Brvnks – Morri De Raiva



Escutando Morri De Raiva, ou na verdade qualquer outra música de seu primeiro EP Lanches (2016) da Bruna Guimarães, ou Brvnks, fica muito fácil de entender o porquê de a moça ter sido chamada para abrir o show da australiana Courtney Barnett no começo desse ano. Nem precisamos falar sobre a semelhança na voz das duas (evidenciada ainda mais neste excelente cover); o estilo das duas é muito parecido. Simplista, confessional, letras em forma de fluxo de consciência sobre acontecimentos ao seu redor. Uma guitarra distorcida pra juntar tudo. E pronto.

Brvnks é a cantora que a cena indie brasileira estava desesperadamente precisando, seu tipo de música não é muito comum hoje em dia aparecendo aqui. O fato é tanto que a própria Bruna disse em uma entrevista que prefere compor em inglês por que o idioma ‘combina mais’ com a estética do som do que sua língua nativa. Mas ainda sim, a moça usa do português em alguns de seus títulos – como “Tristinha” e o próprio nome do disco.

Morri De Raiva é seu primeiro álbum completo, lançado finalmente agora em maio, e é composto por dez faixas. Que se trata de um excelente trabalho, extremamente coeso e competente não deveria ser surpresa pra ninguém. Há anos a moça já vem se provando como um nome de peso, um nome de respeito. E é exatamente por não surpreender ninguém, mesmo sendo um ótimo disco, que minha nota aqui não foi um pouco mais alta.

O maior defeito de Morri De Raiva está no fato de que, além dos singles “Tristinha”, “Yas Queen” e “Fred”, Brvnks decidiu incluir também regravações de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B. (Freedom Is Just A Name For What I Want You To Be)” de seu primeiro EP, assim como finalmente nos presentear com versões em estúdio de “I Hate All Of You”, “Grey Eyes” (aqui retitulada “Your Mom Goes To College”) e “Lanches” (aqui, “Snacks”). Das dez faixas que compõe o disco, mais da metade já eram conhecidas antes por quem acompanha o trabalho da Bruna. Isso não necessariamente seria uma coisa ruim, se não fosse o fato de que as músicas realmente novas não fossem suas melhores composições até agora.

“I Am My Own Man” e “Tired”, que nunca tinham tido nenhuma versão nem ao vivo lançada ainda, são com certeza os pontos mais altos do disco. ‘I am my own man, I got my own band, I ain’t anyone’s girlfriend‘, Bruna canta sobre guitarras rápidas no melhor estilo Dum Dum Girls. ‘I work all week to hear this fucking shit, your dick is not made of gold‘, ela completa. Uma verdadeira princesa, fada sensata ela.

As composições mais antigas ganham versões novas aqui (e, no caso de “Don’t” e “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B.” perdem um pouquinho de sua força quando comparadas com às do EP), e se tratam de músicas ótimas. Mas a sensação de que quase tudo já foi ouvido antes causa uma leve decepçãozinha. Bem de leve, pois o resultado final ainda é excelente.

Em suas letras, de forma geral, Bruna exorciza todas as suas pequenas (e às vezes nem tão pequenas assim) frustrações e momentos de raiva presentes no dia a dia, coisas que são em sua maioria comuns a todos. Isso é o que torna Morri De Raiva um disco tão memorável. Alguns versos, como ‘I know you’re mad about the Misfits guy in your refrigerator‘ parecem ser direcionados a uma pessoa ou situação específica, e isso apenas instiga o ouvinte ainda mais.

Morri De Raiva é um álbum completo, ilustrando tudo o que Bruna já fez até agora e continua fazendo com maestria. Trata-se de um excelente primeiro disco, de uma mulher que ainda tem muito o que dizer e muito barulho pra fazer.

OUÇA: “I Am My Own Man”, “Tired”, “Don’t”, “Tristinha” e “Yas Queen”

Carly Rae Jepsen – Dedicated



Dedicated é o tão aguardado quarto álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen, seu primeiro depois de ter mudado completamente o jogo e o cenário da música pop com Emotion em 2015. Emotion foi um trabalho que pegou muita gente de surpresa, eu incluso, com o nível de suas composições. De uma hora pra outra, aparentemente, a cantora de “Call Me Maybe” que virou meme nos entrega uma obra ambiciosa, coesa e extremamente bem escrita e produzida. Emotion, querendo ou não, é um dos melhores e mais influentes álbuns pop das últimas décadas – até seu acompanhante, Emotion Side B, ilustrava que seus b-sides e músicas rejeitadas ainda eram melhores do que álbuns completos de outras pessoas por aí.

