Taylor Swift – Lover



As primeiras cenas do videoclipe de “ME!”, primeiro single da nova era de Taylor Swift, já indicavam que os tons e dramas de reputation haviam ficado para trás. A cobra transformou-se em borboletas, e as cenas que se seguiram eram lúdicas e pintadas em cores pastéis servindo de pano de fundo perfeito para a coreografia e euforia das interpretações de Taylor e Brandon Urie, seu parceiro na canção. E esse é realmente o tom que preenche quase todas as faixas de Lover: um disco leve, divertido, apaixonado, recheado de boas mensagens e que peca apenas pelo excesso de faixas.

Musicalmente, Lover não é um grande avanço em relação ao que Taylor já fez. Dessa vez, ela estreitou ainda mais a parceria com Jack Antonoff e a sonoridade fica entre 1989, reputation e Red. Não que isso seja algo ruim, mas para quem espera grandes transformações sonoras de um disco para outro, Lover pode ser uma decepção. Apesar do drama de algumas letras, vide “Miss Americana & The Heartbreak Prince” e “I Forgot That You Existed”, a grande mudança aqui é a presença de uma Taylor muito mais madura.

Lover aborda diversos assuntos com pauta presente em nossos dias. Há mensagens fortes sobre autoafirmação, feminismo, homofobia e cyber bullying. Taylor nunca havia se posicionado sobre essas questões tão incisivamente quanto ela faz aqui. Mas apesar dos assuntos com apelo social, Lover é, acima de tudo, um disco que celebra as várias formas de amor, inclusive amor próprio. A cantora não tem vergonha de se expor, de mostrar ao mundo que está apaixonada e a faixa “Lover” é o melhor exemplo.

Se em reputation, a poesia e a capacidade de contar histórias estavam reduzidas em relação a seus melhores trabalhos, estes fatores voltaram com toda força em Lover. Taylor sempre compôs descrevendo cenas, pessoas e lugares de uma forma bastante rica sem perder o mérito pop de suas composições. “It Is Nice To Have A Friend” e “Lover” são bons exemplos desta capacidade. Outra capacidade que a esta altura ninguém ousa questionar, é o talento de Taylor de construir grandes refrãos e, já na primeira audição, Lover deixa vários trechos em looping na sua cabeça, queira você ou não (alô, “Cruel Summer” e “The Man “, estou falando de vocês!).

O principal problema do disco é ser longo demais. No terço final de Lover é impossível evitar a sensação de já ter ouvido algo muito parecido em uma faixa anterior.  Com dezoito músicas, muitos temas e arranjos soam repetidos. Esse erro já havia ocorrido com reputation e mais uma vez faltou uma mão mais pesada para limar quatro ou cinco das canções que menos enriquecem o disco. Nem a estratégia de incluir os singles na reta final do álbum ajuda a finalizar a audição sem a sensação de déjà vu.

No fim das contas, a impressão que fica é que Lover poderia ser um excelente disco com doze faixas, mas acabou sendo um disco mediano e repetitivo com dezoito canções. Apesar dos pesares, quando estas canções acertam o alvo, acertam realmente em cheio. Taylor mais uma vez prova que tem a mão cheia para construir pérolas pop e para isso conta com um time que reforça suas forças. Fica apenas faltando cortar os excessos e lançar o grande disco que seu potencial promete. Em anos, Lover é o disco que passou mais perto disso.

OUÇA: “Lover”, “The Archer”, “Cruel Summer”, “You Need to Calm Down” e “Cornelia Street”

Boogarins – Sombrou Dúvida



Aqui vemos um Boogarins mais palatável e menos dado a experimentações. Muitas das músicas do Sombrou Dúvida permitem entender o que o Dinho fala sem precisar de pesquisas nas letras na internet.

No entanto, ainda é um álbum que mantém a essência “bugarinha”. Ainda há o tom psicodélico e os reverbs para reforçar esse tom, ainda que menos extremados.

