Panda Bear – Buoys


É difícil pensar em alguma banda cujos integrantes produzam na escala que o Animal Collective produz e que conservem qualidade e integridade com a proposta inicial. Sem precisar fazer grandes malabarismos estilísticos, o Animal Collective (em todas as suas variações de composição) fez, desde o estreante Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished, de 2000, outros 10 discos enquanto conjunto, além de 9 EPs de qualidade tão boa quanto os discos e mais 3 álbuns ao vivo.

Um dos membros mais “ativos” da banda, Noah Lennox, que atende pelo nome artístico de Panda Bear, não fica atrás em sua produção solo: são pelo menos 6 álbuns atribuídos a ele enquanto performer solo. Assim como no Animal Collective, Noah manteve, ao longo desses 20 anos de atividade, uma linha produtiva extremamente coerente. Coerentes a ponto de beirarem o autoplágio. Se não fosse a capacidade de inovação e posição de vanguarda impressionante de suas produções (tanto solo quanto coletivas), cada um dos muitos lançamentos seria um tédio.

Mas esse não é o caso. Nunca é o caso. E não é o caso para Buoys (leia “bóias”, segundo o próprio Lennox em entrevista para O Globo), novo disco a ser lançado em fevereiro. Com 9 faixas de duração moderada (a mais longa mal chega aos 5 minutos), Buoys foi composto durante o período de preparação e turnê do aclamado Sung Tongs, que passou pelo Brasil no segundo semestre de 2018.

Apostando novamente no combo voz-violão, o álbum não é marcado pela complexidade das composições e nem dos arranjos, mas pela criação de uma atmosfera: vemos muito o uso dos ecos e efeitos na voz, pontuações eletrônicas e um uso ritmado do violão como marcador de percussão, assim como no Sung Tongs, mas em menor escala, deixando espaços menos preenchidos e mais reflexivos.

Assim como no coletivo Tangerine Reef, que, embora seja o primeiro trabalho do Animal Collective sem a participação de Panda Bear, Buoys coloca, em algum grau, a temática marítima — e enfrenta o mesmo problema de similaridade entre as faixas, como se cada uma fosse uma explicação da anterior e tornando difícil a distinção entre eleas, que Tangerine Reef. Claro que pode ser um risco associar esses dois trabalhos, especialmente porque um deles sequer conta com a participação de Lennox, mas, para mim, é impossível dissociar os trabalhos solo e coletivos nos quais Noah se envolve.

Se para o Tangerine Reef a NME falou em tediosos “tons de cinza” em contraposição à “bagunça colorida” de Merriweather Post Pavillion, podemos evocar a figura das cores para garantir para Buoys um lugar ao sol: os vocais são interessantes, pronunciados e, mesmo sem a sensação de “coletividade” que marca os vocais do Animal Collective, e do próprio trabalho solo do Panda Bear em outros momentos, evoca uma espécie de solidão compartilhada, como se estivéssemos à deriva (em bóias, que seja) sabendo que existem outras pessoas naquela situação.

Diferentemente dos tímidos 60% que Tangerine Reef marcou segundo o Metacritic, com opiniões ferozmente negativas, como a da NME, vejo Buoys no espectro da maturidade de Lennox: depois de um sucesso estrondoso do solo Panda Bear Meets The Grim Reaper, de 2015, avaliado acima dos 80% no Metacritic, e de uma excelente turnê com o Sung Tongs, Panda Bear nos mostra que ele é capaz de revisitar os próprios trabalhos e criar algo especial. Não propriamente novo, mas não menos especial por isso.

OUÇA: “Dolphin”, “Cranked”, “Master” e “Home Free”

James Blake – Assume Form


Assume Form surge como o quarto álbum de estúdio do cantor e produtor inglês. Em seu último trabalho, Blake permeia o ambiente com seriedade e sentimento, transformando aquilo que é etéreo em som. Por meio do álbum, o cantor externa temas como o próprio ego, amor, luz e insegurança, utilizando as participações de Travis Scott, André 3000, ROSALÍA, Moses Sumney e Metro Boomin para a materialização temática do projeto.

Logo de cara, Blake mostra-se aberto, dialogando diretamente com o público, em uma espécie de divã. Há conversas francas sobre amor, confiança e entrega – e, claro, expectativa, como  em ‘I hope this is the first day, that I connect motion to feeling‘, trecho da faixa homônima. Existe aí anseio em expressar tudo de novo que permeia as sensações, sejam elas físicas ou imateriais.

O álbum possui cerca de 48 minutos de execução, divididos em 12 faixas. Assume Form é tudo aquilo que poderíamos esperar de Blake, com algo a mais. Ainda mais confessionalidade e passionalidade. As batidas transitam entre o que é quase imaterial, portanto, imperceptível, e sua voz captando a atenção do ouvinte para o que deve ser escutado. Blake dialoga graças ao seu magnetismo e identificação, afinal, quem nunca experimentou as sensações do amor?

“Into The Red”, quarta faixa do álbum, é uma grata surpresa, tanto em termos musicais quanto em sua narrativa. Em  sua entrevista para o iTunes, Blake revelou que a música foi feita para uma mulher que gastou tudo o que tinha para lhe dar algo. A ideia, para Blake, quebrou o pressuposto que atribui ao homem a questão financeira, atraindo-o para a ideia de igualdade. Enquanto o cantor narra sua história com a companheira, a melodia, com batidas leves e alegres, o acompanha como se dançasse com suas palavras. “Barefoot In The Park” possui participação da cantora espanhola de  eletro-flamenco ROSALÍA e, apesar dos belos vocais, não oferece nada de novo musicalmente, apresentando uma batida sem componentes singulares e totalmente esquecível.

Outra surpresa, um dos pontos altos do álbum, é a faixa “Where’s The Catch?, com participação de André 3000, rapper e integrante do aclamado duo OutKast, a música trabalha com jogo de palavras cantados por cima de uma batida obscura, onde as rimas de 3000 contrastam diretamente com a voz de Blake, criando uma dinâmica única e magnética, em um fluxo intenso e combinado de sons e rimas. “Lullaby For My Insomniac”, responsável por encerrar o álbum, é a síntese da doçura e expressa promessas genuínas a quem se ama.

O disco, moldado no etéreo e no diálogo, oferece ao ouvinte uma nova perspectiva de Blake, sintetizando sua entrega ao amor e, de certo modo, seu enclausuramento em uma bolha sentimental. Musicalmente, o cantor não oferece algo tão fora do esperado e, na verdade, isso não é ruim. O álbum funciona desta forma e apresenta um bom trabalho, relaxado e tranquilo. Novos ares, talvez?

OUÇA: “Assume Form”, “Where’s The Catch?”, “Into The Red” e “Power On”

Deerhunter – Why Hasn’t Everything Already Disappeared?


Why Hasn’t Everything Already Disappeared?, novo álbum do grupo Deerhunter, é uma ótima demonstração de como construir a atmosfera doce e melancólica que diversas bandas indies almejam sem soar pedestre ou repetitivo. Com dez canções e tocando por menos de 40 minutos no total, o disco é consistente ao criar melodias evocativas e agradáveis ao ouvido.

