Ten Fé — Future Perfect, Present Tense



A banda inglesa Ten Fé lançou seu segundo disco intitulado Future Perfect, Present Tense. Apenas dois anos após Hit The Light, os cabeludos miraram em um som bastante ensolarado desta vez. Deixaram um pouco de lado os sintetizadores e abriram o coração pros violões

Ben Moorhouse, Leo Duncan e cia se alicerçaram num soft-rock produzido nos anos 1980 e também na cena musical dos anos 1970 — não o segmento da “disco era” rs. A exemplo, temos as faixas “Echo Park”, que facilmente tocaria nos programas de rádio da madrugada no Brasil devido aos instrumentos de corda adicionados, tornando-a bastante romântica; e “Coasting” faixa pra cima, bastante californian vibes. O álbum ainda traz referências do que se tornou o Britpop: Oasis, Supergrass, Radiohead (nos primeiros trabalhos) e até a irlandesa U2, são exemplos. A faixa de abertura, que também é o primeiro single divulgado — “Won’t Happen” — tem um violão que lembra “Wonderwall” (Oasis), só que um pouco mais animado.

Falando ainda em correspondências, difícil desassociar o timbre de voz do vocalista Ben Moorhouse da voz do Matt Berninger (The National). Principalmente nas faixas “To Lie Here Is Enough” e “Isn’t Ever a Day”. O grave, combinado com o vibrato na voz de Moorhouse harmoniza muito bem nas letras sobre términos e dificuldades nos relacionamentos, arrastando tudo para uma atmosfera melancólica, porém serena.

Como segundo álbum, Future Perfect, Present Tense está meio longe de ser perfeito. De fato, se Hit The Light (2017) fosse o trabalho posterior FPPT seria uma evolução. No entanto, a banda perdeu algumas camadas que faziam o seu som um pouco mais  interessante: os sintetizadores, os falsetes, o sex appeal. Ainda sim, vale ser ouvido e apreciado devido aos seus highlights.

OUÇA: “Echo Park”, “Coasting”, “No Light Lasts forever” e “Caught On The Inside”

Weezer – Weezer (The Black Album)



Lançado no primeiro dia de março deste ano, o décimo terceiro álbum do Weezer surgiu após o hype engraçadinho em cima do Teal Album, projeto de covers divertidos com visual à la Choque de Cultura. Visualmente, The Black Album soaria como roqueiros suados cobertos de gosma preta sobre um fundo infinito. Em termos sonoros,  eu não sei o que deveria parecer.

Em entrevista à Entertainment Weekly, Rivers Cuomo disse que alguns  fãs disseram imaginar que seria um álbum de heavy metal, super pesado. Cuomo afirmou que é justamente o contrário. Há  pouca guitarra e todas as músicas foram baseadas no piano.

O álbum é composto por dez faixas são, em média, trinta e oito minutos de um projeto produzido por  Dave Sitek e capitaneado por Rivers Cuomo e dizer isso me machuca – eu acho Weezer uma preciosidade e, uma vez por semana, ao menos, escuto o The Blue Album e agradeço – mas, cara, eis um álbum cujo destaque é não possuir destaque.

Mudança e renovação são admiráveis e importantes, mas saber fazê-los da melhor forma também é. Não se trata de um álbum mal feito ou com baixa qualidade, e sim, um álbum sem propósito, ou melhor, sem ideia definida. Não há recorte, pauta ou norte. Parece que eles apenas se juntaram e falaram: “vamos!”.

Por se tratar de Weezer, isso não torna The Black Album a experiência mais horrível e cruel do mundo. Há toques de pop, um leve flerte com hip hop, animação e até melancolia. Uma salada de frutas com muitos elementos e pouca coesão, seja na ligação de uma faixa à outra, seja no álbum como um conceito.

“High As A Kite” e  “Piece Of Cake” são bons exemplos dessa junção de melancolia e alegria. Em  “Piece Of Cake”, Cuomo parece cantar sobre se entregar – e talvez se iludir  – em contato com uma paixão, há o uso das drogas para consertar os problemas e até espaço para um gato chamado Baudelaire, como o poeta francês. Essa melancolia musical da faixa, por sua vez, soa mística e individualista, como uma busca pelo absoluto.

O jogo de contrastes do Weezer entre luzes e sombras é feito pela relação entre letra e melodia. Parece existir, nas entrelinhas, algo de sombrio ou de quebra de expectativa nas letras, como se Cuomo mostra-se que não dá a mínima para o que esperam do Weezer.

