Sharon Van Etten – Remind Me Tomorrow


O novo álbum de Sharon Van Etten é uma questão de tempo. Dez anos depois do seu primeiro trabalho de estúdio oficial e cinco depois do último, a artista estadunidense volta em Remind Me Tomorrow. E entrega um estilo, que, em contraste com a bagunça na capa, é consistente: há aqui métodos de composição diferentes do habitual, mas ainda assim em sintonia com o restante da sua obra e com as suas memórias e projeções de futuro.

Aqui, as faixas guiadas pelo violão e guitarra sumiram. E sabe aqueles arranjos de banda de folk rock, que havia em discos como Epic (2010) e Are We There (2014)? Pois é, também não estão presentes. No lugar disso tudo, brilham teclas e baterias, em uma produção mais eletrônica feita por John Congleton, que já trabalhou com artistas como St. Vincent e Angel Olsen. Da parte de Sharon, esse novo rumo não veio do nada: prenúncios podem ser encontrados em faixas mais antigas (“Taking Chances”, “Break Me”), mas só em Remind esse contexto sonoro se tornou padrão. Longe de ser por formalidade, uma das faixas, “Jupiter 4”, leva o nome de um modelo de sintetizador, instrumento que em paralelo ao piano compõe a base de todas as composições.

É um álbum sonoramente coeso, portanto. E agradável: Van Etten já sabia criar ambientes confortáveis para o ouvinte, e conseguiu transportar bem essa característica para os arranjos. Surgem timbres que remetem a paisagens mais úmidas ou etéreas, sobretudo com o uso de reverberação na voz. E os melhores momentos do trabalho surgem quando essa habilidade é utilizada para gerar um crescendo, como na já citada “Jupiter 4” e no single “Seventeen”, no qual a compositora conversa com seu eu de vinte anos atrás na melhor interpretação vocal do disco.

Talvez nem todas as escolhas se encaixem perfeitamente. Quanto aos arranjos, exceto por poucos elementos aparentemente deslocados — final abrupto em “No One’s Easy To Love”, bateria eletrônica estranha na introdução de “Comeback Kid” —, eles de fato foram bem escolhidos e trabalhados nessa mudança de som. Negativamente falando, o que pega mais é a simplificação da estrutura das faixas, com letras e motivos sonoros mais repetitivos do que em trabalhos anteriores.

É justo dizer que essa preferência, com seções mais pegajosas, como em “Comeback Kid”, “You Shadow” e “Hands”, tem a virtude da acessibilidade e da persistência da canção no ouvinte. Contudo, no caso isso compromete a exploração de outras características de Van Etten, como as harmonias vocais e mudanças de dinâmica ao longo da faixa. Essas marcas ainda estão ali, mas menos presentes, chamando inclusive mais atenção quando aparecem, seja de forma mais visceral (“Seventeen”) ou introspectiva (“Malibu”).

Nos temas líricos, a compositora mantém a sua força de sempre. Há repetições, mas nada é bobo ou raso. Aparecem memórias ásperas e afetuosas de relacionamentos atuais e passados, desafios da sua adolescência e considerações sobre o futuro dela e de seu filho, nascido em 2017. Em um disco marcado por mudanças e transitoriedade em vários sentidos, é uma escolha singular terminar o trabalho olhando para o que é permanente na sua relação materna: ‘You love me either way / You stay‘. E de certa forma, o que fica para o ouvinte é que apesar de todas as diferenças, este é ainda um trabalho de Sharon Van Etten — de ontem e do amanhã; mas, sobretudo, um trabalho do agora.

OUÇA: “Seventeen” e “Malibu”.

Estudante de jornalismo, quase duas décadas de vida, músico diletante, manezinho da Ilha. Normalmente com melhores ideias e ideais do que execuções, mas pode ter certeza de que estou trabalhando nisso...

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