ROSALÍA – El Mal Querer


A junção da tradição local e a imponente personalidade identitária se fundem com a melodia tradicional e o R&B modernizado para configurar uma experiência multifacetada de sons e ambientes que tornam El Mal Querer uma experiência valiosa. Introspectiva mas ao mesmo tempo bastante expansiva, a espanhola ROSALÍA funde o melhor da sua origem catalã com a contemporaneidade e urbanismo modernosos em um projeto aguçado e ambicioso.

As referências pop são evidentes e ajudam a inserir o álbum numa dinâmica que, ao invés de soar repetitiva, promove uma sensação de renovação. O tom de voz acaba por marcar em todas as faixas, sendo um elemento de união e ponto alto do disco como um todo, contribuindo para a construção de um imaginário marcado pelas raízes espanholas da cantora, com elementos religiosos e folclóricos associados à contemporaneidade em que o disco se insere.

A primeira faixa e possivelmente mais conhecida, “Malamente”, é uma das mais animadas do álbum e  das mais associáveis a uma sonoridade atual, ajudando a iniciar a série de músicas que sustentam esse estilo mas que o expandem e lhe agregam diferentes elementos complementares.

Sonoridade coesa e permeada por detalhes que favorecem uma movimentação por uma trajetória que faz sentido e vai se complementando com o passar das faixas. Entendido como um álbum de conceito, cada música parece elencar um diferente momento da história que conta, muito relacionada ao imaginário romântico da cantora e a diferentes narrativas envolvendo a relação, associadas a contextos de emoções distintas. É uma conceptualização que gira em torno de um contexto relacional difuso e manipulativo, do qual a autora relata episódios (chamados de capítulos) com energias distintas, algumas mais distorcidas e irreverentes (os momentos mais experimentais do álbum, em que sua voz assume grande destaque) e outros mais estáveis e serenos, para concluir em “A Ningún Hombre” (Nenhum Homem), vocalizando a sua fuga do contexto em que se encontra e ditando sua independência.

Constrói-se, ao todo, um imaginário musical que conduz claramente a uma percepção também visual da história, com a sonoridade voraz do flamenco fortemente marcada e uma tonalidade vocal etérea. Curto, os trinta minutos de duração do álbum não parecem pouco, mas meticulosamente pensados na construção narrativa que parece pautar a condução do disco. “Bagdad”, o capítulo da Liturgia, inicia com uma clara referência rítmica a “Cry Me A River” de Justin Timberlake, transita por momentos exuberantes e remexidos, para posteriormente atrair o momento do Êxtase (Cap. 8), em “Di Mi Nombre”, para uma estabilização. O Mau Amor (em tradução livre) é um nome contundente para classificar a jornada que o álbum atravessa.

A variação sonora aliada à experimentação vocal constroem um cenário prazeroso e com trânsito por diferentes sensações, que posicionam El Mal Querer como uma peça sólida e digna de destaque. A consolidação da espanhola para além desse projeto ainda pode ser questionada (cabe pensar na sustentação dessa ritmicidade e estética ao longo do tempo como risco de monotonicidade), mas a obra, em sua construção individual, se posiciona com facilidade entre as mais diversas e inovadoras do pop de 2018.

OUÇA: “Malamente”, “Pienso En Tu Mirá”, “Bagdad” e “Di Mi Nombre”

Sun Kil Moon – This Is My Dinner


A primeira conclusão que se tem ao ouvir This Is My Dinner, nono disco de estúdio de Sun Kil Moon, projeto solo do ex-vocalista e líder criativo do Red House Painters, Mark Kozelek, é de que é um disco frio. Não só por tratar principalmente das experiências de Kozelek em turnês no norte da Europa, mas também por ser o tipo de clima que mais parece em sintonia com o humor transmitido pelas músicas. Frio também, de certo modo, por que muitas vezes falha em alcançar alguma reação do ouvinte.

Com um tempo de execução de 89 minutos divididos em 10 faixas, This Is My Dinner apresenta o já conhecido e esperado estilo de composição que Kozelek adotou como sua marca em Sun Kil Moon: músicas longas, lentas, com narrativas detalhistas, algo melancólicas e de certo modo guiadas livremente pelo fluxo de pensamento de Kozelek que são recitadas sobre um instrumental muitas vezes reduzido e repleto de espaços abertos para a voz. O verdadeiro instrumento de Kozelek é a palavra, o resto é consequência.

