NAO – Saturn


Com Lorde, nós temos 19 anos e estamos com fogo no rabo, já a Taylor Swift se sente com 22 e quer continuar dançando. Mas e com 29 anos? Foi pensando na expressão que seu amigo sempre lhe dizia – retorno de Saturno – que a cantora londrina NAO lança o segundo álbum de sua carreira.

O planeta Saturno demora 29 anos para fazer dar uma volta em sua órbita. E é esse simbolismo de crescimento pessoal, amadurecimento que está presente em todo o álbum. A cantora já passou pelo coming of age dos 20 e começa a repensar seus próprios comportamentos e valores. A crise dos 30 está chegando, mas ela não é tão assustadora como dizem, para NAO é um momento de transformação.  ‘E é assim que deve ser / Você sai e retorna / Você é como Saturno para mim, para mim / Eventualmente você vai continuar a me dar o que eu preciso‘, afirma a cantora na faixa-base “Saturn”.

NAO mostra-se protagonista da própria obra, ou melhor do seu próprio retorno de Saturno. Os conflitos pessoais e as desilusões amorosas não parecem ter o mesmo peso que antes, em canções como Don’t Change, ela parece se abster, flutuar diante dessa narrativa. Esse certo distanciamento, no entanto não impede que ela se doe para as letras como fica claro em If You Ever.

Em “Orbit”, uma das canções mais tristes do disco, ela canta  ‘Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que eu conheci / Meio triste, mas você me lembra / Você me lembra de um amor que me superou também / Ele me liberou em órbita / Ainda assim, encontrei uma maneira de navegar até você‘. Versos que funcionam como uma síntese do tom em relação a vida amorosa que permeia todo o disco.

Seguindo a linha do seu primeiro disco, a nova produção de NAO ainda conta com faixas menos contemplativas, como “Drive And Disconnect”,  pop latino dançante que lembra artistas como Rosalía. Mesmo com algumas melodias um pouco repetitivas, em seu segundo álbum NAO mostra que não apenas está preparada para o seu retorno de Saturno como esse retorno também simboliza sua força e talento para carreira musical. Um disco mais maduro, ousado e não menos tocante.

OUÇA: “Another Lifetime”, “Orbit” e “Drive And Disconnect”

The Ting Tings – The Black Light


Dez anos. Esse é, de maneira rústica, o intervalo de tempo entre o primeiro álbum e esse quarto, o The Black Light, na carreira dos britânicos do Ting Tings. “Shut Up And Let Me Go” e “That’s Not My Name” aparte, é possível traçar um panorama interessante dentro desse grande espaço de tempo: de onde a dupla partiu e até aonde a dupla está agora. E, além disso, de que o maior instrumento da carreira do duo acaba sendo o tempo e como ele molda os interesses deles.

Nesse quarto disco a dupla abusa muito mais de elementos industriais que permearam um pouco os álbuns anteriores – se observarmos o single solto “Hands” antecessor ao segundo álbum conseguimos enxergar bem essa construção – e consegue deixar esse ritmo eletrônico mais cru e emergencial de uma maneira interessante para ser trabalhado dentro de uma banda tipificada dentro do grande gênero indie. Jules e Katie ainda abusam de elementos da grande ressurgência da cena techno, criando uma amalgama eletrônica com elementos de guitarra dentro de seu novo estilo – um indie pop electro industrial bem bolado.

The Black Light demorou quatro anos para aparecer desde Super Critical, mesmo intervalo de tempo entre o primeiro e o segundo álbuns, e essa pausa se pareceu muito necessária para eles. Esse quarto álbum parece servir como momento de autocrítica, de aceitar que sua identidade e criatividade do primeiro álbum foram essenciais para aquele instante, mas não estão mais alinhadas com os interesses da banda atualmente – o tempo, o grande instrumento.

