Kaiser Chiefs – Duck



O Kaiser Chiefs tem uma trajetória interessante. Despontou com força com seu debut, Employment, em 2005 no auge do post punk revival. Manteve o sucesso comercial com o disco seguinte, Yours Truly, Angy Mob, e viu as vendas diminuírem gradativamente com os discos seguintes. Ressurgiru com Education, Education, Education & War, o disco mais coeso desde o debut. Stay Together, o disco seguinte, foi o pior trabalho que a banda já fez: forçadamente pop, eletrônico, genérico e esquecível. Assim, a notícia de um novo trabalho, o sétimo, veio com uma dúvida: qual direção a banda seguiria? Seria um retorno aos bons trabalhos ou eles manteriam a mediocridade de Stay Together?

Com o primeiro single dessa nova empreitada, “Record Collection”, a dúvida ainda permaneceu, pois a faixa está justamente no meio do caminho entre o eletrônico e o analógico. Foi somente com o segundo single que o Kaiser Chiefs mostrou realmente qual seria o tom de Duck. “People Know How To Love One Another” é o Kaiser Chiefs fazendo o que sabe fazer de melhor: um rock pegajoso, cheio de energia e com um refrão que já nasce clássico com a repetição constante do nome da faixa, mesmo truque que eles já utilizaram com êxito em “Ruby” e “Never Miss A Beat”.

É justamente essa energia que se destaca no restante do disco. Faixas como “Golden Oldies” e “Don’t Just Stand There, Do Something” poderiam facilmente estar em Yours Truly, Angy Mob ou Employment, apesar de que a sonoridade do disco como um todo está muito mais próxima de Off With Their Heads, o não tão bem-sucedido terceiro disco. As conhecidas características da música do Kaiser Chiefs estão todas presentes em Duck: as guitarras, a bateria bem marcada, alguma intervenção eletrônica, os refrãos e a empolgação dos vocais de Ricky Wilson estão todos lá.

Mas não pense que a banda apenas repetiu truques que deram certo no passado. Há uma série de sutis novidades que podem ser citadas: os metais de sopro da terceira faixa, “Wait”, enriquecem muito seu arranjo e a tornam um dos pontos altos do disco; “The Only Ones” se aproxima bastante do rock de arena com o qual o Kaiser Chiefs já havia flertado, mas nunca executado; “Electric Heart” tem nova preocupação e maior cuidado com as harmonias vocais. No fim das contas, esses detalhes fazem com que Duck soe fresco.

Portanto, pode-se dizer que Duck é essa obra que sabe mesclar o que de melhor a banda sempre fez com sutis e boas novidades em sua música. Quem diria que depois do estrago que foi Stay Together, o Kaiser Chiefs voltaria com um bom disco? Pois foi exatamente o que eles fizeram: um bom disco. E a essa altura da carreira não dá para esperar que eles revolucionem a música, mas depois de Duck podemos continuar esperando por bons, divertidos e bem produzidos discos do Kaiser Chiefs.

OUÇA: “Wait”, “Target Market”, “People Know How To Love One Another” e “The Only Ones”

Slaughter Beach, Dog – Safe And Also No Fear



Uma característica marcante do trabalho de Jake Ewald como Slaughter Beach, Dog é a criação de histórias de pessoas quase sempre quebradas e sua relação com o mundo mas, por se tratar de um projeto solo nos primeiros registros, essa diversidadede vivências não se refletia tão bem no instrumental. Para o terceiro álbum do Slaughter Beach, Dog Ewald trouxe como baixista Ian Farmer, seu antigo companheiro de Modern Baseball, Nick Harris do All Dogs e Zack Robbins do Superheaven e o resultado de contar com músicos diferentes no processo de criação foi um álbum em que o aspecto narrativo que o projeto pede soa mais real por ter recebido inputs musicais de outras fontes além do compositor.

Por tratar de histórias de personagens diferentes, cada música é um universo em si próprio e varia de construções mais clássicas e AOR até pitadas de post-punk, mas a cadência folk quase falada dos vocais de Jake Ewald dá coesão ao trabalho.

