Adam Green — Engine Of Paradise



Que Adam Green é um cara particularmente “diferente” todos sabemos, contudo o que também pode ser dito dele é que seu trabalho, seja na música, nas telas de pintura ou até mesmo nas telonas do cinema é sincero a ele mesmo. Sendo assim, desde os Moldy Peaches até Engine Of Paradise — seu décimo álbum de estúdio em carreira solo, lançado no dia 6 de setembro de 2019 —, ele pinta um retrato colorido e cartunista de si e do mundo ao seu redor.

Engine Of Paradise aborda, no geral, um tema bastante atual: a relação entre o ser humano e a tecnologia. A faixa título resume essa ideia quando diz: “This world could be a paradise / a 3D model” ou até mesmo “I need you to read the world for me”, confrontando o que as novas tecnologias têm feito em nosso lugar como seres vivos pensantes e o que elas projetam em nossas vidas. O clipe da mesma canção ainda brinca — no estilo cartunista de Green — com grandes multinacionais, redes de fast foods, destruição da natureza e colonização, agregando, portanto, outras perspectivas à composição.

Outro ponto alto do CD é a orquestração em boa parte das canções, fazendo o padrão de composição de Adam Green (violão, bateria, baixo, guitarra e seu inconfundível vocal barítono) adquirir um teor mais encorpado e maduro. Isso pode ser visto na faixa “Freeze My Love”, terceira do disco, clássica ao gênero folk. A canção possui ainda uma vibe infantil (no clipe aparece, inclusive, a filha do artista), e rememora alguns dos trabalhos de Kimya Dawson, sua ex-companheira de Moldy Peaches.

Com pouco mais de 20 minutos, Engine Of Paradise conta com boas participações: Jonathan Rado (do Foxygen) e Florence Welch, queridinha do mundo millennial-alternativo. O álbum, por si, é gostosinho de ouvir. Tem boas composições, letras reflexivas e exóticas, mas não traz surpresas e, por isso, não se sobrepõe a trabalhos anteriores.

OUÇA: “Engine Of Paradise”, “Freeze My Love”, “Rather Have No Thing”.

Kindness – Something Like A War



Desde que Adam Bainbridge apareceu na cena musical sob a alcunha de Kindness, sempre esteve claro que sua proposta de produção musical estava um pouco mais à esquerda do pop convencial. Desde sua última obra World, You Need A Change Of Mind, de 2012, ele nos apresentou produtos paralelos com Solange, Dev Hynes e Robyn, firmando ainda mais esse seu espaço no pop alternativo. Something Like A War aparece como um marco de como a percepção do britânico avançou, e aos mais desavisados, uma nota: esse álbum do Kindness está ótimo.

A primeira faixa começa em um tom grandioso, solene, mas menos de um minuto dentro da faixa uma reviravolta e seja bem-vindo a sua dose necessária de house late 80s. A produção se incrementa com vocais, coros, batidas pulsantes. Não tem outro caminho a não ser saber que esse álbum do Kindness é promissor, em especial pelo conteúdo lírico e pela produção que toma forma com a fluidez das faixas e uma ausência de tensão propriamente dita.

O álbum é montado com transições suavizadas, ora ou outra se aproximando de um set de dj e que o colocarão certamente no seu melhor astral. A produção do álbum é incrementada pelas inúmeras colaborações em peso, como Seinabo Sey, Bahamadia e Jazmine Sullivan. Os pontos altos do álbum ficam reservados para ninguém menos que Robyn, que provam aqui que a dupla funciona tão bem quanto Sofia Copolla e Kirsten Dunst juntas.

Something Like A War é um álbum feito para ser compreendido como um todo, impossível de ser dissociado. AS movimentações que Bainbridge cria entra uma faixa e outra constrói as várias camadas de estado de espírito, um atestado de sofisticação dentro da música pop que apenas Kindness poderia criar.

