BROCKHAMPTON – Ginger



Quando eu tinha alguma dor de garganta ou inflamação boba, minha avó indicava chá de gengibre. A plantinha com aspecto estranho tem ação bactericida, é desintoxicante e contribui de maneira positiva para vários sistemas do nosso corpo. Desintoxicante. O quinto álbum de estúdio do BROCKHAMPTON é um registro após a saída do rapper Ameer Vann – afastado em 2018 após denúncias de abuso sexual por diversas mulheres. Vann foi co-fundador do grupo, ao lado de Kevin Abstract, era considerado um dos rappers de maior qualidade do grupo.

BROCKHAMPTON é formado, atualmente, por Kevin Abstract, Matt Champion, Dom McLennon, Merlyn Wood, Joba, Bearface, Romil Hemnani, Jabari Manwa, Kiko Merley, Robert Ontenient, Henock “HK” Sileshi, Ashlan Grey e Jon Nunes  – um time de futebol completo. 

Sem Ameer Vann, Ginger é um registro honesto, pessoal e belo, mas sem a força quase descomunal dos trabalhos anteriores. Às vezes a beleza parece estar nas pequenas ondas, nas pequenas odes. 

O registro é, de certo modo, intimista, mas pouco aprofundado. Ginger poderia ir além. Há discussões sobre saúde mental e religião, por exemplo, que poderiam ir mais a fundo, mas, ao todo, soam como honestas. Como permanecer bem? O BROCKHAMPTON apresenta seus medos com otimismo. Em “If You Pray Right”, um destaque do álbum, Dom McLennon fala justamente sobre lutas pessoais. “Dearly Departed”, sétima faixa do registro, soa como uma porrada. Com ares de canção de rock e vocal afinadíssimo de Joba no refrão, McLennon fala diretamente com o ex-integrante Ameer Vann, dizendo todas as suas angústias.

Mesclando elementos de R&B, rap e hip-hop e até rock, o BROCKHAMPTON permanece como um grupo a ser observado, mas com cuidado. Ginger se apresenta com algum frescor e certo destaque, mas não salta aos olhos como outros trabalhos  – bom, mas não o melhor.  

OUÇA: “HEAVEN BELONGS TO YOU”,”ST. PERCY”, “DEARLY DEPARTED”, “BIG BOY”

Swans – leaving meaning.



O Swans voltou aos estúdios com integrantes modificados. Entre os 20 artistas nos créditos acompanhando Michael Gira, há nomes de peso, como os das irmãs Anna e Maria von Hausswolff nos backing vocals, o do pianista Chris Abrahams e o do guitarrista Ben Frost. Três anos depois de The Glowing Man, que encerrou a aclamada trilogia iniciada no denso The Seer (2012) e continuada em To Be Kind (2014), leaving meaning. chegou em outubro ao público com expectativas altas. Cumpridas, na maior parte.

É bom salientar: leaving não é exatamente um disco totalmente novo do Swans. Ok, de fato está um tanto distante da última trilogia da banda, mas não é como se o terreno de agora fosse totalmente desconhecido. Se você já conhece em parte a discografia do grupo e tem como fase preferida da banda a do disco Children Of God (1986), ou mesmo gosta do projeto paralelo The Angels of Light, esse disco vai ressoar facilmente com você. A sonoridade do novo disco acaba bebendo bastante nas ideias que flertavam com o (neo)folk e atmosferas mais góticas nesses trabalhos anteriores. 

Não que seja um problema em si mesmo. Tem lá suas faixas que engatilham lembranças – “Amnesia” é praticamente uma regravação da faixa de mesmo nome de 1992; “It’s Coming It’s Real”, primeiro single do disco, é praticamente uma filha de “Our Love Lies”; e “Annaline”, uma atualização conceitual de “Evangeline” – e apesar disso, não desanda num trabalho estritamente derivativo ou autocongratulatório. Contudo, existem sim momentos menos inspirados. Principalmente na porção do meio do disco, onde a repetição, elemento quase marca registrada em todas as fases da banda, atua de forma um pouco enfadonha. Um exemplo são as linhas vocais recicladas em atmosferas muito similares entre músicas como a faixa-título, “Cathedrals Of Heaven” e “The Nub”.