O Deerhunter consegue fluir entre climas mais grandiosos (como em “Détournement” e seus imponentes sintetizadores) e canções mais mais modestas (como a introdutória “Death In Midsummer”) graças a uma sensibilidade nos arranjos que confere ao disco uma sonoridade idílica e meditativa. O álbum como um todo tem uma inegável beleza que parece sempre flertar com a tristeza.

As composições de Bradford Cox são inteligentes ao ligar com uma variada gama de tópicos como o pessimismo a um cenário político extremista ou o lado tóxico da nostalgia, mas sempre usando uma abordagem coerente à natureza do disco ao elaborar composições crípticas e simbólicas. Por diversas vezes, pode não ficar claro ao ouvinte sobre o que as canções de Why Hasn’t Everything Already Disappeared? se tratam, mas a performance do grupo não deixa dúvida de qual sentimento eles buscam retratar.

Todos esses acertos na concepção do álbum se sintetizam na escolha perfeita para encerrá-lo com “Nocturne”, uma faixa sensacional que faz jus a sua duração de mais de seis minutos. A canção é uma viagem de beleza distorcida, usando efeitos para fazer a voz do vocalista soar como uma fita K-7 antiga: um toque que simboliza a preocupação do Deerhunter em entregar intimismo dentro de seu estilo lírico.

OUÇA: “Nocturne”, “Futurism” e “Détournement”

The Twilight Sad – IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME


É das máximas mais repetidas de todas que é impossível a um mesmo homem tomar banho no mesmo rio duas vezes. Na segunda vez já não é mais o mesmo. Seja o rio, seja o homem. Dessa analogia apresentada por Heráclito, se origina o paradigma de que a única constante é a mudança. A constatação desse processo pode ser verificada em qualquer coisa cuja existência persista por tempo suficiente. Sejam pessoas, obras de arte, grupos artísticos. Acompanhar algo é, portanto, um estudo da transformação e, uma vez constatado isso, pode se apreciar a mudança por ela em si, independente de o resultado ser aquilo que se esperava. A beleza reside no movimento.

E, algumas vezes, ao final o movimento também resulta em algo belo além, como é o caso do IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME último disco da banda escocesa de pós-punk The Twilight Sad.

Quinto registro de estúdio do grupo, o disco vem cinco anos depois do excelente Nobody Wants to be Here And Nobody Wants to Leave e mostra uma significativa mudança de estética e abordagem na composição das faixas. Enquanto o último disco apresentava uma sonoridade claramente influenciada pelo post-punk moderno, com o baixo pronunciado e riffs repetitivos e hipnóticos, além de guitarras altas que criavam paredes de som nas composições – numa influência de shoegaze que às vezes remetia à ênfase no volume e na imposição dada pelo A Place to Bury Strangers -, e o timbre grave do vocal de James Graham, o novo mostra a banda se aproximando de influências bastante distintas, porém não tão distantes assim.

A primeira constatação é a perda de ênfase no baixo e nas guitarras, com o foco ficando agora no uso de sintetizadores e teclados para construir a identidade do disco. Num movimento análogo ao do próprio post-punk, é evidente a influência de New Order no estilo de composição do novo disco, enquanto pelo timbre e teatralidade empregadas no vocal de Graham, a performance do vocalista se aproxime de Bauhaus. Nada disso é apontado de maneira a diminuir o trabalho do novo disco. Expondo suas influências de maneira honesta, o Twilight Sad se move numa direção diferente enquanto mantém seus laços com o gênero ao mesmo tempo que explora a própria interpretação dos estilos nos quais se inspira.

Já na abertura, com “[10 Reasons For Modern Drugs]”, os teclados ganham a companhia rápida de uma linha de baixo moderna que acelera o ritmo da música, dando à faixa um andamento dinâmico que cria o cenário para a entrada da teatral segunda faixa “Shooting Dennis Hooper Shooting”, uma das melhores do disco. Aqui o Twilight Sad reduz a presença dos sintetizadores, permitindo que o baixo volte a ocupar o espaço central da composição, enquanto os sintetizadores preenchem os vazios deixados por ele, criando a impressão de um instrumental solene e dramático que cresce próximo do clímax da música. A dramaticidade continua com a faixa seguinte, “The Arbor”, que volta a enfatizar os teclados e a diminuir a velocidade, se aproximando decididamente das influências apresentadas pela banda. O baixo e os sintetizadores criam uma atmosfera distante que reforça a lugubridade da música. IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é um disco sobre mágoas, as dúvidas trazidas pelo que provoca a mágoa e a aprender a não esperar que essas dúvidas sejam respondidas. Não é a resposta que faz diferença, é aprender a lidar com a pergunta.

Naturalmente, o disco não é sem falhas. Enquanto músicas como a lenta e despida “Sunday Day13” e as rápidas e raivosas “Girl Chewing Gum” e “Let/s Get Lost” não soam particularmente ruins ou fora de lugar no setlist do disco, a simplicidade e as escolhas de composição delas, quando colocadas lado a lado com as outras faixas do disco, faz com que elas empalideçam em comparação. E num disco tão denso e emocionalmente carregado, falhar em causar uma impressão forte é uma fraqueza.

Outras faixas que surpreendem com as direções adotadas pela banda são “I/m Not Here [missing face]”, que hipnotiza com um refrão forte e envolvente, o ritmo acelerado e carregado de dramatismo é carregado pela dualidade entre bateria e sintetizadores, que representa a o contraste entre o peso interno dos sentimentos e a fachada suave com que eles se manifestam fora de nós. “Auge/Maschine” volta a dar lugar à raiva, com uma avalanche de sintetizadores que soterra o ouvinte no que pode ser uma nova direção para a banda: abrir mão das paredes de guitarras do shoegaze em favor de uma igual presença esmagadora de sintetizadores influenciados pelo synthpop. O último bom destaque é a Keep it All to Myself, que também dá predominância aos sintetizadores, com o adicional de um riff serpenteante e agudo de guitarra após os refrões que cadenciam a música, carregando de rancor a faixa.

IT WON/T BE LIKE THIS ALL THE TIME é uma excelente obra para o catálogo do Twilight Sad. Sabendo explorar os elementos que definiram sua identidade, como a voz de Graham, o instrumental predominantemente grave e os andamentos cadenciados, a banda se aproxima de uma nova influência com os sintetizadores e teclados, entrando num território que possui um grau de parentesco com o post-punk que vinham praticando até então. É talvez um dos melhores discos da carreira do quarteto escocês e um resultado que dificilmente eles conseguirão repetir, mas tudo bem.

Ninguém conseguiria mesmo.

OUÇA: “Shooting Dennis Hooper Shooting”, “The Arbor”, “I’m Not Here [missing face]”, “Auge/Maschine” e “Keep It All To Myself”

Better Oblivion Community Center – Better Oblivion Community Center


Better Oblivion Community Center é uma dupla de folk rock formada por ninguém menos do que Phoebe Bridgers e Conor Oberst. Ele, queridinho do indie com seu Bright Eyes e inúmeros trabalhos solo, um dos mais interessantes e prolíficos compositores de sua geração. Ela, um dos melhores nomes do so-called ‘indie folk rock’ atual, lançou seu ótimo debut Stranger In The Alps em 2017 e ano passado foi responsável, ao lado de Lucy Dacus e Julien Baker, pelo melhor EP de 2018: boygenius. Uma combinação que não tinha como dar errado, e realmente não deu.