Seguindo essa torrente de música boa e bem feita, Carly lançou em 2017 a perfeição pop que é o single “Cut To The Feeling”. E agora todos estavam de olho nela, no que viria depois. Se Emotion foi lançado quando muitos ainda a consideravam apenas ‘a moça de “Call Me Maybe”‘, um pop farofeiro que não devia ser levado a sério, as coisas agora estão dramaticamente diferentes. E é aí que Dedicated entra, chega e quebra com tudo de novo. E dessa vez não podemos mais dizer que estamos surpresos.

Desde a primeira música divulgada ano passado, “Party For One”, Carly já profetizava que seu novo trabalho seria um pouco mais sóbrio e sério do que Emotion foi, mas ainda mantendo sua essência chiclete e leve. De uma vez por todas fica claro que Carly fez aulas com a sueca Robyn sobre como construir uma narrativa e forte densa tendo como base as batidas (“Cry”, “Your Type”). Dedicated traz tudo isso e ainda completa com uma excelente influência do pop dos anos 70, como Cher e Donna Summer.

Os temas tratados liricamente no álbum continuam sendo relacionamentos, crushes correspondidos ou não, decepções amorosas e confissões. Nada exatamente inovador, seja na música pop ou no indie underground, mas que quando são bem feitos e bem escritos se tornam verdadeiras gemas. O melhor exemplo disso está em “Now That I Found You”, uma música sobre quando você tem uma conexão instantânea e quase inexplicável com o @, e o twist em seu refrão está nos versos ‘Don’t give it up, don’t say it hurts‘ – o @ não parece estar tão pronto para essa ligação quanto Carly. Mas ela está, e continua ‘I want it all‘, tanto o bom quanto o não-tão-bom. E quem nunca passou por isso?

A universalidade das letras em Dedicated é, no fim do dia, seu maior trunfo. Carly canta sobre coisas, situações e pessoas comuns a todos, criando e contando histórias fáceis de se identificar – de uma forma não tão diferente do que nomes como Courtney Barnett o fazem, em um tipo completamente diferente de som. Em “Happy Not Knowing”, Carly traz uma dinâmica inusitada (quase como quando Robyn cantou em “Call Your Girlfriend” sobre ser ‘a outra’) cantando sobre o quanto ela não quer que o @ se declare, sobre o quanto ela não quer saber sobre os reais sentimentos do @. ‘If there’s something between you and me, baby, I have no time for it‘, ela canta em seu refrão.

Em “Too Much”, provavelmente a melhor composição do disco inteiro, Carly confessa que sempre faz as coisas ‘demais’. Festas, álcool, sentimentos, pessoas; tudo é 8 ou 80. ‘Is this too much?‘, ela pergunta em um momento quase sussurrado de vulnerabilidade. Confessar que seus sentimentos são ‘demais’ não é uma coisa fácil, por que sempre existe o risco de que o @ se assuste com tal sinceridade. Essa é uma linha tênue sobre a qual Carly caminha o disco inteiro.

A sensação que Dedicated passa é que dessa vez Carly está sem medo de mostrar quem realmente é, como ela pensa e sente as coisas ao seu redor. E às vezes isso tudo realmente é too much. Carly está mais crua e vulnerável do que nunca aqui, se expondo como nunca o fez antes. Depois de ouvir Dedicated, minha vontade é sentar num boteco do centro de São Paulo e tomar um gin tônica barato com ela, enquanto conversamos sobre os @ e a vida de forma geral. Por que agora tenho certeza de que essa mulher, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, me entenderia.

OUÇA: “Too Much”, “Julien”, “Now That I Found You”, “The Sound”, “Want You In My Room” e “Real Love”

Lewis Capaldi – Divinely Uninspired To A Hellish Extent



A primeira vez que Lewis Capaldi apareceu na minha timeline não foi nada relacionado a música. Um tweet dele comemorando, em tons de ironia, o fato de que seu nome saiu errado no line-up de algum festival que ele tocaria. Na mesma semana, um vídeo com ele andando em Hollywood procurando um desentupidor de vasos foi o suficiente para eu pensar “uma pessoa capaz de zombar tanto de si mesma publicamente merece minha atenção”.