Exceto por esses pontos, leaving meaning. é sim um ótimo disco. E acessível, sendo tranquilo afirmar que é uma boa porta de entrada para o grupo. Tem pouco mais de uma hora e meia de duração – que parecem muito, mas comparadas às duas horas de todos os três discos anteriores, todos com faixas beirando ou passando os 30 minutos… Também não existe nenhum momento exatamente brutal, abrasivo ou superdenso (pelo menos na sonoridade, já que nas letras é um ponto discutível). Aqui, mesmo as paranoicas “The Hanging Man” e “Some New Things” e a épica “Sunfucker” são bastante assimiláveis para um primeiro contato. De maneira geral, o trabalho tem um teor orquestrado e bem executado nos arranjos (principalmente de teclas e vocais) de tal forma que o álbum traz genuinamente algo novo e engajante a cada ouvida.

Liricamente, o disco não inova tanto, com as temáticas existenciais e um tanto desagradáveis já comuns à banda. De todo modo, assim como os demais elementos do álbum, também não configura em uma caricatura do que já foi experimentado na carreira do grupo. O Swans põe os pés em águas que já conhece, e apesar de aceitar o preço de deixar para trás o contexto dos trabalhos feitos anteriormente nessa década, fez mais um disco sólido.

OUÇA: “The Hanging Man”, “Some New Things”, “Annaline”

Cigarettes After Sex – Cry



Poucas são as bandas que conseguem imprimir uma noção cinematográfica tão marcante para sua melodia quanto o Cigarettes After Sex. A aeronave caindo sobre o oceano, o vapor do chuveiro, a brisa litorânea, as luzes baixas da cidade, a mistura do sonho e do real imprimem um uso largado de sinestesias e figuras visuais e fazem com que o som enxuto e simples (dito como minimalista) seja capaz de produzir a mais tenra melancolia no ouvinte. É, verdadeiramente e intencionalmente – dado o profundo conhecimento que o líder da banda possui sobre cinema – como se as angústias existenciais e a busca pela felicidade da personagem Nana (Vivre Sa Vie, 1962), filme seminal da Nouvelle Vague francesa, ressoassem nas linhas do baixo da banda, no tenor único de Greg Gonzáles e no eterno jogo preto-e-branco proposto no LP1. E lembro-me o quão refrescante fora ver uma reciclagem de referências tão bem feita como a que ocorreu neste disco.

Em Cry, o álbum do dia, o Cigarettes, no entanto, se depara com uma espécie de dilema mal resolvido: qual o limite entre a falta de inspiração e a opção por um caminho seguro? Aqui tudo se turva. São 9 faixas toadas em uma mesma estética já bem conhecida pelo público, afinal, havia sido apresentada por eles: percussão no limite da inexistência, guitarras e efeitos, notas compridas no baixo, sintetizadores dóceis e a voz do cantor. O disco é largado no piloto-automático em uma grande reta, sem cantos e curvas. E disso decorre duas percepções: a primeira, positiva, que acarreta uma espécie de fluxo de consciência, tornando as cenas ali descritas todas pouco precisas, todas muito voluptuosas, entorpecendo o ouvinte. Uma espécie de white noise para devaneios acordados. A segunda, negativa, que a obra recorre em preguiça pura e simples, representada pela falta de textura, muitas vezes, que tendem a desequilibrar a balança para o lado negativo.

A outra questão que fica parece já ter virado polêmica: do que se trata as letras de Gonzáles. O processo criativo do líder da banda envolveu uma viagem longa as ilhas espanholas no Mediterrâneo. Nesse cenário paradisíaco, Greg sentiu-se inspirado a descrever novas cenas de sexo idealizado e frustrações amorosas sob um enquadramento encharcado de sentimentalismo pegajoso. O Cigarettes After Sex erram, pois, ao substituir a lírica dos temas banais presentes no LP1 para os plásticos clichês ultrarromânticos sobre o amor moderno neste daqui. São versos como os seguintes que tiram boa parte da seriedade do projeto:

 “There was a hentai video that I saw/
I told you about the night that we first made love/
About a girl who as soon as she made you cum/  Would show you the future and tell you your fortune”

(“Hentai”)

 “Could you love me instead of all the boyfriends you get?
Know I’d make you forget about all of those rich fuckboy”.