Better Oblivion Community Center também é o nome do primeiro (talvez único?) álbum da dupla, uma das melhores surpesas desse ano de 2019 que mal começou. O disco foi gravado e produzido completamente em segredo ano passado, e é bem de leve um concept album sobre o fictício Better Oblivion Community Center, uma espécie de spa distópico. Não há exatamente uma grande narrativa que engloba todas as músicas, por isso dá até pra se ignorar essa pequena premissa e simplesmente apreciar o álbum.

O som apresentado pela dupla é um folk rock bastante básico, na verdade, sem grandes experimentações ou novidades para o gênero, mas é extremamente bem feito e produzido. Suas vozes combinam perfeitamente, algo que já sabíamos com “Would You Rather”, de Stranger In The Alps, cujos vocais de apoio de Oberst já previam tal colaboração. E agora aqui dividem completamente o holofote, já que nenhum se sobressai mais do que o outro.

Ambos cantam em suas carreiras sobre sentimentos de alienação, depressão, melancolia e solidão de forma leve, empatética e sincera, honesta. Essa honestidade é o que dá o tom predominante de Better Oblivion Community Center, cantando sobre personagens que na maioria do tempo são levados a um extremo ou outro, de forma sutil e calma. ‘All this freedom just freaks me out‘, canta Oberst em “My City”, continuando o tema de ‘nem-sempre-as-coisas-boas-são-realmente-tão-boas-assim’ que ele já fazia com o Bright Eyes desde sempre. O mais impressionante é que Bridgers não parece ofuscada, ela sempre responde à altura e completa as ideias de Oberst com uma confiança que nem sempre é comum a artistas que literalmente estão apenas começando.

Bridgers eleva Oberst da mesma forma como ele a ajuda a sair de sua zona de conforto e escrever canções-narrativa. Better Oblivion Community Center é um casamento com divisão total de bens; dois grandes artistas empurrando um ao outro a coisas novas ao mesmo tempo em que um sempre está lá para apoiar o outro. Apesar do tom calmo e confiante, a dinâmica entre os dois é de tirar o fôlego. Sem contar que Better Oblivion é o melhor trabalho de Oberst desde, talvez, The People’s Key em 2011. E Bridgers, apesar de seu pouco tempo de carreira, já sabe muito bem quem é como artista e que tem um longo e ótimo futuro pela frente.

OUÇA: “Dylan Thomas”, “Exception To The Rule”, “Sleepwakin’” e “My City”.

Sharon Van Etten – Remind Me Tomorrow


O novo álbum de Sharon Van Etten é uma questão de tempo. Dez anos depois do seu primeiro trabalho de estúdio oficial e cinco depois do último, a artista estadunidense volta em Remind Me Tomorrow. E entrega um estilo, que, em contraste com a bagunça na capa, é consistente: há aqui métodos de composição diferentes do habitual, mas ainda assim em sintonia com o restante da sua obra e com as suas memórias e projeções de futuro.

Aqui, as faixas guiadas pelo violão e guitarra sumiram. E sabe aqueles arranjos de banda de folk rock, que havia em discos como Epic (2010) e Are We There (2014)? Pois é, também não estão presentes. No lugar disso tudo, brilham teclas e baterias, em uma produção mais eletrônica feita por John Congleton, que já trabalhou com artistas como St. Vincent e Angel Olsen. Da parte de Sharon, esse novo rumo não veio do nada: prenúncios podem ser encontrados em faixas mais antigas (“Taking Chances”, “Break Me”), mas só em Remind esse contexto sonoro se tornou padrão. Longe de ser por formalidade, uma das faixas, “Jupiter 4”, leva o nome de um modelo de sintetizador, instrumento que em paralelo ao piano compõe a base de todas as composições.

É um álbum sonoramente coeso, portanto. E agradável: Van Etten já sabia criar ambientes confortáveis para o ouvinte, e conseguiu transportar bem essa característica para os arranjos. Surgem timbres que remetem a paisagens mais úmidas ou etéreas, sobretudo com o uso de reverberação na voz. E os melhores momentos do trabalho surgem quando essa habilidade é utilizada para gerar um crescendo, como na já citada “Jupiter 4” e no single “Seventeen”, no qual a compositora conversa com seu eu de vinte anos atrás na melhor interpretação vocal do disco.

Talvez nem todas as escolhas se encaixem perfeitamente. Quanto aos arranjos, exceto por poucos elementos aparentemente deslocados — final abrupto em “No One’s Easy To Love”, bateria eletrônica estranha na introdução de “Comeback Kid” —, eles de fato foram bem escolhidos e trabalhados nessa mudança de som. Negativamente falando, o que pega mais é a simplificação da estrutura das faixas, com letras e motivos sonoros mais repetitivos do que em trabalhos anteriores.

É justo dizer que essa preferência, com seções mais pegajosas, como em “Comeback Kid”, “You Shadow” e “Hands”, tem a virtude da acessibilidade e da persistência da canção no ouvinte. Contudo, no caso isso compromete a exploração de outras características de Van Etten, como as harmonias vocais e mudanças de dinâmica ao longo da faixa. Essas marcas ainda estão ali, mas menos presentes, chamando inclusive mais atenção quando aparecem, seja de forma mais visceral (“Seventeen”) ou introspectiva (“Malibu”).

Nos temas líricos, a compositora mantém a sua força de sempre. Há repetições, mas nada é bobo ou raso. Aparecem memórias ásperas e afetuosas de relacionamentos atuais e passados, desafios da sua adolescência e considerações sobre o futuro dela e de seu filho, nascido em 2017. Em um disco marcado por mudanças e transitoriedade em vários sentidos, é uma escolha singular terminar o trabalho olhando para o que é permanente na sua relação materna: ‘You love me either way / You stay‘. E de certa forma, o que fica para o ouvinte é que apesar de todas as diferenças, este é ainda um trabalho de Sharon Van Etten — de ontem e do amanhã; mas, sobretudo, um trabalho do agora.

OUÇA: “Seventeen” e “Malibu”.

2018: Best Albums (People’s Choice)

10 | THE CARTERS – Everything Is Love

Beyoncé e Jay-Z lançaram um álbum juntos. São tantos plot twists vindos desses dois que eu os considero o M. Night Shyamalan do mundo da música. Um show melhor que o outro, álbuns fascinantes e projetos audiovisuais que nem sei por onde começar a descrever – o que foi o clipe no Louvre?! Após Lemonade e 4:44, o lançamento de EVERYTHING IS LOVE consagra o casal como o mais poderoso do mundo da música. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “LOVEHAPPY”, “BLACK EFFECT”, “SUMMER” e “NICE”


09 | FLORENCE AND THE MACHINE – High As Hope

Depois do insosso e quase furioso How Big How Blue How Beautiful de 2015, Florence Welch retorna, quase como uma surpresa e sem muito alarde, com seu quarto disco de estúdio agora em 2018. High As Hope apareceu repentinamente, sem muito furdunço e sem muitas promessas a serem cumpridas depois do balde de água fria que foi o disco anterior. De qualquer maneira, mesmo sem expectativas e, ainda pior, com o curto intervalo de tempo entre o anúncio oficial e o lançamento, a internet sempre vai à polvorosa quando um álbum da cantora é anunciado – a esperança vai lá pro alto. Não foi diferente com High As Hope. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Hunger”, “Patricia” e “100 Years”


