêm sem suas desvantagens, e é quando Tycho tenta assentar mais as composições na materialidade, dando ênfase a arranjos graves e à presença do vocal, que as faixas deixam a desejar, a primeira do trio é “Skate”, que traz de volta os vocais depois de “Into The Woods”, o que faz a faixa perder um pouco da sua energia e se tornam etéreos, mas sem compensar a mundaça de intensidade da faixa anterior. Logo depois de “Skate” vem “For How Long”, que se fundamenta na batida cadenciada do baixo, acompanhada da guitarra que tira parte do peso do arranjo grave, a terceira das faixas, “No Stress”, continua o movimento terreno conduzido pela voz, mas o movimento, além de ser em direção à matéria, também parece ser em direção à vulgaridade dela, com cada uma das três faixas soando menos inspirada e mais comum que a anterior.

Com um tempo de reprodução de cerca de 29 minutos divididos em oito faixas, Weather é um grande acerto pela maioria das faixas, a criação dos sentimentos, que é a maior força de um disco de ambient, é feita com cuidado e, ao mesmo tempo, desprovido de expectativa, que é a liberdade da não-presença. Por outro lado, algumas das faixas com vocais, entretanto, falham em criar a atmosfera ao mesmo tempo que a mudança de ritmo não contribui tanto para o clima geral do disco. Talvez a existência corpórea seja uma prisão forte demais para Tycho. É o tipo de disco que pode crescer com ouvidas repetidas. A vantagem do corpo é que cada experiência (mesmo uma reencenada), pode deixar marcas novas.

OUÇA: “Easy”, “Pink & Blue”, “Japan”, “Into The Woods” e “Weather”

Heather Woods Broderick — Invitation



Heather Woods Broderick pode não ser muito conhecida por seu trabalho solo, mas deveria. A multi-instrumentista nascida no Maine já acompanhou muitos artistas, entre eles Lisa Hannigan, Horse Fathers e, sua amiga, Sharon Van Etten. No dia 19 de abril, Broderick lançou seu 3º álbum: Invitation, pela gravadora Western Vinyl.

O trabalho recente brinca com o folk e a música ambiente. Algo que já havia sido explorado no em Glide (2013). A música de abertura — “A Stilling Wind” —, ecoa como o prelúdio do mergulho profundo no universo de Heather. Inicia-se com teclas distorcidas, quase aquáticas, e então surgem camadas e camadas de som: violão de aço dedilhado em looping, a voz serena de Broderick, guitarras e pedais que a reverberam, bumbo marcante, surdo, violoncelo, baixo, violinos etc etc. Tudo cresce e se transforma numa belíssima harmonia.

Aliás, harmonia é que não falta em Invitation, o cd soa como um sonho. Em vezes celestial, outras vezes mais obscuro. A exemplo, temos a já citada “A Stilling Wind” e “A Daydream”, preenchidas de arpejos que nos dão aquele sentimento de maré, levando e trazendo o som e suas sensações. A impressão de mar inerente não é à toa, o álbum foi produzido na costa do Oregon — onde habita a cantora —, conhecido por fazer fronteira com o Oceano Pacífico, por suas pedras e montanhas. Cenário perfeito para a feitura do disco.

Voltando às faixas, “I Try” poderia ser uma música da sua fiel escudeira Sharon Van Etten, tanto do excelente Are We There (2014) ou do atual Remind Me Tomorrow (2019) devido ao combo grand piano + sintetizador + refrão simples e pegajoso. “Quicksand” mostra o quanto Heather é talentosa no seu instrumento de origem, é quase 1 minuto de solo de piano beirando ao etéreo, sustentado por uma orquestra. “Invitation” termina a obra com som de grilos ao fundo e com a narração de um suposto sonho, refletindo a necessidade de aceitação pelo acaso, pelo que se está por vir na vida: “A dream took me last night / into the deeps of the darker satellite / I accepted the invitation”.

O ponto negativo de Invitation pode até não ser tão negativo assim, se comparado lado a lado com a proposta de música ambiente do cd. A voz da cantora é muito delicada e pode soar como insegura às vezes, ou se perder diante da grandiosidade instrumental que ela propõe. Entretanto, não chega a ser insuportável e se encaixa bem no vazio e no eco que é ofertado pelo álbum.