Ao longo do disco, as músicas transitam por temas sempre presentes na narrativa do cantor, seja diretamente ou marginalmente, como a saudade de casa, um certo cinismo em relação à vida, a sensação de alienação das coisas ao seu redor, como se mesmo fora de seu trabalho artístico, Kozelek fosse sempre um observador do mundo em volta. Das viagens para o norte europeu, Kozelek se transporta para o passado, de viaja adiante no tempo e continua a ver e a contar.

Kozelek ainda consegue, por vezes, incluir elementos e influências novos nas músicas, mesmo que a estrutura geral continue a mesma e seja em primeiro lugar, uma plataforma onde pode sustentar todos os relatos das suas experiências cotidianas.

É nesses momentos que o álbum consegue alcançar algum brilho. Já na música de abertura, “This Is Not Possible”, temos o tradicional vocal de Kozelek temperado com um groove de jazz conduzido por um baixo limpo e pausas instrumentais na entrada dos refrões. Outra faixa que foge do estilo constante do projeto é “Linda Blair”, que tem como destaque os teclados que quebram o ritmo do resto do instrumental, numa influência que traz à mente algo math rock. Ao final, a faixa ainda acelera e o tom da música se torna mais grave, fazendo de “Linda Blair” possivelmente a melhor faixa do disco. O terceiro bom destaque no disco é “David Cassidy”. Mais curta que a média das músicas do Sun Kil Moon, a faixa traz uma interessante influência de country e um forte protagonismo do baixo, que consegue, com uma composição simples, ser envolvente sem ser repetitivo.

Infelizmente, outras faixas do disco, como “This Is My Dinner”, “Copenhagen” e “Candles”, embora boas músicas e envolventes, evidenciam o hábito de Kozelek de se deixar levar pela narrativa, e não oferecem nada de novo musicalmente para quem já está acostumado com o estilo musical de Sun Kil Moon, o que as impede de alcançar o nível de sucesso que teriam se, além da letra interessante, fossem mais inventivas musicalmente.

O estilo característico de Kozelek é um dos pontos mais divisivos em sua obra. O engajamento do ouvinte se torna diretamente depende da qualidade de Kozelek como contador de histórias, e quanto mais o vocalista se estende, maior o risco de perder a atenção do público. Kozelek é um hábil contador de histórias, e consegue subverter esse risco, mas por vezes esbarra na própria prolixidade e faz das músicas que começam interessantes, uma repetição enfadonha de ritmos enquanto a voz murmurante de Kozelek se perde em mais um detalhe das suas aventuras cotidianas.

É o que pode ser verificado principalmente ao fim do disco, principalmente nas duas faixas finais, “Soap For Joyful Hands” e “Chapter 87 Of He”. Ambas são uma demonstração escancarada do principal defeito de Kozelek: a prolixidade, que eventualmente se torna tédio, e que talvez é o principal fator o impedindo de criar uma obra incrível. É sempre um risco tentar estender ao máximo qualquer obra artística, como disse Chuck Palahniuk em Clube da Luta: “numa linha do tempo longa o suficiente, a taxa de sobrevivência de todo mundo cai para zero.”

OUÇA: “This Is Not Possible”, “Linda Blair”, “David Cassidy” e “Copenhagen”.

Richard Ashcroft – Natural Rebel


Depois do desastroso These People (2016), o ex-vocalista do The Verve volta à essência dos seus primeiros trabalhos e lança o Natural Rebel.

Assim como no início da carreira, o novo disco tem aquela pegada dos compositores das anos 90: muitas músicas puxadas pro folk, outras pra um rock com maior levada, etc. Sendo assim, Ashcroft faz direito quando aposta naquilo que sabe bem, mesmo tendo saído de uma banda que era no começo um shoegaze.

Natural Rebel é exatamente isso: um ótimo disco para acordar ouvindo, cheio de canções mais do mesmo, mas que grudam na cabeça. Como vivo dizendo, às vezes é disso que precisamos.