O cantor glaswegian de 22 anos tomou o carisma dos fãs com uma velocidade que eu não via desde quando a Adele surgiu lá em 2008 (e fazia cada concerto dela parecer um espetáculo de stand-up). No entanto, em contraponto com essa postura easy-to-go, britânicamente sarcástica e auto-depreciativa, Lewis projeta uma aura músical sombria e melancólica que eu particularmente gosto de definir como um neo-emocore-soul.

Lá em 2017, ainda sem gravadora, Lewis lançou o Bloom EP, e foi a junção de sua personalidade na internet com sua música, sempre baseada na sua força vocal única, que lentamente criou uma projeção internacional. Em 2018 ele lançou “Someone You Loved”, seu primeiro single oficial, e o fato de a música ter chegado ao topo da parada britânica mostra que ele já é a mais nova powerhouse escocesa dos últimos anos.

Divinely Uninspired To A Hellish Extent, seu álbum de estreia, nada tem de inovador ou progressivo, mas em nenhum momento deixa de parecer autoral. Produzido em conjunto por um batalhão de músicos de alto-escalão (dentre eles TMS e Malay), o produto final é um álbum pop em seu sentido mais puro, sustentados pela voz de Capaldi e pelas várias narrativas de decepção amorosa e vulnerabilidade.

Desde a primeira frase “I’m not ready to be just another of your mistakes”, em Grace, até a última faixa do álbum, Headscape, e o incrível one-liner “I never thought a lie could sound so sweet until you opened your mouth and you said you loved me”, o álbum está recheado de narrativas sobre frustração amorosa preparadas para o fazer se envergonhar no karaokê da firma na próxima sexta depois da terceira dose de tequila.

Sonoramente, Capaldi segue um caminho confortável, já percorrido anteriormente por James Morisson, George Ezra, Sam Smith e Tom Greenan. Canções construídas em torno de piano ballads com uma pitada de folk alternativo, como em Hollywood, que possivelmente é a faixa mais atraente do conjunto. Parece sensato para um álbum de estreia, mas no fundo deixa o público com uma vontade de vê-lo se arriscar um pouco mais.

Lewis Capaldi não falha em entregar um álbum redondo. Bem produzido, são 40 minutos de um pop formulaico, seguro, que não falha em se conectar com seu público devido. Aqui está um novo provável nome de peso para o cenário musical que certamente não esqueceremos tão rápido.

OUÇA: “Grace”, “Someone You Loved” e “Hollywood”

Liniker e Os Caramelows – Goela Abaixo



Acho que ninguém atualmente na música brasileira consegue transmitir tão bem o sentimento puro de carinho quanto Liniker e os Caramelows. Goela Abaixo não é apenas um álbum para ouvir com a @, para sentir saudade da @, é mais do que isso. É sobre como carinho é universal, é necessário, principalmente em tempos com disseminação de ódio, de amor em aplicativos. Carinho é político.

No vídeo de lançamento de Goela Abaixo, segundo álbum de Linker e os Caramelows, em meio ao barulho de carros, a Liniker, hoje aos 23 anos, dá um depoimento muito honesto e aberto sobre o processo de gerar o disco. Como ela mesmo diz foi muito difícil, mas ao mesmo tempo muito mais maduro. Tudo mudou bastante para Liniker e a banda, Rafael Barone (baixo), Pericles Zuanon (bateria), William Zaharanszki (guitarra), Renata Éssis (backing vocal), Marja Lenski (percussão), Fernando TRZ (teclados) e Éder Araújo (saxofone).

Essa maturidade é algo muito perceptível ao longo do álbum, parece que as músicas forma mais gestadas que em Remonta (2016), parece que até os sentimentos foram mais superados ou mais nutridos. O primeiro álbum trazia quase uma urgência. “Deixa eu bagunçar você”, propunha, pedia ou implorava Liniker em “Zero”, música de Cru e Remonta.