Dentro desse panorama, The Black Light parece ser o primeiro álbum verdadeiramente do The Ting Tings desde o primeiro disco, aonde eles mostram de maneira muito mais fluida e fácil quais são os interesses deles atualmente. Essa falta de identidade fez a dupla sofrer muito e parecer uma reconstrução bizarra do sucesso do seu primeiro disco nos álbuns anteriores. Esse quarto álbum vem como uma construção de um novo modelo para a banda e, esperamos, que apareça como uma vontade de aprimoramentos e maior consciência nas composições dos próximos álbuns.

No fim das contas, o Ting Tings parece ter se reinventado dentro do seu mesmo jogo mais uma vez. Eu particularmente acho que a discografia da dupla tem seus momentos de luz e que possuí músicas geniais dentro das singularidades de seus álbuns – “Day To Day” e “Wrong Club”, por exemplo – mas The Black Light é, talvez, o álbum mais interessante desde o seu primeiro e grande sucesso. Apesar dos pesares, é bonito ver que a dupla continua na ativa e continua entregando música bem pensada para nos alimentar, mesmo que ainda vivam, em 2018, sob a sombra do seu sucesso de primeira viagem lá em 2008.

OUÇA: “A & E” e “Blacklight”

Hands Like Houses – Anon.


Após um período de dois anos desde o último álbum, os australianos do Hands Like Houses estão com um novo trabalho na praça e já adianto: você faria melhor em não criar tantas expectativas. Antes, porém, de começar a falar sobre o lançamento em questão, gostaria de retomar, brevemente, a trajetória do quinteto de Camberra. Caso você não os conheça, lá vai: a banda existe há dez anos, mas seu debut foi exposto ao mundo apenas há seis. Desde então, foram mais três álbuns – contando com o atual, Anon. O primeiro contato que tive foi com o belíssimo Unimagine – em parte pela capa, confesso – um trabalho leve, com fortes elementos de post-hardcore e alguns sutis aspectos eletrônicos. Não sei se de lá para cá mudei meu gosto por música ou os meninos tomaram outro rumo, mas o fato é que o novo álbum tem um total de uma música a qual você poderia mostrar aos seus amigos sem passar vergonha. Sério.

Para começar, o segundo single de Anon, “Monster”, foi anunciado como tema do programa WWE em sua turnê australiana e, sejamos sinceros, isso não é um bom sinal. Se sua banda faz um som que pode ser usado pela WWE, alguma coisa está errada e nesse caso não foi diferente. Ainda assim, fã é uma raça persistente. Mesmo com dois singles que não seriam capazes de servir nem no despertador, estávamos lá quando saiu o álbum. Primeiro play e… surpresa. A primeira música é genuinamente boa. Poderia facilmente estar em algum trabalho antigo. De fato, deixei no repeat por alguns minutos. Em “Kingdom Come” a harmonia instrumental resgata diversas nuances que haviam sido utilizadas anteriormente pelo grupo, embora dessa vez permeada por um vocal nebuloso, quase etéreo, próximo daquele bastante recorrente no shoegaze. Em termos líricos, bastante interessante. Quase niilista. ‘I can’t pretend that it doesn’t plague me/ I can’t pretend that it hasn’t changed me/ I can’t pretend that I’m not afraid of the end/ I wonder/ Is God getting lonely?’. Em todo caso, a canção é curta tal como a felicidade do ouvinte. Daí para frente é ladeira abaixo.

Basicamente, você poderia descrever o álbum como a trilha sonora do menu de algum jogo genérico – palavra que descreve absolutamente todos os elementos do disco, salvo a primeira faixa. Em termos líricos, novamente, o disco  todo é bastante pobre. Temas clichês como demônios interiores tentando ascender e a confusão de lidar consigo mesmo: ‘overthinking’ – essa não é de todo ruim, by the way. Compare, por exemplo, alguma faixa com qualquer sucesso da banda Skillet e note a semelhança – se essa última faz parte da sua playlist, aliás, feche esse texto. O fato é que não tenho problemas com bandas ruins, mas quando grupos como Hands Like Houses – que já mostraram seu potencial em trabalhos brilhantes – entregam algo tão sintético e vazio de significado, a coisa realmente te deixa chateado. Perante toda essa questão, não posso deixar de pensar que, no fim das contas, não há dúvidas: um fã de Jota Quest certamente adoraria Anon. Melhor seria, com o perdão do trocadilho, permanecer no anonimato.