“All My Dreams” e “Streets Of Amsterdam” são bem a cara desse compositor, músicas lindas. As mais puxadas pro rock ficam com “Born To Be Strangers” e “That’s When I Feel It”. E o destaque vai para “A Man In Motion”: Richard sempre manda bem em músicas em que expõe o seu interior – ‘I can deal with the pain as long as we keep on driving’ – divino maravilhoso. E o disco termina com “Money Money”, que é a outra mais do rock, nos fazendo repensar tudo aquilo que ouvimos, que é o mais do mesmo do disco.

Quando não ousa, Richard Ashcroft não erra. Isso o bota em dúvida muitas coisas enquanto artista. No entanto, é um disco coeso e gostoso de ouvir.

OUÇA: “All My Dreams”, “Born To Be Strangers” e “A Man In Motion”.

Peter Bjorn and John – Darker Days


Lendo a resenha do Pitchfork do Darker Days, lançado em Outubro passados dois anos do eletrônico Breakin’ Point, percebi que Peter Bjorn and John é um grupo passível do rótulo de banda de um hit só. Embora a dançante e incansável trilha sonora “Young Folks” seja o trabalho mais conhecido da banda, está longe de ser o mais profundo e complexo, estando bem atrás inclusive de faixas menos chiclete do mesmo disco, Writer’s Block.

Os três álbuns seguintes da banda foram de alguns hits e experimentações com música eletrônica (principalmente o anterior ao Darker Days, Breakin’ Point), mas seguem à sombra tanto do hit “Young Folks” quanto do disco Writer’s Block. Com um intervalo de cerca de 5 anos entre Gimme Some (2011), do qual sou muito fã, e Breakin’ Point (2016), Darker Days veio, em algum sentido, como uma surpresa pelo intervalo menor, de 2 anos. A identidade visual segue a mesma desde o Gimme Some: enquanto o disco de 2011 contou com a marcante mão azul de três polegares, Breakin’ Point trouxe a luva do Mickey e o martelo de três cabeças, Darker Days explora a temática da tríade com um triângulo feito de ossos, que remonta a identidade das mãos do Gimme Some.

Levando em conta essa relação das capas entre si, esperei escutar algo mais próximo do Gimme Some do que do Breakin’ Point e, nesse sentido, minhas expectativas foram atendidas. Como fã da banda, senti um conforto no coração nesse movimento. Depois de ouvir o álbum uma vez, pouco atenta, apenas um faixa me chamou atenção a ponto de pegar o celular e olhar o nome: “Wrapped Around The Axle”. Embora pouco impressionada, não me senti decepcionada. Insisti em ouvir mais algumas vezes e, embora o instrumental mais “de volta às raízes” não seja instigante, as letras passaram a chamar atenção.

Darker Days é uma mistura de comentário político-social com reflexões e anseios afetivos e algo de auto reflexão. Com um Bolsonaro recém-eleito, existe algum conforto em perceber que bandas da minha adolescência trazem assuntos atuais do tipo vigilância e big data (ver “Silicon Valley Blues”), embora de uma forma excessivamente explícita.

De modo geral, o retorno ao clima de Gimme Some traz algum conforto e alguma esperança de uma experimentação maior que não passe pela forçação de barra eletropop do Breakin’ Point, mas pelo reencontro com estruturas que ainda podem ser muito bem exploradas. Darker Days pode ser o prenúncio de um novo caminho bastante positivo.

OUÇA: “Heaven And Hell”, “Wrapped Around The Axle” e “Silicon Valley Blues”

Tom Odell – Jubilee Road


Jubilee Road, novo disco do britânico Tom Odell, é mais uma boa adição à nova onda do britpop. Aprimorando sua tendência ao tipo de baladas pop sentimentais que levou seu mentor Elton John à fama, o cantor marca seu espaço como uma voz distinta entre seus contemporâneos.

Porém, se lhe falta a ousadia e a presença de Elton John que tornaram baladas como “Tiny Dancer” em fenômenos românticos de escala global, Odell tenta compensar com composições honestas e, por isso, emotivas. O disco soa incrivelmente intimista e as composições se dedicam a temas da vida cotidiana, o que faz com que o trabalho de Odell pareça familiar de uma maneira positiva. Ao optar por essa abordagem simples e despida, é possível apreciar o maior trunfo do cantor: sua poderosa potência vocal.

