Liniker e Os Caramelows – Goela Abaixo



Acho que ninguém atualmente na música brasileira consegue transmitir tão bem o sentimento puro de carinho quanto Liniker e os Caramelows. Goela Abaixo não é apenas um álbum para ouvir com a @, para sentir saudade da @, é mais do que isso. É sobre como carinho é universal, é necessário, principalmente em tempos com disseminação de ódio, de amor em aplicativos. Carinho é político.

No vídeo de lançamento de Goela Abaixo, segundo álbum de Linker e os Caramelows, em meio ao barulho de carros, a Liniker, hoje aos 23 anos, dá um depoimento muito honesto e aberto sobre o processo de gerar o disco. Como ela mesmo diz foi muito difícil, mas ao mesmo tempo muito mais maduro. Tudo mudou bastante para Liniker e a banda, Rafael Barone (baixo), Pericles Zuanon (bateria), William Zaharanszki (guitarra), Renata Éssis (backing vocal), Marja Lenski (percussão), Fernando TRZ (teclados) e Éder Araújo (saxofone).

Essa maturidade é algo muito perceptível ao longo do álbum, parece que as músicas forma mais gestadas que em Remonta (2016), parece que até os sentimentos foram mais superados ou mais nutridos. O primeiro álbum trazia quase uma urgência. “Deixa eu bagunçar você”, propunha, pedia ou implorava Liniker em “Zero”, música de Cru e Remonta.

Gravado na estrada, Goela Abaixo nasce de um outro momento. O disco foi concebido em diferentes partes do mundo. De Berlim (“Beau” e “Calmô”)  e Lisboa (“Amarela Peixão”) a São Paulo, Botucatu, Araraquara e Rio de Janeiro. Surge assim um novo sentimento tão presente quanto o carinho – a saudade.

Saudade, carinho, intimidade, paixão, calma, dor, paciência. O mais lindo do novo álbum de Liniker e os Caramelows é que todos esses sentimento e sensações estão crus nas letras e na própria atmosfera do disco. O que sentimos pode ser ambíguo, incontrolável, pode ser muito bom e muito ruim, talvez seja tudo isso até ao mesmo tempo. Essa é a alegria ou a tristeza de sentir, de se permitir sentir.

Assim, como já podíamos perceber em Remonta, Goela é um álbum guiado por vozes, desde de “Brechoque“, que abre o disco, até o refrão da faixa seguinte, “Lava“. Os instrumentos estão muitos mais polidos e com uma pegada mais rhythm and blues, como “Beau“.

Outro destaque são as participações. A cantora carioca Mahmundi é a convidada da música “Bem Bom”. Já a faixa que gerou o título do disco, Goela, foi gravado com um coral lindo de mulheres composto por Linn da Quebrada, Mel Gonçalves, Juliana Strassacapa, Ayiosha Avellar, Natália Nery, Grasielli Gontijo, Tássia Reis, Lina Pereira, Josyara e Renata Éssis, integrante da banda.

OUÇA: “Calmô”, “Amarela Paixão”, “Beau”, “Brechoque” e “Goela”

An Horse – Modern Air



An Horse é uma dupla australiana formada por Kate Cooper e Damon Cox, e Modern Air lançado agora em 2019 é (finalmente) seu terceiro álbum de estúdio. Após concluirem a turnê em prol de seu maravilhoso disco Walls, a banda entrou em uma pausa e durante muitos anos não deram notícia nem sinal de vida. Nesse meio tempo, sua vocalista Kate Cooper lançou em 2015 um álbum solo sob a alcunha Cooper, e pouco depois também sumiu.

Trata-se de uma banda muito especial para mim, pessoalmente, que devorei seus primeiros discos uma década atrás. Rearrange Beds e Walls ainda se encontram no rol de meus discos favoritos da vida e mesmo nesses anos em que não tínhamos sinais de vida da banda, eu sempre revisitava a pequena discografia do An Horse com certa frequência. Foi, então, um prazer imensurável quando ano passado os dois voltaram a fazer shows e lançaram o ótimo single “Get Out Somehow”.