OUÇA: “Sibambaneni”, “The Warning” e “Cry Everything”

Jaloo – ft (pt. 1)


Ao lançar seu primeiro álbum, Jaloo botou os dois pés na porta da cena cultural do país e provou ser um artista multifacetado, criador de conceitos imagéticos, explorador de possibilidades sonoras. Mostrou também que seu som tinha lá seus hermetismos pascoais que agradou a muitos, assim como o deixou inacessível para tantos outros. Se Jaloo era pop no conceito, não o era no alcance. Agora, quase metade de uma década após o primeiro disco, o artista apresenta àquele público que se encontra na margem do mainstream um material mais palatável.

A música eletrônica dos primeiros tempos ainda dão as caras, porém sem tanta densidade. Marcam a trilha de maneira mais madura, dá até para dançar melhor. O experimental deu algum espaço a construções mais estruturadas, mais coesas. A qualidade técnica da produção chama a atenção. Assim como as letras. Em geral, falam de amor e da dor de amar. Mas falam de outro jeito: mais desinibido, mais real. Jaloo está romanticamente diferente. Eu diria que a mais poética é o samba futurista “Céu Azul”, com a MC Tha.

Neste voo, suas asas são os atuais ritmos de fácil penetração nos ouvidos da juventude momjeans-striped-balenciaga-pochete/shoulderbag. Uma espécie de brega-pop embala “Q. S. A.” cuja letra parece narrar uma dessas histórias de amor de carnaval e conta com a parceria da conterrânea Gaby Amarantos. Já os beats do trap aparecem em algumas faixas, como em “Dói d+” em que estão de mãos dadas com a sofrência e seu ritmo contemporâneo (o arrocha, claro), evidenciando que Jaloo quer preencher não só os ouvidos de seu público, mas tocar o seu coração – como bom artista que é.

Certamente, esse trabalho seria bem diferente se não contasse com parcerias como Gaby Amarantos, Dona Onete, Manoel Cordeiro, MC Tha, Céu, Karol Conká, Lia Clark, Badsista, etc. É muito interessante e agradável navegar pelas faixas do disco com as participações de tanta gente competente e talentosa.

Se a mistura enriquece, que álbum abastado! Jaloo sempre foi capaz de criar com muitas referências, mas, nesta obra, encontrou o ponto certo da dosagem. Ele é latino, rapper, brega, sambista, sem ser cansativo. Existe algo familiar ao longo das faixas desse álbum que nos toca de maneira certeira. Talvez seja cedo para se falar em hitmaker, mas Jaloo conseguiu se expressar para novos públicos, mostrando que sua música não é pop só em conceito. E tem seu valor.

OUÇA: “Q.S.A.”, “Eu Te Amei (Amo!)” e “Sem V.O.C.E”

Bat for Lashes – Lost Girls



Lost Girls, o quinto álbum que Natasha Khan lança com o nome artístico de Bat for Lashes, é, de certa forma, muito visual. Já na capa, fica claro que o que vamos encontrar tem uma grande influência dos anos 1980. Além disso, o álbum nasceu de um período criativo em que a britânica escrevia seu primeiro roteiro de cinema, após se mudar para Los Angeles.

A relação com o cinema e com as memórias oitentistas de Natasha – em especial, filmes de fantasia e ficção científica – é a espinha dorsal do álbum. Não é à toa que uma das faixas – com um som que traz muita influência de The Cure – tem o título de “Vampires”. Assim como nos outros trabalhos da cantora, a sensação é de que o que estamos ouvindo é algo etéreo. São músicas que convidam o ouvinte a sonhar e viajar, seja através das nossas próprias memórias da icônica década de oitenta, ou dos laços afetivos que criamos com a música e a cultura daquela época.

No caso de Lost Girls, essa característica nostálgica passa longe de ser apenas uma forma de surfar na onda de revivals dos anos 80, que vêm tomando conta da cultura pop nos últimos anos. Há um toque pessoal nas criações de Natasha. A sua voz singela, acompanhada dos sintetizadores característicos do synth pop que marcou a música nos anos 1980, nunca soa batida neste álbum. É, sim, um som de outra época – quase de outro mundo. Mas é um baita som.