As faixas são, em sua maioria, alegres e agradáveis de ouvir, mesmo que não seja uma alegria contagiante (como o conterrâneo George Ezra faz em “Shotgun”). Mesmo nos minutos mais tristes, Odell parece não conseguir abraçar totalmente a melancolia que algumas das canções exigem. Pode ser frustrante ver  que emoções mais intensas são evitadas a todo custo. O momento em que Tom chega mais perto da explosão sentimental que se espera de seu tipo de canção voz-e-piano é na excelente “If You Wanna Love Somebody”.

Além disso, as dez faixas são longas demais. Todas têm um pouco mais ou um pouco menos do que quatro minutos – com exceção da faixa de abertura, que aperta o relógio com injustificáveis 5 minutos. Como são composições simples que se sustentam basicamente pela voz de Odell, essa duração faz com que ouvir o disco seja cansativo.

Jubilee Road é um bom disco. Se compromete ao revival do sentimentalismo britânico e não há uma canção que possa ser classificada como entediante, chata ou ruim: há uma consistência admirável. Odell precisa, no entanto, se entregar de forma mais aberta a esse sentimento que aparenta ser a força-motriz de suas composições.

OUÇA: “If You Wanna Love Somebody”, “You’re Gonna Break My Heart” e “Queen Of Diamonds”

Razorlight – Olympus Sleeping


Ah, ser jovem e ouvir Razorlight no meio da década passada! Poucas bandas conseguem ter esse espírito tão aflorado. Os dois primeiros álbuns da banda são cheios de energia, com uma sonoridade simples, mas sem serem bobos. As letras eram consideravelmente rebuscadas para esse estilo de música. O conjunto da obra despertava aquela vontade de viver, de ver tudo que o mundo tem para oferecer, de exagerar, de ir para lugares novos e dançar a noite inteira. Em resumo, sintetizavam tudo aquilo que é ser jovem, e toda aquela música que queremos escutar quando o somos. Razorlight tinha um quê de britpop, mas também agradava quem preferia o lado mais dance rock dos anos 80. Uma banda de guitarras fortes, de bateria que enfeitiçam os movimentos dos nossos pés. Não era sua banda preferida. Não era a minha. Provavelmente não era a de ninguém. Mas cabia tão perfeitamente com o que eram aqueles tempos de euforia, de possibilidades do futuro, de hormônios à flor da pele e de fingir que sabemos mais do que de fato o fazemos.

Por isso, foi um choque ver a banda amadurecer tanto no seu terceiro disco. É verdade, baladas e músicas mais lentas sempre estiveram lá, mas Slipway Fires se sustentava muito mais em cima das letras, que se tornaram ainda mais reflexivas, com muito piano e ritmo mais espaçado, difícil de acompanhar com o pé. Talvez seja porque a formação mudou muito, talvez porque simplesmente amadurecemos. Mas, apesar de ser um álbum com faixas muito fortes, não conseguiu sustentar a imagem de uma banda realmente boa. E, muito menos, a de uma banda jovem. No entanto, era de se esperar que, no futuro, fossem continuar por esse caminho, amadurecendo sua sonoridade, e a tornando cada vez mais voltada para as palavras.

Por isso mesmo é uma surpresa que esse quarto álbum, Olympus Sleeping, seja, em sua maior parte, uma tentativa de voltar às origens, àquele espírito dos dois primeiros discos. Mas será que isso é possível? Será que é algo que pode ser benéfico à banda dar passos para trás de tal forma, ao invés de caminhar adiante? “Got To Let The Good Times Back Into Your Life” literalmente parece um tipo de manifesto dizendo que sim, que podem fazer isso, que esse retorno deve ser feito. E é a faixa na qual o resultado é mais convincente. Poderia ser uma faixa presente em qualquer um dos dois primeiros álbuns da banda. Talvez, se estivesse em um deles, não se tornasse uma das melhores naquela coleção, como acontece aqui, mas se encaixaria. É, provavelmente, esse o motivo de ser a primeira canção do disco de fato (antes consta apenas uma breve introdução por Adam Green, conhecido por seu trabalho com o Moldy Peaches). Essa estratégia de colocar as melhores músicas no começo do disco é recorrente, e parece o caminho mais fácil dizer que é essa a que se destaca, mas, ao longo do álbum, a qualidade se revela oscilante.