08 | BLOOD ORANGE – Negro Swan

Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos… Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Orlando”, “Jewelry”, “Saint” e “Charcoal Baby”


07 | BACO EXU DO BLUES – Bluesman

Se em Esú (2017) Baco Exu do Blues transpôs a barreira entre deuses e homens e encurtou a distância entre os céus e a terra, em Bluesman o rapper baiano contempla sua própria fragilidade enquanto jovem negro vivendo em uma sociedade hostil aos corpos e mentes negras e reflete de forma honesta sobre sua saúde mental. Depressão e ansiedade estão no coração de Bluesman, mas Baco também fala sobre autoestima, sobretudo a autoestima do homem e da mulher negra, sobre estar vivo e prosperar em um mundo racista que não se conforma com o sucesso, a criatividade e beleza daqueles cuja humanidade era negada há pouco mais de 100 anos. Ser bluesman, afinal, é celebrar a arte negra que propõe um exercício de re-imaginação do papel dos negros na sociedade e rejeitar a imagem do negro submisso, desprovido de talento e fadado à invisibilidade em meio a um mundo branco. Bluesman é certamente um dos melhores álbuns brasileiros de 2018, pois abre novas portas criativas para o rap brasileiro e toca em assuntos urgentes em nosso país como o cuidado com a saúde mental e os efeitos do racismo em nosso cotidiano.

OUÇA:  “Kanye West Da Bahia”, “Me Desculpa Jay-Z” e “Girassóis De Van Gogh”


06 | BEACH HOUSE – 7

O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”


05 | DUDA BEAT – Sinto Muito

Eu fui muito relutante para começar a ouvir a Duda Beat de fato. Ouvi e re-ouvi o Sinto Muito algumas vezes antes de pensar no quão bonito e bem feito era o som da cantora de Recife. Isso tudo porque Duda aparece um pouco fora das caixinhas de gênero que tenho ouvido muito recentemente, mas Sinto Muito é extremamente arrebatador e apaixonante. Duda Beat consegue cativar em diversas frentes e de diversas maneiras, seja com o seu sotaque carregado mesmo na cantoria ou seja em sua melodia que casa perfeitamente com sua voz doce, Duda mostra um primeiro trabalho eficaz e certeiro. mostrando que está mais do que pronta para conquistar o Brasil e o mundo.

OUÇA: “Bédi Beat”, “Bixinho” e “Bolo De Rolo”


04 | CARNE DOCE – Tônus

Eu optei por aguardar ao escrever sobre o novo álbum de Carne Doce, Tônus, terceiro disco de estúdio da banda goiana. Composições menos políticas, vocais menos gritados, instrumental menos afobado. A primeira impressão, um estranhamento saudosista. Inclusive, quem vai aos shows da banda com frequência, já havia experimentado algumas das inéditas ao vivo, e o sentimento que pairava era de curiosidade sobre o que viria no novo trabalho. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Comida Amarga”, “Nova Nova” e “Golpista”


03 | ROBYN – Honey

O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”


02 | JANELLE MONÁE – Dirty Computer

Pirulitos, roupa de couro, homens, mulheres, vaginas, Tessa Thompson, trono. Insuficientes são as palavras capazes de descrever o álbum visual de Janelle Monáe, Dirty Computer (2018). No terceiro de sua carreira, Janelle faz um tributo à liberdade. Liberdade como mulher, negra e queer. Liberdade que exige luta, vulnerabilidade e esperança. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Django Jane”, “So Afraid” e “Pynk”


01 | KALI UCHIS – Isolation

(…) Isolation, apesar de ser o primeiro álbum de Kali Uchis, consolida a cantora entre os principais artistas em ascensão no cenário musical atual, pois conta com uma produção impecável e multifacetada, faixas com letras interessantes e muito bem escritas e participações de peso como Tyler, The Creator, Jorja Smith e Reykon. A primeira impressão que se tem de Isolation é que este é um álbum recheado de influências. Kali Uchis apresenta grande versatilidade ao navegar por um conjunto diversificado de estilos e influências espalhado pelas faixas. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Nuestro Planeta”, “After The Storm” e “Tyrant”

2018: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | PALE WAVES – My Mind Makes Noises

O hype mais certeiro de 2018, My Mind Makes Noises é um electropop divertidíssimo e muito bem construído. Do hit “Television Romance” à introspectiva “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”, o Pale Waves navega por caminhos já trilhados antes por bandas como Chvrches e The 1975, e não há nada de errado nisso. O que o quarteto pode faltar em termos de originalidade eles certamente compensam com a qualidade de suas produções. My Mind Makes Noises é em sua maioria leve e divertido, pra se ouvir no dia a dia enquanto passamos pelas tribulações cotidianas, sem grandes pretensões ou experimentações. Talvez seja exatamente isso que o tornou um disco tão memorável nesse ano que chega ao fim.

OUÇA:  “Television Romance”, “There’s A Honey” e “Drive”


09 | CHVRCHES – Love Is Dead

O terceiro disco do Chvrches nos mostra uma banda muito mais pop e acessível do que qualquer outra coisa que já lançaram antes. Os sintetizadores densos de The Bones Of What You Believe que haviam sido suspensos na maior parte de Every Open Eye fazem aqui seu moderado retorno, mas ainda assim o clima aqui (apesar de seu título) não é muito pesado. Love Is Dead marca a primeira vez na qual o grupo trabalhou com produtores externos, talvez por isso a grande mudança na vibe em relação aos outros dois discos. Isso, nesse caso, está longe de ser algo ruim. “My Enemy”, parceria que conta com vocais de ninguém menos do que Matt Berninger, é um show à parte. O Chvrches tem trilhado uma carreira consistente e interessante nesses anos desde que apareceu, e a coisa aqui não é diferente.

OUÇA: “Deliverance”, “My Enemy” e “Graves”


08 | HARU NEMURI – 春と修羅 「Haru To Shura」

Haru To Shura é um álbum difícil de ser classificado, estranho e extremamente interessante. A japonesa Haru Nemuri caminha livremente entre o dream pop, rap e o noise rock e desafia os gêneros o tempo todo. Lembra daquela coisa que foi o Art Angels da Grimes? Pense isso, mas cantado em japonês e com mais guitarras e é possível chegar perto do que é Haru To Shura. Trata-se do primeiro álbum da moça, seguindo o EP Atom Heart Mother do ano passado, e serve pra firmar Nemuri como um dos mais interessantes nomes da música atual. A moça, que também faz parte do maravilhoso lineup do Primavera Sound 2019, já lançou dois novos singles (“I Wanna” e “Kick In The World”) que mostram que ela não está parando por aqui. Certeza de que muita coisa boa ainda virá de Haru Nemuri, e espero que reconhecimento internacional também faça parte do pacote.

