Jerry Paper – Like A Baby


O multi-instrumentista Lucas Nathan é uma daquelas figuras que a gente não sabe se é realmente um cara esquisito ou se está constantemente tirando sarro da nossa cara. Seus primeiros trabalhos eram carregados de sarcasmo e ironia, usando elementos do synthpop e da música de videogame pra fazer piadas autodepreciativas. Like A Baby continua na pegada mais conceitual introduzida pelo artista em Toon Time Raw! de 2016 e é ao mesmo tempo estranho e cativante.

Uma coisa que se nota logo de cara se você já teve contato com algum trabalho anterior do Jerry Paper é que ele soa muito menos bizarro. Ainda tem aquela cara de coisa estranha típica do artista mas a esquisitice fica por conta do ar retrô que a maioria das músicas carrega e menos pelo experimentalismo exagerado nos arranjos. Todas as estruturas das músicas são calcadas em gêneros que tem cara de épocas muito características como a bossa nova e o jazz mais comercial dos anos 50, a música de elevador e um pouco do synthpop dos anos 80 e jingles de produtos domésticos dos primórdios da tv americana, representados de forma bem caricata através dos synths e longe da sofisticação experimental do álbum anterior.

Fiquei um bom tempo tentando pensar num bom jeito de definir esse álbum e o melhor que consegui foi imaginar alguém dando um rolê no shopping pra reclamar do capitalismo no twitter. A sonoridade das músicas como um todo é bastante familiar e agradável, quase inofensiva, e parece algo que você encontraria como música ambiente enquanto procura a praça de alimentação. Ao mesmo tempo em que os arranjos e melodias são bastante agradáveis, temos letras que criticam o capitalismo tardio de forma irônica e o melhor exemplo disso está em “Did I Buy It?” que usa um pop simples e confortável pra criticar até que ponto somos nós que decidimos o que consumimos ou se apenas seguimos o que nos é sugerido.

O momento mais ousado em termos de forma musical é “Something’s Not Right” que usa a estrutura simples de músicas que tocariam num bar de coquetéis chique e dá uma pirada com solos de órgão eletrônico típicos do jazz fusion numa faixa que não chega a ter dois minutos de duração, demonstrando toda a capacidade do artista de criar complexidade mesmo dentro de formas simples e rígidas. A letra aqui novamente usa da ironia ao comentar banalidades pra escancarar os absurdos de uma vida movida pelo dinheiro.

O tempo todo o álbum joga com a ideia de se aproximar e alienar da realidade e “More Bad News” que fecha o trabalho brinca muito bem com isso por ser um crooning sentimental típico dos cantores do começo da era do rádio mas que te coloca no estado de apatia que a letra pede, começando com a preocupação de ver ao tempo todo novas notícias ruins que de tanto se repetirem já não causam impacto algum e isso se reflete no instrumental que vai ficando cada vez mais distante até que você deixe de se importar com o que é cantado.

A maior sacada de Like A Baby é usar de sonoridades fáceis de digerir pra falar verdades que você não quer ouvir. Jerry Paper aqui deixa um pouco de lado a sua própria excentricidade pra expor o quão bizarra é a época em que vivemos.

OUÇA: “Grey Area”, “Did I Buy It?”, “My God” e “More Bad News”

Ólafur Arnalds – re:member


Em 2001, o escritor e jornalista Fábio Massari publicou, pela editora Conrad, Rumo à Estação Islândia, um híbrido de diário, guia de viagem e caderno cultural, que mostrava já no título certo grau de subversão ao parodiar Rumo à Estação Finlândia, petardo marxista do crítico norte-americano Edmund Wilson. O livro de Massari propunha-se a fazer um apanhado informal e despretensioso sobre a cena musical da Islândia, da pulsão punk operária da década de 70 até os minimalismos conceituais da música pop no final da década de 90. Rumo à Estação Islândia é interessante na medida em que apontava essa ilhota gelada na beirada do Circulo Polar Ártico como um centro cosmopolita e irradiador de música e cultura, como foi Seattle para o grunge, a Inglaterra para o brit-pop, e o estado de Pernambuco para o manguebeat.