É difícil saber para onde o Weezer está indo, principalmente quando o trabalho, como um todo, soa tão fácil de esquecer. Qual a próxima cor que o Weezer irá explorar?N

OUÇA: “High As A Kite”, “Piece Of Cake”, “I’m Just Being Honest” e “Byzantine”


Hozier – Wasteland, Baby!



É injusto limitar um artista ao seu maior sucesso, mas dificilmente dá pra descrever o novo trabalho de Hozier sem resgatar os elementos que tornaram “Take Me To Church” um sucesso mundial. Quase meia década após o debut, o irlandês retorna com seu segundo álbum, Wasteland, Baby!, carregando um compilado de partes que parecem recicladas do primeiro disco.

Hozier começa o novo álbum com “Nina Cried Power”, contando com a participação da cantora Mavis Staples. A faixa foi lançada em 2018, em formato de EP, e traz na letra nomes que se tornaram lendas da música e do ativismo como Nina Simone, John Lennon, James Brown e Billie Holiday. O tom apocalíptico do gospel/soul acompanhado de uma mensagem de esperança em pleno fim do mundo é o que guia o Wasteland, Baby! durante seus 57 minutos de duração.

O coral, o som do órgão com elementos do blues misturado com folk se juntam a voz poderosa de Hozier, lembrando a fórmula de Take Me to Church e sentida em diversos momentos. Apesar da preocupação em encontrar um sucessor à altura, o acerto de Hozier foi não deixar essa fórmula saturada. Wasteland, Baby! (e toda sua carreira) não são apenas isso.

O diferencial fica por conta das faixas “No Plan” e “Be”, que destacam a guitarra e aceleram o ritmo do disco. O álbum termina com a música que o batizou e também resume toda sua história. A imagem que Wasteland, Baby! – tanto o disco quanto a faixa – traz é de um passeio pelo fim do mundo, mas um passeio que deve ser feito a dois. Tudo isso é finalizado com um sucinto e sacana “That’s it”.

Wasteland, Baby! é um tanto mais do mesmo, porém isso não significa que o mesmo deve ser desmerecido. Hozier não hesita em tentar repetir o fenômeno anterior, afinal todo seu sucesso se deve a inovação de levar o folk e o soul para um púlpito. Talvez o novo disco não tenha um hit para as rádios, mas com certeza tem toda a essência de seu criador.

OUÇA: “Nina Cried Power”, “No Plan” e “Wasteland, Baby!”

Gary Clark Jr. – This Land



Gary Clark Jr. surgiu a cerca de 8 anos com o EP The Bright Lights e, desde então, lançou 3 discos e coleciona participações em grandes festivais de blues como o Crossroads, tocando ao lado de grandes lendas da guitarra como Eric Clapton, BB King, Buddy Guy e nomes contemporâneos da guitarra como John Mayer e Doyle Bramhall II. Em seu terceiro disco, ele procura ser despretensioso, mas extremamente ambicioso ao trazer uma gama grande de estilos musicais, de maneira experimental.

O álbum se inicia com “This Land”, um manifesto contra o racismo institucionalizado nos Estados Unidos que faz afro americanos não sentirem-se bem-vindos na própria terra. Contrário a isso, ele diz no refrão que é filho da américa e que aquela terra é dele.  A partir da terceira faixa, Gary passa a viajar por diversos estilos musicais diferentes, passando por soul em “When I’m Gone”, R&B, hip hop, pop em “The Guitar Man” e até mesmo reggae na faixa “Feeling Like A Million”. Vale destacar também “Pearl Cadillac”, excelente balada onde o artista mostra a habilidade que tem em combinar harmonicamente sua voz com a guitarra. O disco mostra a versatilidade de um artista que sempre foi visto como um guitarrista de blues, trazendo o foco para a produção e menos para os solos de guitarra. Entretanto, a guitarra blues característica do artista está presente e faixas como a instrumental “Highway 71”, onde ele experimenta solos em cima de uma base, “The Governor” e “Dirty Dishes Blues” que trazem um blues mais clássico.

This Land traz Gary Clark Jr. sem medo de arriscar novos arranjos e experimentar outros estilos. Mostra um artista mais maduro e confiante e acerta em muitos momentos com músicas que seriam excelentes singles, mas funcionam bem em conjunto. Sendo moderno, mas nunca esquecendo suas raízes, This Land é – sem dúvida – um dos melhores discos de blues do ano até o momento.