OUÇA: “Kingdom Come”, “Monster” e “Overthinking”

Young the Giant – Mirror Master


A globalização e a indústria cultural podem democratizar a arte. Por outro lado, o efeito massificador cria artistas iguais, obras iguais, famas, sucessos, dinheiros iguais. Quando Jim Carrey desejou que todo mundo fosse rico e famoso, foi exatamente por esse motivo: não há nada de novo para fazer ou almejar se você não se despadroniza e sai de sua zona de conforto. Você só muda de prioridades, escolhe uma marca de tênis diferente e muda o destino das suas viagens.

É nesta fuga que Young the Giant pautou seu quarto álbum de estúdio, Mirror Master. Após um longo período obedecendo às demandas do mercado, e em busca de sua própria identidade, a banda entrou em um processo de criação puro, o mais longe possível das tendências norte-americanas do indie e, segundo o vocalista Sameer Gadhia, sobre sua história de imigrante na terra do Tio Sam.

Logo na primeira faixa, “Superposition”, os elementos indianos ficam claros. Cordas agudas, coros marcantes e leves e a letra sobre a química entre duas pessoas (ou universos?) levam ao ouvinte entender que o grupo está trabalhando para produzir novos clássicos e não pretende, necessariamente ou por obrigação, ter vínculo com o passado. Mesmo assim, aquela fórmula super manjada de “vamos viver o amor, o futuro nos espera” reencontra a banda em “Simplify”, que poderia ter sido vendida para o Coldplay.

Enquanto os elementos mais eletrônicos aparecem em “Call Me Back”, as guitarras mais abertas e harmonias mais energéticas são bem-vindas em “Heat Of The Summer”, “Brother’s Keeper” e “Oblivion”, destaque da obra. Mas as composições que mais falam sobre o álbum em si são “Glory” — que, segundo Gadhia, é uma música discreta e vulnerável que afronta tudo o que os artistas fazem há tempos para vender — e  “Tightrope” — que questiona justamente uma identidade e existência.

Mirror Master encerra com sua música homônima e que também resume a obra. Com refrão que começa com a frase “você é mestre do espelho”, Gadhia explica do que se tratam todas as 12 faixas: autoconhecimento é essencial para você também conhecer e até mudar a realidade ao seu redor. A certeza que fica, até agora, é que Mirror Master é essencial para mudar o Young The Giant e a sua realidade.

OUÇA: “Superposition”, “Heat Of The Summer” e “Oblivion”

MØ – Forever Neverland


A expectativa em torno de Forever Neverland foi grande, e isso, graças a qualidade de seu antecessor No Mythologies To Follow lançado em 2014. Assim, foram quatro anos para o tão esperado – e temido – segundo álbum da cantora e compositora dinamarquesa, mas durante esse intervalo foram lançados singles e o EP When I Was Young (2017).

Mesmo que a cantora não tenha ficado no completo silêncio durante esses quatro anos, sabemos bem que os anseios, medos permearam muito o lançamento do segundo disco. É óbvio que todo artista passa pelo medo do “temido segundo disco”, ainda mais quando o álbum de estréia possui uma imensa qualidade. Assim, não foi diferente com ela, temia-se que ela abandonasse completamente a sua essência e se lançasse à “plasticidade do Pop” cedendo o controle de seu trabalho aos “grandiosos da indústria”.