OUÇA: “Sekai Wo Torikae Shite Okure”, “Narashite”, “Underground” e “Yumi Wo Miyou”


07 | DREAM WIFE – Dream Wife

As moças do Dream Wife nos presentearam com um indie punk dosado com a quantidade perfeita de acessibilidade pop e nítidas influências de bandas como Savages, The Libertines, Be Your Own Pet e Bikini Kill. O resultado? Um dos melhores e mais competentes debuts de 2018. Divertidíssimo, cheio de riffs interessantes, letras feministas e universais, e uma urgência, um fogo que não aparece com frequência. O som apresentado por Dream Wife pode não ser nem um pouco original, no final das contas, mas isso não importa nem um pouco quando trata-se de um rock tão bem feito quanto o que elas fizeram. Afinal, a tríade guitarra-baixo-bateria e nada mais funciona desde os ’70 por um motivo. E continua funcionando hoje.

OUÇA: “Fire”, “Hey Heartbreaker”, “Kids” e “Act My Age”


06 | DEATH CAB FOR CUTIE – Thank You For Today

Thank You For Today acabou se revelando uma das maiores surpresas do ano. Mesmo Death Cab for Cutie sendo uma de minhas bandas preferidas há muitos anos, eu admito que seus últimos álbuns pecaram um pouco – desde o Narrow Stairs em 2008 eu não incluía um de seus discos em meu top 10 do ano. Mas Thank You For Today, seu nono álbum de estúdio, superou todas as expectativas. Seu som aqui está muito mais parecido com sua fase ‘anos 2000’ do que com seus últimos trabalhos, e é o seu primeiro desde que o guitarrista e produtor Chris Walla saiu da banda em 2014 (e mesmo assim produzir Kintsugi, lançado em 2015). Thank You For Today soa quase como um presente para os fãs de longa data da banda, um álbum que resgata aquele sentimento que fez você se apaixonar por indie rock em 2005.

OUÇA: “Summer Years”, “Gold Rush” e “Northern Lights”


05 | SCREAMING FEMALES – All At Once

O Sreaming Females, depois de 15 anos de carreira e chegando agora em seu sétimo álbum de estúdio, já se consolidou como uma daquelas bandas das quais você já sabe o que esperar. E All At Once segue exatamente nesse momento. A maior surpresa de  All At Once é a direção quase pop-punk que a banda decidiu tomar; mas, talvez, mais surpreendente ainda seja o fato de que isso não alterou em nada a sua identidade construída nos trabalhos anteriores. Uma das maiores novidades que o Screaming Females nos trouxe em seu novo disco de estúdio é, na verdade, a sua simplicidade;  a banda nos traz os mesmos elementos de punk e metal que sempre fizeram com perfeição, mas dessa vez os misturam com uma produção acessível e fazem de All At Once um dos melhores discos lançados esse ano.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “My Body” e “I’ll Make You Sorry”


04 | LUCY DACUS – Historian

Lucy Dacus, desde o seu debut No Burden, já estava se firmando como uma das maiores compositoras do so-called indie rock atual. A moça, que tem apenas 23 anos, já nos mostra uma maturidade e complexidade invejáveis em seu segundo disco, Historian. “Night Shift”, que abre o disco, já é sozinha uma aglutinação de todos os elogios feitos à moça durante esse ano de 2018 como um todo: uma música extremamente pessoal e que traz Lucy Dacus como uma das melhores e mais interessantes vozes do ano. A moça, além de seu segundo álbum de estúdio, também lançou nesse ano o mini-álbum/EP boygenius composto, gravado e cantado ao lado de Phoebe Bridgers e Julien Baker, que apenas ilustra e consolida Lucy como uma das melhores compositoras de sua geração.

OUÇA: “Night Shift”, “Yours & Mine”, “Addictions” e “Pillar Of Truth”


03 | MITSKI – Be The Cowboy

Be The Cowboy, quinto álbum da maravilhosa Mitski, tinha um trabalho bastante complicado: seguir a obra prima que foi Puberty 2 em 2016. E ela não apenas consegue entregar um disco tão bom quanto o anterior, como lança um dos melhores álbuns de 2018. Be The Cowboy aposta em uma produção diferente do que foi Puberty 2, evitando as guitarras distorcidas e nos trás algo mais limpo e polido, levemente mais eletrônico e tão emocional quanto. ‘I’m a geyser, feel it bubbling from below‘, Mitski canta em “Geyser”, música com a qual abre o álbum. E a partir daí, ela voa. Em Be The Cowboy, Mitski Miyawaki prova mais uma vez que é uma das melhores compositoras de sua geração. Be The Cowboy seguiu um álbum perfeito se igualando a ele e talvez até o superando.

OUÇA: “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser”, “Remember My Name”, “Pink In The Night” e “Why Didn’t You Stop Me?”


02 | SNAIL MAIL – Lush

Desde seu EP Habit em 2016 (e sua maravilhosa faixa “Thinning”), Lindsey Jordan e seu Snail Mail já estavam causando barulho na cena indie. Isso com, na época, apenas 16 anos. A moça, inclusive, foi descrita pela Pitchfork como ‘a adolescente mais inteligente do indie rock’ no ano passado. E agora, com Lush, seu primeiro álbum completo, ela ultrapassa todas e quaisquer expectativas. Com um som lindamente influenciado por nomes como Cat Power, Liz Phair, Pavement, Fiona Apple e Sonic Youth (como ela e a própria banda admitem), Lush traz uma Lindsey confiante e muito mais experiente do que aquela que lançou o ótimo Habit – e pouquíssimo tempo se passou. Com Lush, Lindsey rapidamente se coloca no mesmo patamar que nomes como Lucy Dacus e Julien Baker como uma das mais honestas e interessantes vozes do indie rock atual. Se em tão pouco tempo a moça já cresceu tanto e lançou um dos melhores discos do ano, tudo isso antes dos 20, sua carreira promete ser extraordinária. E eu pessoalmente fico no aguardo.

OUÇA: “Pristine”, “Let’s Find An Out”, “Heat Wave”, “Full Control” e “Speaking Terms”


01 | E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação

Desde 2012 com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! do Godspeed You! Black Emperor um álbum instrumental não acabava o ano no topo da minha lista de melhores, se me recordo bem. E agora, em 2018, isso acontece de novo com o primeiro álbum completo dos paulistanos E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Fundação. E não tinha como ser diferente. Fundação é um álbum que não aparece com frequência, é um álbum impecável, extremamente complexo e emocional que aglutina tudo o que a banda já havia apresentado antes em seus EPs e singles desde 2014. Fundação é um álbum que, como todo bom post-rock, dispensa palavras e apresentações. A banda já havia se provado como uma das melhores e mais intensas do gênero (não apenas pensando em nacionais, mas como um todo) e agora aqui veio a última gota que faltava para sua consolidação. Isso tudo sem falar em seus shows ao vivo… Sendo ou não fã de post-rock eu recomendo a todos assistirem ao E A Terra ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma catarse brutal como pouquíssimas outras experiências na vida.

OUÇA: “Karoshi”, “Daiane”, “Como Aquilo Que Não Se Repete”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Quando O Vento Cresce E Parece Que Chove Mais”

2018: Best Albums (Editor’s Choice – Henrique)

10 | LE CORPS MINCE DE FRANÇOISE – Sad Bangers

Apesar de nunca terem oficialmente parado de lançar coisas novas, a dupla da Finlândia não lança algo em duração completa desde 2011. São por volta de sete anos de diferença entre o primeiro álbum e esse segundo, mas a animação e a música boa continuam vivas aqui como eram lá – Love & Nature com sua icônica capa de ovo frito apareceu em minha lista de melhores do ano, inclusive. Sad Bangers não é exatamente algo que soe tão fresco e interessante quanto o Love & Nature, mas tem sintetizadores bem colocados com letras feministas, pessoais e muito necessárias para o momento em que vivemos, deixando o disco temporal e propício, mesmo que lançado no susto.