A cena islandesa, dezessete anos depois, parece bem menos distante da praça global, podendo ser acompanhada com apenas um click. Com a crise na indústria fonográfica gerada pelo compartilhamento de arquivos, os streamings, o advento da informação e as redes sociais, a terra gelada e escura da pequena notável Björk sedimentou-se como um dos lugares mais interessantes quando o assunto é música. Nem mesmo a forte crise econômica que se abateu sobre o país em 2008 deslocou a Islândia de sua epítome de tudo o que é cool, cosmopolita e contemporâneo.

Na realidade, esse efeito de misticismo da Islândia também caiu por terra: descobriu-se que lá não se fazia apenas sons melancólicos e contemplativos, mas também música de várias vertentes. Artistas e bandas como Björk, Sugarcubes, Emiliana Torrini, Sigur Rós, Gus Gus, Arnór Dan, Sóley, Vök, Ásgeir, Muginson, Krauka, Kiasmos, oferecem um depoimento da variedade de sonoridades possíveis do país de origem do Nobel de Literatura Halldór Laxness, do poeta Sjón e do Montanha, de Game Of Thrones.

É nesse contexto de facilidades que se insere Re:member, novo trabalho do compositor e multi-intrumentista Ólafur Arnalds. Como seus conterrâneos Björk, Sigur Rós e Sóley, e diretamente influenciado por Steve Reich, Nico Muhly e Yann Tiersen, Ólafur também opta por uma sonoridade instrumental e experimental, que parece transmitir a atmosfera nublada e primordial dos campos de lava de seu país. No entanto, diferentemente do belo For Now I am A Winter, de 2013, a sonoridade de Re:member está calcada em timbres, texturas e fraseados de piano mais exatos e límpidos como cristais de gelo, ainda que predominantemente melancólicos.

Assim, a linda faixa-título abre o álbum, fraturando-se em dois movimentos: a primeira parte, com pianos e orquestrações reflexivas, e uma segunda, mais ágil e emulando um minimalismo clássico. A cartunística “Unfold”, que vem logo em seguida, poderia estar na trilha de algum filme indie fofinho indicado ao Oscar, tipo Juno ou Pequena Miss Sunshine. A transparência de “Brot”, com suas modulações gélidas de cordas, abre caminho para a grave “Ypsilon”, composta em uma linha de beats massudos e soturnos. A única ressalva ao álbum diz respeito à uniformidade de algumas faixas: “Saman”, “Momentary” e “Nyepi” são muito semelhantes entre si. Outros destaques são “They sink”, “Partial” e “Undir”.

Re:member é um bom álbum, dentro da sonoridade proposta por Ólafur desde seu primeiro trabalho, Eulogy for Evolution, de 2007. E dá o seu recado, numa época em que os sons da Islândia, diferentemente das décadas de 90 e 2000, estão ali, na próxima esquina.

OUÇA: “Re:member”, “Unfold”, “Brot”, “They Sink” e “Ypsilon”.

Oneohtrix Point Never – Age Of


Os meandros da arte são inconstantes, desconhecidos, ora acalentadores, ora agressivos. Esses adjetivos parecem muito bem colocados quando nos referimos ao mundo lúdico das narrativas fantásticas, isto é, quando deparamos com aventuras de príncipes prometidos entremeio reinos de escuridão. Mas o que música e a fantasia literária tem a ver? Tudo. E ouse convencer Daniel Lopatin, o nome por detrás do projeto eletrônico-experimental Oneohtrix Point Never, do contrário. Sua extensa discografia, já composta de dez assinaturas, comprova que Daniel é um obstinado mago em busca de uma chamada música abstrata, o seu reino procurado. Age Of (2018) é o novo capítulo dessa saga. E dessa vez Daniel parece trilhar veredas mais ensolaradas, uma assunção bastante óbvia dado o denso, apocalíptico, mas genial antecessor Garden Delete (2015).