Se você curte Sharon Van Etten, Angel Olsen, Volcano Choir, Julian Baker, você possivelmente irá curtir Heather Woods Broderick em Invitation e nos seus demais álbuns.

OUÇA: “A Stilling Wind”, “A Daydream”, “Quicksand”, “Invitation”


Bibio – Ribbons



Ribbons, novo disco de Bibio, é mais uma experiência prazerosa da doce melancolia que o músico britânico faz de melhor. Com uma ambientação introspectiva e fundamentada em violões e sons acústicos, o álbum deve agradar aos fãs de canções como “Jealous Of Roses” e “Haikuesque (When She Laughs)”.

O que diferiu Bibio em toda sua carreira de outros artistas similares sempre foi sua dedicação em fazer com que a atmosfera construída reflita um sentimento profundo e quase entorpecedor, seja em um formato mais acústico ou experimentando com elementos da música eletrônica. Aqui, Ribbons é um trabalho comovente, singelo, de pura e genuína emoção que dialoga intimamente com o ouvinte através de uma paisagem sonora sustentada por um formidável instrumental, já que as líricas e vocais aparecem muito pouco.

Um grande ponto forte de Ribbons é o quão fácil é ouvir o disco. Com canções tranquilas, o compilado provoca uma agradável sensação de conforto com instrumentos suaves e uma masterização levemente ruidosa e lo-fi, que confere ao álbum uma sonoridade quase caseira. O tom de melancolia atingido aqui não traz uma carga pesada, que dificulta uma experiência mais casual, mas é abordada com leveza.

Há uma coesão admirável na produção de Bibio. Todas as 16 faixas fluem perfeitamente entre si, fazendo com que os mais de 50 minutos de duração passem muito mais rápido do que o imaginado. Poucas canções de fato se destacam, mas o conjunto da obra é convidativo para que o ouvinte escute o álbum completo do início ao fim.

O ponto alto, no entanto, é “Curls”, o primeiro single. A faixa, uma balada folk movida pelo banjo com alguns flertes com o sintetizador, resume a estética intimista do álbum. A dedicação à delicadeza aparece até mesmo em canções mais animadas como “Old Graffiti”, que adapta a sonoridade do jazz e funk para a proposta de disco.

Ribbons é um álbum muito bem-elaborado, honesto em sua roupagem e imersivo. Além disso, é um trabalho incrivelmente sensível, com melodias sutis e agradável de se ouvir.

OUÇA: “Curls”, “Old Graffiti” e “Pretty Ribbons And Lovely Flowers”

Teen Daze — Bioluminescence



Bioluminescência é a produção de luz por organismos vivos. Peixes, bactérias e vagalumes possuem essa característica, no entanto seria o homem capaz de realizar tal acontecimento? Talvez seja isso que Teen Daze estivesse propondo quando compôs Bioluminescence, seu novo álbum de inéditas.

Que Jamison Isaak tem a natureza como tema principal (nos últimos anos) nós já sabemos. O músico canadense vem explorando o meio em que vivemos em suas faixas desde Glacier (2013) — que para mim, Bárbarah, foi a descoberta deste artista e do gosto pela música eletrônica. Na época eu estava em crise de insônia e ansiedade e o universo chillout de Teen Daze me ajudava a relaxar e a dormir. Mas deixando de falar de mim, Bioluminescence é estritamente instrumental. Diferente do que aconteceu em trabalhos anteriores, em que houve empréstimo de vozes de alguns artistas — como em Themes For A Dying Earth (2017) e em A Silent Planet (2018).

O novo cd começa forte com “Near” e suas sobreposições de strings. E de repente você se imagina assistindo um cardume de peixes passeando magnificamente em um programa como Blue Planet (BBC). Após a efervescência sonora, a faixa vai desaparecendo com o barulho de espuma do mar que dá lugar a solar “Spring”, faixa um pouco mais orgânica devido ao uso de guitarra e — imagino — de uma bateria acústica. Em seguida vem a suingada “Hidden Worlds” e “Ocean Floor” (filha do house), falo já já dela. “Longing” inicia a segunda parte da obra e retorna a vibe da faixa de abertura: acordes em looping, snares tensionados e uma sensibilidade quase etérea. O mesmo acontece com as celestiais “An Ocean on the Moon” e “Drifts”. Por fim, temos “Endless Light” delicada, gotejante e esperançosa.