“One Down” que abre o álbum é um folk rock sentimental sobre viver uma rotina pacata e fazer tudo o que se espera de um adulto funcional e mesmo assim ficar ansioso ao ponto de se encolher no chão de casa. Essa faixa vai crescendo em potência instrumental até quase chegar a uma solução e para, deixando as questões inacabadas como acontece com frequência com problemas da vida real.

“Good Ones” que vem na sequência ameniza através de uma construção de rock alternativo suave uma letra pesadíssima sobre observar alguém destruindo a própria vida no vício. A linha de guitarra e a cadência de baixo e bateria se tornam mais empolgantes à medida que acompanhamos a história dessa pessoa que vai mais e mais fundo no vício como uma forma de esquecer o sofrimento. O ápice disso é o lampejo de um solo de guitarra que começa a se formar mas nunca chega a tomar força conforme você ouve os últimos versos cantando sobre o fim dessa pessoa na sarjeta tendo suas feridas lambidas por um cão.

Perto do fim da primeira parte do álbum, “Black Oak” experimenta com a narrativa ao trazer dois pontos de vista sobre a mesma história. Na primeira metade da música conhecemos um homem que, depois de beber, pega seu carro e enquanto dirige lembra dos poemas que sua amada escreveu para ele num carvalho escuro. Na segunda parte descobrimos quem é a mulher pois enquanto ela trabalhava num café, ela recebe a notícia de que o homem foi encontrado morto depois de bater em um carvalho escuro. Toda a música tem uma cara de country de rádio americano, daquele tipo que se sintoniza no meio da noite na estrada e ajuda a compor a atmosfera durante os quase sete minutos em que ficamos imersos na história.

As primeiras músicas da segunda metade do álbum tem os instrumentais mais pra cima do registro mas sem perder o caráter instrospectivo e reflexivo. Mesmo nas canções mais simples como na canção de amor indie noventista “Tangerine” há lugar para a melancolia com a guitarra que puxa o mood pra baixo quando o refrão está a ponto de explodir antes do solo de guitarra. “Heart Attack” continua na mesma pegada com um instrumental super feliz bem Beatles em começo de carreira pra falar sobre um cara que está tendo um ataque cardíaco depois de alguns dias difíceis.

Safe And Also No Fear usa histórias cotidianas e bastante comuns para observar como reagimos frente a momentos de desesperança desde coisas pequenas como procurar um cigarro no bolso e não encontrar até perder alguém amado de forma trágica. Todos os personagens estão tentando fazer seu melhor para sobreviver e serem pessoas melhores e ainda assim falham, fazendo com que o ouvinte se veja um pouco em cada história. A beleza do álbum está em suavizar a nossa identificação com momentos de sofrimento e falha através de melodias felizes e construções rítmicas nostálgicas que dizem pra gente que não há nada de errado em se sentir mal de vez em quando.

OUÇA: “One Down”, “Black Oak”, “Good Ones” e “Anything”

Violent Femmes – Hotel Last Resort



O Violent Femmes não precisa de mais álbuns para ser lembrado. O caldeirão sonoro apresentado no álbum autointitulado de 1983 — e que se mostrou ainda mais aberto a experimentações líricas e sonoras no religioso Hallowed Ground, de 1984 — já bastaria. A banda de Milwaukee não se parecia exatamente com quase nada rolando na primeira metade dos anos 80 e pavimentou o que hoje se conhece como Folk Punk, com o seu jeito acústico tosco, instrumentos insólitos e urgência nas letras. Mas de lá pra cá, o grupo de Gordon Gano lançou mais oito álbuns. Passou por momentos mais pop, como em The Blind Leading the Naked (1987) e o subestimado Why Do Birds Sing? (1991) até chegar a uma sequência de discos que, ao menos desde a metade dos anos 90, não parecem ter agregado muita relevância à discografia do grupo.