OUÇA: “Another Sucker”, “Thank God I Didn’t Get To Know You At All” e “Glitter”


09 | DUDA BEAT – Sinto Muito

Eu fui muito relutante para começar a ouvir a Duda Beat de fato. Ouvi e re-ouvi o Sinto Muito algumas vezes antes de pensar no quão bonito e bem feito era o som da cantora de Recife. Isso tudo porque Duda aparece um pouco fora das caixinhas de gênero que tenho ouvido muito recentemente, mas Sinto Muito é extremamente arrebatador e apaixonante. Duda Beat consegue cativar em diversas frentes e de diversas maneiras, seja com o seu sotaque carregado mesmo na cantoria ou seja em sua melodia que casa perfeitamente com sua voz doce, Duda mostra um primeiro trabalho eficaz e certeiro. mostrando que está mais do que pronta para conquistar o Brasil e o mundo.

OUÇA: “Bédi Beat”, “Bixinho” e “Bolo De Rolo”


08 | VANCE JOY – Nation Of Two

O Vance Joy tem tudo para ser ídolo de 8 em cada 10 garotinhas indies fofas. E isso não é ruim. Vance Joy faz parte de uma entoada de artistas que está usando o folk de maneira a se aproximar do pop. Nation Of Two chega para desprender o australiano do seu maior hit até agora – “Riptide”, do primeiro disco lá de 2014 – e traz uma nova coleção de hits bastante chicletes para você cantarolar junto. Nation Of Two tem melodias fortes e cativantes e, no fim das contas, é um álbum bastante gostoso de ouvir e nada muito além disso, nada muito genial, nada com letras inteligentes, apenas um álbum de folk que tem os elementos certos para fazer do disco algo concreto e interessante.

OUÇA: “Call If You Need Me”, “We’re Going Home”, “Saturday Sun” e “One Of These Days”


07 | CONFIDENCE MAN – Confident Music For Confident People

Eu adoro descobrir bandas do nada. Confidence Man é um exemplo disso. A banda é desconhecida do grande público, mas esse primeiro álbum é uma coletânea de pérolas da melhor estirpe. Primos longínquos do Cansei de Ser Sexy e do Natalie Portman’s Shaved Head, o Confidence Man faz música séria com cara de escrachada (ou seria o contrário?) e consegue cativar com batidas simples e letras toscas.

OUÇA: “Try Your Luck”, “Don’t You Know I’m In A Band” e “Boyfriend (Repeat)”


06 | CHVRCHES – Love Is Dead

Perdi um pouco a vontade de Chvrches depois de não ter apreciado tanto assim o segundo disco do trio, o Every Open Eye e cheguei a pensar que eles provavelmente não lançariam outra coisa tão boa ou melhor que o The Bones Of What You Believe. Ainda bem que eu estava enganado e o Chvrches entrega pra gente agora em 2018 o Love Is Dead, terceiro disco da carreira e com músicas que figuram, facilmente, entre as melhores do trio. Com uma entoada mais puxada para o pop e com uma presença de sintetizadores não tão marcantes, o Chvrches se apoia muito mais na voz de Lauren do que em todo o resto, criando um som bem distante do anterior e um pouco próximo do primeiro álbum.

OUÇA: “Graffiti”, “Get Out”, “Forever” e “Heaven/Hell”


05 | NATALIE PRASS – The Future And The Past

Foi quase que o homônimo disco de estreia da Natalie Prass apareceu na minha lista de melhores do ano lá em 2015. Com sua voz pitoresca no maior estilo musical da Disney, Natalie abandona um pouco essa persona fofinha e segue como um mulherão poderoso em The Future And The Past, revelando músicas que figuram, facilmente, nas melhores do ano. O que faltou para o primeiro disco aparecer numa lista de melhores do ano aparece de sobra aqui. Prass apara com folga e leveza as pontas soltas e faz um som com um ar menos etéreo e mais focado no indie pop cativante que ela chegou a fazer em músicas como “Bird Of Prey”, colocando a cantora num patamar próximo de contemporâneas como Courtney Barnett, Lianne La Havas e NAO.

OUÇA: “Oh My”, “Shourt Court Style”, “The Fire” e “Sisters”


04 | CAROLINE ROSE – LONER

LONER tem uma cara de primeiro disco, mas não é a primeira empreitada da interessante Caroline Rose. Depois de não ter muita atenção lançando álbuns que beiravam o country, a moça dos EUA decidiu inovar e repaginou sua carreira. LONER tem músicas escrachadas, no estilo historinha, rápidas e certeiras. É um com um humor ácido que Rose cativa uma certa audiência com seu disco, mas ainda não está fadada a ser descoberta pelo grande público, infelizmente. A pérola desse terceiro álbum da cantora parece inaugurar uma nova chance de uma carreira interessante e empolgante.

OUÇA: “More Of The Same”, “Jeannie Becomes A Mom” e “Soul No.5”


03 | GEORGE EZRA – Staying At Tamara’s

Depois de “Budapest” ficou díficil pensar que o George Ezra conseguiria se afastar de uma música tão popular. O resultado e a guinada para outra direção demoraram menos do que a gente esperava. Staying At Tamara’s é o segundo disco do jovem da Inglaterra e é muito mais bem preparado, certeiro e interessante do que o primeiro álbum que revelou o hit, mas ainda assim dentro do seu folk original. Há aqui algo muito mais sólido e bem feito do que o debut, que elevam a atmosfera do álbum em patamares que não pareciam ser conquistáveis por alguém da estirpe de Ezra. Com um disco desses, é fácil falar que agora o rapaz tem cadeira cativa no hall de grandes vozes da música britânica.

OUÇA: “Pretty Shining People”, “Get Away”, “Shotgun” e “Paradise”


02 | THE VACCINES – Combat Sports

Assim como o primeiro lugar, o Vaccines demorou para lançar algo tão interessante quanto o primeiro disco, mas dessa vez acertou a mão em cheio. De banda querida da NME em 2010 e 2011 a um desastre de 2012 em diante, a banda do Reino Unido acaba mostrando um som mais rápido e inteligente em seu quarto álbum, o digno Combat Sports de 2018. Justin e seus parceiros aparecem de cara mais limpa, renovados e com um hiato mais considerável entre discos – o último tinha sido em 2015 – o que deixa as coisas mais frescas e bacanas para a banda. Talvez o mundo não aprecie bandas nesse estilo tanto mais quanto apreciava lá em 2010, mas o Vaccines está voltando a fazer algo interessante e merece retomar sua coroa de volta de guitar band mais interessante da década.