Assim, ao ouvir Forever Neverland percebemos o acúmulo de sonoridades que MØ buscou nesse tempo e no mergulho que deu em torno dos conhecimentos relacionados ao pop, isto é, a cantora e compositora trabalhou com cerca de trinta produtores do segmento eletrônico e experimental, o que evidencia o trabalho dela em buscar constantemente a inventividade. Além disso, vemos contribuições de Diplo – em “Sun In Our Eyes”- , de Charli XCX – em “If It’s Over” – , de What So Not And Two Feet – em “Mercy” – e de Empress Of – em “Red Wine” -, ou seja, aqui nos deparamos com as faixas mais interessantes do álbum.

No entanto, acredito que Forever Neverland divida opiniões, alguns poderão pensar que ele possui faixas rasas com batidas plásticas, que trata-se de algo mais formatado e de qualidade inferior ao álbum anterior; outros poderão pensar que trata-se de um álbum que ainda mantém a essência, mas que investiu em experimentações e sonoridades próximas ao Pop de forma profunda; e além desses, tantos outros pensamentos surgirão a cada audição desse álbum.

Na tentativa de concluir, Forever Neverland não é decepcionante, ele pode ser diferente do seu antecessor e pode não ter agradado quem esperava a mesma fórmula dele, mas podemos dizer que o registro mergulhou em segmentos experimentais e eletrônicos com o intuito de ampliar o acesso ao público. Porém, isso não significa que suas faixas são rasas, plásticas, descartáveis, isto é, o registro possui um outro tipo de apelo, mas não acredito que MØ “perdeu essência”, acredito que seja outro registro, outro contexto, com outras possibilidades, sonoridades, experimentações e devemos considerar esse  outro momento da cantora/compositora. Óbvio, o álbum possui altos e baixos em sua execução, mas concluímos que: Forever Neverland sobreviveu à tão temida “maldição do segundo disco”.

OUÇA: “I Want You”, “Blur”, “Beautiful Wreck” e “If It’s Over”

Greta Van Fleet – Anthem Of The Peaceful Army


Desde que surgiu para o grande público com seu EP de 2017 – From The Fires– a banda Greta Van Fleet tem causado alvoroço: seja por seu estilo cru de fazer Rock ‘n’Roll ou sua promessa como salvador do Rock atual, mas principalmente por ser comparado constantemente com uma das maiores bandas de todos os tempos: o Led Zeppelin. É clara a influência da banda inglesa nos jovens de Frankenmuth, Michigan – embora o guitarrista Jake Kiszka tenha declarado que as semelhanças são inconscientes e que o Led Zeppelin não é uma influência tão grande nas composições. “From The Fires” traz músicas como “Safari Song” que trazem claramente o estilo de compor de Jimmy Page e a maneira de cantar de Robert Plant. Entretanto, em seu disco de estreia – Anthem Of The Peaceful Army – a banda tenta se distanciar dessas semelhanças para começar a encontrar seu próprio som.

A primeira música do disco, “Age Of Man” já mostra esse distanciamento, trazendo influências de bandas como Rush e Yes, mas principalmente mostrando a capacidade de composição da banda, que já começa aqui a mostrar sua criatividade e originalidade. “When The Curtain Falls”, primeiro single do disco, que tem um lindo videoclipe e rendeu uma apresentação no programa The Tonight Show com Jimmy Fallon, traz elementos setentistas muito fortes marcados por riffs de guitarra e linhas pesadas de baixo. A voz de Josh Kiszka domina o disco, ora extremamente agressiva com drives e tons altos, ora mais tranquila e limpa.

“You’re The One” traz essa voz limpa e bela combinada com corais, violões e teclados e, junto com “Anthem”, são as baladas do disco. “Brave New World” é uma das melhores faixas do álbum, trazendo de volta os riffs de guitarra e uma pegada um pouco mais pesada, embora seja uma canção relativamente calma. A faixa “Lover, Leaver (Taker, Believer)” finaliza o disco e é uma versão estendida de outra música do meio do disco e a banda faz uma versão ao vivo dela de cerca de 23 minutos de improvisos, trazendo de novo a influência clara do Led Zeppelin.