Um mesmo verso genial é repetido duas vezes no lançamento da banda goiana: “existe um desgaste no novo / se repete dá nojo/ e isso você não quer ver”. Eu acho que é essa mesmo a ideia, não adianta eles quererem fazer algo novo como Lá Vem A Morte toda vez.

Esse trecho está tanto na faixa-título “Sombra ou Dúvida” como em “Invenção”, as duas lançadas como single. “Invenção” inclusive faz uma homenagem à música “Princesa” dos também goianos Carne Doce.

A versão acabou ficando mais interessante que a original da Carne Doce, pois a roupagem psicodélica do Boogarins dá o toque de graça que faltava na música da Salma Jô e do Macloys. As duas bandas são próximas e já trabalharam juntos em outras faixas antes como “Benzim” e “Dos Namorados”.

“Dislexia Ou Transe” tem uma intro, repetida algumas vezes ao longo da música, que parece muito com a abertura de Globo Rural, porém a semelhança fica só nessa parte mesmo e o resto da música é puro Boogarins. É uma faixa com tudo para ser fixada na cabeça de quem curte esse estilo Tame Impala e a fase mais pop do Pink Floyd.

Outro destaque é “A Tradição”, com uma das letras mais bem construídas e reflexivas do álbum:

“A tradição

Como arma apontada

Mas não quer atirar

Jogue as ideias no ar”

“Sombrou Dúvida” difere muito do seu predecessor Lá Vem A Morte, onde as distorções sonoras eram tamanhas que o que o Dinho falava era totalmente incompreensível. Em “Onda Negra” e “Foi Mal” só dá para entender o que é cantado se a letra for lida antes, agora nas canções deste álbum de 2019, claramente dá para entender tudo.

Neste ano, o conjunto de Goiânia resolveu delimitar uma zona de conforto. Não fizeram mal pois entregaram um álbum de bastante qualidade. Não chega a representar a importância para a música alternativa brasileira que Lá Vem A Morte representa, mas a banda acertou em não querer inventar a roda duas vezes seguidas.

Apostar no garantido com certeza trouxe um resultado melhor do que tentar fazer um Lá Vem A Morte Parte 2.

OUÇA: “Invenção”, “Sombra Ou Dúvida”, “As Chances”, “Dislexia Ou Transe” e “A Tradição”

Chelsea Wolfe – Birth Of Violence



Ao contrário do que o nome faz parecer, o sexto álbum de estúdio da compositora estadunidense é, sonoramente, um dos menos violentos da sua carreira. Isso principalmente em contraste com os flertes metaleiros do anterior Hiss Spun (2017) e o som darkwave consolidado em Abyss (2015). Agora em Birth Of Violence, lançado no dia 13 de setembro, Wolfe segue por caminhos mais acústicos do folk e country para criar o panorama gótico comum a todo o seu trabalho. 

Uma escolha bem consciente, diga-se. Em produção conjunta com o habitual parceiro Ben Chisholm, Wolfe traz uma nova roupagem de som onde os elementos elétricos e de sintetizadores estão mais enterrados na mixagem. Cria-se uma paisagem sonora enevoada como a da capa (destaque aqui para “Little Grave”), prenunciando a tempestade que casualmente chega ao final do trabalho, na gravação de campo “The Storm”. Em cima de tudo isso, sobressai o vocal e o violão, presente em quase todo o disco. Apesar desse caráter acústico remeter a trabalhos do início da carreira (Chelsea inclusive já fez uma compilação só com canções desse tipo, em Unknown Rooms: A Collection Of Acoustic Songs), aqui tudo tem muito mais fidelidade e polidez na gravação.

Para o bem, e para o mal: esse é um disco com a performance vocal muito mais contida, em registro mais agudo e sem os elementos agressivos de clipagem do lo-fi, o que faz com que as canções percam um pouco o caráter catártico que sempre marcou a sua obra. Não que Wolfe tenha desaprendido como pesar em sua interpretação: “Erde” e “Dirt Universe” são bons momentos para quem espera esse aspecto do trabalho. Os momentos de crescendo dentro do disco também fortalecem algumas canções, como na abertura “The Mother Road”.