OUÇA: “Put It On A T-Shirt”, “I Can’t Quit”, “Your Love Is My Favourite Band”, “Out On The Street” e “Take It Easy”


01 | MGMT – Little Dark Age

O MGMT demorou três álbuns para fazer outra coisa interessante. Demorou, demorou, mas fez com gosto. Little Dark Age não tem quase nenhum defeito e aponta o duo novamente para uma estrada cheia de oportunidades e de esperança. A banda voltou a figurar em espaços importantes em grandes festivais, fez uma turnê exaustiva ao redor do globo com as músicas novas, apareceu em programas de TV com uma roupagem mais interessante e cativou logo no primeiro single. Órfãos do Oracular Spectacular que esperavam algo tão bom quanto esse primeiro álbum podem ficar mais sossegados agora e torcer para que eles não percam a mão, novamente.

OUÇA: “Little Dark Age”, “When You Die” e “Me And Michael”

2018: Best Albums (Staff’s Choice)

10 | MGMT – Little Dark Age

Como eu gosto de um grande retorno! E não há outra maneira de descrever Little Dark Age, a não ser dizendo que é o merecido e aguardado grande retorno do MGMT. Depois do aclamado álbum de estreia em 2007, é inegável dizer que a discografia do MGMT foi ladeira a baixo. Apesar de alguns singles interessantes ao longo dos anos, vide “Your Life Is A Lie” e “Congratulations”, os discos soaram bastante irregulares e pareciam ter sido feitos propositalmente inacessíveis. Esse jogo começou a virar quando a banda liberou o primeiro single dessa nova safra, o homônimo “Little Dark Age”, revelando letra inspiradíssima e estrutura mais pop, no melhor e mais precioso sentido dessa palavra por vezes tão mal interpretada. Essas características se repetem em maior ou menor grau em todas as demais faixas do disco, com destaque para o segundo single “When You Die”, a pegajosa “Me And Michael” e a psicodélica “Hand It Over”. No entanto, apesar de bem mais acessível, ainda há uma estranheza cativante que misturada a refrãos grudentos faz de Little Dark Age o melhor disco do MGMT desde seu debut. Quem foi paciente e não se dispersou ao longo dos anos, foi recompensado com um álbum bastante inspirado e digno de figurar na nossa lista de melhores. MGMT, sejam bem-vindos de volta!

por Angelo Fadini

OUÇA: “Little Dark Age”, “When You Die”, “Me And Michael” e “Hand It Over”


09 | CARNE DOCE – Tônus

No cerrado, o Sol não dá trégua, o calor e o clima seco aumentam a temperatura de cidades como Goiânia, que apesar do sertanejo, é referencia como berço de vários grupos de indie nacional, como Boogarins, Black Drawing Chalks e Carne Doce. Tônus é o terceiro o disco do Carne Doce, uma ode ao corpo e ao prazer e, por que não, a todo esse calor. Salma Jô e sua voz, grave, muitas vezes calma, canta ao longo de longos riffs de guitarra e percussão, as suas letras mais íntimas, repletas de sensibilidade e amor. Se na faixa “Comida Amarga”, o envelhecimento é um empecilho, é em “Amor Distrai (Durin)” onde o sexo e o tesão ganham força em um lirismo sutil e livre de amarras, auge lírico do disco, onde todas as bads que permeiam faixas como “Ossos” e “Golpista” se perdem e dão ao eu lírico um momento de prazer. 2018 foi marcado por vários lançamentos nacionais de qualidade, e Tônus se destaca não só pelas suas letras e produção, mas também por fortalecer a carreira do Carne Doce, aumentando o seu reconhecimento para além das playlists mais moderninhas. O trabalho é lembrado também pela grande mídia e, ao contrário dos que dizem que o rock morreu, mostra que é possível se reinventar e enfrentar temas tão atuais e, ao mesmo tempo, íntimos de todos nós.

por Alexandre Leopoldino

OUÇA: “Tônus”


08 | SNAIL MAIL – Lush

2018 se despede, mas não antes de estabelecer as fundações para uma nova era no jeito como o rock é feito. A pesquisa de mercado produzida nos EUA e no Reino Unido pela gigante Fender em outubro deste ano mostra que metade dos aspirantes a guitarristas são mulheres; há também mais LGBTQs e negros interessados na compra e aprendizagem do instrumento. O estudo arrebata: quase metade desse público vê a guitarra como parte de sua identidade. E se essa ótima notícia não é o suficiente para convencer e propor uma visão otimista sobre o futuro desse gênero musical, talvez pela quietude das palavras, deixe que as primeiras melodias de Lush façam o trabalho. De “Pristine” à já clássica “Heat Wave” ao fechamento em “Anytime”, o debut de Lindsay Jordan (que assina seu projeto como Snail Mail), a jovem garota de 19 anos, é absolutamente irresistível. Com uma produção límpida, o disco desfila 38 minutos em alta performance, com destaques para o vocal agridoce, extremamente potente, e, claro, arranjos de guitarras magnéticos advindos da Fender carmesim da própria Lindsey. O colorido e pujante Lush, enfim, demonstra que o rock e a guitarra estão mais vivos do que nunca e (re)florescerão com novo frescor nas mãos de Lindsey Jordan e de outras jovens mulheres.

por Jorge Fofano Junior

OUÇA: “Heat Wave”, “Full Control” e “Stick”


07 | COURTNEY BARNETT – Tell Me How You Really Feel

Tem sido muito bom ser Courtney Barnett. Depois do bom disco de estréia Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit, de 2015, a guitarrista e vocalista australiana, que é um dos principais nomes do rock alternativo embarcou, no ano passado, num projeto conjunto com o também elogiado Kurt Ville e lançou Lotta Sea Lice, que combinava o talento de composição e o contraste vocal dos dois guitarristas com os temas bucólicos mais presentes na carreira de Ville. O sucesso da parceria deixava claro: Barnett não era um piano de uma nota só. Se é que restava dúvida após os dois discos, hoje em dia elas provavelmente foram implodidas com o excelente Tell Me How You Really Feel, segundo disco solo da guitarrista e uma franca evolução em relação ao seu primeiro trabalho autoral. Se Sometimes I Sit And Think… exibiu o talento da artista para a composição de riffs e melodias e apresentou performance vocal cínica que combinava bem com as letras auto-depreciativas e irônicas das suas músicas, Tell Me How You Really Feel evoluiu naquilo que foi uma das principais críticas ao debut: a unidimensionalidade. Como o nome já diz, o segundo disco de Courtney Barnett, enquanto mantém o tom irônico e as guitarras distorcidas com pitadas de garage rock do primeiro, se permite expor a própria vulnerabilidade e tocar em pontos bastante sensíveis e pessoais, como a dificuldade em lidar consigo mesmo, na faixa “Need A Little Time” (melhor do disco), ou a insegurança urbana a que a mulher está sujeita em “Nameless, Faceless”. Além disso, se esse disco apresenta uma maior profundidade emocional de Barnett, ele o faz sem perder o sarcasmo que era uma das maiores forças do disco de estreia. Três discos entre bons e excelentes em quatro anos é uma bela conquista. A vontade era elogiar o trabalho de Courtney, mas ela avisou que se a colocarmos num pedestal, ela vai decepcionar…

por Guilherme Vasconcellos

OUÇA: “Need A Little Time”, “Nameless, Faceless”, “Charity”, “Walkin’ On Eggshells” e “Sunday Roast”