Então, o que há de novo em Hotel Last Resort, décimo álbum de estúdio da banda, lançado no último dia 26 de julho? Praticamente nada. Não é como se fosse um desastre total — o álbum apresenta uma produção mais crua que dá consistência e funciona com a proposta dos Femmes, e há algumas músicas passáveis. Aliás, esse é o principal problema aqui: é um trabalho esquecível, onde até os momentos bacanas se parecem mais com sobras ou músicas pouco inspiradas.

Quando não só ruins mesmo. A abertura “Another Chorus” é um exemplo desse último caso, que até fica na cabeça, só que pela irritação gerada que faz querer que Gano cumpra finalmente o apelo de “please don’t sing another chorus”. Há outros momentos em que o grupo simplesmente não parece ter nada de interessante a dizer. O ápice disso acontece na tentativa fracassada de soar político em “I’m Nothing (Hotel Last Resort)”, com participação do skatista Stefan Janoski; e na completamente desnecessária a cappella “Sleepin’ at the Meetin’”, que facilmente tem a letra mais ridícula do disco.

Há momentos melhores. A faixa-título, com participação do lendário Tom Verlaine (Television), é um dos pontos altos do disco, tanto pela duração mais longa quanto pela sua própria letra. O arranjo percussivo de “I’m Not Gonna Cry” e o diálogo construído na introspectiva “Paris To Sleep” também têm seu valor. A melhor parte do álbum, porém, vem ao final de “God Bless America”, com um breve trecho instrumental que lembra os melhores momentos do grupo no passado.

O Hotel Last Resort do Violent Femmes oferece uma estadia genérica. O som ambiente dele não está descaracterizado, é com certeza a mesma banda seminal, sem querer se tornar jovial à força. Só que é por demais o que exatamente se esperaria. E com faixas que, definitivamente, não são cinco estrelas.

OUÇA: “Hotel Last Resort” e “I’m Not Gonna Cry”

Chance the Rapper – The Big Day



Chance the Rapper, o virtuoso e multitalentoso rapper de Chicago, Illinois, finalmente retornou à cena com o lançamento de seu aguardado debut, batizado de The Big Day, sucessor de Coloring Book, a terceira mixtape do artista que o consagrou entre os grandes nomes do rap internacional e o garantiu três Grammys. 

O rapper havia anunciado alguns meses atrás em suas redes sociais que lançaria seu primeiro álbum no mês de julho deste ano e, posteriormente, revelou a data de lançamento e nome do projeto poucas semanas antes de seu lançamento. Embora não tenha lançado singles para promover o álbum, Chance mobilizou sua presença digital para promovê-lo e para gerar grande expectativa nos fãs, que aguardavam ansiosamente o sucessor de Coloring Book.

No entanto, o tão aguardado The Big Day, longe de representar o crescimento artístico de Chance the Rapper e de ser mais um trabalho inovador do artista, provou ser um álbum decepcionante e muito inferior aos trabalhos que o consagraram no cenário musical contemporâneo. 

Se em Acid Rap, considerada uma das mixtapes mais importantes da década, testemunhamos a inovação e criatividade de um jovem Chance the Rapper (apenas um ano após o lançamento de sua primeira mixtape, 10 Day), e em Coloring Book verificamos o crescimento e versatilidade de um artista que ganhou três Grammys sem vender sequer um disco, em The Big Day somos testemunha de um projeto genérico, confuso e sem apelo aos fãs originais do rapper e a qualquer ouvinte desavisado. 

The Big Day é um álbum longo que conta com 22 faixas que giram em torno do dia do casamento de Chance the Rapper, o “grande dia” – expressão que nos causa ojeriza em terras brasileiras – do artista. As faixas do álbum são alegres, festivas e animadas, adequando-se ao clima festivo de uma festa de casamento. A positividade e entusiasmo de Chance aparecem em todas as faixas e é interessante poder testemunhar um pouco do que esse momento representou a ele.