Logo no começo de 2019 Modern Air foi anunciado, juntamente com as músicas “This Is A Song” e “Ship Of Fools” e tudo parecia lindo. As músicas estavam boas, a dinâmica dos dois estava ainda mais cheia de energia do que antes, tudo se encaminhava para que seu terceiro disco fosse ainda mais maravilhoso e o melhor de sua carreira. Aí Modern Air chegou.

Não quero usar a palavra ‘decepção’, pois Modern Air se tornou também um álbum bastante querido pra mim e escutá-lo traz uma nostalgia maravilhosa. Mas Modern Air, infelizmente, é um disco fraco. Fora as músicas divulgadas antes do seu lançamento, poucas outras se destacam. Toda a energia, fogo e revitalidade dos singles não estão presentes na maior parte do álbum.

Seu som, que sempre foi bastante simples guitarra/bateria em sua maior parte do tempo e com influências shoegaze e emo bem pronunciadas, aqui em algumas partes vai quase para um lado mais punk e isso é incrível, mas esses momentos são raros. É realmente uma pena que na maior parte do disco nada disso aparece e o que nos restam são baladas calmas, tristes e pouco impressionantes.

Modern Air é um álbum bonito, bem pensado e produzido – mesmo que não seja sonicamente tão coeso quanto os outros dois. Depois de tantos anos em silêncio, Modern Air vale pelo seu ar nostálgico e para se ouvir sem grandes pretensões.

OUÇA: “This Is A Song”, “Ship Of Fools” e “Breakfast”.

Vampire Weekend – Father Of The Bride



2019. Quase vinte faixas. Quase 60 minutos de duração. Após seis anos, o grupo nova-iorquino Vampire Weekend lançou Father Of The Bride, quarto álbum de estúdio da banda. Sem Rostam Batmanglij, multi-instrumentista e produtor, o VW caminhava em busca de seu redescobrimento. O álbum é cercado de participações especiais.

Quase que caminhando de encontro ao álbum Modern Vampires Of The City, Father Of The Bride soa otimista e agradecido ao universo. Ensolarado, leve e animado. O oposto do álbum anterior, cuja melodia caminhava a passos quase tristes e contidos. Father Of The Bride é feliz e sorridente, como se Ezra Koenig vividamente abandona-se as mazelas do mundo lá fora. Um exercício mental de positividade e esperança.

O Vampire Weekend rememora e ressurge com ritmos multiculturais – uma presença que já fazia parte do repertório da banda. Revisitando a explosão globalizante da música que aconteceu nos anos 90  – o próprio título do projeto é inspirado em uma comédia homônima protagonizada por Steve Martin nessa década. Há algo meio lounge, jazz e até folclórico caminhando para algo mais natural. Teclado, violão, guitarra, baixo e bateria estão presentes delineando a voz de Koenig. Há instrumentais recortados de outros trabalhos. O VW apostou, desta vez, em levar o ouvinte a um universo muito próprio e particular. As composições atravessam camadas mais melancólicas à la The Smiths – melodias dançantes enquanto o vocal sussurra uma questão existencial difícil de compreender.  Relações humanas? Maturidade? Abandono? Desistência?

Ainda no universo noventista, há a aparição da composição de Hans Zimmer para a trilha sonora do filme Além Da Linha Vermelha, lançado em 1998, e dirigido por Terrence Malick, na música “Hold You Now”, primeira faixa do álbum, que conta também com os vocais de Danielle Haim. Referências e colagens. Auto referências também. Em “Harmony Hall”, o vocalista cita versos presentes em “Finger Back”, composição do álbum anterior. Em termos de produção, o álbum conta com  o multi-instrumentista Ariel Rechtshaid, Mark Ronson, Dave Macklovitch, Steve Lacy, guitarrista da banda The Internet, e Danielle Haim, guitarrista da banda californiana HAIM.