É admirável o trabalho de Isaak em Bioluminescence, mesmo que esta nova fase esteja mais voltada para o house. Porém é no house que o cd dá uma enjoada. Enquanto na parcela calma as repetições funcionam como mantras, a parcela mais animada soa reincidente demais. A exemplo disso temos a faixa “Ocean Floor” (eu disse que ia falar dela!). Com 7 min e 47 seg, a canção parece exageradamente grande, aos 3 min já dá uma vontadezinha de pular para a próxima.

Em termos de conceito, o trabalho se faz muito coeso. Em diversas faixas podemos perceber centelhas luminosas provenientes da natureza, seja no ambiente terrestre ou no aquático. Isso se reproduz também na capa do disco: a mesma imagem justaposta de um lago e sua vegetação característica. O que poderia ser, muito bem, os habitats naturais desses ecossistemas bioluminescentes.

Teen Daze pra mim é a exemplificação de que música feita no computador com um monte de plug-ins pode ser tão sensível quanto uma orquestra, basta se deixar ouvir. Sendo assim, voltamos à questão inicial do texto: seria o ser humano capaz de produzir luz por si próprio? Devo dizer-lhe que, metaforicamente falando, a música (por mais brega que essa afirmação seja!) é luz, e Jamison Isaak parece estar no caminho certo: produzindo um material de qualidade e sintetizando toda a vida que nos rodeia.

OUÇA: “Near”, “An Ocean On The Moon” e “Drifts”

The Japanese House – Good At Falling



Em 90% das vezes que eu menciono o nome The Japanese House mais da metade das pessoas acham que eu falei errado o nome da banda Japanese Breakfast, aquela banda que na verdade é um projeto solo da cantora e compositora americana-coreana Michelle Zauner. Já a outra metade pensa na Japan House em São Paulo. Mas não é nenhuma dessas duas coisas.

The Japanese House é o pseudônimo e, também, projeto solo de Amber Bain, cantora e compositora de Buckinghamshire, Inglaterra. Com quatro EPs na bagagem, que foram lançados pela Dirty Hit (gravadora idealizada e comandada pelo pessoal do The 1975), agora Bain resolveu sair do anonimato com seu primeiro álbum Good At Falling e mostrar que o The Japanese House não é, como muitos pensavam, um projeto paralelo do Matty Healy e George Daniel do The 1975.

As primeiras músicas lançadas sob o pseudônimo saíram em 2015 quando Bain tinha apenas 19 anos. Elas eram carregadas de auto tune, que protegiam o anonimato e brincavam com classificação de gênero, e efeitos de guitarra que soavam sim bem parecidos com algo que teria um dedinho de Healy e Daniel.

Já em Good At Falling, o auto tune ainda está presente mas são as letras e a delicadeza das palavras que entregam a vulnerabilidade que o álbum carrega. É um disco que mostra a evolução de Bain como pessoa e artista. Good at Falling é um ciclo de acontecimentos muito pessoais, como a morte de alguém próximo que você ama e o processo de luto, sobre pensar que achou salvação em um novo relacionamento e ir percebendo aos poucos que o relacionamento está se desmanchando. Bain fala muito sobre perceber que tudo passa e que, eventualmente, tudo fica bem.

Várias vezes durante o álbum são lançadas perguntas que reverberam diariamente na cabeça de quase todos os jovens Millennials. O niilismo presente em faixas como “Maybe You’re the Reason” e “Follow My Girl” com frases como “is there a point to this?”, “should I be searching for some kind of meaning?” e “nothing feels good it’s not right” refletem a realidade de uma desesperança que sonda a vida de jovens em países como os Estados Unidos, Brasil e outros.

A produção do álbum merece um destaque a parte. Produzidas por George Daniel (The 1975), BJ Burton (Bon Iver, James Blake), e pela própria Bain, as faixas com camadas de sons que parecem infinitas convidam quem escuta a cada vez que escutar uma música perceber um som novo. Os sons trazem ainda mais profundidade para um álbum tão pessoal, tão cru, mas ao mesmo tempo tão confortante. Good At Falling parece que foi encapado em um cobertor macio, pronto para se deitar em cima e enquanto escuta os vocais suaves de Bain.