Age Of aparenta ser um disco de cisões. Há a incorporação de colaboradores mais pop-friendly e uma presença mais contundente da voz humana como um instrumento de incursão, agora tão importante quanto o clavecino (é de coisas como essas que estamos falando quando nos referimos ao portfólio do OPN) e dos incontáveis sintetizadores. Mas ainda assim, de algum modo, a opção de trazer estruturas mais assimiláveis em suas músicas não propõe previsibilidade alguma. E nesse sentido, também é possível falar em quebras. Se há uma linearidade na obra toda, essa certamente é o caos. Os pedaços do álbum são dotados de rebeldias particulares, inconciliáveis ao todo, traduzidas por sons dissonantes, reverberações de objetos no espaço e demais sensações que atuam no limite de escape da compreensão. Um bom exemplo disto é faixa We´ll Take It. Como experiência, o disco parece em nenhum momento permitir que o ouvinte se anteponha, ou presuma com alguma assertividade o que vai acontecer; desta forma, paradoxalmente a escolha de uma estética mais “concreta”, ONP promove confusão generalizada. Esse é o mundo mágico abstrato arquitetado e imaginado por Lopatin.

ONP vaga, porém simultaneamente não vaga sem rumo. A faixa myriad.industries, a mais curta do álbum, é um acrônimo de My Record = Internet Addiction Disorder, o que aliado a declarações do próprio artista sobre o tema (mesmo satiricamente) indica que a abstração em Age Of tem cores de uma distopia, uma possível crítica a forma como a música é consumida nos dias de hoje, ou de uma maneira mais genérica, critica a forma como se vive. Se tomarmos esse enfoque, a ansiedade projetada pelo disco para o ouvinte é parelha, talvez, aquela suscitada por esse modo de vida “aprisionador”.  Se é de fato essa a intenção, poucos são os elementos visíveis dentro da obra que levam a alguma conclusão. Daí o fascínio e desagrado da abstração procurada pelo Oneohtrix em Age Of.

De todo modo, Daniel Lopatin traz uma obra desafiadora, mas menos densa e um pouco menos completa que aquela representada pelo disco anterior. A fragmentação entre treze faixas e falta de coerência entre as mesmas frente a um conceito não muito bem estipulado acaba tornando alguns dos estímulos criados pelo álbum pouco significativos. É difícil entender o que se pode assimilar pessoalmente a partir de Age Of, mas o seu grande mérito passa pela sua capacidade de, a partir de seu escutar, dissolução do real. Completada a travessia para os domínios do disco, o que nos deparamos lá talvez seja a o arquétipo do processo criativo de Daniel, ou uma releitura sobre o problema do vício da internet. Tudo parece muito mais impressão, como encerra a faixa Last Known Picture Of A Song (o ponto alto do disco). Ao final, dado o jeito fantasioso, Age Of não se trata do que é, mas sim o que pode ser.

OUÇA: “Last Known Picture Of A Song” e “We’ll Take It”

Grouper – Grid Of Points


Liz Harris não lançava um álbum sob o nome de Grouper, pelo qual é mais conhecida, desde 2014. Ao longo desse período, a artista focou em EPs e colaborações, e, embora esses trabalhos apresentassem marcas indiscutíveis de sua sonoridade, serviram mais para abrir o apetite dos fãs para um novo disco. Se você é uma dessas pessoas, é bem possível que Grid Of Points tenha se revelado uma decepção.

Não que o álbum seja ruim, muito longe disso, mas porque o próprio ato de chamar de álbum é quase uma demonstração de boa vontade. Grid Of Points tem apenas 21 minutos, ou seja, metade da duração que os anteriores lançados por Grouper. Digamos que você chega em casa depois de um longo dia, coloca o álbum para tocar, e vai preparar sua janta, ou deitar no sofá para relaxar, ou ler um livro. Antes da comida ficar pronta ou de terminar o primeiro capítulo, o álbum acaba, de forma abrupta e deixa aquele gosto de quero mais.

Porque tudo que atrai quem gosta de Grouper está aqui. São canções bem desenvolvidas, com foco para voz e o piano, que criam atmosferas envolventes. A sensação de ouvir Grid of Points é a de atravessar uma densa floresta, ou a de encarar o mar. Os vocais de Harris, em muitas das faixas, chegam mesmo a ter aquele efeito ondulante de idas e vindas. De intensidades que se elevam e se desfazem. A melancolia que marca a obra da artista está presente com mais força do que nunca. E chega até a ser ainda mais impactante quando aliada a títulos como “Thanksgiving Song” e “Birthday song”, que remetem a datas festivas.