Alegria, apesar das nuvens lá fora. O novo álbum do VW é um retrato positivo, mas realista do mundo. Há inquietação, mas também existe algo a ser comemorado. Ventos novos e tranquilos.

OUÇA: “This Life”, “How Long?”, “Unbearably White” e “Sunflower”

Foxygen – Seeing Other People


Não é justo tentar comparar minha relação com bandas e a minha relação com pessoas, mas a tentativa de forjar uma trajetória propositalmente “falida” e tornar isso uma piada praticamente não me deixam opção: talvez o Foxygen esteja Seeing Other People para fazer esse disco e tenha, dessa forma, encerrado uma relação consigo mesmo nesse processo de ampliação de referências.

Foxygen, como outras bandas tipo The Lemon Twigs, faz do rock anos 60-70 sua principal referência. Como aconteceu quando fiz a resenha do Go To School, tenho alguma preocupação pelo futuro de uma banda cujas referências estão majoritariamente em um passo que é bem exaustivamente visitado no indie rock. Não porque isso seja um problema, na verdade, é impossível fugir disso, de fato, mas porque isso coloca um limite nos trabalhos. Em alguma medida, e correndo o risco de soar especulativa, Seeing Other People parece a ida inevitável em direção ao glam rock que seria capaz de ao mesmo tempo manter uma trajetória coerente para o Foxygen (e impedir a total exaustão dos fãs caso a banda insistisse ainda mais no referencial “Velvet Undergroundesco”) e indicar o fim de uma era que define o estilo da banda como um todo.

Porém, em Seeing Other People, essa trajetória não soa natural, soa apenas inevitável e, em alguma medida, melancólica e cômica. Em alguns momentos (como na faixa-título “Seeing Other People”) isso parece extremamente caricato de si mesmo, como se o Foxygen estivesse fazendo um cover de Foxygen com um baixo forte e bem cheio de swag. Não soa nada mal quando coloco nesses termos, mas soa surpreendentemente cômico quando se escuta de fato.

Apesar de tudo isso, as músicas não são ruins e é um disco divertido. “Work” e “Face The Facts” trazem alguns elementos cômicos em suas letras e, junto da presença forte de um piano otimista e que tem sons de auto superação, montam uma imagem irônica de rockqueiros em fim de carreira para Seeing Other People.

O problema é: fica impossível saber até que ponto essa performance de fim de carreira é algo que pode ser uma piada engraçada que vai ser seguida por um próximo álbum a nível We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic ou se vai indicar, de fato, o esgotamento total do Foxygen. Vamos aguardar.

OUÇA: “Work”, “Seeing Other People” e “Face The Facts”

Norah Jones – Begin Again



Com sua estrondosa estreia, Norah Jones se consolidou como figura central do jazz contemporâneo. Com o tempo, porém, provou sua versatilidade enquanto fazia passagens por outros elementos para complementar a tradicionalidade do seu estilo.

Begin Again é um compilado de colaborações inusitadas que a artista desenvolveu durante 2018, e apresenta novas formas de enxergar sua obra, embora seja menos experimental do que seus projetos passados. O resultado é uma descontraída junção de faixas que parecem ter sido concebidas de forma orgânica, sem grandes pretensões.

Por um lado, faixas como “It Was You” dão um toque leve ao todo e divertem pela sua suavidade. Essa, aliás, é uma das músicas mais essencialmente jazzy e reconhecíveis, que impulsa o álbum para um momento mais animado, clima não tão presente nas outras faixas, que entoam melodias mais suaves e frias.

Por outro lado, a surpresa não é o ponto de destaque deste curto projeto, tornando-se previsível mesmo sendo composto por apenas sete músicas.

A abertura com “My Heart Is Open” constrói o caminho para uma sonoridade diferente explorando caminhos novos e construindo uma composição mais lenta que retoma sons sintéticos. Essa estrutura se acalma logo em “Begin Again”, retomando uma mais tradicional, mesmo que ainda não essencialmente a Norah da estreia.