(“Kiss It Of Me”)

Feitas todas essas considerações, o disco é passível de redenção – o que é uma grande derrota para uma banda da qual se esperava muito mais. Isso se deve a um único fator: a magistral capacidade do Cigarettes After Sex de compor melodias surreais, arrebatadoras. Se fosse possível, pois, resumir o disco em uma música, esta seria a paradoxal “Hentai”: tosca na letra, sublime na melodia. “Heavenly”, o ponto mais alto do disco, também pode ser definida de maneira similar.

Em geral, o sentimento que fica é que essa coletânea de músicas são versões pouco inspiradas do primeiro disco, embora não sejam necessariamente ruins. Se nada, o disco prova que a banda tem bastante o que mostrar musicalmente, mas para isso será preciso encontrar novos caminhos criativos dentro do que o Cigarettes sabe melhor fazer: encantar pelo simples.

OUÇA: “Heavenly”, “Hentai” e “Cry”

Kanye West – Jesus Is King



“A espera acabou, Kanye West acaba de lançar #JESUSISKING”, assim anunciava a conta oficial do Spotify no Twitter no dia do lançamento do nono álbum de estúdio de Kanye West, batizado de Jesus Is King, um álbum gospel que, embora retenha elementos de produções anteriores do artista, é o primeiro a se dedicar inteiramente às questões de fé e espiritualidade que rondam a trajetória artística de Kanye West.

Inicialmente anunciado pela esposa do artista para lançamento em 27.09.2019, o álbum acabou sendo lançado quase um mês após a data inicial, o que aumentou sensivelmente o clima de ansiedade ao redor do álbum e deixou algumas perguntas na cabeça de muitos: o que esperar de um álbum gospel de Kanye West? Será um álbum de rap com samples de músicas e hinos gospel afro-americanos? Será um álbum inteiramente gospel recheado de corais e releituras de músicas seculares, conforme o histórico dos Sunday Services realizados por ele há quase um ano? Será um clássico que redimirá Kanye West e o colocará acima das críticas do passado? O clima era de mistério e de espera.

Após algumas semanas, o álbum foi finalmente lançado em 25.10.2019, data prometida pelo próprio Kanye em sua conta do Twitter e, como qualquer outro álbum do artista, polarizou o cenário musical e ocupou o primeiro lugar nos assuntos mais falados nas redes sociais. Jesus Is King iniciou conversas sobre fé e espiritualidade, sobre a saúde mental do Kanye West, sobre a qualidade do álbum, sobre o que significa ser um artista gospel, entre tantas outras conversas que Kanye West parece ter o dom de iniciar.

Musicalmente, o álbum não representou um distanciamento das produções mais recentes de Kanye West e apresenta muitos aspectos semelhantes ao antecessor ye, sobretudo no que diz respeito à escolha dos beats e samples e à atmosfera das faixas. O álbum traz algumas faixas cujo instrumental integraria o álbum #YANDHI, anunciado para lançamento múltiplas vezes desde meados de 2018 e posteriormente abandonado pelo artista, e reflete um pouco do que Kanye tem proposto musicalmente em suas produções próprias e para outros artistas nos últimos tempos.

Por outro lado, a temática das faixas é inteiramente dedicada à vida espiritual de Kanye West e seu encontro com Deus. Mais do que conclamar os ouvintes a se renderem ao poder de Deus, Kanye parece refletir sobre suas próprias experiências com o divino e a indicar que sua vida mudou radicalmente após esse encontro. A experiência com Deus, sendo ela sincera ou não, está em todos os cantos de Jesus Is King e Kanye consegue conciliar estes temas com uma sonoridade familiar à maioria dos seus fãs. Faixas como “Follow God”, “Closed On Sundays” e “Everything We Need” são algumas das faixas que descrevem esse novo estágio na espiritualidade de Kanye e as mudanças que ele alega terem ocorrido em seu âmago. 

O grande acerto de Jesus Is King é ser um álbum acessível para todos, especialmente os fãs que não comungam da mesma fé de Kanye West. A produção do álbum é sólida e tem pontos altos em faixas como “God Is”, “Use This Gospel” (que tem participação de Kenny G e reunião do Clipse, grupo lendário composto por Pusha T e No Malice) e “Follow God”, mesmo não sendo produções especialmente complexas para o grande público.