Anthem Of The Peaceful Army é um excelente disco de estreia, principalmente para uma banda tão jovem e com influências tão marcantes. O Greta Van Fleet tem o potencial para mostrar o rock clássico para jovens que não são familiarizados com bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, entre outras. Entretanto, tem principalmente o potencial de fazer seu próprio nome no rock’n’roll, desenvolvendo mais o estilo original que mostra em faixas do disco de estreia e talvez influenciar minimamente bandas jovens a apostar num estilo mais clássico de fazer rock, o que faz muita falta hoje em dia.

OUÇA: “Age Of Man”, “When The Curtain Falls”, “You’re The One”, “Brave New World” e “Lover, Leaver (Taker, Believer)” (principalmente a versão ao vivo).

Cypress Hill – Elephants On Acid


Após oito anos de sem lançar um disco, Cypress Hill volta com disco muito louco e cheio de misturas de estilos interessantíssimos. Elephants On Acid surpreende tanto no nome, como na capa e no uso de orientalismo e cítaras nos seus samplers. Nesse trabalho a parceria entre B-Real e Tom Morello (lá no Prophets of Rage) foi deixada de lado, e apostou no mix com dois musicistas egípcios: Sadat e Alaa Fifty.

A consequência é um som chapadaço e místico. Camadas e mais camadas musicais que se ouvidos separados, talvez não fizesse tanto sentido, mas sobrepostos criam atmosferas sensacionais, como a de “Falling Down”. Ou ainda o som feito por um elefante no fundo de Insane OG”. E as maravilhosas camadas de vozes de “Reefer Man”.

Além disso, Elephants On Acid surpreende por ser um disco cadenciado e com músicas instrumentais bem colocadas, dando um toque de continuidade para a obra. Isso mostra mais do que nunca que dentro do mundo musical dos EUA, a irreverência e a musicalidade mais interessante da atualidade não está no rock, pelo contrário, está evidentemente no hip-hop. Ainda mais em casos como esse, em que ouvimos trompetes e orientalismo tão bem usado em instrumentos, mas também em backing vocals.

Cypress Hill continua um dos grupos de hip-hop mais importantes do mundo, tanto por suas letras críticas e som, mas também por ser composto por membros de origem latina, nascidos em Los Angeles predominantemente. Até disco em espanhol eles já lançaram. E isso é necessário para questionar a xenofobia dos EUA, e dessa forma, criar sons tão dançantes com misturas tão poderosas características dos latinos.

OUÇA: “Band Of Gypsies”, “Falling Down” e “Reefer Man”

How to Dress Well – The Anteroom


The Anteroom é o nome da nova coletânea de Tom Krell, a pessoa por trás do projeto conhecido como How To Dress Well. No quinto disco do artista a presença de elementos experimentais está mais marcada do que nunca.

Distribuídas em mais de 60 minutos, são 16 novas canções que, em partes se assemelham ao material entregue em registros anteriores, como “Care”, o mais recente; e por outro lado apresentam uma face do artista totalmente experimental. Neste ponto, nenhuma novidade, visto que sua obra apresentava essa caminhada em direção ao experimentalismo desde os primeiros discos.

Não é novidade que, com o projeto, Krell gosta de adicionar synth frenéticos e batidas difusas aos seus vocais claros, límpidos e quase inseguros. Em The Anteroom é possível perceber a forma complexa como o cantor se relaciona com a sua própria obra por meio de elementos ainda mais cacofônicos e batidas que se perdem em meio ao ruído e à repetição.

Veja bem, não há nada de errado com isso – é a forma de apresentação de seu trabalho que, numa crescente, em relação aos discos anteriores, ruma para o experimental. Basta considerar o disco Care, de 2014, de faixas como as radiofônicas “Lost Youth/Lost You” e “Can’t You Tell” e novos registros, como “False Skull 7”, por exemplo, muito mais enigmático.

