Son Lux – Brighter Wounds


De certa forma, a abordagem do quinto projeto de estúdio de Son Lux parece desafiadora: o som é diferente e por vezes inesperado. A sutil combinação de sintetizadores com a instrumentação orgânica produz, em muitos momentos, efeitos sonoros marcantes e instigantes. Por vezes, as cordas assumem destaque nas músicas, associadas, claro, à voz de Ryan Lott.

Apesar de iniciar com uma introdução instigante e que chama pela construção misteriosa e grandiosa de suas batidas, o projeto parece demorar para encontrar um fluxo estável e mais animador. Em suas primeiras faixas, demonstra ser relativamente monótono, resgatado apenas pelos sutis períodos instrumentais. Muitas vezes, são momentos de produção pontuais que favorecem uma certa percepção diferente das faixas e salvam o álbum da mesmice. Quando chega à metade, parece atingir um certo ponto de curva e evolui para algo mais concreto.

A construção de sons que o álbum explora compila diferentes influências e apresenta claros traços de curadoria do seu fundador. Lott traz elementos clássicos com protagonismo para o violino, por exemplo, que lembra o que certas bandas synthpop, como a libanesa Mashrou’ Leila, já apresentam em projetos recentes, misturando cordas e piano com sintetizadores. Ao mesmo tempo, também chega a possuir uma eletrônica que lembra batidas presentes em canções mais experimentais, como “Girls” de Style of Eye, ou inclusive do australiano Flume. Em faixas como “The Fool You Need”, os elementos parecem dialogar diretamente com o que já era trazido por Flume e Chet Faker em “Drop The Game”, de 2013. Por isso, em alguns períodos, os sons podem parecer familiares demais para impressionar mas, quando bem trabalhados, conseguem surpreender.

O piano e as batidas agudas que se inserem progressivamente em “Labor” criam uma atmosfera de sensações que favorecem o diálogo com o vocal de Lott, para desenvolver outro momento de destaque. Na sequência de “All Directions” e “Aquatic”, a instrumentação acústica se mistura quase que perfeitamente com os sintetizadores para gerar alguns dos momentos mais belos e monumentais do projeto. Ao mesmo tempo, analisando parte das letras, percebemos que a instrumentação está fortemente associada à tonalidade densa do liricismo. Muitas das estruturações dialogam com uma forte densidade emocional, o que acaba por ser transmitido aos sons e em certos contextos chega a simular uma certa liberação emocional. A parcela final de “All Directions” ajuda a traduzir literalmente o nome da música, uma vez que os golpes do sintetizador associados à melodia parecem, de fato, ir em muitas direções. Nesse sentido, há uma complementação para criar um efeito em quem escuta. Ao final de “Surrounded”, por exemplo, cria-se uma atmosfera pesada pela progressão estritamente eletrônica com batidas constantes.

A escrita não é particularmente entediante, e favorece em dar maior coesão ao álbum no geral, uma vez que evidencia uma temática mais obscura e explica o por quê de certos momentos serem mais carregados e até abafados. O complemento é a voz delicada e característica que sustenta quase todas as músicas, adicionando um tom de certa melancolia.

Brighter Wounds parece ter mais sentido quando analisado em sua totalidade: letras pesadas associadas a sons ricos e instigantes, que geram uma contextualização energética e sensorial de carregamento e liberação necessária, mas que parecem se perder em certos momentos e cair na repetição ou tédio. De qualquer maneira, o disco possui grandes momentos de euforia e êxtase, principalmente em torno da parte eletrônica, em que as batidas parecem ser moldadas à vontade de quem produz e se encaixam aos outros complementos. Parece haver um sentido simples e direto no próprio título: instrumentação e letra dialogam pelas grandes vibrações e certa luminosidade da primeira, com e melancolia relatada na segunda.

OUÇA: “Forty Screams”, “All Directions” e “Aquatic”

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