Mas num geral, o clima é menos oscilante, que oscila entre bons momentos e outros infelizmente mais esquecíveis, caso do single “Deranged For Rock & Roll”. Na lírica, os temas como identidade feminina (“The Mother Road”, “Erde”) e desolação (“American Darkness”, “Highway”) transparecem em todo o disco e ajudam a fortalecer a coesão temática dentro da obra que se não soa exatamente como a Chelsea Wolfe de sempre, também está longe de ser um atira-pra-todo-lado.

Birth Of Violence é um disco menor de Chelsea Wolfe em um território que apesar de não ser totalmente novo, facilmente se diferencia da sequência dos últimos trabalhos da artista por uma maior sobriedade. Nesse sentido, a execução é competente, mas as composições menos inspiradas e a estética muito mais contida faz o álbum ficar pouco marcante na comparação.

OUÇA: “The Mother Road”, “Erde”, “Dirt Universe”

Charli XCX – Charli



Charlotte Aitchison, ou Charli XCX, é uma força no mundo pop atual, mesmo que em grande parte seja por trás dos holofotes. A moça escreveu músicas como “I Love It”, para a dupla Icona Pop, assim como “Tonight” para o Blondie e “Señorita”, do Shawn Mendes com a Camila Cabello. Em paralelo a isso, a moça tem seu próprio material e inúmeras participações com outros artistas.

Seu novo trabalho solo, simplesmente chamado Charli, é tecnicamente seu terceiro álbum de estúdio e o que veio seguindo Sucker de 2014. Nesse meio tempo essa moça fez de tudo menos ficar parada. Entre Sucker e Charli, a moça lançou o EP Vroom Vroom e duas mixtapes, Number 1 Angel e a maravilhosa e subvalorizada Pop 2.

Pop 2 é a obra prima das mixtapes, um trabalho extremamente variado e com participações de nomes que vão desde Carly Rae Jepsen e CupcakKe até Tove Lo, Pabllo Vittar, Kim Petras e Caroline Polachek. Desde Vroom Vroom, Charli tem apostado em produções inusitadas, que vão mais pro lado estranho do pop e pc music. Completamente diferente do que havia apresentado nos seus primeiros discos, True Romance e Sucker.

E agora Charli segue a mesma linha de pop do futuro que ela havia nos apresentado em Pop 2, com um time estonteante de colaboradores: Lizzo, Sky Ferreira, Troye Sivan, Pabllo Vittar, HAIM, Christine and the Queens e até Clairo e Yaeji. O resultado é um trabalho bastante diverso, mas que tem a voz de Charli XCX – tanto literal quanto metaforicamente – no centro o tempo todo.

De uma certa forma, esse é seu primeiro álbum pop com produção real pop desde que o mundo começou a prestar atenção nela. E o resultado não é muito o que o mundo pop estava esperando. Mas, vindo da Charli XCX, não ser o pop que se estavam esperando já era o esperado (?). Tem tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo nesse álbum que a coisa mais fácil de ocorrer é você se perder ou se distrair enquanto o escuta. A faixa “Click”, com Kim Petras e Tommy Cash, é talvez o maior exemplo disso. Sua produção muda de direção tantas vezes em seus quatro minutos que quando acaba parece que um trem passou por cima de você.

Um momento quase desnecessário do álbum, e me dói muito escrever isso, fica com a participação da maravilhosa Lizzo em “Blame It On Your Love”. Trata-se de uma música que já apareceu antes em Pop 2, na época chamada apenas de “Track 10”, que foi regravada, reescrita e resultou em uma versão bem menos interessante do que a original, cujo verso da Lizzo é quase desperdiçado por que não faz muito sentido e não casa com o resto.

Charli peca pelo excesso. Tudo aqui é demais, e nem sempre isso serve pra elevar as músicas. É um álbum com 15 faixas no total e muitas delas estão longe de ser o melhor que a Charli é capaz de fazer. Há momentos em que ela e seus colaboradores brilham e chega quase a ser mágico, como “Gone” (com Christine and the Queens), “Cross You Out” (com Sky Ferreira) e “Shake It” (com Big Freedia, Brooke Candy, Pabllo Vittar e CupcakKe). Mas no geral, o álbum faz com que o ouvinte perca um pouco o interesse no meio das faixas.