Gravado na estrada, Goela Abaixo nasce de um outro momento. O disco foi concebido em diferentes partes do mundo. De Berlim (“Beau” e “Calmô”)  e Lisboa (“Amarela Peixão”) a São Paulo, Botucatu, Araraquara e Rio de Janeiro. Surge assim um novo sentimento tão presente quanto o carinho – a saudade.

Saudade, carinho, intimidade, paixão, calma, dor, paciência. O mais lindo do novo álbum de Liniker e os Caramelows é que todos esses sentimento e sensações estão crus nas letras e na própria atmosfera do disco. O que sentimos pode ser ambíguo, incontrolável, pode ser muito bom e muito ruim, talvez seja tudo isso até ao mesmo tempo. Essa é a alegria ou a tristeza de sentir, de se permitir sentir.

Assim, como já podíamos perceber em Remonta, Goela é um álbum guiado por vozes, desde de “Brechoque“, que abre o disco, até o refrão da faixa seguinte, “Lava“. Os instrumentos estão muitos mais polidos e com uma pegada mais rhythm and blues, como “Beau“.

Outro destaque são as participações. A cantora carioca Mahmundi é a convidada da música “Bem Bom”. Já a faixa que gerou o título do disco, Goela, foi gravado com um coral lindo de mulheres composto por Linn da Quebrada, Mel Gonçalves, Juliana Strassacapa, Ayiosha Avellar, Natália Nery, Grasielli Gontijo, Tássia Reis, Lina Pereira, Josyara e Renata Éssis, integrante da banda.

OUÇA: “Calmô”, “Amarela Paixão”, “Beau”, “Brechoque” e “Goela”

An Horse – Modern Air



An Horse é uma dupla australiana formada por Kate Cooper e Damon Cox, e Modern Air lançado agora em 2019 é (finalmente) seu terceiro álbum de estúdio. Após concluirem a turnê em prol de seu maravilhoso disco Walls, a banda entrou em uma pausa e durante muitos anos não deram notícia nem sinal de vida. Nesse meio tempo, sua vocalista Kate Cooper lançou em 2015 um álbum solo sob a alcunha Cooper, e pouco depois também sumiu.

Trata-se de uma banda muito especial para mim, pessoalmente, que devorei seus primeiros discos uma década atrás. Rearrange Beds e Walls ainda se encontram no rol de meus discos favoritos da vida e mesmo nesses anos em que não tínhamos sinais de vida da banda, eu sempre revisitava a pequena discografia do An Horse com certa frequência. Foi, então, um prazer imensurável quando ano passado os dois voltaram a fazer shows e lançaram o ótimo single “Get Out Somehow”.

Logo no começo de 2019 Modern Air foi anunciado, juntamente com as músicas “This Is A Song” e “Ship Of Fools” e tudo parecia lindo. As músicas estavam boas, a dinâmica dos dois estava ainda mais cheia de energia do que antes, tudo se encaminhava para que seu terceiro disco fosse ainda mais maravilhoso e o melhor de sua carreira. Aí Modern Air chegou.

Não quero usar a palavra ‘decepção’, pois Modern Air se tornou também um álbum bastante querido pra mim e escutá-lo traz uma nostalgia maravilhosa. Mas Modern Air, infelizmente, é um disco fraco. Fora as músicas divulgadas antes do seu lançamento, poucas outras se destacam. Toda a energia, fogo e revitalidade dos singles não estão presentes na maior parte do álbum.

Seu som, que sempre foi bastante simples guitarra/bateria em sua maior parte do tempo e com influências shoegaze e emo bem pronunciadas, aqui em algumas partes vai quase para um lado mais punk e isso é incrível, mas esses momentos são raros. É realmente uma pena que na maior parte do disco nada disso aparece e o que nos restam são baladas calmas, tristes e pouco impressionantes.

Modern Air é um álbum bonito, bem pensado e produzido – mesmo que não seja sonicamente tão coeso quanto os outros dois. Depois de tantos anos em silêncio, Modern Air vale pelo seu ar nostálgico e para se ouvir sem grandes pretensões.

OUÇA: “This Is A Song”, “Ship Of Fools” e “Breakfast”.

Vampire Weekend – Father Of The Bride



2019. Quase vinte faixas. Quase 60 minutos de duração. Após seis anos, o grupo nova-iorquino Vampire Weekend lançou Father Of The Bride, quarto álbum de estúdio da banda. Sem Rostam Batmanglij, multi-instrumentista e produtor, o VW caminhava em busca de seu redescobrimento. O álbum é cercado de participações especiais.