Contudo, ainda que possamos nos alegrar com as alegrias de Chance the Rapper, The Big Day não é um projeto coeso e sólido. Antes, representa uma coleção de faixas confusas com participações que vão desde Nicki Minaj até Shawn Mendes e que tentam explorar uma diversidade de sonoridades e estilos musicais como R&B dos anos 90, trap, soul, jazz, pop e dance music, mas que apresentam como resultado final um retrato cacofônico de um artista que tenta a qualquer custo se adaptar ao que está em voga no mercado musical, mesmo que isso custe a criatividade, inovação e versatilidade tão característicos de sua persona e de seus trabalhos anteriores.

Se os fãs de Chance de Rapper, nos idos de 2016, pudessem viajar para o futuro e ouvir faixas como “Hot Shower”, “Ballin Flossin”, “Roo” e “5 Year Plan”, todos teriam dificuldade em acreditar que se trataria do mesmo artista que se consagrou com faixas como “Blessings”, “Cocoa Butter Kisses”, “Favorite Song” e tantas outras. 

The Big Day é um projeto decepcionante, pois representa um ponto de regressão no catálogo de um artista que vinha apresentando projetos impecáveis e culturalmente inovadores. O álbum é um longo conjunto de faixas pouco convincentes e esquecíveis que tentam explorar, sem sucesso, as alegrias e momentos memoráveis vividos em uma festa de casamento. The Big Day nos mostra que podemos estar alegres com o momento de vida que Chance the Rapper está vivendo e ao mesmo tempo profundamente tristes pelo lançamento de um projeto tão decepcionante.

OUÇA: “All Day Long”, “Eternal” e “Let’s Go On The Run”

BANKS – III



Jillian Rose Banks, conhecida como Banks, lançou seu terceiro álbum III, sucessor de The Altar (2016) e Goddess (2014), o novo registro possui treze faixas e conta com a colaboração de Bj Burton, Buddy Ross, Hudson Mohawke e Francis and The Lights. Em linhas gerais, o registro caminha pelo R&B, Trap e o Pop, evidenciando a transição de Banks, o seu processo de amadurecimento/crescimento e a vontade de explorar – e de arriscar – outros caminhos musicais.

De acordo com Banks, o registro é uma janela que nos permite acessar partes distantes dela e pede para que mergulhemos profundamente em suas músicas. Além disso, a sequência das faixas se encaixa profundamente nesse processo de acesso e mergulho – e Banks alega que sequenciou da forma que ela gostaria de ouvir. Se o objetivo do álbum é mostrar toda a maturidade musical e a profundidade de Banks, podemos dizer que ela não falhou e fez de uma forma bastante genuína.

Através da audição do registro, Banks realmente consegue nos envolver através dos sentimentos expostos presentes em cada faixa, isto é, ela nos puxa para esse mergulho e nos mostra que existem questões em comum, nos conectando em cada momento desse processo. E ao nos guiar durante o mergulho em III, Banks nos permite cantar, dançar, rir, chorar, sensualizar, entre outras reações e ela realmente esperava por isso, ou seja, ela espera aproximar pessoas e fazer com que elas se sintam compreendidas nesse processo. Afinal, música é troca, é conexão e Banks fez isso de um jeito bastante sensível.

Falando em sensibilidade, Banks vivenciou altos e baixos e isso influenciou na construção da narrativa do registro, ou seja, a forma de variar e explorar as sonoridades – seja com piano, sintetizador, vocais, camadas e afins – presentes a cada faixa, bem como os temas explorados – relações, amor, partidas, negação, entrega, dependência – nos mostram o quanto III é sensorial e sensível. Banks mergulhou em seus sentimentos, experimentou outros caminhos e nos trouxe III: um registro que reflete o seu próprio amadurecimento frente às próprias fragilidades e nos convida para esse mergulho profundo em cada parte desse processo íntimo. Enfim, Banks recomendou que mergulhemos profundamente nesse registro e reforço esse pedido.