Charli XCX já é um nome gigantesco no mundo pop, mesmo que não esteja nunca em níveis Beyoncé de reconhecimento. Mas tudo bem. Ela faz parte de uma geração de cantoras pop que se importam e muito com a música em si, assim como Carly Rae Jepsen e Robyn. Charli é um álbum desafiador, Charli tem do começo ao fim o ponto de vista da própria Charli. Nem sempre funciona, mas é inegável que ela sabe muito bem o que está fazendo e, principalmente, o porquê de fazer o que faz da forma que faz.

OUÇA: “Gone”, “Cross You Out”, “Next Level Charli”, “Shake It”, “February 2017”, “White Mercedes” e “1999”

Adam Green — Engine Of Paradise



Que Adam Green é um cara particularmente “diferente” todos sabemos, contudo o que também pode ser dito dele é que seu trabalho, seja na música, nas telas de pintura ou até mesmo nas telonas do cinema é sincero a ele mesmo. Sendo assim, desde os Moldy Peaches até Engine Of Paradise — seu décimo álbum de estúdio em carreira solo, lançado no dia 6 de setembro de 2019 —, ele pinta um retrato colorido e cartunista de si e do mundo ao seu redor.

Engine Of Paradise aborda, no geral, um tema bastante atual: a relação entre o ser humano e a tecnologia. A faixa título resume essa ideia quando diz: “This world could be a paradise / a 3D model” ou até mesmo “I need you to read the world for me”, confrontando o que as novas tecnologias têm feito em nosso lugar como seres vivos pensantes e o que elas projetam em nossas vidas. O clipe da mesma canção ainda brinca — no estilo cartunista de Green — com grandes multinacionais, redes de fast foods, destruição da natureza e colonização, agregando, portanto, outras perspectivas à composição.

Outro ponto alto do CD é a orquestração em boa parte das canções, fazendo o padrão de composição de Adam Green (violão, bateria, baixo, guitarra e seu inconfundível vocal barítono) adquirir um teor mais encorpado e maduro. Isso pode ser visto na faixa “Freeze My Love”, terceira do disco, clássica ao gênero folk. A canção possui ainda uma vibe infantil (no clipe aparece, inclusive, a filha do artista), e rememora alguns dos trabalhos de Kimya Dawson, sua ex-companheira de Moldy Peaches.

Com pouco mais de 20 minutos, Engine Of Paradise conta com boas participações: Jonathan Rado (do Foxygen) e Florence Welch, queridinha do mundo millennial-alternativo. O álbum, por si, é gostosinho de ouvir. Tem boas composições, letras reflexivas e exóticas, mas não traz surpresas e, por isso, não se sobrepõe a trabalhos anteriores.

OUÇA: “Engine Of Paradise”, “Freeze My Love”, “Rather Have No Thing”.

Bat for Lashes – Lost Girls



Lost Girls, o quinto álbum que Natasha Khan lança com o nome artístico de Bat for Lashes, é, de certa forma, muito visual. Já na capa, fica claro que o que vamos encontrar tem uma grande influência dos anos 1980. Além disso, o álbum nasceu de um período criativo em que a britânica escrevia seu primeiro roteiro de cinema, após se mudar para Los Angeles.

A relação com o cinema e com as memórias oitentistas de Natasha – em especial, filmes de fantasia e ficção científica – é a espinha dorsal do álbum. Não é à toa que uma das faixas – com um som que traz muita influência de The Cure – tem o título de “Vampires”. Assim como nos outros trabalhos da cantora, a sensação é de que o que estamos ouvindo é algo etéreo. São músicas que convidam o ouvinte a sonhar e viajar, seja através das nossas próprias memórias da icônica década de oitenta, ou dos laços afetivos que criamos com a música e a cultura daquela época.