Harris usa sua voz como instrumento, o que deixa as letras de suas composições em segundo – ou terceiro, ou quarto… – plano, mas que nunca parece forçado. Grid Of Points encaixa bem com as obras anteriores de Grouper, especialmente com Ruins, seu antecessor direto. Chega a ser recomendável ouvir em conjunto com esse outro álbum, pois, caso contrário, aquela sensação de insatisfação pode prevalecer. E vamos esperar que não tenhamos que esperar mais quatro anos para ver o qu

OUÇA: O álbum todo, não vai demorar muito.

Son Lux – Brighter Wounds


De certa forma, a abordagem do quinto projeto de estúdio de Son Lux parece desafiadora: o som é diferente e por vezes inesperado. A sutil combinação de sintetizadores com a instrumentação orgânica produz, em muitos momentos, efeitos sonoros marcantes e instigantes. Por vezes, as cordas assumem destaque nas músicas, associadas, claro, à voz de Ryan Lott.

Apesar de iniciar com uma introdução instigante e que chama pela construção misteriosa e grandiosa de suas batidas, o projeto parece demorar para encontrar um fluxo estável e mais animador. Em suas primeiras faixas, demonstra ser relativamente monótono, resgatado apenas pelos sutis períodos instrumentais. Muitas vezes, são momentos de produção pontuais que favorecem uma certa percepção diferente das faixas e salvam o álbum da mesmice. Quando chega à metade, parece atingir um certo ponto de curva e evolui para algo mais concreto.

A construção de sons que o álbum explora compila diferentes influências e apresenta claros traços de curadoria do seu fundador. Lott traz elementos clássicos com protagonismo para o violino, por exemplo, que lembra o que certas bandas synthpop, como a libanesa Mashrou’ Leila, já apresentam em projetos recentes, misturando cordas e piano com sintetizadores. Ao mesmo tempo, também chega a possuir uma eletrônica que lembra batidas presentes em canções mais experimentais, como “Girls” de Style of Eye, ou inclusive do australiano Flume. Em faixas como “The Fool You Need”, os elementos parecem dialogar diretamente com o que já era trazido por Flume e Chet Faker em “Drop The Game”, de 2013. Por isso, em alguns períodos, os sons podem parecer familiares demais para impressionar mas, quando bem trabalhados, conseguem surpreender.

O piano e as batidas agudas que se inserem progressivamente em “Labor” criam uma atmosfera de sensações que favorecem o diálogo com o vocal de Lott, para desenvolver outro momento de destaque. Na sequência de “All Directions” e “Aquatic”, a instrumentação acústica se mistura quase que perfeitamente com os sintetizadores para gerar alguns dos momentos mais belos e monumentais do projeto. Ao mesmo tempo, analisando parte das letras, percebemos que a instrumentação está fortemente associada à tonalidade densa do liricismo. Muitas das estruturações dialogam com uma forte densidade emocional, o que acaba por ser transmitido aos sons e em certos contextos chega a simular uma certa liberação emocional. A parcela final de “All Directions” ajuda a traduzir literalmente o nome da música, uma vez que os golpes do sintetizador associados à melodia parecem, de fato, ir em muitas direções. Nesse sentido, há uma complementação para criar um efeito em quem escuta. Ao final de “Surrounded”, por exemplo, cria-se uma atmosfera pesada pela progressão estritamente eletrônica com batidas constantes.

A escrita não é particularmente entediante, e favorece em dar maior coesão ao álbum no geral, uma vez que evidencia uma temática mais obscura e explica o por quê de certos momentos serem mais carregados e até abafados. O complemento é a voz delicada e característica que sustenta quase todas as músicas, adicionando um tom de certa melancolia.

Brighter Wounds parece ter mais sentido quando analisado em sua totalidade: letras pesadas associadas a sons ricos e instigantes, que geram uma contextualização energética e sensorial de carregamento e liberação necessária, mas que parecem se perder em certos momentos e cair na repetição ou tédio. De qualquer maneira, o disco possui grandes momentos de euforia e êxtase, principalmente em torno da parte eletrônica, em que as batidas parecem ser moldadas à vontade de quem produz e se encaixam aos outros complementos. Parece haver um sentido simples e direto no próprio título: instrumentação e letra dialogam pelas grandes vibrações e certa luminosidade da primeira, com e melancolia relatada na segunda.