Os melhores momentos, sempre, são aqueles em que tentam retornar ao seu espírito de juventude enquanto banda. Não só trazendo o sentimento à tona, mas mesmo as origens de classe trabalhadora da banda. Aquela coisa bem britpop de falar da realidade da juventude do Reino Unido, que hoje, em tempos de brexit, é bem diferente. É curioso ver isso em um álbum que tem influências tão distintas quanto Japandroids e Elvis Costello. Mas é a prova de que a autenticidade é sempre mais valiosa.

Já os pontos baixos são aqueles que parecem ir mais na linha do álbum anterior da banda, de dez anos atrás. Faixas como “Iceman” não conseguem ter o mesmo lirismo de “Wire to wire”, em grande parte porque as letras de Olympus Sleeping, mesmo que estejam acima da média do indie, não são tão boas. Inclusive, a faixa que dá título ao disco entra nesse bolo. Contrariando a outra estratégia do mercado fonográfico, de batizar com base numa das canções mais fortes, aqui vemos uma escolha que parece ser arbitrária. Ou talvez fosse o único título de faixa que não ficasse muito ridículo estampado na capa.

Considerando tudo isso, é engraçado ver que, mesmo não sendo um álbum ruim, Olympus Sleeping ainda fica atrás de todas as obras do Razorlight anteriores. Mas, para uma banda que volta de um hiato de 10 anos, mostra que ainda tem vestígios daquela vitalidade da juventude para, quem sabe, nos trazerem algumas coisas boas no futuro.

OUÇA: “Got To Let The Good Times Back Into Your Life”, “Brighton Pier” e “Carry Yourself”

Hands Like Houses – Anon.


Após um período de dois anos desde o último álbum, os australianos do Hands Like Houses estão com um novo trabalho na praça e já adianto: você faria melhor em não criar tantas expectativas. Antes, porém, de começar a falar sobre o lançamento em questão, gostaria de retomar, brevemente, a trajetória do quinteto de Camberra. Caso você não os conheça, lá vai: a banda existe há dez anos, mas seu debut foi exposto ao mundo apenas há seis. Desde então, foram mais três álbuns – contando com o atual, Anon. O primeiro contato que tive foi com o belíssimo Unimagine – em parte pela capa, confesso – um trabalho leve, com fortes elementos de post-hardcore e alguns sutis aspectos eletrônicos. Não sei se de lá para cá mudei meu gosto por música ou os meninos tomaram outro rumo, mas o fato é que o novo álbum tem um total de uma música a qual você poderia mostrar aos seus amigos sem passar vergonha. Sério.

Para começar, o segundo single de Anon, “Monster”, foi anunciado como tema do programa WWE em sua turnê australiana e, sejamos sinceros, isso não é um bom sinal. Se sua banda faz um som que pode ser usado pela WWE, alguma coisa está errada e nesse caso não foi diferente. Ainda assim, fã é uma raça persistente. Mesmo com dois singles que não seriam capazes de servir nem no despertador, estávamos lá quando saiu o álbum. Primeiro play e… surpresa. A primeira música é genuinamente boa. Poderia facilmente estar em algum trabalho antigo. De fato, deixei no repeat por alguns minutos. Em “Kingdom Come” a harmonia instrumental resgata diversas nuances que haviam sido utilizadas anteriormente pelo grupo, embora dessa vez permeada por um vocal nebuloso, quase etéreo, próximo daquele bastante recorrente no shoegaze. Em termos líricos, bastante interessante. Quase niilista. ‘I can’t pretend that it doesn’t plague me/ I can’t pretend that it hasn’t changed me/ I can’t pretend that I’m not afraid of the end/ I wonder/ Is God getting lonely?’. Em todo caso, a canção é curta tal como a felicidade do ouvinte. Daí para frente é ladeira abaixo.