OUÇA: “Kids In The Dark”, “Jasmine”, “Mountains”

Lizzo – Cuz I Love You



É meio impossível ter chegado até esse momento do ano de 2019 sem nunca ter ouvido falar nessa força da natureza que é a cantora/rapper/flautista Lizzo. Cuz I Love You é seu terceiro álbum de estúdio e o primeiro lançado por uma grande gravadora. Em seus trabalhos anteriores, Lizzobangers, Big GRRRL Small World e, principalmente, no EP Coconut Oil, Lizzo já mostrava seu talento para misturar o rap, hip hop e pop com elementos vão do rock ao soul e até mesmo seu treinamento em música clássica. E Cuz I Love You é a culminação disso tudo.

Uma grande característica do trabalho da Lizzo é seu senso de humor, muitas vezes ácido, e também sua mensagem de positividade e aceitação do próprio corpo como uma mulher negra e gorda. Pessoas como a Lizzo são extremamente importantes; e em cima de tudo isso a música feita pela moça, principalmente aqui, é excelente.

Cuz I Love You é o trabalho mais variado e versátil dela até o momento, misturando tudo o que ela já havia feito e ainda adicionando coisas novas. Cuz I Love You é forte do começo ao fim, com singles maravilhosos e nenhum filler no meio. De “Truth Hurts”, lançada originalmente em 2017, até “Juice”, “Tempo” e “Like A Girl”; não existe uma música dispensável.

Um dos maiores destaques fica com “Soulmate”; um hino ao amor próprio. ‘Cause I’m my own soulmate, I know how to love me‘. Em “Jerome”, ela usa do gospel, funk e trap de uma forma bastante interessante e talvez o maior exemplo da sua versatilidade. “Tempo”, uma ode às mulheres gordas, Lizzo consegue tanto encaixar um mini solo de flauta e um verso da Missy Elliott sem que nada pareça estar fora do lugar.

Cuz I Love You é um álbum extremamente bem escrito, produzido e performado por uma das melhores e mais complexas cantoras de sua geração. ‘Complexo’ é talvez a palavra que melhor defina Cuz I Love You e a Lizzo como um todo. É um álbum pop vendável e mainstream cuja qualidade é inegável. Lizzo pode não ter começado agora e já carregar um excelente passado, mas aqui é quando o mundo começou a prestar atenção nela. E com razão.

OUÇA: “Cuz I Love You”, “Jerome”, “Juice”, “Like A Girl”, “Truth Hurts”, “Soulmate” e “Better In Color”

Melanie Martinez – K-12



Criar seu álbum em torno de um conceito não chega a ser um problema, desde que a música que o envolve cative o ouvinte mesmo fora de contexto, e até ultrapassando barreiras de linguagem. Então, se você não fizer parte de uma banda de prog moderno mega conceitual, deveria levar isso em consideração, construindo uma experiência que abrigue o consumidor casual e o hardcore, sem causar conflitos entre os lados. Equilíbrio é uma coisa ótima, sabe, alguns artistas deveriam tentar mais manter pelo menos algum.

Então quando um artista entrega um álbum que, não só recicla um conceito antigo, mas ainda piora e muito a qualidade “casual” do produto, é difícil defender. E a Melanie não é a primeira pessoa a fazer isso, o primeiro exemplo que me vem a mente é o 21st Century Breakdown do Green Day. Sucede um conceito ambicioso, que acerta em alguns pontos e erra em outros, pra repetir a fórmula de forma genérica e apática.

Só que no caso do Green Day tinha, sei lá, a dupla “Viva La Gloria”, que dava uma energia ocasional pro projeto de forma diferente o suficiente pra manter o mínimo de novidade pra puxar o ouvinte ocasionalmente. O problema de K-12 é que é tudo mais do mesmo: músicas com uma temática que remete à infância, mas com um subtexto de maldade pra causar uma ambiguidade desconfortável. Se a fórmula funcionava pelo menos decentemente no Cry Baby, isso se deve às metáforas inventivas, e ao carisma com o qual Melanie acentuava essas distorções na estética infantil, ambos acompanhados de uma produção bem digna. Já aqui, tudo perde qualquer vestígio de naturalidade que poderia ter pra virar um “kkkk olha como eu sou uma menina má” em temas completamente clichés, com melodias fracas e beats insossos.