No caso de Lost Girls, essa característica nostálgica passa longe de ser apenas uma forma de surfar na onda de revivals dos anos 80, que vêm tomando conta da cultura pop nos últimos anos. Há um toque pessoal nas criações de Natasha. A sua voz singela, acompanhada dos sintetizadores característicos do synth pop que marcou a música nos anos 1980, nunca soa batida neste álbum. É, sim, um som de outra época – quase de outro mundo. Mas é um baita som.

OUÇA: “Kids In The Dark”, “Jasmine”, “Mountains”

Lizzo – Cuz I Love You



É meio impossível ter chegado até esse momento do ano de 2019 sem nunca ter ouvido falar nessa força da natureza que é a cantora/rapper/flautista Lizzo. Cuz I Love You é seu terceiro álbum de estúdio e o primeiro lançado por uma grande gravadora. Em seus trabalhos anteriores, Lizzobangers, Big GRRRL Small World e, principalmente, no EP Coconut Oil, Lizzo já mostrava seu talento para misturar o rap, hip hop e pop com elementos vão do rock ao soul e até mesmo seu treinamento em música clássica. E Cuz I Love You é a culminação disso tudo.

Uma grande característica do trabalho da Lizzo é seu senso de humor, muitas vezes ácido, e também sua mensagem de positividade e aceitação do próprio corpo como uma mulher negra e gorda. Pessoas como a Lizzo são extremamente importantes; e em cima de tudo isso a música feita pela moça, principalmente aqui, é excelente.

Cuz I Love You é o trabalho mais variado e versátil dela até o momento, misturando tudo o que ela já havia feito e ainda adicionando coisas novas. Cuz I Love You é forte do começo ao fim, com singles maravilhosos e nenhum filler no meio. De “Truth Hurts”, lançada originalmente em 2017, até “Juice”, “Tempo” e “Like A Girl”; não existe uma música dispensável.

Um dos maiores destaques fica com “Soulmate”; um hino ao amor próprio. ‘Cause I’m my own soulmate, I know how to love me‘. Em “Jerome”, ela usa do gospel, funk e trap de uma forma bastante interessante e talvez o maior exemplo da sua versatilidade. “Tempo”, uma ode às mulheres gordas, Lizzo consegue tanto encaixar um mini solo de flauta e um verso da Missy Elliott sem que nada pareça estar fora do lugar.

Cuz I Love You é um álbum extremamente bem escrito, produzido e performado por uma das melhores e mais complexas cantoras de sua geração. ‘Complexo’ é talvez a palavra que melhor defina Cuz I Love You e a Lizzo como um todo. É um álbum pop vendável e mainstream cuja qualidade é inegável. Lizzo pode não ter começado agora e já carregar um excelente passado, mas aqui é quando o mundo começou a prestar atenção nela. E com razão.

OUÇA: “Cuz I Love You”, “Jerome”, “Juice”, “Like A Girl”, “Truth Hurts”, “Soulmate” e “Better In Color”

Lana Del Rey – Norman Fucking Rockwell!



Desde 2017, com um quarto álbum composto por poucas músicas memoráveis, Lana Del Rey nos deixara querendo mais. Por onde andavam as músicas com instrumental denso e bem trabalhado, que falavam sobre amores que não deram certo, que usavam de metáforas mil para abordar os cantos mais sombrios do indivíduo?

Eis que, finalmente, Norman Fucking Rockwell! chegou. O título, uma alusão ao famoso ilustrador dos anos 40, conhecido pela estética que moldou o imaginário da população estadunidense sobre o famigerado american way of life, de cara nos apresenta uma contradição. Como poderia justamente Lana, uma personalidade que publicamente critica o atual governo dos Estados Unidos, exaltar logo alguém que tanto colaborou (dentro do ambiente artístico, e com o seu trabalho) a criar e promover um status quo que muitos almejavam (e ainda almejam), mas poucos efetivamente conseguiriam? Mas afinal, não somos todos isso: contradições?