OUÇA: “My Eyes On You (Locked & Loaded)”, “This Land”, “Pearl Cadillac” e “Dirty Dishes Blues”

Julia Jacklin – Crushing



A Julia Jacklin é uma moça australiana de 28 anos, no momento dessa resenha, que você talvez nunca tenha ouvido falar. E eu sinto pena de você por seus ouvidos nunca terem cruzado o caminho dela, caso seja essa a sua situação (corrija-a imediatamente). O seu primeiro álbum, Don’t Let The Kids Win, apareceu em 2016 e não fez uma legião de novos fãs surgir para a moça naquele momento. Crushing aparece agora, em 2019, com a Jacklin em sua base de folk, sólida e cativante, destacando elementos mais pesados e interessantes que antes estavam tímidos no meio de um som com algumas camadas de sujeira.

Crushing mostra uma Jacklin fazendo um som com um ar mais polido e infinitamente mais preparada para colher os frutos que esse álbum vai render (e já está rendendo, haja visto as turnês com datas esgotadas em diversos locais do mundo, os convites para posições-chave em festivais, o lugar elevado nas paradas de sucesso da Austrália e as boas notas dadas pela crítica especializada), versando de maneira mais forte, poderosa e cheia de sua personalidade sobre problemas de relacionamentos (sejam eles amorosos ou familiares) com um toque agridoce de guitarras com uma bateria ritmada.

Na questão musical, esse segundo disco acaba não entrando em méritos muito diferentes do que ela fez no seu primeiro álbum. As guitarras estão aqui mais presentes do que no outro registro, mas é o folk interessante misturado com o indie pop cativante que deixa tudo mais aprazível. O ponto alto; a cereja do bolo, talvez, seja a voz suave da moça, completando tudo com uma maestria significativa. Crushing chega no primeiro trimestre e já desponta facilmente como um álbum que certamente veremos em listas independentes por aí, em posições de destaque.

Crushing é um álbum sensível, mas sem soar melodramático e carregado. A sua sensibilidade reside na cadência leve, mais ainda assim acelerada e o ressoar das guitarras em músicas como “Pressure To Party”; também aparece com facilidade no agudo segurado da voz doce e nas batidinhas leves de bateria em músicas como “Turn Me Down”. Ele é gostoso de ouvir em dias chuvosos e cinzas, mas também tem uma aura ensolarada que o coloca perfeitamente para um dia fresco. Sua leveza é o seu principal trunfo e quando menos percebemos já chegamos em “Comfort”, querendo repetir essa viagem dos seus quase quarenta minutos.

No fim das contas, Julia Jacklin conseguiu nos entregar um álbum com uma consistência tremenda, que não se perde e entrega um pacote completo e tocante. Começa pequeno e acanhado em “Body” e vai crescendo música após música. Julia soube entender aonde tinha entregado pouco em Don’t Let The Kids Win, apara aqui as pontas soltas e chega com os dois pés no peito com um trabalho autoral gigante e marcante.

OUÇA: “Pressure To Party”, “Don’t Know How To Keep Loving You” e “You Were Right”

Helado Negro – This Is How You Smile



NSe você é familiarizado com a obra de Roberto Carlos Lange como Helado Negro, uma coisa que chama a atenção logo numa primeira passada por este álbum é que ele é muito mais “certinho” do que os anteriores. A estética aqui é muito mais melódica e bem amarrada do começo ao fim, e já nos primeiros momentos dá pra perceber que esse som mais despido das viagens de arranjo e do experimentalismo acentuado dos registros anteriores serve a um propósito narrativo muito claro que é o de evocar memórias.

Instrumentalmente, temos alguns poucos relapsos do Helado Negro de sempre pesando a mão nos sintetizadores e baterias eletrônicas como na abertura “Please Won’t Go” mas o piano em reverb acaba suavizando a faixa. Essa é uma dinâmica interessante que aparece em todo o álbum, quando ele chega muito perto do experimentalismo eletrônico dos trabalhos anteriores, algum instrumento tradicional vem e compensa isso, fazendo a música soar mais amigável. A produção de Roberto Carlos Lange é impecável e dosa bem os momentos em que um trabalho mais acústico e tradicional é o melhor caminho ou quando o som eletrônico ajuda a passar a mensagem de uma forma mais precisa.

