Róisín Murphy – Take Her Up To Monto

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Desde a primeira até a última música, o novo álbum de Róisín Murphy, Take Her Up To Monto, é um festival de sons e samples que brincam com o synthpop e remetem ao estilo dos cabarets. Ao ouvir o álbum, que conta com um total de 9 faixas conectadas entre si, a impressão que se tem é que se trata de uma mistura entre David Bowie, Tame Impala e uma pitada de 8-bit.

Para os que gostam de aproveitar o efeito de “3D auditivo”, quando existe diferença entre os sons executados à direita e à esquerda na música, esse álbum é uma pedida de mão cheia. Nesse caso, o foco vai para “Nervous Sleep”, a oitava faixa e que fala, como o próprio nome sugere, da série de pensamentos e angústias, muitas vezes irreais e desproporcionais, que brotam na cabeça antes de pegar no sono. A própria melodia do início já deixa a ideia de fim de um dia cheio, corrido, e a transição perturbada entre sono e vigília.

Outra faixa que merece ser ouvida é, sem dúvida alguma, “Pretty Gardens”, que trata sobre como o eu lírico quer que a pessoa alvo de seu afeto perceba o que existe de bom por trás de tudo que ele/ela demonstra no cotidiano. Uma das frases mais impactantes dessa música inclusive toca exatamente nesse ponto: ‘What do you see when you look upon me?’. Conforme falado anteriormente, o álbum possui músicas que remetem ao estilo de cabaret, e essa é uma delas.

Obviamente, saber exatamente o que Róisín pretendia falar com cada letra é pura presunção, mas as letras parecem contar uma história, se ouvidas com a atenção que merecem. A sequência de músicas representada por “Whatever” e “Romantic Comedy” começa falando sobre um relacionamento unilateral que o eu lírico quer acabar, por sentir que já deu, precisa ser renovado. Segue, no entanto, tocando no ponto de “o que fazer quando se percebe que “aquilo” que fez iniciar o romance acaba?”. A música fala, inclusive, sobre o desgaste normal de uma paixão e o risco da rotina virar o motivo para término.

Se não fosse “Nervous Sleep” ocupando a oitava faixa do álbum, seria uma perfeita sequência de três músicas sobre relacionamentos que estão acabando, culminando com “Sitting And Counting”, com uma letra literária e embalada por um som estilo 8-bit que combina perfeitamente com o restante do álbum. A expressão utilizada na música, ‘sitting on a town, counting the waves to fade’ é a maneira mais fidedigna de descrever aquela sensação de vazio pós-fim, aquela tristeza em que nada parece fazer sentido e tudo o que se quer é esperar passar.

OUÇA: “Pretty Gardens”, “Nervous Sleep”, “Sitting And Counting” e “Ten Miles High”

Gaúcho, ama cozinhar (sem carne) e yôga. Nas horas vagas, é médico e sonha em trabalhar com tradução.

1 Comments

  1. Thiago Ferreira

    Olá, Henrique. Os álbuns Hairless Toys (2015) e Take Her Up To Monto foram gravados em uma mesma sessão de estúdio, portanto, carregam uma similaridade inevitável, mesmo que esse segundo seja mais radical nas referências eruditas que a Róisin tem se aventurado em inserir na música pop.

    Senti falta de pontos que mostrassem esses caminhos que a Róisín tem traçado com esses últimos trabalhos, como as referências à música minimalista, a Steve Reich e Philip Glass, por exemplo. Não é acidental que Thoughts Wasted explore as repetições e se divida em 3 atos precisamente marcados; e que esse “efeito 3D auditivo”, como você chama, seja tão bem trabalhado.

    Sua crítica peca também em não contextualizar o novo álbum no universo que a cantora construiu em seu próprio trabalho. Desde o retorno de Róisín em 2014 com o EP Mi Senti, após um longo hiato de 8 anos, ela tem brincado com as estruturas do pop, que faz tão bem, vide o sucesso de Overpowered (2007) e a carreira brilhante que teve na voz do Moloko (1994-2003).

    Por fim, fiquei achando muito curioso você ter encontrado similaridades entre o trabalho dela e o Tame Impala.

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