06 | ROSALÍA – El Mal Querer

Diferentemente do seu primeiro álbum Los Ángeles (2017), em que a artista presta uma homenagem ao flamenco, em El Mal Querer ela buscou fazer algo diferente, mas sem abandonar suas raízes. Baseado em um manuscrito de autoria desconhecida do século 13, O Romance De Flamenca, seu último disco conta a história de uma mulher cujo amante está preso em uma torre. Quase como em uma inversão de papéis de Rapunzel, o romance satiriza os costumes e instituições da época. Narrativa também presente no álbum, que dividido em capítulos, narra os diferentes estágios de uma relação amorosa tóxica. Da provocativa imagem de capa, do fotógrafo e artista visual Flip Custic – o formato de uma vagina em meio a símbolos religiosos — ao refinamento melódico e lírico que se destaca em cada composição, El Mal Querer (2018, Sony Music) é um trabalho político cultural mais do que essencial em 2018. Em períodos de intolerância, xenofobia, homogeneização e extinção de patrimônios culturais, ROSALÍA resgata o flamenco, um dos principais símbolos da cultura espanhola, e lhe dá uma nova roupagem, usando-o para falar sobre algo estrutural, que, infelizmente, todas as mulheres enfrentam – o machismo.

por Giovanna Querido

OUÇA: “MALAMENTE (Cap.1: Augurio)”, “PIENSO EN TU MIRÁ (Cap.3: Celos)”, “BAGDAD (Cap.7: Liturgia)” e “DI MI NOMBRE (Cap.8: Éxtasis)”


05 | BACO EXU DO BLUES – Bluesman

Se em Esú (2017) Baco Exu do Blues transpôs a barreira entre deuses e homens e encurtou a distância entre os céus e a terra, em Bluesman o rapper baiano contempla sua própria fragilidade enquanto jovem negro vivendo em uma sociedade hostil aos corpos e mentes negras e reflete de forma honesta sobre sua saúde mental. Depressão e ansiedade estão no coração de Bluesman, mas Baco também fala sobre autoestima, sobretudo a autoestima do homem e da mulher negra, sobre estar vivo e prosperar em um mundo racista que não se conforma com o sucesso, a criatividade e beleza daqueles cuja humanidade era negada há pouco mais de 100 anos. Ser bluesman, afinal, é celebrar a arte negra que propõe um exercício de re-imaginação do papel dos negros na sociedade e rejeitar a imagem do negro submisso, desprovido de talento e fadado à invisibilidade em meio a um mundo branco. Bluesman é certamente um dos melhores álbuns brasileiros de 2018, pois abre novas portas criativas para o rap brasileiro e toca em assuntos urgentes em nosso país como o cuidado com a saúde mental e os efeitos do racismo em nosso cotidiano.

por Felipe Adão

OUÇA: “Kanye West Da Bahia”, “Me Desculpa Jay-Z” e “Girassóis De Van Gogh”


04 | KALI UCHIS – Isolation

O que se destaca em Isolation além da produção impecável e da naturalidade com que a jovem colombiana transita entre estilos musicais é a verdade que ela imprime em suas letras e performances vocais. Tudo ali vibra uma vulnerabilidade sincera de se colocar no mundo como é sem pedir desculpas e por isso se torna tão cativante. As participações de artistas já consagrados tanto na produção como nas performances aparecem de tal forma que fica claro toda a autoconsciência e controle que Kali Uchis tem sobre o seu trabalho pois todas elas servem apenas para reforçar o potencial que a suavidade e a cadência de sua voz podem trazer. Isolation merece ser visitado porque é um retrato claro do momento musical que vivemos com a diversidade de influências que agrega sem se prender a um estilo ou gênero específico e tão bem executado que com certeza será um referencial pra quem busca fazer música pop hoje em dia.

por Diego Bonadiman

OUÇA: “Just A Stranger”, “Tyrant”, “Nuestro Planeta” e “After The Storm”


03 | ELZA SOARES – Deus É Mulher

Não é à toa que o melhor álbum brasileiro de 2018 seja da Elza Soares. Diante da consagração política da imbecilidade, ignorância e preconceito, cabe a uma mulher negra de mais de 80 anos dar um grito que representa Marielle Franco, Môa do Katendê e tantas outras pessoas que fazem parte de minorias cada vez mais ameaçadas. Depois do aclamado A Mulher Do Fim Do Mundo (2015), Elza apostou em uma levada mais rock com Deus É Mulher, em que aborda racismo, intolerância religiosa, machismo e tantas outras complexidades da nossa sociedade, de um jeito cru e corajoso, sem nunca soar como lição de moral. Sua voz continua feroz, ecoando a resistência que o Brasil tanto precisa. Artistas que evitam se posicionar, seja em sua música ou em declarações, deveriam seguir o exemplo dessa deusa.

por Ronaldo Trancoso Junior

OUÇA: Todas. Aproveite para ouvir o álbum anterior. E tudo o que ela já fez antes.


02 | JANELLE MONÁE – Dirty Computer

Dirty Computer, terceiro álbum da americana Janelle Monáe, com sua capa repleta de referências imagéticas que vão desde representações arcaizantes de religiões africanas, passando pela iconografia religiosa russa, às máscaras de cavaleiros da Idade Média, e também à ciência e à tecnologia (a representação da auréola em uma corola repleta de erupções solares), é exatamente isto: um corpo estético atemporal se deslocando pelas camadas de sonoridades, que flertam com o R&B, o chill out, o funk, o hip-hop, o pop e a música de vanguarda. Janelle soube fusionar tais referências em um álbum coeso, feminino, mas feminino de uma maneira muito queer, andrógina, ambígua. A heterogeneidade das faixas, ainda que enfeixadas por uma abordagem sonora primariamente calcada na black music, opera na construção de pequenas fissuras por meio das quais se pode vislumbrar a seriedade, o comprometimento e a força política da alegria e do auto-respeito. Um álbum cuja tapeçaria discursiva em prol da mulher, dos negros e das ditas minorias sexuais estalam como tapas na alienação política da sociedade americana da era Trump. Ao lado de Broken Politics, da sueca Neneh Cherry, também negra e consciente de seu papel como mulher e artista, Dirty Computer se justifica como um dos álbuns mais interessantes desse terrível 2018.

por Claudimar da Silva

OUÇA: “Dirty Computer”, “Crazy, Classic, Life”, “Take A Byte”, “Django Jane” e “Americans”


01 | BEACH HOUSE – 7

Embora todos os discos anteriores do Beach House sejam marcados pela atmosfera de sonhos, 7 se diferencia pelo peso que essa construção toma: infinitamente mais planejado que os últimos, um dedicado a b-sides e Thank You Lucky Stars, significantemente mais fraco até do que o apanhado de sobrinhas, anuncia a chegada do duo de Baltimore a um novo patamar. As guitarras ficam mais pesadas, os vocais ficam mais claros e a construção de uma narrativa, tanto internamente nas letras e arranjos, quanto externamente na tentativa de traduzir essa atmosfera de nebulosidade para a promoção do álbum: a vocalista Victoria deu entrevistas enigmáticas nas quais ela discorria sobre as influências da Lua no disco, intensificando a relação da banda com a criação de uma ambientação enquanto elemento essencial da música deles. Depois de discos iniciais sólidos e um meio de carreira um pouco menos consistente, parece apontar para uma nova direção, como a vocalista mesma disse, não tão certa quanto o número 1, mas ainda assim, uma direção.

por Bárbara Blum

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”