OUÇA: “Forty Screams”, “All Directions” e “Aquatic”

Lindstrøm – It’s Alright Between Us As It Is


Antes de entrarmos na análise do álbum propriamente dito, entenda: os álbuns de Hans-Peter Lindstrom são envoltos em um conceito central, querendo passar ao ouvinte uma história que vai se desenrolando da primeira à ultima música. E isso se mantém com It’s Alright Between Us As It Is.

A afirmação-título do álbum já nos fornece uma prévia do que virá a seguir: o clássico discurso de que tudo está bem do jeito que está, afinal, “não se mexe em time que está ganhando”, não é? Hans-Peter não concorda com isso. As músicas instrumentais nos imergem em uma atmosfera crescente de ansiedade, como se estivéssemos em alguma discussão ou briga.

O ápice dessa D.R. musical é quando surge uma música com vocal. Das 3, destacam-se duas: “Shinin”, que propõe a ignorarmos o que aconteceu e seguirmos juntos, e a (genial) “But Isn’t It”, quando entendemos que um dos lados desse diálogo não concorda que está tudo bem. Dentre as instrumentais, “Drift” é talvez o ponto alto, quebrando uma sequência ascendente de sentimentos para logo em seguida iniciar outra. A briga (que estamos acompanhando desde a primeira música) não acabou.

Recomendadíssimo para aquelas longas horas de trânsito, o sétimo álbum do produtor norueguês, após quase cinco anos do último, nos fornece uma mistura de sentimentos e sensações, tudo isso graças ao uso impecável de diferentes instrumentos que culminam em uma viagem (quase que no sentido do uso de drogas mesmo) que tive o prazer de embarcar.

OUÇA: “But Isn’t It”, “Drift” e “Shinin”

Four Tet – New Energy


Em quase duas décadas de trabalho, Kiera Hebden – o nome por trás do Four Tet – transitou entre os mais diversos estilos musicais com o seu som abstrato e experimental. Remixou artistas do pop, do indie e do folk, trouxe a música indiana para o seus dubs e se inspirou no house em faixas mais animadas.

O seu nono disco, New Energy, é de fato uma revitalização de toda a sua trajetória até aqui, uma releitura própria de seus trabalhos e estilos que foram moldados. “Alap” e “Two Thousand Seventeen” iniciam o álbum com forte presença de sons de raga, influência das próprias raízes maternas, onde as cordas se mesclam com um dub mais complexo e se extendem por quase seis minutos na intodução de seu trabalho.

“LA Trance”, como o próprio título sugere, carrega um tom progressivo das influências do estilo e também do techno nas composições de Kiera, se tornando uma das faixas que mais se destacam no trabalho. “Tremper” abusa um pouco mais das ambiências e é uma intermissão quase silêncioso dentro do disco.

“Scientists”, “SW9 9SL” e “Memories” – em seus respectivos postos – são as faixas mais corridas do disco. As repetições marcantes se mesclam com sons orgânicos de cravos e sinos também sempre presentes no trabalho de Kiera. Enfim, “Daughter” é a única música que realmente se aproveita do uso dos vocais para sustentar a melodia, vocais que se repetem em uma espécie de ritualistica extremamente confortável e relaxante, se extendendo a faixa “Gente Soul”, outro momento mais silencioso.

Mas Kiera deixou o melhor para o final, “Planet” sintetiza todo o disco em seus quase sete minutos de puro minimalismo. Baixos, um vocal transcedental e sinos marcam o tempo e dão o gás final que o disco prometeu em suas treze faixas anteriores.

OUÇA: “Planet” e “SW9 9SL”.

Widowspeak – Expect The Best


Você pega o mesmo ônibus todos os dias. Para a escola, para a faculdade, para o trabalho. Sempre pelo mesmo caminho. Nas primeiras vezes, você olha pela janela, escuta a conversa dos passageiros, presta atenção em tudo.Pode ser porque você acabou de entrar na adolescência e finalmente está fazendo um trajeto longo por conta própria. Pode ser porque mudou de cidade por causa do trabalho e está tentando assimilar o espaço que te cerca. Mas os anos passam. Aos poucos você deixa de ligar para os arredores. Sente que já conhece aquilo como a palma da sua mão. Ver a mesma paisagem, dia após dia, pela janela do ônibus não é uma experiência marcante. Por mais que a vista que tem de lá seja incrível. Que seu ônibus passe na frente da Torre Eiffel ou pela praia de Ipanema. Tudo aquilo se torna um ruído de fundo para a narrativa da sua vida, e você tem preocupações maiores. Pode estar lendo um livro para a prova da faculdade, ouvindo um podcast para relaxar depois do trabalho. Você fecha os olhos e ignora a paisagem além da janela. Isso faz dela menos interessante do que ela era naqueles primeiros dias?