Um ponto interessante é que o trabalho como um todo grita latinidade sem apelar pra clichês que poderiam passar essa mensagem de forma equivocada. Essa expressão da cultura latina é colocada algumas vezes de forma bem sutil como no fraseado de violão de “Imagining What To Do”  ou bem mais explícita como na belíssima “Pais Nublado” que com um ritmo dançante relata a conversa um pai e um filho latinos que tentam ganhar a vida nos os Estados Unidos e conversam com o pai falando em espanhol e o filho respondendo nos versos em inglês relatando a dualidade de sentimentos e cultura que uma vivência dentro da névoa que é a situação dos latinos nos EUA atual.

A forma como as faixas são colocadas equilibram bem esse aspecto mais social com algo mais íntimo e pessoal que evoca uma nostalgia agridoce por diversos momentos da vida como a memória do amor em “Running” ou as memórias de infância como em “My Name Is For Friends”. Seja através dos arranjos ou das letras, cada faixa deixa uma sensação de saudade e distância depois que acaba mesmo nas faixas mais upbeat como “Seen My Aura”, as frases de guitarra e até mesmo os vazios da batida te levam pra um lugar nostálgico.

This Is How You Smile toma seu título emprestado de uma passagem do pequeno conto “Girl” da autora antiguana Jamaica Kincaid que narra conselhos de uma mãe imigrante para sua filha sobre a melhor forma de se comportar para poder viver em paz em solo estadunidense. Além do título, o que Roberto Carlos Lange pega do conto é o conflito de sentimentos que ele, como descendente de imigrantes, conhece bem que é crescer como latino na América do Norte, tentando conservar tradições ao mesmo tempo em que tenta se encaixar num outro meio e trabalha isso de uma forma que une poesia e confissão, falando de algo ultrapessoal e específico para atingir sentimentos universais como a solidão, a saudade e o não-pertencimento.

OUÇA: “Please Won’t Please”, “Pais Nublado”, “Todo Lo Que Me Falta” e “My Name Is For Friends”

OUÇA:

Ian Brown – Ripples



Em seu sétimo álbum solo, o ex-vocalista do Stone Roses faz um trabalho que altera entre composições boas, que grudam nos ouvidos – como “First World Problems”, o single que abre Ripples -, e sons repetitivos, que não se destacam tanto entre as dez faixas que compõem o novo disco. Ian Brown toca vários dos instrumentos utilizados nas músicas, além de ser o produtor do álbum. Ripples, aliás, é um trabalho em família: os filhos do vocalista fazem parte de sua banda e ajudaram a escrever várias músicas. É também o primeiro trabalho de Brown em dez anos, desde o álbum solo anterior, My Way.

Mas nem tudo é negativo: em vários momentos, a voz de Brown soa muito bem, ainda mais considerando que o músico tem 56 anos de idade. É um dos pontos altos deste trabalho, que conta com dois covers – “Black Roses”, de Barrington Levy, e “Break Down the Wall”, de Mikey Dread. Há outras faixas memoráveis, como “The Dream and the Dreamer” e o “Blue Sky Day”. Em várias músicas, inclusive nessa última, um blues com um quê de Nina Simone, há um ar de desesperança em relação à humanidade, em especial quando ele canta sobre como tratamos a nós mesmos – ou como os governantes tratam o povo – e ao nosso planeta.

No fim, Ripples é um trabalho mediano, mas que quando alcança momentos bons, são muito bons. É possível que agrade mais os fãs de longa data do cantor, que o seguem desde a época de Stone Roses e ficaram na espera por um novo trabalho de estúdio da banda. Fica a satisfação de ouvir mais uma vez uma das vozes característica mais da cena Madchester.N

OUÇA: “First World Problems”, “The Dream And The Dreamer” e “Blue Sky Day”

Sundara Karma — Ulfilas’ Alphabet



O Sundara Karma é uma banda que costumava aparecer nas playlists automáticas que o Spotify cria quando algum disco que eu estava ouvindo acabava. Muito escutei “Indigo Puff” e outras canções deles sem querer. E, embora isso tenha acontecido um bom número de vezes, eu nunca fui muito atrás de conhecer a banda. Então quando essa resenha caiu no meu colo, eu vi como uma boa oportunidade de conhecer uma “banda nova” e explorar mais a fundo a sua sonoridade e seu disco.

Ulfilas’ Alphabet é o segundo disco do Sundara Karma e foi lançado no dia 1º de março, dando sequência ao seu debut album Youth Is Only Ever Fun in Retrospect, que saiu em 2017.

No geral, o álbum é upbeat, com boas guitarras e uma sonoridade extremamente familiar, que para mim traz uma sensação de “rock inglês”, whatever that means. E eu não posso deixar de exaltar a voz do Oscar Pollock, com sua força no grave, que completa o combo da “nostalgia sonora” que eu senti ao ouvir o álbum.