O lado synthpop do cantor não está perdido, muito embora neste novo registro ele se aproxime mais de arranjos que navegam pelo lo-fi e, inclusive, tenha produzido faixas totalmente instrumentais. Muitas vezes a voz, é uma leitura que pode ser feita, nem é o recurso principal da canção – muito embora esteja ali para nos lembrar que Krell sussurra calmamente em meio ao instrumental delicado que pode ser pesado ou não.

OUÇA: “Bodyfat”, “Hunger” e “The Anteroom”

Neneh Cherry – Broken Politics


Broken Politics, belo novo álbum da Neneh Cherry, foi lançado em 19 de outubro, e se constitui como mais um belo trabalho na sequência de bons álbuns da carreira de Neneh. A cantora sueca, um dos grandes nomes femininos da década de 90 sempre trabalhou a partir de sonoridades menos heterodoxas. Flertando com uma estética eletrônica soturna (dependendo da faixa), bastante tributária do trip-hop, porém assimilando estruturas mais comuns nos anos 2000, como o uso de vinhetas (“Poem Daddy”), Neneh produziu um álbum cujo título parece remeter também ao atual zeitgeist da contemporaneidade: broken politics, política esfacelada, como a ausência de diálogo e o autoritarismo de governos de extrema-direita espoucando pelo mundo.

A simplicidade límpida de “Synchronised devotion”, até as texturas e o piano sorumbático de “Deep vein thrombosis”, passando pelo tri-hop repaginado de “Kong”, que bebe muito nas sonoridades de Tricky e Massive Attack. “Faster than the truth” apresenta uma construção orgânica massuda de bateria pontuada por teclados atmosféricos. “Natural skin” é interessante, apesar dos efeitos já um pouco datados, e que poderiam estar no Ray of Light da Madonna.

Broken Politics dá uns escorregões pontuais, mas com certeza absoluta pode ser considerado um dos trabalhos mais interessantes desse 2018 às portas do fim. Neneh Cherry confirma assim sua fama de uma das artistas mais interessantes dos últimos 25 anos.

OUÇA: “Kong”, “Synchronised Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”.

Empress Of – Us


O pop como conhecíamos há seis, sete anos atrás não existe mais. É correto dizer que a música atual perdeu alguns decibéis, de maneira que as batidas estridentes, o uso imoderado de sintetizadores e vozeirões épicos – enfim, tudo que contribua para aquela sensação de paredão sonoro – perderam espaço. E muito. De lá para cá, bastiãs (no feminino mesmo, afinal falamos de Lady Gaga, Beyoncé, Britney Spears, Kesha, Christina Aguilera, Rihanna e outras mais) dessa sonoridade extremamente marcada do início dos anos 2010s optaram por seguir outros caminhos musicais, algumas até se afastaram da indústria musical. A lacuna é uma tragédia para uns, mas uma oportunidade Grande (rs) para outros que anseiam tomar a liderança de um novo ciclo musical. Um ciclo que já põe em prática uma repaginação do R&B dos anos 90s, aliado ao trap e ao reggaeton – as duas tendências dominantes do mercado -. Um pouco mais de um, um pouco mais do outro, às vezes uma mistura dos três, essas são as variantes postas em prática atualmente e as quais estamos nos habituando a ouvir nas rádios e demais espaços. Nesse conjunto estão as estreantes badaladas SZA, Kelela, Kali Uchis e a já queridinha de todos,  e ponta de lança da nova safra, Ariana Grande. Se essa resenha fosse escrita há três anos atrás, o nome Empress Of (Lorely Rodriguez) estaria incluído nesse grupo promissor; hoje, temos um ponto de interrogação.