Em seu quinto álbum, Lana nos apresenta uma face mais íntima. Aquela que víamos de relance em Born To Die, que Ultraviolence escondeu, que Honeymoon sequer mencionava e que Lust For Life maquiara. A estética sonora tão marcante se mantém, mas algo nos dá a impressão de ser algo que ainda não tínhamos visto.

Alguns (ousados, estes) falariam que é apenas “mais do mesmo”, porém (mais ousado ainda) me atrevo a dizer que é uma amostra mais crua e profunda de quem é a pessoa por trás da persona. A Elizabeth Grant que vive dentro da Lana Del Rey.

Se você (de alguma maneira inexplicável) nunca ouviu alguma música de Lana, este é um bom álbum para entender como ela era antes de Born To Die, quando ainda era Del Ray, além de ser possível entender a sonoridade tão ímpar desta cantora.

Mas se você já conhecia (e já a amava), Norman Fucking Rockwell! é um carinho em forma de 14 músicas. É aquela Lana que todos conhecemos com coroa de flores, mas mais madura e mais exposta.

OUÇA: “hapiness is a butterfly”, “venice bitch” e “cinnamon girl”

Whitney – Forever Turned Around



O duo de estadunidense Whitney, composto por Max Kakacek and Julien Ehrlich, retorna ao cenário musical com o lançamento de seu segundo álbum de estúdio Forever Turned Around, lançado recentemente pelo selo Secretly Canadian. Forever Turned Around, ao contrário de seu alegre e radiante antecessor Light Upon The Lake, apresenta um aspecto bem mais introspectivo e intimista e nele há sérias e sinceras reflexões sobre relacionamentos e vida cotidiana. O álbum, apesar de reter elementos de seu predecessor, revela um Whitney mais maduro, sério e aberto a explorar questões decisivas que emergem de um relacionamento íntimo e intenso.

Forever Turned Around é um álbum íntimo e sincero, quase uma troca de correspondências entre duas pessoas que se amam muito e acabam dizendo coisas muito bonitas ao lado de coisas muito sérias e às vezes muito duras e difíceis de lidar. 

As faixas apresentam quase a mesma sonoridade e parecem se sobrepor como capítulos de uma longa história que tem mais continuidades do que rupturas. São faixas que em sua maioria são executadas por um violão acompanhado de um conjunto de cordas, baixo e bateria e que têm uma tonalidade mais triste, intimista e reflexiva que se encaixa perfeitamente com a temática do álbum.

Momentos de solidão são sobrepostos às boas memórias de momentos de convívio mútuo e os tempos de alegria são avaliados à luz dos momentos tristes que marcam uma vida de convívio intenso entre duas pessoas. Sobretudo, há uma profunda reflexão sobre se aquele relacionamento deve persistir e como as coisas podem melhorar em um futuro incerto.

Faixas como “Valleys (My Love)” e “Giving Up” descrevem perfeitamente esse momento de dúvida que muitas se coloca no centro de um relacionamento íntimo. O que fazer diante de uma crise? Quem seremos depois disso tudo? O que será desse relacionamento? São perguntas que perpassam todas as faixas do álbum e dão a ele uma boa dose de sinceridade e honestidade.

Forever Turned Around é um álbum belo, vulnerável e intimista de um grupo que vem se consolidando no cenário musical atual. É uma bela reflexão sobre a vida, relacionamentos e sobre o futuro e vale ser ouvido por todos, sem exceção.

OUÇA: “Giving Up”, “Forever Turned Around” e “Valleys (My Love)”

Oh Sees – Face Stabber



O psychedelic rock não é uma novidade para ninguém. O estilo percorreu um célebre caminho desde a sua concepção há 59 anos, com contribuição de Frank Zappa, e bandas que, hoje, são clássicos incontestáveis: The Seeds, The Gamblers, The Jimi Hendrix Experience, The Beatles, entre outros. São esses artistas que trouxeram pela primeira vez escolhas de produção musical que muito seriam referenciados e reverenciados no decorrer de todos os anos que atam o momento presente e essa época tão mitificada/mistificada pela maioria das pessoas. Falamos aqui de efeitos de estúdio elaborados tais quais reverb, echo, phasing, loopings em duração, panning e distorção; presença de jams extensos para todos os instrumentos envolvidos; elementos emprestados do free-jazz; sintetizadores…ater-se meticulosamente a todas as características dessa escola musical tomaria extenso tempo e muitas palavras, o que aqui não convém. O fato é que o psych rock ainda está conosco. E a prova disso é a norte-americana, (já) veterana Oh Sees, que com seu novo disco, presta reverência aos grandes dos anos lisérgicos.