Se no álbum anterior tínhamos músicas como “Mrs. Potato Head”, que era uma crítica ao modo compulsivo como as plásticas estéticas são incentivadas na sociedade americana, nesse álbum temos algumas tentativas , como “Strawberry Shortcake”, que se você pensar bem tem até uma mensagem ok lá no fundo, mas fica ofuscada pela mesma problemática de que, em algum momento, a Melanie PRECISA ser edgy pra te lembrar que, apesar do conceito ser sobre escola, ela é não é nem um pouco inocente. E se você já fez cara feia só de ler essa frase, fique longe desse álbum.

E o pior de tudo é que tem um filme de uma hora e meia que acompanha o álbum, pra deixar bem claro que tudo aqui é parte de uma masturbação de um tema e uma estética que não dá mais tesão pra ninguém. Reenforça o argumento do “conceito”, mas em K-12, nem isso salva.

OUÇA: “Strawberry Shortcake” e “Teacher’s Pet”

Pharmakon – Devour



No universo de gêneros musicais que tendem ao experimental, como o noise, o papel da música como meio costuma sofrer uma inversão. Mais do que condutora de uma narrativa eloquente, nesse estilo, a música age como um gatilho, provocando no ouvinte sensações mais primitivas do que sentimentos ou pensamentos racionais, quase reações instintivas que se originam das distorções, efeitos e rupturas que esse gênero musical explora. Entretanto, essa direção artística pode ser uma faca de dois gumes, por que se de um lado, um experimento bem sucedido causa marcas duradouras no espectador que podem transcender até sua capacidade de as explicar de maneira razoável, um experimento mal sucedido falha até mesmo em provocar uma sensação ruim, chegando perigosamente próximo de uma experiência inócua, nula. Um exemplo desse risco pode ser encontrado em Devour, disco mais recente da artista de noise Pharmakon.

Quarto disco de estúdio da artista nova-iorquina, Devour vem dois anos depois do último projeto, Contact, e compreende 36 minutos de noise divididos em cinco faixas. Explorando relevos sonoros que passam por distorções, modulações vocais e sintetizadores, Pharmakon procura construir uma atmosfera opressiva e sufocante no disco, alcançando com isso resultados variados, mas que em sua maioria caem no campo da repetição e da monotonia.

Uma vez que a orientação artística de artistas de noise com essa abordagem tende a procurar causar desconforto e incômodo (e obras como Virgins, de Tim Hecker, Excavation, de Haxan Cloak, Black Vase, de Prurient, Replica, de Oneohtrix Point Never e Puce Mary surgem como excelentes exemplos de obras que exploram esse estilo), muito do sucesso do projeto vai depender ou da capacidade do artista de surpreender seu público ou de construir ambientes que provoquem a sensação de inquietação desejada, e Devour falha nas duas frentes, não sendo agressivo o suficiente para atacar a audiência e muitas vezes retornando a composições seguras que se resolvem muito próximas da monotonia.

Seja nas influências de industrial e a percussão em longos intervalos de “homeostasis”, os graves pulsantes e a sirene estridente e ondulante de “spit it out”, os guinchos e os efeitos distorcidos da voz de Pharmakon em “deprivation”, pouco na composição da obra parece ir além da exploração rasa de efeitos sonoros que tem a intenção de tirar o ouvinte da zona de conforto. Mais do que isso, a duração excessiva das faixas (a maioria passando de seis minutos) para composições de tão pouca duração e com uma agressividade tão controlada torna o resultado final especialmente cansativo e monotônico. Como uma ideia morna que apesar disso foi repetida à exaustão.