“Uh Oh” é outro momento curioso e fora da curva para o projeto, que utiliza das diferentes camadas vocais associadas a um R&B sutil para uma faixa um pouco mais densa e de atmosfera psicodélica, semelhante à apresentada no início.

A compilação de Begin Again não surte um efeito essencialmente profundo, mas ganha um toque de encanto pela criatividade sutil e as adições vocais que a cantora proporciona com o tom suave.

É também uma face distinta de Norah, mais descontraída e despretensiosa, embora com a tonalidade refinada de sempre.

OUÇA: “Uh Oh” e “It Was You”

Local Natives – Violet Street



Há dez anos, o quinteto de Los Angeles conhecido como Local Natives lançava seu debut, Gorilla Manor, e, a partir desta data, estabelecer-se-ia como um nome importante na constituição da cena indie-pop-rock. Gosto de mesóclise da mesma forma que a banda estadunidense gosta de experimentar em seus álbuns. A priori, talvez a sonoridade de Violet Streetassemelhe-se ao que a banda vinha fazendo ao longos da última década, mas os sutis detalhes nos arranjos tornam seu som mais complexo e estruturado. Explicar-lhe-ei.

A faixa de abertura, “Vogue”, apresenta uma organização instrumental característica de músicas introdutórias: uma cacofonia melódica e sublime que quase deixa escapar um spoiler de todo o liricismo que está por vir. Segundo o guitarrista Ryan Hahn, em entrevista para a Consequence of Sound, “[…] even before the violins, we knew we wanted the song to be about the human desire to feel a connection to god or a spiritual world.”. De modo geral, o processo criativo do disco baseia-se na tentativa de organizar o caótico em busca de um certo senso estético, e Vogue faz isso com primazia ao organizar frases aleatórias com uma instrumentalização que teve influência direta de Sara Nuefield, violinista que toca na maior e melhor banda de todos os tempos, conhecida como Arcade Fire. Esse último trecho é de responsabilidade minha.

A transição da primeira para a segunda faixa merecia um parágrafo por si só. É isso que se espera de uma transição. É isso o esperado após o término da faixa introdutória. “When Am I Gonna Lose You” é uma quase obra prima – por motivos que serão retomados posteriormente. A sinfonia característica dos nativos locais faz com que o ouvinte sinta-se familiarizado com o que está ouvindo, quase como um sentimento nostálgico, ao passo que percebe o ineditismo experimental da nova faixa. De acordo com o baixista Taylor Rice: “ […] this song is me diving into murky emotions of anxiety and doubt in the middle of love and joy.”. Os dois primeiros versos sintetizam todo o sentimento de ansiedade e pânico perante os bons momentos – o que, paradoxalmente, pode estragá-los: “Wait, when am I gonna lose you? / How will I let you slip through?”

Essa sensibilidade lírica se faz presente em todo o trabalho. Em “Megaton Mile”cuja melodia saltitante é de natureza oposta ao tema sobre o qual o eu-lírico discorre: a sensação de desamparado em um contexto quase apocalíptico enquanto o baixo soa como instrumento de destaque faz com que essa faixa seja uma das melhores do álbum, de fato. Em “Shy”, por outro lado, existe uma preocupação genuína em trabalhar o conceito da masculinidade tóxica. Com influências musicais de Fleetwood Mac: Shy / What would you gave me say? / God, it’s a perfect save / It took me thirty years and now I feel right / How did we get this way?

Todavia, nem tudo são flores. Em diversos momentos, mesmo nas faixas citadas anteriormente neste texto, a tentativa de experimentação acabou extrapolando alguns pressupostos básicos que acompanharam a trajetória do quinteto nesses dez anos. Um deles, por exemplo, é não parecer com o Maroon 5. Em diversos momentos, mesmo em “When Am I Gonna Lose You” o padrão de batidas característico é substituído por uma dançante balada tosca. Em “Shy”, existe uma introdução de batidas que não funciona direito e em alguns instantes “Megaton Mile” se parece com Ed Sheeran, o que não parece ser algo bom em qualquer contexto.