Apesar de ser carregado de memórias e referências, que remetem às mais variadas décadas, o álbum é muito “novo”. Tem um frescor de novidade, ainda que busque em “recursos clássicos” a solução para fazer um hit.

A primeira música, “A Song For My Future Self” já estabelece o tom do disco e é uma das minhas canções favoritas do álbum. Tem boas camadas sonoras, uma pegada meio setentista, distorções e um excelente instrumental — que você vai ouvir através de todo o álbum.

A combinação de “Symbols Of Joy & Eternity” e “Higher States” é, para mim, preciosa. São duas músicas com cara de hit que trazem uma sensação de que eu já as conheço a vida toda — sem soar como se fossem uma cópia barata ou rip-off de outros artistas, mas que apresentam características musicais que soam confortáveis aos ouvidos.

A cada nova música vamos descobrindo uma nova faceta do quarteto, como na canção “The Changeover”, mais lenta que o resto do álbum e onde podemos apreciar toda a potência dos vocais — que, por momentos, lembra até o vozeirão de David Bowie. Preciso destacar, também, “Illusions” e “Duller Days”, canções meio dark e que tem um quê de Franz Ferdinand, trazendo uma vibe muito gostosa ao disco.

Depois de toda a viagem de Ulfilas’ Alphabet, “Home (There Was Never Any Reason To Feel So Alone)” acalma os ânimos e encerra o álbum brilhantemente, com seus beats e elementos eletrônicos.

Eu não consigo ouvir o álbum sem pensar, “bah, essa é uma banda inglesa”. Além do sotaque, a banda carrega a identidade britânica nas nuances de suas canções e, também, no visual. Da terra do renomado Reading Festival, a banda está na ativa desde 2011 e, se continuar nesse caminho terá uma carreira bem próspera pela frente.

Assim como a capa do disco propõe, Ulfila’s Alphabet é um disco bom de mexer o esqueleto. Se você gosta de conhecer bandas novas e curte um bom indie rock, o Sundara Karma é uma ótima pedida!

OUÇA: “A Song For My Future Self”, “Symbols Of Joy & Eternity”, “Duller Days” e “Higher States”

Pond — Tasmania



A banda-irmã do Tame Impala pega emprestado o nome da famosa ilha próxima à Austrália para ambientar seu oitavo álbum de estúdio em pouco mais de dez anos. Produzido conjuntamente por Kevin Parker com o grupo, Tasmania apresenta um Pond ainda mais dançante e acessível, que parece começar justamente de onde terminou em The Weather (2017). Também aqui o rótulo de psicodelia está atrelado a uma estrutura de canção pop, seguindo a mesma trilha que Parker tem feito desde 2015 em seus projetos e produções.

Por falar na produção, de fato não se pode reclamar de uma falta de esmero. Em comparação com a fase mais rockeira da banda em álbuns como Hobo Rocket (2013), tudo soa muito mais polido aqui. Vocais, entre os mais limpos e os distorcidos, estão bem mixados com o restante do grupo, e há linhas melódicas de sintetizadores e baixos eletrônicos bem trabalhadas que dão base a toda a obra. A capa colorida engana um pouco: sim, é um som bastante solar esparso que te espera no novo trabalho, mas nem de longe tão variado quanto pode fazer parecer a fachada arco-íris.

Se a banda peca aqui, é justamente pela repetição e pela artificialidade. Isso já fica evidente nos seis minutos de “Daisy”, primeira faixa e um dos singles do álbum. Ela inicia com uma criativa mudança de andamento de uma introdução mais relaxante para um ambiente festivo, porém logo redunda em um mar de timbres pouco originais e uma cozinha que remete à psicodelia dançante surgida em fins dos anos 80, sem muito a acrescentar. Sem falar na coda arrastada que parece perdida, ocupando quase dois minutos ao final…

Esse tipo de escolhas sonoras permeia basicamente todo o trabalho, que alterna muito pouco entre os dois climas apresentados na abertura. Não é de todo ruim: a tentativa gera canções que isoladamente tem seus méritos, como nos questionamentos sobre pertencimento da título “Tasmania”, na transitória “Goodnight, P.C.C.” (atenção especial para a linha percussiva) e em “Burnt Out Star”, maior música do disco em duração e grandiosidade. Contudo, essa alternância pequena faz os 48 minutos parecerem maiores do que são, por puro excesso do mesmo.