Com Face Stabber (Castle Face Records, 2019), a banda atinge a impressionante marca de 22 discos de estúdio, se considerarmos todos os outros quinhentos nomes que a banda já possuiu. Se dividirmos a carreira dos moços em duas fases, é justo dizer que entre 2003 e 2014 a produção musical não se destaca à causa da aposta em um jogo de referências demasiadamente amplo, porém superficial. A partir do disco Mutilator Defeated At Last (2015) a banda apresenta uma evolução concreta, um álbum mais funky que o comum, com experimentações rítmicas interessantes e diminui excessos. Encaixa, por três anos consecutivos, 2015-2017, bons discos, portanto, com destaque para o ótimo  Orc (2017). Após o morno Smote Reverser (2018), a banda chega com o novo disco tentando retomar a montante. Porém, mesmo que seja uma máquina muito bem lubrificada, a banda volta a patinar.  

O Oh Sees opta por um Face Stabber com uma hora de vinte minutos de duração, com duas músicas que ultrapassam a marca dos dez minutos, agindo no conjunto do disco como conclusões de duas partes. São elas a faixa 6 “Scutum & Scorpium” e a derradeira “Henchlock” (o álbum tem 14 faixas…).  Longas músicas levam, novamente, a um álbum de excessos, o  que aparenta ser o calcanhar de aquiles do carreira deste grupo particular. 

Em Face Stabber você verá a cartilha do psych rock, mencionada no primeiro parágrafo. Não é só isso. Há também no álbum doses abusivas de ambient rock e prog rock. O trio mistura tudo nos numerosos e longos jams  presentes em mais de 60% do disco, configurando a principal característica desse lançamento. Estes grandes segmentos de improvisação trazem consigo solos de guitarras embebidas em efeitos, teclados esquizofrênicos, percussão bem acelerada. Adicione a esse caldeirão de coisas, os efeitos engraçados nos vocais de John Dwyer, como durante a fraca abertura “The Daily Heavy”. O caos reina absoluto, o que não necessariamente significa algo de positivo, afinal  são vários os trechos onde o caos mais se assemelha a uma grande bagunça do que, efetivamente, a uma catarse musical. 

Em geral, não se trata de um álbum ruim. Que fique registrado. O talento da banda e a coragem em arriscar um disco com a envergadura pretendida devem ser levados em consideração. Mas não há como escapar. Ao final, fica a impressão de que as músicas poderiam ser construídas de uma maneira melhor: a banda poderia ter reduzido (drasticamente em alguns casos) a duração das músicas,  conferindo-lhes concisão e melhor acabamento. Curiosamente, a “correção” dos erros praticados no disco estão também no mesmo. É o caso da soturna “Snickersee” e das pancadarias “Gholü” e “Heartworm”, as faixas mais breves da tracklist. Se o destaque positivo fica por conta dessas, são as maiores que deixam a experiência do disco mais fatigada e menos interessante; não que a escolha de faixas mais longas seja de toda sorte uma escolha ruim, mas progressões e composições melódicas sem objetivo, junto de decisões estilísticas jogadas com certo desleixo exagerado não ajudam. Seguramente, o clichê “menos é mais” é de bom tom nessa conversa toda.  

Há um desencantamento com essa banda, na medida que se sabe muito bem do que são capazes. Nasce então uma frustração, principalmente, porque o grupo de John Dwyer já trilhou erros parecidos, senão iguais muitas vezes anteriormente. Mas tudo bem, ano que vem daremos a vigésima terceira chance para ver o Oh Sees acertar em cheio.

OUÇA: “Snickersee”, “Gholü” e “Heartworm”