Ainda assim, me parecem ossos do ofício. Levando em consideração que Local Natives não é uma banda em início de carreira, é louvável a atitude de se propor aos experimentos e conjecturas em seu quarto álbum de estúdio. Não decepcionaram os fãs saudosistas ao mesmo tempo em que conseguiram manter toda a essência do trabalho que desenvolveram ao longo desses anos, ainda que de forma inovadora.

OUÇA: “When Am I Gonna Lose You”, “Megaton Mile” e “Shy”

Catfish and The Bottlemen – The Balance



Muitas bandas evoluem e muitas bandas crescem, mas nada disso é o caso do Catfish and the Bottlemen. Dois anos desde o lançamento do último álbum, o quarteto de Llandudno retorna com seu novo trabalho: The Balance. Este é o terceiro disco da banda, mas seria fácil acreditar se dissessem que é o primeiro ou o segundo. A fórmula que mistura confiança e um tanto de arrogância funciona muito bem para o Catfish e consegue disfarçar muito bem a sua falta de ambição.

O Catfish and the Bottlemen foi formado em 2007, mas foi apenas em 2014 que a banda lançou seu álbum de estreia, The Balcony. Atraso talvez seja um bom jeito de defini-los. Van McCann e companhia surgiram para o mundo apresentando um som um tanto juvenil, totalmente batido para o ano em que estavam. O segundo álbum, The Ride, não foge muito dos moldes de seu antecessor. As faixas são até mais corajosas e confiantes, porém despretensiosas.

“Nothing’s really changed between then and now”, diz McCann em “Basically” – uma das 11 faixas do The Balance, que parece a última parte dessa trilogia. E esse trecho resume bem o resultado do álbum. O novo trabalho mantém o mesmo ritmo de 2014, até com um um aperfeiçoamento dos versos e melodia – parte disso graças ao produtor Jacknife Lee que já trabalhou com R.E.M., U2, and The Killers. The Balance não tem um potencial hino memorável para o indie rock, mas apresenta músicas como “Longshot” e “2all” que são boas candidatas a levantar um público.

Provando mais uma vez que não liga para as críticas sobre a falta de criatividade, o Catfish and the Bottlemen se encontra bem confortável para quem deseja ser grande. Mas The Balance mostra que isso não vai acontecer agora. O passar dos anos pode até dar mais confiança para a banda, mas ela precisa tentar sobreviver à própria teimosia para que isso seja possível.

OUÇA: “Longshot”, “2all”, “Conversation” e “Coincide”

The Mountain Goats – In League With Dragons



Em “The Wheel”, um dos melhores episódios da série Mad Men, durante uma reunião da sua equipe de propaganda com clientes que procuram uma campanha publicitária para seu projetor de slides, Don Draper começa fazendo uma comparação entre novidade e nostalgia. Segundo Don, tecnologia, novidade, é um atrativo interessante, mas existe algo que pode engajar o público em um nível mais essencial, emocional. “Nostalgia”, continua, “significa a dor de uma ferida antiga”. Enquanto Don explica, o projetor exibe fotos de seu próprio passado. “Esse nos deixa viajar ao futuro, ao passado, como uma criança viaja, e de volta para casa. Um lugar onde sabemos que somos amados”.

O mesmo pode ser dito de In League With Dragons, décimo sétimo disco de estúdio do quarteto americano The Mountain Goats. Nostalgia é o sentimento central que orienta o disco e ao redor do qual giram as histórias evocadas nas letras e arranjos que compõem seu último lançamento.

Com forte influência de art rock, art pop e folk, em especial nos pianos que iluminam faixas como “Done Bleeding” e “Possum By Night”, e no baixo e violão acolhedores e calorosos de “Younger” e “Prassiac 1975”, a banda faz coro à explicação de Draper em Mad Men. A diferença, entretanto, fica com como o Mountain Goats escolhe lidar com a nostalgia. A opção por arranjar as músicas com uma estética bucólica e solar torna a relação com a nostalgia algo prazeroso ao invés de triste. Não existe infelicidade por estes momentos mais simples terem ficados para trás, apenas a felicidade de poder olhar o passado com ternura. A temática, que busca inspirações até mesmo em jogos de tabuleiro e rpg, como Dungeons & Dragons, também reforça o sentimento, misturando-o com as fantasias de aventura de criança.  Muitas vezes a perspectiva dos anos é o meio pelo qual podemos reconhecer toda a felicidade que vivemos no passado e que não recebeu o devido valor quando era o presente, porque estávamos muito presos no momento.