No entanto, o álbum tem alguns pontos em que deixa a desejar. Algumas faixas, embora muito boas, parecem ter sido terminadas de forma apressada e poderiam ser mais longas, como é o caso de “Follow God”. Por outro lado, a parca presença do Sunday Service Choir deixou muitos fãs confusos, pois esperava-se que o álbum fosse explorar muito mais desse lado que Kanye tem apresentado nas turnês ao redor dos Estados Unidos. Por fim, o álbum poderia ser mais longo do que foi e dá impressão de um trabalho que foi apresentado ao mundo um pouco antes de alcançar a forma que deveria alcançar.

Jesus Is King, finalmente, é um álbum já bastante conhecido do público e que consagra Kanye West ainda mais no cenário musical. Não é um disco perfeito, mas apresenta qualidade e substância. O que fica desse álbum é a questão inevitável: quais caminhos musicais Kanye seguirá a partir de agora?

OUÇA: “Follow God”, “God Is”, “Use This Gospel”

Michael Kiwanuka – KIWANUKA



KIWANUKA é o terceiro disco do cantor e compositor londrino filho de ugandenses Michael Kiwanuka. Esse novo trabalho tem a difícil tarefa de suceder Love & Hate, seu disco anterior e que mostrou grande amadurecimento e força nas letras, música, interpretação e produção. No entanto, Michael não parece ter ficado inseguro com seu próximo passo em nenhum momento. KIWANUKA soa como a evolução natural do trabalho anterior, sem parecer uma simples repetição do que deu certo no passado, ao mesmo tempo que ainda divide boa parte da mesma paleta de cores. 

A impressão é que com o sucesso de Love & Hate, Michael se tornou livre para produzir a música que sempre quis, sem as amarras e padrões da indústria fonográfica. Essas amarras eram bem visíveis em seu disco de estreia, Home Again, com seu neo-soul milimetricamente vintage e polido, tão em voga nos anos após o sucesso estrondoso do Back To Black de Amy Winehouse. Em KIWANUKA, a liberdade é palpável: canções longas, variedade instrumental e de arranjos, interlúdios e introduções com coros e percussão não tão óbvias para os padrões do mercado fonográfico atual.

A guitarra setentista tão presente em Love & Hate recebe um pouco menos de atenção em KIWANUKA, mas ainda tem seus momentos. Quem rouba a cena é o piano com destaque para “Piano Joint (This Kind of Love)” e “Solid Ground”.  Arranjos pouco usados por Michael no passado incluem a forte parte percussiva e o suingue de “You Ain’t The Problem”. Há ainda um forte acento gospel em quase todas as faixas do disco. Toda essa variedade de instrumentos é bem amarrada pela produção de Danger Mouse e Inflo que também haviam feito um trabalho brilhante no álbum anterior.

KIWANUKA é um disco feito para ser ouvido por inteiro, sem interrupções. Ouvir o álbum inteiro transforma a experiência em algo muito superior, tarefa difícil nessa era de singles e playlists que vivemos. A intrincada transição entre as faixas e os interlúdios tornam a audição bastante fluida, contribuindo fortemente para o clima e aumentando a coesão do disco. Na verdade, KIWANUKA é um dos poucos exemplos recentes em que os interlúdios realmente acrescentam algo.

Se em Love & Hate, o artista olhou para dentro de si, em KIWANUKA há mais o que dizer. Obviamente Michael continua lidando com seus sentimentos, mas há mensagens claras e bastante diretas para o mundo de desigualdades que o cerca.  O breve discurso de “Another Human Being” e a letra de “Hero” são bons exemplos dessa visão. Cabe aqui ainda ressaltar a grande canção que é “Hero”, talvez o ponto mais forte do disco com seus pouco mais de três minutos recheados com o violão, a voz grave, a sensibilidade, o comentário social e os sempre presentes questionamentos de Kiwanuka.

Michael é desses raros artistas que vale a pena acompanhar a evolução ao longo dos anos e KIWANUKA o mantém no mesmo elevado patamar que Love & Hate o alçou em 2016. A qualidade das letras, dos arranjos e principalmente da interpretação de Michael continuam muito acima da média do que é feito no mainstream dos mercados americano e britânico. Mesmo sem ouvir o disco, a arte da capa já nos entregava tudo: esse é o trabalho de um homem negro, seguro de sua arte e de seu papel na sociedade e que soube mais uma vez ser o rei de si. Vida longa ao rei Kiwanuka.