São treze faixas e, de todos os quatro EPs, apenas uma música fez o corte para o álbum. A faixa “Saw You In A Dream” aparece em Good At Falling como uma versão acústica e mais pura. Sem a máscara do auto tune, Bain gravou essa versão em dois takes ao vivo e, como ela mesma disse em entrevistas, “quase dá para ouvir suas lágrimas”.

A nova versão se chama “i saw you in a dream” e fala sobre sonhar com alguém que já partiu desse mundo e a única forma de ver a pessoa de novo é sonhando. Na faixa, Bain canta “it isn’t the same but it is enough” (não é o mesmo, mas é suficiente – em tradução livre) e amarra, aparecendo como faixa final, todo o sentimento que o álbum carrega e passa. Perder um amor, seja romântico ou não, nunca é fácil, e nenhuma experiência vai ser igual a outra, mas nos resta seguir em frente e tentar aproveitar o melhor da próxima situação.

Good At Falling é muito importante, principalmente para a comunidade LGBTQ+ que quer encontrar conforto e representatividade em artistas jovens. É um disco que força uma autorreflexão sobre nossos sentimentos e relacionamentos, e a posição que eles ocupam em nossas vidas, na faixa “Worms” Bain nos mostra exatamente isso cantando “Invest yourself in something worth investing in. You keep repressing it”. Good At Falling é o melhor debut que o The Japanese House poderia ter.

OUÇA: “Worms”, “Follow My Girl” e ” Maybe You’re The Reason”

The Cinematic Orchestra – To Believe



Buscar razões para acreditar olhando e ouvindo ao redor. É nessa premissa que se baseia o novo álbum do grupo de nu jazz The Cinematic Orchestra, To Believe. Era um bom tempo já: fazia 12 anos desde o entristecido Ma Fleur, último álbum completo do grupo liderado por Jason Swinscoe. O resultado da demora é um disco de sete longas faixas (a menor tem pouco mais de cinco minutos), com sonoridade ainda mais introspectiva que trabalhos anteriores, em um caminho bem seguro e fluido…

E acessível. Seja pelas participações nos vocais de nomes como o cantor de soul/folk Moses Sumney e o rapper Roots Manuva, ou mesmo pelas escolhas da produção, muito mais voltada para timbres que flertam com o ambient pop e com um clima mais nublado e morno, algo visível já na capa minimalista.

Há, claro, alguns momentos minimamente mais agitados e percussivos, como na instrumental “Lessons”, mas o predomínio aqui é realmente dos arranjos etéreos. O resultado tem lá suas repetições devido à duração das músicas, mas também traz momentos sublimes. Destaque para as linhas de teclado que dão base a todas as faixas e as cordas, especialmente em “The Workers Of Art”.

Por falar em canto, a despeito do tamanho das faixas, há uma certa urgência radiofônica aqui — e que vai além da já comentada produção. A lírica gira em torno da necessidade de convicção e do companheirismo diante de um mundo repleto de dor; e, por mais que isso pareça batido, não há pieguice em nenhuma das interpretações.

Surge aqui uma trajetória conceitual que se estende desde a faixa-título até “Zero One/This Fantasy”, onde a voz aconchegante de Grey Reverend clama ‘Lay your hands on me / Everyone needs someone to believe’”. E ao final, “A Promise”, vocalizada por Heidi Vogel, encerra pedindo pelo fim da dor. A faixa de 11 minutos (nada enfadonhos, diga-se) apresenta ainda uma das melhores progressões do álbum, da tristeza lenta inicial até um andamento mais rápido com a presença marcante da bateria no encerramento da obra.

To Believe também de certa forma é um disco que também progride positivamente a cada audição. Pode até não ser das obras mais complexas e talvez nem a mais interessante da Orchestra. Contudo, também não é simplório, e guarda detalhes minuciosos para serem percebidos numa tacada só (repare no uso do estéreo, para ficar só em um exemplo). Essas características, junto com uma coesão temática e boas composições, traz um material consistente para um retorno dos cinemáticos.

OUÇA: “The Workers Of Art”, “Zero One/This Fantasy” e “A Promise”

Jerry Paper – Like A Baby


O multi-instrumentista Lucas Nathan é uma daquelas figuras que a gente não sabe se é realmente um cara esquisito ou se está constantemente tirando sarro da nossa cara. Seus primeiros trabalhos eram carregados de sarcasmo e ironia, usando elementos do synthpop e da música de videogame pra fazer piadas autodepreciativas. Like A Baby continua na pegada mais conceitual introduzida pelo artista em Toon Time Raw! de 2016 e é ao mesmo tempo estranho e cativante.