Mesmo uma faixa de clima mais sombrio, como “Clemency For The Wizard King”, com sua bateria pesada acompanhando o baixo e dando solenidade e imponência ao arranjo, não torna a música intimidadora. Ao invés disso, a sensação é a de ouvir uma história grandiosa e reconhecer sua própria pequenez. Existe algo no disco sobre as fantasias de criança e olhar o mundo com olhos mais inocentes, sempre fascinados com tudo que existe por descobrir.

In League With Dragons é uma obra triunfante. As belas progressões de acordes, que evocam imagens claras e luminosas, o sentimento acolhedor de encontrar memórias felizes quando se pensa no passado, tudo isso combinado por uma produção limpa e, embora minimalista, refinada. A beleza dos arranjos compostos pelo Mountain Goats é, por fim, coroada com as letras e as construções líricas escolhidas pela banda. Mesmo em versos em que se fala em cadáveres, o cuidado na escolha das palavras faz da narrativa algo a ser admirado.

Os únicos destaques negativos ficam nas faixas “Waylon Jennings Live!” e “Going Invisible 2”, que, enquanto são faixas boas por si, ficam aquém do nível de produção e cuidado que o resto das composições do disco exibe. Não chega sequer a ser um decréscimo que justifique não tê-las no disco, apenas uma nota mais baixa no catálogo.

Ao final da apresentação de Don no episódio, Harry Crane, um de seus colegas, levanta-se correndo e deixa a sala, tentando segurar o choro. Essa também é a potência da nostalgia: ela age como um espelho. Confrontados com as reminiscências de outros, nós nos conectamos com as nossas. Encontramos ressonância nas emoções alheias e nas experiências do nosso passado e o vínculo entre o nosso eu de agora e o eu de antigamente. Esse é poder de In League With Dragons: nos levar de volta a um lugar que ansiamos voltar.

Esse disco é uma máquina do tempo.

OUÇA: “Younger”, “Passaic 1975”, “Clemency For The Wizard King”, “Possum By Night”, “In League With Dragons” e “Cadaver Sniffing Dog”

O Terno – atrás/além



Mais um lançamento da banda paulista O Terno tomou conta da internet no fim de abril. <atrás/além>, lançado pelo selo Risco,  é o sucessor de Melhor Do Que Parece, o terceiro álbum da banda. Foram quase dois anos e meio entre o  lançamento desses dois projetos, nesse meio tempo, Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d’O Terno, lançou seu primeiro álbum solo Recomeçar. Era hora de recomeçar, de novo. Do vazio e da incerteza surgiu <atrás/além>, afinal, o que é a passagem tempo?

Maturidade e envelhecimento não significam sempre a mesma coisa, mas, neste disco, é possível que as palavras sejam utilizadas como sinônimas. O trio formado por Biel Basile, Guilherme D’Almeida e Tim Bernardes vivem uma transição temporal frenética – nem tão jovens, nem tão velhos.

O tempo é a duração das coisas que nós, seres humanos, vivemos e presenciamos. É isso que que cria a ideia de presente, passado e futuro. Todas essas fendas dão espaço para visitas intermináveis a diferentes momentos. Há uma ideia de brevidade eterna – a antítese é convocada a cada música. Tim, na primeira canção, canta que é muito cedo para parar pelo caminho, almejando a chegada da idade. Em “Pegando leve”, segunda faixa, ideias opostas são exploradas no refrão: ‘Quero descansar, mas também quero sair / Quero trabalhar, mas quero me divertir / Quero me cobrar, mas saber não me ouvir / Quero começar, mas quero chegar no fim’, a pressa adulta ziguezagueia na cabeça do ouvinte, um fluxo infindável de incertezas cotidianas pipocando.