OUÇA: “Hero”, “You Ain’t The Problem”, “Piano Joint (This Kind Of Love)” e “Solid Ground”

Battles – Juice B Crypts



O Battles é uma banda que encolheu. Começando como um quarteto, hoje está reduzido à dupla John Stanier na bateria e Ian Williams, no teclado e guitarra – casualmente, os dois músicos com mais experiência no cenário do Math Rock, membros de projetos anteriores como Tomahawk e Don Caballero, respectivamente. Mas independente das baixas, o som que a banda apresentou sempre trouxe duas características constantes: a técnica de alto nível nos ritmos e riffs; e um teor lúdico na sua sonoridade, que faz as composições serem divertidas de se ouvir. E Juice B Crypts, lançado neste mês de outubro, mantém a regra.

O novo disco é quase inteiramente orientado pelos teclados, que guiam as principais linhas melódicas e os ritmos quebrados do disco junto à percussão. Nesse sentido, há horas mais repetitivas, como na faixa-título, mas temos momentos de evolução muito bem construídos, nos quais parece não fazer tanta falta o número reduzido de integrantes, como “Fort Greene Park”, maior faixa do álbum, e a abertura em “Ambulance”. Nada que eles já não tenham feito, mas com a consistência mantida lá dos primeiros trabalhos na década passada.

Contudo, o que chama atenção aqui, só de passar o olho pelos títulos das músicas, é a presença de vários artistas convidados. E como a capa multicolorida faz lembrar, é uma espécie de atira-pra-todo-lado de universos bem distintos, indo de medalhão do rock progressivo – Jon Anderson, em “Sugar Foot” – ao rap experimental. 

Essa falta de consistência é, indiscutivelmente, o pecado do disco. Em algumas horas, a banda acaba em alguns casos mais servindo como uma banda de apoio para o universo sonoro de seus agregados, em vez de criar uma soma real das partes. Isso fica evidente na participação de Sal Principato, do lendário grupo dance-punk Liquid Liquid, em “Titanium 2 Step”, e em “Last Supper On Shasta Pt. 1”, com o Tune-Yards. A parceria de resultado mais interessante, por incrível que pareça, é com os rappers do Shabazz Palaces em “IZM”, que embora fique muito deslocada de contexto, consegue pegar o melhor de ambos os grupos. 

Mas o saldo, depois do encerramento com a boa “Last Supper On Shasta Pt. 2” é positivo. Juice B Crypts traz um Battles de som renovado quatro anos depois de La Di Da Di, indo mais direto ao ponto nos arranjos, e, para o bem ou para o mal, apoiado em várias parcerias.

OUÇA: “Fort Greene Park”, “IZM”, “Last Supper On Shasta Pt. 2”

Foals – Everything Not Saved Will Be Lost



A banda Foals prometeu para este ano de 2019 um projeto ambicioso de 20 músicas divididas em dois álbuns de mesmo nome. Everything Not Saved Will Be Lost não faz nada de extraordinário, mas também não se perde no meio do caminho e a banda inglesa entrega um pacote de muitas músicas acima da média.

A primeira parte foi lançada em março deste ano e traz canções típicas do indie rock popularizado no começos do milênio por The Strokes, em Is This It, Arctic Monkeys, em Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, e no álbum autointitulado do Franz Ferdinand. Aliás, essa é uma característica permanente na discografia de Foals, que surgiu em 2005 e faz parte desse movimento de indie rock com pegadas de garage rock.

Das primeiras dez faixas lançadas pelo Foals, “Syrup” é um dos destaques. O arranjo musical fica mais agitado conforme o decorrer da música. A primeira metade dela segue em um compasso mais lento, mas já dando a impressão que vai descarrilhar para um ritmo mais agitado, o que de fato acontece.

“On The Luna” também é outro destaque da primeira parte de ESWNBL. Ela já começa agitada, com guitarra bastante aparente.  Há também política nessa música e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é diretamente citado em uma estrofe:

When I was a Kung-Fu kid on the Luna

I was moonin’ at the Bella Luna

Trump clogging up my computer

But I’m watching all day, all day

A primeira parte do novo álbum do Foals é mais contido em si mesmo. Embora ainda seja um disco com predominância de sons expansivos com o uso de instrumentos elétricos e bateria, há nele músicas acústicas, ou quase, como “Moonlight”.