Quase que caminhando de encontro ao álbum Modern Vampires Of The City, Father Of The Bride soa otimista e agradecido ao universo. Ensolarado, leve e animado. O oposto do álbum anterior, cuja melodia caminhava a passos quase tristes e contidos. Father Of The Bride é feliz e sorridente, como se Ezra Koenig vividamente abandona-se as mazelas do mundo lá fora. Um exercício mental de positividade e esperança.

O Vampire Weekend rememora e ressurge com ritmos multiculturais – uma presença que já fazia parte do repertório da banda. Revisitando a explosão globalizante da música que aconteceu nos anos 90  – o próprio título do projeto é inspirado em uma comédia homônima protagonizada por Steve Martin nessa década. Há algo meio lounge, jazz e até folclórico caminhando para algo mais natural. Teclado, violão, guitarra, baixo e bateria estão presentes delineando a voz de Koenig. Há instrumentais recortados de outros trabalhos. O VW apostou, desta vez, em levar o ouvinte a um universo muito próprio e particular. As composições atravessam camadas mais melancólicas à la The Smiths – melodias dançantes enquanto o vocal sussurra uma questão existencial difícil de compreender.  Relações humanas? Maturidade? Abandono? Desistência?

Ainda no universo noventista, há a aparição da composição de Hans Zimmer para a trilha sonora do filme Além Da Linha Vermelha, lançado em 1998, e dirigido por Terrence Malick, na música “Hold You Now”, primeira faixa do álbum, que conta também com os vocais de Danielle Haim. Referências e colagens. Auto referências também. Em “Harmony Hall”, o vocalista cita versos presentes em “Finger Back”, composição do álbum anterior. Em termos de produção, o álbum conta com  o multi-instrumentista Ariel Rechtshaid, Mark Ronson, Dave Macklovitch, Steve Lacy, guitarrista da banda The Internet, e Danielle Haim, guitarrista da banda californiana HAIM.

Alegria, apesar das nuvens lá fora. O novo álbum do VW é um retrato positivo, mas realista do mundo. Há inquietação, mas também existe algo a ser comemorado. Ventos novos e tranquilos.

OUÇA: “This Life”, “How Long?”, “Unbearably White” e “Sunflower”

Norah Jones – Begin Again



Com sua estrondosa estreia, Norah Jones se consolidou como figura central do jazz contemporâneo. Com o tempo, porém, provou sua versatilidade enquanto fazia passagens por outros elementos para complementar a tradicionalidade do seu estilo.

Begin Again é um compilado de colaborações inusitadas que a artista desenvolveu durante 2018, e apresenta novas formas de enxergar sua obra, embora seja menos experimental do que seus projetos passados. O resultado é uma descontraída junção de faixas que parecem ter sido concebidas de forma orgânica, sem grandes pretensões.

Por um lado, faixas como “It Was You” dão um toque leve ao todo e divertem pela sua suavidade. Essa, aliás, é uma das músicas mais essencialmente jazzy e reconhecíveis, que impulsa o álbum para um momento mais animado, clima não tão presente nas outras faixas, que entoam melodias mais suaves e frias.

Por outro lado, a surpresa não é o ponto de destaque deste curto projeto, tornando-se previsível mesmo sendo composto por apenas sete músicas.

A abertura com “My Heart Is Open” constrói o caminho para uma sonoridade diferente explorando caminhos novos e construindo uma composição mais lenta que retoma sons sintéticos. Essa estrutura se acalma logo em “Begin Again”, retomando uma mais tradicional, mesmo que ainda não essencialmente a Norah da estreia.

“Uh Oh” é outro momento curioso e fora da curva para o projeto, que utiliza das diferentes camadas vocais associadas a um R&B sutil para uma faixa um pouco mais densa e de atmosfera psicodélica, semelhante à apresentada no início.

A compilação de Begin Again não surte um efeito essencialmente profundo, mas ganha um toque de encanto pela criatividade sutil e as adições vocais que a cantora proporciona com o tom suave.

É também uma face distinta de Norah, mais descontraída e despretensiosa, embora com a tonalidade refinada de sempre.