Uma coisa que se nota logo de cara se você já teve contato com algum trabalho anterior do Jerry Paper é que ele soa muito menos bizarro. Ainda tem aquela cara de coisa estranha típica do artista mas a esquisitice fica por conta do ar retrô que a maioria das músicas carrega e menos pelo experimentalismo exagerado nos arranjos. Todas as estruturas das músicas são calcadas em gêneros que tem cara de épocas muito características como a bossa nova e o jazz mais comercial dos anos 50, a música de elevador e um pouco do synthpop dos anos 80 e jingles de produtos domésticos dos primórdios da tv americana, representados de forma bem caricata através dos synths e longe da sofisticação experimental do álbum anterior.

Fiquei um bom tempo tentando pensar num bom jeito de definir esse álbum e o melhor que consegui foi imaginar alguém dando um rolê no shopping pra reclamar do capitalismo no twitter. A sonoridade das músicas como um todo é bastante familiar e agradável, quase inofensiva, e parece algo que você encontraria como música ambiente enquanto procura a praça de alimentação. Ao mesmo tempo em que os arranjos e melodias são bastante agradáveis, temos letras que criticam o capitalismo tardio de forma irônica e o melhor exemplo disso está em “Did I Buy It?” que usa um pop simples e confortável pra criticar até que ponto somos nós que decidimos o que consumimos ou se apenas seguimos o que nos é sugerido.

O momento mais ousado em termos de forma musical é “Something’s Not Right” que usa a estrutura simples de músicas que tocariam num bar de coquetéis chique e dá uma pirada com solos de órgão eletrônico típicos do jazz fusion numa faixa que não chega a ter dois minutos de duração, demonstrando toda a capacidade do artista de criar complexidade mesmo dentro de formas simples e rígidas. A letra aqui novamente usa da ironia ao comentar banalidades pra escancarar os absurdos de uma vida movida pelo dinheiro.

O tempo todo o álbum joga com a ideia de se aproximar e alienar da realidade e “More Bad News” que fecha o trabalho brinca muito bem com isso por ser um crooning sentimental típico dos cantores do começo da era do rádio mas que te coloca no estado de apatia que a letra pede, começando com a preocupação de ver ao tempo todo novas notícias ruins que de tanto se repetirem já não causam impacto algum e isso se reflete no instrumental que vai ficando cada vez mais distante até que você deixe de se importar com o que é cantado.

A maior sacada de Like A Baby é usar de sonoridades fáceis de digerir pra falar verdades que você não quer ouvir. Jerry Paper aqui deixa um pouco de lado a sua própria excentricidade pra expor o quão bizarra é a época em que vivemos.

OUÇA: “Grey Area”, “Did I Buy It?”, “My God” e “More Bad News”

Ólafur Arnalds – re:member


Em 2001, o escritor e jornalista Fábio Massari publicou, pela editora Conrad, Rumo à Estação Islândia, um híbrido de diário, guia de viagem e caderno cultural, que mostrava já no título certo grau de subversão ao parodiar Rumo à Estação Finlândia, petardo marxista do crítico norte-americano Edmund Wilson. O livro de Massari propunha-se a fazer um apanhado informal e despretensioso sobre a cena musical da Islândia, da pulsão punk operária da década de 70 até os minimalismos conceituais da música pop no final da década de 90. Rumo à Estação Islândia é interessante na medida em que apontava essa ilhota gelada na beirada do Circulo Polar Ártico como um centro cosmopolita e irradiador de música e cultura, como foi Seattle para o grunge, a Inglaterra para o brit-pop, e o estado de Pernambuco para o manguebeat.

A cena islandesa, dezessete anos depois, parece bem menos distante da praça global, podendo ser acompanhada com apenas um click. Com a crise na indústria fonográfica gerada pelo compartilhamento de arquivos, os streamings, o advento da informação e as redes sociais, a terra gelada e escura da pequena notável Björk sedimentou-se como um dos lugares mais interessantes quando o assunto é música. Nem mesmo a forte crise econômica que se abateu sobre o país em 2008 deslocou a Islândia de sua epítome de tudo o que é cool, cosmopolita e contemporâneo.