Basicamente, você poderia descrever o álbum como a trilha sonora do menu de algum jogo genérico – palavra que descreve absolutamente todos os elementos do disco, salvo a primeira faixa. Em termos líricos, novamente, o disco  todo é bastante pobre. Temas clichês como demônios interiores tentando ascender e a confusão de lidar consigo mesmo: ‘overthinking’ – essa não é de todo ruim, by the way. Compare, por exemplo, alguma faixa com qualquer sucesso da banda Skillet e note a semelhança – se essa última faz parte da sua playlist, aliás, feche esse texto. O fato é que não tenho problemas com bandas ruins, mas quando grupos como Hands Like Houses – que já mostraram seu potencial em trabalhos brilhantes – entregam algo tão sintético e vazio de significado, a coisa realmente te deixa chateado. Perante toda essa questão, não posso deixar de pensar que, no fim das contas, não há dúvidas: um fã de Jota Quest certamente adoraria Anon. Melhor seria, com o perdão do trocadilho, permanecer no anonimato.

OUÇA: “Kingdom Come”, “Monster” e “Overthinking”

Young the Giant – Mirror Master


A globalização e a indústria cultural podem democratizar a arte. Por outro lado, o efeito massificador cria artistas iguais, obras iguais, famas, sucessos, dinheiros iguais. Quando Jim Carrey desejou que todo mundo fosse rico e famoso, foi exatamente por esse motivo: não há nada de novo para fazer ou almejar se você não se despadroniza e sai de sua zona de conforto. Você só muda de prioridades, escolhe uma marca de tênis diferente e muda o destino das suas viagens.

É nesta fuga que Young the Giant pautou seu quarto álbum de estúdio, Mirror Master. Após um longo período obedecendo às demandas do mercado, e em busca de sua própria identidade, a banda entrou em um processo de criação puro, o mais longe possível das tendências norte-americanas do indie e, segundo o vocalista Sameer Gadhia, sobre sua história de imigrante na terra do Tio Sam.

Logo na primeira faixa, “Superposition”, os elementos indianos ficam claros. Cordas agudas, coros marcantes e leves e a letra sobre a química entre duas pessoas (ou universos?) levam ao ouvinte entender que o grupo está trabalhando para produzir novos clássicos e não pretende, necessariamente ou por obrigação, ter vínculo com o passado. Mesmo assim, aquela fórmula super manjada de “vamos viver o amor, o futuro nos espera” reencontra a banda em “Simplify”, que poderia ter sido vendida para o Coldplay.

Enquanto os elementos mais eletrônicos aparecem em “Call Me Back”, as guitarras mais abertas e harmonias mais energéticas são bem-vindas em “Heat Of The Summer”, “Brother’s Keeper” e “Oblivion”, destaque da obra. Mas as composições que mais falam sobre o álbum em si são “Glory” — que, segundo Gadhia, é uma música discreta e vulnerável que afronta tudo o que os artistas fazem há tempos para vender — e  “Tightrope” — que questiona justamente uma identidade e existência.

Mirror Master encerra com sua música homônima e que também resume a obra. Com refrão que começa com a frase “você é mestre do espelho”, Gadhia explica do que se tratam todas as 12 faixas: autoconhecimento é essencial para você também conhecer e até mudar a realidade ao seu redor. A certeza que fica, até agora, é que Mirror Master é essencial para mudar o Young The Giant e a sua realidade.

OUÇA: “Superposition”, “Heat Of The Summer” e “Oblivion”

Cypress Hill – Elephants On Acid


Após oito anos de sem lançar um disco, Cypress Hill volta com disco muito louco e cheio de misturas de estilos interessantíssimos. Elephants On Acid surpreende tanto no nome, como na capa e no uso de orientalismo e cítaras nos seus samplers. Nesse trabalho a parceria entre B-Real e Tom Morello (lá no Prophets of Rage) foi deixada de lado, e apostou no mix com dois musicistas egípcios: Sadat e Alaa Fifty.