Widowspeak continua o trajeto que já iniciara com seu disco anterior, All Yours, e continua a se afastar dos sons incidentais de natureza. Se, antes, era comum escutar, por baixo de todos os instrumentos, o ruído de algum animal, de água corrente ou vento nas folhas de árvores, Expect the Best ignora completamente esses elementos que constituíam a identidade da banda. E isso aconteceu de forma progressiva, praticamente sem percebermos. Enquanto pegávamos o mesmo ônibus todos os dias, a cidade arborizada da nossa infância foi se urbanizando. Não existem mais animais andando por aí, e o verde diminuiu bastante. Foi substituído por casas modernas, de arquitetura angular, como os tons minimalistas que tomam conta desse novo álbum. A banda se reduziu aos seus elementos mais básicos, aquilo que é primordial a toda banda de indie e/ou rock. Assim como a arquitetura das grandes cidades, que vemos pela janela no nosso trajeto, é cada vez mais ocupada por concreto e vidro.

Mas nem tudo muda, pelo menos nem tão rápido assim. Afinal de contas, continuamos reconhecendo a paisagem como a mesma de sempre; caso contrário, voltaríamos a nos surpreender com ela. Por isso continuam ali os vocais etéreos do dream pop do começo da carreira da banda. Os acordes iniciais de “When I tried” vão soar familiares para qualquer pessoa que ouviu os discos anteriores com alguma atenção, o riff de guitarra aparece igual ou em forma semelhante. Não é um autoplágio, é só um tema recorrente. Como aquele prédio tombado com que cruzamos todos os dias, não pode ser alterado. Ou talvez seja só uma obsessão sonora.

O que Widowspeak perdeu de ambiente, ganhou de onírico. Ouvindo esse álbum é quase surpreendente que David Lynch não os tenha convidado para aparecer em Twin Peaks, como fez com Au Revoir Simone, pois a sonoridade é ainda mais reminiscente da estética do diretor. Muitas das canções parecem até mesmo ter sido gravadas com bpm que foi depois reduzido, um truque recorrente para causar esse tipo de atmosfera. Mas, ouvindo com cuidado, percebemos que não, que a banda continua na velocidade normal, que sempre tiveram, mas que a produção crua causa essa impressão.

Expect the Best é como aquela paisagem. Algumas coisas mudam. Outras ficam iguais. E, não importa o quão interessante for, vai continuar sendo só música de pano de fundo. Mas melhor assim do que o flerte com o pop de All Yours. Se o álbum anterior sim merece ser esquecido, esse é uma volta às origens, ao menos no quesito qualidade, e só por isso já merece uma audição.

OUÇA: “The Dream”, “Right On” e “Fly On The Wall”.

Moon Duo – Occult Architecture

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Erik “Ripley” Johnson (Wooden Shjips) e Sanae Yamada lançaram nesse ano, em duas parte, o seu mais novo trabalho, o Occult Architecture. Este, com a proposta de ser um álbum conceitual, vêm agregar mais ótimos ritmos chapados para a discografia.

Como explicitado no site oficial da dupla, o novo álbum – separado em duas partes – é sobre o que existe entre/na passagem das estações e da dinâmica dia/noite, luz/escuridão, o yin-yang.

Além das capas serem apropriadas para os discos, seus lançamentos foram estrategicamente planejados: o primeiro volume – a escuridão, yin foi lançado no inverno no hemisfério Norte; o segundo – a luz, yang – foi lançado na primavera, simbolizando o surgimento de uma nova vida, ou seja, o fim das “trevas” e início de outro ciclo.

Os dois membros da banda resolveram fazer um álbum nessa dicotomia porque eles mesmos sentiram essas energias ao compor as músicas. E nós conseguimos perceber como a atmosfera muda ao ouvir os diferentes “volumes”. Além do que, segundo eles, na época também estavam em contato com a literatura obscura, dita por alguns como sendo “do capeta” porque são subversivas da ordem e pensamento vigente, mas que qualquer um sabe que rende sempre boas composições: vários escritores, e dentre eles, Aleister Crowley.