Na realidade, esse efeito de misticismo da Islândia também caiu por terra: descobriu-se que lá não se fazia apenas sons melancólicos e contemplativos, mas também música de várias vertentes. Artistas e bandas como Björk, Sugarcubes, Emiliana Torrini, Sigur Rós, Gus Gus, Arnór Dan, Sóley, Vök, Ásgeir, Muginson, Krauka, Kiasmos, oferecem um depoimento da variedade de sonoridades possíveis do país de origem do Nobel de Literatura Halldór Laxness, do poeta Sjón e do Montanha, de Game Of Thrones.

É nesse contexto de facilidades que se insere Re:member, novo trabalho do compositor e multi-intrumentista Ólafur Arnalds. Como seus conterrâneos Björk, Sigur Rós e Sóley, e diretamente influenciado por Steve Reich, Nico Muhly e Yann Tiersen, Ólafur também opta por uma sonoridade instrumental e experimental, que parece transmitir a atmosfera nublada e primordial dos campos de lava de seu país. No entanto, diferentemente do belo For Now I am A Winter, de 2013, a sonoridade de Re:member está calcada em timbres, texturas e fraseados de piano mais exatos e límpidos como cristais de gelo, ainda que predominantemente melancólicos.

Assim, a linda faixa-título abre o álbum, fraturando-se em dois movimentos: a primeira parte, com pianos e orquestrações reflexivas, e uma segunda, mais ágil e emulando um minimalismo clássico. A cartunística “Unfold”, que vem logo em seguida, poderia estar na trilha de algum filme indie fofinho indicado ao Oscar, tipo Juno ou Pequena Miss Sunshine. A transparência de “Brot”, com suas modulações gélidas de cordas, abre caminho para a grave “Ypsilon”, composta em uma linha de beats massudos e soturnos. A única ressalva ao álbum diz respeito à uniformidade de algumas faixas: “Saman”, “Momentary” e “Nyepi” são muito semelhantes entre si. Outros destaques são “They sink”, “Partial” e “Undir”.

Re:member é um bom álbum, dentro da sonoridade proposta por Ólafur desde seu primeiro trabalho, Eulogy for Evolution, de 2007. E dá o seu recado, numa época em que os sons da Islândia, diferentemente das décadas de 90 e 2000, estão ali, na próxima esquina.

OUÇA: “Re:member”, “Unfold”, “Brot”, “They Sink” e “Ypsilon”.

Oneohtrix Point Never – Age Of


Os meandros da arte são inconstantes, desconhecidos, ora acalentadores, ora agressivos. Esses adjetivos parecem muito bem colocados quando nos referimos ao mundo lúdico das narrativas fantásticas, isto é, quando deparamos com aventuras de príncipes prometidos entremeio reinos de escuridão. Mas o que música e a fantasia literária tem a ver? Tudo. E ouse convencer Daniel Lopatin, o nome por detrás do projeto eletrônico-experimental Oneohtrix Point Never, do contrário. Sua extensa discografia, já composta de dez assinaturas, comprova que Daniel é um obstinado mago em busca de uma chamada música abstrata, o seu reino procurado. Age Of (2018) é o novo capítulo dessa saga. E dessa vez Daniel parece trilhar veredas mais ensolaradas, uma assunção bastante óbvia dado o denso, apocalíptico, mas genial antecessor Garden Delete (2015).

Age Of aparenta ser um disco de cisões. Há a incorporação de colaboradores mais pop-friendly e uma presença mais contundente da voz humana como um instrumento de incursão, agora tão importante quanto o clavecino (é de coisas como essas que estamos falando quando nos referimos ao portfólio do OPN) e dos incontáveis sintetizadores. Mas ainda assim, de algum modo, a opção de trazer estruturas mais assimiláveis em suas músicas não propõe previsibilidade alguma. E nesse sentido, também é possível falar em quebras. Se há uma linearidade na obra toda, essa certamente é o caos. Os pedaços do álbum são dotados de rebeldias particulares, inconciliáveis ao todo, traduzidas por sons dissonantes, reverberações de objetos no espaço e demais sensações que atuam no limite de escape da compreensão. Um bom exemplo disto é faixa We´ll Take It. Como experiência, o disco parece em nenhum momento permitir que o ouvinte se anteponha, ou presuma com alguma assertividade o que vai acontecer; desta forma, paradoxalmente a escolha de uma estética mais “concreta”, ONP promove confusão generalizada. Esse é o mundo mágico abstrato arquitetado e imaginado por Lopatin.