Everything Not Saved Will Be Lost II, lançado neste mês de outubro, dobra a aposta e é quase todo expansivo tanto no ritmo quanto nas composições das letras. “Runner” é pura guitarra do início ao fim.

“Like Lightning” resume bem o espírito do álbum mencionado em seu título, ou seja, que o mundo está à beira de um apocalipse, e que tudo que não está salvo, será perdido.

I know my way back, I’ve seen that sky collapse

I’ve heard that thunder clap

I’ve seen that lightning crack

I know my way home

I’ll mend my broken bones

I’ve seen that

Lightning crack

É um álbum de 20 músicas que consegue manter uma coesão e mostra um bom resultado, que é acima da média. No entanto, nada de diferente é feito, nada que deixe uma marca para ser lembrada nas próximas décadas. 

A banda continua fazendo o bom trabalho que faz há 14 anos, mas segue apostando na fórmula do indie e garage rock iniciada no começo dos anos 2000.

OUÇA: “Syrup”, “On The Luna”, “Exits”, “The Runner”, “Dreaming Of” e “Like Lightning”

Miniature Tigers – Vampires In The Daylight



Vampires In The Daylight é um álbum sobre os sentimentos conflitantes que vem à tona depois do término de um relacionamento e reflete esses conflitos esteticamente com um emaranhado de construções e gêneros musicais diversos que pouco conversam entre si para além da temática.

“Caged Bird” trabalha uma construção rítmica característica do folk rock com uma guitarra fazendo um harpejo de poucas notas combinado a elementos espaciais como uma linha de cordas sintetizada para dar o ar melancólico do momento de separação cantado na letra e vai ficando mais esperançosa com a entrada de uma bateria conforme o personagem da música vai aceitando que vai ficar bem apesar da dor.

“Manic Upswings” muda a pegada instrumental pra algo mais animado, bastante influenciado pelo rock alternativo do fim dos anos 90 para passar a sensação de estar completamente se embebedando e buscando euforia como uma forma de esquecer a dor de não ter quem você ama do seu lado. É um dos melhores instrumentais do disco e o riff é daqueles contagiantes que te faz querer cantarolar depois que a música acaba. Na sequência temos “Rattlesnake ASMR”, uma vinheta esquisita e que parece meio inacabada e não acrescenta muito ao restante do álbum.

Mais à frente no registro temos “Wish”, trazendo elementos do pop rock e do R&B de boy bands para assumir suas falhas e desejar ter sido alguém melhor para a sua amada. É uma faixa bastante agradável melodicamente mas, mesmo que o conceito todo gire em algo mais deprê, seria interessante ver alguma explosão de potência vocal aqui porque o instrumental dá muitas deixas para que isso aconteça mas essa expectativa nunca se concretiza.

“Cool” vem logo depois e é uma faixa esquisita no melhor sentido da forma como só o Miniature Tigers sabe fazer. Tem elementos de pop dançante genérico, passagens eletrônicas destacando e sampleando trechos da própria música, uma guitarra cavalgada e um violão base junto com a bateria compondo o ritmo de uma forma bastante inventiva. A música acaba numa virada estranha e vira um instrumental meio desconectado do restante que reflete esse estado de desconcerto que acontece quando você está quase superando o término e alguma coisa te quebra do nada e a bad volta com força.

A faixa-título é uma das mais solares do disco, conduzida por uma bateria constante e a linha de guitarra que aparece com mais força em momentos pontuais e fala sobre querer expressar os sentimentos com clareza mesmo que isso seja desconfortável. O interlúdio com o piano, os sintetizadores e a voz suave marcam essa transição de consciência e a gente começa a acreditar que dá pra ficar bem e aceitar até mesmo os sentimentos ruins. A faixa continua com “Guilty Sunsets” que pega o tema instrumental da predecessora e transforma em uma espécie de vinheta para as últimas faixas do disco que não tem nada de muito interessante a ser destacado a não ser por algumas passagens de guitarra de “Better Than Ezra”.

No geral, Vampires In The Daylight soa bastante sincero e, talvez por isso, algumas faixas isoladamente tenham bastante impacto em quem viveu situações parecidas de descontrole e tristeza pelo fim de um relacionamento. No entanto, se escutado de ponta a ponta, causa uma estranheza que te deixa na dúvida se é proposital pelo conceito ou apenas algo feito sem muito cuidado.