Obras de noise carregam um potencial grande de serem marcantes, justamente por sua motivação artística de propor algo desconfortável, que foge às referências seguras do ouvinte. Para isso, é essencial que as composições sejam provocadoras, de preferência dirigindo seus golpes de posições inesperadas. Devour não é um bom exemplo de nenhuma das duas coisas, mas com otimismo, quem sabe a segurança da obra leve o ouvinte a procurar outras, que o ameacem realmente.

OUÇA: “spit it out”.

Caravan Palace – Chronologic



Sem lançar material novo desde 2015, os franceses do Caravan Palace retornam com a produção impecável de sempre e com uma abordagem mais pop pro seu som sem deixar de lado a aura do eletro swing com toques de jazz burlesco que consagrou o grupo.

“Miracle” abre o disco e ainda carrega bastante dos trabalhos anteriores com as linhas de metais proeminentes e a levada rítmica dançante  bastante influenciada pelo ragtime. O baixo mais carregado e a batida mostram levemente a direção que o álbum vai tomar em seguida mas ainda é uma faixa que vai agradar os fãs mais antigos. “About You” que vem na sequência traz a participação de Charles X fazendo uma linha vocal bem soul e funciona bem com o baixo sintetizado que conduz um beat numa levada hip hop. Os breaks melódicos ajudam a dar um respiro numa faixa que é bem carregada de batidas.

Uma diferença bastante notável desse trabalho para os anteriores além das construções das músicas está nas letras. Enquanto nos álbuns anteriores as letras eram mais divertidas e brincavam com o nonsense, aqui temos uma vibe bem mais nostálgica e reflexiva que se reflete mesmo em músicas animadas como “Moonshine” que é bem dançante mas carrega nas cordas e linhas de sopro uma certa tristeza que é acentuada pela textura de gravação antiga que permeia a faixa. “Melancolia” que vem na sequência continua na mesma pegada com uma construção baseada num rap lento e a linha de piano de cabaré e os backing vocals ajudam a trazer essa melancolia do título.

A produção mais pop aparece com força em “Plume” um EDM bem padrão que, se não fosse pelas linhas de sopro características do Caravan Palace e um toque de reggaetown, não teria muita identidade mas funciona bem fechando a primeira parte do registro.

A segunda metade do álbum é introduzida por “Fargo”, uma brincadeira instrumental de pouco mais de um minuto que emula uma vinheta de jazz dos anos 20 e dá a deixa para “Waterguns” que é um dos pontos altos do disco com a participação de Tom Bailey encaixando um crooning dentro de um EDM mais lento que funciona bem com o coro formado pelos integrantes do Caravan Palace e a batida que é levada com hi-hats e clap hands.

“Leena” e “Supersonics” são boas faixas mas a produção deixa o instrumental alto demais ofuscando duas das melhores performances vocais de Zoé Colotis tanto numa faixa mais lenta como a primeira quanto numa que seria ótima para cantar ao vivo em estádio como a última.

O disco fecha lindamente com “April” numa faixa que carrega tanto tristeza quanto esperança com seus versos lentos e seu refrão instrumental conduzido por metais e seu fim que desaparece aos poucos deixando saudade em quem ouve. 

Depois de se consagrarem como uma das bandas mais relevantes do eletro swing nos registros anteriores, Chronologic expande os horizontes do Caravan Palace trazendo outras influências ao seu som característico e pecando pelo excesso em alguns momentos. No entanto, o resultado final é bem coeso e mostra que o grupo consegue se sair bem explorando elementos diversos e abrindo seu som para um público mais amplo.

OUÇA: “About You”, “Moonshine”, “Waterguns” e “April”

Lana Del Rey – Norman Fucking Rockwell!



Desde 2017, com um quarto álbum composto por poucas músicas memoráveis, Lana Del Rey nos deixara querendo mais. Por onde andavam as músicas com instrumental denso e bem trabalhado, que falavam sobre amores que não deram certo, que usavam de metáforas mil para abordar os cantos mais sombrios do indivíduo?