ONP vaga, porém simultaneamente não vaga sem rumo. A faixa myriad.industries, a mais curta do álbum, é um acrônimo de My Record = Internet Addiction Disorder, o que aliado a declarações do próprio artista sobre o tema (mesmo satiricamente) indica que a abstração em Age Of tem cores de uma distopia, uma possível crítica a forma como a música é consumida nos dias de hoje, ou de uma maneira mais genérica, critica a forma como se vive. Se tomarmos esse enfoque, a ansiedade projetada pelo disco para o ouvinte é parelha, talvez, aquela suscitada por esse modo de vida “aprisionador”.  Se é de fato essa a intenção, poucos são os elementos visíveis dentro da obra que levam a alguma conclusão. Daí o fascínio e desagrado da abstração procurada pelo Oneohtrix em Age Of.

De todo modo, Daniel Lopatin traz uma obra desafiadora, mas menos densa e um pouco menos completa que aquela representada pelo disco anterior. A fragmentação entre treze faixas e falta de coerência entre as mesmas frente a um conceito não muito bem estipulado acaba tornando alguns dos estímulos criados pelo álbum pouco significativos. É difícil entender o que se pode assimilar pessoalmente a partir de Age Of, mas o seu grande mérito passa pela sua capacidade de, a partir de seu escutar, dissolução do real. Completada a travessia para os domínios do disco, o que nos deparamos lá talvez seja a o arquétipo do processo criativo de Daniel, ou uma releitura sobre o problema do vício da internet. Tudo parece muito mais impressão, como encerra a faixa Last Known Picture Of A Song (o ponto alto do disco). Ao final, dado o jeito fantasioso, Age Of não se trata do que é, mas sim o que pode ser.

OUÇA: “Last Known Picture Of A Song” e “We’ll Take It”

Grouper – Grid Of Points


Liz Harris não lançava um álbum sob o nome de Grouper, pelo qual é mais conhecida, desde 2014. Ao longo desse período, a artista focou em EPs e colaborações, e, embora esses trabalhos apresentassem marcas indiscutíveis de sua sonoridade, serviram mais para abrir o apetite dos fãs para um novo disco. Se você é uma dessas pessoas, é bem possível que Grid Of Points tenha se revelado uma decepção.

Não que o álbum seja ruim, muito longe disso, mas porque o próprio ato de chamar de álbum é quase uma demonstração de boa vontade. Grid Of Points tem apenas 21 minutos, ou seja, metade da duração que os anteriores lançados por Grouper. Digamos que você chega em casa depois de um longo dia, coloca o álbum para tocar, e vai preparar sua janta, ou deitar no sofá para relaxar, ou ler um livro. Antes da comida ficar pronta ou de terminar o primeiro capítulo, o álbum acaba, de forma abrupta e deixa aquele gosto de quero mais.

Porque tudo que atrai quem gosta de Grouper está aqui. São canções bem desenvolvidas, com foco para voz e o piano, que criam atmosferas envolventes. A sensação de ouvir Grid of Points é a de atravessar uma densa floresta, ou a de encarar o mar. Os vocais de Harris, em muitas das faixas, chegam mesmo a ter aquele efeito ondulante de idas e vindas. De intensidades que se elevam e se desfazem. A melancolia que marca a obra da artista está presente com mais força do que nunca. E chega até a ser ainda mais impactante quando aliada a títulos como “Thanksgiving Song” e “Birthday song”, que remetem a datas festivas.

Harris usa sua voz como instrumento, o que deixa as letras de suas composições em segundo – ou terceiro, ou quarto… – plano, mas que nunca parece forçado. Grid Of Points encaixa bem com as obras anteriores de Grouper, especialmente com Ruins, seu antecessor direto. Chega a ser recomendável ouvir em conjunto com esse outro álbum, pois, caso contrário, aquela sensação de insatisfação pode prevalecer. E vamos esperar que não tenhamos que esperar mais quatro anos para ver o qu

OUÇA: O álbum todo, não vai demorar muito.