OUÇA: “Gimme”, “Contaminated”, “Stroke”, “Hawaiian Mazes” e “What About Love”

Hatchie – Keepsake



Harriette Pilbeam, conhecida musicalmente como Hatchie, é uma cantora australiana que lançou seu primeiro álbum completo, Keepsake, agora no primeiro semestre de 2019. Keepsake seguiu o excelente EP Sugar & Spice ano passado e agora veio consolidar o nome de Hatchie de vez.

Seu som aqui continua com a mesma mistura de shoegaze e dream pop que ela havia apresentado em Sugar & Spice e dessa vez eleva os elementos ainda mais. Keepsake caminha livremente entre as baterias eletrônicas, refrões grudentos e as várias camadas de guitarras distorcidas. Não se trata de algo absolutamente novo de forma nenhuma. Essa combinação de shoegaze com eletrônico e pitadas de pc music já foi feita antes por inúmeros nomes, mas Keepsake é um álbum tão gostoso de se ouvir que a falta de originalidade não importa e nem atrapalha em nada.

Suas letras tratam de temas sobre relacionamentos e amores, de forma sempre doce e genuína. Hatchie também faz questão, ao longo dos 45 minutos e dez faixas do álbum, de mostrar toda a sua versatilidade indo das músicas lentas e tristes até as animadas e dançantes. Tudo isso sempre de forma bastante confiante e orgânica.

Hatchie é alguém que cita tanto My Bloody Valentine e Cocteau Twins quanto Carly Rae Jepsen e Kylie Minogue como influências e isso pode ser percebido ao longo do trabalho. Se Sugar & Spice já dava indícios do talento da moça e todo o seu potencial, aqui isso tudo é comprovado e seu som está em sua melhor forma até o momento.

Keepsake, mesmo sem incluir o excelente single ao vivo “Adored”, é um ótimo debut e o começo de uma carreira bastante promissora para a jovem artista australiana.

OUÇA: “Obsessed”, “Without A Blush”, “Keep” e “Stay With Me”

The Black Keys – “Let’s Rock”



Os Black Keys voltaram. Cinco anos após seu último lançamento, Turn Blue, o duo de blues rock de Ohio chega com o incendiário “Let’s Rock”, 9º álbum da banda. Os três primeiros singles apresentados em 2019 (“Lo/Hi”, “Eagle Bird” e “Go”) já mostravam uma proposta mais crua e direta nas novas produções. E, de fato, o que vemos em “Let’s Rock” é um Black Keys mais ácido e marrento do que nunca.

Assim que começamos a ouvir o álbum, imediatamente percebemos o pavio queimar. A abertura é marcada pelo riff penetrante de “Shine A Little Light”, que soa como um lamento agressivo sobre a perda e a morte. As canções, em geral, se destoam liricamente dos enérgicos arranjos de guitarra de Dan Auerbach. Inclusive, “Let’s Rock” é uma ode ao efeito overdrive e a sujeira distorcida do fuzz que acompanham a banda desde seu início.

Arranjos melancólicos surgem em “Walk Across The Water”, que mostra a outra face do álbum. Ora poderoso e mordaz, ora denso e bruxuleante, “Let’s Rock” carrega uma dualidade que só poderia ser transposta em um álbum de blues. A dança é dividida entre 12 faixas distribuídas em 39 minutos e encerra de forma explosiva com “Fire Walk With Me”.

O duo abusa da simplicidade e usa como matéria bruta guitarras cheias de overdrive e fuzz nas faixas. As composições remetem muito ao tempo que precede o Magic Potion, de 2006. Porém, tudo é feito de forma muito mais madura e consciente, e o disco acaba por transmitir uma certa dose de atrevimento em seus acordes.

A estrada e as crises internas entre Dan Auerbach e Patrick Carney parecem ter os forjado para esse momento. Os Black Keys voltaram com a segurança de quem enfrentou seus demônios e voltou para contar a história. E que história.

OUÇA: “Shine A Little Light”, “Tell Me Lies”, “Under The Gun”.