A temática contemporânea choca-se com a melodia que parece ter sido deslocada de um cenário sonoro no fim dos anos 60. Uma viagem temporal onde as malas estão a bordo de um carro, em uma viagem à praia  – a maresia, o sol, a brisa e a nostalgia lomográfica são evocadas. Poderia fazer parte de um tempo dos Mutantes, Brian Wilson ou das canções mais melódicas dos Beatles. Há um processo de recuperação e preservação da memória, cada nota parece ser o gancho para que lembranças pipoquem na mente dos ouvintes. No quarto álbum, O Terno usou a maturidade para repensar as fusões temporais. E o que acontecerá no futuro?

OUÇA: “Atrás / Além”, “Bielzinho / Bielzinho” e “Profundo / Superficial”

Gus Dapperton – Where Polly People Go To Read



Após alguns singles, feats e dois EPs super bem-sucedidos e aclamados pela crítica, Yellow And Such (2017) e You Think You’re Comic (2018), o produtor e músico nova iorquino Gus Dapperton finalmente se rendeu ao clássico formato que chamamos de álbum, em 2019. O garoto de apenas 22 anos, completados recentemente, lançou Where Polly People Go To Read e três videoclipes para entrar de vez no universo auto suficiente que criou para si, que vai da produção à mixagem de suas próprias músicas.

Neste universo, o estético é tão importante quanto à sonoridade: ouvir Gus Dapperton não é a mesma coisa que assistir Gus Dapperton. O músico sabe como transferir a emoção de seu dream pop indie não apenas em seus videoclipes e shows, em que tem o seu jeito único de dançar, mas também em seu estilo, moda e feições. Não à toa, o (também) designer já deu entrevista para a Vogue sobre o que o inspira para se vestir. E se você pensou “bora pra Void”, é isto mesmo: Gus tenta remeter à sua infância, ou seja, à moda do final dos anos 90.

Na tríade de vídeos que lançou para promover seu debut, o americano experimentou duas estéticas principais que permeiam a sua obra: o lo-fi e a super produção. O que, basicamente, resume também suas músicas: enquanto você percebe que é apenas uma pessoa produzindo tudo, cantando em todas as vozes e coros e até mesmo o esforço da mixagem para soar lo-fi, as faixas são muito bem feitas, a vontade de sair dançando como num super musical é gritante e ainda sobra criatividade nas letras e instrumentos.

Falando em instrumentos, Gus prefere a produção analógica e menos artificial, apesar de, no final de tudo, o seu som soar bem sintético. “Coax and Botany” e “My Favorite Fish” são os melhores exemplos do seu álbum de estreia, principalmente pela base de guitarra e violão mais evidentes. No segundo caso, também, a voz do músico está muito mais limpa com o experimento de melodias mais graves e diversas.

Sem dúvida, Where Polly People Go To Read é uma reafirmação de autenticidade de um ex-aluno de música que abandonou os estudos por não querer ficar preso às teorias. Um dos destaques, “World Class Cinema” consegue ser o perfeito resumo desta espontaneidade com seus versos sem base e a voz duplicada em oitava de Gus. Sua contraposição é a seguinte, “Nomadicon”, que é tranquila e etérea, apesar de evidente uma vontade de crescer. Mas ela só atinge mesmo a ansiedade com a frase cruel do refrão ‘I hate it that I hurt you just for fun, It tasted like the perfect medicine’.

O que sabemos, até agora, é que Gus Dapperton é aquele artista que não quer ser definido por um estilo – nem de música, nem de roupa, nem de dança. E, mesmo que consigamos classificá-lo dentro do indie e dream pop, é justo que ele mesmo não se limite e traga para a cena muito mais obras artisticamente ricas.

OUÇA: “World Class Cinema”, “Coax and Botany” e “My Favorite Fish”