OUÇA: “Manic Upswings”, “Cool” e “Vampires In The Daylight”

Swim Deep — Emerald Classics



Em seu terceiro disco, Emerald Classics, o grupo britânico Swim Deep segue em frente com sua tradição de um indie pop alegre e leve. Em meio a sintetizadores e um sutil throwback para os anos 1980, o álbum traz quarenta minutos de canções convencionais que, por mais que funcionem, não conseguem causar uma impressão duradoura no ouvinte.

O tema principal do disco, anunciado de maneira explícita no título da canção inicial “To Feel Good”, é justamente uma ode a um olhar mais gentil sobre a vida. Com uma produção simples, esse sentimento é transmitido com autenticidade em Emerald Classics, um trabalho que soa íntimo para o grupo. Trata-se de um álbum tranquilo e sem muitas reviravoltas, com todas as canções seguindo um mesmo modelo.

Talvez esse seja o grande problema: o álbum é um trabalho homogêneo demais, ao ponto de parecer pouco criativo e com um apanhado de ideias que são recicladas de canção em canção. Como um todo, ele surpreende por usar a sonoridade dos anos 1980 e 1990 despida de sua alta energia, mas há pouca variação entre uma faixa e outra. Há algumas exceções, como a ótima “Drag Queens In Soho”, que consegue injetar um pouco de vida e converter o sentimento etéreo de felicidade do disco em uma emoção mais palpável. Já em “Father I Pray”, o grupo de Birmingham insere sons de coral que ajudam a dar peso à canção.

Emerald Classics é um disco que surpreende ao usar uma abordagem mais doce e tranquila para uma sonoridade repleta de instrumentos psicodélicos. No entanto, o resultado final é adocicado demais, ao ponto de se tornar enjoativo. Apesar de seus méritos, o mais novo álbum de Swim Deep não consegue se destacar entre o catálogo atual do indie pop.

OUÇA: “Drag Queens In Soho”, “0121 Desire” e “Father I Pray”

Allah-Lahs – LAHS


Não é preciso ouvir muito mais do que algumas músicas da discografia do quarteto de rock psicodélico de Los Angeles Allah-Lahs para entender a proposta geral da banda: surf rock com uma distorçãozinha.

O quarto disco deles, LAHS, não é diferente. Lançado em 11 de outubro pelo selo Mexican Summer, LAHS não foge ao trajeto para o qual os trabalhos anteriores da banda já apontavam. Continua a vibe retrô, com fortes referências a alguns momentos de Velvet Underground, e praiana.

De modo geral, o disco não tem grandes elementos que o diferenciem dos anteriores. O pouco que poderíamos ver de novidade é alguma pegada muito leve um pouco mais country em algumas faixas, como “In The Air”, e a faixa inteiramente cantada em português, “Prazer Em Te Conhecer”, também um pouquinho mais country, mas ainda bem apegada ao estilo original da banda. Em entrevistas, os integrantes afirmam curtir música brasileira (Marcos Valle, Jorge Ben, Caetano Veloso, Erasmo Carlos) e, apesar de terem trabalhado nela com ajuda da atriz Karina Fontes na composição de “Prazer em te conhecer”, atribuem a escolha do idioma mais à ascendência portuguesa de um deles do que ao interesse pela cultura brasileira. Outro momento em que existe uma brincadeira com idiomas é na faixa que fecha o disco “Pleasure”, balada em um espanhol carregado de sotaque.

Embora eu não esperasse nada diferente do que foi entregue em LAHS, é inevitável o sentimento de que a banda caiu na mesmice ou de que se mostra desinteressada em tomar riscos maiores com suas produções. Para um conjunto que passou pelo colégio e por um trabalho na loja de discos Amoeba Records em Los Angeles juntos e produziu quatro álbuns ao longo de 10 anos, talvez fosse a hora de assumir uma postura de mais experimentalismo.

LAHS não é de forma alguma um disco ruim. As faixas são interessantes e, apesar de se ater fortemente ao estilo que a banda já vem explorando desde sua formação, existem uns poucos novos elementos que, se explorados de forma mais consistente em próximos trabalhos, podem dar aos Allah-Lahs uma nova dimensão e, quem sabe, tornar a banda interessante novamente.

OUÇA: “Prazer Em Te Conhecer”, “Roco Ono”, “Polar Onion”