Mark Ronson – Late Night Feelings



Mark Ronson é conhecido por colaborar com grandes artistas como Amy Winehouse, Lady Gaga, Adele, Lily Allen, Miley Cyrus, Queens of the Stone Age e Bruno Mars. Além disso, possui cinco álbuns solo, tendo ficado bastante conecido por seu hit “Uptown Funk”, em parceria com Bruno Mars, do disco Uptown Special. Em seu quinto disco, Ronson decidiu usar somente vozes femininas e apostar num estilo mais voltado pro disco, e acertou em cheio.

Trazendo a sueca Lykke Li como convidada, a faixa-título do disco – “Late Night Feelings” – exemplifica muito bem o conceito do álbum, trazendo um arranjo com pop dançante acompanando a voz melancólia da cantora. “Find U Again” traz a cantora Camila Cabello e a produção de Kevin Parker, do Tame Impala. É válido destacar a presença da cantora YEBBA que está presente em três excelentes faixas: “Knock, Knock, Knock”; “Don’t Leave Me Lonely” e “When U Went Away”. O grande destaque do disco é a parceria com Miley Cyrus, “Nothing Breaks Like A Heart”, que combina o disco com o country característico no estilo da cantora.

Ronson trabalha muito bem a estética dos anos 70 em Late Night Feelings, mas trazendo as sonorizações com economia em músicas que servem muito bem para dançar e combinam também com momentos mais relaxados. O caminho nostálgico seguido pelo produtor encaixou muito bem com a escolha das cantoras e com o tom das composições. Late Night Feelings não traz um hit como “Uptown Funk”, mas é – como um todo – um dos melhores álbuns da carreira de Mark Ronson.

OUÇA: “Nothing Breaks Like A Heart”, “Find U Again”, “Don’t Leave Me Lonely” e “Late Night Feelings”

The Raconteurs – Help Us Stranger



O The Raconteurs foi, durante muito tempo, uma alçada experimental e um projeto paralelo quase que de gaveta do excelentíssimo e talentoso Jack White. Foi uma surpresa, em 2006, quando ele lançou o primeiro disco do quarteto junto com outros nomes como Brendan Benson e dois membros do The Greenhornes, mostrando que podia fazer coisas diferentes do saudoso White Stripes. O Raconteurs ficou em foco durante um tempo para o músico, mas acabou sendo engavetado para dar lugar a sua carreira solo e ao The Dead Weather.

Em 2019, de supetão, eles voltam com o terceiro disco de estúdio, Help Us Stranger, num contexto aonde o estilo musical antigo, com pitadas de blues e garage rock, já não é e não se faz mais tão interessante. E, nesse contexto musical diferente em que estamos hoje, é ainda mais interessante perceber que Jack e companhia sabem muito bem disso e desviam o som do The Raconteurs para algo mais polido e menos sujo, na maior parte do tempo; fazendo adições interessantes e incursões simples para mostrar as novidades.

Help Us Stranger tem poucas coisas que podem se relacionar com os dois álbuns que o precedem, como algumas distorções aqui e ali, ou músicas mais rápidas e enérgicas, mas, essencialmente, é uma redenção a um feijão-com-arroz bem feito e entregue com a tradicional primazia do grupo.

No final das contas, esse terceiro disco vai ser notado como um álbum essencial por marcar a volta do projeto, que eu considero o mais interessante do Jack White, depois de 11 anos. Não possui reinvenções da roda; não possui adições ou mergulhos corajosos, como aconteceu anteriormente; não tem arranjos grandiosos; tampouco mostra Jack White e Brendan Benson em seus momentos de liricistas mais criativos. Help Us Stranger é praticamente um serviço para os fãs e uma desculpa para vê-los em turnê.

O que nos resta aqui é, então, esperar que o foco volte para os Raconteurs; e é praticamente certo que isso vai acontecer, já que eles estão colhendo bons frutos do repentino reaparecimento – turnês lotadas, espaços dignos em festivais internacionais, topos inéditos de paradas e críticas em tons positivos nos sites mais reconhecidos. Vamos aguardar que não se passem mais dez anos para que um projeto tão interessante como esse volte a tona – Jack White mantenha-se ocupado aqui, por favor!