OUÇA: “Uh Oh” e “It Was You”

Catfish and The Bottlemen – The Balance



Muitas bandas evoluem e muitas bandas crescem, mas nada disso é o caso do Catfish and the Bottlemen. Dois anos desde o lançamento do último álbum, o quarteto de Llandudno retorna com seu novo trabalho: The Balance. Este é o terceiro disco da banda, mas seria fácil acreditar se dissessem que é o primeiro ou o segundo. A fórmula que mistura confiança e um tanto de arrogância funciona muito bem para o Catfish e consegue disfarçar muito bem a sua falta de ambição.

O Catfish and the Bottlemen foi formado em 2007, mas foi apenas em 2014 que a banda lançou seu álbum de estreia, The Balcony. Atraso talvez seja um bom jeito de defini-los. Van McCann e companhia surgiram para o mundo apresentando um som um tanto juvenil, totalmente batido para o ano em que estavam. O segundo álbum, The Ride, não foge muito dos moldes de seu antecessor. As faixas são até mais corajosas e confiantes, porém despretensiosas.

“Nothing’s really changed between then and now”, diz McCann em “Basically” – uma das 11 faixas do The Balance, que parece a última parte dessa trilogia. E esse trecho resume bem o resultado do álbum. O novo trabalho mantém o mesmo ritmo de 2014, até com um um aperfeiçoamento dos versos e melodia – parte disso graças ao produtor Jacknife Lee que já trabalhou com R.E.M., U2, and The Killers. The Balance não tem um potencial hino memorável para o indie rock, mas apresenta músicas como “Longshot” e “2all” que são boas candidatas a levantar um público.

Provando mais uma vez que não liga para as críticas sobre a falta de criatividade, o Catfish and the Bottlemen se encontra bem confortável para quem deseja ser grande. Mas The Balance mostra que isso não vai acontecer agora. O passar dos anos pode até dar mais confiança para a banda, mas ela precisa tentar sobreviver à própria teimosia para que isso seja possível.

OUÇA: “Longshot”, “2all”, “Conversation” e “Coincide”

The Mountain Goats – In League With Dragons



Em “The Wheel”, um dos melhores episódios da série Mad Men, durante uma reunião da sua equipe de propaganda com clientes que procuram uma campanha publicitária para seu projetor de slides, Don Draper começa fazendo uma comparação entre novidade e nostalgia. Segundo Don, tecnologia, novidade, é um atrativo interessante, mas existe algo que pode engajar o público em um nível mais essencial, emocional. “Nostalgia”, continua, “significa a dor de uma ferida antiga”. Enquanto Don explica, o projetor exibe fotos de seu próprio passado. “Esse nos deixa viajar ao futuro, ao passado, como uma criança viaja, e de volta para casa. Um lugar onde sabemos que somos amados”.

O mesmo pode ser dito de In League With Dragons, décimo sétimo disco de estúdio do quarteto americano The Mountain Goats. Nostalgia é o sentimento central que orienta o disco e ao redor do qual giram as histórias evocadas nas letras e arranjos que compõem seu último lançamento.

Com forte influência de art rock, art pop e folk, em especial nos pianos que iluminam faixas como “Done Bleeding” e “Possum By Night”, e no baixo e violão acolhedores e calorosos de “Younger” e “Prassiac 1975”, a banda faz coro à explicação de Draper em Mad Men. A diferença, entretanto, fica com como o Mountain Goats escolhe lidar com a nostalgia. A opção por arranjar as músicas com uma estética bucólica e solar torna a relação com a nostalgia algo prazeroso ao invés de triste. Não existe infelicidade por estes momentos mais simples terem ficados para trás, apenas a felicidade de poder olhar o passado com ternura. A temática, que busca inspirações até mesmo em jogos de tabuleiro e rpg, como Dungeons & Dragons, também reforça o sentimento, misturando-o com as fantasias de aventura de criança.  Muitas vezes a perspectiva dos anos é o meio pelo qual podemos reconhecer toda a felicidade que vivemos no passado e que não recebeu o devido valor quando era o presente, porque estávamos muito presos no momento.