A consequência é um som chapadaço e místico. Camadas e mais camadas musicais que se ouvidos separados, talvez não fizesse tanto sentido, mas sobrepostos criam atmosferas sensacionais, como a de “Falling Down”. Ou ainda o som feito por um elefante no fundo de Insane OG”. E as maravilhosas camadas de vozes de “Reefer Man”.

Além disso, Elephants On Acid surpreende por ser um disco cadenciado e com músicas instrumentais bem colocadas, dando um toque de continuidade para a obra. Isso mostra mais do que nunca que dentro do mundo musical dos EUA, a irreverência e a musicalidade mais interessante da atualidade não está no rock, pelo contrário, está evidentemente no hip-hop. Ainda mais em casos como esse, em que ouvimos trompetes e orientalismo tão bem usado em instrumentos, mas também em backing vocals.

Cypress Hill continua um dos grupos de hip-hop mais importantes do mundo, tanto por suas letras críticas e som, mas também por ser composto por membros de origem latina, nascidos em Los Angeles predominantemente. Até disco em espanhol eles já lançaram. E isso é necessário para questionar a xenofobia dos EUA, e dessa forma, criar sons tão dançantes com misturas tão poderosas características dos latinos.

OUÇA: “Band Of Gypsies”, “Falling Down” e “Reefer Man”

John Grant – Love Is Magic


Quase se transformando em clichê teórico no meio acadêmico, a expressão crise do masculino vem sendo utilizada para designar o mal estar vivenciado pelos homens que, situados em uma perspectiva centralizada, dominadora e hegemônica, tiveram que gradualmente se haver com as demandas do feminismo e da ascensão da mulher na economia social como um todo, na reconfiguração dos papéis de paternidade, na pluralidade de gênero, entre outros dispositivos desestabilizantes. Dessa forma, os padrões anteriores de como a subjetividade masculina deveria constituir se esboroaram, colocando em cheque ideiais preestabelecidos de masculinidade e ampliando as possibilidades de surgimento de novas maneiras de estar, pensar e sentir se como homem.

O resenhista que vos fala tem a opinião de que, na música pop atual, o cantor e compositor americano John Grant é quem melhor canaliza as angústias masculinas em um conjunto de representações (letras, sonoridade, e as transfigura em uma poética calcada no gauche, na auto-depreciação, no humor negro e ácido). Gay, ex-junkie e soropositivo, o ex-vocalista do The Czars despontou em carreira solo no ano de 2010, com o belíssimo Queen Of Denmark, um registro lo-fi dilacerado sobre suas experiências com drogas, alcool e depressão, passando pelo metálico e impassível e altamente sintetizado Pale Green Ghosts, de 2013, até o belo e mais orgânico Grey Tickles, Black Pressure, de 2015. John Grant compõe sobre a subjetividade masculina, desde sentimentos de rejeição e insegurança (“It’s Easier”, “Queen Of Denmark”, “GMF”), relacionamentos complexos entre homens (“Why don’t you love me anymore?”, “It doesn’t matter to him”); até o envelhecimento (“Grey tickles, black pressure”).

Nesse contexto, John Grant lança agora Love Is Magic, seu quarto álbum de inéditas. Mais enxuto que os anteriores, contendo apenas 10 faixas, o álbum prossegue na exploração de batidas e sons analógicos que deram a tônica de Pale Green Ghosts. Na realidade, trata-se de um Pale mais tímido, reflexivo, voltado para dentro, como um retorno a algo mais íntimo e subjetivo na paleta de sonoridades. “Metamorphosis”, “Love Is Magic” (que remete à sonoridade do Duran Duran), “Tempest”, “He’s Got His Mother’s Hips”, “Smug Cunt” e “Touch And Go” desenvolvem-se em camadas estratificadas de synths organizadas pelo barítono metalizado do cantor.

Love Is Magic é tão bom quanto Pale Green Ghosts, mas inferior a Queen Of Denmark e Grey Tickles, Black Pressure, álbuns mais densos e com melodias bem construídas. Mesmo assim, este belo trabalho de John Grant está entre os melhores de 2018, para o resenhista que vos fala, grande fã do cantor e compositor americano.

OUÇA: “Metamorphosis”, “Love Is Magic”, “Tempest”, “He’s Got His Mother’s Hips”, “Smug Cunt” e “Touch And Go”.