OUÇA: “Bored And Razed”, “Now That You’re Gone” e “Live A Lie”

black midi – Schlagenheim



No contexto atual de como se consome música, sem limites territoriais e físicos pra ouvir qualquer artista, seja ele estourado nas paradas da América, ou isolado no seu quarto no interior da Bélgica, a concepção de nichos musicais começa a perder sentido. Ok ok, talvez pelo menos a sua exclusividade, que é o ponto principal que define esse conceito. E se antigamente cenas inteiras se construíam e desconstruíam fora dos holofotes, hoje em dia só basta que uma ideia interessante atinja as pessoas certas, iniciando um efeito dominó que, só por esse boca-a-boca virtual massivo, leva uma banda esquisita a um público que não só aceita seus trejeitos, como também acaba carregando em si uma parte dessa bizarrice para seus próprios projetos.

Com um show simples em uma sessão da rádio KEXP, a banda britânica black midi chamou atenção por suas estruturas temporais puxadas do post hardcore que, por sua vez, puxou as mesmas do jazz lá no início dos anos 90. Se essa era uma sonoridade que atingia a um nicho limitado na sua época, perpassando por bares e casas de shows pequenas, mas com um público fiel ao movimento, hoje em dia esse gênero possui um “crossover appeal” devido a como suas influências em bandas mais modernas acaba criando interesse em quem quer mais coisas do tipo.

Então, não é de se surpreender que uma banda como black midi assine com uma grande gravadora sem perder aquilo que a faz única. Se, de certa forma, em Schlagenheim, esteticamente a banda puxe muito da ideologia DIY (do it yourself) de seus antecessores, a produção mais detalhada dá espaço para todos os instrumentos respirarem sem atropelar uns aos outros no processo, algo complicado de se fazer mantendo meio termo entre o bagunçado e o polido. Pois mesmo que as músicas estejam organizadas de forma perfeccionista, as mutações pelas quais elas passam estão longe de ser previsíveis.

E esse equilíbrio também é exigido do ouvinte, que pode optar pelas passagens pegajosas e sublimes de “Speedway”, canção que soa mais livre das pretensões de variabilidade estrutural que o resto do álbum, ou pela imprevisibilidade de “Of Schlagenheim” e “Western”, que se utilizam de uma série de dinâmicas de gêneros diferentes, mudando de propósito ao longo de seus percursos, e mantendo sua curiosidade. E mesmo assim, em “bmbmbm”, a banda se utiliza de sua própria pressuposta flexibilidade para brincar com o público, se usando de uma nota pela maior parte da música, sempre quase ao ponto de quebrar, mantendo o interesse e a expectativa de quem já espera um descarrilhamento depois de 6 músicas totalmente voláteis.

A atmosfera criada aqui também tem parte importante na definição de uma sonoridade coesa, já que mesmo que as canções saltem entre diferentes ritmos elas todas possuem uma bateria cirúrgica que complementa qualquer ideia que se infiltra repentinamente, guitarras sincopadas e vocais histéricos que dão uma sensação de desconforto, principalmente na melhor música do álbum, “Near DT, MI”, que junta uma intro voraz com um verso calmo que constrói um suspense que prende o ouvinte até estourar de novo, com vocais e guitarras esquizofrênicas.

Tudo em Schlagenheim possui um charme artístico de coisas que já existiam antes na cena, mas mistura tudo em uma modelagem nova, dando um novo respiro pro gênero e tornando tudo mais interessante devido ao modo imprevisível, cirúrgico e dissonante que se entrega. black midi prova que é possível conciliar uma sonoridade fiel aos seus antecessores, que desconstruíam as estruturas da música em si, e uma produção moderna e palatável para um público maior. É difícil não ficar animado com uma banda dessas, sinceramente.

OUÇA:  “Speedway”, “Near DT, MI”, “bmbmbm”, “953”, “Ducter”