Liricamente falando, o disco pode parecer bobo ou nonsense em uma primeira audição; contudo, há temas profundos ocultos em vários momentos. Crueldade social (“The Boys Are Killing Me”), a busca/cobrança por politização nas letras (“Hand Mouth Dancer”) e a fama (“Burnt Out Star”) são alguns dos tópicos discorridos, principalmente por Nick Allbrook, que co-assina nove das dez faixas. Não há passagens muito memoráveis, mas também não existe contraste agressivo entre letra e música, o que garante fluidez na escuta ao menos nesse aspecto. E assim, Tasmania se encerra trazendo um Pond em terreno sonoro conhecido e bem produzido, mas com pouca inventividade e diferenciação entre as canções.

OUÇA: “Goodnight, P.C.C.” e “Burnt Out Star”

La Dispute – Panorama



O Quartzo Rosa é um cristal que tem como propriedade purificar e harmonizar as emoções. É energia intensa de amor incondicional, é o chakra do coração. Certo amante meu, uma vez, viu um quartzo rosa quebrar-se em sua mão. A metade era minha e a outra, dele. E se a conexão dessas duas partes bastasse para curar nossas dores? E se a energia da pedra bastasse para curar nossas feridas? Talvez álbuns como Panorama não nasceriam nunca mais.

Quando as penumbras eram mais difíceis, eu colocava meus cristais em baixo da travesseiro para conseguir dormir melhor. Cada dia uma cor, uma propriedade: no fim, a cura estava no MP4 que colocava de baixo do mesmo travesseiro, com as músicas que me levavam para os sonhos.

A experiência de ouvir Panorama não é a mesma sem ver e sentir toda o visual que o álbum acompanha. Pilgrimage, um ‘jogo’ lançado pela banda junto com o álbum, traz as letras de cada música acompanhadas, trilha sonora de imagens geométricas em computação gráfica. Tons de rosa, azul, lilás, magenta, todos dançando em ritmo.

Uma atmosfera tão magnética e escapista, Pilgrimage são 40 minutos em puro deslumbramento e tontura (por conta das nuances mostradas pelos movimentos do mouse), lugar onde é possível ver e ler todo o tecer que Panorama faz em suas dez músicas.

A valorização das letras é clara quando, naquele jogo, os movimentos do mouse, ainda que te levem para outro ângulo da cena, continuam te mostrando as letras em uma posição mais visível. Acompanhe. Leia. Sinta.

Mesmo que minhas tentativas com o Quartzo Rosa não tenham dado certo, entendo que o La Dispute colocou em seu novo álbum todo o trajeto de uma história de amor. Uma carta, longa, de um amor incondicional. E é preciso muita maturidade para encarar esse tipo de amor. Tão diferente da paixão, o tipo de amor descrito em Panorama, mesmo sendo universalmente inacabável, não é etéreo como os apaixonados pensam. É dor. E às vezes nós sangramos porque precisamos sangrar.

Entender como o outro se sente é um caminho largo que muitos preferem não percorrer. Optar por escolher um atalho, para não encarar nos outros nossos próprios medos é a escolha mais comum. “Fulton Street I”, a tentativa de encontrar essa porta chega a ser desesperante. Sentir a dor de alguém e, de fato, senti-la como excruciante não é o desejo mais agradável possível. A dor de querer tornar-se isso para alguém é um afogar, explícito em sua continuação, “Fulton Street II”.

Com certeza o maior atrativo de La Dispute, são as letras, a spoken word. Mas o instrumental é um degrau necessário para fazer de tudo uma ode. Não há muita inventividade em Panorama. A sonoridade ficar facilmente escondida em algum dos outros álbuns da banda (igualmente competentes). Minha expectativa era de que o La Dispute abandonasse completamente as guitarras neste novo trabalho. Elas ainda não o principal catalizador de momentos intensos, de clímax complexos e amarras em histórias contadas. “Rhodonite and Grief” consegue trazer metais mais do que esperados. Quem escutou os EPs da banda sabe que La Dispute sempre esteve a um passo de trazer mais “slam” e jazz para sua sonoridade. Deixou um gosto bom, de quero mais.

Panorama foi uma experiência difícil, dolorosa. Um trabalho lírico que é capaz de tirar os mais inertes e os que se escondem do escuro. Nada menos do que o esperado.

OUÇA: “ANXIETY PANORAMA”, “THERE YOU ARE (HIDING PLACE)” e “YOU ASCENDANT”