Eis que, finalmente, Norman Fucking Rockwell! chegou. O título, uma alusão ao famoso ilustrador dos anos 40, conhecido pela estética que moldou o imaginário da população estadunidense sobre o famigerado american way of life, de cara nos apresenta uma contradição. Como poderia justamente Lana, uma personalidade que publicamente critica o atual governo dos Estados Unidos, exaltar logo alguém que tanto colaborou (dentro do ambiente artístico, e com o seu trabalho) a criar e promover um status quo que muitos almejavam (e ainda almejam), mas poucos efetivamente conseguiriam? Mas afinal, não somos todos isso: contradições?

Em seu quinto álbum, Lana nos apresenta uma face mais íntima. Aquela que víamos de relance em Born To Die, que Ultraviolence escondeu, que Honeymoon sequer mencionava e que Lust For Life maquiara. A estética sonora tão marcante se mantém, mas algo nos dá a impressão de ser algo que ainda não tínhamos visto.

Alguns (ousados, estes) falariam que é apenas “mais do mesmo”, porém (mais ousado ainda) me atrevo a dizer que é uma amostra mais crua e profunda de quem é a pessoa por trás da persona. A Elizabeth Grant que vive dentro da Lana Del Rey.

Se você (de alguma maneira inexplicável) nunca ouviu alguma música de Lana, este é um bom álbum para entender como ela era antes de Born To Die, quando ainda era Del Ray, além de ser possível entender a sonoridade tão ímpar desta cantora.

Mas se você já conhecia (e já a amava), Norman Fucking Rockwell! é um carinho em forma de 14 músicas. É aquela Lana que todos conhecemos com coroa de flores, mas mais madura e mais exposta.

OUÇA: “hapiness is a butterfly”, “venice bitch” e “cinnamon girl”

Whitney – Forever Turned Around



O duo de estadunidense Whitney, composto por Max Kakacek and Julien Ehrlich, retorna ao cenário musical com o lançamento de seu segundo álbum de estúdio Forever Turned Around, lançado recentemente pelo selo Secretly Canadian. Forever Turned Around, ao contrário de seu alegre e radiante antecessor Light Upon The Lake, apresenta um aspecto bem mais introspectivo e intimista e nele há sérias e sinceras reflexões sobre relacionamentos e vida cotidiana. O álbum, apesar de reter elementos de seu predecessor, revela um Whitney mais maduro, sério e aberto a explorar questões decisivas que emergem de um relacionamento íntimo e intenso.

Forever Turned Around é um álbum íntimo e sincero, quase uma troca de correspondências entre duas pessoas que se amam muito e acabam dizendo coisas muito bonitas ao lado de coisas muito sérias e às vezes muito duras e difíceis de lidar. 

As faixas apresentam quase a mesma sonoridade e parecem se sobrepor como capítulos de uma longa história que tem mais continuidades do que rupturas. São faixas que em sua maioria são executadas por um violão acompanhado de um conjunto de cordas, baixo e bateria e que têm uma tonalidade mais triste, intimista e reflexiva que se encaixa perfeitamente com a temática do álbum.

Momentos de solidão são sobrepostos às boas memórias de momentos de convívio mútuo e os tempos de alegria são avaliados à luz dos momentos tristes que marcam uma vida de convívio intenso entre duas pessoas. Sobretudo, há uma profunda reflexão sobre se aquele relacionamento deve persistir e como as coisas podem melhorar em um futuro incerto.

Faixas como “Valleys (My Love)” e “Giving Up” descrevem perfeitamente esse momento de dúvida que muitas se coloca no centro de um relacionamento íntimo. O que fazer diante de uma crise? Quem seremos depois disso tudo? O que será desse relacionamento? São perguntas que perpassam todas as faixas do álbum e dão a ele uma boa dose de sinceridade e honestidade.

Forever Turned Around é um álbum belo, vulnerável e intimista de um grupo que vem se consolidando no cenário musical atual. É uma bela reflexão sobre a vida, relacionamentos e sobre o futuro e vale ser ouvido por todos, sem exceção.

OUÇA: “Giving Up”, “Forever Turned Around” e “Valleys (My Love)”