Dessa forma, não podemos entender que um lado é “do mal” e outro “do bem”. A teoria chinesa e os dois discos não simbolizam isso. Eles retratam um ciclo que está presente na vida, no dia-a-dia, e que a princípio vive em harmonia.

O primeiro disco não vive somente da fantasmagórica “Will Of The Devil” também existe a oitentista “Cross-Town Fade”, que com certeza poderia ser inserida na famosa dança do filme The Breakfast Clube (O Clube dos Cinco). Bem como Lost In Lightdo segundo nos traz uma inevitável melancolia de redenção. O que talvez alguns não encaixariam no bom, porque vêm esse sentimento como sendo o da felicidade gritante plena.

Moon Duo nos dá dois conjuntos de músicas longas, conceituais – não pense em Pink Floyd nesse momento -, mas com ideias não tão boas quanto seus dois trabalhos anteriores, Circles (de 2012, que com certeza é o melhor trabalho deles) e Shadow Of The Sun (2015). E os dois discos não estão balanceados. O primeiro agrada muito mais do que o entediante segundo. Então, cadê o equilíbrio? Durante a audição é inevitável não ter vontade de voltar para o Vol. 1.

Apesar de tudo isso, e do fato de ser uma questão largamente abordada na música, literatura, cinema, arte em geral, a dicotomia do bom/ruim, luz/escuridão, ciclos e outras denominações provavelmente jamais deixará de render bons frutos. Porque é inerente à vida. Quando percebemos isso, a roda que gira e nos traz boas novas depois de passarmos por momentos miseráveis, e depois nos devolve ao léu, essa cósmica toma grandes proporções de identificação nas pessoas. É uma energia – ou troca de energias – que tem grande impacto. A partir dessa sensibilidade, ao olharmos as capas desses discos, nos reconheceremos naqueles caminhos ao centro dos desenhos.

OUÇA: “Cross-Town Fade”, “Creepin’” e “Lost in Light”.

Parov Stelar – The Burning Spider

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Parov Stelar não é um artista fácil para todos. Considerado uma das mais importantes referências para o eletroswing do mundo, o DJ e produtor austríaco iniciou a carreira tocando em baladas ainda nos anos 90, para em 2001 lançar o seu primeiro disco, o Shadow Kingdom. Foram 14 discos lançados – entre coletâneas e lives – até aqui com o The Burning Spider. As novidades são tantas que, até para um fã como eu, fica difícil acompanhar o que ele lança.

Decidi começar essa review pela segunda faixa: “Step Two” é um clássico do Parov. Lilja Bloom, sua esposa e parceira de tantos trabalhos passados se faz presente mais uma vez, o que traz um tom de familiaridade para o som. A música é curta e direta, a batida acelerada cresce à partir de violinos que se mesclam aos midis, loopings e à voz bastante sensual de Lilja.

“Cuba Libre” traz samples incríveis da voz de Mildred Bailey, artista conhecida como a rainha do swing nos anos 30. Uma produção que resume basicamente o conceito de eletroswing: dar bases e vida sintética para clássicos dos blues e swing norte americano. “Black Coffe” segue o mesmo caminho, com voz e trompetes de Wingy Manone. Boa parte da diversão do disco e justamente ir atrás dessas referências e conhecer sonoridades incríveis e muitas vezes pouco exploradas, para quem curte, o disco é um prato cheio: Stuff Smith e Lightnin’ Hopkins são outros exemplos presentes.

Já “State of Union”, uma das duas faixas com vocais do Andaluze, é – ou deveria ser – outro ponto alto do disco. O single de divulgação do disco é um pouco exagerado no pop e chega a ficar clichezona. Parov ainda peca um pouco na escolha de seus featurings contemporâneos, o que distoa muito a faixa do resto dos trabalhos.

O disco é uma ótima escolha para o fãs da banda. Talvez não seja, entretanto, a melhor apresentação do Parov. A única certeza é que se trata de um disco animado e peculiar pela sua nostalgia.

OUÇA: “x”, “x” e “x”