Mesmo uma faixa de clima mais sombrio, como “Clemency For The Wizard King”, com sua bateria pesada acompanhando o baixo e dando solenidade e imponência ao arranjo, não torna a música intimidadora. Ao invés disso, a sensação é a de ouvir uma história grandiosa e reconhecer sua própria pequenez. Existe algo no disco sobre as fantasias de criança e olhar o mundo com olhos mais inocentes, sempre fascinados com tudo que existe por descobrir.

In League With Dragons é uma obra triunfante. As belas progressões de acordes, que evocam imagens claras e luminosas, o sentimento acolhedor de encontrar memórias felizes quando se pensa no passado, tudo isso combinado por uma produção limpa e, embora minimalista, refinada. A beleza dos arranjos compostos pelo Mountain Goats é, por fim, coroada com as letras e as construções líricas escolhidas pela banda. Mesmo em versos em que se fala em cadáveres, o cuidado na escolha das palavras faz da narrativa algo a ser admirado.

Os únicos destaques negativos ficam nas faixas “Waylon Jennings Live!” e “Going Invisible 2”, que, enquanto são faixas boas por si, ficam aquém do nível de produção e cuidado que o resto das composições do disco exibe. Não chega sequer a ser um decréscimo que justifique não tê-las no disco, apenas uma nota mais baixa no catálogo.

Ao final da apresentação de Don no episódio, Harry Crane, um de seus colegas, levanta-se correndo e deixa a sala, tentando segurar o choro. Essa também é a potência da nostalgia: ela age como um espelho. Confrontados com as reminiscências de outros, nós nos conectamos com as nossas. Encontramos ressonância nas emoções alheias e nas experiências do nosso passado e o vínculo entre o nosso eu de agora e o eu de antigamente. Esse é poder de In League With Dragons: nos levar de volta a um lugar que ansiamos voltar.

Esse disco é uma máquina do tempo.

OUÇA: “Younger”, “Passaic 1975”, “Clemency For The Wizard King”, “Possum By Night”, “In League With Dragons” e “Cadaver Sniffing Dog”

O Terno – atrás/além



Mais um lançamento da banda paulista O Terno tomou conta da internet no fim de abril. <atrás/além>, lançado pelo selo Risco,  é o sucessor de Melhor Do Que Parece, o terceiro álbum da banda. Foram quase dois anos e meio entre o  lançamento desses dois projetos, nesse meio tempo, Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d’O Terno, lançou seu primeiro álbum solo Recomeçar. Era hora de recomeçar, de novo. Do vazio e da incerteza surgiu <atrás/além>, afinal, o que é a passagem tempo?

Maturidade e envelhecimento não significam sempre a mesma coisa, mas, neste disco, é possível que as palavras sejam utilizadas como sinônimas. O trio formado por Biel Basile, Guilherme D’Almeida e Tim Bernardes vivem uma transição temporal frenética – nem tão jovens, nem tão velhos.

O tempo é a duração das coisas que nós, seres humanos, vivemos e presenciamos. É isso que que cria a ideia de presente, passado e futuro. Todas essas fendas dão espaço para visitas intermináveis a diferentes momentos. Há uma ideia de brevidade eterna – a antítese é convocada a cada música. Tim, na primeira canção, canta que é muito cedo para parar pelo caminho, almejando a chegada da idade. Em “Pegando leve”, segunda faixa, ideias opostas são exploradas no refrão: ‘Quero descansar, mas também quero sair / Quero trabalhar, mas quero me divertir / Quero me cobrar, mas saber não me ouvir / Quero começar, mas quero chegar no fim’, a pressa adulta ziguezagueia na cabeça do ouvinte, um fluxo infindável de incertezas cotidianas pipocando.

A temática contemporânea choca-se com a melodia que parece ter sido deslocada de um cenário sonoro no fim dos anos 60. Uma viagem temporal onde as malas estão a bordo de um carro, em uma viagem à praia  – a maresia, o sol, a brisa e a nostalgia lomográfica são evocadas. Poderia fazer parte de um tempo dos Mutantes, Brian Wilson ou das canções mais melódicas dos Beatles. Há um processo de recuperação e preservação da memória, cada nota parece ser o gancho para que lembranças pipoquem na mente dos ouvintes. No quarto álbum, O Terno usou a maturidade para repensar as fusões temporais. E o que acontecerá no futuro?

OUÇA: “Atrás / Além”, “Bielzinho / Bielzinho” e “Profundo / Superficial”