Lorely Rodriguez empaca em Us (2018), seu segundo álbum e objeto de análise dessa resenha. Empaca, pois não consegue trabalhar com a mesma inventividade que conseguira em seu debut extremamente bem conceituado, Me (2015). É interessante notar que Lorely, inclusive, tenha contribuído para armar o terreno atual a partir da sua estreia, tamanha a impressão que tal possuiu à época. O disco apresentava uma coerência interna muito bem definida (muitos o reverenciavam como um trabalho conceitual, inclusive), aliado a uma crueza lírica e sonora impossível de enjoar. É exatamente o oposto nesse segundo disco: são 10 faixas, das quais as 4 iniciais são completamente esquecíveis. Puxa esse  bloco, a segunda faixa “Just The Same” – que é, de fato, apenas o mesmo – pois se vale de um instrumental “reggaetonesco”- dance hall e com algum quê de Chainsmokers & Kygo. Pouco empolgante para dizer o mínimo. Para aqueles que possuem uma forma sinestésica de ouvir, tentem imaginar a música que toca no fundo daqueles takes de lugares paradisíacos, de gente surfando, ou de festas de gente muito rica em qualquer lugar hiper-gentrificado do mundo em um programa de rotas de viagem cara na GNT. É essa faixa. E “Love Me” é um bis para os mais aficionados nessa vibe, já que há gosto para tudo nesse mundo.

O panorama se modifica significativamente com “I Don’t Even Smoke Weed”,  o ponto forte do disco, e que abre uma segunda metade cambaleante, mas de maior qualidade. Os elementos aqui trabalhados são completamente diferentes daqueles demonstrados inicialmente: a música é dinâmica, colorida, a letra divertida e a voz de Lorely cai muito bem com os arranjos. Embora recaia com “Timberlands”, “I’ve Got Love” e “When I’m With Him” são bons destaques também dessa segunda metade, que é praticamente um novo disco, o qual gostaria de ouvir mais. Nessas músicas, a produção é bem mais arriscada e diversa. Menos formulaica. A balada “Again” termina o álbum e não causa qualquer emoção, porque também peca pelo convencional, embora seja a única música produzida em um formato mais etéreo. No geral, o álbum é inconsistente, turbulento e de impressões pouco claras. Sob o ponto de vista lírico, não há muito para ser agregado, embora a cantora tenha afirmado em entrevista que o álbum é um pedido por ajuda, por aproximação, amor e coletividade. Parece que não apenas por ela, mas pelo mundo. Um apelo à la We Are The World. Como reflexo, é como se a pessoalidade imputada com grande competência em Me tenha sofrido um grave corte orçamentário. Sob o argumento do pragmatismo, de uma mensagem positiva para unir as pessoas, Lorely peca pela falta. Há espaços vagos, incompletos e pouco significantes, que tornam a obra fraca.

Por fim, Lorely cai em um limbo de relevância, onde atualmente está Alessia Cara, por exemplo. Uma vez creditadas a ascender e liderar um pelotão de frente da música, o sinal amarelo é aceso. No caso de Lorely, o problema tem muito mais a ver com as escolhas de efetivo pessoal (produtores, escritores, etc.) e temáticas, por assim dizer, do que das suas próprias limitações; vale ressaltar que, nesse quesito, enquanto o primeiro álbum é autoproduzido totalmente, o segundo conta com um pelotão envolvido,  cujas pessoas envolvidas trabalharam com diferentes tipos de artistas (indo do Kanye West ao The xx). E, bem, escolhas são risco e sorte. Mas para provar essa tese aqui proposta, a artista precisa demonstrar que pretende retomar domínio sobre seus próprios caminhos, ou a percepção de que o resultado de Us tenha sido mais responsabilidade de outros do que dela pode se turvar. De todo modo, esperamos que Lorely Rodriguez tenha mais sorte na próxima vez.

OUÇA: “I Don’t Even Smoke Weed”, “When I’m With Him” e “I’ve Got Love”.